Sunday, November 26, 2006

Ver para Crer



A INCREDULIDADE DE S.TOMÉ
(Mestre da Crucificação, Griggs, pintura sobre madeira, séc.XIV
Galeria da Academia, Florença)

"Diz Santo Isidoro: Tomé, discípulo de Cristo e semelhante ao Salvador, quando ouviu foi incrédulo, mas fiel quando viu".
Ver para crer é também, neste mês de Dezembro que se aproxima, a belíssima edição da LEGENDA ÁUREA, de Tiago de Voragine, com Introdução de Aníbal Pinto de Castro, grande historiador e erudito.
A edição é da responsabilidade da editora Civilização.
Com razão chama Pinto de Castro a esta Lenda Dourada "as Mil e Uma Noites da Cristandade".
Acrescento ainda, da Nota ao Leitor, a citação de Gervásio de Cantuária ( 1141 - 1210 ) :

" Com a Beleza resplandece a luz.
No céu, contemplaremos a Beleza face a face,
ali já não teremos necessidade da arte.
Na terra, não poderemos prescindir dela ".

Friday, November 24, 2006

Iberia



Homenagem aos Iberistas:
Hispania coroando a cabeça de uma Europa feliz e global, ao fim de muitos séculos...
(mapa do século XVI)

Wednesday, November 22, 2006

Os Medidores



Escola Flamenga, autor desconhecido, segunda metade do século XVI.
Este é um óleo datado do tempo em que o astrólogo e mago John Dee se deslocou a Lovaina. Mostra a preocupação com a medida, as medições, a matemática ou o número e a numeração em geral. Dee foi também um matemático de renome, embora em toda a sua vida e obra se possa distinguir acima de tudo a preocupação com a Ordem em sentido mais geral e abstracto, o Princípio que geria homens e astros e que só por conhecimento ou revelação iniciáticos se deixaria desvendar.
Os Medidores, título do quadro, são também os detentores de um tal conhecimento : medem o espaço, mas medem também o tempo e os tempos mais secretos do destino, da vida de cada um.
No canto esquerdo um mestre inicia um discípulo; nas suas costas está uma balança onde os homens pesam sacos que trazem às costas ( o próprio peso da vida); uma esfera no chão separa as figuras da esquerda do homem adulto e já debruçado sobre um painel onde parece ter desenhado com um compasso uma circumferencia;do lado direito uma mulher mede um rolo de tecido: mede a vida, como se fosse uma parca, tem a tesoura a seus pés ; ao fundo, desse mesmo lado direito, uma mulher e um homem ( o par alquímico) despejam os sacos ( que podem ser de trigo, podem ser de grão ) para uma vasilha, também ela redonda.
À esquerda a esfera do mundo e do estudo , à direita a vasilha do alimento humano e natural, o que dá de verdade a vida.
Ao fundo vemos ainda o vinho a ser tirado de tonéis para as garrafas .
Em resumo, os trabalhos e os dias e a sua medição como exemplo e resumo de todo o conhecimento.

Ao leitor curioso indico a obra de que retirei a gravura, recomendando o seu estudo caso se interessem pela vida e obra de John Dee:

BENJAMIN WOOLLEY, THE QUEEN'S CONJUROR, The Life and Magic of Dr. Dee, 2002

Monday, November 13, 2006

Aires Mateus - Uma Arquitectura para o Futuro



Começo pelo Livro dos irmãos Aires Mateus: um livro que não é um catálogo mas um objecto de arte em si mesmo, pelo especial cuidado com o formato, o papel, a fotografia, o design - enfim a concepção no seu todo - que fazem do livro um objecto de grande elegância e beleza,como convém à nossa ideia de Belo.
O Belo (sim, o arquétipo de Platão)não se impõe, EXPÕE-SE, como disse Paul Celan àcerca da poesia.
E continuo com o conceito de Arquitectura que no livro se adivinha e se declara. Uma arquitectura para o presente e para o futuro, na medida em que sabemos que o futuro já está contido no presente.
Na obra dos irmãos Mateus deparamos com um exercício de Imaginário livre, depurado, lírico e místico até na sua pureza de linhas e de côr, como convém a uma sensibilidade moderna e modernista ( talvez devesse dizer também post-moderna? só que em vários criadores post-modernos se oblitera a função do objecto e tal não acontece nos modernistas nem no caso dos Aires Mateus).
Encontro nas obras reproduzidas no Livro a função essencial da relação com a natureza e a vida. Não falo de utilitarismo simplista mas sim de respeito, um sentimento mais nobre. Quem habita a casa gosta de ser amado pela casa que habita, quem visita um espaço gosta de se sentir bem acolhido.
Assim, com elegância e nobreza se recriam espaço e tempo - as medidas do Ser.
Na paisagem rural a casa está envolvida pelo corpo da terra-mãe.
Na paisagem citadina brilha a luz que reflecte todos os cambiantes.
O prazer do espaço amplo nas zonas de convívio define uma ideia de generosa partilha de vida: uma vida que se deseja fraterna e aberta na sua circulação e na sua respiração.
A pureza das linhas traz à memória arquétipos como os das construções do antigo Egipto - uma civilização que harmonizava o Belo com a função exigida. Por alguma razão os grandes arquétipos foram e são o Belo, o Bom e o Verdadeiro. O verdadeiro é bom por natureza e por isso é igualmente belo.
A arquitectura do futuro é como esta uma arquitectura da verdade : estética e ética formam os seus pilares, sem que em nada se prejudique ou perca a liberdade da imaginação.

( ed. Almedina )

Sunday, October 29, 2006

AGIR, JE VIENS



De novo e sempre Michaux, o da voz inesgotável :
"Il faut d'abord que surgisse mon démon afin qu'apparaisse mon ange"

Agir, Je viens

Poussant la porte en toi, je suis entré
Agir, je viens
Je suis là
Je te soutiens
Tu n'es plus à l'abandon
Tu n'es plus en difficulté
Tes difficultés tombent comme des ficelles déliées
Le cauchemar d'òu tu revins hagarde n'est plus
Je t'épaule
Tu poses avec moi le pied sur le premier degré de l'escalier
sans fin qui te porte
et te monte
et te calme
Jusqu'aux confins de tes horizons
Jusqu'aux confins de ta mémoire obscure
Jusqu'au coeur de l'enfant de tes rêves
poussant des nappes d'aise
j'afflue.

....

J'ai lavé le visage de ton avenir.

Saturday, October 21, 2006

El Abencerraje de Toledo,1561



A edição crítica de Francisco Lopez Estrada, reeditada na década de oitenta, ainda hoje é uma leitura que não tem substituição.
A história do Abencerraje e da bela Jarifa está impressa num livro de data desconhecida, que surge encadernado juntamente com a DIANA, novela publicada em Cuenca em 1561 e constante da biblioteca dos Duques de Medinaceli.
Apesar de se encontrar junto da obra de Jorge de Montemayor os estudiosos não pensam que a lenda do Abencerraje seja da autoria do português.
A versão manuscrita da lenda está na Biblioteca Nacional de Madrid e não parece ser datada de outro século que não este XVI.
A ediçao de 1561, de Toledo, conta a história do mouro Abindarraez e da bela Xarifa, e do alcaide de Alora e Antequera, Rodrigo de Narvaez .
Estamos perante uma narrativa cavalheiresca, de amor e generosa nobreza de alma.
Eis como é descrito o mouro, de nobre e sedutora aparencia:
"...delante hasta poco vieron venir por el camino donde ellos ivan un gentil moro en un cavallo ruano; el moro era grande, y parecia bien a cavallo, y traía vestida una marlota de carmesí y un albornoz de damasco de la mesma color, todo bordado de hilo de oro y plata. En la cinta traía una hermosa cymitarra, y traía una adarga grande, y el braço derecho arremangado, y en la mano, una hermosa y larga lança de dos hierros, y en su cabeça, una rica toca tunesi, que dando muchas bueltas por ella le servía de hermosura y defensa a su persona, con muchos rapazejos de oro colgando y muchas perlas muy gruessas, de que muy ermoso se devisava.En este hábito venía el moro mostrando muy gentil continente, y cantava un cantar que conpuso en la dulce remembrança de sus amores, que dezia:

Nascido en Granada
de una linda mora
criado en Cártama
enamorado en Coín
frontero de Álora ."

A elegancia do jovem mouro torna-o naturalmente agradável aos olhos de quem o veja, e isso mesmo aconteceu com os cavaleiros que lhe saíram ao encalço. Apreciando o seu porte, e o seu canto enamorado, não lhe fizeram mal.
O interessante, para mim, quer o texto seja de autoria portuguesa quer não, é ver nele um respeito amistoso por um representante de uma outra cultura, ela mesma respeitada na sua natureza.
O amor apaga diferenças, mas mesmo na disputa guerreira houve, na descrição do texto, o apagamento completo de razões que não fossem do código cavalheiresco entre iguais.
Como seria interessante ver a Menina e Moça apaixonar-se por este Abindarraez...Mas ele já tem o coração preso pela bela Xarifa e é dos seus amores que esta lenda trata...

Monday, October 16, 2006

Princesa Shikishi


Aos leitores que como eu se deixam seduzir pela poesia japonesa ( Haiku, ou Tanka, ou Renga, conforme) recomendo a leitura da suave e melancólica princesa SHIKISHI ( c.1150-1201 ).
Há uma bela edição bilingue, preparada por Hiroaki Sato que traduziu os poemas para inglês.
Pouco se sabe da sua vida, que decorreu retirada do mundo, mas a sua poesia foi incluída em quinze das vinte e uma antologias imperiais, onde estão seleccionados 155 dos seus poemas.
Duas marcas distinguem a obra de Shikishi: a devoção religiosa ( foi durante dez anos sacerdotisa imperial ) e uma inultrapassável saudade, lembrando a da Menina e Moça, ou a das Cantigas de Amigo, de um amor longínquo e inacessível.
Mesmo através da versão inglesa podemos sentir o ritmo de uma comoção que se exprime por imagens suaves, mas não menos poderosas:

"Rosário de contas, se tendes de vos romper, rompei-vos;
se tendes de durar, a minha resistencia enfraquecerá."

" Vi apenas a sua sombra no Rio das Abluções,
mas ele não tem coração e eu sofro com a minha dor."

Ou leia-se ainda este, de inspiração budista:
" Quando olho à minha volta, no silencio que antecede a aurora,
a noite ainda é escura, perturbada por sonhos."

Concluindo, a sua obra é tida pelos críticos como a de uma autora que representa o ideal poético do seu tempo : uma voz que não se manifesta apenas nas palavras, um sentimento que não adquire forma, uma sensibilidade que oculta mais do que revela e por isso nos toca mais profundamente.

Outonais


( in memoriam Constança Capdeville )


1.
Névoa no cabeço do monte.
A folhagem de Outono cobre o chão.

2.
Chuva nas vidraças.
A maré sobe nas pedras do rio Tejo.

3.
Acabou o Verão.
Mudou o canto dos pássaros.

4.
Rupturas no Outono.
Lágrimas caindo com a chuva.

5.
Ao sol poente romãs abertas.
Cintilam as estrelas.

6.
Outono. A noite dissolvida na bruma.
A lua brilhando alto.

7.
Nuvens rosa no horizonte tranquilo.
Despertam as gaivotas.

8.
Pingos de chuva. Lágrimas no lago
dos peixes prateados.

9.
Caem no lago as folhas amarelas.
Foge um peixe assustado.

10.
Folhas orvalhadas aguardam em suspenso
auroras de Dezembro.

11.
Melancolia do mundo
sem princípio e sem fim.

12.
Nas ondas bravas do mar
morrem os brancos amores.

13.
Como dizer que a palavra tem peso
que a palavra tem luz
que a palavra tem dor.

Wednesday, October 04, 2006

Orfeu com a sua lira



Para os melómanos, de novo Gluck, com mais uma belíssima encenação de Robert Wilson.Para os leitores de poesia, os poemas de Orfeu tal como os encontramos nos mistérios da Grécia antiga :

Noite, é a ti que o meu canto celebra
Mãe dos deuses e dos homens.
A noite é a origem de todos os seres...

O hino à noite merece ser lido comparando depois com ele o célebre poema de Álvaro de Campos:

Vem, Noite, antiquíssima e idêntica,
Noite Rainha nascida destronada,
Noite igual por dentro ao silêncio.Noite
Com as estrelas lantejoulas rápidas
No teu vestido franjado de Infinito.

Vem, vagamente,
Vem, levemente,
Vem sozinha, solene, com as mãos caídas
Ao teu lado, vem
E traz os montes longínquos para o pé das árvores próximas,
Funde num campo teu todos os campos que vejo,
Faz da montanha um bloco só do teu corpo,
Apaga-lhe todas as diferenças que de longe vejo,
Todas as estradas que a sobem,
Todas as várias árvores que a fazem verde-escuro ao longe.
....

Alceste


A ópera de Gluck, encenada por Robert Wilson.

O amor sublime
essa pedra que rola
esse rosto embrulhado
num véu negro
de sombra.

Friday, September 29, 2006

Terceiro Acto

Sieglinda dará à luz Siegfried, por isso a Valquíria desejou salvá-la,mandando agora que conserve os bocados da espada quebrada.Virá a ter depois o seu papel.
Mas isso pouco importa a Wotan, abandonou a raça dos Waelsung e agora só quer castigar a afronta que a desobediencia lhe causou. As irmãs não conseguem protegê-la, Wotan irá expulsá-la para sempre do reino dos imortais, fazendo dela uma simples ( mas muito corajosa ) humana.
De certo modo Brunilda é uma variante, mais complexa, da FREIA do OURO DO RENO. Deusa da natureza, do verdejar da Primavera, figuração da Vida que Wotan já naquele prólogo estava tentado a desrespeitar, fosse qual fosse o custo. Guardou consigo o Anel, símbolo do Poder que desejava e tudo lhe permitiria, como se foi verificando.
A Valquíria é uma guerreira humanizada pela ligação à Terra, de quem nasce, e aos valores humanos que aprende a reconhecer sobrepondo-os a outros , neste caso a ambição de poder.Nascida de ERDA tem a sua substancia: forte, fiel, capaz de FAZER FRENTE ao ambicioso Wotan, seu pai.
No terceiro Acto contrapõe-se a Wotan como seu alter-ego desejável ( mas não exequível...)ao explicar que obedeceu às ordens que ele primeiro tinha dado, e provinham do coração e não de sentimentos menos nobres .
Aí, cumprindo o seu destino, fora filha obediente.
Vê-se em Brunilda a face obscura, dos afectos ignorados, recalcados, de um Wotan abismal e suicida. A sua Vontade de Poder, para além do Bem e do Mal ( ecos da leitura de Schopenhauer e de Nietzsche ) levarão ao Crepúsculo final : morrendo os valorosos heróis caem os deuses, como cairá o mundo, abrindo-se a uma cobardia sem nome, poucos anos depois.

Para a interpretação de Gwyneth Jones, na produção Boulez/Chéreau não tenho palavras que cheguem: terna, ingénua,quase infantil, nas primeiras cenas; e amadurecida pela compaixão, e decidida e grave na aceitação do castigo implorando que só
quem a mereça ultrapasse a barreira de fogo e a conquiste. Será Siegfried.

Tuesday, September 26, 2006

SIEGLINDE



Sieglinde é a Sedutora, como fora a bela Eva.
É ela que dá o primeiro beijo na face do desconhecido que vem cair exausto no chão da sua casa.
Olha-o, como dirá depois, reconhecendo-se nele ( a outra metade, do Andrógino de Platão).
Ajuda-o a desvendar a sua origem, que se verifica ser a origem de ambos.
DÁ-LHE O NOME ( fá-lo renascer como Siegmund ) e ao indicar-lhe a espada faz dele um cavaleiro e um homem. Será ele a dar o nome à espada: Nothung.
Temos nesta trama simbólica a recuperação do mito edénico e do mito platónico - ainda que venham a desfazer-se no fim.
Percorrendo um pouco mais do Libretto veremos como do frio Inverno da alma se passa à mais cálida e sensual Primavera do corpo.
Homem e Mulher, Mulher e Homem - ecos felizes do Papageno-Papagena de Mozart, o inesquecível .
Um excerto da Ária final do 1.Acto :

Sieglinde.

Bist du Siegmund,
den ich hier sehe-
Sieglinde bin ich,
die dich ersehnt:
die eig'ne Schwester
gewannst du eins mit dem Schwert!

Siegmund.

Braut und Schwester
bist du dem Bruder-
so bluehe denn Waelsungen- Blut !

És noiva e irmã
do teu irmão-
pois que floresça o sangue dos Waelsung !

Estão lançados os dados do destino, que acabará por ser trágico.
No 2.Acto, encontramos Wotan e Bruennhilde ( que se apronta a obedecer às ordens do pai, para que proteja os amantes) ; e logo de seguida a severa e ciumenta Fricka pedindo que sejam castigados.
Belíssimo, na cena que agora representa a morada dos deuses, a esfera pendular fazendo rodar o tempo e o destino que nele vai contido. Também pode ser lida, é óbvio, como a esfera terrestre que os deuses desejaram dominar.

M.C.Escher




Ainda não é o RING de Wagner, mas é o igualmente interessante RIND de Escher - qualquer das imagens apontando para o Anel, se fechado em círculo pressupondo a perfeição, Wagner, se aberto em fita que se enrola ou desenrola pressupondo que a perfeição é desejada mas não ainda encontrada,Escher.
A imagem que se esconde é num e noutro a do Andrógino platónico, que se tornará mais explícito na gravura de cima " Laço de União " que une os dois amantes.
E na Valquíria a história de um par (perfeito) de cuja união nascerá o novo herói trágico, Siegfried, o protegido de Bruennhilde, a Valquíria, que pelo seu amor trocará a imortalidade de que poderia gozar no castelo de Wotan.

Logo nas primeiras cenas dos dois primeiros actos toda a informação simbólica é transmitida por Wagner, à boa maneira das obras de iniciação. O par Sieglinde-Siegmund não é mais do que a figuração do andrógino primordial e o seu incesto é um incesto ritual, a marca de origem de todos os heróis míticos.
No amplo salão onde Siegmund se acolhe ergue-se a enorme raiz de um freixo, árvore da Vida de um paraíso terreal, que abrigará a descoberta e a paixão dos amantes.
Siegmund retira a espada que enterrada na árvore lhe fora destinada desde o princípio (uns ecos aqui da Távola Redonda e do Rei Artur ) . E assim como a sua irmã gémea lhe acode, no início, com uma taça (o cálice do Graal, em embrião) ele lhe acudirá a ela, amando-a, com a sua espada (a força ) recuperada. Não fazem falta grandes considerações freudianas que a direcção de Chéreau também teve o bom gosto de não sublinhar, deixando a nossa leitura em aberto.

Mas como dirá Fricka, a mulher de Wotan ( o deus "indecoroso" que teve este gémeos fora do matrimónio ),a traição matrimonial de Sieglinde, que foge do marido com o irmão, terá de ser castigada.
Algum eco do próprio remorso de Wagner, que "roubou" Cosima ao marido ? Pouco importa, o homem passa, o génio musical ficará para sempre, envolto nas brumas dos fantasmas heróicos que criou.

( a continuar )

Monday, September 25, 2006

Falando de Musica



Em momento importante de discussão do que deve ser o ensino, da literatura como da música, não fará mal ler ou reler este soneto de Florbela Espanca. Pela Tarde de Música, fala-se de amor.

TARDE DE MÚSICA

Só Schumann, meu amor! Serenidade...
Não assustes os sonhos...Ah, não varras
As quimeras...Amor, senão esbarras
Na minha vaga imaterialidade...

Lizt, agora, o brilhante; o piano arde...
Beijos alados...ecos de fanfarras...
Pétalas dos teus dedos feitos garras...
Como cai em pó de oiro o ar da tarde!
...
...

( in Florbela Espanca, SONETOS )

Ao contrário de Fernando Pessoa, que ouve ao longe a música de um piano, ouve o instrumento, não um compositor que de verdade o apaixone, Florbela, mais sensível e tão frágil que perde a sua vida de tão apaixonada que a viveu -ouve os compositores e com eles se vai identificando enquanto declara o seu amor. Primeiro suavemente e depois com uma violência arrebatada, própria das almas românticas do tempo.

Alberto Caeiro, XI

Aquela Senhora tem um piano
Que é agradável mas não é o correr dos rios
Nem o murmúrio que as árvores fazem...

Para que é preciso ter um piano?
O melhor é ter ouvidos
E amar a Natureza.

Saturday, September 23, 2006

SHOSTAKOVICH


Também em Portugal começou a Saison.
Nos clássicos da EMI podemos encontrar , nos great recordings of the century, a gravação da única ópera que o compositor escreveu, humilhado como foi pela imprensa stalinista do seu tempo que no Pravda lhe deu a ler, em 1936, a seguinte apreciação: " é lama, não é música ". O Ditador não tinha gostado de tanto grito, menos ainda do naturalismo agressivo, cortante, mais expressionista que qualquer expressionista.
Mas o maior incómodo vinha do facto de no "estrangeiro" a ópera ter conhecido tanto sucesso como na Rússia desde 1934, data da produção, a 1936.
Memórias do passado...lição para os artistas, então como hoje.Foi preciso morrer o ditador para o génio da obra voltar a ser reconhecido e apreciado. Na gravação, que ouço enquanto escrevo, a direcção é de Rostropovitch, que foi amigo íntimo do compositor.
O libretto é escrito a partir da novela de Nikolai Leskov (1831-1895) LADY MACBETH DO DISTRITO DE MZENSK, publicada em 1865. O autor traça um quadro impiedoso e brutal da classe média do seu país, na repressão do povo e dos pobres. A heroína trágica será a vingadora, pela sua mão serão castigados os caricaturais representantes da opressão.
Leskov acentua na sua heroína a violência necessária.
Mas Shostakovich trata Katarina como vítima da podridão de uma sociedade que precisava de ser salva de si mesma. Faz da sua heroína uma verdeira figura trágica, que terá seus pecados, mas não resultantes de malformaçao moral e sim da imoralidade do meio que a rodeava.
O compositor descrevia a sua ópera como sátira trágica. Sendo tragédia a vida e morte da Catarina; recordo Wozzeck (de Buechner-Berg) aqui a tragédia reside também na vida e morte de um soldado demasiado ingénuo (puro) para poder viver numa sociedade sem escrúpulos.

Encontro no final de ambas as óperas um momento especialmente intenso, em que o escuro das águas de um lago figura a escuridão da alma possuída de uma violencia que será sem retorno, pois se vira contra si própria. Catarina matará uma última vez, empurrando a companheira de prisão que a traíra com o seu amante (entretanto marido) para o lago escuro onde de seguida se matará também.
Deixo uma versão da ária,feita a partir da tradução. Lamento não saber russo, todo o ritmo do canto se prende com o ritmo belíssimo desta língua que tal como a alemã exige vozes especiais.

cena 27

Há um lago perdido no bosque
quase redondo e de águas profundas,
de água negra
como a minha consciência,negra.
Quando o vento sopra no bosque
erguem-se ondas no lago,
gigantescas de temer.
No Outono há sempre ondas no lago.
Água negra, ondas gigantes.
Negras ondas gigantescas.

Thursday, September 21, 2006

Carlos Ferreiro


Desenho de Carlos Ferreiro, 1989.
Expôs em Portugal na década de 70, com forte marca onírica, surrealista, na sua obra.
Os desenhos revelam uma invulgar capacidade de exorcizar demónios da alma, aproximando-o do mundo "negro" dos expressionistas. A citar alguém escolheria Kubin.
Roscas, parafusos, maquinaria vária enquadram os rostos e os esgares que nos surgem da sombra.
A modernidade de Carlos Ferreiro integra os sustos da alma, não deixando que se esbatam nas luzes da aparência.
A sua obra FAZ PENSAR.

Ed. ERATA, de Leipzig


Saiu nas Edições ERATA a tradução alemã de OS PASSOS EM VOLTA de Herberto Helder.
Consultem a página, vale a pena ver o que os outros fazem pela nossa literatura, neste caso Markus Sahr, o tradutor. Mais obras se seguirão em breve: Jorge de Sena, Manuel Alegre, Helder Macedo, outros.

Thursday, September 14, 2006

TAO TE CHING



n.40

Returning is the motion of the Tao.
Yielding is the way of the Tao.
The ten thousand things are born of being.
Being is born of not being.

Regressar é o movimento do Tao.
Ceder é o caminho do Tao.
As dez mil coisas nasceram do ser.
O ser nasceu do não ser.

O movimento do TAO ( CAMINHO ) é como o da maré que flui e reflui.
As dez mil coisas representam a totalidade do universo criado.
Quanto ao não ser, origem do ser, para além dos textos sagrados, dos filósofos e dos poetas que têm elaborado essa questão, talvez só os astrofísicos nos possam agora ajudar .
Enquanto a nossa vida flui e reflui também ela, contemplemos apenas, pastoreando a alma, como faria o nosso Alberto Caeiro :
" Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
....
Pensar incomoda como andar à chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.

Não tenho ambições nem desejos.
Ser poeta não é uma ambição minha
É a minha maneira de estar sozinho."

( O GUARDADOR DE REBANHOS )

Wednesday, September 13, 2006

Setembro



1.

Chuvadas de Setembro:
Um arrepio
pelas costas do tempo.



Ao acabar de escrever o poema fui buscar à estante uma das minhas leituras preferidas, que acrescento como sugestão de leitura para tardes tranquilas: TAO TE CHING, de Lao tsu
( trad.de Gia -Fu Feng e Jane English,1976 )
Esta imagem é do n.8:

The highest good is like water
( o bem supremo é como a água )
....

2.

Chuvadas de Setembro:
Cresce o ribeiro
nas pedras da nascente.

Tuesday, September 12, 2006

Melancolia




A MELANCOLIA I de Duerer, de 1514, para além das influencias que são apontadas ao artista - Marsilio Ficino, entre outros- representa um dos tipos de melancolia definidos por Cornelius Agrippa von Nettersheim no seu tratado DE OCCULTA PHILOSOPHIA, que foi divulgado como manuscrito a partir de 1510. Neste tratado descreve-se a "melancolia imaginativa" como própria dos artistas, arquitectos e artesãos; a" melancolia racional " como característica de médicos, cientistas e políticos; e a "melancolia mental" como própria dos estudiosos de teologia e dos segredos divinos. PANOFSKY sublinha a melancolia imaginativa como faceta principal desta gravura: o que permite lê-la como produto, também ela, do imaginário alquímico de que temos vindo a ocupar-nos.
Este Anjo sentado, de cara aborrecida,contrariada, pegando com displicência numa ponta do compasso que tem na mão e com o qual poderia "redesenhar" o espaço que o rodeia, é a imagem mesma da NIGREDO, a confusão de alma que é preciso sublimar, encontrando um caminho. A desarrumação dos objectos à volta de um Anjo que mais poderia ser uma dona de casa incapaz de pôr ordem nas suas coisas é outro dos sinais que o artista nos dá: a confusão do exterior reflexo da íntima confusão, enquanto se aguarda algum sinal, ou que alguma coisa de repente mude, ainda que por acaso, mais do que por intervenção própria.
A esfera pequena,no canto inferior da gravura, à esquerda, será marca de perfeição, tal como o possível arco-íris em que a palavra melancolia se inscreve também pode augurar uma transformação positiva, luminosa.
Quase tão destacado quanto o Anjo, está, sempre do lado esquerdo, um poliedro encostado a uma escada que tem por trás um anjo mais pequeno, um "putto", semi-adormecido. A nigredo é uma fase da alma em dormencia, e o mesmo sinal é dado pela cão enrolado e dormindo aos pés do Anjo. O cão, fiel companheiro do adepto em muitas das gravuras de alquimia conhecidas, e no caso de Cornelius Agrippa fazendo parte da lenda da sua vida de alquimista e nigromante.
O Anjo tem à cintura uma chave , e é Duerer quem, nos desenhos preparatórios da gravura, escreve que as chaves significam PODER.
Para Erwin Panofsky o poliedro será um cubo, desenhado de modo peculiar para que não se tenha desde logo a noção do equilíbrio das faces.O que tem todo o sentido: os alquimistas falam da pedra cúbica, e da pedra polida, quando desejam referir-se à perfeição que é necessário atingir. E para tal a CHAVE é indispensável, pois todo o proceso é cifrado, é secreto, não é dado a qualquer um.
( E.Panofsky, Saturn and Melancholy, 1964 )

Passemos agora ao maior monumento literário que, na nossa cultura, dá testemunho da melancolia dita imaginativa, própria de artistas, neste caso Bernardim Ribeiro com a sua MENINA E MOÇA.
Pela mão do Professor José V. de Pina Martins foi publicado na Fundação Gulbenkian o fac-simile da edição de Ferrara de 1554 ( Lisboa, 2002 ). Um precioso estudo antecede o fac simile fornecendo aos investigadores, ou simples leitores, toda a informação e todo o historial relativo a esta obra- prima das nossas letras, que ainda não "transitou" para o mundo, como devia, por nunca se ter feito uma tradução inglesa. O momento há-de chegar, como chegou para outros, ainda que com séculos de atraso. Um amigo da blogosfera já colocou no éter a sua tentativa, pedindo sugestões a quem o possa ajudar com boas sugestões. Aqui fica o seu blog : IDIOCENTRISM.

A primeira nota, de grande interesse, é que nesta edição a menina diz " menina e moça me levaram de casa de minha mãe" e não de "casa de meu pai" como sempre nos habituaram na escola, devido a outras leituras de outras edições.Faz muita diferença, do ponto de vista psicológico e simbólico, dizer uma coisa ou outra.
Bernardim, seguindo a tradição da lírica de Amigo, falando pela boca de uma jovem que foi separada de sua mãe; projectando-se num universo todo feminino, com seu ambiente e sua psicologia muito próprios; somando a isso a expressão de uma saudade infinita e sem cura. Um lamento pungente.
Não vou transcrever aqui a novela, o que pretendo é deixar uma sugestão de leitura, chamando a atenção para o NEGRO DE ALMA de que ela dá testemunho.
Nos primeiros capítulos descreve-se a partida, sem razão que se conheça, criando um ambiente de mistério .
Depois a paisagem, de montes e vales, os precipícios da imaginação.
Surge o rouxinol, cujo canto melodioso cedo se apagará, também ele.
E logo de seguida aparece também, sem que se saiba ao certo de onde nem porquê, a dama vestida de negro. Toda esta imprecisão adensa a atmosfera de sonho que caracteriza a novela. A dama surge como que de dentro da água que a Menina estava a contemplar :
" E, estando assim olhando para onde corria a água, ouvi bulir o arvoredo.Cuidando que fosse outra cousa, tomou-me medo. Mas olhando para ali vi que vinha uma mulher e, pondo nela bem os olhos, vi que era de de corpo alto, disposição boa, e o rosto de dona, senhora do tempo antigo; vestida toda de preto, no seu manso andar e meneios seguros do corpo e do rosto e do olhar parecia de acatamento.Vinha só(...) E entre uns vagarosos passos que ela dava, de quando em quando colhia um cansado fôlego, como que lhe queria falecer a alma".

Duas figurações da Anima, a juvenil, da Menina, e a melancólica adulta , a Dona que desliza mais como a Sombra que é do que como a mulher que devia ser. Bernardim exprime em ambas, logo nestes primeiros capítulos, a desordem da alma e o desespero de que se sente possuído.

Saturday, September 02, 2006

Paul Celan


SCHIBBOLETH

Junto com as minhas pedras,
que foram crescendo com lágrimas
por trás das grades,

fui arrastado
para o meio da praça,
para ali
onde a bandeira se desfralda, à qual
não prestei juramento nenhum.

Flauta,
dupla flauta da noite:
pensa na escura
vermelhidão gémea
em Viena e Madrid.

Põe a tua bandeira a meia-haste,
recordação.
A meia-haste
para hoje e sempre.

Coração:
dá-te também aqui a conhecer,
aqui, no meio da praça.
Chama-o, ao Schibboleth, grita-o
para o longe da pátria:
Fevereiro. No pasarán.

Unicórnio:
tu sabes das pedras,
tu sabes das águas,
vem,
eu levo-te até
às vozes
da Estremadura.


Um leitor da blogoesfera escrevia-me, há pouco tempo, a propósito de Celan:" não se estará a exagerar o seu judaísmo ao comentar os seus poemas ? "
É claro que não se pode esquecer a sua origem, mas não é a sua origem e sim o sofrimento que ela lhe causou que marca a sua memória e a sua poética de dôr e divisão face a um mundo ( e a um Deus ) que permitiu o horror dos campos de concentração, onde Celan viu morrer quem lhe era querido e quem lhe seria estranho, se não tivesse morrido ali também naquelas circunstancias. Celan escapa, mas não esquece e há imagens que o acompanharão "hoje e sempre".
Tais imagens, e muitos dos apelos e das invocações que faz, dirigem-se a um Olhar Ausente, um olhar cego, que negra nuvem toldou durante demasiado tempo.
Será preciso falar, será preciso DIZER o que muitos tinham decidido que seria indizível, e é o esforço do dizer que estrutura a poética de Celan e não o seu judaísmo.Mas o seu judaísmo, como o comunismo dos espanhóis que foram abatidos na guerra de 1936 é a causa próxima do sofrimento e da perseguição que fazem parte de uma História vivida e não pode nem deve ser apagada.
Jean Bollack, um dos maiores intérpretes da obra de Celan aborda precisamente a questão da escrita e do apagamento contra o qual é necessário lutar. Apagamento do autor, enquanto judeu e não só: voz incómoda, voz que dá testemunho, que tem o direito de julgar porque foi injustamente julgada. " O tempo esconde, mas a escrita não é levada como o resto".
L'ÉCRIT , une poétique dans l'oeuvre de Celan, par JEAN BOLLACK ( P.U.F., Paris, 2003 )

A propósito de Schibboleth, escreve Bollack ( citando Celan : " nunca escrevi uma linha que não estivesse ligada à minha existência; sou realista à minha maneira " ) que a imagem do Uncórnio apela à unidade, à coerencia que no mundo ( e em muitos dos seus amigos) se perdia. E neste caso, muito concreto, é ainda um apelo ao amigo Erich Einhorn (unicórnio em alemão) a quem escreve para lhe lembrar uma causa comum, a da liberdade (ainda que utópica, como se verá na posterior evolução da causa russa).Este é um poema que deve ser lido a par de outro," in memoriam Paul Éluard " , também ele comunista e cujo canto à liberdade é um dos textos mais comoventes e empolgantes que se podem ler.
Assim se estrutura uma poética da verdade e do dizer a verdade, na sua circunstancia.

Mas para lá de tudo isto fica o poema, e a sua lingua própria, falando com os outros poemas, estabelecendo uma continuidade que obriga a que se leia um e outro, todos em face uns dos outros, completando imagens e sentidos numa cadeia única de percepçaõ.
Citando Bollack " Os poemas absorvem outros poemas, os de Celan e os de outros poetas.Têm uma necessidade de continuação e ao mesmo tempo usam os elementos mais contingentes, mais casuais, tornados significantes no sistema de referencias estabelecido...O encontro mais fortuito é o mais forte...A rede semântica afirma-se ao constituir-se...A obra poética é fabricada com a língua da própria obra" ( p.210 ).
Os poemas são um diálogo contínuo com a poesia " com o seu poder ilimitado de exploração, e as suas limitações; encontram-se neles todas as posições intermédias, entre o proibido e a reflexão mais corajosa e dura, entre a evasão e o bloqueamento, entre o sucesso inesperado e a constatação lúcida da impotência" 
( p. 211 ).

Digo só, para terminar, que esta poética da fractura e continuidade da consciência, que funda o Modernismo, é uma das causas do deleite de ler e reler Rilke, ou Celan ou Pessoa, ao qual se poderiam aplicar algumas das reflexões de Jean Bollack no tocante à poesia que se constitui no diálogo dos poemas uns com os outros, dos heterónimos uns com os outros.
Sempre defendi que para entender Pessoa é preciso lê-lo todo, e em permanente confronto com as suas múltiplas vozes.

On Writing

Pessoa/ Bernardo Soares, THE BOOK OF DISQUIET
( Translated by Richard Zenith )

116

" To write is to forget. Literature is the most agreeable way of ignoring life. Music soothes, the visual arts exhilarate, and the performing arts ( such as acting and dance ) entertain. Literature, however, retreats from life by turning it into a slumber. The other arts make no such retreat - some because they use visible and hence vital formulas, others because they live from human life itself.
This isn't the case with literature. Literature simulates life. A novel is a story of what never was, and a play is a novel without narration. A poem is the expression of ideas or feelings in a language no one uses, because no one talks in verse."

If you enjoyed this fragment, go on reading, quite soon you will find that Pessoa, under his many voices, dreams or disguises if you want, will say this and its contrary, for he enjoys the contradiction out of which he built his entire (literary) life. At a point he will disclose his secret way not to forget, but to remember :

443

" I don't write in Portuguese. I write my own self."

Thursday, August 31, 2006

Lied ( a montanha e o vale )

Desceu
da montanha
ao vale.

Chegado a casa
bebeu um copo
do vinho
que lá ficara
guardado.

Foi ao poço
buscar água:
lavou as mãos
e a cara
lavou os pés
cansados
do caminhar.

Subia a lua
no céu
quando se foi
deitar.

Alentejo

Fim de Agosto:
na planície dourada
o vôo do milhafre

Tuesday, August 22, 2006

As Nornas

(ouvindo Wagner)

Cantam as tecedeiras
enquanto tecem os fios:
uma dá, a outra puxa,
a última esconde o desenho
e com tesoura de prata
corta o fio do destino

Sunday, August 20, 2006

The Book of Disquiet


For my English readers, the magnificent translation by Richard Zenith of Fernando Pessoa'sThe Book of Disquiet.
Considered by critics a unique masterpiece :
" Portugal's greatest modern poet...deals with the only important question in the world, not less important because it is unanswerable: What am I ?". Anthony Burgess ( Observer )

" ...A haunting mosaic of dreams, autobiographical vignettes, shards of literary theory...Wherever you deep, there are 'rich hours' and teasing depths " . George Steiner ( Observer )


" One of the defining texts of the modern world ". Nicholas Lezard ( Guardian )

Let me add Pessoa has been the most influential author read in Portugal, co-founder of the Modernist movement,mainly through the poetry of his heteronym Álvaro de Campos, writing at the same time the poetry of Alberto Caeiro, the heteronymic "Master" of the others, such as Ricardo Reis orAntónio Mora or even Pessoa himself.While intending to build a neo-pagan system, as he called it, he studied and meditated upon hermetical, messianic matters, the "fashion" of those times. He read, translated and met the Magus Crowley in Lisbon and was very much interested in his Golden Dawn doctrines.But at a certain time he put an end to their correspondance, as if he were aware of the danger related to (black) magic.
Most astonishing, when it was discovered and published, was THE BOOK OF DISQUIET ( LIVRO DO DESASSOSSEGO ) as a sort of diary of another heteronym, Bernardo Soares : reflecting on the daily routines of the poet and his passionate but not always easy surrender to a literary , philosophical, quite lonely destiny. He died 1935,at the age of 43. How much could he have written had he lived longer is a futile question. He wrote all the time, he wrote about everything he wanted to, he left almost everything unpublished. As he told in a letter to a friend, he would like to center once more in himself as Fernando Pessoa all the poetry ascribed to the heteronyms and then publish a book that would be read as a whole.That never happened.
So here we are reading the heteronyms as if each one was a different person, a different friend to whom we can resort to, according to our mood, our need for more substantial literature and thought.

THE BOOK OF DISQUIET (transl. RICHARD ZENITH)

169

Whatever we pursue, we pursue for the sake of ambition, but either we never realize that ambition, and we are poor, or we think we've realized it, and we are rich fools.
What grieves me is that my best is no good, and that another whom I dream of, if he existed, would have done it better. Everything we do, in art or in life,is the imperfect copy of what we thought of doing.
...We're hollow on the inside as well as on the outside, pariahs in our expectations and in our realizations.

Fernando Pessoa, Caeiro, The Book of Disquiet

"There is ample metaphysics in not thinking at all.

What do I think about the world?
How should I know what I think about the world?
If I were illI would think about it.

What idea I have about things?
What opinion do I have on causes and effects?
What meditations have I had upon God and the soul
And upon the creation of the World?
I don't know. For me, to think about that is to shut my eyes
And not think. It is to draw the curtains
Of my window (but it has no curtains)."
( F.Pessoa/Alberto Caeiro , transl. Jonathan Griffin )

Compare now, before I go on with the Book of Disquiet, the assumed 'simplicity' of the voice of Caeiro (very sophisticated in fact,not at all simple, he is here responding to another heteronym of his youth, Alexander Search - the name pointing already to the metaphysical questioning of man and the mistery of the universe ) - compare it to the writer in the BOOK:

136

" The burden of feeling! The burden of having to feel ! "

All the way long we will see Pessoa divided between feeling and thinking, wanting to feel his thoughts and to think his feelings, or both at the same time, in an unbearable consciousness of being conscious of both.

335

'To feel is a pain in the neck'. This offhand remark, spoken by a stranger I met in a restaurant, has been glowing ever since on the floor of my memory.The very earthiness of the language gives the sentence spice."

459

"I'd like to be in the country to be able to like being in the city.I like being in the city in any case, but I'd like it twice over if I were in the country."

460

...Who among us, looking back down the path of no return, can say he followed it in the right way ?

375

"Life is the hesitation between an exclamation and a question.Doubt is resolved by a period."

(translations by Richard Zenith )

And guess whose is this one?


Also belonging to Dr. Rau's collection.
Some hints: oil painting , The Tower of Maghera ( no google allowed ! ) 1735-1742.

The Rau collection ( Dr.Rau called it his "petit Louvre" ) will be shown in Lisbon until the end of September.
It includes 95 works , from Fra Angelico to Bonnard, in a variety of schools and artists that can be seen as a summary of western painting and its masters.

Still for Gawain



Still from the RAU collection.
What is it with Canaletto that we are immediatly attracted to his paintings?

Cranach the Elder for Gawain's eyes



From the RAU COLLECTION, now in Lisbon, this Judith (1525).
Cranach being a friend of Luther, recently at odds with the Pope and the Church (1517 ) this picture acquires an extra symbolic sense : the sword of virtue slaining the head of all evils.

Thursday, August 17, 2006

Mais Hildegarda



LXVII
Antífona

Deus fez saber,desde a primeira mulher,
que da custódia do homem a mulher se nutriria.

LXXIII
Transborda Caridade
Antífona

Em tudo transborda a caridade:
notável desde os abismos aos céus mais altos,
mais amável dos bens,
o Rei supremo
ela beijou.


(trad.J.F.de Carvalho e J.T.de Mendonça)

Hildegarda von Bingen


Uma das primeiras obras de Hildegarda, ORDO VIRTUTUM, escrita antes de 1151, apresenta-nos a imagem da cidade celeste, Jerusalém. Neste drama lírico o simbolismo da cidade liga-se ao do jardim florido, como que sugerindo a recuperação de um estado natural perfeito, edénico, como nos tempos que antecederam a Queda.
A cidade está protegida por muralhas, em cujas pedras se encontram encastoadas jóias, "gemas". Como salienta Peter Dronke a palavra latina gemma tanto pode significar jóia como rebento - desenhando-se deste modo a imagem floral, e de renascimento do jardim edénico.
As pedras são ainda para Hildegarda "pedras humanas", vivas, e o alicerce da cidade é o lapis vivus, o filho de Deus, Cristo.
No centro da cidade cresce a árvore cósmica. As raizes são os profetas, as virtudes são os ramos e os frutos, o todo sendo ao mesmo tempo humano e divino.
O que neste drama é apontado será desenvolvido com mais pormenor em duas das suas obras em prosa: o SCIVIAS (conhece as vias ) e o LIBER DIVINORUM OPERUM, cosmologia completada em 1173," coroando o trabalho de toda a sua vida", nas palavras de Dronke.
As obras acima citadas são visões que Hildegarda afirma lhe terem sido transmitidas por uma voz ou luz celeste.Em ambas surge no fim a cidade celeste, a Jerusalém divina.
As leituras que na opinião de Peter Dronke mais terão influenciado a monja são a CIDADE DE DEUS de Sto.Agostinho, o APOCALIPSE de S.João e o PASTOR DE HERMAS, uma alegoria cristã do século II da nossa era.
De Hildegarda traduziram Joaquim Félix de Carvalho e José Tolentino de Mendonça um conjunto de poemas, FLOR BRILHANTE em ed. bilingue da Assírio e Alvim (2004) de que deixo apenas um bonito exemplo:

LXIII

Para o Evangelho
Antífona

Ó púrpura de sangue,
fluíste de excelsa altura
tocada por Deus
tu és a flor
que o sopro da serpente
jamais lesou.


Bibliografia:
Peter Dronke, in A SIMBÓLICA DO ESPAÇO, ed.Estampa, 1991
Aos melómanos curiosos, a edição em CD da American Opera Projects :ORDO VIRTUTUM, adapted from the work of Hildegard von Bingen by Lisa Bielama, Kitty Brazelton, Ebe Beglarian, Elaine Kaplinsky. Com o título de HILDEGARLS.
1.Prologue
2. Act I
3. Act II
4. Act III
5. Act IV
6.Processional.

A não perder.

Monday, August 14, 2006

Tavira III

BALADA DE TAVIRA

De Tavira cantarei
o rio com suas margens
suas mouras encantadas
aguardando um novo amigo

De Tavira cantarei
Mesquitas Mosteiros Igrejas
ruínas da sua história

O choro do Abencerragem
frente ao poço da memória.

Tavira II

Tavira, nas ruínas:

As ruínas são de um pátio
com uma fonte no meio.
Junto à fonte
um mouro chora o seu reino.

Tavira I, na margem do rio

Tavira I, na margem do rio Gilão:

Na margem do rio
aguardando o amigo

Na margem do rio
penteando o cabelo

Na margem do rio
o amigo tardando

O amigo não veio


(Para a Mariana)

Tuesday, August 08, 2006

Octavio Paz

Entre Irse y Quedarse

"Entre irse y quedarse duda el día,
enamorado de su transparencia.

La tarde circular es ya bahía:
en su quieto vaivén se mece el mundo.

Todo es visible y todo es elusivo,
todo está cerca y todo es intocable.

....

La luz hace del muro indiferente
un espectral teatro de reflejos.

En el centro de un ojo me descubro;
no me mira, me miro en su mirada.

Se disipa el instante. Sin moverme,
yo me quedo y me voy: soy una pausa."


Apenas outro comentário: do jogo dos opostos nasce um centro de claridade, um olho que a Paul Celan assustaria de tão indiferente na sua transparencia, mas que a Octavio Paz ilumina, não tanto como pausa,como ele diz, mas antes como instante supremo de alguma fusão mística. Nesse instante se anulam o espaço e o tempo.

Monday, August 07, 2006

Intervalos:Fernando Pessoa e Octavio Paz

FernandoPessoa

Entre a árvore e o vê-la
Onde está o sonho?
Que arco da ponte mais vela
Deus ?...E eu fico tristonho
Por não saber se a curva da ponte
É a curva do horizonte...

Entre o que vive e a vida
Pra que lado corre o rio ?
Árvore de folhas vestida -
Entre isso e Árvore há fio ?
Pombas voando - o pombal
Está-lhes sempre à direita, ou é real ?

Deus é um grande intervalo,
Mas entre quê e quê ?...
Entre o que digo e o que calo
Existo ? Quem é que me vê ?
Erro-me...E o pombal elevado
Está em torno da pomba, ou de lado ?

(Além-Deus, V/ Braço Sem Corpo Brandindo Um Gládio)


Octavio Paz

Entre lo que veo y digo,
entre lo que digo y callo,
entre lo que callo y sueño,
entre lo que sueño y olvido,
la poesia.
Se desliza
entre el sí y el no:
dice lo que callo,
calla
lo que digo,
sueña
lo que olvido.
No es un decir:
es un hacer.
Es un hacer
que es un decir.
La poesia se dice y se oye:
es real.
Y apenas digo
ES REAL,
se disipa.
Así es más real ?

Idea palpable,
palabra
impalpable:
la poesia
va y viene
entre lo que es
y lo que no es.
Teje reflexos
Y los desteje.
La poesia
siembra ojos en la página,
siembra palabras en los ojos.
Los ojos hablan,
las palabras miran,
las miradas piensan.
Oír
los pensamientos,
ver
lo que decimos,
tocar el cuerpo de la idea.
Los ojos
se cierran,
las palabras se abren.

(DECIR:HACER, a Roman Jacobson)

Um único comentário: da metafísica à poesia, do pensar ao dizer, um intervalo.

Saturday, July 29, 2006

Homenagem a Magritte



Alice

É do lado de cá do espelho
que corremos perigo.
Do lado de lá
tudo tem solução:
Alice espera por nós,
Alice dá-nos a mão.

Thursday, July 27, 2006

Mr. Pessoa

ON FIRST LOOKING into Honig's Pessoa

This man was three or five or many poets,
All with their own names, all with their own lives,
Writing in Portuguese and broken English sonnets,
A pagan, a parnassian....
....
And that which poetry is all about,
The metaphysician sick of metaphysics,
SOLEMN INVESTIGATOR OF USELESS THINGS.
Fernando Pessoa, as you saluted Whitman
With one hand tied behind you back.
I salute you, Honig and Octavio Paz.
(KARL SHAPIRO)

Poema escrito por Karl Shapiro na contracapa da tradução de O Guardador de Rebanhos de Alberto Caeiro, por Edwin Honig e Susan Brown , New York 1971, 1985,1986.
Destaco este livro por ter sido pioneiro no esforço de dar a conhecer a obra de Fernando Pessoa pela voz de Alberto Caeiro, sempre surpreendente (e não teria que ser assim ?) quando o relemos.
Eis o célebre n.9. Sou um guardador de rebanhos:

IX. I'M A KEEPER OF SHEEP

I'm a keeper of sheep.
The sheep are my thoughts
And my thoughts are all sensations.
I think with my hands and feet
And with my nose and mouth.

To think a flower is to see it and smell it
And to eat a fruit is to taste its meaning.

That's why on a hot day
When I ache from enjoying it so much,
And stretch out on the grass,
Closing my warm eyes,
I feel my whole body lying full length in reality,
I know the truth and I'm happy.


Conhecendo a totalidade da obra de Pessoa sabemos como é mentiroso este último verso: nunca o poeta se sentiu dono da verdade e ainda menos desse impossível e indefinível sentimento de ser feliz. Só não mente quando escreve o célebre poema do Fingidor.
Pessoa desdobra-se para se apagar? Para que, no excesso, se possa finalmente reduzir a um único centro, o da sua consciência ?

Continuo com a tradução de Honig, para que os meus leitores de língua inglesa se deliciem. Dos meus comentários eles não precisarão.

XXX. IF THEY WANT ME TO BE A MYSTIC, FINE.I'M A MYSTIC

If they want me to be a mystic, fine, I'm a mystic.
I'm a mystic, but only of the body.
My soul is simple and doesn't think.

My mysticism is not wanting to know.
It's living without thinking about it.

I don't know what nature is: I sing it.
I live on a hilltop
In a solitary whitewashed cabin.
And that's my definition.


This translation was awarded the prize of THE POETRY SOCIETY OF AMERICA

Ramos Rosa,Homenagem a Paul Celan

O António Ramos Rosa sabia como gosto da poesia de Paul Celan.
À sua boa amizade devo este poema que me mandou, de homenagem a Celan, envolvendo a importancia de dizer, e de dizer o Nome. Por ser belíssimo o transcrevo:

HOMENAGEM A PAUL CELAN

"Forma-irmã, coroa vazia
sobre a água, lâmpada e amêndoa,
talvez alma solar,
mas também polvo da sombra
com os nomes queimados.
Onde te escondes? Esperas talvez
uma palavra ou uma carícia nua,
um sopro...Se a torrente branca
do vazio
se ouvir
talvez tu estales
com um só olho de sombra
em que dormem as duas mãos da alba.
Com um latido de urgência
mas sem fatal avidez
reúno as iniciais vazias do teu nome
para te abraçar
antes que tenhas um sentido
antes que te evapores".

António escrevia "em diálogo": a sua poesia adquiria também, deste modo, uma amplidão maior, indiscutível.
Aqui fica a minha homenagem sentida.

Tuesday, July 25, 2006

Sir Gawain and the Green Knight



" These translations by Marie Borroff not only are one of the great achievements of the translator's craft but are works of art in their own right" Lee Patterson,YALE UNIVERSITY.

Encontramos neste romance de cavalaria, para além da sua alta qualidade literária, o que faz dele um clássico de seu pleno direito, como observa M.Borroff na introdução, a marca da tradição cavalheiresca medieval:serviço leal ao rei, serviço cortês à dama, bravura destemida ao defrontar os cavaleiros adversários.
Neste romance, como nos outros conhecidos, de que Parzival foi o mais celebrizado pelas versões que teve e pelo tratamento que Wagner lhe veio a dar, haverá TENTAÇÃO, QUEDA, REDENÇÃO - momentos que na aventura da vida do herói contribuem para uma exemplar modificação do seu carácter, tornado assim mais nobre e mais humilde, por mais nobre.
Sir Gawain é chamado a defrontar o CAVALEIRO VERDE, que o recebe no seu sumptuoso castelo, lhe oferece magníficas caçadas e usará também a sua própria mulher como isco para o fazer cair nas armadilhas do desejo.
Não vou contar o enredo todo.Mas chamo ainda a atenção para um pormenor muito importante, que é o desvendar do nome: só quando o cavaleiro verde diz a Gawain o seu nome verdadeiro, descrevendo a sua linhagem, podem ambos selar uma amizade feita de perdão e entendimento.

How runs your right name? - and let the rest go.
That shall I give you gladly, said the Green Knight then;
Bertilak de Hautdesert, this barony I hold.
Through the might of Morgan le Fay, that lodges at my house,
By subtleties of science and sorcerer's arts,
The mistress of Merlin, she has caught many a man,
For sweet love in secret she shared sometime
With that wizard, that knows well each one of your knights
and you.
Morgan the Goddess, she,
So styled by title true;
None holds so high degree
That her arts cannot subdue.

Em resumo, foi a fada Morgana que levou o Cavaleiro Verde a desafiar um dos da Távola Redonda, por se ter sabido que era grande (desproporcionado) o orgulho desses cavaleiros. Entra aqui um novo conceito , o de "degree", medida, ordem, de acordo com o que deve ser a harmonia natural do ser humano, sabendo cada um o lugar que lhe compete e o comportamento que dele se espera, em cada situação. Este conceito de degree será muito glosado nas peças de Shakespeare: onde a ordem se quebra ou se altera indevidamente logo a tragédia, ou pelo menos uma grande confusão, se instala.
Mais haveria a dizer sobre o papel de Morgana, apelidade de Deusa, neste texto.
Habitando (sem que se saiba porquê) o castelo do Cavaleiro Verde dá a indicação de ser um alter-ego da sua própria mulher, a tentadora que entra no quarto de Gawain depois de cada uma das caçadas, em que visivelmente o grande prazer é físico e em que cada um dos animais pode representar a força do instinto.
Morgana deusa da vegetação, o verde do cavaleiro sua marca distinta, a aventura toda a aprendizagem da "retenue" do desejo, o amor contido do trovador face à dama a quem não pode entregar senão as suas canções.
O que não significa, como é óbvio, que não se quebrasse, muitas e muitas vezes (todas ?) uma tal obrigação.

Tuesday, July 11, 2006

O Nome

Diz.

Diz o nome.

Escolhe
as sílabas.

Indica
as letras
com a tua marca
de fogo.

As cinzas
em breve apagarão
essa rara
existência.

Friday, June 30, 2006

Para a Paula Oliveira compor


É uma cantiga de Amigo de João Zorro, trovador do tempo de D.Dinis :

En Lixboa, sobre lo mar,
Barcas novas mandei lavrar.
Ai mia senhor velida !

En Lixboa, sobre lo ler,
Barcas novas mandei fazer.
Ai mia senhor velida !

Barcas novas mandei lavrar,
E no mar as mandei deitar,
Ai mia senhor velida !

Barcas novas mandei fazer,
E no mar as mandei meter.
Ai mia senhor velida !


Bibliografia para a lírica de amigo e de amor em: Asensio, Luciana Stegagno Picchio, em Stephen Reckert e Helder Macedo.
Como diz uma pessoa amiga "corre um google ! ".
Por este e outros poemas podemos ver como o nosso fado, lisboeta e marítimo, tem uma raiz antiga, genuína e belíssima.
Podíamos fazer uma selecção temática, em torno do mar, em torno da cidade, ou dos rios e das fontes do campo, ou ainda uma selecção que fosse um "bestiário", à moda medieval, com os principais participantes da lírica de amigo e de amor :

Decid amigo sois flor
u obra morisca de esparto
o lavanco o ruiseñor
gayo o martin pescador
o mariposa o lagarto ?
O menestril o faraute
o tamborino o trompete
o tañedor de burlete
o cantador de cosaute ?

can mayor


Celebram os companheiros de CAN MAYOR dez anos de actividade da oficina de Tradução Literária. Felicito-os pela dedicação, e pelo bom gosto das escolhas feitas ao longo destes muitos anos.
Neste número podemos ler poesia de Keats, Browning, Laforgue, Claudel, W.Stevens, Apollinaire, C.Aiken, C.Riba, Éluard, B.Brecht, H.Crane, Seferis, E. Jabès, M.Luzi, Bigongiari, e Sophia de Mello Breyner. Desta o belo e actual poema do soldado morto. Rimbaud, Pessoa, Sophia, e a imagem recorrente do jovem "que foi julgado e perdido" como hoje continuam a ser.
Escolho deste belo conjunto a tradução de Bertolt Brecht, autor que li, que traduzi, podendo apreciar o mérito de Robayna e José Juan Batista neste caso:

A la muerte voluntaria de Walter Benjamin

Oí decir que levantaste la mano contra ti mismo
Anticipando al matarife.
Ocho anõs desterrado, mirando la ascensión del enemigo.
Empujado al final a una frontera intraspasable,
Pasaste, dicen, otra traspasable.

Los imperios se hunden. Delincuentes
Caminan al compás de hombres de estado. Los pueblos
Ya no se ven, cubiertos por las armas.

Negro, el futuro. Frágiles
Los poderes del bien. Veías todo eso
Al destruir tu carne atormentada.

( Bertolt Brecht )

Comovente, premonitório de outras mortes, como a de Paul Celan, outro nome grande da literatura do século XX que foi tempo de trevas para tantos e tantos criadores.

Sunday, June 25, 2006

Li Tai-bo


Der Ostberge Gedenkend I

So lang bin ich im Ostberg nicht gewesen.
Da bluehn die Rosen- zum wievielten Mal ?
Die weissen Wolken sind dahingeschwunden.
Auf wessen Haus faellt nun des Mondes Strahl ?

Sem comentários, para a melancolia de algum fim de tarde.

Saturday, June 24, 2006

O Estilo


A propósito de Estilo, OS PASSOS EM VOLTA, de 1964.
Sairá no Outono uma edição alemã, em tradução de Markus Sahr, que se tornou grande amigo de Portugal e dos seus autores.A casa editora é a ERATA, que hoje em dia se transformou também em galeria e livraria, tendo começado como pequena editora. Cresceu, e a literatura e a arte estão a crescer com ela.Este é um estilo bem alemão: bilden, construir, em vez de destruir.

Mas eu ia falar do Herberto Helder.
O primeiro dos passos em volta é o do ESTILO, a abrir o livro:
" Há, felizmente, o estilo.Não calcula o que seja? Vejamos: o estilo é aquela maneira subtil de transferir a confusão e violência da vida para o plano mental de uma unidade de significação.Faço-me entender ? Não ? Bem, não aguentamos esta desordem estuporada da vida. Então, pegamos nela, reduzimo-la a dois ou três tópicos que se equacionam. Depois, por meio de uma operação intelectual, dizemos que esses tópicos se encontram no tópico comum, suponhamos, do Amor ou da Morte...Percebe? De uma dessas abstracções tremendas que servem muito bem para tudo.
...
O mundo é assim, que quer? É necessário encontrar um estilo. Imprescindível."...

Até à pergunta, também ela fundamental e colocada com o mesmo humor subtil:
" Gosta de poesia? Sabe o que é poesia? Tem medo da poesia? Tem a terrível alegria da poesia? Pois veja. É também um estilo. O poeta não morre da morte da poesia. É o estilo.
...
Sabe ao menos do que lhe estive a falar? Da vida? Da maneira de se desembaraçar dela ?
...
Mas, escute cá, a loucura, a maravilhosa e tenebrosa loucura...Enfim, não seria isso um pouco mais nobre, digamos mais conforme com o grande segredo da nossa humanidade?
Talvez o senhor seja mais inteligente do que eu."

E quanto ao estilo de cada um, estamos conversados: os dispersos, os intensos, os espertos porque "cultos" ao modo mais adequado, e os eternos cavaleiros da palavra perdida, cujo estilo é feito da interrogação e nunca do sucesso do que é dado em vida.

Aprofundar ou Acumular

Alguns autores, como Julián Rios ou Valère Novarina, no desenvolvimento da minúcia, do detalhe, não aprofundam, acumulam expandindo, como se fosse essa a única intenção, as descrições que fazem.
Outros, como Lautréamont, para citar um clássico, Michaux ou Herberto Helder, contemporâneos, aprofundam o sentido do texto a cada palavra que lhe acrescentam.
Na prosa podíamos citar V.Woolf : o seu discurso é o da intensificação, ainda que pelo detalhe, tal como os poetas que referi acima. Continuando na literatura feminina não se pode esquecer o percurso pioneiro de uma Clarisse Lispector, que li ainda muito jovem, como li Agustina Bessa Luís, durante as "sestas" a que o calor de Tavira nos obrigava.Não havia o furor do bronzeado da praia, e assim se adquiria o hábito da leitura tranquila até se poder sair de novo, mais à noite.No caso de Portugal, já com vozes de contemporânea inovação, impõe-se falar de Maria Velho da Costa, e da obra-prima que CASAS PARDAS continuam a ser.
Os autores que acumulam, sendo a sua prosa ou poesia feita de substância elaborada, podem tornar-se mais cansativos pelo esforço que exigem de recordar por onde começaram.
Os que aprofundam despem-se de tudo o que não serve o impulso primeiro, a energia que os lançou no abismo do discurso.
É certo que com Wittgenstein aprendemos que só se deve falar do que se conhece bem, variante do propósito cartesiano que Boileau resumiu dizendo "ce que l'on conçoit bien s'ennonce clairement" (Arte Poética).
Já agora um pouco de Wittgenstein:
"Wovon man nicht sprechen kann darueber muss mann schweigen"(Tractatus...).
Ao que Novarina, desafiador ilustre respondeu, com toda a sua obra: "ce dont on ne peut parler c'est cela qu'il faut dire".
Pois bem, sempre houve e haverá muitas maneiras de dizer, o que se pode e o que não se pode, por qualquer razão extrínseca ou intrínsica ao criador.

E chegamos à questão do estilo, ineludível.Por mim fico com Herberto Helder, na APRESENTAÇÃO DO ROSTO:
...
Uma noite começo a escrever.
Tenho uma memória: nada foi esquecido.
Vem adequado agora a um vivo sentido de expressão.
...
As pessoas perdem o nome,os acontecimentos libertam-se do seu movimento centrífugo: fica um núcleo cerrado de significações.
..Depois: um ritmo, uma libertação.
Há dentro da gaveta uma rima de folhas escritas de ambos os lados.
Escrevi-as para os sombrios tempos do esgotamento.
Eu sou- e ali está a minha prova.
(1968 )

Quem não entende a força oculta deste movimento, desta energia cuja substância é a própria alma, a própria carne do poeta, não entenderá nunca o sofrimento e a alegria,que pode ser desbragada, da escrita.

HERBERTO HELDER, FLASH



FLASH, de 1980, foi dedicado ao pintor Cruzeiro Seixas.

Também aqui leremos como se escreve a carne da palavra, como a sua energia animal e mental vai transformando, num relâmpago mágico, aquele que ousa sonhá-las, desejá-las, desenhá-las.
Comparado, se houvesse comparação, a Julián Rios, Herberto Helder poderia ser descrito como poeta CENTRADO, e Julián como excêntrico, centrífugo, em expansão, como o universo, ao passo que Herberto implode com a própria criação que nele se origina.
Assim, ler Herberto obriga a um esforço mais atento, mais dirigido, não permite distracção, absorve por completo o seu leitor, que só pensa mesmo em deixar-se encantar no seu incantamento.
Viktor Kalinke disse, num seu recente ensaio de história das religiões, que nós somos a carne de Deus: GOTTES FLEISCH.
Assim é o poema de Herberto, carne de Deus, carne do Sopro que foi o do Verbo primordial.
" Que tenha Deus um sonho em carne viva.
Uma noite que trema pelo poder astronómico.
Mas que me poupe assim concêntrico
ao campo, e divagante, a curva
tensa:
o arco, o braço.
E as cispas súbitas, frechas
tão ferozmente pela carne dentro até ao escuro
do próprio astro, deixando um orifício
fulgurante:
um tubo de som,
sopro de ponta a ponta
- aquela baixa música mortal.Vêm os animais, alvorecendo, os cornos a rasgarem a cabeça:
outra espécie de luxo,
de melancolia.
E o corpo é uma harpa de repente.

Animal de Deus, eu.

Uma ferida."

JULIAN RIOS


Já citei a sua obra-prima, LARVA, um romance que é um perpetuum, a prosa espanhola mais perturbadora deste século, na referencia da ENCICLOPEDIA BRITÂNICA.
A esse primeiro, compacto, volume, seguiram-se outros, como POUNDEMONIUM, Homenagem a Ezra Pound,o mal amado, e
AMORES QUE ATAN, a narrativa de uma sucessão de casos que importam mais pelo permanente delírio verbal em que nos envolvem do que propriamente pelos factos em si que são contados. Tudo é pretexto para uma fusão-devoração entre as palavras e seus jogos ambíguos de grande intesidade também sexual, mais do que sensual.
Expõe-se, como diria Celan, não se impõe, uma prosa que nunca deixa, pelo ritmo alucinante, de ser ao mesmo tempo poesia. A prosa posta a nú, como se fosse um corpo: babélico o ambiente descrito, desconstruído a seu modo, voraz, algo brutal.
O livro é apresentado, na contracapa, como um conjunto de cenários londrinos, cidade onde Julián viveu e a que regressa, quando escreve, espaço mítico da sua educação sentimental feita através de vários encontros com várias mulheres de outras cidades e culturas.
Para além das relações amorosas que se tecem, o que se tece e entretece é de facto o jogo da linguagem, na fuga permanente que uma das mulheres A FUGITIVA, muito bem simboliza.
É patente a marca de Proust, no cinzelar cuidado das situações, mas é mais forte a marca de Joyce, ele próprio um grande devorador-desconstrutor de palavras. A grande heroína do livro é a linguagem, todo o processo é estético e para o fruir deveremos despir-nos de outras categorias definidoras do romance como género.
Uma última referencia: IMPRESIONES DE KITAJ o LA VIDA SEXUAL DE LAS PALABRAS .
Boa leitura !

Sunday, June 18, 2006

Now Elephants...



17th. century vase, for pharmaceutical use.
But you can put anything inside...

Vase Balustre



Portuguese fayence, 17th. century, Museu Nacional de Arte Antiga.
This kind of exotic birds were very well known to the portuguese, due to the frequent voyages to the tropical regions, since the Discoveries in the XVI.century.

Polymnie



Panel of AZULEJOS, 17th. century.
Lisbon, National Museum do Azulejo.
A very unique form of art where the subtle changes of blue color intensify a certain melancholy atmosphere.
Bibliography:
FIGURES ET PERSONNAGES, une Histoire en Céramique.L'Azulejo au Portugal du XVIe. au XXe. siècle.Catalogue, Museu Nacional do Azulejo.

Silver Plate, 17th.century

Some More, by Josefa de Obidos



Born in Sevilla ( 1630 ), Josefa was a nun in Portugal, where she delighted the portuguese aristocracy with her beautiful realistic paintings.
The baroque portuguese art was very refined, above all in ceramics, inspiration and technique imported from the ancient orient culture; and the same can be said of silver and gold "orfèvrerie", in the reign of King John the V, with silver and gold actually pouring from Brasil.

Fruit and Vegetables for Gawain


Fruit and Vegetables for Gawain, the brave champion of art and beauty in the world. I think he does not eat properly, although I would not advise him to eat as the Portuguese did in the 17th. century.
This is a Nature Morte aux paniers de fruits et de légumes, by Baltazar Gomes Figueira ( Óbidos, 1604-1674 ).
The interesting thing about it is the combination of colours, and the symbolic meaning intended, a mystical and moral one, according to the" Treatise on the meaning of Plants, Flowers and Fruit " by Frei Isidoro Barreira, published in Lisbon,1622.Such figuration of the flora was above all meant " to gratify the Christian Religion ": melon signifying taste and sweetness, apple the discord, grapes the joy of communion, orange the beauty etc.
It may be true, but I also believe the monks would also eat with their eyes when fasting according to conventual rule, and that is certainly one of the reasons for the numerous natures mortes in this century, after the Counter-Reformation.

Saturday, June 17, 2006

Mais O'Neill

O'Neill, O TEMPO DUM CORISCO

Dos turcos desce a palavra
e aqui entreluz, naufraga.

A palavra a ninguém salva.

Melhor metê-la, sem esperança,
sem recado, na garrafa.

Sempre é da minha lavra.

Friday, June 16, 2006

O'Neill a Manuel Bandeira

ALÔ VÔVÔ
A Manuel Bandeira nos seus 80 anos

Esperei vê-lo por aqui um dia, seu dentuças,
travar-lhe do braço e contar-lhe como o Maximiliano do México
foi parar ao Rossio
(toda a gente julga que é Pedro IV o pedestalizado),
apontar-lhe o frustrâneo cotovelo lusitano
no mármore dos cafés,
comer com Você joaquinzinhos inteirinhos e duma só vez,
fazer boca ou boqueirão com o vinho ( que era ) de tostão,
mostrar-lhe como eu e o Cinatti caprichamos nas saladas
(aqui não põem coentro na salada, calcule Você ! )
saladas de alface, agrião,
coentro,
rabanete, tomate,
mais coentro,
mas "cebola, não! "...
Ch'bola, non !

...que não sai nem com o desodorizante que chamam de halazon.

Um pulo à casa onde nasceu Pessoa, sim ?
(Nós não somos pessoas assim à toa, não ! )

E em minha casa, à Rua da Saudade, a cavaleiro do rio,
Você podia fumar escondido dos adultos
como na outra Saudade do seu Recife de menino.
Depois : broto ou brisa
com Anarina, mas sem Adalgisa...

Atenção, Poeta: re-cepção !

Iríamos deixá-lo à porta da recepção,
da sessão de autógrafos,
de antropófagos,
às mãos dos vestibulantes tão (p)restantes.

À saída lá estaríamos pra levá-lo ao hotel
e, esquecida a poesia, a literatura,
num repente de ternura pegar-lhe na mão:

-Sua benção, Võvô Manuel !

REMESSA

Drinka, trinca
comnosco, Manuel,
sem autógrafo nem cóquetel,
que nós não podemos ter os teus oitenta,
nem com uísque, nem com água de Juventa,
Manuel !

Alexandre O'Neill



AUTO-RETRATO

O'Neill( Alexandre ), moreno português,
cabelo asa de corvo; da angústia da cara,
nariguete que sobrepuja de través
a ferida desdenhosa e não cicatrizada.
Se a visagem de tal sujeito é o que vês
( omita-se o olho triste e a testa iluminada )
o retrato moral também tem os seus quês
( aqui uma pequena frase censurada...).
No amor? No amor crê ( ou não fosse ele O'Neill )
e tem a veleidade de o saber fazer
(pois amor não há feito ) das maneiras mil
que são a semovente estátua do prazer.
Mas sofre de ternura, bebe demais e ri-se
do que neste soneto sobre si mesmo disse...
( 1962 )


Outra editora de referencia, a Guimarães, onde era alegria e privilégio poder ser editado.
Alexandre O'Neill, com esta obra, oferece à leitura os seus amigos, muitos, de Breton a Michaux, Éluard, João Cabral, os seus pintores, Júlio Pomar, o seu quotidiano e o de um país a adoecer de cansaço de alma, ao gosto de Pessoa, ortónimo e heterónimo que todos líamos naquele tempo, com grande normalidade. Só hoje, tantos anos depois, é preciso fazer "projectos de leitura para as escolas". Naquele tempo lia-se desde pequeno, sem programas especiais, conversava-se nos cafés, nos escritórios dos editores onde muitos se encontravam sem temor de plágios, as ideias eram abertas, circulavam, as imagens davam consistencia às ideias, discutia-se, enfim, vivia-se ainda que por vezes nas entrelinhas de grandes dificuldades.
Alexandre tem poesia certeira: vejam só como o poema SIGAMOS O CHERNE pode ser relido, na sua mensagem actualizada e para quem não aceite "contratos" incondicionais, algo melancólica, pois os tempos, de que noutros poemas ele também se ocupa, "apodrecem", no reino da Dinamarca de marca Portugal.

Deixo-vos com a última estrofe, esperando que procurem a obra de O'Neill, em antiquários, se não for de outro modo, e a leiam por inteiro:

Sigamos, pois, o cherne, antes que venha,
Já morto, boiar ao lume de água,
Nos olhos rasos de água,
Quando, mentindo o cherne a vida inteira,
Não somos mais que solidão e mágoa...

De um outro humor é a SAUDAÇÃO A JOÃO CABRAL DE MELO NETO:

João Cabral de Melo Neto,
Você não se pode imitar,
mas incita a ver mais de perto,
com mais atenção e vagar,
o que está como que em aberto,
ainda por vistoriar,o que vive entre pedra e terra
e o que é entre muro e cal,
o que tem "vocação de bagaço"
e o que resiste no osso ou no "aço
do osso", mais essencial.

...

De prosaico há-de ser chamado
pelos do "estilo doutor",
cabeleireiros da palavra,
pirotécnicos do estupor,
que dão tudo por uma ária
de alambicado tenor,
que encaixilham a dourado
morceaux choisis de orador,
mas de prosaico não foi chamado
o nosso Cesário Verde?
O lugar comum se repete
aqui ou do outro lado...

...

Prosaico: o não enfático,
o que não mente a si mesmo,
o que não escreve a esmo,
o que não quer ser simpático,
o que é "a palo seco",
o que não toma por outro
mais fácil trajecto
quando está diante do pouco,
nem que seja um insecto.

Já se deixa ver que prosaico,
assim, mal definido,
não é uma atitude
que se arvore ou um laivo,
uma tinta de virtude:
é um modo de ser,
mesmo antes do verso,
mesmo fora do verso,
mesmo sem dizer.

Será neste sentido,
prosaico Melo Neto,
que no poema "O RIO"
cita Berceo:"Quiero
que compongamos yo e tú una prosa" ?
Será no mesmo sentido
de Pessoa-Alberto Caeiro
(outro prosaico, mas desiludido...) :
"...escrevo a prosa dos meus versos
e fico contente " ?

*

Quanto a mim, ainda o bonito
me põe nervoso, o meu canito
ainda tem plumas- e lindas !-
e o emu verso deita-se muito,
não sobre a terra, mas em sumaúmas,
já com bastante falta de ar...

Ó Poeta,
não é motivo para não o saudar !

(1959 )

Reparei, no meu counter, que tenho vários amigos brasileiros consultando o blog, o que me deixa feliz.
Por isso escolhi a homenagem a João Cabral, entre os poemas com endereço do O'Neill.
Vale a pena, em outro momento, trazer aqui Cesário Verde, seu muito preferido, e referir o excelente e sempre actual ensaio de Helder Macedo, publicado na &ETC.

Wednesday, June 14, 2006

Pimenta, read & mad


De novo na &ETC.
Em 1984, a aventura continua.
Em READ & MAD Alberto Pimenta lança mais um desafio: à nossa cultura (discutindo as teorias e práticas de Marcel Duchamp), à nossa inteligência, à nossa sensibilidade.
Revela-se poeta anarquista e alquimista ao mesmo tempo, algo que só os espíritos tacanhos não serão capazes de entender.
Melhor do que Rimbaud, nesta obra que gosto de considerar um "study-case" de alquimia do Verbo, Pimenta une, funde, em gloriosa CONJUNÇÃO, o Verbo de Camões e de Pessoa, transformando em 14 novos poemas a sublimação inspirada dos poemas de que partiu, sem que deles nada se perdesse, mas tudo se transmutasse:
."..e nada mais há a acrescentar além dos exemplos.além dos exemplos mais nada, a não ser o sorriso silencioso em que se anuncia o gozo de finalmente ter chegado a compreender."

E aqui fica um exemplo, deixando-se à sabedoria do leitor o prazer de adivinhar de que poemas, de Pessoa e de Camões, nasceu a Pedra Filosofal oferecida:

" Que poderei do mundo, já querer?
Montes, e a paz que há neles, pois são longe?
Paisagens, isto é, ninguém ?

Tenho a alma feita para ser de um monge
Mas não me sinto bem,
Que naquilo em que pus tamanho amor
Não vi senão desgosto e desamor
E morte, enfim, que mais não pode ser.

Se eu fosse outro, fora outro. Assim
Aceito o que me dão
Como quem espreita para um jardim.

Pois vida me não farta de viver,
Pois já sei que não mata grande dor,
Se cousa há que magoa de maior
Eu a verei: que tudo posso ver...
Onde os outros estão.

Que outros?. Não sei.

Há no sossego incerto
Uma paz que não há,
E eu fito sem o ler o livro aberto
Que nunca mo dirá...

A morte, a meu pesar, me assegurou
De quanto mal me vinha; já perdi
O que a perder o medo me ensinou.
Na vida, somente desamor vi.
Na morte, a grande dor que me ficou.

Parece que para isto só nasci ! "

( Poema XI )

Friday, June 09, 2006

Mais PIMENTA







Em 1977 publica Alberto Pimenta o HOMO SAPIENS, experiência que contou com a colaboração do director do Jardim Zoológico e sua equipa e a ajuda de vários amigos, entre eles Alexandre O'Neill, Almeida Faria, António Tabucchi, Jorge Listopad.
O livro, entregue às edições &ETC. transcreve os comentários atónitos ou nem por isso...dos visitantes do Jardim.
A experiencia foi um desafio à inteligência, à perspicácia, ao humor, ao bom senso, do bom povo português e teria feito as delícias da escola surrealista mais severa.
Pimenta esteve "exposto" no dia 31 de Julho de 1977 entre as 16 e as 18 horas,numa jaula do Palácio dos Chimpanzés do Jardim Zoológico, gravando os comentários que se iam ouvindo.
Por exemplo:
" -Ó pá, anda cá ver isto! Aqui o macaco é um homem.
-Ó pá, isto é um festival do caraças.Vamos embora, que isto é para nos tramar.
-Ai o macacão! É o homem-macaco! Só lhe falta a mulher-eléctrica .
-Dá-lhe uma banana, pá.
-Aos preços que estão as casas, não admira. Qualquer dia vimos cá parar todos.
-Já me estão a lixar. O gajo está a desenhar, está ali a fazer a caricatura da malta.
...
-Não, ele é racional.
-Mas não fala.
-Vamos mas é embora daqui.
-Ele é português?
-Deve ser estrangeiro.
-Ele que ali está, é porque alguma fez.
...
-Ele também dormirá cá?
-Não, tem as calças bem vincadas, gosta da comodidade.
...
-Ainda há bocado cá passei e quem estava era o gorila.
-Não percebo o que ele quer! Que é que quer dizer 'homo sapiens' ?
-Então, é uma espécie de macaco. É um animal como os outros"

E assim por diante...Vale a pena ler.
Será que hoje algum director, sem medo de afrontar o politicamente correcto, daria autorização ?
Temos o livro, a memória divertida recuperada como um espelho onde nos podemos ver: ah, a matemática, o português, a iliteracia, o discutido eduquês, a cultura clássica em perda, a filosofia também...enfim.
O Alberto Pimenta cá está para nos chamar à ordem.
O HOMO SAPIENS foi, como lhe chamou o director de então, "uma questão de cultura", por isso autorizou a experiência.Ler de novo o livro será isso mesmo: uma questão de cultura.

Alberto Pimenta



A primeira edição foi de 1977.Sucederam-se várias, em Portugal, em Itália, no Brasil.
Esta é de 1987, nas ed. Centelha, de Coimbra.
Espantoso, como o que então nos fazia rir hoje nos faz gargalhar, ainda que com desgosto.Portugal é um país que "divide" os que o amam; qualidade terrível pois atrai e repugna ao mesmo tempo, numa relação perversa e destrutiva.Alberto punha em sub-título ao Discurso.."com notas de Capêlo Filho " (alusão óbvia ao capêlo distintivo dos catedráticos...) "Catedrático de Literaturas Paradas".
Como são certeiras as suas palavras, e mais ainda agora, em que catedráticos ou não nos perdemos pelos corredores do tempo perdido, sem conseguir encontrar nada que valha a pena.
Alberto Pimenta pertence ao escol dos que tiveram e têm voz original, sem complacências, a par de uma erudição inteligente e cada vez mais rara. O SILÊNCIO DOS POETAS, para dar só um exemplo, é uma obra fundadora, de referencia, nas nossas bibliografias.
A sua contribuição para a literatura Experimental, para o exercício da Performance e para uma escrita poética ou de ficção sempre surpreendente, fazem dele um caso muito especial na nossa literatura : o olhar é despojado de intenções que não sejam as de livremente criar ironizando, renovando o discurso crítico ou partindo para uma aventura da alma feita de reflexão íntima, profunda, comovente.
Alberto Pimenta atravessou as ESTAÇÕES que são a marca da vida. Podemos seguir com ele, em boa companhia.

&ETC...



Em 1978, era editada uma obra-prima de Herberto Helder, O CORPO O LUXO A OBRA , com um desenho de Carlos Ferreiro, como já era costume.
A palavra "puxava" a imagem e, vendo bem, não podia haver melhor título: do corpo (que eu entendo como corpo da palavra) nasce o luxo ( o espaço ) da obra; num processo muito semelhante ao dos alquimistas: da pedra ( que como a palavra é substancia ) nasce o espaço ( o brilho ) do ouro.
Herberto Helder abre o livro com uma citação de HÚMUS, de 1966/7 :

"A pedra abre a cauda de ouro incessante,
somos palavras,
peixes repercutidos.
Só a água fala nos buracos.
(...)
Sou os mortos- diz uma árvore
com a flor recalcada.
E assim as árvores
chegam ao céu."

E já no interior misterioso do poema do corpo, do luxo e da obra:

"...
O luxo do espaço é um talento da árvore,
a arte do mundo húmido.
Por dentro da terra
o ouro cresce
em cadeia.Vi
os flancos suados das casas
contorcendo-se
no fundo
da luz,
onde o dia faz uma ressaca onde
gira a noite com seu tronco de planetas."

E termina: " Assim:
o nervo que entrelaça a carne toda,
de estrela a estrela da obra."

Foi escrito em 22-23-XI-77 e publicado um ano depois.
Deixa no fim, em citação para quem pudesse ler e entender, a transcrição da Tábua de Esmeralda, de Hermes Trismegisto.E conclui, para nós todos, leitores:
" No âmbito das funções e valores simbólicos, o poema é o corpo da transmutação, a árvore do ouro, vida transformada: a obra. O poema faz-se com o corpo, no corpo, de baixo até cima, sagitariamente.Ou num ininterrupto circuito zodiacal."

A referencia ao mistério zodiacal recorda-me o que pretendo ainda fazer : conversar no blog com outro poeta que admiro,
o Alberto Pimenta, também ele na &ETC., também ele com uma voz que é corpo transfigurado.

Fiama




Fiama Hasse Pais Brandão.
Recebe o Prémio da Associação dos Críticos Literários em 2006, que se juntará a um conjunto de outros prémios recebidos pela originalidade da sua produção ao longo de muitos anos.
Quando procuro nas estantes o livro que vou reler é quase sempre com as ediçoes ETC. que deparo, belas, pequenas-grandes edições com capas do Carlos Ferreiro que o Vítor Silva Tavares gostava de associar às obras que publicava.
Trago aos olhos do leitor uma dessas edições, neste caso de Fiama, a peça de teatro" POE ou o Outro Corvo", de 1979, com um retrato seu a abrir o livro.
Outrora, falo assim porque tenho saudade desse tempo, o editor escolhia os seus autores porque apreciava o que eles faziam, viessem ou não a ter sucesso; e as edições eram acompanhadas com carinho: preferia-se a tiragem pequena, e não se "trituravam" restos.Os autores, julgo eu, eram mais felizes.
Celebra-se Beckett agora. Mas porque não encenam os jovens encenadores as peças de teatro que, como as de Fiama, mudaram, a seu modo, a linguagem teatral do nosso tempo? E mais, por que razão nas Escolas de Arte ninguém estuda, ainda que não represente, o que se fez?
Leio, da Poesia 61, Fiama, Gastão Cruz, outros, cuja escrita nunca se interrompeu, mas naquela altura tinha outro sabor: o desafio, a originalidade, a antecipação de um desconcerto que se tornou actual.
Nesta peça, com um actor e três actrizes, todas variantes do mesmo feminino imaginado pelo actor/autor, discute-se o real e o imaginário- discute-se o que é a literatura, para resumir um pouco à pressa.
Não perdeu actualidade, este texto, antes pelo contrário.

Deixo uma sugestão: representem Fiama, fazendo brilhar a obra junto com o prémio...