Friday, September 30, 2022

REVOLUÇÃO

 Ainda que fosse bordado a ouro e diamantes

esse pano que vos cobre a cabeça

para tapar os longos cabelos

que chegam à cintura

ainda assim esse pano seria sempre 

sinal de escravatura. 

Ó jovens do Irão

rasgai os panos 

cortai os longos cabelos

 quebrai as varas com que

vos martirizam

esses falsos profetas 

de um deus que nada disse


Chamai os Anjos do Céu

que desçam

com as suas espadas de fogo

e que degolem

os homens que foram filhos

e agora torturam mães.

Wednesday, September 28, 2022

Estranhamentos, ainda os poemas

 Quando o livro me chegou, pelo correio, não estranhei a beleza da edição, há anos que a editora Quetzal da Piedade Ferreira e do Rogério Petinga me habituaram ao bom papel, à letra cuidada, escolhida para que se leia, aos autores que depois arrumo na estante que chamo dos amigos. Só bons autores, bem editados, um prazer. Prosa ou poesia, sempre a colheita é genuína.

Por que me ocorre então esta palavra, estranhamento, com este livro de agora, O MEU CORPO HUMANO de Maria do Rosário Pedreira?Poderia ser outra coisa, o seu corpo, a não ser humano? Podiam os poemas ser de animais, uma espécie de bestiário moderno, ao gosto dos textos de metáforas medievais? Que humanidade especial deseja a poeta sublinhar, neste livro, com estes poemas? O tu a quem se dirigem não perceberia o sentido se ela não o sublinhasse? Que é corpo, (tanto como será de alma) e cada parcela do seu corpo adquire vida própria, como se fosse de vida renovada, pelos sentidos despertos, que abrem  em epígrafe o início da escrita e da nossa leitura:

É o meu corpo

humano, vê, ouve,

toca, pensa e

dói-lhe.

Volto porque

preciso muito

que me amem.

 

O livro fala do que sente um corpo que ama, mas deseja mais, que sofre e evoca o sofrimento, ainda que passado, desarticula, como se fosse livro de estudo de anatomia, as várias partes de um corpo que no poema se disseca. Tem a noção da efemeridade do que é humano no corpo, sem se sentir obrigada, no exercício poético a exprimir estados românticos de alma: "daqui até à morte é um instante". Pede contudo que aquele a quem se dirige - esse outro sempre presente - lhe ensine no intervalo da vida " as horas do amor". O amor, dado e pedido, faz a materialidade do seu corpo mais presente, ou mesmo sempre presente, quando é expresso. Basta um gesto, uma presença, uma comunhão, mesmo ao envelhecer pensando em como foi o sexo que fizeram e o que vão fazer. O mesmo com os poemas, pois também os versos terão o seu tempo, ou já o tiveram, e não se sabe se voltarão a ter. Esta não é uma poética de interrogação, é uma poética de evocação (bem humana) ou de afirmação convicta do que diz. Torna-se um quase diário que se não estivesse ordenado em estrofes, poderíamos chamar de prosa poética como a de Comte Lautréamont: prosa pela narrativa nua, realista por vezes de tão directa (passo a mão pelo veludo das tuas calças velhas / e aperto as nádegas / firmes do passado. Não sou /  só eu: as tuas roupas também / têm saudades".

Oscilamos, ao ler, entre passado e presente outrora um tempo feliz, agora um tempo que se suspende entre ser e não ser um tempo (um corpo) desejado. Ou como no poema de Sexo, um envelhecer ainda assim cuidado: " Os poemas, tal como nós, já vão / murchando. Há uma espécie de / bolor que se instala nas pregas da / nossa vida e deixa as mãos mais / trôpegas sobre o papel. / Ao fim da tarde / eu fico triste sem razão e / tu adormeces diante de um bom / livro. Temos medo do que aí vem, / mas não o confessamos (...) mas juntos e abraçados até ao fim. " O sexo, o acto de o praticar, com desejo e amor, é referido no poema, em suspenso porque como nos poemas tudo pode ter um fim: são corpo e são humanos os poemas, como a carne de quem escreve e também tem o seu tempo. 

O tempo, de sofrer, de ser feliz, de amar e ser amada, recordar e esquecer,  atravessa esta obra de Rosário Pedreira. É o tempo que torna humano esse seu corpo que ela detalha materializando, como Heidegger, o Ser. 

E já percebo porque me ocorreu a palavra estranhamento ao pegar neste seu livro. Quem já tanto fez, já tanto disse e escreveu, sente esta necessidade imperiosa de voltar a dizer, por que razão? Devolve a quem lhe deu outra vida, um seu relato, cheio de amor e gratidão que se adivinha entre linhas? Diz da sua existência, quem sabe outrora apagada, agora feliz num corpo que sente amado e por isso mesmo humano? Mais humano, como em Nietzche? Humano, demasiado humano, e precisando de mais e mais consciência de que é amado esse corpo, que é o seu. Não esquecer nunca que esta poeta é culta, lida, vivida, e não estranhemos o que nos pode a nós parecer estranho.

Estranha mesmo só a vida...

 



Tuesday, September 20, 2022

Maria do Rosário Pedreira, Os Poemas

 

Entrámos em Agosto, já Setembro, um Outono quente e húmido.

Ando há muito tempo com a ideia de falar daquele encontro no Parque Eduardo VII onde se iam fechar as festas de Lisboa. Nós tínhamos convite para as filas da frente, porque iam tocar os nossos filhos, acompanhando um grande músico brasileiro, que eles conheciam bem, e era o convidado de honra.

O Bernardo tinha sido operado há muito pouco tempo, e íamos os dois, sem empurrões, caminhando na fila para os nosso lugares.

Foi então que me cruzei com um dos meus antigos editores, que não via há tempos, a saudação foi rápida, era hora do concerto, mas o que vi então me deixou até hoje com o que descobri ser da parte dele a revelação – por um breve gesto que fez – de um amor grande e terno. Ia à nossa frente com uma jovem mulher, de aspecto frágil, cujo rosto não vi, mas que ele carinhosamente, com muito cuidado, aconhegou da humidade da noite, puxando-lhe sobre os ombros um casaquinho de malha. Ou seria um xailinho?

Ele visivelmente cuidando do seu amor. Ela visivelemente deixando-se ser cuidada.

Seguiram para os seus lugares, no fim do concerto já não nos voltámos a encontrar.

Ainda hoje, já passaram mais de dez anos, revejo a cena tão comovente e tão reveladora.

Como num gesto tão simples se pode esconder tanto amor.

Hoje são um casal, andam juntos por todo o lado, põem as suas fotos no facebook, a ele conheci muito bem, porque foi meu editor, a ela não conheço pessoalmente, conheço os seus poemas, alguns deles carregados da sombra que é a marca do fado, e muitos deles têm sido cantados por isso mesmo.

Hoje colocou no facebook, que se tem transformado em espelho de alma de alguns, um poema em que ao falar de antigo sofrimento, de todas as maneiras – termina dizendo, pode não parecer, mas é um poema de amor. Eu sei a quem, vi-os, naquela noite, ali começou ternamente a química que os salvava, a ele da solidão e a ela, quem sabe, da morte ao mesmo tempo temida e desejada.

Há um Anjo que protege os amantes na hora do amor. Rilke sabia.

Ocorre-me que tudo no amor é química, e por isso de repente surge uma fusão tão intensa, que se torna irrecusável. Durará para sempre ? Não podemos saber, mas não importa, a força está na magia do instante. Essa é a magia irrecusável, a suave atracção que unirá dois seres. Quantas vezes na vida poderá acontecer? Também não saberemos. Importante é o momento, a entrega subtil, feita em silêncio e tão alquímica que de dois faz um só, num tempo que se tornou perfeito. O que se perdeu regressa, transformado. Os poemas são os anéis da alma, ouro fundido em que todos os nomes se renovam: outrora cinzas, agora estrelas.

 

Friday, September 02, 2022

Félix com Hegel e Lacan (relendo Slavoj Zizec)

 Na edição da puf, de 2011, Zizec é definido como "o mais sublime dos histéricos". Uma adjectivação que atrai, porque o define como anti- seja o que fôr, neste caso contra Platão, o que Aristóteles já fora e continuando a distinção entre o que é possível ou desejável num filósofo Zizec vai fazendo um rápido mas brilhante historial dos filósofos que distinguiu, Fichte, o dos Discursos à Nação Alemã a ser derrotada por Napoleão, a Hegel, que ele define, como se diz no prefácio a este volume, como "monstro do panlogicismo, a mediação dialéctica total da realidade,  da dissolução total da realidade no automovimento da IDEIA. Face a este monstro afirmou-se, pelo contrário, o elemento que era suposto escapar à mediação do conceito" (p.11). Assim evoluíram os sistemas ditos post-hegelianos que se opuseram ao absolutismo da da Ideia em nome do abismo irracional da Vontade, cita-se Schelling, eu lembraria também Schopenhauer ( o mundo como Vontade e Representação), cita-se Kierkegaard evocando o "paradoxo da existência do indivíduo" e ainda Marx "em nome do processo produtivo da vida". A questão que permanece, em relação a Hegel, é que não se ultrapasse o limite que é constituído pelo Saber Absoluto. Zizec interroga-se sobre a origem deste conceito, e que causa horror, do Saber Absoluto. Donde vem? O que se esconde por trás de uma ideia fantasmagórica como esta e da sua presença "fascinante" ? (p.13) Um buraco, um vazio, que só pode ser preenchido se lermos Hegel com Lacan, é a tese defendida por Zizec, ou seja, sobre o fundo da problemática lacaniana da ausência no Outro, o vazio traumático à volta do qual se articula o processo significante. Podemos, por limitação de espaço, saltar para as três étapas do Simbólico em Lacan, a partir do seu hegelianismo : a primeira é a da função e do campo da palavra e da linguagem na psicanálise, que coloca o acento sobre a dimensão intersubjectiva da palavra: a palavra como meio do reconhecimento intersubjectivo do desejo. O que aí predomina são os temas da simbolisação como historiarização, realização simbólica: os sintomas, os traumatismos são "brancas", são espaços vazios, não historiados, do universo simbólico do sujeito; a análise realiza no simbólico esses traços traumáticos, inclui-os no universo simbólico conferindo-lhes a-posteriori, retroactivamente um significado. No fundo estamos ainda numa concepção fenomenológica da linguagem, tendo a análise como objectivo produzir o reconhecimento do desejo numa palavra  "total", de a integrar no universo da significação, identificando a ordem da palavra à da significação. Citando Lacan: " Toda a experiência analítica é uma experiência de significação" (Lacan, 1978, p.374). Será preciso recordar agora que Hegel estudou nos seminários de Hoelderlin e Schelling ambos tido influencia nos seus conceitos idealistas, o que nos levaria até Platão, o Pai das Ideias fundadoras do Bem, do Belo e do Verdadeiro. Uma herança que foi chegando aos nossos dias, incluindo como Zizec refere a utopia do marxismo (tal como em Platão também já tínhamos tido  A República e a sua ideia da sociedade perfeita, gerida por sábios filósofos (com a expulsão dos poetas, perturbadores das almas). Mas retomando Lacan:  eis que da filosofia, pela análise se busca agora o sentido, aquele que se oculta e reprime nos sinais de que falara Hoelderlin, nos seus Hinos. Ser um sinal que perdeu o sentido...E chegou o momento de falar de Nuno Félix, que conhece bem este filósofo, Lacan, e para quem a citação de que toda a análise é uma experiência de significação nos remete também para o célebre verso do poeta alemão: somos um sinal que perdeu o sentido. Filósofos, que constroem os seus sistemas buscando uma racionalidade que se torne explícita e clara, são diferenciados em relação aos poetas que. embora filosofando não é da racionalidade que se ocupam, mas sim de todas as outras formas possíveis, as irracionais também e acima de tudo. Porque há uma razão oculta no irracional, a circunstância, o acontecimento, a vivência (  o desejo ou a repulsa reprimidos). O interessante em Lacan é o modo como ele transita para os domínios da palavra, da linguagem, no dizer de não-sistemas que se aproximam mais da poesia do que da filosofia, manipulam símbolos como se fossem coisas palpáveis no mundo impalpável do que já foi e não é recuperável, engana-se quem julga que o tempo devolve ao outro tempo, do imaginário, o que nele se dissolveu. O que lhe devolve é já outra coisa, que a análise digeriu.

Podemos não ter herdeiros, mas temos antepassados. Nesta leitura que o estudo de Nuno Félix desencadeou há um Freud, fundador e que a todos guiou nos seus vários caminhos, mas há, como em Lacan, as árvores do pensamento dos caminhos de floresta de um Heidegger, por sua vez abrindo a questão do ser e do tempo - tudo o que é, é no tempo - e adiante a questão da linguagem, o sinal e o sentido, deriva que fez os linguistas de Paris dizer que Lacan tinha dado cabo dos estudos de Linguística na Universidade, ao formatar conceitos oriundos da filosofia e da psicanálise, traduzidos do alemão e por aí inovando e confundindo o que era normalmente ensinado.

Félix teve todos estes antepassados e foi ele próprio inovador: bebeu no surrealismo metáforas e símbolos arcaicos, mas a que deu novo sopro e nova actualidade. Toda a imagem, todo o objecto, e nas várias escolas também as da abjeccção, com em Bataille, se forem úteis serão utilizadas. A liberdade é total, Freud pode lá estar mas sem autoritarismo. Termino como ele faz, citando Wittgenstein: calar aquilo de que não se pode (por não conseguir) falar.

Mas deixo Valère Novarina, pintor e poeta, que afirma o contrário: ce dont on ne peut parler c'est cela qu'il faut dire!

Não tem fim o caminho...



   

Thursday, September 01, 2022

Nuno Félix da Costa, breve manual para ser humano, Cepe editora, 2022

Por coincidência, Rosário Pedreira publica sobre o seu corpo humano, e Nuno Félix da Costa um outro livro, em que também é do humano que se ocupa. O meu corpo humano, poemas de tristeza passada a ferro como ela diz. Alisar o sofrimento de que padece o corpo? Ou exorcizar, dizendo o que tem a dizer, e é sempre tão humana a sua voz, feita de canto e lágrimas, por vezes. Mas leio o Nuno Félix: prosa poética, ou poemas em prosa, conceptuais, em que a cultura é transversal à imagem poética, por vezes surpreendente, como já disse a propósito de outras obras. Um pensador que escreve poesia, ou que fala de como ela surge, ainda que de modo insólito (não esquecer que estamos perante um psiquiatra): "O corpo é uma noção acimentada num conjunto / O que o cérebro leva do corpo qualquer máquina de reanimar / supre"(p.9). Assim começa a nossa leitura.Com um texto em que se declara que se vive do pouco que a máquina dá, concluindo com ácida ironia que "confia na pátria e nas soluções mecânicas para a vida". Estão lançados os dados para uma aprendisagem (é um manual...) que se torna por vezes desconcertante, mas essa é precisamente aqui a intenção do poeta. Não facilita, obriga. O dia que começa será vagaroso, e nesse vagar ou desse vagar nascerá o brilho das estrela, e o resto do cosmos. Do corpo que esteve adormecido, sonhando, nascerão outros corpos, as órbitas dos astros. Faz parte do imaginário do humano o sobrehumano, para logo num poema seguinte recuperar uma fisiologia anatómica que conduzirá no fim à ideia, higiénica, de ir tomar banho. Álvaro de Campos não faria melhor. Mas também penso em Lautréamont, é difícil, ao ler, não evocar outras leituras: sem palavras para uma teoria da simplicidade, eis o título de um poema em que o mais é menos, e o menos é mais, ao gosto de Celan. Pois nada é simples, em Nuno Félix, tudo é complexo e obriga a revisitar o que se leu: "A visão da palavra antecede-a. É assim o fundo do mar onde a luz que cada uma emite encontra o alvo - sinos que mantêm silencioso o pensamento A mentira não existe entre os peixes do inconsciente" (p.16). A visão da palavra antecede-a: no primeiro verso já se revela o último, que é feito do silêncio dos peixes do inconsciente, nos sonhos. Fica no ar: o pensamento é mentiroso? Porque na oposição racional versus irracional, é esta última ideia a vencedora? Porque no inconsciente não há filtros ambíguos, a imagem é simples e directa e diz o que diz, sem mais? Como Freud via o mar - as ondas revoltosas, os perigos de naufrágio sem bóia de salvação, Nuno Félix em "conhece-te a ti mesmo" poema do impossível, reflecte também sobre o que vê no mar: "O mar limpa a necessidade de ordem, interrompe-a e afoga / a luz de uma obscura consciência num mim aquiescente / a personagem, uma massa de anjos habituados a mim" (p.18). Aqui poderia entrar uma nova imagem, uma nova palavra, o sublime, dos anjos, ou então a sublimação de um "ego" que se metaforizou num "mim" (a margem de diferença entre o Ich e o Selbst de um Jung, sobrevoando a massa de anjos descrita). A reflexão sobre o eu e o mim é talvez a pulsão mais funda deste livro no poeta que se sentiu impelido a escrever sobre o que sente e o que sabe que sente. Não é fácil, nem isso lhe interessa. Deixa fluir, para ficar mais livre: "liberto do lastro do eu tento ver sem mim...." ou adiante: "conheço como ninguém o que desconheço..."(p.19). Gostaria neste momento de utilizar a definição de Jung para Selbst, que ele distingue do conceito de Ich como sendo mais abrangente, englobando o todo da consciência (domínio do eu, do Ich) até à esfera do sub- e do inconsciente. Com os perigos de inflação de um eu que se funde, mas não se sublima de facto. Já disse atrás que este é um livro desconcertante, que alia ciência e conhecimento da psique à uma exposição do corpo - é o corpo que nos faz humanos, com as particularidades que Nuno Félix não hesita em referir, é no corpo e pelo corpo que na verdade sentimos, a dôr ou as alegrias, ainda que passageiras, da vida que é dada, e é por aí que o autor nos leva, quando fala de manual para ser humano. Alguns leitores terão dificuldade em segui-lo, outros gostarão do pensamento que desafia, nas suas contradições. Não vale a pena querer unificar o que não é uno, pois sabemos que não há unidade, há oposições, contraposições, associações livres e únicas, como muito bem expressaram os surrealistas, e das múltiplas imagens e símbolos que ocorrem, nos sonhos mais fundos ou nos meio-acordados (a rêverie). De todas estas manifestações que se dão na escrita, como na arte em geral - Nuno Félix não exclui a Fotografia como ARTE ÚLTIMA, numa das suas obras mais belas de fotografias encenadas - a discussão (não chega a ser discussão mas reflexão cuidada) entre o eu e o mim não fica fechada, continua em aberto, entre um que pensa o que é, e se o que é o define, o completa, ou inquieta. Inquieta, por isso, embora proclame que "conhece como ninguém o que desconhece" é imparável a sua necessidade de fazer ou refazer com outro olhar o que foi feito. Nunca se vê da mesma maneira o que já foi visto. Basta a deslocação subtil do tempo, do espaço, isto é da circunstância própria que os define. Marie-Louise von Franz, colaboradora privilegiada de Jung, ela mesma grande erudita, explica num das suas obras, Zahl und Zeit como se aproximam a Psicologia das profundidades e a Física (ed. Surkamp,1980) numa obra que ao tempo foi pioneira, mas que hoje em dia, como se vê pelas obras de Félix se tornou objecto normal de estudo e reflexão. Aproveito, porque a ela, colega e amiga devo a gentileza, para agradecer a Anabela Mendes a oferta deste livro, que ela me deu em 1984, estávamos ambas interessadas nestes domínios que os freudianos caseiros ainda abominavam. O cap. 1 afirma desde logo que é o número que ordena a psique e a matéria. Podemos regressar à narrativa bíblica, para entender melhor como a fundação primordial começou com uma criação ordenada em números, os seis primeiros e finalmente o 7º que deveria ser de um eterno descanso, que nunca chegou a ser... Psique e Matéria dificilmente se entredefinem, a não ser, como Nuno explica, se se traçar, com cuidado, com tempo (um outro conceito muito caro a Marie-Louise) um caminho que vá abrindo esferas num todo que permanece fechado, até que se lhe dê atenção e cuidado. Como a rosa de Rilke, tão múltipla e tão rara cujo centro é o centro do cosmos por onde vagueia ainda em ignorância o nosso pequeno planeta, como Dante nos círculos do Inferno. Contudo é este planeta uma das partes do corpo do universo, e a humanidade a sua materialização. Jung refere que sem o Homem, ser que Deus ele mesmo criou, não teria tido consciência de si mesmo e é assim que Jung lê os tormento de Job: a dôr injusta faz parte desta aposta na vida, nascida no Éden e envenenada à partida. Deus - Jeová - precisou de se materializar em corpo humano, para adquirir consciência de si mesmo. E assim aconteceu com Jesus, nascido de uma virgem inocente, e se transformou em Cristo, alter ego da Trindade da religião ocidental. Com a Ascenção de Maria o trio divino se tornará em todo mágico, com o Eterno Feminino conduzindo, como em Goethe, o Espírito Santo da futura Utopia num sonho que se viveu como real, durante séculos. Resumindo, sem corpo não há consciência, nem da divindade criadora nem da humanidade que foi por ela criada. Na obra de Marie-Louise von Franz, ainda no capítulo 1, iremos encontrar as suas reflexões sobre o que são as descobertas de Jung sobre as matérias da consciência e do inconsciente, em Freud ainda aceite como individual, em Jung já acumulando as investigações sobre o que o levariam ao tão discutido, na altura entre ambos, de inconsciente colectivo, acumulação universal de símbolos e mitos que ele estudara em muitas e variadas memórias de antigas civilizações.
Marie-Louise traz à nossa leitura uma comparação que faz todo o sentido para entender melhor esta obra de Nuno Félix de que nos ocupamos: o conceito de onda e de partícula que o estudo da física quântica, praticamente no início ainda do século XX apresentou aos cientistas, para melhor entender o comportamento da matéria. E como nos é útil agora, para seguir a nossa leitura de uma obra ao mesmo tempo conceptual e poética, atravessada por imagens e símbolos que nascem do inconsciente e não de uma racionalidade expectável, esta nova aproximação ao entendimento do humano, que em si mesmo contém o espiritual e o material, no somatório de um eu e de um mim que ora são onda ora são partícula, do todo do ser, definido por Jung e pela sua discípula pelo número 4, nos capítulos em que analisam a simbólica dos quatro primeiros números. 
Termino, um post não pode ser exaustivo, com a citação do nº12 de Arte Última, publicado em 1998:
" A mente é o altar
entre o abismo da ordem 
e o caos da exactidão".

Sunday, June 26, 2022

Jorge Reis-Sá, Instituto de Antropologia, ed. Glaciar, 2022

Não se espera pelo título que seja um livro de poesia, ou prosa poética, conforme cada caso, mas essa é a surpresa do livro que o autor nos dá a ler. Quem tenha o hábito de pegar num livro, abrir, folhear, ler um pouco, logo dá pelo engano. Ali está pensamento poético, filosofia, mais do que a tal antropologia do título, e está feito o convite: ler. E disfrutar da frequente ironia subjacente ao que se diz. Por exemplo, em: A SALVAÇÃO DO MUNDO "Não existe num verso nada de útil à salvação do mundo".  Então por que nos atrai e nos seduz a poesia? Quem escreve, movido por forte impulso, ou quem lê, movido por impulso idêntico? O leitor de poesia é viciado nela, é o seu segundo escritor, repensa o que foi pensado. Como neste primeiro verso, teremos de entender que não se trata de salvar o mundo, num poema, mas de salvar-se a si próprio, nessa entrega ao verso que o toma e que o faz prosseguir. Escreve, neste poema, para falar da casa e do pai que não pode salvar, e casa e pai são metáforas do mundo, do nosso primeiro mundo, a nossa primeira pele, que envolve e protege.Termina dizendo que todos os versos são possíveis, e é verdade: na Palavra, no Verbo, tudo estará contido, mas nem tudo será salvo. Há memórias de infância, nestes poemas, enterros de aldeia, velhos que jogam à malha, como em MELANCOLIA, onde nem falta uma avó, chamando pelos netos que brincam: estas infâncias não são perdidas, como tantas outras, são outro nome para FELICIDADE.Também Pessoa, o nosso eterno guia, é na infância que se encontra feliz. São vários os poemas de evocação e saudade do pai, não tenhamos receio da palavra, também muito nossa, a saudade, e a figura do pai que se perdeu adquire peso e beleza especial, assim recordado, por um cachecol, em O CACHECOL NOS MUROS DA FOZ, um boné azul, uns óculos, um barco encalhado na areia. Passeio com mãe, pai, junto à estrada - quando o caminho é aberto, e de novo feliz, como tudo o que temos adiante e ainda não se fechou. Datado de 2002 temos, para o Guilherme, o POEMA AO FILHO. Escrito em prosa simples, directa, que brota da emoção de ser pai, e não da vontade de ser poeta. "Nós éramos um só". E nesta fusão de entrega e amor vibra a Ordem do universo: "O céu no seu lugar devido, a terra no seu lugar devido, e nós, nós os dois no lugar que devemos para sempre um ao outro, um no outro,um para o outro, como duas peças de um jogo universal." Shakespeare não diria melhor, pois é o amor que rege a ordem universal, no céu e na terra. Na página 37 teremos a sua DEFINIÇÃO DO AMOR, retomando a figura do pai, tão amado e tão evocado, que o poeta afirma que lhe gastou o significado. Tem a noção, que nos transmite, que repetir não chega, desgasta, esgota... Diria com Hoelderlin que "somos um sinal que perdeu o sentido..." mas não, embora se auto-flagele referindo maus poemas, maus romances, leva a memória mais longe, também como faz Hoelderlin, no hino que citei, Mnemosyne (Memória). Jorge "alarga-lhe o significado", ao repetir essa palavra primordial de pai, definindo o amor, quando a dizia, o princípio da vida. Mas continuemos.... E volta-se ao conceito-base de poesia: TODO O POEMA. Todo o poema é circunstância de um tempo e de um lugar. Todo o poema é memória dessa circunstância.Todo o poema é memória de um tempo e de um lugar. Todo o poema é memória (p.43). Quem poderia contrariar uma evidência assim vivida? Ninguém, pois da memória mais recente ou mais antiga, mais arcaica e escondida provém o que somos, o que seremos ainda se chegarmos a ser o tal sentido que se tinha perdido, no sinal, nos sinais dos gestos primitivos. Anda por aqui Heidegger, com o Ser e o Tempo. Só que neste poeta o ser se materializou na figura do pai, por exemplo, e o tempo nos vários episódios da vida e da infância. Sim o título do livro tem a sua razão, não é só ironia, fixa o antropos, a humana existência de que os poemas vão dando conta, para que não se esqueça.

Friday, June 24, 2022

Verde Esmeralda

Assombro de um verde esmeralda que escorre pela tela abaixo. O brilho é tão intenso,de onde terá vindo? Do céu de Maomé,no seu vôo de ascensão até às altas esferas,no dorso de Burak, a burra alada que o conduz e que o pousou neste espaço sublime, tão especial,onde deverá ser ressuscitado em cada novo ano,com um verde que agora me dão a escolher. Escolher é difícil,nunca Burak alada me levará a mim, embora me tenha deixado este sinal. Se escolho o verde esmeralda o que estarei a escolher? Uma vida feliz de grande contemplação? Ou a morte anunciada? A esmeralda que brilha pode ser fatal.

Saturday, June 04, 2022

Vítor Gameiro Pais, o marco quilométrico 171

Raro dom, o deste poeta-contista, que alterna um género literário com outro, com a mesma subtileza, e nos contos uma verve sempre inesperada. Passo da janela que dá para o sul, poema em que o tempo corre devagar, e o sul, sobretudo de noite "partilha a imensidão" por onde vagueiam cometas, os que de noite (a noite do entardecer da alma) abrem finalmente na casa mais uma memória (a que faltava). É sabido que as casas escondem, em desarrumo, as memórias que mais tarde irão arrumando devagar, quando o tempo permite. Daqui para o conto onde um marco quilométrico - o 171 - marca a distância segura, que permite saber onde se está e o provável tempo de chegada ao ponto onde se quer chegar,netse caso a capital ( mas de que país? ) e já se antecipa com a certeza que o Marco permite,foi um salto, num imaginário irrequieto e que mal acaba uma texto já se pôs a caminho de outro.Chegar ao Marco 171 é um alívio, uma segurança, fica-se a saber o que faltava.Daí a 171 quilómetros se chegará de certeza. Mas aonde, e em quanto tempo? O narrador esqueceu que nada no tempo do que se julga seguro é de verdade seguro. A primeira reflexão é a de tentar saber o porquê de 171; número factual, medido e controlado? ou número se sentido místico, cujo segredo ainda ninguém sabe e torna o narrador ainda mais importante nas suas cogitações. 171: na Kabala seria um 9, e recordando os Lusíadas, um número de grande fertilidade,encontro e renovação dos prazeres amorosos.O número de Vénus, em espendôr, surgindo das ondas na sua concha primordial.Nos escritos homéricos o número 9 tem valor iniciático, ritual.Deméter percorre o mundo durante nove dias à procura de Proserpina, sua filha.As nove musas, nascem de Zeus, o deus supremo. Nove são os meses da gestação, e ligar a gestação ao nascimento, à criação, ao centro gerador de toda a vida existente, na terra como no céu é o mais natural.Resumo, com o Dicionário dos Símbolos da Robert Laffont, que o 9 é o número da plenitude.Passo por cima das entradas inúmeras que percorrem o símbolo nas várias civilizações, orientais, e outras. Regresso à soma da Shekina judaica. 171. Faltaria dizer, que o 7 e o 9 são os números de peso simbólico maior: o dia do descanso, em que Deus contempla a perfeição do que foi criado, e se compraz nela, e o penúltimo,que antecede o 10, o último,e fecha o ciclo que o ouroboros, a serpente que morde a própria cauda, e fecha desse modo o Uno e o Todo que o início dos outros tinham antecipado. O Uno e o Todo.Na Bíblia o número 7 está sempre ligado à universalidade. Há setenta povos na terra...e então não admira que o 171 do narrrador tenha alguma prosápia na sua afirmação...universal mais 1 - que especial o torna, a ele, apenas marco... até que chega a cegonha, inesperadamente. Surge o inesperado, e o inesperado torna-se o centro de tudo. Surge de súbito uma cegonha, vinda não se sabe de onde, e decide pousar, sem pedir licença, no marco tão forte do seu saber. Afinal sabia menos do que julgava..esta é a primeira lição: nunca sabemos, nem saberemos o que julgamos. Um marco - algo de racional e importante: não é vago, como o dentro e o fora do destino. Num poema o destino nunca pode ser partilhado. Num marco, objecto fixo, enterrado, quem tropeça nele tropeça em algo seguro. E o número,neste caso 171, e que o narrador julgava ser o último antes da chegda,afinal não o era. Humilhação: algo que também faz parte da realidade da vida...estaremos perante um "conto de aprendisagem?" Como todos os contos são? A cegonha é descrita como "pesada, incómoda,"grandes patas compridas,a cobrir parcialmente os números do marco". Este chama a atenção para o abuso, mas ela não parecia querer entender. O marco irrita-se: "Ó cegonha, estás cega?Não vês que estás a tapar informação de extrema importância com essas patorras?...Apercebes-te do caos que podes estar a criar na orden naturl das coisas?" A cegonha olhou então para ele e respondeu: " E depois ? o marco seguinte há-de ser o 170 e logo esclarece os viajantes sobre a distância certa." Esta revelação, de que havia outro marco, e que igualmente indicava a distância certa , de que o 171 julgva ser o único possuidor, abalou-o como um tremor de terra.Ele afinal não era o único. Mas pensando melhor, teria um companheiro, e seriam dois a dar indicações preciosas: recuperou o orgulho perdido. Mas a cegonha tinha vindo para lhe destruir todas as ilusões. Falou dos inúmeros kilómetros e marcos que sobrevoava,e contou como só os que fossem capicua lhe interessavam. E eram inúmeros, davam-lhe aquele prazer de serem iguais lidos num sentido e no oposto...Voava e contava todo os dia, até que "pernoitava" no 99.Cá está o 9,a que fiz referência, com o seu corpo redondo, fértil, materno no marco em que pernoita, e quem sabe se é a soma de 171...Repouso, como no ouroboros que se fecha num círculo de eterna repetição da vida Mas fico por aqui, haveria demasiado a dizer e o conto não pode ser desvendado na sua totalidade. Essa parte cabe ao leitor. A moral do conto é que a ilusão de ser único não passa de ilusão, desgosto que afundou o marco de tal modo que desapareceu terra dentro, e os viajantes entre o 172 e o 170 estranham essa falta, mas seguem adiante,outros indicarão o caminho que ainda irão percorrer. Há moral neste conto? Sim a da humildade com que se deve viver, aprendendo que grande é o mundo e múltiplo na sua variedade, e que haverá sempre um marco que nos guie, caso algum de repente nos falte.

Sunday, May 01, 2022

DIA DA MÃE na UCRÂNIA INVADIDA

São velhas e são mães nada sabem dos filhos saem dos seus abrigos perguntam pela guerra alguém lhes trouxe bolachas e manda que se escondam estão perto os inimigos

Sunday, April 24, 2022

DIAMANTE, de António Carlos Cortez

Passo de um conto breve e cheio de misterioso simbolismo (quantas vezes mais terei de voltar a lê-lo...porque se enterra alguém num caixão que é um barco (uma canoa justa ao corpo) e se deixa vogar entre as margens do rio que dividia os espaços da aldeia e sua comunidade familiar,partindo sem explicações e só voltando já velho, e mesmo assim sem que o filho,feito homem o fosse substituir, depois de apelos sem fim). De um conto breve que não decifro, para um livro de poemas em que o título define do que se trata: de uma pedra que também ela nasce das águas de um rio por onde correm muitas outras pedras e mãos apressadas se estendem para as apanhar. Pedras que serão lavadas, olhadas com cuidado (o afinar dos ritmos, do estilo)e depois cortadas com precisão geométrica, calculada, para que de cada face se possa extrair todo o brilho, toda a luz que contém.Falo do mais recente livro de poemas de António Carlos Cortez, cuja obra extensa já é bem conhecida de quem o aprecia e gosta sempre de o ler.Podemos abrir ao acaso e começar a ler: desde logo sobressai da leitura, sobretudo se a fizermos em voz alta, um ritmo camoniano, de pulsar emotivo, correspondendo à emoção expressa no verso que foi escrito. Há algo de lamento, nesse verso, e o ritmo, como numa composição musical, terá de respeitar o secreto compasso.Numa das badanas do livro alguém recorda outro, Jaguar ( escrevi no blog, outrora)e a conclusão de que "a poesia é o eco do vivido". Do vivido e do teorizado vamos encontrando ao longo das páginas e dos capítulos em que o autor dividiu a obra, muita matéria de reflexão. A.C.C. é um erudito, um poeta, crítico literário e professor que se ocupou com cuidado e muito amor da sua língua-pátria e nada mais natural do que encontrar nestas páginas expressões que brilham na escuridão de uma melancolia quase recorrente, e já expressa noutros mais antigos poemas. A epígrafe que abre NO PAÍS DO DRAGÃO,da autoria de Gastão Cruz, seu poeta e amigo de eleiçaão, (infelizmente falecido este ano)resume o queAntónio sente: "acreditar no tempo/o erro mais terrível". Pois Camões já tinha dito, "mudam-se os tempos mudam-se as vontades" e os nossos poetas bem dizem agora, sem problemas e com total entrega e sinceridade, mudam-se os tempos (ou mudam-se os corpos)mudam-se os desejos,e dessa entrega ou dôr pode nascer a arte. No poema TUA VOZ,um belo soneto,onde à voz da amada é devolvida a chama que nela arde, na articulação, nos seus acentos, na sua inflexão em que o poeta se distende, e se desnuda, terminando : "E aqui vem desaguar a tua voz:abertas fricativas, as líquidas que usas para me dares a voz que te cinzela..." (p.21) São variados os poemas em que as referências são linguísticas, como neste que citei, "vogais fechadas, consoantes nítidas, obtusas" ou adiante "abrir vogais" para resgatar "desse dia a outra música"(p.24) mas nunca a perfeição de uma gramática outra que não a poética se impõe na nossa leitura. é um poeta que fala, que procura, e usa o que de melhor tem, a sensibilidade de uma emoção aberta, entregue ao correr dos dias, que por vezes o diálogo com outros lhe permite e amplia (referi Gastão Cruz, mas há Sena,há Ruy Belo,há Fiama Hasse Pais Brandão,semi-escondida, Manuel António Pina, entre muitos).Na verdade, todos partimos de uma herança que pode até ser desconhecida, mas nos corre no sangue, nós que lemos. E António Carlos Cortez, que tem uma indiscutível vocação de erudito que estuda e lê como arte de ser,sempre voltado para o diálogo com outros, partindo ou regressando como quem volta a si mesmo depois de sofrida viagem que só o poema lhe permite evocar,repelir,absorver, talhando assim a pedra que só brilha depois de muito polida pelo que chamarei a dôr da vida.

A terceira margem do rio, de João Guimarães Rosa

Neste conto, da colectânea das Primeiras Histórias, há um homem que sem saber como nem porquê decide enfiar-se numa canoa, ir para o meio de um rio que atravessava a sua aldeia, e nunca mais voltar a terra, vogando por ali, envelhecendo com o passar do tempo enquanto o filho perplexo tentava perceber que decisão e sentido aquilo podia ter.Foram anos assim. Há um sentido oculto, nesta súbita decisão. Não podia ser mero capricho. O homem que fizera essa escolha, deixando para trás mulher e filho, era um homem transformado. Mas em quê ? No guardião do Rio? Por imposição dos deuses, ou do seu íntimo deus, que lhe dera tal missão? Que terceira margem era essa para onde ele se retirara, esse entremeio de vida, que se tornara o único possível? Era um entremeio de pura espiritualidade, pois ele não pescava, para se alimentar das águas,nem ninguém das margens normais lhe enviava regularmente comida.Como Caronte, vivia ali o seu destino eterno, mas sem obrigação de transportar ninguém. O RIO EXISTIA PARA SI, OU ELE SOZINHO E EXCLUSIVAMENTE PARA O RIO. Tratava-se pois de uma viagem, uma travessia da sua vida mais secreta e mais profunda, em que o afastamento das margens separadas era o objectivo da escolha feita: diremos uma busca, que seria bem ou menos bem sucedida, do seu inconsciente, onde o todo do sentido de uma decisão de mudança de vida lhe seria revelada. Passa o tempo, ele é já um velho,de cabelo e barba comprida, desgrenhada, desagradável à vista, a ponto de a dada altura, quando finalmente acede ao apelo do filho, o assusta de morte e o filho não vai ter com ele, foge aterrado para bem longe. Podemos dizer que a união das duas margens (os opostos dos alquimistas) não tiveram ali a união que o terceiro elemento (a terceira margem) teria permitido. Se pensássemo na arquetípica doutrina da alquimia, a terceira margem seria aqui o sal vitae, o sal da vida, sendo as outras duas o enxofre (masculino) e o mercúrio (feminino). Mais símbolos se poderiam procurar na magia oculta deste texto. A questão da terceira margem (invisível aos outros, mas vivida pelo homem) sobrepõe-se à imagem do rio e do seu barco, salientando deste modo a importância de um inconsciente que aspira a manifestar-se e no pleno isolamento e no silêncio que a margem invisível lhe permite assim o fará atravessar a vida. Pois é da vida que se trata, tanto como da morte. A vida, espiritualizada, como no célebre Axioma de Maria, sobre o qual Jung e seus seguidores tanto gostavam de meditar : do um nasce o dois e do dois nasce o três como quatro (ou como quarto, segundo outros). Sendo que o quatro é o número da completude, o número da pefeição, da Pedra sublimada. Leia-se Pedra como vida... Nas margens do rio, a mulher e os filhos, havia um irmão e uma irmã, corria com a normalidade possível. Veio mais família para ajudar às lides da subsistência a vizinhança, por muito que quisesse ajudar não conseguia. Não se falava em loucura do homem que encomendara a sua canoa bem justa ao corpo, bem talhada em boa madeira resistente, canoa que podia ser caixão.O filho preocupava-se com ele. Como se alimentaria, se vestiria nas noites frias, como escaparia a algum bicho maldoso. O filho era seu alter-ego, seu duplo, seu Eu ainda não solto do mim.O homem entretanto envelhecia, a vida era o que o levava para cá e para lá, mas sempre longe, sozinho e mudo, no rio. Pensou o filho: estará ele a cumprir uma Promessa ? Feita no alvor dos tempos? E correu para ele e gritou que já bastva de tanta entrega a tão grande sofrimento, ele, o Filho iria substituí-lo na canoa. O homem pareceu responder e começou a aproximação à margem onde se encontravao filho. Mas o filho não estava preparado para a morte, essa aproximação era o que significava, era a morte, de modo que se assusta e foge, tomado de pânico, e depois se arrepende: pois a morte exige que nos preparemos, mais ainda do que a vida, e daí o apelo fatal dessa terceira margem...

Friday, January 21, 2022

Slavoj Zizek / Mladen Dolar, Opera's Second Death, ed. Routledge, 2002

 Podemos ver no youtube muitas intervenções de Zizek, do maior interesse, em contraponto às do quase místico Peterson. O debate é fascinante, entre dois grandes eruditos, de grande bagagem filosófica, cultural, artística, um cristão e junguiano assumido, outro marxista, materialista e freudiano, um, Peterson, vindo a público vestido com algum formalismo, o outro com ar de quem saiu de casa sem tomar banho, podia estar de pijama, e podia, para não estar sempre a limpar o nariz com a mão, tomar um Kestine, por exemplo. Secava-lhe o pingo sem secar as ideias nem o discurso...

Só agora descobri estes dois contraditórios expoentes de uma nova sensibilidade post-moderna, best-sellers nas vendas, milhões de visitantes no youtube, ambos professores universitários, na relação fácil e directa com a juventude que os segue e interpela com um à-vontade impensável entre nós, portugueses sempre cheios de empáfia que em nada ajuda a que se pense mais e melhor. 

Estes dois ajudam.

Abordei um pouco Zizek no facebook, a partir de um video do youtube em que deixei que exibisse o seu lado mais truculento, não digo libertino mas libertário, que faz a sua sala rir, e rir é sempre saudável, e prende a atenção.

Mas aqui proponho-me falar de uma paixão que ambos partilhamos: a ópera. Ele atira a ópera está morta, como quem diz, já nasceu morta, e agora morreu de vez. 

Não é fácil discutir com a sua enorme erudição, mas tentarei, porque eu, como ele, temos em Mozart e Wagner as óperas preferidas, as ouvidas mil vezes, as estudadas nas várias produções de vários encenadores e vários cantores de excepção - enfim uma matéria infindável de estudo e de prazer. 

Na Introdução, for the love of Opera,  Zizec condena a introdução moderna das leituras psicoanalíticas, freudianas, e a que a imprensa tem reagido mal, e com razão.

A moda de desconstruir o libretto, que marca o século 19 com o aparecimento da obra de Freud, parece indicar que o trabalho está feito e a ópera não faz mais falta, está morta, e a LULU de Berg é o melhor exemplo. Ora o que Zizec vem agora dizer é que a ópera merece melhor do que isto. Retirar o contexto em que a ópera surge, e com que temas, míticos, históricos, simbólicos é despi-la de uma realidade que por alguma razão se tornou universal até aos nosso tempos. Em que fontes bebiam os libretistas a sua inspiração, que os agora encenadores da moda ignoram, alteram para submeter o antigo fascínio a uma ideologia que empobrece? São eles que matam a ópera, não foi a matéria operática que se suicidou.

No caso de Wagner, que Zizec vai buscar, esquecendo agora o ulterior enquadramento histórico do seu anti-semitismo, do entusiasmo por uma ideologia nefasta, alguma razão existe para que a universalidade das suas óperas se mantenha, seja o Tristão e Isolda, seja o Parsifal, bebido sobretudo em Eschenbach (para não falar da Tetralogia). Wagner demonstra, segundo alguma crítica post moderna, um nacionalismo ultrapassado, um anti-semitismo condenável, e para lá disso a idealização de um Homem Superior, o Homem alemão (quem se lembra dos discursos de Fichte à Nação Alemã, apelando a um germanismo idealista que dominasse a corrupção evidente da cultura europeia, cedendo às invasões napoleónicas? ). Mas nada disso impediu, e até hoje, que a marca de universalidade das óperas de Wagner tenha permanecido e nos desafie. Ultrapassam o contexto epocal, histórico, elevando-se a uma outra esfera de uma arte sublime e sublimadora de mitos e fantasmas que a memória arcaica conservou.

E cito Zizec na justificação deste seu livro, que remete também para Lacan:

" A ideia subjacente a este livro, como exercício de leitura de Lacan,  é simplesmente que Mozart e Wagner são as duas figuras-chave na história da ópera e que cada uma delas segue, em níveis diferentes, a mesma trajectória de uma matriz de base (como em Mozart O Rapto de Serralho ou em Wagner O Holandês Voador, através de uma série de variações que culminam numa  letal decepção ( Cosi fan Tutte, Tristan )  para depois a reverterem na ambiguidade da benção de um conto de fadas na  produção final da Flauta Mágica e de Parsifal". 

Escrevi, precisamente, sobre  Mozart e sobre Wagner, muito, ensaios vários em que culmino por razões do seu peso simbólico, maçónico e não só, com a Flauta Mágica e com Parsifal .

A ópera não morre, nem está morta, o que tem sido é mal enterrada por uns e por outros que não se querendo dar ao trabalho de ler, de enquadrar ou libertar mas com sensibilidade e inteligência das raízes históricas mas sobretudo míticas (mas não é o mito, também ele, uma memória arcaica, histórica?) para aí encontrar novo sentido, que é universal e será eterno enquanto o homem vibrar com sentimentos, com esperanças ainda que tantas vezes atraiçoadas? A ópera não precisa, antes pelo contrário, de ser travestida de modernices caricatas que se pretendem feitas de humor ou de desprezo por valores em que não se acredita. Precisa que na fusão do compositor  e do libretista uma outra esfera se alcance, de fusão também com o seu público.

Diremos: o publico de hoje é menos preparado, não é culto, sai aos teatros para ser visto e fazer uma selfie que porá no facebook. Mas para quem na filosofia, na literatura e na arte encontra o seu interesse (para não dizer paixão) de vida, a missão de trazer estes temas à discussão, como se faz nesta obra, é imperativa, para que se desperte o pensamento e a curiosidade. As últimas considerações de Stephen Hawking, num encontro com alunos, pouco antes de morrer foram essas, de que o progresso virá sempre da curiosidade, na ciência (no caso era a astrofísica) como na arte (a arte acrescentei eu). Um artista sem curiosidade pelo que se fez, e pelo que ele mesmo faz, não irá longe. Ficará talvez com menos trabalho, ao contrário de outros, - Wagner tanto se queixou de ter pouco dinheiro para a sua ambição da ópera total - mas não passará de uma mediocridade que depressa o fará cair no esquecimento. Mas já Mozart, ou Wagner, por muito que nos digam que estão fora de moda, ultrapassados, exercem ainda um fascínio que estes autores nos irão explicar.

Dos tempos do nascimento da ópera, a crítica é que era muito mais teatro do que outra coisa. Primeira morte. Errado abordá-la assim, pois nascida de mitos - o de Orfeu, por exemplo, dos mais belos, é errado. Pois no mito a narrativa conhecida tinha de ser vista e recordada, tal como na tragédia antiga acontecia. Ainda havia uma aspiração de catarse, de identificação, que hoje o post-modernismo descarta por completo. Mas lembremos que se estava outrora no século XVI, e não neste século de almas quase despidas de tudo, excepto de uma ilusória arrogância de que se pode fazer tudo o que se queira, desde que se possa...

A herança que nos chega desse passado  é a da curiosidade, da recuperação e da renovação do prazer e do gosto que a arte de fusão total, de imersão na palavra e na música, e até da dança (ainda no século XIX, nos teatros de França, algo de que Wagner não gostava, achava perda de tempo, interrompendo a fusão alcançada). 

O capítulo de que se ocupa Mladen Dolar - A música como alimento do amor - começa por citar reacções de figuras da cultura alemã de grande peso intelectual: Schelling, por exemplo, que afirma que "a ópera era a forma mais baixa da caricatura da mais elevada forma de arte, o teatro grego". Mladen vai buscar um filósofo como Kierkegaard (entre outros) para contrariar esta ideia. Diz-nos que Kierkegaard se deixou fascinar completamente pelo encantamento da ópera, de tal modo que para ele se transformou no paradigma da fascinação estética e sensual, elevando contudo a alma para lá disso tudo  até à esfera da ética e da religião. Por sua vez Nietzsche também viu, durante um tempo, em Wagner um mesmo projecto da mesma natureza, embora posteriormente o recusasse como errado.


Mladen irá, num capítulo adiante (p.50) abordar a ópera na filosofia, com Mozart e  Kierkegaard. 

Foi preciso esperar por uma alma de cristão tão devoto quanto Kierkegaard para que ópera de Mozart, Don Giovanni, fosse tomada de verdade como mito a integrar num horizonte metafísico. Tentar escrever outro Do Juan depois de Mozart seria como tentar escrever "uma Ilíada post-Homérica- porque a versão de Mozart é inultrapassável, conseguindo uma harmonia completa de conteúdo e forma (K.1992:50). E continua Mladen, nunca até aí nenhuma ópera tinha sido abordada com uma reflexão filosófica tão abrangente. Kierkegaard escreveu 150 páginas só a ela no seu estudo Ou/Ou  com uma expressão de lirismo incontornável. Para ele Don Juan é um herói cristão por excelência. Nele se humanizam o bem e o mal, com  sedução do mal, pelo qual se é castigado, enquanto o elevo da música, sempre presente recorda que existe uma transcendência e que com ela tudo se ultrapassa. Para Kierkegaard, diz Mladen (58), foi a filosofia moderna que introduziu a ópera no mundo. Quando a linguagem atinge o seu limite é a música, para lá da linguagem, que ultrapassa os seus limites e não se podendo falar, compõe-se música.



Thursday, January 20, 2022

Nuno Félix da Costa, Fotografia esculpida...


 A Deusa-Mãe esculpida, mão direita no peito e mão esquerda no sexo, com o amante a seus pés. Será morto, depois do encontro fatal da iniciação. É assim que se repete, todos os anos, na gruta oculta de Inanna o rito que permite o eterno retorno à terra fértil, que nasce do sangue derramado. São muitos os rituais arcaicos em que sacrifício e sangue, dos mais belos, mais jovens, mais valorosos heróis como nos Maias, ou na lenda grega do Minotauro - para dar exemplos de civilizações e culturas diferentes - são a base da construção de uma sociedade que se deseja continuada pela repetição de algo que tem a ver com o princípio dos princípios da vida na terra criada por um deus que entretanto se ausentou e incumbiu os humanos de lhe dar continuidade.

Podemos ler em Chrétien de Troyes, no seu Perceval le Gallois o drama da terre gaste, ou no Parsifal de Eschenbach ou de  Wagner a ferida infligida por Kundry a Amfortas, cuja ferida não sara, até que um cavaleiro inocente apareça no seu reino do Graal e faça uma pergunta que será chave de salvação e transformação do reino. Em ambas as narrativas se revela a crueza do Eterno Feminino, devorador de energias que enfraquecem o Homem quando a ele se entrega, sob a forma de mulher (serpente ou feiticeira) sedutora e depois redentora (no final da ópera de Wagner).

O sangue não deixa de estar presente como elemento simbólico, no Perceval: no cap.VII o jovem cavaleiro vê três gotas de sangue que deixou para trás um dos patos selvagens que ele tentou caçar, sem conseguir. O animal ficou ferido, mas ainda assim fugiu. As gotas de sangue no solo gelado de neve daquele acampamento do rei, trazem-lhe à memória o belo rosto da jovem que não consegue esquecer. Adiante se dará o encontro com ela, mas de momento fica ali a fixar aquela imagem do sangue na neve, como a pureza das faces da bela, que o hipnotizam a ponto de quase parecer que adormeceu. De novo um sangue, e uma vida que se irá transformar por completo.

Na fotografia de Nuno Félix da Costa a mulher inclina a cabeça de modo quase terno, maternal, sobre um jovem que parece implorar, ou o seu amor ou a sua compaixão, para não morrer depois de tanta entrega e tanto amor.

Também, pelo misterioso apelo que ali se pressente, poderíamos ver nessa Mulher uma variante da Mater Dolorosa, a Virgem Mãe que sabe, ao aceitar a Graça que o Anjo lhe veio comunicar, que esse Deus-filho que ela aceita e se fará carne humana na sua própria carne, será, por essa razão, sacrificado. Temos nesta fotografia tantas leituras possíveis da nossa humanidade e do nosso imaginário mítico e simbólico. 

O Homem aos pés da Mulher pode ser Rei (Jesus glorificou-se como Rei dos Judeus, Cristo no Reino dos Céus) tanto quanto pode ser uma criatura em rito sacrificial, oriunda das memórias arcaicas mais distantes, sem que nada se perca da sua força inicial - a do desejo - que também ali se adivinha no encontro dos corpos materializados.

Representação de leitura aberta, mas que no secreto mistério que a envolve apeteceria ver esculpida para ser exposta num museu. A obra de fotografia artística de Nuno Félix, poeta e pintor, merecia estudo e destaque.


Monday, January 17, 2022

Jordan B. Peterson, Beyond Order, ed. Penguin, 2021

 Nesta obra Peterson dá seguimento a um anterior volume, em que propõe igualmente 12 regras de vida, mas desta vez ampliadas a mais temas, que passam inclusivamente pela dôr, pelo sofrimento no limite do inaceitável, e de como ultrapassar tais situações. Escrevi na altura em que li algumas considerações no facebook, sobretudo nas que tocavam no efeito curativo da arte, da relação com a pintura, com a música, ou a literatura. A arte como esfera de elevação do eu a um outro patamar em que o sentido da vida, mesmo em pleno sofrimento,  podia ser recuperado.

Peterson considera que a súbita descoberta dos valores morais e religiosos do cristianismo, melhor, do catolicismo, que desconhecera até esse momento difícil da sua vida, pessoal e familiar foram mais do que uma ajuda preciosa um quase milagre.

Dirige-se ao seu numeroso público do youtube quase em lágrimas, profundamente comovido, para confessar o que sente: espanto perante uma fé que vive  e não entende. Pede que não lhe perguntem se acredita em deus, mas afirma: tento viver como se deus existisse. Por outras palavras, o que nos diz é que devemos valorizar a ética, nos nossos comportamentos, não pregar aos outros o que não praticamos, porque religião ou moral de boca não é algo de genuíno que deva ser respeitado, e temos de ser exemplares para que nos respeitem. 

Podemos achar por vezes, no livro que agora leio, um certo estilo americano de simplificação de matérias tão complexas como esta da religião e da fé, para que o grande público, menos culto, o possa acompanhar no que pretende dizer. Mas no essencial a sua mensagem, tendo na psicologia o modelo de Jung, de valorização do espírito e da alma, leva-nos a prestar mais atenção ao mundo dos arquétipos, dos mitos e dos símbolos, como matéria prima para o nosso enriquecimento pessoal, e de quem nos rodeia, numa sociedade doente, materialista, sem valores que não sejam o do prazer e do ganho imediato. 

Tarde ou cedo a hipocrisia do ganho imediato nos fará pagar caro, no mundo, essas escolhas erradas. Depressões, fome, miséria, será esse o destino de um planeta que ajudámos a destruir, quando precisava de ser salvo.

Peterson escolhe muitos exemplos da Bíblia, e dos muitos livros que leu e fundamentam o seu discurso erudito. Fala, sabendo do que fala. Estudou a filosofia ocidental desde os primórdios dos gregos, dos pré-socráticos a Platão. Podia dar muitos exemplos, de como o antigo pensamento levou ao conhecimento que hoje é valorizado, e estrutura a cultura do ocidente.

Mas aí entra a nova reflexão, dos valores do cristianismo, uma nova moral, exigente e exigindo um novo comportamento, de respeito e entrega ao outro, amando o outro como a si mesmo. Uma das regras de que nos  fala Peterson é essa do olhar generoso, que perdoa, mais do que castiga, que se concentra no estudo de si mesmo para alcançar maior perfeição, sabendo embora que o caminho para a perfeição será sempre difícil, sinuoso, que passa por não fazer o que se detesta, como ele diz, e por abandonar o vício da ideologia, que reduz, não amplia, o carácter de cada um no seu modo de vida em sociedade.

No fundo, nestas regras que propõe, exige coerência entre o discurso e os actos, o pensamento doutrinal e a prática, que deve passar também pelo perdão, como em Jesus Cristo, modelo da mudança universal que se deseja. A última das regras proclama: " Sê grato, apesar do sofrimento".

Sunday, January 02, 2022

Poema do Bom Pão

 Terei tempo de dizer

não o que foi

mas o que é

e que eu ainda queria?

Um tempo tão controverso

em situação tão adversa

a tudo o que possa pensar

perder tempo a desejar

sei que é um tempo perdido

e quem deseja perder

o que já não faz sentido?

Desejar é um castigo

falemos então verdade

passou esse tempo antigo

a nossa porta fechou-se

o tempo é nosso inimigo

está lá por trás escondido

com a sua foice fatal

que por enquanto não vemos

mas terá o seu momento

outrora não era esse

o tempo que nos cabia

podíamos sonhar um outro

novo ano novo dia

campo dourado de trigo

pão da vida mais à frente

tudo era consentido

mas será que sobra tempo

e direi o que queria ?

Que o trigo já foi ceifado

e o bom pão já foi comido...

(2 de Janeiro, 2022)