CARTA A UM JOVEM
Não te iludas
o mundo não começou
quando nasceste
nem acabará
quando morreres.
O mundo é um sem fim
um infinito
de formas variadas
algumas serão deus
tu és um grão de areia
que se perde
na onda mais profunda
CARTA A UM JOVEM
Não te iludas
o mundo não começou
quando nasceste
nem acabará
quando morreres.
O mundo é um sem fim
um infinito
de formas variadas
algumas serão deus
tu és um grão de areia
que se perde
na onda mais profunda
Quem,
a não ser Ele
o Anjo da Anunciação
poderia ter ajudado
àquele parto solitário
cortando o cordão de um sangue
de Vida eterna
que a Virgem ainda tinha
fechado no seu ventre?
O Anjo selou essa porta
à qual se acederia por caminhos
de pedra, corações feitos pedra,
lágrimas feitas pedra
enquanto o sangue contido
lhe travava o caminho a Ele
o Escolhido
para a sagrada Anunciação...
Maria já não chorava,
essa água bendita
como fora o seu ventre
já perdera o sentido.
Nos seus braços abertos
o seu Filho morria
e o Anjo emudecido
buscava novas pedras
que fossem corações
feridos
sangrando ainda
pelo mundo perdido
que o parto não ajudara.
Um enorme cordão
ligado ao ventre do universo
pendia agora entre as estrelas
que Maria saudara, quando o Anjo
falou. Disse as palavras
que eram procuradas, mas noutra língua
não era a língua sagrada.
6 de Janeiro, Dia de Reis, 2026
O Capitão Ahab
Entre as profundas ondas da terra e do mar
da infância pequena protegida,
ovelha num rebanho que um pastor com o seu cão
ia guiando
até aos grandes sonhos que a vida permitia
afinal eram apenas sonhos, ilusões de uma realidade
fingida embora desejada, a pesca da baleia inacessível
apesar de tantas vezes arpoada, sempre a perder um
sangue indescritível, que o cosmos reconstituía
se refazia no fulgôr de um vulcão, erguido longe
no mar e devolvia as forças ao velho capitão
insistente, indomável à proa do seu barco
que um dia só ele afundaria.
Freud, por outras palavras.
De Teolinda Gersão, Autobiografia não escrita de Martha Freud, ed.Porto Editora, 2024
Numa bela edição, design de Susana Cruz, e letra boa de se ler, sem esforço que cegue. A Imprensa Nacional devia dar atenção a este pormenor, de uma letra boa e cuidada.
Teolinda Gersão, sendo uma Académica experiente, nunca brincaria às biografias ficcionadas. Podemos esperar que este livro, de título que parece querer brincar com o género literário, não ignore o suporte de leitura prévia e investigação que uma personalidade controversa como a de Freud ainda hoje exigem. Por aí podemos ler em segurança, há um trabalho prévio, de honestidade intelectual, que não desmerece do valor quer de Freud quer da autora.
Escolhe um modo que pode surpreender, de início, mas a que depressa nos habituamos: veste o corpo de Martha, mulher de Freud, assume a sua voz de mulher numa época em mudança e numa altura da sua vida (mais de oitenta anos) em que já não se pode alterar o que se foi. Alguma sensação de alter-ego, numa situação em que se sentiu, por alguma razão, próxima daquela mulher que deu a sua vida a um homem tão influente e que transformou a psicologia da alma em matéria de revolução social, pessoal e por aí em parte política também.
Mas Teolinda tem pressa em chegar à personagem de Martha, a ficcionada e a real, passando por cima de Sigi, o petitnom de Sigmund Freud, prevenindo o leitor que não se ocupará do grande estudioso da mente humana, mas sim da sua mulher, cujo estatuto era ou tinha sido durante anos apagado, até à publicação das cartas em edição completa, onde ela se afirmava de carácter tão forte como o dele e merecia um lugar não igual, mas igualmente importante.
É depois da sua morte que finalmente vibra, gozando uma liberdade até esse momento raramente sentida. A obra dele e ele era acima de tudo a sua obra, tinha devorado em parte o que podia ter sobrado para Martha. Mas naquele tempo, como em tantos casos ainda hoje, a mulher era acima de tudo o pilar da família, esperando-se dela o ser boa dona de casa, mulher, mãe, e perfeita na relação com o seu marido - o dono e senhor de que por vezes a mulher, sem nada dizer, se sentia cansada.
Nos romances que agora se escrevem nota-se a evolução dos tempos, a liberdade assumida, mas menos vezes o cansaço da aceitação submetida. Martha, agora que se sente livre e dona de si mesma e do seu destino - mas tem mais de oitenta anos - decide então falar da relação que moldou a sua vida nesta série de relatos que recupera das cartas que escreviam um ao outro, ela e Sigi.
Teolinda refere, na nota prévia, que leu muito enquanto preparava esta publicação e sobretudo a correspondência de uns e outros. Notei a falta da publicação das cartas que Freud e Jung trocaram entre si, abordando situações (algumas amorosas, no exercício das sessões de psicoterapia) e conceitos que viriam a alterar a sua relação de amizade, entre eles o de inconsciente colectivo que trazia à superfície os casos onde se adivinhavam símbolos e mitos primordiais, que levaram Jung a uma visão da psique diferenciada, que Freud não entendia ou não queria entender porque em parte lhe roubaria espaço no meio médico e social a que ambos pertenciam.
Hoje penso que o pensamento de Jung lhe levou a melhor.
Mas nada disto interessava à viúva, uma Martha agora leve e liberta de todas as anteriores restrições sociais e familiares. Não gostava de Anna, a filha continuadora fiel da obra do pai e nunca lhe entregaria o manuscrito que agora preparava, pois ela o rasgaria de imediato. Adiante talvez venhamos a saber porquê. São sempre complexas as relações entre mãe e filha, mais do que entre filha e pai, talvez este tema não seja abordado, porque afinal há mais na vida recuperada de Martha.
Oiço Ravel
a eterna Sagração da Vida
os segredos os mistérios
a pulsação secreta
por enquanto escondida.
Cada um leva consigo
a vida que é a sua
a vida que viveu.
As outras
já são vidas entregues,
vidas que os outros vivem
ouve-se Ravel que embala
mas na pulsação dos acordes
nada revela.
Como sempre encontro logo a música subtil que envolve os seus poemas, escondendo alguma imagem secreta, por entre versos de sabor oriental. Saem livros dizendo que a poesia é para comer. Esta podia ser gamba doce, a doçura está lá e é tão boa. Falando de sabores, na verdade eu que não sou muito comilona fico presa ao ritmo, há um lirismo cantável, nestes ritmos, como no modo de tocar que nos hipnotiza em Glenn Gould, que estou a ouvir no Mezzo. Canta as notas que toca, e o Concerto adquire outra magia. Não é Bach, é Chopin, que tocado por Gould se torna igualmente incantatório. Vão leves as suas mãos e não sabemos por onde seguem as notas.
Como estes poemas de MIGUEL SERRAS PEREIRA, um grande do nosso universo poético que leio há muito tempo, e de novo agora tenho em mãos, por gentileza sua.
Um leitor de coisas rápidas, dirá são versos em poemas pequenos, e a nossa fome é grande. Gente que engole à pressa, não saboreia, não sente como Celan, cuja poesia nós apreciamos, que o menos é mais.
No avesso da memória tanta coisa se perde, outras vezes se ganha, embora já diluída, sem lamentos, como em Tanto dá.
É o correr do tempo que por ali está a passar e nos leva para a página seguinte:
Enquanto vamos:
É só a vida tudo o que não temos
e deixamos para trás enquanto vamos
ou nada já nos falta nem buscamos
porque é a vida só o que não temos
O tempo e a vida, na inversão que se pode fazer, contrariando o Ser e o Tempo de Heidegger : o tempo é o ser que tudo atravessa, também nas pregas da memória, a vida é o tempo, retirado nas pregas, no avesso da memória.
Tão agradável a leitura que podemos repetir, sentindo na emoção o que também a nós corre na alma, não o excesso mas a míngua, mais um levíssimo acorde nos finos dedos de Glenn Gould.
Termino, lembrando ao Miguel, que me entenderá, que a memória não tem avesso, ela própria já é o avesso do que foi e será a vida...
Obrigada por esta bela leitura que me proporcionou para o fim de semana.