Literatura e Arte
Thursday, November 05, 2026
Monday, October 19, 2026
DÔR
Paul Celan : Dôr
(para o João Monge)
Dôr é o seu nome secreto
o seu nome escondido
o que nunca se diz
cobre as palavras despidas
do poema desfeito
escorrendo no meio do rio
do Verbo apodrecido
Sunday, October 18, 2026
Em Paz
O Papa recupera bem, veio à janela dizer o Angellus, o anúncio do Anjo a Maria
Agora caiu a noite, tenho a Rosário a meu lado. Vem lá na televisão daqui a pouco o debate Bolsonaro /Lula.
Não sei porquê neste momento sinto-me pacificada.
Com os dias, com a vida que me foi dada.
Sunday, September 27, 2026
INDÍCIOS, de NUNO FÉLIX DA COSTA
Começar pelo título, Indícios.
Isto é, começos e não definições conclusivas. Aberturas de pensamento na consciência que temos deles, nós seres pensantes entregues aos impulsos que o inconsciente impõe. Na bela capa negra o rasgão de luz que uma janela abre, mas ainda assim impede que se fuja, porque o Nuno lhe desenhou um gradeado fino, e com ligeira sombra, apenas perceptível. Mas está lá, tem uma função, a de não deixar que se esqueça a sombra. A sombra é a realidade, como diz noutro sítio, ou como diria Platão é a única realidade que nos é dado conhecer. À pura ideia do real não se consegue chegar, menos ainda à nossa consciência de um Deus criador de que falamos, como aqui se vai falando com grande desconfiança. Existe? Fomos criados por Ele? Se existe por que não se mostra ultrapassando as coisas de que se compõe, o mundo que nos rodeia, as sombras...
Deus, essa grande parede na qual embatemos sem poder ir mais além mais longe, para lá do espelho que nos devolve um real invertido. Disse eu sou aquele que é. E o que é ser isso, é ser o Todo que nos escapa? E por que razão temos imbuído no nosso pensamento essa palavra, Deus? E a seguir o adjectivo, Criador? De um Todo que abarca o Céu e a Terra. Ler a Bíblia ajuda.
Por aqui teremos de caminhar.
O que leva um sábio e poeta a lançar-se e a lançar-nos logo de início contra a difícil discussão da existência de um deus criador, e suas tantas e múltiplas formas, nas várias zonas do mundo desde o primiro dos séculos?
Que desafio.
E não pretende respostas, lança interrogações, incluindo ao próprio deus. Letra pequena, pois são tantos, só o nosso, o de cada um, tem direito a letra grande.
Maior que a discussão de um deus que nunca conheceremos, é a discussão do poema. Essse sim, indecifrável, aberto, que deixa ver, paral á das sombras a luz inevitável que se deixa espreitar por trás de grades e por aí desafia a consciência do que é a luz rompendo as sombras e como chega até nós desde o princípio dos tempos numa imaterialiddade fictícia, que duplas ondas de ser e não ser disfarçam e nos deixam tão sós diante de coisa nenhuma: o sentido que fugiu ao sinal, o esvaziou e nós com ele, não sabermos como enfrentar o que aí vem, o que maldosamente espera por um momento que não podemos adivinhar, escondido num Éden
de frutos enganadores que só a serpente guarda.
Falso o fruto que aponta e deixa que seja comido, do conhecimeto impossível, pois deus vela e só ele sabe o que o Éden por onde passeia, senhor absoluto de uma consciência que só ele detém, que a criou ou deixou que se formasse nem mesmo ele sabendo como.
Nuno atirou-nos para este difícil, senão impossível desafio: deus, que é um entre muitos, nas várias comunidades que ao longo dos tempos se contituíram. e noção da consciência, entre nós humanos, do seu entendimento.
Ocorreu-me ir pelo caminho puramente literário e simbólico das Paroles en Liberte´, Palavras em Liberdade, soltas ao acaso, flutuando no limiar da consciência num vôo aberto e liberto. O que diria isso sobre o deus , agora de um surrealismo modernista? Pouco, brincadeira de um sábio cansado de tanta sabedoria.
Mas este é um sábio especial. Exige pensamento, e pensamento é conscieência e consciência do que é. Não dissera deus, lá atrás eu sou aquele que é?
Nisto devemos pensar. Porque nos leva ao ser, e no fundo o que tem importância é o sentido do ser e da consciência de ser, que aqui nos é trazida à reflexão.
O que faz Nuno Félix da Costa, o sábio, e não o poeta filósofo confrontando-nos com as múltiplas variantes da sua abordagem de deus?. DE todos, de tantos?
O Mesmo que o poeta faz co as palavras em liberdade. Só que neste caso são pensamentos em liberdade.
Soltos, livres, fora de qualquer sitema pré-concebido. Exigindo de nós uma idêntica abertura.
Quando leio que um deus mínimo titubeia pertido numa célula e desse modo vai nascer uma vida, que posso entender senão que é algo de parecido com uma palavra livre de onde brotam os múltiplos sentidosque procuro, dentro do sinal dessa palavra?
"O tempo começa no intervalo dos passos que ignoram para onde se dirigem"...talcomo as palavras iniciais libertas, que vão para todos os lados, ignorantes como esse tempo que nos surge livre e sem destino...
É ssim por estranho que pareça que este livro deve ser lido e meditado.
ideias soltas, consciências que se anulam enquanto se procuram, existências como buracos negros que algum nada preenche ou deixa ao abandono de uma ideia de deus nunca acabado, Não tem fim, não pode ter tido princípio.
Enigmas em eterna sucessão, um rodopio de espantos que sacodem as nossas consciências. Pois, temos mais, muito mais do que uma...
Sunday, September 06, 2026
Thursday, August 20, 2026
O TEMPO
São jovens.
O tempo é longo para eles
não têm pressa
ocupam neste momento
os seus espaços felizes
ali ainda nada lhes falta
nem o amor nem a dôr
ou o prazer
dos sorrisos abertos
das plantas mais floridas
Thursday, August 13, 2026
Manuel Ramalho Ortigâo, Estórias de hoje e de ontem, 2025
Estas estórias que agora leio não são de ontem, são de hoje, no momento em que leio.
Narrativas de mão simples, escorreita, que ajudam muito ao prazer da leitura. Não se alargam sem necessidade, só para "encher papel..." obrigando o leitor a um esforço desnecessário. Este é o modo que mais me agrada e me leva a ler, como quem ouve música do passado e do presente, isto é, eterna na simplicidade dos seus acordes. Debussy, Ravel, uma aparente simplicidade que se transforma no nosso imaginério em algo de misterioso mas necessário...Como uma chuva de estrelas, por exemplo, que sacodem uma noite de Agosto em que nos estendemos ao comprido na praia e aguardamos, para ver, quem sabe ouvir, há música no universo, e de certeza ler para entender.
O que foi o ontem, o que é o hoje, e o que somos, entre um tempo e outro, nós no nosso breve corpo, espaço que nos foi dado e ocupamos sem grandes interrogações. Vivendo, apenas.
Manuel é músico, passou pelo Jazz, o que abre a alma e agora escreveu estas narrativas, que não são contos, nem versos em prosa, são memórias breves que lhe ocorrem e ele põe por escrito. Conhecemo-nos há muitos anos, depois a vida seguiu para cada um outros caminhos e confesso que foi grande alegria este reencontro por meio de um elegante livro, cinzento de tão bom gostoe com a dimensão agradável do número de páginas, e que ele acompanhou com a enorme gentileza de uma carta em que me conta com fomos coincidindo no bairro onde ainda vivo, esplanadas onde me via com o meu marido, mas por timidez, o que lamento, nunca chegou a tomar a decisão do passo em frente para nos falarmos. Falamos agora, para mim é tarde já não vou a nenhuma esplanada a não ser que um filho me venha buscar, mas fica ets gesto amigo de um livro que é todo ele de "família", que cheguei a conhecer. A sua mulher era afilhada de um grande amigo do meu marido.
Além do prazer de uma prosa límpida, o seu livro remete-me para uma reflexão sobre a memória, ou os fragmentos dela, que nos dão este impulso da escrita.
Diz-me que foi lendo o RECOMEÇO, que a Companhia das Ilhas me publicou. Temos por aí um encontro especial. Também eu nesse livro me ocupei com o que da memória dos dias me ia ocorrendo. O Manuel, nascido em 1950, é tão mais novo do que eu sou ou era o Binau, meu marido, nos tempos do Hot Club da Praça da Alegria.
Mas a idade não deve separar, e a prova é que há gostos comuns, empatias no meio dos silêncios e eis-me a recuperar um tempo perdido, como Proust, pela mão deste autor nas suas narrativas. Fala-me da sua neta Veroca, como eu também tenho e assim lhe chamo, ela é hoje uma pintora de quase trinat anos, a dele é ainda um bébé de um ano, fase deliciosa de crescimento...tenho 15 netos. Primeiro vieram as meninas, depois os rapazes. Hoje tudo gente crescida, nos estudos, no trabalho. Desejo ao Manuel as maiores felicidades a ver crescer, entre música e livros a sua neta Veroca. Correm bons genes na sua família, penso na correspondêncis que de vez em quando releio de Eça e Ramalho Ortigão, uma tão afiada caricatura de um país, caricato ainda hoje. Manuel diz-me que esteve em Londres a viver, mas depois regressou a Portugal e eis-nos agora vizinhos.
Os portugueses são assim, partem mas regessam temos nós todos um apurado sentido de família, e assim é em Portugal que voltamos a viver, o sentimento da saudade é grande, vi isso acontecer com o meu pai, quando fomos para a Argentina e ele acabou por regressar apesar do seu anti-salazarismo, que nunca perdeu e lhe causou sempre grandes problemas.
O Manuel teve a gentileza de marcar algumas das narrativas para eu ler, entre elas a do Jazz. Mas leio tudo, embora não escreva, porque luto com um computador que faz o que lhe apetece, muda o tamanho da letra, diz-me que não ficaram as updates, etc. Fala comigo, mas eu não sei falar com ele. Sou de outro século...
Descubro então, enquanto leio, que esta é uma verdadeira autobiografia, de alguém a quem a vida concedeu o dom do amor atento e daí generoso, à famíçia onde nasceu, com quem viveu e a que fez crescer à sua volta. Talvez por ter e manifestar uma tão feliz entrega, lhe tenham os deuses concedido a benção de muitas filhas, as mulheres são tão diferentes dos homens, elas atentas, eles desprendidos à medida que crescem. O Manuel, um pai entre filhas, como ele diz, e agora entre netas que começaram a nascer.
Fala muito de si, no meio do que o rodeia e observa e de um modo que é mais de conversa informal, à mesa das refeições, ele ocupou-se das compras, elas se calhar ajudavam a apurar algum prato especial na cozinha. Pelo meio a história das peúgas, que elas lhe roubavam e que ele acabou por reservar num conjunto comprado só para elas e arrumado numa das gavetas de baixo da sua cómoda grande, onde tudo cabia.
Não vou resumir o livro, mas recordo apenas como uma verdadeira autobiografia nos revela tudo o que há numa vida, e nos ajuda, quando assim escrita, com uma quase displicência de humor subtil e prazenteiro, a olhar também o que temos na nossa vida.
A maior qualidade, agora que penso nisso, é que este livro de e para a família, nos inclui, é um livro generoso.