Um livro de poemas que acabo de ler, todo atravessado pelo amor de uma única mulher, foi realidade ou ficção para leitor ler?
O mesmo me deixa a interrogação que se cola nos poemas de amor, era desejo o que o poeta sentia? E afinal o que se pode dizer sobre o desejo amoroso?
O que é o desejo?
Um impulso feito de uma química especial que aproxima subitamente as pessoas? Duas pessoas?Mais?
É selvagem o desejo, com resquícios da distante Idade da Pedra? Um corpo que vandaliza outro, sem mais, ou algo que se suaviza e se transforma em amor.
O desejo leva a que se fale de amor, e não de desejo, com o passar de um tempo partilhado, vivido de modo pleno em conjunto, durante uma vida inteira ou pelo menos alguns anos. O amor tem medida, o desejo não tem.
O livro deixa-nos com esta interrogação - desejo, embora diga amor?
O desejo é obscuro, no seu impulso, o amor tem claridade.
Faz pensar tanto quanto sentir. O amor é sentimento. O desejo é paixão. É rápida a paixão, é lento o sentimento do amor. É paciente.
Pensei em trazer para aqui duas obras de amor e morte, que são de leitura eterna, a medieval, de Tristão e Isolde (que inspirou Wagner) e a renascentista de Shakespeare, Romeu e Julieta.
Mas em ambas, o desejo e o amor fatal, a trama deve-se a uma confusão, uma situação que induz a falsa morte de um dos amantes, morrendo desguida o outro e por fim os dois.
Não é de morte que se trata neste conjunto de poemas, mas de desejo e amor consentido, de entrega de corpos que tiveram a rara felicidade de poder consumir-se na mesma chama que os atraiu.
Há coincidências felizes. Paro de ler e vejo na talevisão um bailado cujo título AS PALAVRAS e o ESPAÇO se aplicam tão perfeitamente à substância do que leio:
As palavras são o tempo do poeta, do poema, o espaço é o corpo da amada, entregue e disponível para que nele se refaçam vezes sem conta o desejo e a vida.