DEMÉTER
Não somos pó
somos terrra
assim o afirma Deméter
a deusa que guarda a natureza
no seu verdadeiro esplendôr
quer a filha de volta
mas inteira
apesar da treva que a levou
e tanto amor...
DEMÉTER
Não somos pó
somos terrra
assim o afirma Deméter
a deusa que guarda a natureza
no seu verdadeiro esplendôr
quer a filha de volta
mas inteira
apesar da treva que a levou
e tanto amor...
Quando eu morrer
não perguntem
de que roupa gostava mais
nunca fui muito de roupas
eu era mais livros, quadros,
e cores musicais
nada que se metesse num caixão.
Quem me lavar
embrulhe-me depois num lençol
branco, limpo
sem arrebiques
que eu nunca fui de arrebicar
e deitem-me no caixão
madeira pobre que descerá à terra
com a tampa bem fechada
para a ocasião.
Sá-Carneiro para Fernando Pessoa
Eu não sou o eu nem sou o outro
nunca soube o que sou
ou o que era
como vim
como vou
que asas são estas que me deram
e agora me levam
já cozi o seu ovo
e já fiz o café
diz Rosário a brasileira cuidadora
é adeus até ao próximo fim de semana
dá-me um beijo na testa
fique bem, sim?
poderá ser o último
um adeus carinhoso
de manhã bem cedinho
quando o que eu quero é dormir
sem pensar, apenas respirando
entre as dores de mais uma onda de calor
começa hoje
quem sabe se entretanto é na onda que morro
com ar condicionado
enterro a cabeça na almofada
respiro
não penso
quem sabe se é assim mesmo
que parto para mais um dia
que não entendo mas ainda assim
enfrento...
O Vento
Para a Minnie e o Manuel do Rosário
que caminham e ajudam os outros a caminhar
Caminhar contra o vento
enquanto o vento sopra
e faz correr
a água transparente
pelas pedras mais lisas do regato
macias de tão lisas
e abrindo os espaços
que a vida lhes pedia
António abriu uma das suas conferências com a frase de Jesus :
Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida.
Cada afirmação um desafio ao nosso pensamento.
O Caminho, não um caminho.
Qual éntão o que Jesus nos lança como desafio para poder seguir em frente, a caminho da Verdade e da Vida? Nascemos e parece fácil, no calor do colo da mãe. Mas crescemos e tudo é caminho, oportunidade, dispersão, divertimento. Em adultos os apelos são muitos, não se descortina um sinal, um sentido, como no trânsito a seta do sentido único. São múltiplos os sinais, os sentidos, é tudo oferecido parecendo solução imediata e fácilmas não ficamos perto da Verdade. E que verdade seria, senão uma distracção, mais uma entre tantas? Desviamos ou somos desviados a cada passo para cada vez mais longe do que poderia ser, ou não, a verdade ansiada. Caminhos de escuridão, como no Hades. Labirintos que assustam, não ajudam. Falta uma Ariadne que nos guie com o seu novelo infinito.
Faz falta maior atenção: Jesus disse EU sou o caminho, a Verdade e a Vida. EU, logo não procuremos mais, Ele é o que devemos seguir, atrás dele devemos continuar, nele se encontram a verdade e a vida desejadas.
Mas a ele, como encontrá-lo? Onde está, o que faz, na sua materialidade que possa ser encontrado? Porque já percebemos, na nossa reflexão, que é mesmo só na sua Espiritualidade que poderemos encontrá-lo.
Uma vez encontrado, está feito o Caminho.
Mais difícil é meditar e entender o que se passa com a Verdade.
Verdade, cada um tem a sua...
Daqui em diante sugiro a leitura da apresentação do António Caeiro, que vou seguir depois.
Podemos falar da Vida sem passar pela Verdade? Cada Verdade sua Vida? Voltamos às escolhas múltiplas ou ficamos num único caminho, o escolhido? E faremos o esforço de procurar entender a razão dessa escolha? E ra ou parecia fácil, estava ali mesmo, oferecida por uma IA mais veloz? E Jesus, no meio destas reflexões, qual era o seu papel de verdeiro Mestr e Guia neste nosso caminho? Teria que ser afastado, ou aceitaríamos, para a longa travessia espiritual tudo o que por ele fosse dito, melhor sentido?
Perplexidades, muitas.
E a dificuldade da escolha.
A decisão e a obediência. Mas sem crença? Sem fé?
SEREIA.
ela canta com as baleias
ela canta com os golfinhos
na sua voz escondidos
todos os cantos marinhos...
Para a Maria João e o Mário Laginha