Literatura e Arte
Thursday, March 12, 2026
Wednesday, March 04, 2026
Raúl Perez, desenho a tinta, sem título
Olhando de repente para este sugestivo desenho a tinta sobre papel, ocorre-me um título Crematório. A imagem da cara sobre uma tábua que pode ser base de um caixão, com o fumo em forma de árvore a sair da boca, um diabinho (os cornos) espreitando já do lado esquerdo da folha de papel - que mais poderia ser, esta magnífica reprodução do corpo, ou mesmo da alma (os surrealistas têm um humor muitas vezes cruel) a caminho da sua fogueira eterna?
Por ser desenho torna-se mais leve e misterioso o traço que sugere um caminho, o que seria impossível num quadro a óleo, de um Salvador Dali, por exemplo. Dali é muito explícito, Perez conserva uma discreta subtileza que atrai e nos obriga a pensar.
Em que se pensa, meditando sobre este desenho? Nos percursos da morte, que se calhar não decidimos, como não decidimos da vida.
O fumo que sai da boca do corpo estendido é uma futura árvore ou um sopro de futura vida?
Tuesday, February 17, 2026
Carta a um jovem
CARTA A UM JOVEM
Não te iludas
o mundo não começou
quando nasceste
nem acabará
quando morreres.
O mundo é um sem fim
um infinito
de formas variadas
algumas serão deus
tu és um grão de areia
que se perde
na onda mais profunda
Saturday, February 14, 2026
Tuesday, January 06, 2026
O ANJO
Quem,
a não ser Ele
o Anjo da Anunciação
poderia ter ajudado
àquele parto solitário
cortando o cordão de um sangue
de Vida eterna
que a Virgem ainda tinha
fechado no seu ventre?
O Anjo selou essa porta
à qual se acederia por caminhos
de pedra, corações feitos pedra,
lágrimas feitas pedra
enquanto o sangue contido
lhe travava o caminho a Ele
o Escolhido
para a sagrada Anunciação...
Maria já não chorava,
essa água bendita
como fora o seu ventre
já perdera o sentido.
Nos seus braços abertos
o seu Filho morria
e o Anjo emudecido
buscava novas pedras
que fossem corações
feridos
sangrando ainda
pelo mundo perdido
que o parto não ajudara.
Um enorme cordão
ligado ao ventre do universo
pendia agora entre as estrelas
que Maria saudara, quando o Anjo
falou. Disse as palavras
que eram procuradas, mas noutra língua
não era a língua sagrada.
6 de Janeiro, Dia de Reis, 2026
Sunday, December 28, 2025
O Capitão Ahab
Entre as profundas ondas da terra e do mar
da infância pequena protegida,
ovelha num rebanho que um pastor com o seu cão
ia guiando
até aos grandes sonhos que a vida permitia
afinal eram apenas sonhos, ilusões de uma realidade
fingida embora desejada, a pesca da baleia inacessível
apesar de tantas vezes arpoada, sempre a perder um
sangue indescritível, que o cosmos reconstituía
se refazia no fulgôr de um vulcão, erguido longe
no mar e devolvia as forças ao velho capitão
insistente, indomável à proa do seu barco
que um dia só ele afundaria.
Freud, por outras palavras.
De Teolinda Gersão, Autobiografia não escrita de Martha Freud, ed.Porto Editora, 2024
Numa bela edição, design de Susana Cruz, e letra boa de se ler, sem esforço que cegue. A Imprensa Nacional devia dar atenção a este pormenor, de uma letra boa e cuidada.
Teolinda Gersão, sendo uma Académica experiente, nunca brincaria às biografias ficcionadas. Podemos esperar que este livro, de título que parece querer brincar com o género literário, não ignore o suporte de leitura prévia e investigação que uma personalidade controversa como a de Freud ainda hoje exigem. Por aí podemos ler em segurança, há um trabalho prévio, de honestidade intelectual, que não desmerece do valor quer de Freud quer da autora.
Escolhe um modo que pode surpreender, de início, mas a que depressa nos habituamos: veste o corpo de Martha, mulher de Freud, assume a sua voz de mulher numa época em mudança e numa altura da sua vida (mais de oitenta anos) em que já não se pode alterar o que se foi. Alguma sensação de alter-ego, numa situação em que se sentiu, por alguma razão, próxima daquela mulher que deu a sua vida a um homem tão influente e que transformou a psicologia da alma em matéria de revolução social, pessoal e por aí em parte política também.
Mas Teolinda tem pressa em chegar à personagem de Martha, a ficcionada e a real, passando por cima de Sigi, o petitnom de Sigmund Freud, prevenindo o leitor que não se ocupará do grande estudioso da mente humana, mas sim da sua mulher, cujo estatuto era ou tinha sido durante anos apagado, até à publicação das cartas em edição completa, onde ela se afirmava de carácter tão forte como o dele e merecia um lugar não igual, mas igualmente importante.
É depois da sua morte que finalmente vibra, gozando uma liberdade até esse momento raramente sentida. A obra dele e ele era acima de tudo a sua obra, tinha devorado em parte o que podia ter sobrado para Martha. Mas naquele tempo, como em tantos casos ainda hoje, a mulher era acima de tudo o pilar da família, esperando-se dela o ser boa dona de casa, mulher, mãe, e perfeita na relação com o seu marido - o dono e senhor de que por vezes a mulher, sem nada dizer, se sentia cansada.
Nos romances que agora se escrevem nota-se a evolução dos tempos, a liberdade assumida, mas menos vezes o cansaço da aceitação submetida. Martha, agora que se sente livre e dona de si mesma e do seu destino - mas tem mais de oitenta anos - decide então falar da relação que moldou a sua vida nesta série de relatos que recupera das cartas que escreviam um ao outro, ela e Sigi.
Teolinda refere, na nota prévia, que leu muito enquanto preparava esta publicação e sobretudo a correspondência de uns e outros. Notei a falta da publicação das cartas que Freud e Jung trocaram entre si, abordando situações (algumas amorosas, no exercício das sessões de psicoterapia) e conceitos que viriam a alterar a sua relação de amizade, entre eles o de inconsciente colectivo que trazia à superfície os casos onde se adivinhavam símbolos e mitos primordiais, que levaram Jung a uma visão da psique diferenciada, que Freud não entendia ou não queria entender porque em parte lhe roubaria espaço no meio médico e social a que ambos pertenciam.
Hoje penso que o pensamento de Jung lhe levou a melhor.
Mas nada disto interessava à viúva, uma Martha agora leve e liberta de todas as anteriores restrições sociais e familiares. Não gostava de Anna, a filha continuadora fiel da obra do pai e nunca lhe entregaria o manuscrito que agora preparava, pois ela o rasgaria de imediato. Adiante talvez venhamos a saber porquê. São sempre complexas as relações entre mãe e filha, mais do que entre filha e pai, talvez este tema não seja abordado, porque afinal há mais na vida recuperada de Martha.