Monday, February 19, 2024

AD TREVAM

  AD TREVAM

in memoriam NAVALNY

 

Todo o planeta explode

na semana

em que começa

o caminho das trevas

no mar erguem-se

as marés furiosas

afundam-se as florestas

e a terra estremece

como já tantas vezes

outrora aconteceu

perdidos caminham

os homens sem sentido

ao verem como caem

os homens bons

os justos

que ainda guardavam

uma esperança

mais uma vez adiada

o que farão os outros

os que esperam

será que ainda lutam

na treva

pela luz anunciada?

 

18 de fevereiro

Sunday, January 28, 2024

VIERAM

 

VIERAM

vieram

não os chamei

mas vieram

os espíritos

estavam guardados

entre as pregas da vida

e muito esfomeados

não os chamei

mas vieram

agora vão saciados

Thursday, January 04, 2024

Revista NERVO

 A revista NERVO, de literatura e arte, editada por Maria F. Roldão, abre o ano de 2024 com uma capa de Nuno Félix da Costa: foto de Fernando Pessoa em frente (enfrentando? ) do Coelho de Alice. Tal como nos desenhos que ilustram a primeira  edição de Lewis Carroll, aqui o coelho é da altura de Pessoa. Um frente a frente simétrico, embora se pressinta que toda a simetria se esgota aí. Serão muito diferentes, nesta fotografia, embora no livro de Carroll o coelho possa ser considerado o condutor de Alice, que vai correr atrás dele até cair na sua toca, um poço de mistério profundo onde tudo pode acontecer e vai acontecendo. Alice, com o coelho, vive uma série de peripécias que a fazem crescer ao longo de uma narrativa que todo o tempo surpreende. Pessoa, pelo contrário, frente ao coelho não deixa de se revelar homem crescido, sisudo mesmo, e quem sabe se incapaz de toda e qualquer aventura que surpreenda, como as de Alice.

O que levou então o autor, neste caso da foto, Nuno Félix, a colocá-los frente a  frente?  E que título se daria a esta obra? Pessoa na toca do coelho? Impossível, pois o poeta da Mensagem e da Ode Marítima nunca seria capaz de correr atrás de um imprevisto, ele que sofria de um mal terrível, o da permanente e paralisante interrogação do destino, o seu e o dos outros, no somatório do país e do mundo.

O coelho levou Alice a correr o mundo, da fantasia e da vida. Ela foi sempre andando, por aqui e por ali. Ele ficou sempre parado, inquirindo, é certo, mas os mistérios nunca se lhe revelaram. Alice, podemos dizer que foi de certa maneira iniciada com a intervenção do coelho. Já Pessoa desejou profundamente uma iniciação que não chegava. As correrias do coelho, que se dizia sempre atrasado (até chegar à Rainha de Copas) não eram as de Pessoa, que podemos dizer com justiça que esteve sempre adiantado e foi sempre adiado no seu desejo profundo, talvez por isso mesmo. O coelho era prenda de crianças ainda em desenvolvimento, emocional (e sem querer ofender leitores mais sensíveis) e sexual. O coelho da reprodução, necessidade da espécie. De frente para o sisudo Pessoa, escolhido por Nuno Félix, percebe-se que o condena, por ser um pensador abstinente. Por sua vez o ar de Pessoa não disfarça como as correrias do coelho o deixariam ainda mais quieto e indiferente.

Não era homem de pressas, e os desvarios de um Álvaro de Campos não eram mais do que isso : excitação puramente intelectual, quem sabe se com algum desejo oculto de escandalizar o burguês do seu tempo, mas na prática não o levando a mexer-se da cadeira, ou do encosto à cómoda onde gostava por vezes de escrever em pé, como Montaigne no seu castelo. Pessoa o pensador, frente ao coelho reprodutor, está dito. Vendo bem, o coelho assusta tanto, quando olhamos para ele, como Pessoa, o venerado poeta. Não há riso, naquela foto. E sabemos que Alice, na sombra, se interroga por trás de ambos. 

Alusão a uma Anima que embora ausente da foto se vai manifestando através deles? Um sinal que ao contrário do que afirma Hoelderlin está mesmo carregado de sentido?

Félix deixa-nos então à mercê não de uma resposta ao desafio, mas de uma pergunta, quem sabe sem resposta. 

Mais fácil é compreender as duas outras ilustrações, com ouras duas fotos, Pessoa e Camões frente e frente. Na primeira entrepõe-se entre Pessoa e o seu sonho de Super-Camões um corpo de mulher, oferecida, de costas. A lição é directa não haverá mulher, nem corpo tentador que se interponha entre Pessoa e o seu sonho. Na segunda foto já nem sequer a mulher está presente. O desejo do feminino, se alguma vez existiu, foi apagado.   







  

  

Wednesday, December 27, 2023

Agnus Dei

 

Agnus Dei

(ouvindo o Requiem de Mozart

 Era o cordeiro de Deus

mas não foi salvo.

Deus não interrompeu

o sacrifício

do filho bem-amado

o sangue teria de escorrer

para que o corpo fosse

transformado

e o Adão primordial

pudesse ter perdão

Saturday, December 16, 2023

 Na Quinta das Lágrimas

 De novo se pode amar

naqueles jardins

as árvores tão antigas

ainda carregam memórias

mas há sombras e recantos

no espaço mais alargado

que tornam a fonte feliz

depois do amor derramado

outrora foi côr de sangue

foi uma dôr do passado

agora é só luz e beleza

jardim de amor encantado

 

Y.K.Centeno

(Para a Cristina Castel-Branco

 16 de Dezembro, 2023)

Thursday, November 30, 2023

 

Yuja Wang e Gautier Capuçon

(O Cisne de Saint-Saens)

 

Na água adormecida

desliza o Cisne

de pena branca

sedutora e suave.

Vem buscar a Amada

que ali não o esperava

e quando ele chega

e se revela Deus

já não a encontra ali

já tinha sido levada

por uma asa mais negra

inesperada

 

1 de Dezembro, 2023

Tuesday, November 28, 2023

 Granada

I

Em Granada de noite

junto aos jardins do Alhambra

os jovens que se amam

tão quente ainda e tão suave

o momento que em breve

cessará

caindo noutro tempo

II

É tão fria a velhice

o sangue não circula

o coração não bate

não existe o desejo

que já nem é memória

da emoção perdida

naquela noite quente

tão suave de outrora


Y.K.Centeno

 5 de Dezembro, 2023