Wednesday, March 04, 2026

Raúl Perez, desenho a tinta, sem título

 Olhando de repente para este sugestivo desenho a tinta sobre papel, ocorre-me um título Crematório. A imagem da cara sobre uma tábua que pode ser base de um caixão, com o fumo em forma de árvore a sair da boca, um diabinho (os cornos) espreitando já do lado esquerdo da folha de papel - que mais poderia ser, esta magnífica reprodução do corpo, ou mesmo da alma (os surrealistas têm um humor muitas vezes cruel) a caminho da sua fogueira eterna?

Por ser desenho torna-se mais leve e misterioso o traço que sugere um caminho, o que seria impossível num quadro a óleo, de um Salvador Dali, por exemplo. Dali é muito explícito, Perez conserva uma discreta subtileza que atrai e nos obriga a pensar.

Em que se pensa, meditando sobre este desenho? Nos percursos da morte, que se calhar não decidimos, como não decidimos da vida.

O fumo que sai da boca do corpo estendido é uma futura árvore ou um sopro de futura vida?


Tuesday, February 17, 2026

Carta a um jovem

  

CARTA A UM JOVEM

 

Não te iludas

o mundo não começou

quando nasceste

nem acabará

quando morreres.

O mundo é um sem fim

um infinito

 de formas variadas

algumas serão deus

tu és um grão de areia

que se perde

 na onda mais profunda 

 

17 de Fevereiro
no ano chinês do cavalo

Saturday, February 14, 2026


A MÃO

Que não se negue a mão

a quem a pede

na hora de morrer.

A mão daria a paz

que em vida

tinha sempre faltado.

A compaixão obriga

a um perdão

que está a ser pedido

a compaixão obriga

esse gesto da mão

pacifica uma vida

e devolve o sentido

 

Fevereiro, 2026

 

  

 

Tuesday, January 06, 2026

O ANJO

 Quem,

a não ser Ele

o Anjo da Anunciação

poderia ter ajudado

àquele parto solitário

 cortando o cordão de um sangue

 de Vida eterna

que a Virgem ainda tinha

fechado no seu ventre?

O Anjo selou essa porta 

à qual se acederia por caminhos

de pedra, corações feitos pedra,

lágrimas feitas pedra

enquanto o sangue contido

 lhe travava o caminho a Ele

o Escolhido

para a sagrada Anunciação...


Maria já não chorava,

essa água bendita

como fora o seu ventre

já perdera o sentido. 

Nos seus braços abertos

o seu Filho morria

e o Anjo emudecido

buscava novas pedras

que fossem  corações

feridos

sangrando ainda

pelo mundo perdido

que o parto não ajudara.

Um enorme cordão

ligado ao ventre do universo

 pendia agora entre as estrelas

que Maria saudara, quando o Anjo

falou. Disse as palavras 

que eram procuradas, mas noutra língua

não era a língua sagrada.


6 de Janeiro, Dia de Reis, 2026

 

Sunday, December 28, 2025

O Capitão Ahab

Entre as profundas ondas da terra e do mar

da infância pequena protegida,

ovelha num rebanho que um pastor com o seu cão

 ia guiando

até aos grandes sonhos que a vida permitia

afinal eram apenas sonhos, ilusões de uma realidade

fingida embora desejada, a pesca da baleia inacessível

apesar de tantas vezes arpoada, sempre a perder  um

 sangue indescritível, que o cosmos reconstituía

se refazia no fulgôr de um vulcão, erguido longe

no mar  e devolvia as forças ao velho capitão

insistente, indomável à proa do seu barco

que um dia só ele afundaria.



  Freud, por outras palavras.

De Teolinda Gersão, Autobiografia não escrita de Martha Freud, ed.Porto Editora, 2024

Numa bela edição, design de Susana Cruz, e letra boa de se ler, sem esforço que cegue. A Imprensa Nacional devia dar atenção a este pormenor, de uma letra boa e cuidada.

Teolinda Gersão, sendo uma Académica experiente, nunca brincaria às biografias ficcionadas. Podemos esperar que este livro, de título que parece querer brincar com o género literário, não ignore o suporte de    leitura prévia e investigação que uma personalidade controversa como a de Freud ainda hoje exigem. Por aí podemos ler em segurança, há um trabalho prévio, de honestidade intelectual, que não desmerece do valor quer de Freud quer da autora.

Escolhe um modo que pode surpreender, de início, mas a que depressa nos habituamos: veste o corpo de Martha, mulher de Freud, assume a sua voz de mulher numa época em mudança e numa altura da sua vida (mais de oitenta anos) em que já não se pode alterar o que se foi. Alguma sensação de alter-ego, numa situação em que se sentiu, por alguma razão, próxima daquela mulher que deu a sua vida a um homem tão influente e que transformou a psicologia da alma em matéria de revolução social, pessoal e por aí em parte política também.

Mas Teolinda tem pressa em chegar à personagem de Martha, a ficcionada e a real, passando por cima de Sigi, o petitnom de Sigmund Freud, prevenindo o leitor que não se ocupará do grande estudioso da mente humana, mas sim da sua mulher, cujo estatuto era ou tinha sido durante anos apagado, até à publicação das cartas em edição completa, onde ela se afirmava de carácter tão forte como o dele e merecia um lugar não igual, mas igualmente importante. 

É depois da sua morte que finalmente vibra, gozando uma liberdade até esse momento raramente sentida. A obra dele e ele era acima de tudo a sua obra, tinha devorado em parte o que podia ter sobrado para Martha. Mas naquele tempo, como em tantos casos ainda hoje, a mulher era acima de tudo o pilar da família, esperando-se dela o ser   boa dona de casa, mulher, mãe, e perfeita na relação com o seu marido - o dono e senhor de que por vezes a mulher, sem nada dizer, se sentia cansada.

Nos romances que agora se escrevem nota-se a evolução dos tempos, a liberdade assumida, mas menos vezes o cansaço da aceitação submetida. Martha, agora que se sente livre e dona de si mesma e do seu destino - mas tem mais de oitenta anos - decide então falar da relação que moldou a sua vida nesta série de relatos que recupera das cartas que escreviam um ao outro, ela e Sigi. 

Teolinda refere, na nota prévia, que leu muito enquanto preparava esta publicação e sobretudo a correspondência de uns e outros. Notei a falta da publicação das cartas que Freud e Jung trocaram entre si, abordando situações (algumas amorosas, no exercício das sessões de psicoterapia) e conceitos que viriam a alterar a sua relação de amizade, entre eles o de inconsciente colectivo que trazia à superfície os casos onde se adivinhavam símbolos e mitos primordiais, que levaram Jung  a uma visão da psique diferenciada, que Freud não entendia ou não queria entender porque em parte lhe roubaria espaço no meio médico e social a que ambos pertenciam.

Hoje penso que o pensamento de Jung lhe levou a melhor.

Mas nada disto interessava à viúva, uma Martha  agora leve  e liberta de todas as anteriores restrições sociais e familiares. Não gostava de Anna, a filha continuadora fiel da obra do pai e nunca lhe entregaria o manuscrito que agora preparava, pois ela o rasgaria de imediato. Adiante talvez venhamos a saber porquê. São sempre complexas as relações entre mãe e filha, mais do que entre filha e pai, talvez este tema não seja abordado, porque afinal há mais na vida recuperada de Martha.


 


  

   



Saturday, November 22, 2025

 A Madrugada

 Não morras de madrugada

com a tua Amada ali

passou a noite contigo

para veres um sorriso

no momento de acordar

está de mão dada contigo

não te deixará partir

iriam juntos, dizias

e agora mais do que nunca

é a hora de cumprir

é a hora de ficar

 

22 de Novembro, 2025

Thursday, November 20, 2025

RAVEL

 Oiço Ravel

a eterna Sagração da Vida

os segredos os mistérios

a pulsação secreta

por enquanto escondida.

Cada um leva consigo

a vida que é a sua

a vida que viveu.

As outras

já são vidas entregues,

vidas que os outros vivem

ouve-se Ravel que embala

mas na pulsação dos acordes

nada revela.

 

para a Ana Marques Gastão