Thursday, May 21, 2020

Paulo da Costa Domingos, Paisagem durante a Batalha.

Volto à poesia de Paulo da Costa Domingos, e a esta paisagem, que é de trovoada, pairam nuvens escuras no ar. Mas lemos, e logo a seguir à epígrafe, de Gil Vicente na Exhortação da Guerra, irrompe a interpelação da palavra. E lendo ficaremos a saber que o importante são esses jardins luminosos onde a palavra, o Verbo primordial, ou acende o seu fogo, ou se desfaz na cinza desta batalha que parece invencível: a da espécie humana frente à natureza impiedosa: a segunda epígrafe, de Tennyson, em Despair:
O we orphans of nothing- alone on that lonely shore- 
Born of the brainless Nature...
E assim, entre duas reflexões que amparam o pensamento e a reacção possível a uma paisagem presente, difícil de viver, e mais ainda de entender ( terá sido o infame pecado original? ) começa o poema: 

Aí vêem os assuntos, a jardinagem. Quando foi que tudo isto
aconteceu?...as palavras - cada qual
para seu lado; a separação
(p.7)

A referência à Jardinagem, num jardim de árvores de seda, com maçãs de especial sabor, ( o "estrume do êxtase") e adiante, noutro poema, ao jardim das delícias (p.9) - culminando na "fresca ribeiro do sexo" indicam que a imperfeição, que é, no jardim, a curiosidade e a avidez de um conhecimento proibido, esse estrume que sustenta, ao fim e ao cabo a existência da árvore de seda e suas maçãs proibidas, atira-nos para uma meditação que é bíblica e mítica sobre  a existência do homem
  
A verdade do homem
 que entra duas vezes no mesmo rio
  e desce 
ao fundo de si, cai (p.10)

Esta é uma série atravessada pela cultura mais antiga, e sendo actual leva, tem de ser, à desconstrução dos mitos mais sagrados, judaicos e egípcios das grande divindades que são as devedoras das nossas memórias guardadas, sangrentas ou felizes, sendo que neste momento de batalha sofrida a felicidade é impossível. Lembra Tennyson...a natureza descerebrada. Outrora jardim, agora campo de batalha.

mas o terror habita fora do Nada,
mas o terror fez da Terra sua casa.
(p.25)

Cada verso que o poeta nos lança tem um fim: parar para pensar. Pensar para deleite, de palavra e pensamento. Gosto de relembrar Heidegger, sobre quem escrevi no blog, O Que é Pensar? Está no seu fim da vida, dá o seu último seminário, e faz a história desde os pre-socráticos até ao seu poeta preferido, Hoelderlin, no seu Hino à Memória, Mnemosyne, em que afirma
que somos um sinal, sem sentido, 
...e quase perdemos a língua na distância.  
Eis os versos escolhidos para este início do filosofar sobre o pensamento:
Ein Zeichen sind wir, deutungslos,
Schmerzlos sind wir und haben fast
Die Sprache in der Fremde verloren.
(Somos um sinal, sem sentido,
Somos indolores e quase
Perdemos a língua na distância).
Esta primeira estrofe termina com uma conclusão, que embora logo questionada na estrofe seguinte, merece que a ponderemos:
...Lang ist
 die Zeit, es ereignet sich aber
Das Wahre.
(É longo
O tempo, mas alcança-se
A verdade).

O Sentido e a Verdade, eis o que procura Paulo Domingos: o sentido da existência, a verdade do horror que a acompanha.
O seu livro está dividido em três versões, como ele lhes chama. Podiam ser três partes, três capítulos de um mesmo meditar sobre o Sentido que perdemos, no dizer do poeta alemão que Heidegger escolhe para epígrafe...ele assistiu ao horror, ao sangue derramado, numa Terra que tinha perdido a capacidade de distinguir o justo do injusto, a mentira da verdade, o verdadeiro sentido da Língua Primordial. 
Na segunda versão, também Paulo nos diz: 

A Terra se tornou estranha 
e espessa.
(p.49)

Num mais longo poema, aborda então a batalha que temos de travar, mas sem saber como, contra um inimigo inesperado que destrói a consciência do Ser, porque nos mata, e do Tempo, o que devora, como Cronos, os seus filhos. Que fizemos, naqueles jardins de seda? Ou tudo foi um logro? E as delícias de um amoroso sexo a raiz deste mal? Não era iniciação, como Enkidu julgava, era já condenação à pior das infâmias, pela mão de uma deusa da Terra, destronada. A deusa explode de raiva, a espécie morrerá com ela.
É à metáfora da morcego que Paulo vai recorrer para sublinhar a morte que transporta, a meio do seu percurso que poderia ser, na tradição alquímica, o da perfeição sublimada. Gaston Bachelard sublinha a dimensão andrógina desta ave da noite, que vive de cabeça virada para baixo, e evitando a luz. Um ser que não chega ao fim do seu caminho, tem asas, poderia voar, mas pára na evolução ascendente e assim se irá degradar.
Vejamos o poema:

Morcêgos mor cègos
é o que somos, focinho
dependurado no bolor:
humidad' inversa da gruta
na humilhante impotência
perante a morte.

Que alimentos nos satisfarão
neste estado de culpa
e prodigiosa ignorância?

Não soubemos conter
a maldição do corpo,
o absurdo tributo
pago a Cronos.

Que triste não haver
retorno. Nem
Universo inverso.
(p.51)

Podemos, na chamada última versão, ir descobrindo o núcleo duro, o centro incandescente desta descida ao sentido do nomear, na série com que o poeta fechará o seu livro, e aqui começa:

Agora podemos nomear e saber
a diferença de pulsão e potência,
o descuido e o erro da Terra
no saborear a boa semente.
(p.87) 

Assim festeja Paulo o novo século, em 2020, entre o sabor do erro e a pulsão da luz que nos persegue.


Tuesday, April 28, 2020

Peter Levitt, uma centena de borboletas, trad. Sérgio Ninguém, ed. Eufeme, 2020

Recebi esta edição bilingue da EUFEME, com as traduções de Sérgio Ninguém de um conjunto de Haikai de Peter Levitt, autor que não conhecia e que seduz por várias razões: a escolha da beleza dos Haikai, em primeiro lugar, e em segundo a fidelidade que demonstra em relação às doutrinas do Tao, o Caminho, The Way, - que deveríamos, de seguida ir ler, se não o fizemos já, no célebre Tao Te King (uso a tradução francesa de Étienne Perrot, mas há várias, excelentes, em inglês).
Esta centena de borboletas, têm também elas, o seu significado simbólico: pertencem a uma esfera de beleza e leveza, tanto poisam na flôr como levantam vôo, seguindo para um céu pleno, misterioso, onde abunda um luar que em silêncio acompanha a meditação do poeta:
1.
Trazes-me um maço de poemas.
A lua levanta-se num,
põe-se noutro,
e há flores espalhadas
entre as demais,
molhadas na erva recente.
Em troca fico sentado sem pensar, dias a fim.

Fiz uma ou outra pequena mudança na tradução do Sérgio, mas que é na mesma uma homenagem à sua interpretação. Sem ele a tradução não existiria.
Neste poema a entrega à meditação do Tao, o Caminho, que se alcança  ou se persegue pela via da contemplação, da ausência de ruído que o fluir do pensamento provoca, ficou bem expressa. E do modo mais belo, o do maço de poemas.
2.
quatrocentos pelos de um pincel
pintam uma folha de bambú
a pincelada dura dez mil anos

O número 100, o número 10.000, significam a abundância da existência, a vastidão do universo, para o qual o Tao nos chama a atenção. E a arte, como o universo, é a forma de eternidade concedida ao homem, no seu caminho.
No seu pincel, na finura do ideograma que desenha, se condensa o que há de espiritualidade a descobrir. O Espírito é eterno, possa embora o bambú em que se materializou apodrecer.
3.
Esta água corre o ano todo
mesmo no Verão
sem destino.
Na boca do rio
as pessoas reúnem-se para a beber.

Cumprem-se nestes versos duas das normas que definem o Haiku, e que é a alusão a um dos elementos (são cinco na China, a madeira é o quinto): água, terra, céu, fogo, ou ainda,  a referência às estações do ano, Verão, Inverno, Primavera, Outono.
Atrás o bambú seria emanação da terra, ou da madeira; aqui temos a água e o Verão, mas a água corre o ano todo, ou seja, abarca o todo do tempo que se vive.
No número 16 encontramos uma alusão muito especial ao Vazio que é a aproximação do indicível Tao.
Eis no original de Peter Levitt:
The page is full of words
the well is full of water
night full of dreams
all this
empty my heart.

A arte de condensar, na pincelada ( que imaginamos) como no dizer, leva-nos à meditação do Vazio no coração do artista. As muitas palavras na página, o poço cheio de água, a noite cheia de sonhos - são tudo o que lhe esvazia o coração. Esse Vazio é um dos mitos nomes do Tao, a Via, o caminho.
A meditação desta doutrina é mais metafísica do que mística, e a criação que no Haiku reúne conceito e imagem, é-lhe perfeitamente adequada. É o que encontro no nº40, que de novo deixo no original de Peter Levitt:
No life but this one.
Tall grasses
bow in the wind.
Só uma vida.
Ervas altas
curvam-se no vento.

O Tao exprime a vivência do momento, a poesia taoísta é resultado do Presente, no interior do Tempo eterno, do Ser que sendo embora luminoso contém em si o oposto da treva, como lemos no poema 42:
Antes do amanhecer
trocamos a luz de um
mundo de sonho
pela escuridão de outro.

O sábio que medita opera em silêncio a fusão de ambos.
Outro dos grandes livros do taoísmo, o Yi King, desenvolve, nos seus 64 hexagramas, as várias dimensões da vida de quem o consulta, a pessoal e sua circunstância, a social, condicionada também ela pelos comportamentos da comunidade, e a política, que ordena seguindo o modelo celeste o caos que de outro modo destruiria a humanidade.
São livros da sabedoria mais antiga, que no século XX foram encontrando tradutores e estudiosos e que neste momento estão à nossa disposição. 
Agradeçamos à EUFEME a generosidade de lembrar.
86
Um portão aberto-
um campo vazio-
quem quer avançar?


   


Saturday, April 11, 2020

João de Mancelos, os Haikai

Num post mais antigo sublinhei a forma poética mais livre, mais despojada, que encontramos nos criadores de hoje em dia, que já viveram literariamente os Modernistas, Pessoa, Almada, ou os dos anos sessenta, libertários e criativos como um Herberto Helder, um Alexandre O'Neil, Alberto Pimenta, entre outros.
Tenho nas mãos o mais recente livro de poesia de João de Mancelos e encontro uma relação tranquila com um dizer de marca oriental que corresponde a uma outra forma de evolução, à medida que o pensamento taoísta se vai divulgando entre nós, pelas artes marciais, de raiz mística,  e pelos hábitos culinários que nos vão habituando a sabores ora mais puros ora mais subtis e requintados.
 A produção poética, pela via das formas elípticas, condensando em três ou no máximo quatro versos, ideia e imagem, o que é mais natural numa escrita ideográfica, como a chinesa, também tem feito o seu caminho, e deparo agora com um belo livro de João de Mancelos, um livro de Haikai, poesia depurada, evocando nas suas 5 partes momentos especiais em que se demora para os iluminar. A memória, mais antiga ou mais recente ocupa um lugar especial. 
Um Haiku (a forma singular do plural Haikai) é uma condensação de um súbito momento vivido, de contemplação e revelação ao mesmo tempo.
Vive-se hoje em dia muito depressa e mal. O tempo é devorado por uma multiplicidade de apelos e chamamentos que impedem o silêncio e o sossego que se devia conservar nalgum canto da alma. A tirania da imagem, em permanente actualização/exposição, colide com o silêncio, com a contemplação, o retiro onde a criação genuína ( a iluminação) se pode verificar. 
Agora castigados, confinados à força num espaço limitado, talvez possamos apreender a beleza simples das situações descritas neste livro.
São 5 os momentos escolhidos ( e também o 5 tem uma dimensão simbólica no pensamento oriental: é a madeira, o 5º elemento que encontramos nos hexagramas do Yi King. Na alquimia ocidental referem-se apenas 4: a terra, o fogo, o ar, a água. Mas no Yi King encontraremos o poço com o seu balde de madeira ( que nos traz a água que é de vida) ou a árvore, com a raiz e o   tronco,  fortes suportes que ligam céu e terra. Há um lirismo panteísta na poesia dos cultores de Haikai, como Issa, o meu preferido, e outros (aqui remeto para a edição completa da poesia oriental chinesa, da Pléiade, com excelentes traduções para quem, como eu, não pode ler no original) ou Bashô com a célebre rã que se tornou emblemática, e em geral todos citam.
Nas cinco partes em que divide o livro, João de Mancelos faz, um pouco à maneira de Proust, uma recuperação dos momentos da sua vida vivida, da adolescência ( em que quase cada poema respeita uma das normas desta prática,  titulando os meses em que situa os versos ) até ao momento em que escreve, já distanciado das paixões iniciais: as Memórias, "pássaros invisíveis", o Silêncio (forçoso seria neste contexto, aludir ao silêncio), Boca a Boca ( o desejo, a sua finitude), e finalmente a meditação da escrita, nos Poemas Do Lume.
Há que ler tudo, para que o livro no seu todo nos envolva. Abriu com um beijo inacabado, como são todos os primeiros beijos dos amantes de que também Rilke falava: na juventude só amores impossíveis.
Mas termino com o último trigrama, com uma vida já amadurecida, e sob outras influências (Celan, talvez?) e o impulso que leva, no poema, ao desejo mais nú, mais despojado, que só o silêncio permite:
desce os degraus
desce os degraus,
poema a poema,
até ao silêncio.
(2020)




Sunday, February 02, 2020

O coração do Adão, João Paulo Esteves da Silva


O coração do Adão, sobre este livro terei de escrever.
Não era verdadeiro o coração: era maçã, que logo apeteceu. E à primeira dentada Jeová, o culpado de tanta proibição ali perdeu a vida. Não era vida, eraVerbo, e ele poderia voltar. Mas não Adão, mordido o seu coração. Eva já tinha fugido, levada pela serpente. Lilith, na treva do seu inferno, queria tão só ser amada. Mas como? Tinha sido condenada, e afastada, da treva não sairia. Que coração era este, afinal, que já niguém desejava e fazia tanto mal? Um coração dividido, não encontrava lugar...No fundo do mar Tiamat, nos altos céus a Shekina, sem saber para onde olhar...Então surge este poeta, com versos de poetar. Diz o que tem a dizer, não o que tem a viver, o que seria banal.
E aqui entra o coração, que deixo para que leiam. De Israel não quero o sonho, que é uma cruz e uma taça; só o rolo de papel com a palavra sagrada que é colocada no peito, e aí nos salva ou nos mata.


O CORAÇÃO DO ADÃO

Ainda não é a vida nem a morte, por enquanto,
mas, ainda assim, pressinto a turba que se apinha, lenta,
nas praças, nas ruas, nos cafés cibernéticos,  sinto
a sede de sangue nas confissões amorosas
e na defesa das causas mais belas e justas.

Homo homini lupus não é uma história a dois,
como queremos imaginar, não se trata, aqui,
do mal que um indivíduo  faz a um outro ;
Este  ‘ homo’ da sentença é uma alcateia, só o ‘homini’ está sozinho.

Ele está sozinho e os lobisomens aumentam em redor;
Já só com asas poderá escapar, dá-lhe asas, meu deus.
Ou,  então, transforma-o nalguma planta sombria.

Ou num penedo sobre o mar, uma rocha viva.
Recrutaram todas as boas almas, temo por ti.
Um rato pendente da boca dum gato terá melhor destino

Um coração universal, num Adão primordial de destino marcado
por um deus desatento. Por isso ele é O ADÃO, e o seu coração um CORAÇÃO especial, que pulsa já antes da criação do tempo. O tempo virá depois, com a contagem dos dias, até àquele sétimo dia do descanso. Erro: nunca haverá descanso...a menos que deus lhe dê as tais asas perdidas e que o poeta sábio, na sua compaixão, implora que lhas dê.

Friday, January 17, 2020

Mariana Viana, na Colóquio Letras




Mariana Viana: as esculturas do Tempo.
Numa primeira abordagem nota-se a intensidade, expressiva, mas não figurativa, embora paire sobre alguns momentos, em pequenos pontos pequenos (formas que vão nascer, ou já nasceram e se foram reduzindo?) e algumas  convulsões que Boehme definiria como buracos negros, sendo o vermelho a marca da combustão espacial que tudo absorve e tudo depois, em milhões de formas ora explodindo ora se ordenando a partir desse caos inicial ( o seu célebre Ungrund) devolverá à materialização de uma vida outra? São ondas gravitacionais ou serão, de marca feminina, os novelos que foram tecidos no tear imenso de uma vida?
A meditação de um cosmos original está ali sempre presente, como na poesia de André Verdet, o poeta que exprimiu , em L’Obscur et l’Ouvert, verso a verso, como se formou a ordem de um cosmos, para nós obscuro, mas para a criação eterna, ainda e sempre aberto. Infinito é esse universo sobre o qual poetas e artistas se debruçam, dando forma ao informe (que é ainda a ideia, o sentimento indefinido do que existe e ali, no informe, está contido.) Um alquimista diria que é preciso, com cuidado e paciência, extrair a Pedra, preciosa, do mineral que a esconde na gruta pimitiva. Recolhimento, meditação solitária, conduzem a mão do artista.
Mariana Viana, já nas pinturas que ilustram o livro que chamo de ouro, de Jorge de Sena, revelava essa capacidade de pintar o intenso, ora mais figurativo ou mais abstracto. Tem pincelada forte sobre um imaginário que pode às vezes ser mais leve. Mas só de pasagem. A leveza não é condição da criação artística, embora possa dar um momento agradável de sossego, a quem produz ou quem vê.
A condição de um criador – e o mesmo se alarga a outras formas de arte, não é sosegar, é inquietar, e o que não inquieta, não desafia o entendimento, o pensamento, não é arte e não chega a ser nada.
O desafio de Mariana, neste conjunto, nascido, como ela diz de um só impulso, leva-me à reflexão de Heidegger no seu último Seminário, sobre O QUE É PENSAR.
Todo o pensamento surge de um primeiro impulso, que terá ou não continuação. Mas o pensamento, como Heidegger o entende, impõe continuação. Socorre-se de um poeta, que o inspirou sempre, Hoelderlin, nos seus hinos. Eis como ele inicia a primeira abordagem ao tema dos seminários:
Da poesia à filosofia vai um salto, vai um passo, aquele que Heidegger define como o impulso que motiva a busca do que é pensar. Começa a primeira aula com uma bela citação de Hoelderlin, do poema Mnemosyne, na segunda versão. O poeta escreveu uma terceira versão, bem diferente, que não serviria o propósito do filósofo.
Eis os versos escolhidos para este início do filosofar sobre o pensamento:
Ein Zeichen sind wir, deutungslos,
Schmerzlos sind wir und haben fast
Die Sprache in der Fremde verloren.
Na Segunda Aula, o filósofo desenvolve a relação entre pensamento e poesia, reconhecendo que está ainda longe de saber o que é Pensar e o que apela, ou atrai o Pensamento. 
Somos um sinal, sem sentido,
Não sentimos a dôr e quase
Perdemos a língua na distância.

Esta primeira estrofe termina com uma conclusão, que embora logo questionada na estrofe seguinte merece que a ponderemos:
...Lang ist
 die Zeit, es ereignet sich aber
Das Wahre.
É longo
O tempo, mas alcança-se
A verdade.
Permitindo-me uma ligeira alteração por causa do ritmo,  que se tornaria menos duro, eu poderia traduzir: É longo / O tempo, mas consegue-se alcançar / A verdade.
Relendo o primeiro verso, sublinhemos o que somos: um sinal, sem sentido e sem sensibilidade (indolor) e que perdeu a língua na distância: perdeu a capacidade de se exprimir e de comunicar ( a língua perdida na distância).
Esta será então a primeira de todas as necessidades para começar a aprender o que é pensar. Reconhecer o que somos, o que perdemos, o que temos de recuperar.
A indicação vem nos versos finais da estrofe: o caminho do pensamento será longo, mas alcança-se a Verdade.
Hoelderlin ajuda Heidegger na sua exposição, ligando, no seu dizer, a busca do que se é, (SEIN, SER ) o tempo (DIE ZEIT, o TEMPO ) e a verdade DAS WAHRE).
Aprender a pensar é chegar à verdade (do Ser, que tudo envolve e abrange).  E quanto ao título do hino, Mnemosyne, MEMÓRIA, também haverá algo a dizer.
Recuando até aos gregos e seus mitos, a Memória é uma titã, filha do Céu e da Terra. Une os opostos. Como mãe das Musas, segundo Heidegger, a memória é o pensar que retroactivamente reúne e faz convergir aquilo que nos atrai como sendo e tendo sido no ser.
É a fonte da poesia. Por isso vemos a poesia como água que por vezes flui em direcção à nascente, em direcção ao pensamento, um pensar que é recordação. É o que leva Hoelderlin a dizer que somos um sinal que não é lido...pois tem de ser pensado retroactivamente, buscando a origem num tempo anterior.
Heidegger escolhe Sócrates como o Mestre perfeito: não deixou nada escrito, e se o tivesse feito, teria ficado prisioneiro do escrito e não do pensado. Uma prisão de que veio a sofrer, posteriormente, a filosofia ocidental no seu todo. Daí a escolha de Heidegger:  a palavra poética, um verso de sentido amplo, aberto, como em toda a poesia mo pensar no que é a Poesia?
E explica por que razão escolheu o hino de Hoelderlin, não por mera citação de conveniência, mas porque aquele verso repousa na sua própria verdade. E esta verdade tem por nome Beleza.
Cito Heidegger:
“ A Beleza é um dom da essência da Verdade, e aqui verdade significa a revelação do que permanece oculto” (Lição 2 , p.19).
“ O Belo não é o que agrada, mas o que pertence ao dom da verdade, que se manifesta quando aquilo que é eternamente não-aparente, e portanto invisível, atinge a sua mais radiosa aparente aparência. Somos obrigados a deixar a palavra poética permanecer na sua verdade, na beleza.
Na verdade, pensar é responder a um desafio, neste caso o verso do poeta citado, que interpela o pensamento, no sentido de entender o que foi dito.
O dizer resulta também de um pensamento aprofundado.

Mas vamos então transpôr para outra esfera, neste caso o da arte da pintura, este mesmo modelo, que nos ajudará a procurar o que se esconde, mais do que o que se revela, nesta formas esculpidas do tempo, da arte de Mariana. A que sinais foi por aqui dar, ou encontrar Sentido?
Para os antigos alquimistas, a obra da mulher está bem representada numa gravura de Michael Maier, o Emblema III:
“Procura a mulher que lava a roupa;
e tu faz o mesmo que ela.
...A água lava a sujidade do corpo negro”.

Há outro lema destes filósofos herméticos que também se manteve no tempo: “É preciso ter as mãos pretas para comer o pão branco”. Como quem diz, é preciso trabalhar, para merecer o que se come.
 E naturalmente a metáfora do negro e do branco, a meditação dos opostos, que está sempre presente no caminho da espiritualidade.
A imagem da água, da purificação que o lavar significa, função do Feminino aconselhada igualmente ao homem, o Masculino, remete-nos para o imaginário simbólico do mito do Andrógino, de Platão. E um novo conceito nos surge, primordial, antigo, de que Freud e Jung muito se ocuparam: o das lições dos sonhos, e do inconsciente, seja individual ou colectivo.
Não será por acaso, mas por impulso do seu inconsciente, a sua pulsão mais funda, libertadora enquanto materializa, retirando-a do Tempo, cada uma das suas esculturas pintadas, que surgem a dada altura, e repetidas vezes trabalhadas, os novelos de matéria tecida, esticada, penteada, e quem sabe até ( lavada...antes da transformação que sofrem, em novelos, em nós que atam (e tudo o que atamos mais longe se desata). Difícil e muito paciente o trabalho da mulher no tear da sua alma, o que a leva, pelo trabalho, ao sucesso do Branco, o alimento supremo. No tear se organizam os fios, se desfaz o caos, se atinge uma Ordem que ultrapassa inclusivé o impulso inicial (iniciático) do artista.
Arte é iniciação. E é também muita repetição. Volto aos alquimistas, filósofos da alma, e seus lemas: “...Lê, Lê, Lê, Relê, trabalha e descobres “ (Mutus Liber). Meditação e trabalho, para chegar à Obra.
 Escolhendo em especial o conjunto dos fios, tecidos, atados e desatados, entrelaçados, percebemos que ali estão os nós possíveis da vida, a vida de um criador. A minúcia é enorme, cuidada, e depois dada a ver. Ver não é adivinhar, mas é algo da entrega da contemplação que interroga, não aceita sem mais. Oferece uma pergunta, como no belo poema de Tolentino de Mendonça, e não uma resposta, nenhuma segurança, talvez só um pedido, uma oração:
... ouve o que diz a mulher vestida de sol
quando caminha no cimo das árvores
a que distância deixaste
o coração?
(BALDIOS, “A presença mais pura”)

Mas já na primeira estrofe do poema, que tenho de citar, se inicia o grande tema da língua e da comunicação: “ a que distância da língua comum / deixaste o teu coração?” O poema segue com outra ideia central, também ela próxima de um Hoelderlin, “deixamos de saber dos outros / coisas tão elementares / o próprio nome “.
E aqui surge então o nó central, o nó que recolhe e abraça todos os nomes num só, o nó primordial que a vida irá desatando. Por cima a imagem da mulher vestida de sol  ( a lua negra sublimada), a caminhar sobre as árvores. Tanta reflexão aqui contida...
Wagner, que será sempre eterno, põe na boca de Gurnemanz, o iniciador do jovem Parsifal, a melhor definição de todas para este conjunto de Mariana Viana, também ela a caminho do seu reino:
Du siehst, mein Sohn,
Zum Raum wird hier die Zeit.
Vês, meu filho,
em espaço se transforma aqui o tempo
 (Acto I).
 Resumindo, e evocando Heidegger pela última vez, o tempo materializa-se no espaço, para adquirir existência, e no caso de uma obra, a consistência única que lhe confere a Verdade (o Sentido) e o Belo, o nome que se tinha perdido e se buscava.

(Lisboa, 2019)








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