Não é um prefácio
Agora o que escrevo é com palavras simples, nuas,
cada leitor as vestirá como entende.
A DÔR
Não é lamechice
é dôr
a dôr que dói
por não poder mais amar
já se amou tanto e tudo
filhos
netos
amantes e maridos
livros e profissões
que o amor se esgotou de vez.
Morreram os amigos de outrora
já nem de amor se poderia falar
há os jovens
mas são jovens
com eles nada se pode partilhar
Ventos da Primavera
Os ventos da Primavera
levam os jovens
por caminhos incertos
vão para longe
não sabemos ao certo
caminham de pés descalços
e não fazem perguntas
regressam com os pés feridos
perderam a juventude
tudo mudou com os ventos
e nada faz sentido
Não espero pelo novo computador quero celebrar já os poemas de Nuno Artur Silva. A edição é de um amigo comum, o Jorge Reis-Sá, na glaciar. Livro de luxo, só elegância e bom gosto. Feito para quem gosta mesmo de ler e ir ficando na ideia, na imagem, no pensamento escrito.
Comecem por ler bem a epígrafe, de um outro grande poeta, foi meu aluno, e gostei de o ver reaparecer aqui, numa plenitude contida, que o Nuno reverteu abrindo-lhe novo espaço.
A diferença de cultura e da capacidade de filosofar, porque se leu muito à medida que se escrevia, revela um poeta culto, fala de si com a interrogação que se impõe, ou se adivinha, nos primeiros poemas juvenis. O tempo e a reflexão sobre o que se é, ou pode vir a ser, ou pela memória se tenta recompor um passado que já não é mas pode ser procurado, reinventado, recorrendo às palavras e imagens que ainda sobram - aproxima a sua poesia do que lhe interessa e o leva a escrever.
Pessoa, T.S. Eliot e outros que ainda irei encontrar mais à frente são do nosso espaço poético onde estamos e procuramos ser.
Alguns deste poemas iniciais têm já o segredo dos antigos HAIKAI, que se condensam numa linha, numa ideia, numa imagem, que nos deixa, ou melhor impele ao pensamento. E isto é só o princípio:
"Naquela noite em que a lua faltou
ao encontro
fiquei a atirar pedras ao mar"
Numa das páginas de diário que recuperou lemos a eterna interrogação de um Heidegger que se esconde, sem que o saibamos bem, em todos nós:
o velho Sein (und Zeit) e o velho estar (Dasein) que ele tenta explicar melhor:
"O que é estar mais? ou ser menos?
e não é estar, estar completamente?
E ser, ser completamente?
Ou estar é ser completamente?
E ser é estar completamente?"
Não esperem que o poeta responda à interrogção que levanta. Ele, como Celan, não impõe, expõe, e espera que alguém o siga no caminho.
Não admira que Celan tenha procurado Heidegger, como Nuno agora faz.
Heidegger expôs, mas não explicou, e foi castigado por isso, até ao momento em que a escolha do Hino à Memória de Hoffmanstahl o libertou do pecado inicial da infeliz adesão ao culto nazi da morte.
Agora, na velhice, amadureceu a ideia do ser e do sentido por meio de uma reflexão poética, um verso que trazia de novo à memória o Ser do Sentido. Não um Sinal, mas o Sentido. "A linguagem é a casa do ser".
Aí se refugia o sentido, não todo, mas do todo o possível, pois sobra sempre uma pergunta que não terá resposta.
"Sou
um acontecimento a contecer.
O Tempo?"
Adiante noutro verso :
"O que é a consciência?
A minha pergunta é a minha resposta"?
Um grande poeta nunca diria melhor. A boa poesia não impôe, expõe. E o que expõe é a sua busca do sentido, que encaminha para um pensamento que será consciência de ser, e não de ter, o poeta nunca tem, a sua busca é permanente, é infinita. A busca é o que o faz viver.
Assim caminho devagar, também eu, para uma interrogação que junto com o Nuno, com sorte, me devolve algo de mais fundo no eterno mar das palavras perdidas e encontradas adiante.
Penso que já anotei como é importante, na sua poesia feita de pensamento, o peso das imagens do espelho - o que são elas senão a recuperação de uma memória que ainda se perde nas dobras ocultas do tempo, na teia das aranhas que bordam e desfazem o bordado para que o poeta não deixe de pensar no que é a sua missão num mundo que foi perdendo o sentido?
Só na sua poesia, nessa teia por vezes bem sucedida por vezes dilacerada se refaz um sentido
Numa obra que é dedicada a amigos e família, e quando temos e sabemos que será lida, não admira que o Nuno vá deixando os seus sinais marcantes, de leituras preferida feitas. É um modo perfeito de educar no prazer do pensamento e das situações feitas versos, genuínas e não de frases da moda e esvaizam o sentido possível. Tal como Caeiro, Nuno cita de novo um alter Pessoa, o Walt Whitman que nos deixa ao alto, como nova epígrafe, e que elucida a dúvida que Eduardo Lourenço num célebre seminário que nos deu na UNL, achou interessante deixar no ar: terá ele lido Walt Whitman? Eu tive o mau gosto de lhe responder: Leu, tem a obra completa na casa da Dona Henriqueta, sua amável meia irmã, sublinhado em momentos mais significativos que empurravam o leitor atento para o seu Álvaro de Campos, o rebelde para quem não existiam cartas de amor que não fossem ridículas. Mas existem e existirão sempre, o que talvez não devam é ser expostas sem mais, porque o amor - com excepção de Camões -assim logo exposto se mostra sentimalmente ridículo. Ora não pode haver sentimentalismo ridículo numa carta de amor, ou se há é melhor aguardar melhores tempos...(oh me, oh life...nas leaves of grass deWhitman) o grande livro por onde corria o vivo apelo da vida, da natureza, da explosão das paixões.
Outra epígrafe para o filho: de Cesariny
"ama como a estrada começa"...de novo a importância de um princípio, de novo o saber por-se a caminho, como os viandantes de Goethe, de Wagner, ou de Paula Rego, numa das suas gravuras tão bela, do homem que já vai de costas para nós, o mundo à sua frente, de viola às costas e a fénix na mão. Só viajar permite um maior conhecimento do mundo, do outro, e de nós mesmos.
Escreve Nuno:
"A aventura, a ave da aventura,
a ventura da aventura,
o vôo e ventura de voar, e resumo,
para poderes ser".
Seria preciso dizer mais? repete Whitman, "Canto aquele que existe em si mesmo".
Ler o Nuno é reencontrar o tempo, o tempo primordial em que tudo foi começo e agora, adiante, já no fim da viagem, pode voltar a sê-lo: a descoberta da consciência de si mesmo, na viagem que foi feita e mais do que feita, vivida.
Não me espanta encontrar o Pianista genial que é Mário Laginha, entre as suas escolhas. Há muito que era ouvido cá eme casa, um dos meus filhos toca com ele, e no fundo o seu Jazz tem tudo a ver com a viagem, a libertação que em cada solo se vive, notas como palavras, discurso ora hermético ora aberto e que levanta para todos um horizonte novo. Kierkgaard dizia, quando faltam as palavras entra a música..
E Nuno explica tão bem essa ideia.
Agora a grande surpresa e originalidade do livro: tranquilamente quebra a norma de um livro coeso de poesia, recuperando uma nova forma, de apontamento, da ideia, da linha, do verso, o que poderia tercomeçado na sua agenda, que tem no bolso como poderia ter no seu caderno em casa, aguardando o momento certo para a ampliação. são uma utra metade da sua concepçaõ da escrita, original e não menos inspiradora. Com o seu quê da experimentação oriental dos Haikai a que já fizemos referência. Recordei por aqui os belos versos - uma linha ou duas - da obra da Princesa Shikishi, no Japão do século XIII. Não leio japonês, tenho uma bonita edição inglesa, e lá estão, numa linha, por vezes duas, os contidos sentimentos e emoções de um olhar numa corte fechada em que se cultiva este géneno de poesia, que tem regras severas. O Nuno, poeta do nosso tempo, passado já pelo modernismo, pelo experimentalismo mais livre, introduz agora no seu livro a forma, se não sempre o conteúdo (passaram tantos séculos, mas a sensibilidade da reflexão e do olhar ali estão) a sua nova forma de interromper, de desfazer ou fazer o nosso pensamento, ao tentar seguir o seu. Refiro-me aos capítulos do Caderno das Nuvens e aos Roteiros Improváveis, que surgem de repente, e nos deixam na dúvida: aponta para ampliar mais tarde? ou aponta porque ali já está contido o nó do essencial, que na nossa cabeça teremos de desatar ?
É ler, como diria o outro. Não escrevo para lhe facilitar a vida, mas para a tornar mais rica e mais complicada.
Não existem vidas simples, não se espere do desenho do poema uma simplicidade que o destruiria.
Não cabe no espaço de um blog o que só estaria bem numa verdadeira análise de doutoramento. Esta obra merece, e agora então que se lê como começa muitas vezes, como fazia Michaux, com um rabisco de desenho na ponta da caneta sobre o papel que aguarda a iluminação, sendo a variante aqui a linha, o verso, o espaço em branco da página com a respiração do que virá depois - tudo entregue ao leitor para que ele escolha e decida, enfim para mim é sinal que devo acabar, entregando ao vento dos alquimistas os sentidos que se foram encontrando, como o poeta alemão pedia.
Com parabéns ao Nuno por me feito ler um livro que é mais do que poesia, um acrescento também de um olhar social e ao mesmo tempo onírico que nos devolve uma esperança e uma alegria que sem ele andariam perdidas.
Obrigada.
Pedro Chorão.
Tanto azul
tanta luz sobre a tela
que resolveu pintar
e que as ondas invadem
batendo contra as rochas
que ele retirou do mar...
É o seu dia de anos
mais um que ele agradece
ao tempo que é o seu
cores de celebrar...
Acordei de madrugada
abri a luz
fiquei a olhar o quadro
na sua nova moldura
mais leve e mais clara
a pintura com a mancha
avermelhada
de um coração batendo
em busca da sua forma
a forma antiga do tempo
do amor da sua amada