Não espero pelo novo computador quero celebrar já os poemas de Nuno Artur Silva. A edição é de um amigo comum, o Jorge Reis-Sá, na glaciar. Livro de luxo, só elegância e bom gosto. Feito para quem gosta mesmo de ler e ir ficando na ideia, na imagem, no pensamento escrito.
Comecem por ler bem a epígrafe, de um outro grande poeta, foi meu aluno, e gostei de o ver reaparecer aqui, numa plenitude contida, que o Nuno reverteu abrindo-lhe novo espaço.
A diferença de cultura e da capacidade de filosofar, porque se leu muito à medida que se escrevia, revela um poeta culto, fala de si com a interrogação que se impõe, ou se adivinha, nos primeiros poemas juvenis. O tempo e a reflexão sobre o que se é, ou pode vir a ser, ou pela memória se tenta recompor um passado que já não é mas pode ser procurado, reinventado, recorrendo às palavras e imagens que ainda sobram - aproxima a sua poesia do que lhe interessa e o leva a escrever.
Pessoa, T.S. Eliot e outros que ainda irei encontrar mais à frente são do nosso espaço poético onde estamos e procuramos ser.
Alguns deste poemas iniciais têm já o segredo dos antigos HAIKAI, que se condensam numa linha, numa ideia, numa imagem, que nos deixa, ou melhor impele ao pensamento. E isto é só o princípio:
"Naquela noite em que a lua faltou
ao encontro
fiquei a atirar pedras ao mar"
Numa das páginas de diário que recuperou lemos a eterna interrogação de um Heidegger que se esconde, sem que o saibamos bem, em todos nós:
o velho Sein (und Zeit) e o velho estar (Dasein) que ele tenta explicar melhor:
"O que é estar mais? ou ser menos?
e não é estar, estar completamente?
E ser, ser completamente?
Ou estar é ser completamente?
E ser é estar completamente?"
Não esperem que o poeta responda à interrogção que levanta. Ele, como Celan, não impõe, expõe, e espera que alguém o siga no caminho.
Não admira que Celan tenha procurado Heidegger, como Nuno agora faz.
Heidegger expôs, mas não explicou, e foi castigado por isso, até ao momento em que a escolha do Hino à Memória de Hoffmanstahl o libertou do pecado inicial da infeliz adesão ao culto nazi da morte.
Agora, na velhice, amadureceu a ideia do ser e do sentido por meio de uma reflexão poética, um verso que trazia de novo à memória o Ser do Sentido. Não um Sinal, mas o Sentido. "A linguagem é a casa do ser".
Aí se refugia o sentido, não todo, mas do todo o possível, pois sobra sempre uma pergunta que não terá resposta.
"Sou
um acontecimento a contecer.
O Tempo?"
Adiante noutro verso :
"O que é a consciência?
A minha pergunta é a minha resposta"?
Um grande poeta nunca diria melhor. A boa poesia não impôe, expõe. E o que expõe é a sua busca do sentido, que encaminha para um pensamento que será consciência de ser, e não de ter, o poeta nunca tem, a sua busca é permanente, é infinita. A busca é o que o faz viver.
Assim caminho devagar, também eu, para uma interrogação que junto com o Nuno, com sorte, me devolve algo de mais fundo no eterno mar das palavras perdidas e encontradas adiante.
Penso que já anotei como é importante, na sua poesia feita de pensamento, o peso das imagens do espelho - o que são elas senão a recuperação de uma memória que ainda se perde nas dobras ocultas do tempo, na teia das aranhas que bordam e desfazem o bordado para que o poeta não deixe de pensar no que é a sua missão num mundo que foi perdendo o sentido?
Só na sua poesia, nessa teia por vezes bem sucedida por vezes dilacerada se refaz um sentido
Numa obra que é dedicada a amigos e família, e quando temos e sabemos que será lida, não admira que o Nuno vá deixando os seus sinais marcantes, de leituras preferida feitas. É um modo perfeito de educar no prazer do pensamento e das situações feitas versos, genuínas e não de frases da moda e esvaizam o sentido possível. Tal como Caeiro, Nuno cita de novo um alter Pessoa, o Walt Whitman que nos deixa ao alto, como nova epígrafe, e que elucida a dúvida que Eduardo Lourenço num célebre seminário que nos deu na UNL, achou interessante deixar no ar: terá ele lido Walt Whitman? Eu tive o mau gosto de lhe responder: Leu, tem a obra completa na casa da Dona Henriqueta, sua amável meia irmã, sublinhado em momentos mais significativos que empurravam o leitor atento para o seu Álvaro de Campos, o rebelde para quem não existiam cartas de amor que não fossem ridículas. Mas existem e existirão sempre, o que talvez não devam é ser expostas sem mais, porque o amor - com excepção de Camões -assim logo exposto se mostra sentimalmente ridículo. Ora não pode haver sentimentalismo ridículo numa carta de amor, ou se há é melhor aguardar melhores tempos...(oh me, oh life...nas leaves of grass deWhitman) o grande livro por onde corria o vivo apelo da vida, da natureza, da explosão das paixões.
Outra epígrafe para o filho: de Cesariny
"ama como a estrada começa"...de novo a importância de um princípio, de novo o saber por-se a caminho, como os viandantes de Goethe, de Wagner, ou de Paula Rego, numa das suas gravuras tão bela, do homem que já vai de costas para nós, o mundo à sua frente, de viola às costas e a fénix na mão. Só viajar permite um maior conhecimento do mundo, do outro, e de nós mesmos.
Escreve Nuno:
"A aventura, a ave da aventura,
a ventura da aventura,
o vôo e ventura de voar, e resumo,
para poderes ser".
Seria preciso dizer mais? repete Whitman, "Canto aquele que existe em si mesmo".
Ler o Nuno é reencontrar o tempo, o tempo primordial em que tudo foi começo e agora, adiante, já no fim da viagem, pode voltar a sê-lo: a descoberta da consciência de si mesmo, na viagem que foi feita e mais do que feita, vivida.
Não me espanta encontrar o Pianista genial que é Mário Laginha, entre as suas escolhas. Há muito que era ouvido cá eme casa, um dos meus filhos toca com ele, e no fundo o seu Jazz tem tudo a ver com a viagem, a libertação que em cada solo se vive, notas como palavras, discurso ora hermético ora aberto e que levanta para todos um horizonte novo. Kierkgaard dizia, quando faltam as palavras entra a música..
E Nuno explica tão bem essa ideia.
Agora a grande surpresa e originalidade do livro: tranquilamente quebra a norma de um livro coeso de poesia, recuperando uma nova forma, de apontamento, da ideia, da linha, do verso, o que poderia tercomeçado na sua agenda, que tem no bolso como poderia ter no seu caderno em casa, aguardando o momento certo para a ampliação. são uma utra metade da sua concepçaõ da escrita, original e não menos inspiradora. Com o seu quê da experimentação oriental dos Haikai a que já fizemos referência. Recordei por aqui os belos versos - uma linha ou duas - da obra da Princesa Shikishi, no Japão do século XIII. Não leio japonês, tenho uma bonita edição inglesa, e lá estão, numa linha, por vezes duas, os contidos sentimentos e emoções de um olhar numa corte fechada em que se cultiva este géneno de poesia, que tem regras severas. O Nuno, poeta do nosso tempo, passado já pelo modernismo, pelo experimentalismo mais livre, introduz agora no seu livro a forma, se não sempre o conteúdo (passaram tantos séculos, mas a sensibilidade da reflexão e do olhar ali estão) a sua nova forma de interromper, de desfazer ou fazer o nosso pensamento, ao tentar seguir o seu. Refiro-me aos capítulos do Caderno das Nuvens e aos Roteiros Improváveis, que surgem de repente, e nos deixam na dúvida: aponta para ampliar mais tarde? ou aponta porque ali já está contido o nó do essencial, que na nossa cabeça teremos de desatar ?
É ler, como diria o outro. Não escrevo para lhe facilitar a vida, mas para a tornar mais rica e mais complicada.
Não existem vidas simples, não se espere do desenho do poema uma simplicidade que o destruiria.
Não cabe no espaço de um blog o que só estaria bem numa verdadeira análise de doutoramento. Esta obra merece, e agora então que se lê como começa muitas vezes, como fazia Michaux, com um rabisco de desenho na ponta da caneta sobre o papel que aguarda a iluminação, sendo a variante aqui a linha, o verso, o espaço em branco da página com a respiração do que virá depois - tudo entregue ao leitor para que ele escolha e decida, enfim para mim é sinal que devo acabar, entregando ao vento dos alquimistas os sentidos que se foram encontrando, como o poeta alemão pedia.
Com parabéns ao Nuno por me feito ler um livro que é mais do que poesia, um acrescento também de um olhar social e ao mesmo tempo onírico que nos devolve uma esperança e uma alegria que sem ele andariam perdidas.
Obrigada.