Thursday, August 13, 2026

Manuel Ramalho Ortigâo, Estórias de hoje e de ontem, 2025

 Estas estórias que agora leio não são de ontem, são de hoje, no momento em que leio.

Narrativas de mão simples, escorreita, que ajudam muito ao prazer da leitura. Não se alargam sem necessidade, só para "encher papel..."  obrigando o leitor a um esforço desnecessário. Este é o modo que mais me agrada e me leva a ler, como quem ouve música do passado e do presente, isto é, eterna na simplicidade dos seus acordes. Debussy, Ravel, uma aparente simplicidade que se transforma no nosso imaginério em algo de misterioso mas necessário...Como uma chuva de estrelas, por exemplo, que sacodem uma noite de Agosto em que nos estendemos ao comprido na praia e aguardamos, para ver, quem sabe ouvir, há música no universo, e de certeza ler para entender. 

O que foi  o ontem, o que é o hoje,  e o que somos, entre um tempo e outro, nós no nosso breve corpo, espaço que nos foi dado e ocupamos sem grandes interrogações. Vivendo, apenas.

Manuel é músico, passou pelo Jazz, o que abre a alma e agora escreveu estas narrativas, que não são contos, nem versos em prosa, são memórias breves que lhe ocorrem e ele põe por escrito. Conhecemo-nos há muitos anos, depois a vida seguiu para cada um outros caminhos e confesso que foi grande alegria este reencontro por meio de um elegante livro, cinzento de tão bom gostoe com a dimensão agradável do número de páginas, e que ele acompanhou com a enorme gentileza de uma carta em que me conta com fomos coincidindo no bairro onde ainda vivo, esplanadas onde me via com o meu marido, mas por timidez, o que lamento, nunca chegou a tomar a decisão do passo em frente para nos falarmos. Falamos agora, para mim é tarde já não vou a nenhuma esplanada a não ser que um filho me venha buscar, mas fica ets gesto amigo de um livro que é todo ele de "família", que cheguei a conhecer. A sua mulher era afilhada de um grande amigo do meu marido. 

Além do prazer de uma prosa límpida, o seu livro remete-me para uma reflexão sobre a memória, ou os fragmentos dela, que nos dão este impulso da escrita. 

Diz-me que foi lendo o RECOMEÇO, que a Companhia das Ilhas me publicou. Temos por aí um encontro especial. Também eu nesse livro me ocupei com o que da memória dos dias me ia ocorrendo. O Manuel, nascido em 1950, é tão mais novo do que  eu sou ou era o Binau,  meu marido, nos tempos do Hot Club da Praça da Alegria.

Mas a idade não deve separar, e a prova é que há gostos comuns, empatias no meio dos silêncios e eis-me a recuperar um tempo perdido, como Proust, pela mão deste autor nas suas narrativas. Fala-me da sua neta Veroca, como eu também tenho e assim lhe chamo, ela é hoje uma pintora de quase trinat anos, a dele é ainda um bébé de um ano, fase deliciosa de crescimento...tenho 15 netos. Primeiro vieram as meninas, depois os rapazes. Hoje tudo gente crescida, nos estudos, no trabalho. Desejo ao Manuel as maiores felicidades a ver crescer, entre música e livros a sua neta Veroca. Correm bons genes na sua família, penso na correspondêncis que de vez em quando releio de Eça e Ramalho Ortigão, uma tão afiada caricatura de um país, caricato ainda hoje. Manuel diz-me que esteve em Londres a viver, mas depois regressou a Portugal e eis-nos agora vizinhos.

Os portugueses são assim, partem mas regessam temos nós todos um apurado sentido de família, e assim é em Portugal que voltamos a viver,  o sentimento da saudade é grande, vi isso acontecer com o meu pai, quando fomos para a Argentina e ele acabou por regressar apesar do seu anti-salazarismo, que nunca perdeu e lhe causou sempre grandes problemas.

O Manuel teve a gentileza de marcar algumas das narrativas para eu ler, entre elas a do Jazz. Mas leio tudo, embora não escreva, porque luto com um computador que faz o que lhe apetece, muda o tamanho da letra, diz-me que não ficaram as updates, etc. Fala comigo, mas eu não sei falar com ele. Sou de outro século...

Descubro então, enquanto leio, que esta é uma verdadeira autobiografia, de alguém a quem a vida concedeu o dom do amor atento e daí generoso,  à famíçia onde nasceu, com quem viveu e a que fez crescer à sua volta. Talvez por ter e manifestar uma tão feliz entrega, lhe tenham os deuses concedido a benção de muitas filhas, as mulheres são tão diferentes dos homens, elas atentas, eles desprendidos à medida que crescem. O Manuel, um pai entre filhas, como ele diz, e agora entre netas que começaram a nascer.

Fala muito de si, no meio do que o rodeia e observa e de um modo que é mais de conversa informal, à mesa das refeições, ele ocupou-se das compras, elas se calhar ajudavam a apurar algum prato especial na cozinha. Pelo meio a história das peúgas, que elas lhe roubavam e que ele acabou por reservar num conjunto comprado só para elas e arrumado numa das gavetas de baixo da sua cómoda grande, onde tudo cabia.

Não vou resumir o livro, mas recordo apenas como uma verdadeira autobiografia nos revela tudo o que há numa vida, e nos ajuda, quando assim escrita,  com uma quase displicência de humor subtil e prazenteiro, a olhar também o que temos na nossa vida.

A maior qualidade, agora que penso nisso, é que este livro de e para a família, nos inclui, é um livro generoso.


 




Tuesday, August 11, 2026

José Luís Ferreira, POR DENTRO DE TI TODAS AS PALAVRAS, 2026

 

Um livro de poemas que acabo de ler, todo atravessado pelo amor de uma única mulher, foi realidade ou ficção para leitor ler?

O mesmo me deixa a interrogação que se cola nos poemas de amor, era desejo o que o poeta sentia? E afinal o que se pode dizer sobre o desejo amoroso?

O que é o desejo?

Um impulso feito de uma química especial que aproxima subitamente as pessoas? Duas pessoas?Mais?

É selvagem o desejo, com resquícios da distante Idade da Pedra? Um corpo que vandaliza outro, sem mais, ou algo que se suaviza e se transforma em amor. 

O desejo leva a que se fale de amor, e não de desejo, com o passar de um tempo partilhado, vivido de modo pleno em conjunto, durante uma vida inteira ou pelo menos alguns anos. O amor tem medida, o desejo não tem.

O livro deixa-nos com esta interrogação - desejo, embora diga amor?

O desejo é obscuro, no seu impulso, o amor tem claridade.

Faz pensar tanto quanto sentir. O amor é sentimento. O desejo é paixão. É rápida a paixão, é lento o sentimento do amor. É paciente.

Pensei em trazer para aqui duas obras de amor e morte, que são de leitura eterna, a medieval, de Tristão e Isolde (que inspirou Wagner) e a renascentista  de Shakespeare, Romeu e Julieta.

 Mas em ambas, o desejo e o amor fatal, a trama deve-se a uma confusão, uma situação que induz a falsa morte de um dos amantes, morrendo desguida o outro e por fim os dois. 

Não é de morte que se trata neste conjunto de poemas, mas de desejo e amor consentido, de entrega de corpos  que tiveram a rara felicidade de poder consumir-se na mesma chama que os atraiu.

Há coincidências felizes. Paro de ler e vejo na talevisão um bailado cujo título AS PALAVRAS e o ESPAÇO se aplicam tão perfeitamente  à substância do que leio:

As palavras são o tempo do poeta, do poema, o espaço é o corpo da amada, entregue e  disponível para que nele se refaçam vezes sem conta o desejo e a vida. 

A reflexão sobre o desejo será melhor aprofundada com a obra do filósofo  António de Castro Caeiro, SOBRE OS SENTIMENTOS, que já vai em segunda edição, na ed. Tinta da China que publica livros de grande requinte que vou acompanhando. 

Wednesday, July 29, 2026

Um OSSO

 

Um Osso

Depois de um grande silêncio

tive notícias no e-mail.

Mandava-me um poema

mais um difícil

para eu decifrar.

Assim tão de repente

como quem atira um osso

a um cão perdido na rua

sem dono que lhe desse atenção.

Mordi o poema

igual aos outros entre o sério 

e uma desbragada imaginação.

Que sorte ser assim

ao mesmo tempo sério

e desprendido 

andando solto pela rua

sem procurar caminhos

que levam à exaustão.

Deméter

 

DEMÉTER

Não somos pó

somos terrra

assim o afirma Deméter

a deusa que guarda a natureza

no seu verdadeiro esplendôr 

quer a filha de volta

mas inteira

apesar da treva que a levou

e tanto amor...

Quando eu morrer

 

Quando eu morrer

não perguntem

de que roupa gostava mais

nunca fui muito de roupas

eu era mais livros, quadros, 

e cores musicais

nada que se metesse num caixão.

Quem me lavar

embrulhe-me depois num lençol 

branco, limpo

 sem arrebiques

que eu nunca fui de arrebicar

e deitem-me no caixão

madeira pobre que descerá à terra

com a tampa bem fechada

para a ocasião.






Monday, July 27, 2026

 O Amigo

É dele que estou à espera

um amigo especial

coincidimos num tempo

que se demora

eu sei que chego tarde

mas ele não me leva a mal

ocupa-se de almas feridas

que embrulha nos seus silêncios

lá dentro  a palavra que cura

a que nunca se diz

permancendo obscura

dizer matava o sentimento.

Sá-Carneiro para Fernando Pessoa


Sá-Carneiro para Fernando Pessoa

Eu não sou o eu nem sou o outro

nunca soube o que sou

ou o que era

como vim 

como vou

que asas são estas que me deram

e agora me levam

já cozi o seu ovo

e já fiz o café

diz Rosário a brasileira cuidadora

é adeus até ao próximo fim de semana

dá-me um beijo na testa

fique bem, sim?

poderá ser o último

um adeus carinhoso

de manhã bem cedinho

quando o que eu quero é dormir 

sem pensar, apenas respirando

entre as dores de mais uma onda de calor

começa hoje

quem sabe se entretanto é na onda que morro

com ar condicionado

enterro a cabeça na almofada

respiro

não penso

quem sabe se é assim mesmo

que parto para mais um dia

que não entendo mas ainda assim

enfrento...



Wednesday, July 15, 2026

O Vento

O Vento

Para a Minnie e o Manuel do Rosário

que caminham e ajudam os outros a caminhar


Caminhar contra o vento

enquanto o vento sopra

e faz correr

a água transparente

pelas pedras mais lisas do regato

macias de tão lisas

e abrindo os espaços

que a vida lhes pedia

  

Monday, June 29, 2026

Antóni Castro Caeiro, OS SENTIMENTOS

António abriu uma das suas conferências com a frase de Jesus : 

Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. 

Cada afirmação um desafio ao nosso pensamento.

O Caminho, não um caminho.

Qual éntão o que Jesus nos lança como desafio para poder seguir em frente, a caminho da Verdade e da Vida? Nascemos e parece fácil, no calor do colo da mãe. Mas crescemos e tudo é caminho, oportunidade, dispersão, divertimento. Em adultos os apelos são muitos, não se descortina um sinal, um sentido, como no trânsito a seta do sentido único. São múltiplos os sinais, os sentidos, é tudo oferecido parecendo solução imediata e fácilmas não ficamos perto da Verdade. E que verdade seria, senão uma distracção, mais uma entre tantas?  Desviamos ou somos desviados a cada passo para cada vez mais longe do que poderia ser, ou não, a verdade ansiada. Caminhos de escuridão, como no Hades. Labirintos que assustam, não ajudam. Falta uma Ariadne que nos guie com o seu novelo infinito.

Faz falta maior atenção: Jesus disse EU sou o caminho, a Verdade e a Vida. EU, logo não procuremos mais, Ele é o que devemos seguir, atrás dele devemos continuar, nele se encontram a verdade e a vida desejadas.

Mas a ele, como encontrá-lo? Onde está, o que faz, na sua materialidade que  possa ser encontrado? Porque já percebemos, na nossa reflexão, que é mesmo só na sua Espiritualidade que poderemos encontrá-lo.

Uma vez encontrado, está feito o Caminho. 

Mais difícil é meditar e entender o que se passa com a Verdade.

Verdade, cada um tem a sua...

Daqui em diante sugiro a leitura da apresentação do António Caeiro, que vou seguir depois.

Podemos falar da Vida sem passar pela Verdade? Cada Verdade sua Vida? Voltamos às escolhas múltiplas ou ficamos num único caminho, o escolhido? E faremos o esforço de procurar entender a razão dessa escolha? E ra ou parecia fácil, estava ali mesmo, oferecida por uma IA mais veloz? E Jesus, no meio destas reflexões, qual era o seu papel de verdeiro Mestr e Guia neste nosso caminho? Teria que ser afastado, ou aceitaríamos, para a longa travessia espiritual tudo o que por ele fosse dito, melhor sentido?

Perplexidades, muitas.

E a dificuldade da escolha.

A decisão e a obediência. Mas sem crença? Sem fé?

Friday, June 19, 2026


IR E VIR

Entre Ir e Vir

não sei o que se passa

não sei se empurro

ou se sou empurrada

e se soubesse o que faria?

O mesmo que faço agora: 

Nada.