Literatura e Arte
Sunday, April 12, 2026
Diogo Ramada Curto
Para o Diogo Ramada Curto
in memoriam
1
As Mães são exigentes.
Não pode haver atrasos
ficam impacientes
já está na mesa o pão
já está na mesa o vinho
a mesa de luz foi posta
com toalha de linho
todos à volta sabem
que a mãe aguarda o filho.
11 de Abril,2026
2
Agora és tu
que estendes no céu
a toalha de nuvens brancas
e fazes a boa oferta das
últimas refeições
a todos os que te amaram.
Alguns já estão contigo
outros vão a caminho
na via láctea ou
na estrada de Santiago
pisando as pedras finais.
Estarás lá para ver
com um olhar atento
que não esquece ninguém
já separado do mundo
que te pesava há anos
sabendo que aí tão longe
tinhas à espera a mãe
13 de Abril, 2026
Thursday, March 19, 2026
O Quadro sem nome
Olho mais uma vez para o quadro. O que faz ali o diabinho preto, a espreitar para a figura deitada?
Diabo que espreita do lado esquerdo, o lado do coração que será perturbado por um Mefisto traiçoeiro que apostou com Deus aquela alma.
Thursday, March 12, 2026
Volto a olhar para o quadro sem título do Raoul Perez.
E vejo mais do que vi, no primeiro olhar. Esse é o segredo da sua meditação surrealista, onírica.
Estamos no Jardim do Éden. O diabo espreita já, no princípio de tudo, enquanto o homem jaz, ainda adormecido, mas que em breve despertará para um outro sonho, o da existência primordial.
À direita as portas do templo de que será expulso, um pouco mais tarde. Da sua boca nasce uma árvore, que podia ter sido a da vida eterna.Mas não, e o diabo era já um préaviso. Adão, já em forma de andrógino, masculino feminino, escolha a árvore proibida. Sai do sono com um conhecimento de que ainda hoje pouco tem, e perde a vida, cruelmente, para sempre.
Raoul Perez nesta narrativa simbólica que ali se esconde, mereceu viver, para a contar.
Wednesday, March 04, 2026
Raúl Perez, desenho a tinta, sem título
Olhando de repente para este sugestivo desenho a tinta sobre papel, ocorre-me um título Crematório. A imagem da cara sobre uma tábua que pode ser base de um caixão, com o fumo em forma de árvore a sair da boca, um diabinho (os cornos) espreitando já do lado esquerdo da folha de papel - que mais poderia ser, esta magnífica reprodução do corpo, ou mesmo da alma (os surrealistas têm um humor muitas vezes cruel) a caminho da sua fogueira eterna?
Por ser desenho torna-se mais leve e misterioso o traço que sugere um caminho, o que seria impossível num quadro a óleo, de um Salvador Dali, por exemplo. Dali é muito explícito, Perez conserva uma discreta subtileza que atrai e nos obriga a pensar.
Em que se pensa, meditando sobre este desenho? Nos percursos da morte, que se calhar não decidimos, como não decidimos da vida.
O fumo que sai da boca do corpo estendido é uma futura árvore ou um sopro de futura vida?
Tuesday, February 17, 2026
Carta a um jovem
CARTA A UM JOVEM
Não te iludas
o mundo não começou
quando nasceste
nem acabará
quando morreres.
O mundo é um sem fim
um infinito
de formas variadas
algumas serão deus
tu és um grão de areia
que se perde
na onda mais profunda
no ano chinês do cavalo
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