Friday, May 24, 2024

AQUELE

 

AQUELE

 Por onde anda

que não vejo

aquele que não interroga

mas que o silêncio

em suspenso

nos obriga a procurar...

por onde anda

em espaços misteriosos

faz-nos falta

mas não podemos falar

as palavras não ajudam

cada momento é especial

não o devemos quebrar

 

24 de Maio, 2024

Tuesday, May 21, 2024

Leituras

 Leituras

Que leitura no dia de hoje

me ajudaria

mais do que não fazer nada?

Estou farta de leituras

e também já estou farta

de nunca fazer nada.

Oiço Pollini ao piano

uma Fantasia de Beethoven

que ainda não conhecia.

Melhor que um livro

sem dúvida, 

a música entranha-se

sem esforço.

Mas o que deixa no fim

a quem perde a memória

de cada nota tocada?

Valia mais a leitura

ou ficar sem fazer nada?

21 de Maio, 2024


Wednesday, May 15, 2024

Luís Bento, DEBAIXO DE TODO O PESO, o Tempo é um processo com brechas

 

É sempre uma grande responsabilidade aceder a um pedido que parece simples, mas não é. Dar opinião sobre um texto, poesia ou prosa que um autor hesita em publicar, tentando uma editora que o aceite, ou, no caso de recusa, uma edição de autor.

Na minha idade, que tive de tudo um pouco, aceitações, críticas boas, silêncios e críticas menos boas e sem me importar muito segui em frente, escrever era-me necessário, dissessem sim ou não, só tenho um conselho como o que Rilke deu a um jovem poeta: se sentes que é vital para ti, escrever, escreve, escreve sempre, é a tua vida que está em jogo. Mas se por acaso não é isso que sentes, então não escrevas, faz outra coisa, há muita outra coisa mais útil para fazer no mundo...

Eu sou se calhar menos severa, mas também os tempos são outros e eu própria já nem sou muito deste tempo... 

Falemos então deste livro de Luís Bento: o título ajuda, por uma vez reflecte sobre o tempo, mais do que sobre o corpo e suas exigências de ser corpo e ser humano (conceitos e experiências que atravessaram um pouco o ano de 2023, em alguns autores). No caso das vivências do corpo, teve antecedentes vindos de um passado já longe, agora que se vive tudo de forma tão rápida e efémera: Luís Pacheco, que não hesita no palavrão (mas sou eu, aos 84 anos, com uma escolaridade que proibia os neo-realistas...) e Herberto Helder que não hesita com coisa nenhuma, traz uma orgia de imagens, uma originalidade  de associação meio surrealista, meio irónica, meio tão lírica que faz tremer o sangue que há nas rosas...e Luís Bento, na sua poesia, traz ao nosso convívio de leitores para que algo mais se acrescente às rotinas de um quotidiano que hoje em dia, tempos difíceis, todos partilham.

Estamos perante uma poesia de estilo narrativo, muitas vezes alargando-se mesmo em curtas descrições que não sendo prosaicas são mais do domínio da prosa do que da poesia, pois a prosa permite alargamentos que o poema prefere exprimir de forma condensada, e buscando, no descritivo e no detalhe do pormenor a realidade ou o seu palpitar secreto, que ali revela e esconde o que vive o poeta.

E vive mal. 

As brechas do seu tempo são feridas mal curadas num mundo em decadência, duro, difícil de aceitar para quem de vez em quando sonhou. Não tanto com um amor duradouro, eterno, feliz, mas com uma simples relação de fugitivo prazer. O olhar do poeta sobre o real à sua volta endureceu, e o seu tempo, quando sente que é seu e não lhe foi roubado, deixou arrefecer ainda assim o que podia vir a ser algum sentimento de maior leveza, sob o peso que refere no título.

Gosto de dar atenção aos títulos, porque ali se escondem, tantas vezes, os verdadeiros fios da leitura.  O que lhe pesa, na vida que vive, tem apesar de tudo uns momentos: as brechas que o libertam e lhe permitam a revelação da escrita, ou do poema.

A influência dos Haikai tanbém neste futuro livro está presente. Os versos curtos, contidos, a lição ou a reflexão que pode ser moral, ou mesmo irreverente.

Voltemos ao título: o que diria Heidegger, no SER E O TEMPO?

Para Luís parece evidente que é a brecha no tempo que permite a existência do ser. A brecha no eterno imaterial permite a materialização que é a do ser humano. A criatura que surpreende, na sua evolução que poderemos ler em Hariri, cuja curiosidade manchou no Éden um tempo que não teria peso, seria de eterna leveza, descontraída e feliz numa inocência que nada devia ter interrompido.

Mas este tempo de Luís não é virgem, a inocência perdeu-se logo nos primeiros momentos da criação, e agora as criaturas que habitam o planeta manchado sentem não a leveza prometida mas o peso de um eterno mal, o do tempo que tem brechas, mas que foi desviado. 

Um post não permite o alargamento de uma página de jornal, por isso não farei como faria normalmente algumas citações dos diferentes poemas em que se mostram diferentes realidades. Escolho um de inspiração oriental, que podia ser de um monge taoísta, ou de alguns poetas japoneses do século XVII mais conhecidos porque já traduzidos na nossa língua, um Bashô ou um que me foi trazido agora, Ryokan, que o Luís gostará de ler, a edição é muito linda e cuidada.

Fiquemos com o Luís: 

NOITE

Esta noite traz vinho

e poesia,

Antes que a angústia nos silencie a voz

e eu não saiba o que fazer comigo.























































 

  

 

Thursday, May 09, 2024

Não nego

 Não nego.

Há dias

em que a ausência

é tão funda

que não há distracção

não há pastilha 

que traga de novo

côr à vida.


NÃO SOU EU

 Não sou eu

é o dia

que está a entristecer


9 de Maio, 2024

Monday, May 06, 2024

Preparação para a Morte

 

OS FILHOS E AS MÃES

Devagar

quase sem dar por isso

há já algum tempo

que estavam a preparar-se

com um afastamento

gradual, quase invisível

mas que as mães sentiam

dia a dia aumentar.

Os filhos não sentiam a falta

entravam e saíam

com naturalidade

e às vezes passava-se

um tempo maior e um silêncio

que elas não interrompiam

pois esse afastamento

fazia parte da vida

e da preparação que a vida já pedia.

As mães sentem que está ali o dia

mas aguardam caladas

não querem que os filhos

antecipem a hora da chegada

uma hora que não sabem marcada

seria estragar a rotina dos dias

e da tranquilidade

que nem sempre lhes é

dada, vivem tempos difíceis

que um dia serão lembrados

e falarão da mãe, do dia especial

que no Dia da Mãe era costume antigo

celebrar.

Crianças, com prendinhas e desenhos

adultos já com filhos e netos

um almoço ou um jantar

que a todos reuniam, ou não podendo ser

um breve telefonema, para num outro dia

combinando lanchar.

 

6 de Maio, 2024

 

 

 

 

Sunday, May 05, 2024

Liberdades

  

AS LIBERDADES

Passaram 50 anos

mas faltam ainda mais 50

ou mesmo 100, quem sabe

os homens tomaram a Liberdade

de assalto já no ventre da mãe

não corria lá sangue

nem o amor natural

das criaturas

apenas uma água suja

impura

deram aos homens uma batuta

por dentro tinha um bastão

nasceram com eles na mão

e hoje são prepotentes

como todos os outros foram

em todos os momentos

que os antecederam

 

5 de Maio, 2024

 

Kantorov

 


O SOM DO PIANO

(calhou ser KANTOROV)

De manhã

Só o som do piano 

o deslisar suave dos dedos

nas teclas que obedecem

acalma o coração desabrido.

Por que razão bate ainda

tão atento a um som tão escondido?

Só o som o acalma

e deixa adivinhar

quem sabe um dia mais tranquilo.

Correm os dedos tão finos

como patas de aranha

tecendo os seus segredos.

Bate o sol nas cortinas

e pousa na varanda um pássaro fiel

mas atrevido.


5 de Maio, 2024

Saturday, May 04, 2024

A Mulher e o Gato

 

 A Mulher e o Gato


Reparo primeiro na mulher.Bastete – Wikipédia, a enciclopédia livre

Sentada no seu jardim

com jacarandás já floridos

à sua volta tudo ainda era seu

e ela uma incarnação renovada

traços tão estilados sem uma ruga sequer

nada que lhe abalasse a  voz

no momento de responder.

Estava a ser entrevistada, sem temor da sua imagem

que não seria deformada, promessa feita e cumprida

naquela tarde tão livre, tarde tão sossegada

que o tempo lhe tinha dado

e ela agora aproveitava sem saber ainda ao certo

que destino o tempo lhe reservava.

Orgulhosa de si

também pouco lhe importava,

dizia na entrevista tive tudo o que queria

que mais posso desejar?

Ao seu colo um gato enorme

dos que o meu filho, que tem um igual ao dela

chama de gato leão, também ele incarnação

do livro dos mortos egípcios

antigo guarda do templo que agora a guardava

a ela, quem sabe sacerdotiza da antiga religião

que nela se revelava.

Não era o gato de Alice, o quântico imprevisível,

era o gato que à mulher se agarrava como criança

perdida e que dela dependia na sua nova função.

Mal lhe cabia no colo, mas tinha a pata bem firme

bem junto ao pescoço do mimo, com a cabeça encostada

que beijava para lembrar que era ele o guardião

a mulher a sua presa, livre do templo de outrora

onde ambos ainda vivos viviam em comunhão.

Agora a vida era outra, mas não se engane ninguém,

a mulher não era a dona, era o gato o seu senhor

que dava calor e mimo, e a protegia dos medos

que de noite a afligiam e a enchiam de terror.

 

4 de Maio, 2024

 

 

 

 


Tuesday, April 30, 2024

Paula Rego, a Luz e a Sombra, por Cristina Carvalho, ed. Relógio d'Água, 2023

 Já referi muitas vezes a vocação, herdada do pai, o Prof. Rómulo de Carvalho - sem esquecer a grandeza do seu grande pseudónimo António Gedeão - que encontro nas obras de Cristina Carvalho quando ela escreve as suas biografias romanceadas sobre os autores que prefere e o público recebe com agrado porque nelas vai muita informação genuína e útil, para lá do prazer da leitura de bom, para não dizer excepcional, domínio da língua portuguesa.

 Divulgar, para lá da informação que se transmite, é também, ou acima de tudo, despertar no leitor um desejo de ampliar os seus conhecimentos sobre a obra, o autor ou autora em questão. Este volume sobre Paula Rego é, deste ponto de vista, extremamente interessante. Por ser quem é, uma das melhores e raras criadoras do século XX, que a Inglaterra adoptou como sua, na antiga Tate Gallery, que antes era visitada acima de tudo por causa dos óleos de Turner. Este sim, um pintor com o domínio pleno do jogo que se esfuma entre luz e sombra nos seus quadros.

Paula surge com uma narrativa em que predomina não o jogo mas a encenação de uma vida exposta ao que lhe é próprio, de bom e de mau, de luminoso ou perversamente assustador, em cada quadro. A realidade é dura, e atravessa a luz e a sombra que sobre ela incidem, como a espada do Anjo a que já fiz referência noutro post deste blog.

Há uma dose grande de sedução e mistério, no título que Cristina Carvalho escolhe para uma criadora tão vista, tão admirada, tão estudada ao longo dos anos, desde aquele momento especial em que se revela na Galeria 111, nos anos sessenta. Eram figuras inspiradas nos contos tradicionais, a que me ficou na memória é a de um Príncipe, dentro de uma espécie de caixa transparente que deixava ver a sua fragilidade enquanto o protegia dos males do mundo. Uma figura algo tosca, e era nessa imperfeição, pouco adequada a um Príncipe, que residia o interesse e a originalidade daquela criação. Em Paula Rego veremos sempre, no palco das suas encenações, o algo de imperfeito, para não dizer incompleto, com que nos deixa, não desejando mostrar mais.   

 Cada quadro sua história. E nem uma pincelada a mais. Ela esconde, não revela, expõe, dirão, mas não impõe.  E Cristina pressentiu isso mesmo, daí o título de luz e sombra,  pois há sombra naquelas obras, mesmo que em plena luz.

Agustina Bessa-Luís, no volume que publicou nas ed. Guerra&Paz, AS MENINAS, salienta a importância do desenho na sua obra. 

Cito: " O desenho de Paula é uma escrita. Paciente, determinada, barroca e condescendente ao mesmo tempo.É uma escrita que se aprende na solidão, que pede a aprovação desse mago interior que se chama a arte. Onde nasce a arte? Que caminhos percorreu até chegar a essa hábil construção sobre os abismos do nada, colhendo de passagem as formas, as variações, as presenças? Já estava pronta e acabada nas grutas de Lascaux e nas abóbadas de Altamira. Não era uma tribu quem pintou aqueles bisontes e gazelas. Era alguém dotado, que se escondia no negror da caverna para pintar (...) A realidade era a sua obra e não aquilo que acontecia à luz da manhã (p.16-17).

Impossível explicar melhor o que é o desenho e a sua função na obra de Paula Rego, podendo dizer-se o mesmo da sua arte na pintura, em que a tela é o palco de uma vida, a sua. 

Agustina ainda acrescenta, e melhor não se poderia dizer sobre o que é a arte, mesmo para lá do desenho: " o desenho é uma uma pronúncia, como a da fala. Onde nascemos, que influência tiveram em nós as primeiras vozes que ouvimos, as corruptelas, o som e a intenção que ele transmite, se de agressão ou carinho, tudo aparece no desenho da escrita".

Por outras palavras, o artista transporta consigo as experiências acumuladas ainda dentro do ventre da mãe e que se continuam no seguimento da sua vida, seja ela mais feliz ou mais atribulada, e que virá a surgir, ou ressurgir, do seu mais arcaico e profundo ser, o do tempo da alma manifestado em momentos de magia na sua  criação. 

Quando Cristina Carvalho escolhe salientar no título do seu estudo a sombra, retoma o que nos diz Agustina e que eu própria sempre senti, perante o abalo que a contemplação de cada quadro me causava: " as trevas estão sempre presentes na obra de Paula Rego"(p.24). 

Agustina descreve com o seu olhar frio e enxuto, no quadro das Meninas com o Cão, como em cada momento aquele carinho que o envolve é para melhor no fim se abrir sobre o melhor meio de o matar. Não é só a treva que está sempre presente nas obras de Paula, é a morte anunciada, ainda que perversamente adiada, a morte e não a vida embora em cada quadro, e não apenas nestes das Meninas, se exponha uma rotina que podia ser feliz, na casa, com as criadas pelo meio, e uma animação feita da desorganização dos dias, como em qualquer vida, em qualquer casa. Mas Paula escolheu sair dessas rotinas, na sua vida real, e transpô-las - porque a memória é poderosa, no nosso imaginário - para as encenações de cada quadro. 

Podemos tentar encontrar, na sua biografia, a razão desse negrume escondido: o casamento de amor a que foi sempre fiel, com um marido cuja doença degenerativa depois acompanhou e foi representando, com sinais que mesmo discretos nos recordavam de como é frágil ( e cruel) a nossa existência de humanos. 

Agustina, em cujos comentários, confesso, me revejo, acrescenta ao que já dissera, que a obra de Paula é autobiográfica, mas sobretudo assustadora. Eu não poderia ter em minha casa um quadro dela, que todos os dias me feriria com a sua crueldade, embora contemplar cada um, seja no museu ou mais facilmente num livro ou num catálogo me prenda a atenção até ao mais pequeno pormenor. Porque em tudo o que ali está contido é sinal com sentido (retomo um verso de Hoelderlin...). O sinal é de grande força e beleza, que seduz, mas o sentido é aterrador. Paula sofre, certamente, com o peso do seu quotidiano. Mas liberta-se impondo uma narrrativa do que é a vida na sua nudez e que nos obriga a descobrir: é sujeição a algo de maior, é dôr oculta que nasce de uma profundeza contemporânea do momento da Criação, quando o Verbo se manifesta e se materializa. Viver é sofrimento. Só pela Arte se abre uma via salvífica, quando surge o mago de que fala Agustina, e Clarice Lispector chamaria de Hora da Estrela. Ou, para continuar com momentos de excepção, uma Terceira Margem como a do rio de Guimarães Rosa num dos seus contos.

Paula Rego vive, na sua arte, nessa terceira margem onde só ela manda, é livre, voga na água de um rio profundo, mais fundo do que o Aqueronte, chamado rio da dôr.

Há várias semelhanças na abordagem que Agustina e Cristina Carvalho fazem de uma criadora cuja obra, ainda que conhecida e reconhecida, estudada já por muitos, amantes ou eruditos, cada qual escolhendo o perfil que mais os atraiu, o que na verdade não me admirou, pois ambas têm na sua aproximação uma vertente sociológica, antropológica mesmo daquele tão extraordinário imaginário, muitas vezes indecifrável por muito que se contemple e se tente encontrar a chave para os seus múltiplos fios misteriosos. Porque é tecida de mistério, a obra de Paula Rego, e temos de demorar para poder entende-lo. Essa é uma das grandes qualidades do estudo de Cristina Carvalho. Apresenta-o com a simplicidade e a modéstia de quem tem a noção de que vai abordar  algo de maior. O título também se explica, entre e luz e a sombra. Já Agustina afirmara :

"O que se pode dizer de um pintor, de um escritor, é infinito.É como um risco de luz feito no espaço e que vai iluminando espaços que não pertencem às trevas. Têm uma luz própria mesmo antes de serem iluminados" (p.93).

Cristina Carvalho é dessa luz própria que se vai ocupar, escolhendo como abordagem o princípio de tudo: o nascimento, o crescimento, a infância, a juventude num país que o pai não considera digno dela, a ida para Londres, a maturidade e o resto de uma vida repleta de descobertas na pesquisa dos vários caminhos da Arte. A Arte será o ponto central do círculo da sua vida, com o que terá de memória recuperada, e de um presente mais feliz ou mais amargo conforme os seus quadros nos revelam. É uma contadora de histórias, as da sua vida com a luz e a sombra de que fala Cristina. 

Cristina afirma, a propósito da Arte de Paula Rego, tomando a sua voz, que " está lá tudo" (p.11). Representa nas sua telas a vida tal qual é, grotesca e brutal, tantas vezes e que só o regresso à infância na Ericeira a devolve a si mesma, embora também nessa infância houvesse medos, a criada má, a professora que bate, a mãe que não a entende, e - aí sim memória grata e feliz - o pai que a salva. É ele que a leva para Londres, onde na famosa Slade School terá uma vida livre, nova, sem peias, onde aprenderá tudo da Arte e da vida. 

Se formos antes de o ler, ao Índice do livro, percebemos como foi acertada a escolha de Cristina. Não seria interessante o que os eruditos já tinham dito e escrito sobre a obra de uma pintora genial, mas seria quem sabe mais útil descobrir ou tentar revelar (por íntima empatia, sem explicação) sentimentos, revoltas, momentos de uma infância que não sai da cabeça nem dos quadros que Paula pinta e constituem quase metade da abordagem da obra de Cristina Carvalho. Esta tem o cuidado de explicar (de se explicar) na escolha feita, de episódios da vida, e não da obra,  A Ericeira, terra de pescadores, onde cresceu numa casa de gente bem, mas de onde só lhe apetecia fugir. A mãe metia-lhe medo. O pai desejava libertá-la, como veio a acontecer. Desenhava-se desde cedo um horizonte, longínquo, mas ao qual o pai ajudou a chegar.

Disse que Cristina Carvalho escolheu falar (ficcionar) uma vida, longa, frutuosa na abundância do que produzia e demorou a ser descoberta, e sobretudo amada pelo que de si mesma oferecia. Na obra, a vida exposta. Cristina, na fusão com essa realidade de que se sabiam fragmentos e sobre os quais se sentiu à vontade para trabalhar reconstituindo, a seu modo, tomando conta da voz (técnica que lhe é habitual) de Paula, a protagonista oculta, devolve-nos a mulher, mais do que a pintora, a criança que foi, a mãe prematura e a amante de sempre. Discorda aqui de Agustina, para quem em Paula é o sexo, o ímpeto da relação que se consome rapidamente e não o amor que ela devotará para sempre ao marido, pai dos filhos,  até à sua morte que o destino antecipou.

A grande fonte é o filme que Paula, já de alguma idade se dispôs a deixar fazer pelo filho, e onde sem reservas conta tudo, responde a tudo, nada esconde da sua vida difícil, do que pinta nos seus quadros, da permanente ameaça que em todos se pressente, do medo a que  Cristina, sendo também ela criadora, tão claramente explica e entende. Partimos sempre com medo no início da primeira frase, da primeira pincelada, do primeiro esboço no desenho. A qualidade que se descobre no estudo de Cristina Carvalho é que ela mostra como esse medo, nas mãos duras e no olhar inflexível de Paula, entra na narrativa das encenações que prepara e nos deixa sem mais para serem contempladas.

Como frisa Cristina, nem todos gostarão, outros ficarão como que hipnotizados por uma vida que foi pintada como uma história de vida que se conta por imagens nem todas fáceis, inseridas num contexto em que algo se adivinha de perverso, embora disfarçado em roupagem tranquila. Será real, pergunta o leitor, o amor declarado à Virgem Maria, a devoção que ajuda em momentos difíceis? 

Aqueles quartos não são a amável sala da corte de um Velazquez, com as Meninas, os pais, as amas, um cão deitado numa rotina normal e tranquila que o quadro revelará enquanto o artista pinta.

Os quartos de Paula Rego são espaços em que uma ameaça está presente, mas não se sabe qual, o que é pior. Esta é a Sombra de que nos fala Cristina, que não deixa esquecer que é de uma vida real que nos está a falar, compondo nos intervalos a matéria que lhe falta. Fala da mulher, da sua vida feita como as outras de rotinas diárias, tantas vezes penosas, porque o desejo na artista é de fugir de tudo e de todos, e pintar, dar expressão, livremente, à sua Arte. Quando se fecha sobre si mesma é a verdade da sombra que se materializa, e quando acabao que tinha começado, aí sim, podemos falar de luz: a luz da Vida, que sobreposta à Arte lhe permite continuar na sua luta. A Criação é uma luta permanente: contra o mundo e contra si. Cristina salienta bem esse facto. A Arte é o que a faz viver Paula, mesmo nas maiores dificuldades, com o seu marido, Victor Willing, que é também o grande artista que ela amou e admirou desde sempre, quando o conheceu na Slade.

Não cabe tudo num post que pretende apenas chamar a atenção, que é no fundo o que Cristina Carvalho também faz no seu livro. Evocar uma mulher que foi genial, dentro e fora do seu tempo de criatividade, agora reconhecida na sua Arte, tanto como temida outrora. Desafiava normas, comportamentos, estilos, em cada narrativa encenada com o seus amigos modelos. Já o facto de gostar de pintar com modelos era estranho. Porque o modelo é  realidade viva inserida num imaginário solto, com uma lição que nem sempre se entende. E não temos a velha professora da memória a ralhar connosco, os imprudentes que se deixam fascinar por uma obra que rompe com o chamado Sistema, o que não permite desvarios de espécie nenhuma, nem na arte nem na vida.

Termino pois com uma citação de Cristina Carvalho, adequada ao final do seu livro, todo ele fora do sistema:

"Este curto livro não pretende revelar a intimidade da artista, nem isso seria possível. Também não pretende analisar a estrutura, o ideal ou a imaginação que esteve presente em toda a sua obra, tudo o que se conhece e tudo o que se não conhece. É, precisamente, o deixar à vontade a imaginação de quem observa, tendo por base algumas circunstâncias vivenciais, relacionais, em suma existênciais. Imaginemos esta vida a partir destas linhas, poucas. Não queiramos conhecer tudo. Esse conhecimento aprofundado - que se poderá julgar aprofundado - poderia conduzir-nos a uma realidade totalmente falsa. E tudo o que aqui é dito, todo este pouco que se revela, deixa-me, deixa-nos, imaginar o certo. Não é difícil. Claramente, esse certo está ao nosso alcance. Sendo assim, depois de muito ter pensado, decidi avançar, prosseguir com a escrita deste livro mantendo sempre a melhor relação possível - a da verdade - com todos os protagonistas, e comigo própria". (p.153)

Está dito, mas, como acontece com todos os Grandes criadores, fica muito por dizer. O que é o melhor incentivo para que se continue a procurar a luz e a sombra na vida e na obra de Paula Rego. Perguntarão, talvez, porquê Agustina e Cristina? Porque sendo grandes escritoras ambas escolheram Paula Rego para conversar connosco sobre ela.

Agustina uma escrita a seu modo, de pormenor, severa, descritiva. Cristina uma escrita de sentimento e paixão. Que nos leva de novo à infância que em todos nós se encontra, de algum modo perdida... 





 



  

   



 




Sunday, April 28, 2024

 



A FORÇA 

 

Onde se esconde

essa força

que a uns empurra

e a outros abandona

no seu tempo incompleto

onde se esconde

na vasta casa

que é o nosso universo

que não tem sótão

nem deixa ver o tecto.


28 de Abril, 2024

 

Sunday, April 14, 2024

 PALESTINA

a voz das crianças

 

Ninguém as acompanha.

Partem sozinhas

em revoada

as almas tão pequenas

daquelas crianças mortas.

Vão todas juntas interpelar

o Pai da criação:

Que mal fizemos nós

que tanto te ofendemos?

E os outros que nos perseguem

quais as suas razões?

E onde estão os teus Anjos

os luminosos

que escondes nos Infernos?

Profetizam, por ordem tua

mas não sabem o quê.

Houve um princípio, dizem,

terá de haver um fim.

Mas esse fim

tão longe de nós ainda

não se vê.

 

9 de Abril, 2024

Sementes

 SEMENTES

É na hora de morrer

que pensamos nas sementes.

O jardim fica tão longe

já esquecemos o caminho

que nos podia levar

e nos podia trazer

de volta com as sementes

que devíamos plantar.

Sementes de vida fértil

de vida continuada

em árvores que já outrora

tinham sido abençoadas.

Tinham frutos comestíveis

garantiam gerações

que os Anjos protegeriam.

Mas onde estão esses Anjos

cujo abraço mete medo

aos poetas que preferem

um passeio descuidado?

Os poetas temerosos

não se atrevem

às perguntas mais difíceis

passeiam para esquecer

que tinha havido sementes

que tinha havido um abraço

um grito que se abafava

um espanto para dizer.

14 de Abril, 2024

(para os dois Luís Galego)


 

Tuesday, April 09, 2024

Amar e ser amado

 

É preciso amar 

para ser amado.

E amar é tão fácil...

basta dar atenção 

ao outro

que está ao nosso lado

Saturday, April 06, 2024

AMORES

 


 AMORES

 

Tão jovens ainda

aqueles amores tão puros

escondidos nos jardins

a química do desejo

ainda a despontar

não podiam ser vistos

de mãos dadas

havia sempre alguém

a denunciar

 e pelos salões dos velhos

corações ressequidos

também a invejar

 

É bela a juventude

incendeia os corações

que simplesmente

se entregam

sem segundas intenções

a não ser a descoberta

que pode ser de uma vida

ou de um adeus discreto

beijo de despedida


era um amor sincero

naquele momento eterno

em que os corpos ardiam

mas não se repetiriam...

havia deuses adversos

escondidos nos arbustos

que também invejavam

cada beijo roubado

e sem que os jovens soubessem

separavam caminhos.

 

8 de Abril, 2024

 

 



Friday, March 29, 2024

DEMÉTER

 

DEMÉTER

 

Deméter está zangada.

As árvores já estão verdes

mas não há frutos no chão.

Não há trigo plantado

não há pão

 

29 de Março, 2024

Sexta-Feira da Paixão

Wednesday, March 27, 2024

 Sábados

(para o Carlos, feliz na sua ilha)

O Sábado é um dia mau.

Não sei porquê

mas é mau.

É o último dia,

o Criador rejubila

com a sua criação

mas logo a seguir

num dia outro qualquer

perde o sonhado descanso

longamente ambicionado.

Eva era afinal màzinha

Adão um caso perdido

e ele o Criador

já se tinha arrependido.

Mas era tarde demais

pouco podia fazer

além de contar as árvores

plantadas no seu Jardim.

Ali estavam elas

de raízes profundas

de frutos apetitosos

que ele nunca comeria

pois que a sua eternidade

tal coisa não permitia.

Eterno já ele era

e que ganhava com isso?

Expulso o par primordial

nada mais o entretinha
 restava-lhe passear ou

dormir estendido na sombra

que as copas ofereciam

e falar com a serpente,

a verdadeira Rainha.


27 de Março, 2024

 


Friday, March 22, 2024

A DÔR E A MÃO

 

 

A DÔR e a MÃO


Inspiro-me em Ionesco,

 não que esteja a morrer

como o seu Rei

que a literatura

ou seria a música?

aliviava um pouco

e agora, pensando nele,

ouvindo música barroca

em velhos instrumentos

sinto que a mim

entre os vários tratamentos

a música me alivia.


Dores não de corpo e alma

mas apenas de corpo

mão estupidamente partida

numa queda distraída

mas que foi operada,

engessada

desengessada

e agora continua a doer,

malvada, sem ter em conta

que chegou a Primavera

e era hora de eu voltar

a escrever

mas quando a mão me dói

dói também o pensamento
e fico paralisada.

Maldita Primavera

semana de tanta festa

e glorificação

e é a mim

que me julgava feliz

pois saiu mais um livro

que me dói tanto a mão...

 

O Rei morre?

Mas eu não quero ainda

o corpo dói

mas a alma vive

e na música

eterno pensamento

sinto o meu prolongamento

 

22 de Março, 2024

Tuesday, March 19, 2024

 Nuno Júdice III

Ela chegou

princesa envolta em flores

que ele iria colher

mas chovia tanto

há tanto tempo

no interior das palavras

que eram flores

e que ele tanto aguardara

que as suas forças falharam

no último momento

e ela foi engolida

mais uma vez raptada

pelo rei poderoso

comandando o destino

Monday, March 18, 2024

Nuno Júdice, in memoriam

 Não é logo

sobre tantos retratos

tranquilos

de sorriso enigmático

com algo escondido

no olhar e

que alguém se precipita

a revelar

que surge a palavra certa,

a do lamento.

Na Primavera também morrem

poetas

como qualquer pessoa

de modo inesperado

mas dos poetas

exige-se tanto mais...

que fiquem

que perdurem

que nunca de ninguém

se vejam separados

não é para isso que servem

os retratos?

E as palavras, tantas,

que nele ficaram sem tempo

 atravessadas?

Não era Primavera?

Não estava a chegar

a bela Proserpina?

Mas poeta é assim:

Conhecida afinal

a última palavra

já não quis esperar.





 

Sunday, March 10, 2024

 O PAÍS

 

Em que país vivemos:

país de empurrão e de ruído

sempre assustado

como se houvesse medo

que no comboio da vida

alguém viesse ocupar

o lugar que já tinham reservado

 

7 de Março, 2024

 

 

 Trombetas no Apocalipse

 

E por que não um Scriabin

deslizando suave e breve

pelas teclas de um piano?

Podiam ser asas de Anjo

de compaixão e bondade

pondo fim a uma vida

que foi dada, não pedida

e agora chegava ao fim.

Afinal o que era a Eternidade

que não devia ter fim?

Cito um pintor amigo:

Eternidade, se existe, não tem

princípio nem fim

limita-se a existir, ultrapassa

o que dizemos, pois falamos sem saber.

Deus saberá talvez

e mesmo assim...

 

6 de Março, 2024