Thursday, March 19, 2026

O Quadro sem nome

Olho mais uma vez para o quadro. O que faz ali o diabinho preto, a espreitar para a figura deitada? Diabo que espreita do lado esquerdo, o lado do coração que será perturbado por um Mefisto traiçoeiro que apostou com Deus aquela alma.

Thursday, March 12, 2026

Volto a olhar para o quadro sem título do Raoul Perez. E vejo mais do que vi, no primeiro olhar. Esse é o segredo da sua meditação surrealista, onírica. Estamos no Jardim do Éden. O diabo espreita já, no princípio de tudo, enquanto o homem jaz, ainda adormecido, mas que em breve despertará para um outro sonho, o da existência primordial. À direita as portas do templo de que será expulso, um pouco mais tarde. Da sua boca nasce uma árvore, que podia ter sido a da vida eterna.Mas não, e o diabo era já um préaviso. Adão, já em forma de andrógino, masculino feminino, escolha a árvore proibida. Sai do sono com um conhecimento de que ainda hoje pouco tem, e perde a vida, cruelmente, para sempre. Raoul Perez nesta narrativa simbólica que ali se esconde, mereceu viver, para a contar.

Wednesday, March 04, 2026

Raúl Perez, desenho a tinta, sem título


 Olhando de repente para este sugestivo desenho a tinta sobre papel, ocorre-me um título Crematório. A imagem da cara sobre uma tábua que pode ser base de um caixão, com o fumo em forma de árvore a sair da boca, um diabinho (os cornos) espreitando já do lado esquerdo da folha de papel - que mais poderia ser, esta magnífica reprodução do corpo, ou mesmo da alma (os surrealistas têm um humor muitas vezes cruel) a caminho da sua fogueira eterna?

Por ser desenho torna-se mais leve e misterioso o traço que sugere um caminho, o que seria impossível num quadro a óleo, de um Salvador Dali, por exemplo. Dali é muito explícito, Perez conserva uma discreta subtileza que atrai e nos obriga a pensar.

Em que se pensa, meditando sobre este desenho? Nos percursos da morte, que se calhar não decidimos, como não decidimos da vida.

O fumo que sai da boca do corpo estendido é uma futura árvore ou um sopro de futura vida?


Tuesday, February 17, 2026

Carta a um jovem

  

CARTA A UM JOVEM

 

Não te iludas

o mundo não começou

quando nasceste

nem acabará

quando morreres.

O mundo é um sem fim

um infinito

 de formas variadas

algumas serão deus

tu és um grão de areia

que se perde

 na onda mais profunda 

 

17 de Fevereiro
no ano chinês do cavalo

Saturday, February 14, 2026


A MÃO

Que não se negue a mão

a quem a pede

na hora de morrer.

A mão daria a paz

que em vida

tinha sempre faltado.

A compaixão obriga

a um perdão

que está a ser pedido

a compaixão obriga

esse gesto da mão

pacifica uma vida

e devolve o sentido

 

Fevereiro, 2026

 

  

 

Tuesday, January 06, 2026

O ANJO

 Quem,

a não ser Ele

o Anjo da Anunciação

poderia ter ajudado

àquele parto solitário

 cortando o cordão de um sangue

 de Vida eterna

que a Virgem ainda tinha

fechado no seu ventre?

O Anjo selou essa porta 

à qual se acederia por caminhos

de pedra, corações feitos pedra,

lágrimas feitas pedra

enquanto o sangue contido

 lhe travava o caminho a Ele

o Escolhido

para a sagrada Anunciação...


Maria já não chorava,

essa água bendita

como fora o seu ventre

já perdera o sentido. 

Nos seus braços abertos

o seu Filho morria

e o Anjo emudecido

buscava novas pedras

que fossem  corações

feridos

sangrando ainda

pelo mundo perdido

que o parto não ajudara.

Um enorme cordão

ligado ao ventre do universo

 pendia agora entre as estrelas

que Maria saudara, quando o Anjo

falou. Disse as palavras 

que eram procuradas, mas noutra língua

não era a língua sagrada.


6 de Janeiro, Dia de Reis, 2026

 

Sunday, December 28, 2025

O Capitão Ahab

Entre as profundas ondas da terra e do mar

da infância pequena protegida,

ovelha num rebanho que um pastor com o seu cão

 ia guiando

até aos grandes sonhos que a vida permitia

afinal eram apenas sonhos, ilusões de uma realidade

fingida embora desejada, a pesca da baleia inacessível

apesar de tantas vezes arpoada, sempre a perder  um

 sangue indescritível, que o cosmos reconstituía

se refazia no fulgôr de um vulcão, erguido longe

no mar  e devolvia as forças ao velho capitão

insistente, indomável à proa do seu barco

que um dia só ele afundaria.



  Freud, por outras palavras.

De Teolinda Gersão, Autobiografia não escrita de Martha Freud, ed.Porto Editora, 2024

Numa bela edição, design de Susana Cruz, e letra boa de se ler, sem esforço que cegue. A Imprensa Nacional devia dar atenção a este pormenor, de uma letra boa e cuidada.

Teolinda Gersão, sendo uma Académica experiente, nunca brincaria às biografias ficcionadas. Podemos esperar que este livro, de título que parece querer brincar com o género literário, não ignore o suporte de    leitura prévia e investigação que uma personalidade controversa como a de Freud ainda hoje exigem. Por aí podemos ler em segurança, há um trabalho prévio, de honestidade intelectual, que não desmerece do valor quer de Freud quer da autora.

Escolhe um modo que pode surpreender, de início, mas a que depressa nos habituamos: veste o corpo de Martha, mulher de Freud, assume a sua voz de mulher numa época em mudança e numa altura da sua vida (mais de oitenta anos) em que já não se pode alterar o que se foi. Alguma sensação de alter-ego, numa situação em que se sentiu, por alguma razão, próxima daquela mulher que deu a sua vida a um homem tão influente e que transformou a psicologia da alma em matéria de revolução social, pessoal e por aí em parte política também.

Mas Teolinda tem pressa em chegar à personagem de Martha, a ficcionada e a real, passando por cima de Sigi, o petitnom de Sigmund Freud, prevenindo o leitor que não se ocupará do grande estudioso da mente humana, mas sim da sua mulher, cujo estatuto era ou tinha sido durante anos apagado, até à publicação das cartas em edição completa, onde ela se afirmava de carácter tão forte como o dele e merecia um lugar não igual, mas igualmente importante. 

É depois da sua morte que finalmente vibra, gozando uma liberdade até esse momento raramente sentida. A obra dele e ele era acima de tudo a sua obra, tinha devorado em parte o que podia ter sobrado para Martha. Mas naquele tempo, como em tantos casos ainda hoje, a mulher era acima de tudo o pilar da família, esperando-se dela o ser   boa dona de casa, mulher, mãe, e perfeita na relação com o seu marido - o dono e senhor de que por vezes a mulher, sem nada dizer, se sentia cansada.

Nos romances que agora se escrevem nota-se a evolução dos tempos, a liberdade assumida, mas menos vezes o cansaço da aceitação submetida. Martha, agora que se sente livre e dona de si mesma e do seu destino - mas tem mais de oitenta anos - decide então falar da relação que moldou a sua vida nesta série de relatos que recupera das cartas que escreviam um ao outro, ela e Sigi. 

Teolinda refere, na nota prévia, que leu muito enquanto preparava esta publicação e sobretudo a correspondência de uns e outros. Notei a falta da publicação das cartas que Freud e Jung trocaram entre si, abordando situações (algumas amorosas, no exercício das sessões de psicoterapia) e conceitos que viriam a alterar a sua relação de amizade, entre eles o de inconsciente colectivo que trazia à superfície os casos onde se adivinhavam símbolos e mitos primordiais, que levaram Jung  a uma visão da psique diferenciada, que Freud não entendia ou não queria entender porque em parte lhe roubaria espaço no meio médico e social a que ambos pertenciam.

Hoje penso que o pensamento de Jung lhe levou a melhor.

Mas nada disto interessava à viúva, uma Martha  agora leve  e liberta de todas as anteriores restrições sociais e familiares. Não gostava de Anna, a filha continuadora fiel da obra do pai e nunca lhe entregaria o manuscrito que agora preparava, pois ela o rasgaria de imediato. Adiante talvez venhamos a saber porquê. São sempre complexas as relações entre mãe e filha, mais do que entre filha e pai, talvez este tema não seja abordado, porque afinal há mais na vida recuperada de Martha.


 


  

   



Saturday, November 22, 2025

 A Madrugada

 Não morras de madrugada

com a tua Amada ali

passou a noite contigo

para veres um sorriso

no momento de acordar

está de mão dada contigo

não te deixará partir

iriam juntos, dizias

e agora mais do que nunca

é a hora de cumprir

é a hora de ficar

 

22 de Novembro, 2025

Thursday, November 20, 2025

RAVEL

 Oiço Ravel

a eterna Sagração da Vida

os segredos os mistérios

a pulsação secreta

por enquanto escondida.

Cada um leva consigo

a vida que é a sua

a vida que viveu.

As outras

já são vidas entregues,

vidas que os outros vivem

ouve-se Ravel que embala

mas na pulsação dos acordes

nada revela.

 

para a Ana Marques Gastão

Friday, November 07, 2025

Miguel Serras Pereira, DE SÚBITO NO AVESSO DA MEMÓRIA

Como sempre encontro logo a música subtil que envolve os seus poemas, escondendo alguma imagem secreta, por entre versos de sabor oriental. Saem livros dizendo que a poesia é para comer. Esta podia ser gamba doce, a doçura está lá e é tão boa. Falando de sabores, na verdade eu que não sou muito comilona fico presa ao ritmo, há um lirismo cantável, nestes ritmos, como no modo de tocar que nos hipnotiza em Glenn Gould, que estou a ouvir no Mezzo. Canta as notas que toca, e o Concerto adquire outra magia. Não é Bach, é Chopin, que tocado por Gould se torna igualmente incantatório. Vão leves as suas mãos e não sabemos por onde seguem as notas.

Como estes poemas de MIGUEL SERRAS PEREIRA, um grande do nosso universo poético que leio há muito tempo, e de novo agora tenho em mãos, por gentileza sua.

Um leitor de coisas rápidas, dirá são versos em poemas pequenos, e a nossa fome é grande. Gente que engole à pressa, não saboreia, não sente como Celan, cuja poesia nós apreciamos, que o menos é mais.

No avesso da memória tanta coisa se perde, outras vezes se ganha, embora já diluída, sem lamentos, como em Tanto dá. 

É o correr do tempo que por ali está a passar e nos leva para a página seguinte: 

Enquanto vamos:

É só a vida tudo o que não temos

e deixamos para trás enquanto vamos

ou nada já nos falta nem buscamos

porque é a vida só o que não temos

  

 O tempo e a vida, na inversão que se pode fazer, contrariando o Ser e o Tempo de Heidegger : o tempo é o ser que tudo atravessa, também nas pregas da memória, a vida é o tempo, retirado nas pregas, no avesso da memória.

Tão agradável a leitura que podemos repetir, sentindo na emoção o que também a nós corre na alma, não o excesso mas a míngua, mais um levíssimo acorde nos finos dedos de Glenn Gould.

Termino, lembrando ao Miguel, que me entenderá, que a memória não tem avesso, ela própria já é o avesso do que foi e será a vida...

Obrigada por esta bela leitura que me proporcionou para o fim de semana.


Tuesday, October 28, 2025

Origami

Origami

Chegava a Nau Catrineta

miniatura de cartão

pintada de azul celeste

com versos de um  poeta

que só via Portugal 

as suas brancas areias

como lençóis num estendal

estendido pelo mar escuro

 que o país ainda amava

apesar de o conhecer

e repetir os defeitos

mais versos no origami

era um barquinho perfeito

já pousado no destino

dos calhaus bem escolhidos

pedrinhas soltas a eito

para indicar os caminhos 

daquela nau tão esquecida

só ficara nas canções

nos versos do origami

tão pequeno e tão perfeito

num país que era tão pobre

mas que não era feio

tinha luz

tinha comida

e tinha uma luz escondida

para mostrar o barquinho

a quem nele fosse ver

o segredo das pedrinhas

equilibrando o destino

28 de Outubro, 2025

 



 

Saturday, October 25, 2025

Nuno Félix da Costa, Sabedoria

  SABEDORIA

Ainda não acabei de entender

o outro poema, só aparentemente mais fácil

já tenho aqui outro que impõe uma leitura que é 

ainda mais difícil, nada é fácil com a poesia

 de Nuno Félix da Costa

que carrega sempre uma noção científica e ou 

filosófica entre as linhas do poético.

Procuro então entender o poético.

Mas não é fácil o poético, porque também aqui

as linhas dos versos, por não ocultarem mistérios

mas revelarem o normal quotidiano do gesto 

 ou da situação repetida, conhecida, como o riso,

 nos deixa entregues a uma perplexidade inesperada.

 Como pode o banal ser poético? Onde me fixo? No título?

 Sabedoria?

Um mundo tão abrangente que se torna para um leitor comum

impossível mesmo de entender. Pode saber-se tudo e isso

é Sabedoria? Ou não saber nada e isso sim ser Sabedoria?

Com a enorme gargalhada que fez a criação do mundo, quem ria afinal?

Deus ou o diabo?

E porquê querer saber, se se morre na mesma, sabendo ou não sabendo?

Nada sabemos do que é revelado depois, como não sabíamos do que 

 não foi revelado antes.  Quem tinha rido na hora de chorar?

Faz sentido escrever, como busca de explicação?

Ou é mais sensato não fazer nada, deixar o tempo seguir

o grande devorador do passado e do presente

com todas as palavras possíveis que a seca ironia do riso

nos está a sacudir

a grande roda gigante concebida sem intenção de triturar



Monday, October 20, 2025

 A CHAVE

Coração despassarado

Coração meio perdido

a bater de porta em porta

nenhuma porta se abria

ele tem a chave na mão

que deixa por vezes cair

ficando a vê-la no chão

de que serviria a chave

se nenhuma porta abria?

O coração tão perdido

e por todos rejeitado

que caminho ia seguir

 se via tudo fechado?

Deixar-se ficar no chão

perto da chave caída

não era uma solução

que desse sentido à vida.

Monday, October 13, 2025

A Festa

Foram encontros tão bons!

A Susana Borges, sua primeira apresentação 

Num Wedekind que eu traduzi para o José Osório Mateus, O Despertar da Primavera, numa sala emprestada, sem dinheiro, sem meios, mas com tanta imaginação e criatividade, a alegria única que só no teatro se encontra...Susana, que prazer o reencontro na Festa que a Cristina organizou!

Monday, September 22, 2025

 As Parcas 

Todas as manhãs ao acordar

repara que mais um fio

tão transparente

que mal se via

lhe foi cortado.

Não sentia

era durante a noite

e só de manhã

ao passar o pente

pelo cabelo

dava por essa falta.

Já são poucos

os que lhe sobram

mas ela não se queixa

quem sabe se a Parca

enfurecida não iria apressar

o seu ritual.

As irmãs, a seu lado,

fariam troça dela

pois era forçoso de noite

cumprir o mandamento

das forças cegas que ninguém

comandava, ninguém sabia

qual seria o momento...


22 de Setembro, 2025

 

Friday, September 19, 2025

 Yi King

A Árvore

uma árvore

no alto da montanha:

crescimento espiritual

( para o Pedro Chorão)

Sunday, September 14, 2025

As Parcas

 

As Parcas

São as deusas que não vemos.

Todos os dias cortam um fio

delicado como um cabelo

que não volta a crescer

e quando cortam o último

já não há nada a fazer.

15 de Setembro, 2025

Sunday, September 07, 2025

Dois livros que me chegam no mesmo dia

Dois livros que me chegam no mesmo dia, um o oposto do outro:

José Luís Ferreira, A Noite Respira-me por Dentro

Sérgio Ninguém, atrofia perene

Conheço a poesia de ambos, alguma coisa já escrevi por aqui, ambos amam a literatura e em especial a poesia que demoram a escrever, sem pressa, porque a palavra poética merece ser procurada  com uma lentidão amorosa que a honre no momento da escrita. 

Jung teria aqui matéria e substância para a sua reflexão sobre o que são, na alquimia, a conjunção dos opostos e de que modo se manifestam na psique, progredindo ou regredindo (ou mesmo por vezes afundando-se num caos de matéria feita de negro).

José Luís Ferreira, nos versos do seu livro, oferece um Cântico de paixão e amor intensos e genuínos a que deseja dar voz, não os deixando retidos na noite da sua alma. Ama e diz que ama, e é essa respiração do amor e da voz que o proclama que nos remete para algo de perene, sublime e nos envolve, pessoa amada e leitores que  ali revivem algo do Cântico dos Cânticos que a lenda atribui a Salomão. 

Um amor entregue, desprotegido, que corre para uma felicidade aguardada. Mas não se perde no caminho, sublima-se no seu avanço, no seu apelo, numa fidelidade que não sofre alteração ao longo de uma vida que ali é expressa com tanta intensidade que espanta. Poesia moderna, mas não de imitação fácil, tem voz própria e sentimento que a salva da escuridão onde poderia ter ficado retida, perdida. 

Luís vive bem e de modo completo esse amor declarado.Tinha chegado o momento - era retribuição, sem dúvida, porque ao darmos receberemos em troca mais do que demos. Não se trata de interesse, de troca sem sentido, trata-se de uma Conjunção que em breve terá lugar, se não o teve já.

Bem diferente é o livro de Sérgio.

Carrega um peso que será quase maior do que a morte - numa nigredo de que não parece querer sair, sabendo embora que esta é apenas uma fase inicial do seu processo alquímico da transformação. Mas terá de encontrar a força de a atravessar, passar para o outro lado do rio da alma, que nos livros anteriores, Pedra e Pedra 2, podemos ler e admirar no seu domínio de uma escrita profundamente original.

Sérgio regressou à escrita filosófica e poética, e ainda bem. Contraria pela palavra a amargura que sente com o mundo à sua volta:

Vives (n)uma apatia neurasténica sem fim,

seria necessário catalizar a energia de muitos

para que te pudesses movimentar.

Tal como um calhau sem vontade,

volumoso e inerte, 

só o pensamento corre

íngreme

ao comprido.

Esta é a sua pedra de Sisifo, que ele terá ainda de levar as vezes que for necessário até chegar ao fim do seu caminho, que adiante o espera, no meio das Pedras já vividas.

A alegria do primeiro livro, de José Luís Ferreira, expande os sentidos, alarga a alma, Jung diria que o poeta vive uma amplificatio fase do percurso alquímico a caminho de uma sublimação consumada.

Escolhi reunir aqui o livro do Sérgio Ninguém, cujo regresso me deixa tão feliz, por voltar à poesia, chegar junto com o outro, o que foi uma sincronia e não um mero acaso.  Não há acasos nestas coisas da alma quando é visível o seu contraponto,  uma em fase de ampliação e outra de amachucamento e redução. Duas fases de um mesmo caminho que será percorrido em fases diferentes mas que se complementam, como a via alquímica da psique  desde sempre nos ensina.

Quem não atravessa a nigredo não vem a saber por completo o  que o seu inconsciente guarda, e espera que seja revelado.  

Sérgio está a sair de uma depressão, de um desalento consigo e com o mundo que a luz deAurora de José lhe virá revelar. Jung na sua autobiografia passou pelo mesmo. Sigamos as suas lições. 

 

  


Tuesday, September 02, 2025

Maria Filomena Molder, PALAVRAS ALADAS

Depois da filha, a mãe.

A mesma marca, de criatividade que obriga ao pensamento. Numa, pintora, a origem da imagem; noutra, filósofa, a origem da palavra. 

O título é sedutor: palavras aladas. Surgem com asas ou é o pensamento fundador que as faz voar, com asas que lhe são colocadas?

São aladas porque fluem entre as duas pessoas que ali se encontram no mesmo espaço, partilhando interrogações e respostas ao modo de uma entrevista-conversa em que parcialmente se afloram questões quase de biografia, não romanceadas mas igualmente sugestivas do que poderia facilmente ser também romanceado no imaginário da pessoa entrevistada. Sempre que falamos alguma coisa vai nas palavras que voam, saídas do ninho, do conforto do nosso pensamento mais secreto e silencioso.

É tão mais fácil o silêncio do que o esforço da palavra: onde está, onde se esconde e é preciso buscá-la. 

A entrevistadora tem cultura e preparação para fazer as perguntas, ora da Vida, ora da Obra, um percurso já vasto que podemos acompanhar desde Platão, o preferido, passando por muitos outros criadores, desde os  caçadores que desenharam o seu mundo nas cavernas pré-históricas, até aos mais revolucionários modernistas. É vasta a cultura que nesta entrevista nos convoca para a filosofia, sim, mas muito para o pensamento literário e artístico, tanto quanto o musical. 

Maria Filomena Molder ao mesmo tempo seduz e intriga. Leu tanto? Leu tudo? A mim não me causa espanto, também eu comecei a ler em criança, também eu me interessei desde cedo pela arte e cultura, e no Liceu devo ter sido a única que leu toda a obra de Platão sem achar que era um aborrecimento, tendo de ler apenas o Fédon.

Adiante vou de novo encontrar em Maria Filomena o meu mais profundo e inspirado criador : Goethe, sobre cujo Fausto alquímico me doutorei.

Afinidades, que me fazem ler Filomena Molder com redobrado prazer que não escondo. O que ela vai referindo nas respostas  que dá a Cristina Robalo, sua entrevistadora, numa conversa que tem um nível de preparação já muito raro, levam-me de volta ao meu tempode estudo e investigação, que durou anos. Assim quando surge Goethe, e a citação que Filomena fez de Dichtung und Wahrheit, já deve estar traduzida esta obra que ele já avançado em idade foi ditando ao seu secretário, lembrei-me de como me foi útil, quando a li, a lista dos seus autores herméticos, alquímicos, teosóficos (Boehme o de maior peso, com De Natura Rerum, ou o tão lido posteriormente Aurora Consurgens) que vinham confirmar o que eu ia escrevendo e poucos naquele meu tempo achavam que era importante e carregava sentido de transformação. A cultura que Goethe adquiriu era-lhe levada - ele estava doente em casa - e uma sua amiga pietista levava-lhe esses tratados de sábios de outra sabedoria, espiritualista, cultivada desde o século XVII nos colégios de piedade espalhados por contraponto ao racionalismo cartesiano em pequenas comunidades que se dedicavam à leitura e à meditação de textos místicos que depois iam formando uma cultura própria, de bastante influência, como se pode ver em Goethe. Era Susana de Klettenberg, essa amiga fiel. 

Para um criador que buscava o Princípio, a Origem no caso dos estudos científicos a Ur-pflanze, a primeira de todas as plantas de que as outras iriam evoluindo, os antigos tratados foram leitura preciosa. Porque neles, a transformação, como tema central, era a METAMORFOSE e tudo na procura alquímica se prendia com a metamorfose : da matéria em espírito, da pedra informe em ouro puro, a mutação sublime.  

Sou de um tempo em que não havia grandes apoios, mas grandes dúvidas sobre o trabalho de investigação das mulheres que deviam era ter ficado em casa, a tomar conta de marido e filhos. O tempo de Filomena já foi mais favorável, mas isso em nada diminui a sua inteligência, amor da arte e da cultura e a descoberta do enorme prazer da palavra, que recolhia na rede do seu pensamento, se lhe passasse à frente.

Recuperando o Hino à Memória, Mnemosyne, que Heidegger cita nas suas últimas lições (depois de perdoado e reintegrado na sua Universidade), Maria Filomena neste belo texto contraria o que o filósofo alemão dizia nos primeiros versos: que éramos sinais que tinham perdido o sentido. Ela devolve o sentido aos sinais que lhe são dados a ver. 

Não é para qualquer um...