Friday, May 01, 2026

NUNO ARTUR SILVA

Não espero pelo novo computador quero celebrar já os poemas de Nuno Artur Silva. A edição é de um amigo comum, o Jorge Reis-Sá, na glaciar. Livro de luxo, só elegância e bom gosto. Feito para quem gosta mesmo de ler e ir ficando na ideia, na imagem, no pensamento escrito.

Comecem por ler bem a epígrafe, de um outro grande poeta, foi meu aluno, e gostei de o ver reaparecer aqui, numa plenitude contida, que o Nuno reverteu abrindo-lhe novo espaço.

A diferença de cultura e da capacidade de filosofar, porque se leu muito à medida que se escrevia, revela um poeta culto, fala de si com a interrogação que se impõe, ou se adivinha, nos primeiros poemas juvenis. O tempo e a reflexão sobre o que se é, ou pode vir a ser, ou pela memória se tenta recompor um passado que já não é mas pode ser procurado, reinventado, recorrendo às palavras e imagens que ainda sobram - aproximma a sua poesia do que lhe interessa e o leva a escrever.

Pessoa, T.S. Eliot e outros que ainda irei encontrar mais à frente são do nosso espaço poético onde estamos e procuramos ser. 

Alguns deste poemas iniciais têm já o segredo dos antigos HAIKAI, que se condensam numa linha, numa ideia, numa imagem, que nos deixa, ou melhor impele ao pensamento. E isto é só o princípio:

"Naquela noite em que a lua faltou

ao encontro

fiquei a atirar pedras ao mar"

Numa das páginas de diário que recuperou 

lemos a eterna interrogação de um Heidegger que se esconde, sem que o saibamos bem, em todos nós:

o velho Sein (und Zeit) e o velho estar (Dasein) que ele tenta explicar melhor:

"O que é estar mais? ou ser menos?

e não é estar, estar completamente?

E ser, ser completamente?

Ou estar é ser completamente?

E ser é estar  completamente?"


Não esperem que o poeta responda às interrogção que levanta. Ele, como Celan, não impõe, expõe, e espera que alguém o siga no caminho.

Não admira que Celan tenha procurado Heidegger, como Nuno agora faz.

Heidegger expôs, mas não explicou, e foi castigado por isso, até ao momento em que a escolha do  Hino à Memória de Hoffmanstahl o libertou do pecado inicial da infeliz adesão ao culto nazi da morte.

Agora, na velhice, amadureceu a ideia do ser e do sentido por meio de uma reflexão poética, um verso que trazia de novo à memória o Ser do Sentido. Não um Sinal, mas o Sentido. "A linguagm é a casa do ser".

Aí se refugia o sentido, não todo, mas do todo o possível, pois sobra sempre uma pergunta que não terá resposta.

"Sou 

um acontecimento  a contecer. 

O Tempo?"


Adiante noutro verso :

"O que é a consciência?

A minha pergunta é a minha resposta"?


Um grande poeta nunca diria melhor. A boa poesia não impôe, expõe. E o que expõe é a sua busca do sentido, que encaminha para um pensamento que será consciência de ser, e não de ter, o poeta nunca tem, a sua busca é permanente, é infinita. A busca é o que o faz viver.

Assim caminho devagar, também eu, para uma interrogação que junto com o Nuno, com sorte, me devolve algo de mais fundo no eterno mar das palavras.

Penso que já anotei como importante, na sua poesia feita de pensamento, a importãncia das imagens do espelho - o que são elas senão a recuperação de uma memória que ainda se perde nas dobras ocultas do tempo, na teia das aranhas que bordam e desfazem o bordado para que o poeta não deixe de pensar no que é a sua missão num mundo que foi perdendo o sentido?

Só na sua poesia, nessa teia por vezes bem sucedida por vezes dilacerada se refaz um sentido

 (continua)