Foi amada
muito amada
mas nunca amou de volta
o seu amor tinha veneno
o amado ficava à porta
Estas estórias que agora leio não são de ontem, são de hoje, no momento em que leio.
Narrativas de mão simples, escorreita, que ajudam muito ao prazer da leitura. Não se alargam sem necessidade, só para "encher papel..." obrigando o leitor a um esforço desnecessário. Este é o modo que mais me agrada e me leva a ler, como quem ouve música do passado e do presente, isto é, eterna na simplicidade dos seus acordes. Debussy, Ravel, uma aparente simplicidade que se transforma no nosso imaginério em algo de misterioso mas necessário...Como uma chuva de estrelas, por exemplo, que sacodem uma noite de Agosto em que nos estendemos ao comprido na praia e aguardamos, para ver, quem sabe ouvir, há música no universo, e de certeza ler para entender.
O que foi o ontem, o que é o hoje, e o que somos, entre um tempo e outro, nós no nosso breve corpo, espaço que nos foi dado e ocupamos sem grandes interrogações. Vivendo, apenas.
Manuel é músico, passou pelo Jazz, o que abre a alma e agora escreveu estas narrativas, que não são contos, nem versos em prosa, são memórias breves que lhe ocorrem e ele põe por escrito. Conhecemo-nos há muitos anos, depois a vida seguiu para cada um outros caminhos e confesso que foi grande alegria este reencontro por meio de um elegante livro, cinzento de tão bom gostoe com a dimensão agradável do número de páginas, e que ele acompanhou com a enorme gentileza de uma carta em que me conta com fomos coincidindo no bairro onde ainda vivo, esplanadas onde me via com o meu marido, mas por timidez, o que lamento, nunca chegou a tomar a decisão do passo em frente para nos falarmos. Falamos agora, para mim é tarde já não vou a nenhuma esplanada a não ser que um filho me venha buscar, mas fica ets gesto amigo de um livro que é todo ele de "família", que cheguei a conhecer. A sua mulher era afilhada de um grande amigo do meu marido.
Além do prazer de uma prosa límpida, o seu livro remete-me para uma reflexão sobre a memória, ou os fragmentos dela, que nos dão este impulso da escrita.
Diz-me que foi lendo o RECOMEÇO, que a Companhia das Ilhas me publicou. Temos por aí um encontro especial. Também eu nesse livro me ocupei com o que da memória dos dias me ia ocorrendo. O Manuel, nascido em 1950, é tão mais novo do que eu sou ou era o Binau, meu marido, nos tempos do Hot Club da Praça da Alegria.
Mas a idade não deve separar, e a prova é que há gostos comuns, empatias no meio dos silêncios e eis-me a recuperar um tempo perdido, como Proust, pela mão deste autor nas suas narrativas. Fala-me da sua neta Veroca, como eu também tenho e assim lhe chamo, ela é hoje uma pintora de quase trinat anos, a dele é ainda um bébé de um ano, fase deliciosa de crescimento...tenho 15 netos. Primeiro vieram as meninas, depois os rapazes. Hoje tudo gente crescida, nos estudos, no trabalho. Desejo ao Manuel as maiores felicidades a ver crescer, entre música e livros a sua neta Veroca. Correm bons genes na sua família, penso na correspondêncis que de vez em quando releio de Eça e Ramalho Ortigão, uma tão afiada caricatura de um país, caricato ainda hoje. Manuel diz-me que esteve em Londres a viver, mas depois regressou a Portugal e eis-nos agora vizinhos.
Os portugueses são assim, partem mas regessam temos nós todos um apurado sentido de família, e assim é em Portugal que voltamos a viver, o sentimento da saudade é grande, vi isso acontecer com o meu pai, quando fomos para a Argentina e ele acabou por regressar apesar do seu anti-salazarismo, que nunca perdeu e lhe causou sempre grandes problemas.
O Manuel teve a gentileza de marcar algumas das narrativas para eu ler, entre elas a do Jazz. Mas leio tudo, embora não escreva, porque luto com um computador que faz o que lhe apetece, muda o tamanho da letra, diz-me que não ficaram as updates, etc. Fala comigo, mas eu não sei falar com ele. Sou de outro século...
Descubro então, enquanto leio, que esta é uma verdadeira autobiografia, de alguém a quem a vida concedeu o dom do amor atento e daí generoso, à famíçia onde nasceu, com quem viveu e a que fez crescer à sua volta. Talvez por ter e manifestar uma tão feliz entrega, lhe tenham os deuses concedido a benção de muitas filhas, as mulheres são tão diferentes dos homens, elas atentas, eles desprendidos à medida que crescem. O Manuel, um pai entre filhas, como ele diz, e agora entre netas que começaram a nascer.
Fala muito de si, no meio do que o rodeia e observa e de um modo que é mais de conversa informal, à mesa das refeições, ele ocupou-se das compras, elas se calhar ajudavam a apurar algum prato especial na cozinha. Pelo meio a história das peúgas, que elas lhe roubavam e que ele acabou por reservar num conjunto comprado só para elas e arrumado numa das gavetas de baixo da sua cómoda grande, onde tudo cabia.
Não vou resumir o livro, mas recordo apenas como uma verdadeira autobiografia nos revela tudo o que há numa vida, e nos ajuda, quando assim escrita, com uma quase displicência de humor subtil e prazenteiro, a olhar também o que temos na nossa vida.
A maior qualidade, agora que penso nisso, é que este livro de e para a família, nos inclui, é um livro generoso.
Um livro de poemas que acabo de ler, todo atravessado pelo amor de uma única mulher, foi realidade ou ficção para leitor ler?
O mesmo me deixa a interrogação que se cola nos poemas de amor, era desejo o que o poeta sentia? E afinal o que se pode dizer sobre o desejo amoroso?
O que é o desejo?
Um impulso feito de uma química especial que aproxima subitamente as pessoas? Duas pessoas?Mais?
É selvagem o desejo, com resquícios da distante Idade da Pedra? Um corpo que vandaliza outro, sem mais, ou algo que se suaviza e se transforma em amor.
O desejo leva a que se fale de amor, e não de desejo, com o passar de um tempo partilhado, vivido de modo pleno em conjunto, durante uma vida inteira ou pelo menos alguns anos. O amor tem medida, o desejo não tem.
O livro deixa-nos com esta interrogação - desejo, embora diga amor?
O desejo é obscuro, no seu impulso, o amor tem claridade.
Faz pensar tanto quanto sentir. O amor é sentimento. O desejo é paixão. É rápida a paixão, é lento o sentimento do amor. É paciente.
Pensei em trazer para aqui duas obras de amor e morte, que são de leitura eterna, a medieval, de Tristão e Isolde (que inspirou Wagner) e a renascentista de Shakespeare, Romeu e Julieta.
Mas em ambas, o desejo e o amor fatal, a trama deve-se a uma confusão, uma situação que induz a falsa morte de um dos amantes, morrendo desguida o outro e por fim os dois.
Não é de morte que se trata neste conjunto de poemas, mas de desejo e amor consentido, de entrega de corpos que tiveram a rara felicidade de poder consumir-se na mesma chama que os atraiu.
Há coincidências felizes. Paro de ler e vejo na talevisão um bailado cujo título AS PALAVRAS e o ESPAÇO se aplicam tão perfeitamente à substância do que leio:
As palavras são o tempo do poeta, do poema, o espaço é o corpo da amada, entregue e disponível para que nele se refaçam vezes sem conta o desejo e a vida.
A reflexão sobre o desejo será melhor aprofundada com a obra do filósofo António de Castro Caeiro, SOBRE OS SENTIMENTOS, que já vai em segunda edição, na ed. Tinta da China que publica livros de grande requinte que vou acompanhando.
Um Osso
Depois de um grande silêncio
tive notícias no e-mail.
Mandava-me um poema
mais um difícil
para eu decifrar.
Assim tão de repente
como quem atira um osso
a um cão perdido na rua
sem dono que lhe desse atenção.
Mordi o poema
igual aos outros entre o sério
e uma desbragada imaginação.
Que sorte ser assim
ao mesmo tempo sério
e desprendido
andando solto pela rua
sem procurar caminhos
que levam à exaustão.
DEMÉTER
Não somos pó
somos terrra
assim o afirma Deméter
a deusa que guarda a natureza
no seu verdadeiro esplendôr
quer a filha de volta
mas inteira
apesar da treva que a levou
e tanto amor...
Quando eu morrer
não perguntem
de que roupa gostava mais
nunca fui muito de roupas
eu era mais livros, quadros,
e cores musicais
nada que se metesse num caixão.
Quem me lavar
embrulhe-me depois num lençol
branco, limpo
sem arrebiques
que eu nunca fui de arrebicar
e deitem-me no caixão
madeira pobre que descerá à terra
com a tampa bem fechada
para a ocasião.
Sá-Carneiro para Fernando Pessoa
Eu não sou o eu nem sou o outro
nunca soube o que sou
ou o que era
como vim
como vou
que asas são estas que me deram
e agora me levam
já cozi o seu ovo
e já fiz o café
diz Rosário a brasileira cuidadora
é adeus até ao próximo fim de semana
dá-me um beijo na testa
fique bem, sim?
poderá ser o último
um adeus carinhoso
de manhã bem cedinho
quando o que eu quero é dormir
sem pensar, apenas respirando
entre as dores de mais uma onda de calor
começa hoje
quem sabe se entretanto é na onda que morro
com ar condicionado
enterro a cabeça na almofada
respiro
não penso
quem sabe se é assim mesmo
que parto para mais um dia
que não entendo mas ainda assim
enfrento...
O Vento
Para a Minnie e o Manuel do Rosário
que caminham e ajudam os outros a caminhar
Caminhar contra o vento
enquanto o vento sopra
e faz correr
a água transparente
pelas pedras mais lisas do regato
macias de tão lisas
e abrindo os espaços
que a vida lhes pedia
António abriu uma das suas conferências com a frase de Jesus :
Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida.
Cada afirmação um desafio ao nosso pensamento.
O Caminho, não um caminho.
Qual éntão o que Jesus nos lança como desafio para poder seguir em frente, a caminho da Verdade e da Vida? Nascemos e parece fácil, no calor do colo da mãe. Mas crescemos e tudo é caminho, oportunidade, dispersão, divertimento. Em adultos os apelos são muitos, não se descortina um sinal, um sentido, como no trânsito a seta do sentido único. São múltiplos os sinais, os sentidos, é tudo oferecido parecendo solução imediata e fácilmas não ficamos perto da Verdade. E que verdade seria, senão uma distracção, mais uma entre tantas? Desviamos ou somos desviados a cada passo para cada vez mais longe do que poderia ser, ou não, a verdade ansiada. Caminhos de escuridão, como no Hades. Labirintos que assustam, não ajudam. Falta uma Ariadne que nos guie com o seu novelo infinito.
Faz falta maior atenção: Jesus disse EU sou o caminho, a Verdade e a Vida. EU, logo não procuremos mais, Ele é o que devemos seguir, atrás dele devemos continuar, nele se encontram a verdade e a vida desejadas.
Mas a ele, como encontrá-lo? Onde está, o que faz, na sua materialidade que possa ser encontrado? Porque já percebemos, na nossa reflexão, que é mesmo só na sua Espiritualidade que poderemos encontrá-lo.
Uma vez encontrado, está feito o Caminho.
Mais difícil é meditar e entender o que se passa com a Verdade.
Verdade, cada um tem a sua...
Daqui em diante sugiro a leitura da apresentação do António Caeiro, que vou seguir depois.
Podemos falar da Vida sem passar pela Verdade? Cada Verdade sua Vida? Voltamos às escolhas múltiplas ou ficamos num único caminho, o escolhido? E faremos o esforço de procurar entender a razão dessa escolha? E ra ou parecia fácil, estava ali mesmo, oferecida por uma IA mais veloz? E Jesus, no meio destas reflexões, qual era o seu papel de verdeiro Mestr e Guia neste nosso caminho? Teria que ser afastado, ou aceitaríamos, para a longa travessia espiritual tudo o que por ele fosse dito, melhor sentido?
Perplexidades, muitas.
E a dificuldade da escolha.
A decisão e a obediência. Mas sem crença? Sem fé?
SEREIA.
ela canta com as baleias
ela canta com os golfinhos
na sua voz escondidos
todos os cantos marinhos...
Para a Maria João e o Mário Laginha
A DÔR
Não é lamechice
é dôr
a dôr que dói
por não poder mais amar
já se amou tanto e tudo
filhos
netos
amantes e maridos
livros e profissões
que o amor se esgotou de vez.
Morreram os amigos de outrora
já nem de amor se poderia falar
há os jovens
mas são jovens
com eles nada se pode partilhar
Ventos da Primavera
Os ventos da Primavera
levam os jovens
por caminhos incertos
vão para longe
não sabemos ao certo
caminham de pés descalços
e não fazem perguntas
regressam com os pés feridos
perderam a juventude
tudo mudou com os ventos
e nada faz sentido
Não espero pelo novo computador quero celebrar já os poemas de Nuno Artur Silva. A edição é de um amigo comum, o Jorge Reis-Sá, na glaciar. Livro de luxo, só elegância e bom gosto. Feito para quem gosta mesmo de ler e ir ficando na ideia, na imagem, no pensamento escrito.
Comecem por ler bem a epígrafe, de um outro grande poeta, foi meu aluno, e gostei de o ver reaparecer aqui, numa plenitude contida, que o Nuno reverteu abrindo-lhe novo espaço.
A diferença de cultura e da capacidade de filosofar, porque se leu muito à medida que se escrevia, revela um poeta culto, fala de si com a interrogação que se impõe, ou se adivinha, nos primeiros poemas juvenis. O tempo e a reflexão sobre o que se é, ou pode vir a ser, ou pela memória se tenta recompor um passado que já não é mas pode ser procurado, reinventado, recorrendo às palavras e imagens que ainda sobram - aproxima a sua poesia do que lhe interessa e o leva a escrever.
Pessoa, T.S. Eliot e outros que ainda irei encontrar mais à frente são do nosso espaço poético onde estamos e procuramos ser.
Alguns deste poemas iniciais têm já o segredo dos antigos HAIKAI, que se condensam numa linha, numa ideia, numa imagem, que nos deixa, ou melhor impele ao pensamento. E isto é só o princípio:
"Naquela noite em que a lua faltou
ao encontro
fiquei a atirar pedras ao mar"
Numa das páginas de diário que recuperou lemos a eterna interrogação de um Heidegger que se esconde, sem que o saibamos bem, em todos nós:
o velho Sein (und Zeit) e o velho estar (Dasein) que ele tenta explicar melhor:
"O que é estar mais? ou ser menos?
e não é estar, estar completamente?
E ser, ser completamente?
Ou estar é ser completamente?
E ser é estar completamente?"
Não esperem que o poeta responda à interrogção que levanta. Ele, como Celan, não impõe, expõe, e espera que alguém o siga no caminho.
Não admira que Celan tenha procurado Heidegger, como Nuno agora faz.
Heidegger expôs, mas não explicou, e foi castigado por isso, até ao momento em que a escolha do Hino à Memória de Hoffmanstahl o libertou do pecado inicial da infeliz adesão ao culto nazi da morte.
Agora, na velhice, amadureceu a ideia do ser e do sentido por meio de uma reflexão poética, um verso que trazia de novo à memória o Ser do Sentido. Não um Sinal, mas o Sentido. "A linguagem é a casa do ser".
Aí se refugia o sentido, não todo, mas do todo o possível, pois sobra sempre uma pergunta que não terá resposta.
"Sou
um acontecimento a contecer.
O Tempo?"
Adiante noutro verso :
"O que é a consciência?
A minha pergunta é a minha resposta"?
Um grande poeta nunca diria melhor. A boa poesia não impôe, expõe. E o que expõe é a sua busca do sentido, que encaminha para um pensamento que será consciência de ser, e não de ter, o poeta nunca tem, a sua busca é permanente, é infinita. A busca é o que o faz viver.
Assim caminho devagar, também eu, para uma interrogação que junto com o Nuno, com sorte, me devolve algo de mais fundo no eterno mar das palavras perdidas e encontradas adiante.
Penso que já anotei como é importante, na sua poesia feita de pensamento, o peso das imagens do espelho - o que são elas senão a recuperação de uma memória que ainda se perde nas dobras ocultas do tempo, na teia das aranhas que bordam e desfazem o bordado para que o poeta não deixe de pensar no que é a sua missão num mundo que foi perdendo o sentido?
Só na sua poesia, nessa teia por vezes bem sucedida por vezes dilacerada se refaz um sentido
Numa obra que é dedicada a amigos e família, e quando temos e sabemos que será lida, não admira que o Nuno vá deixando os seus sinais marcantes, de leituras preferida feitas. É um modo perfeito de educar no prazer do pensamento e das situações feitas versos, genuínas e não de frases da moda e esvaizam o sentido possível. Tal como Caeiro, Nuno cita de novo um alter Pessoa, o Walt Whitman que nos deixa ao alto, como nova epígrafe, e que elucida a dúvida que Eduardo Lourenço num célebre seminário que nos deu na UNL, achou interessante deixar no ar: terá ele lido Walt Whitman? Eu tive o mau gosto de lhe responder: Leu, tem a obra completa na casa da Dona Henriqueta, sua amável meia irmã, sublinhado em momentos mais significativos que empurravam o leitor atento para o seu Álvaro de Campos, o rebelde para quem não existiam cartas de amor que não fossem ridículas. Mas existem e existirão sempre, o que talvez não devam é ser expostas sem mais, porque o amor - com excepção de Camões -assim logo exposto se mostra sentimalmente ridículo. Ora não pode haver sentimentalismo ridículo numa carta de amor, ou se há é melhor aguardar melhores tempos...(oh me, oh life...nas leaves of grass deWhitman) o grande livro por onde corria o vivo apelo da vida, da natureza, da explosão das paixões.
Outra epígrafe para o filho: de Cesariny
"ama como a estrada começa"...de novo a importância de um princípio, de novo o saber por-se a caminho, como os viandantes de Goethe, de Wagner, ou de Paula Rego, numa das suas gravuras tão bela, do homem que já vai de costas para nós, o mundo à sua frente, de viola às costas e a fénix na mão. Só viajar permite um maior conhecimento do mundo, do outro, e de nós mesmos.
Escreve Nuno:
"A aventura, a ave da aventura,
a ventura da aventura,
o vôo e ventura de voar, e resumo,
para poderes ser".
Seria preciso dizer mais? repete Whitman, "Canto aquele que existe em si mesmo".
Ler o Nuno é reencontrar o tempo, o tempo primordial em que tudo foi começo e agora, adiante, já no fim da viagem, pode voltar a sê-lo: a descoberta da consciência de si mesmo, na viagem que foi feita e mais do que feita, vivida.
Não me espanta encontrar o Pianista genial que é Mário Laginha, entre as suas escolhas. Há muito que era ouvido cá eme casa, um dos meus filhos toca com ele, e no fundo o seu Jazz tem tudo a ver com a viagem, a libertação que em cada solo se vive, notas como palavras, discurso ora hermético ora aberto e que levanta para todos um horizonte novo. Kierkgaard dizia, quando faltam as palavras entra a música..
E Nuno explica tão bem essa ideia.
Agora a grande surpresa e originalidade do livro: tranquilamente quebra a norma de um livro coeso de poesia, recuperando uma nova forma, de apontamento, da ideia, da linha, do verso, o que poderia tercomeçado na sua agenda, que tem no bolso como poderia ter no seu caderno em casa, aguardando o momento certo para a ampliação. são uma utra metade da sua concepçaõ da escrita, original e não menos inspiradora. Com o seu quê da experimentação oriental dos Haikai a que já fizemos referência. Recordei por aqui os belos versos - uma linha ou duas - da obra da Princesa Shikishi, no Japão do século XIII. Não leio japonês, tenho uma bonita edição inglesa, e lá estão, numa linha, por vezes duas, os contidos sentimentos e emoções de um olhar numa corte fechada em que se cultiva este géneno de poesia, que tem regras severas. O Nuno, poeta do nosso tempo, passado já pelo modernismo, pelo experimentalismo mais livre, introduz agora no seu livro a forma, se não sempre o conteúdo (passaram tantos séculos, mas a sensibilidade da reflexão e do olhar ali estão) a sua nova forma de interromper, de desfazer ou fazer o nosso pensamento, ao tentar seguir o seu. Refiro-me aos capítulos do Caderno das Nuvens e aos Roteiros Improváveis, que surgem de repente, e nos deixam na dúvida: aponta para ampliar mais tarde? ou aponta porque ali já está contido o nó do essencial, que na nossa cabeça teremos de desatar ?
É ler, como diria o outro. Não escrevo para lhe facilitar a vida, mas para a tornar mais rica e mais complicada.
Não existem vidas simples, não se espere do desenho do poema uma simplicidade que o destruiria.
Não cabe no espaço de um blog o que só estaria bem numa verdadeira análise de doutoramento. Esta obra merece, e agora então que se lê como começa muitas vezes, como fazia Michaux, com um rabisco de desenho na ponta da caneta sobre o papel que aguarda a iluminação, sendo a variante aqui a linha, o verso, o espaço em branco da página com a respiração do que virá depois - tudo entregue ao leitor para que ele escolha e decida, enfim para mim é sinal que devo acabar, entregando ao vento dos alquimistas os sentidos que se foram encontrando, como o poeta alemão pedia.
Com parabéns ao Nuno por me feito ler um livro que é mais do que poesia, um acrescento também de um olhar social e ao mesmo tempo onírico que nos devolve uma esperança e uma alegria que sem ele andariam perdidas.
Obrigada.
Pedro Chorão.
Tanto azul
tanta luz sobre a tela
que resolveu pintar
e que as ondas invadem
batendo contra as rochas
que ele retirou do mar...
É o seu dia de anos
mais um que ele agradece
ao tempo que é o seu
cores de celebrar...
Acordei de madrugada
abri a luz
fiquei a olhar o quadro
na sua nova moldura
mais leve e mais clara
a pintura com a mancha
avermelhada
de um coração batendo
em busca da sua forma
a forma antiga do tempo
do amor da sua amada
Por ser desenho torna-se mais leve e misterioso o traço que sugere um caminho, o que seria impossível num quadro a óleo, de um Salvador Dali, por exemplo. Dali é muito explícito, Perez conserva uma discreta subtileza que atrai e nos obriga a pensar.
Em que se pensa, meditando sobre este desenho? Nos percursos da morte, que se calhar não decidimos, como não decidimos da vida.
O fumo que sai da boca do corpo estendido é uma futura árvore ou um sopro de futura vida?
CARTA A UM JOVEM
Não te iludas
o mundo não começou
quando nasceste
nem acabará
quando morreres.
O mundo é um sem fim
um infinito
de formas variadas
algumas serão deus
tu és um grão de areia
que se perde
na onda mais profunda
Quem,
a não ser Ele
o Anjo da Anunciação
poderia ter ajudado
àquele parto solitário
cortando o cordão de um sangue
de Vida eterna
que a Virgem ainda tinha
fechado no seu ventre?
O Anjo selou essa porta
à qual se acederia por caminhos
de pedra, corações feitos pedra,
lágrimas feitas pedra
enquanto o sangue contido
lhe travava o caminho a Ele
o Escolhido
para a sagrada Anunciação...
Maria já não chorava,
essa água bendita
como fora o seu ventre
já perdera o sentido.
Nos seus braços abertos
o seu Filho morria
e o Anjo emudecido
buscava novas pedras
que fossem corações
feridos
sangrando ainda
pelo mundo perdido
que o parto não ajudara.
Um enorme cordão
ligado ao ventre do universo
pendia agora entre as estrelas
que Maria saudara, quando o Anjo
falou. Disse as palavras
que eram procuradas, mas noutra língua
não era a língua sagrada.
6 de Janeiro, Dia de Reis, 2026