A FORÇA
Onde se esconde
essa força
que a uns empurra
e a outros abandona
no seu tempo incompleto
onde se esconde
na vasta casa
que é o nosso universo
que não tem sótão
nem deixa ver o tecto.
28 de Abril, 2024
PALESTINA
a voz das crianças
Ninguém as acompanha.
Partem sozinhas
em revoada
as almas tão pequenas
daquelas crianças mortas.
Vão todas juntas interpelar
o Pai da criação:
Que mal fizemos nós
que tanto te ofendemos?
E os outros que nos perseguem
quais as suas razões?
E onde estão os teus Anjos
os luminosos
que escondes nos Infernos?
Profetizam, por ordem tua
mas não sabem o quê.
Houve um princípio, dizem,
terá de haver um fim.
Mas esse fim
tão longe de nós ainda
não se vê.
SEMENTES
É na hora de morrer
que pensamos nas sementes.
O jardim fica tão longe
já esquecemos o caminho
que nos podia levar
e nos podia trazer
de volta com as sementes
que devíamos plantar.
Sementes de vida fértil
de vida continuada
em árvores que já outrora
tinham sido abençoadas.
Tinham frutos comestíveis
garantiam gerações
que os Anjos protegeriam.
Mas onde estão esses Anjos
cujo abraço mete medo
aos poetas que preferem
um passeio descuidado?
Os poetas temerosos
não se atrevem
às perguntas mais difíceis
passeiam para esquecer
que tinha havido sementes
que tinha havido um abraço
um grito que se abafava
um espanto para dizer.
14 de Abril, 2024
(para os dois Luís Galego)
É preciso amar
para ser amado.
E amar é tão fácil...
basta dar atenção
ao outro
que está ao nosso lado
Tão jovens ainda
aqueles amores tão puros
escondidos nos jardins
a química do desejo
ainda a despontar
não podiam ser vistos
de mãos dadas
havia sempre alguém
a denunciar
e pelos salões dos velhos
corações ressequidos
também a invejar
É bela a juventude
incendeia os corações
que simplesmente
se entregam
sem segundas intenções
a não ser a descoberta
que pode ser de uma vida
ou de um adeus discreto
beijo de despedida
era um amor sincero
naquele momento eterno
em que os corpos ardiam
mas não se repetiriam...
havia deuses adversos
escondidos nos arbustos
que também invejavam
cada beijo roubado
e sem que os jovens soubessem
separavam caminhos.
8 de Abril, 2024
DEMÉTER
Deméter está zangada.
As árvores já estão verdes
mas não há frutos no chão.
Não há trigo plantado
não há pão
29 de Março, 2024
Sexta-Feira da Paixão
Sábados
(para o Carlos, feliz na sua ilha)
O Sábado é um dia mau.
Não sei porquê
mas é mau.
É o último dia,
o Criador rejubila
com a sua criação
mas logo a seguir
num dia outro qualquer
perde o sonhado descanso
longamente ambicionado.
Eva era afinal màzinha
Adão um caso perdido
e ele o Criador
já se tinha arrependido.
Mas era tarde demais
pouco podia fazer
além de contar as árvores
plantadas no seu Jardim.
Ali estavam elas
de raízes profundas
de frutos apetitosos
que ele nunca comeria
pois que a sua eternidade
tal coisa não permitia.
Eterno já ele era
e que ganhava com isso?
Expulso o par primordial
dormir estendido na sombra
que as copas ofereciam
e falar com a serpente,
a verdadeira Rainha.
27 de Março, 2024
A DÔR e a MÃO
Inspiro-me em Ionesco,
não que esteja a morrer
como o seu Rei
que a literatura
ou seria a música?
aliviava um pouco
e agora, pensando nele,
ouvindo música barroca
em velhos instrumentos
sinto que a mim
entre os vários tratamentos
a música me alivia.
Dores não de corpo e alma
mas apenas de corpo
mão estupidamente partida
numa queda distraída
mas que foi operada,
engessada
desengessada
e agora continua a doer,
malvada, sem ter em conta
que chegou a Primavera
e era hora de eu voltar
a escrever
mas quando a mão me dói
dói também o pensamentoMaldita Primavera
semana de tanta festa
e glorificação
e é a mim
que me julgava feliz
pois saiu mais um livro
que me dói tanto a mão...
O Rei morre?
Mas eu não quero ainda
o corpo dói
mas a alma vive
e na música
eterno pensamento
sinto o meu prolongamento
Não é logo
sobre tantos retratos
tranquilos
de sorriso enigmático
com algo escondido
no olhar e
que alguém se precipita
a revelar
que surge a palavra certa,
a do lamento.
Na Primavera também morrem
poetas
como qualquer pessoa
mas dos poetas
exige-se tanto mais...
que fiquem
que perdurem
que nunca de ninguém
se vejam separados
não é para isso que servem
os retratos?
E as palavras, tantas,
que nele ficaram sem tempo
atravessadas?
Não era Primavera?
Não estava a chegar
a bela Proserpina?
Mas poeta é assim:
Conhecida afinal
a última palavra
já não quis esperar.
Trombetas no Apocalipse
E por que não um Scriabin
deslizando suave e breve
pelas teclas de um piano?
Podiam ser asas de Anjo
de compaixão e bondade
pondo fim a uma vida
que foi dada, não pedida
e agora chegava ao fim.
Afinal o que era a Eternidade
que não devia ter fim?
Cito um pintor amigo:
Eternidade, se existe, não tem
princípio nem fim
limita-se a existir, ultrapassa
o que dizemos, pois falamos sem saber.
Deus saberá talvez
e mesmo assim...
6 de Março, 2024
CARLOS NO ATELIER
(para Carlos Nogueira, amizade, admiração)
Caminhar à beira-rio
já é parte dessa busca
que o fecha no atelier
Fernando Pessoa dizia
sempre inquieto com perguntas
o que é ser rio e correr
o que é estar eu a ver?
Sabia o que era esse rio
que corria para o mar
mas de si nada sabia
tinha de perguntar.
Carlos também pergunta
no atelier tem respostas
que podem ser mais perguntas
e o levam a procurar...
junta coisas
junta pedras
desenha no chão
mais espaços
podem ser quartos da infância
brinquedos que se partiram
e ele agora recupera
num moderno imaginário
de que faz parte a pintura
geometrias da alma
num papel ou numa tela
letras de brincadeira
projectos de perfeição
rabiscos de vida inteira
o que se esconde afinal
nesta casa que é segunda
um atelier de magias
onde ele se fecha consigo
faz e desfaz à vontade
o que é de si e de um outro
não perguntem que ele não diz
às vezes nascem de um rio
essas formas que ele inventa
ou de um céu cheio de nuvens
ou de um papel sujo no chão
na alma não há desperdício
todo o sinal tem sentido
merece a sua atenção
Carlos é criador
não é poeta perdido
como Pessoa no rio
pinta a interrogação...
YKC, Lisboa 1 de Março, 2024
AD TREVAM
in memoriam NAVALNY
Todo o planeta explode
na semana
em que começa
o caminho das trevas
no mar erguem-se
as marés furiosas
afundam-se as florestas
e a terra estremece
como já tantas vezes
outrora aconteceu
perdidos caminham
os homens sem sentido
ao verem como caem
os homens bons
os justos
que ainda guardavam
uma esperança
mais uma vez adiada
o que farão os outros
os que esperam
será que ainda lutam
na treva
pela luz anunciada?
VIERAM
vieram
não os chamei
mas vieram
os espíritos
estavam guardados
entre as pregas da vida
e muito esfomeados
não os chamei
mas vieram
agora vão saciados
A revista NERVO, de literatura e arte, editada por Maria F. Roldão, abre o ano de 2024 com uma capa de Nuno Félix da Costa: foto de Fernando Pessoa em frente (enfrentando? ) do Coelho de Alice. Tal como nos desenhos que ilustram a primeira edição de Lewis Carroll, aqui o coelho é da altura de Pessoa. Um frente a frente simétrico, embora se pressinta que toda a simetria se esgota aí. Serão muito diferentes, nesta fotografia, embora no livro de Carroll o coelho possa ser considerado o condutor de Alice, que vai correr atrás dele até cair na sua toca, um poço de mistério profundo onde tudo pode acontecer e vai acontecendo. Alice, com o coelho, vive uma série de peripécias que a fazem crescer ao longo de uma narrativa que todo o tempo surpreende. Pessoa, pelo contrário, frente ao coelho não deixa de se revelar homem crescido, sisudo mesmo, e quem sabe se incapaz de toda e qualquer aventura que surpreenda, como as de Alice.
O que levou então o autor, neste caso da foto, Nuno Félix, a colocá-los frente a frente? E que título se daria a esta obra? Pessoa na toca do coelho? Impossível, pois o poeta da Mensagem e da Ode Marítima nunca seria capaz de correr atrás de um imprevisto, ele que sofria de um mal terrível, o da permanente e paralisante interrogação do destino, o seu e o dos outros, no somatório do país e do mundo.
O coelho levou Alice a correr o mundo, da fantasia e da vida. Ela foi sempre andando, por aqui e por ali. Ele ficou sempre parado, inquirindo, é certo, mas os mistérios nunca se lhe revelaram. Alice, podemos dizer que foi de certa maneira iniciada com a intervenção do coelho. Já Pessoa desejou profundamente uma iniciação que não chegava. As correrias do coelho, que se dizia sempre atrasado (até chegar à Rainha de Copas) não eram as de Pessoa, que podemos dizer com justiça que esteve sempre adiantado e foi sempre adiado no seu desejo profundo, talvez por isso mesmo. O coelho era prenda de crianças ainda em desenvolvimento, emocional (e sem querer ofender leitores mais sensíveis) e sexual. O coelho da reprodução, necessidade da espécie. De frente para o sisudo Pessoa, escolhido por Nuno Félix, percebe-se que o condena, por ser um pensador abstinente. Por sua vez o ar de Pessoa não disfarça como as correrias do coelho o deixariam ainda mais quieto e indiferente.
Não era homem de pressas, e os desvarios de um Álvaro de Campos não eram mais do que isso : excitação puramente intelectual, quem sabe se com algum desejo oculto de escandalizar o burguês do seu tempo, mas na prática não o levando a mexer-se da cadeira, ou do encosto à cómoda onde gostava por vezes de escrever em pé, como Montaigne no seu castelo. Pessoa o pensador, frente ao coelho reprodutor, está dito. Vendo bem, o coelho assusta tanto, quando olhamos para ele, como Pessoa, o venerado poeta. Não há riso, naquela foto. E sabemos que Alice, na sombra, se interroga por trás de ambos.
Alusão a uma Anima que embora ausente da foto se vai manifestando através deles? Um sinal que ao contrário do que afirma Hoelderlin está mesmo carregado de sentido?
Félix deixa-nos então à mercê não de uma resposta ao desafio, mas de uma pergunta, quem sabe sem resposta.
Mais fácil é compreender as duas outras ilustrações, com ouras duas fotos, Pessoa e Camões frente e frente. Na primeira entrepõe-se entre Pessoa e o seu sonho de Super-Camões um corpo de mulher, oferecida, de costas. A lição é directa não haverá mulher, nem corpo tentador que se interponha entre Pessoa e o seu sonho. Na segunda foto já nem sequer a mulher está presente. O desejo do feminino, se alguma vez existiu, foi apagado.
Agnus Dei
(ouvindo o Requiem de Mozart
mas não foi salvo.
Deus não interrompeu
o sacrifício
do filho bem-amado
o sangue teria de escorrer
para que o corpo fosse
transformado
e o Adão primordial
pudesse ter perdão
Na Quinta das Lágrimas
naqueles jardins
as árvores tão antigas
ainda carregam memórias
mas há sombras e recantos
no espaço mais alargado
que tornam a fonte feliz
depois do amor derramado
outrora foi côr de sangue
foi uma dôr do passado
agora é só luz e beleza
jardim de amor encantado
Y.K.Centeno
(Para a Cristina Castel-Branco
Granada
I
Em Granada de noite
junto aos jardins do Alhambra
os jovens que se amam
tão quente ainda e tão suave
o momento que em breve
cessará
caindo noutro tempo
II
É tão fria a velhice
o sangue não circula
o coração não bate
não existe o desejo
que já nem é memória
da emoção perdida
naquela noite quente
tão suave de outrora
Y.K.Centeno
Hoje em dia, não todos os dias, mas de vez em quando, como ultimamente, o que me surge para ler parece ter sido escrito de propósito para mim, para mais uma leitura que não me deixe esquecer como ler é importante. Mantemo-nos vivos, por via dos outros que se ocupavam da vida, no seu tempo.
Estamos perante a reedição do que foi o primeiro romance de Jorge Reis-Sá. É raro um autor que deseje recuperar o que foi a sua primeira tentativa, poética ou romanesca, ou porque a considera ingénua, ou imperfeita,face aos progressos que fez, e conheço alguns, que não citarei, que até omitem, na sua bibliografia, esse primeiro título.
Mas aqui não foi o caso.
Jorge não renegou a sua primeira narrativa, feita de episódios que têm a contenção dos contos, sendo que sempre achei a arte do conto a mais difícil de todas, precisamente pela capacidade de dizer com menos um todo que ali está contido, do sentido do momento que ali se viveu, e onde é contado.
Eu, falando por mim, confesso que não releio nunca o que escrevi. O que em cada moemnto tinha de ser dito, foi dito, e assim ficará, porque o meu impulso é de seguir em frente, procurar o que há para além do dito, tentando dizer algo mais, ou outra coisa, que reflicta o momento em que vivo. Vivemos em cada momento uma espécie de totalidade que nos aguarda, ao escrever, que não tenha repetição, que seja única, ali mesmo, ainda que difícil de explicar, como a misteriosa afirmação de Deus a quem o interpela sobre quem é ele: eu sou aquele que é. Prefiro esta designação, em vez da usual eu sou aquele que sou. Nesta podemos inferir que ele simplifica a existência do Ser, sou assim como sou e não tenho mais nada a dizer. Uma espécie (perdoem-me o atrevimento...) de aguentem, ouvido na política da indiferença. Já eu sou aquele QUE É alarga o conceito de SER a uma misteriosa universalidade, eterna, de que Heidegger se ocupará longamente no SER E O TEMPO. Aquele que é, é eterno no eterno rio do Tempo, na vibração do cosmos, e está dada uma resposta que não aquieta, mas antes inquieta para sempre aquele que faz a pergunta.
O autor escolheu para epígrafe uma citação de Carl Sagan, o sábio que ilustrou e antecipou gerações que se debruçaram sobre os mistérios de um cosmos eterno face a face com a vida, a existência que é nossa, em que dia a dia todos os dias se materializam, parecendo comungar de uma esperança de eternidade que Sagan refere como desejada, mas reconhece como provavelmente impossível. Tudo no decurso dos dias, todos eles, nos dão a ver o fio da efemeridade, do nascimento à morte.
É ilusão julgar que alguma coisa de nós, ideia, sentimento, memória que deixemos irá alguma vez perdurar. Um pouco, sim, mas não para sempre.
Volto a esta obra de Jorge Reis-Sá, que chegou até mim, agora, depois de tantos anos. Alguma coisa nela deixou marca e temos de ler e descobrir o que foi. A forma, como se diz ? O conteúdo? como se diz ao querer determinados conceitos fixados que o Modernismo aboliu por completo, nos anos vinte da Europa? Eu diria que a fusão de ambos, conteúdo com um sentido herdado do neo-realismo detalhado, cuidando do ambiente, da descrição cuidada de personagens e acontecimentos relativos a cada momento descrito, e forma que de facto inova, na estrutura da narrativa entrecortada por reflexões que obrigam a desvio do pensamento do leitor, da época que é de memória de outros tempos, para o presente de agora. E é por essa necessidade de trazer o passado até ao agora dos nossos dias, todos os dias, que alarga a dimensão da narrativa e deixa a marca, aquela ideia, sentimento, memória, por pequena que fosse, de que falava Sagan.
Nisto reside o interesse e a actualidade desta obra, num momento em que diários e memórias, recuperação e transversalidades, se tornaram actuais, renovando o prazer de reler o que outrora foi escrito.
Logo no Índice temos a indicação de que estamos perante o esforço de recuperar, reflectido numa prosa cuidada, de um tempo que remonta ao passado, e se divide em fases: a Aurora, a Manhã, o Almoço, a Tarde, o Crepúsculo, o Jantar e a Noite. Para que se perceba que estamos no recuperar dos tempos de uma vida, nada seria melhor do que esta partição de capítulos. O tema, então, é aqui o Tempo, atravessando o ser, os diversos seres que a escrita materializa ao descrever as situações e os comportamentos de cada interveniente. A progressão da vida, os incidentes do quotidiano vivido na existência mais comum ou mais complexa. Gosto especialmente do modo como o narrador é seduzido, ao longo das páginas que correm, pela imagem-memória de uma criança que por ali se atravessa e o leva a dizer que essa criança é o mlehor que se tem. Pois através dela se recupera a infância que também já se teve, e embora longínqua se torna viva e presente.
Alguém, não me lembro onde, fez referência negativa ao uso da palavra moço numa prosa actual. Não sei porquê. Está em perfeita harmonia com o realismo dos ambientes descritos, desde a casa, ao campo, às galinhas, ao ranger das madeiras, tantos outros pormenores marcantes num neorealismo ali exercitado. Sou do tempo em que na Tavira da minha avó Rosa ouvia dizer, dos rapazes, os moços, ou os mocinhos, se eram mais pequenos, e das meninas as moças, ou as mocinhas, era um modo de dizer carinhoso e adequado aos tempos.
O que me leva ao elogio da escrita, nesta narrativa de visão e divisão: não cai em elaborações de roupagens estilísticas a despropósito, é realista, sim, mas directa e despida de arrebiques que se usam tantas vezes apenas para encher mais páginas...
Quando a narrativa, mesmo e sobretudo de evocação é genuína, nada mais lhe faz falta. Basta a fidelidade ao que se viveu e se recupera de novo. Com os detalhes necessários, que enquadram o ambiente e as personagens e emoções da altura, apenas talvez com a tal marca de que falava Sagan, o desejo de que mesmo do pouco que somos algo que seja muito permaneça.
Y. K.Centeno
Lisboa, 2023
Quem se eu gritasse
me ouviria
de entre as hierarquias
dos Anjos?
E se algum deles
de repente
me tomasse nos braços
e me apertasse contra o peito
num gesto de grande amor ?
Eu morreria de certeza
pela resposta
a um apelo gritado
uma pergunta não feita
tal o terror
que perguntar inspirava.
O silêncio é o domínio
dos Anjos
o pavor a reacção dos humanos
se quebram esse pavor
interrogando.
Deus não permite
a interrogação
apenas o aceitar submisso
que até aos Anjos impõe.
Que espero eu então
do meu grito calado
além de um silêncio
que os Anjos
não interrompem?
Morreriam
desfeitos na sua luz
na sua esfera distante
onde o silêncio
e apenas o silêncio
se poderia ouvir.
Como eu
ficariam imóveis
feitos pedra
cadáveres
aguardando sepultura
numa cova imperfeita.
Ninguém viria a tempo
de estender a mão
limpar a testa gelada
ou dar o beijo final
da compaixão.
Fiquemos todos então
guardados
resguardados
do temível abraço
do grito
que ainda se afoga
no peito
sem liberdade
nas pregas
da sua oculta ondulação
Y.K.Centeno
ANTÓNIO CAEIRO, O QUE É A FILOSOFIA?
A explicação que dá título a esta edição, da Tinta da China, 2023, responde a uma pergunta, sobre o que é a filosofia, começando pela obra de Platão e Aristóteles, que ambos dão início a uma interrogação que ora corresponde ora não, ao que mais nos inquieta: o que somos, nesta vida que é dada, e o que dela fazemos, com o que sabemos, com o que procuramos saber.
António Caeiro, de currículo vasto, nesta e noutras áreas, como na filologia a origem do sentido das definições que se atribuem à filosofia, ajuda a que se entenda melhor a definição usual: é o amor da sabedoria.
Mas definir o que é a sabedoria é uma tarefa difícil. Bom senso, experiência de vida, conhecimento num grau mais elevado do que é o ser, ou mais ainda do que é o universo criado? Do que é o seu criador? Ou ainda conhecimento de si, do que se é, o célebre nosce te ipsum? Conhece-te a ti próprio (porque assim pela via do que és, conhecerás tudo o mais?)
Ler Platão ensina o contraponto do diálogo, argumento e contra-argumento, e em alguns diálogos, como o Fédon ou o Timeu a reflexão sobre o que se é: sombras de uma realidade que nunca poderá ser conhecida, como tal e em si, e ainda, noutra vertente do seu pensamento, a descoberta de mitos, como o da Atlântida, ou o da música das esferas, que percorrerá a nossa cultura ocidental, recuperado por Shakespeare, por exemplo em algumas das suas peças. Ainda, e quem sabe se oferecendo matéria de maior profundidade, a contraposição, no livro X de A República de dois modelos de utopia social: o da cidade perfeita, em que reina a ordem de um pensamento de sábios, sendo eles que dominam e um outro, em que os criadores, os poetas, têm o seu lugar, ao passo que na cidade perfeita não o têm, devem ser expulsos, pois o imaginário criador perturba a ordem racional que se deseja que impere. Uma utopia, a ordem da cidade, um mito, o da criação perturbadora, que iremos descobrir adiante, nas tragédias, o género literário de que Aristóteles, na Poética, será um sistematizador. Mas Platão deixou um rasto na sua doutrina, o das Ideias fundadoras do Belo, do Bom e do Verdadeiro.
Aqui se torna complexo o nosso estudo do que é a filosofia: é a busca destas ideias materializadas no mundo que conhecemos, na nossa realidade? Ou sendo ideias antes fundam o que passaremos a chamar de idealismo platónico na história da filosofia? Ideias, mas não a realidade, matérias do imaginário mas não do conhecimento tal como o entendemos, de conhecimento racional da realidade palpável, por assim dizer. Séculos mais tarde, nos séculos XVII e XVIII ainda veremos que se discute a oposição razão vs. sentimento, racionalismo vs. idealismo sendo este um dos fundamentos do movimento do Romantismo, tal como o conheceremos sobretudo nos grandes criadores alemães.
Antes disso teremos com Descartes a afirmação do pensamento como razão mesma da existência: je pense donc je suis, penso, logo existo.
Embora na versão traduzida, entre o ser e o existir alguma coisa da essência (a essência do ser, segundo Heidegger) se perca pelo caminho. Em o Ser e o Tempo é aprofundada esta questão. A noção do Ser pertence ao reino da imaterialidade intemporal, universal, das Ideias de Platão, ao passo que é no Tempo que se materializa a existência da condição humana que é a nossa, particular, individual, limitada.
A escolha de Kant, sobretudo com a Crítica da Razão Prática, introduz a dimensão moral nesta apresentação das doutrinas filosóficas que até ele não tinham sido discutidas de modo autónomo. A Ética passa agora a ser uma área de reflexão com um estatuto autónomo próprio, que não só tem lugar como ultrapassa a questão do conhecimento só por si. Entram o bem e o mal na discussão dos valores e das opções que se colocam ao homem no momento da escolha. Sem Kant não poderíamos entender Nietzsche e a sua reflexão em Para Além do Bem e do Mal que teria, como teve, um percurso que chegou aos nossos dias, pela escrita de um Musil, em O Homem sem Qualidades, ou o fanatismo de um Hitler.
Chamo a atenção dos meus leitores para o facto de eu não estar a fazer aqui um exercício de crítica literária, não faço crítica literária, nem tento, ainda menos, fazer crítica filosófica. Converso, ao correr da pena, com este livro de António Caeiro que me seduziu pelo modo como nos apresenta o seu ponto de vista sobre o que é a filosofia, através de uma escolha de pensadores que estão na base e nos dão os fundamentos do pensar filosófico, desde Platão até Heidegger ou Wittgenstein.
Interessante como no percurso escolhido poderemos ler em Heidegger a transição para O QUE É PENSAR, suas últimas aulas de filosofia. Pois toda a filosofia é pensamento. E como se dá, em Wittgenstein, uma nova transição, muito própria do Modernismo, sobre as questões da linguagem e modos de exprimir o que se pensou e deseja dizer. A conclusão parece simples, mas não é: wovon man nicht sprechen kann darueber muss man schweigen. Devemos calar o que não conseguimos dizer. Aqui poderia entrar o célebre comentário de Kierkegaard: onde as palavras acabam, entra a música.
Há então um limite no que concerne às palavras, a expressão, o dizer do que seja impossível. Celan trabalhou o dizer impossível, nos seus versos despidos. Mas Wittgenstein, filósofo que se ocupou em simultâneo do pensamento, como Heidegger, e da linguagem, como Saussure e os estruturalistas, pretende ir mais longe, e nega o que lhe surge como impossível. Será contrariado por Valère Novarina, pintor e dramaturgo franco-suíço que o desafia: ce dont on ne peut parler, c'est cela qu'il faut dire. O que é preciso é dizer aquilo de que não se pode falar. E não se pode por um conjunto de razões, nem sempre fáceis. Por ignorância? Por não se entender os fundamentos que obrigariam ao silêncio? A moda? A pressão social ou política? A descrença num mundo de crenças, algumas radicais e temíveis? Ou pura e simplesmente porque conceitos como os da doutrina platónica das Ideias nos parecem tão distantes do real conhecido que falar ou aspirar a um mundo melhor, mais humano e perfeito não só não pode ser credível, como está imbuído de uma irracionalidade chocante para o homem do século XXI, já bastante orientado por logaritmos, e não por sentimentos piedosos, mas que se tornaram caricatos.
E contudo... a filosofia, com o seu pensar este mundo e o outro, e a reflexão sobre o que é a condição humana (a natura naturata de um Spinoza) ainda continua e ainda nos desafia. A sua importância, o seu estudo, são cada vez mais importantes para a mente humana na inquirição precisamente do que é, e do que pode vir a ser, a menos que seja varrida do mundo por alguma catástrofe inesperada e fatal.
Pensar é algo de estruturante, na mente humana. Nasce da imperiosa busca para lá dos Sinais que, como dizia Hoelderlin, tenham perdido o Sentido). E a linguagem, o que é senão essa mesma estrutura já constituída geneticamente que podemos observar, segundo alguns, desde a infância e evoluindo depois segundo o meio cultural, social, político em que cada um se desenvolve. Discute-se nesta aquisição da linguagem, se é algo de adquirido ou já inato.
O problema não se coloca a um filósofo, no seu percurso, em que é o pensar que estrutura as suas ideias e a exposição das mesmas, ora seguidas ora contrariadas, como na acentuação do Racionalismo face ao Idealismo ou ao místico neoplatonismo que virá a ter grande influência no século XV, com as primeiras traduções dos antigos clássicos feitas por Pico della Mirandola, Marsilio Ficino e Reuchlin (para a Kabalah judaica). Com eles tem início o chamado Humanismo no Renascimento filosófico e literário (e podemos dizer, em parte, místico, com as traduções de Platão e Plotino). Em Pico della Mirandola é especialmente interessante o seu discurso Sobre a Dignidade do Homem, que fundamenta esse novo conceito de Humanismo, que surge em ligação com o Renascimento.
Trazer a discussão à dignidade humana, sendo o homem uma criação divina, relaciona um com o outro, o homem com Deus, a dignidade suprema, e Deus com o homem, a sua suprema criação.
Por aqui podíamos regressar a Kant, e à sua Razão Prática, voltando a aprofundar o conceito de Moral e criando um espaço filosófico, o da Ética.
Nesta procura do saber, pela via do saber filosófico, percorre-se um caminho em que tudo está ligado, desde o princípio ao fim que ainda não conhecemos, mas pelo qual vamos, por tentativas, procurar entender o que pode significar. Torna-se explícita a necessidade de ser curioso, de ir fazendo perguntas, ainda que fiquem sem resposta, pois sem a curiosidade que nos move, em nada poderemos progredir, nem na ciência, nem na sabedoria da experiência de vida que é a nossa. A filosofia, pouco a pouco, é isso que nos mostra: o amor e a curiosidade de saber. Saber mais sobre o homem (a dada altura será diálogo com os eus da consciência e do inconsciente) a natureza e o mundo. Um mundo que se alarga para lá do planeta conhecido até ao cosmos infinito.
Até agora passeei por um jardim, com alamedas cuidadas, cada uma conduzindo a uma saída possível, diferente, e com um pequeno banco onde nos pudéssemos sentar, a reflectir. Está na hora de apresentar melhor o Jardineiro, fazendo-lhe a justiça que merece, pois foi ele sempre, e continua a ser, o Cuidador.
Cito-o, como é devido, nas suas conclusões:
" No tédio profundo renasce o espírito da filosofia. A filosofia exige a transparência relativamente ao modo como temos vivido, como temos sido com os outros, como temos sido com a nossa própria possibilidade, o nosso potencial. Essa transfiguração e metamorfose podem durar um breve lapso de tempo, numa manhã, no local mais insuspeito, como o corredor da nossa casa a caminho de uma divisão. Nesses momentos faz-se a experiência da vida no estrangulamento do seu sentido. É também aí que nasce a possibilidade de ser quem se é. Portanto, a filosofia não acontece num horário determinado. A possibilidade da filosofia dá-se no interior da existência, 24 horas por dia, sete dias por semana. Porque é óbvio que não nos encontramos nessa situação extrema e radical. O que aconteceu no tédio profundo foi uma vivência que temos de rever e tentar compreender vezes sem conta. A possibilidade de vivermos uma pergunta é também a sua resposta. Depois de nos ter acordado para a existência, a filosofia tem de ser mantida acordada, não a podemos deixar adormecer, porque a ditadura do quotidiano pretende vingar e fazer esquecer-nos do que verdadeiramente nos aconteceu." (p.367).
Descubro aqui uma coincidência (sincronicidade?) com o que Clarice Lispector chamaria a sua Hora da Estrela. Não estão longe um do outro esta autora que comecei a ler aos 18 anos e que agora me chega do passado e este filósofo, moderno criador que nos explica e inspira para um despertar também ele de estrela.
Y. K. Centeno
Lisboa, 7 de Novembro, 2023.
Ah se eu pudesse chorava
lágrimas como rios
não apenas por mim
que já chorei
o que podia chorar
mas por todos os outros
os feridos
os mortos
os que abandonados
sobram
mas não têm destino
ah se eu pudesse chorava
lágrimas como rios
que se abatem com força
pelos ínvios caminhos
onde tropeçam homens
e mulheres
e mais à frente
ainda brincam meninos...
MÃES
Já estavam mortas
quando os soldados voltaram
para as matar.
Tinham levado os filhos
não diziam para onde
se mais perto ou mais longe
e as mães sem saber como
nunca os iriam encontrar.
16 de Outubro, 2023