Corações
São corações partidos
que se debruçam
sobre os corpos
que Alguém
se esqueceu
de abençoar.
Não há terra que chegue
e só o Tempo
com tempo
os poderá tapar
CLARICE NA HORA DA ESTRELA
Aqui vai o começo de uma nova mini-novela, a contraposição de dois pensamentos que se entendem, duas mulheres que pensando o mesmo não têm o mesmo destino, uma Clarice Lispector que morre cedo, em 1975, ano em que sai esta sua última experiência criativa, e outra, que sou eu, a caminho dos 84 anos e não procuro aqui rever a sua vida, nem a minha, mas antes pensar com ela e sobre ela, na busca dessa hora da estrela que nem uma nem outra soubemos definir, mas procurámos, cada uma no seu caminho, feito de uma vida vivida entre poeira de estrelas e o simples pó da terra a que se regressa um dia.
Descobri a obra de Clarice Lispector e senti logo uma afinidade de pensamento, rigor de escrita, depurada, como eu gostava de ler e me entusiasmava, página a página que ia abrindo. Fui sempre lendo. Mas confesso que não gostei do seu último, a Paixão segundo G.H. por nada mais do que ter entrado uma barata no seu livro. Odeio baratas, é mais forte do que eu...
Estamos em fim de Julho, inscrevi-me num curso sobre a cultura aramaica, na tradução mais antiga de Bíblia. É on line, hoje é tudo on line, e será a maneira de me manter ocupada quando toda a família estará fora, em férias. Ficarei menos sozinha, relendo o Génesis, descobrindo o simbolismo que tantas vezes procurei.
Hoje acordei com um novo pensamento: por que razão me afastei da prosa, da novela, ou do romance, sentindo-me incapaz de desenvolver uma circunstância, um personagem e a partir daí uma narrativa que me vá conduzindo?
Farei esse esforço, não sei bem como. Nem será com ideia de publicar, será para afinar uma qualidade que perdi, com o tempo.
A minha vida é agora muito diferente, porque desde que tive as crises de coração e a operação, me desequilibro. Preciso sempre de alguém, para me acompanhar. É uma enorme limitação, é essa dependência, a que não estava habituada, que me deprime.
Mas vou fazer esse esforço.
Havia naquela escrita uma compulsão, uma intensidade, e era isso que me atraía tanto.
Hoje não tenho, e daí a dificuldade de começar.
Começar, simplesmente. Como é difícil o princípio, seja da paisagem como dizia o Pedro Chorão nos seus quadros, seja como eu agora na prosa de ficção.
Parto sempre de algo bem real, ou melhor, partia, e esse real é o que me falta agora. Porque o real é o que vejo nas televisões, as guerras brutais, as políticas egoístas, as vaidades do mundo, uma sociedade esvaziada de valores, um tremendo abandono da arte e do conhecimento. Nem sempre, mas o pouco que vejo tira-me a vontade de fazer seja o que fôr. Um mundo sem salvação, a humanidade decadente não merece.
Penso então em Clarice: a mulher que tinha dentro de si um grito, e tinha de o gritar.
Eu o que tenho?
Um enorme princípio de aborrecimento, que filhos e netos às vezes interrompem, e nesses momentos sinto-me mais viva.
Mas a seguir, mais nada.
( a seguir, o livro, nas ed.Glaciar em breve).
Nuno Félix da Costa, depois da prosa agora de novo a poesia.
O que há de tão especial na sua escrita, que se desdobra em géneros tão diferentes (mas na verdade nunca se opondo, antes se completando) como o ensaio, científico ou filosofante e literário, a prosa de ficção entre o real e o imaginário, a poesia que inquieta no decurso em que a palavra se busca e, mais difícil, nos busca, a nós que lemos, e não sabemos, caminhando pela mão dos seus versos, livres ou libertários (deslizando ao estilo do abjectionismo, que também na pintura se poderia encontrar) e que por vezes abandonam a primeira das linhas indicadas, seguindo outras, mais leves ou mais pesadas, de um modo que é, em simultâneo, convidativo (à reflexão) e displicente (como quem diz, é só para quem percebe e deste modo se liberta e encontra).
Há um ponto de encontro, o da atracção que exercem, contra tudo e contra todos, se assim fôr necessário. É a condição que ser humano impõe, descobrimos, enquanto lendo vamos chegando ao fim. Do livro e em parte de nós mesmos.
Será que atrai precisamente porque não se percebe? Porque, herdeiro pósmoderno do surrealismo, deixa a mão correr pelas associações livres do seu imaginário, sem receio de exibir a cultura que tem, e que no fundo, desprezando, preza acima de tudo? É sem dúvida um poeta que transporta uma cultura assimilada, de que se nutre como alimento base para um pensamento diferente. Cultiva a diferença como planta rara que é e surpreende. Por isso prende? Entre os versos a flôr azul de um nostálgico Novalis? A flôr que nunca se colhe, preferindo ficar na contemplação de uma raiz oculta e que vibrando algures, de tão grande e tão funda, mantém em suspenso o mistério das vidas no universo.
Porque Nuno Félix aborda várias vidas em cada um dos poemas que se dispõe (ou é forçado?) a escrever. A sua escrita é a vida, e na escrita é a poesia que nos fala mais alto. Não transporta imposições, mas emoções que levem ao pensamento do que se é, mudando em cada momento. Nada é igual, nem o que nasce do silêncio contido, nem o que nasce do discurso escolhido. Cada verso uma escolha, cada poema um destino escondido.
Uma hora de estrela, no que diria Clarice Lispector, cuja voz nasceu sem o toque da infância, mas logo amadurecida. Um olhar renovado e que renova a vida.
Leio estes poemas para ser Humano e embora não saiba qual a definição de humano que seria adequada, logo sinto que é a mim que se dirigem, são a expressão da condição humana na sua mais nua realidade, do quotidiano banal ao sonho mais sonhado.
É importante o dizer, o bater do seu ritmo quando lemos os versos em voz alta. Por ali corre sangue.
O poema que Nuno escolheu para a contracapa veio ao meu encontro como se fosse escrito por mim, ou para mim. Agora demoro em especial em dois momentos: demorar a levantar, prolongar a abertura da janela (...) os olhos que pareciam colados ao escuro, por instantes são sonhos, espelhos densos que sabemos se fragmentarão e ao sairem da boca criam as órbitas dos astros, o brilho das estrelas e - finalmente, o resto do cosmos.
Demorar, prolongar, criar. Um exercício de paciência, um saber que a espera contida recompensa, embora não resolva o essencial mistério que só o cosmos sabe e guarda.
Dirão, e não se alude aqui às outras qualidades deste médico que é Professor, Poeta, Fotógrafo, Pintor, e filosofa como no tempo dos gregos sobre a existência, o ser, o ser humano na sua condição? Ou simplesmente a descoberta da consciência do que se é, na nua simplicidade da vida e da morte, ambas com destino marcado que ele, na sua sabedoria, melhor do que ninguém poderia antecipar? Não lhe faz falta, nem a nós, o excesso da consciência que se torna pesada e impede a libertação da voz.
Na qualidade de médico conhece bem os limtes do corpo, a matéria mesma de que se ocupa noutras horas, sendo que o corpo é albergue da alma e desta também é preciso cuidar. Na qualidade de poeta conhece bem a liberdade imprescindível da voz, a que brilha com um brilho de estrela, mas que ainda que seja luz é no corpo que se materializa. Corpo e alma eis o que podemos inferir da condição humana. É pouco? É a realidade possível, frágil e com grande necessidade de compaixão e amor, pois no Éden a esse corpo e alma a eternidade nunca foi concedida. Uma parcela apenas, uma pequena por vezes tão inacessível, parcela de conhecimento. É o que o autor aqui nos oferece, em páginas múltiplas, variadas, de entrega generosa.
Poemas de um grande poeta que olha em seu redor, enquanto também se rodeia de silêncio, que não lhe pesa, antes o deseja, quando escreve.
A sua mão corre no papel, o primeiro verso quase que arrasta os outros, que constrói ou desconstrói, com o bater de um mesmo ritmo, podia ser de Camões ou de Pessoa, ou de Mário de Andrade, o Modernista.
A narrativa poética é aqui tão natural que fulgura, apesar de algum hermetismo no poema que, apesar de tudo, por ser poema, permanece fechado em si mesmo, exigindo releitura. E voltamos a ler, decifrando o que se esconde no intervalo das palavras, aí reside o sentido do verso, a sua necessidade.
Em Tercetos Queimados, que também li, e foram a minha primeira revelação da sua obra (terei de ler o blog mais uma vez) não referi o que agora ma parece tão óbvio, pelo contraponto com o GELO. No primeiro a presença subtil do elemento Fogo, e neste agora a presença da Água. Pois este gelo é água, um dos quatro elementos da alquimia transformadora.
No poema da p.19, Gelo -1, que indica que deve ser lido junto com outro de Mário de Andrade, eis o que escreve:
Por isso descremos dos gestos profiláticos,
por isso sempre que possível o compasso
de ombros e pernas fora da máquina-mundo,
e a sede do nada se nos alcança o êxtase
da carne ou do verbo. Um corpo é sempre
um corpo estranho; um ano, vinte e tantos
anos. Dentro de mim um cubo muito se perde mas
daqui indago a emaranhada forma humana
corrupta da vida que muge e se aplaude.
Ossos rijos, por enquanto, sangue em temperaturas
voláteis. Algo o detém como se esperassem.
Exegetas pouco pouco alcançam a miserabilíssima arte
nossa ao mesmo tempo em que se rompem
e se dobram fronteiras e colunas (vertebrais).
Adiante, em Gelo II, p.33, o contraponto surge mais claro, nestes versos:
...
Num pico
de neve escarpas de medo
e coragem ardendo.
As mãos frias dos mortos
têm esse fogo por dentro.
E segue num Gelo III, p.37 a experiência que um " grito primevo" num sonho lhe permite ouvir, enquanto"tanta coisa se move, e a vida desaba". Por isso o poema, este, dialoga com outros, como no poema que deve ser lido com e, como ele diz, "não deságua, nem se move nem se abre". Tem de ser o leitor a abrir.
Sérgio dialoga, nos seus poemas, com outros que são poetas, como ele. Num dos seguintes, No Teu Rosto, a experiência provém de Gastão Cruz, O Verão Novo, na p.63:
E termina: "o gesto busca um novo sopro / uma sílaba ao menos - agora / que já somos outros". A experiência que define como " de tempo e espaço, tempo e modo" é a experiência da cidade e de um corpo que mudam. Mudaram e são outros, e talvez essa mudança lhes permita o verso.
E de novo o Fogo marca a sua presença, p.73, em O Cacto:
O poema é o próprio fogo, imaterial
em sua imanência mas fogo
...fecho os olhos, apenas fecho
os olhos para que o poema nasça.
No poema AINDA, (saberia ele que é o título de um meu próximo livro?, ou é uma destas sincronias, como dizia Jung? ) que releio porque ali surge a pergunta de "quem sou", igual em todos os que escrevem, para saber quem são, e ainda que não haja resposta, pois só Deus disse eu sou o que sou (ou aquele que sou) - não disse sou quem sou, nem sou aquele que é, a questão do ser ficou em suspenso, desde os primeiros tempos, e até hoje.
Sérgio escreve no poema que tudo foi mudando, e até as frases já não são inteiras, pobres versos fracturados, incompletos, em busca do que seriam, se o ser afinal fosse outro e não o que é. Mas conclui, Ainda assim escrevo, e é nesta palavra que desejo ficar, pois vem ter comigo assim que a leio, eu que me julgava parada, não apenas interrompida por coisas que são mais do que eu, e de repente me descubro Ainda a escrever .
Neste Gelo de Sérgio Nazar David se regressa ao corpo, e de forma muito especial à Vida.
Mouraria, Mouraria
tanta côr tanta alegria
imagem de tanta vida
de longe e de perto vivida
por amor foste escolhida
tua gente repartida
como versos de cantiga
aberta nos corações
não há lágrimas que durem
são limpas por tua luz
pelo encanto das ondas
desse mar que nos seduz
Fica-se logo a saber, na introdução, que estes livros resultam da tradução feita por um cristão do séc.I, convertido e conhecedor do hebraico e do aramaico e que achou útil dar a conhecer esta versão, mais antiga, dos livros sagrados da Bíblia, dos espaços onde decorreriam os momentos da História de Israel. O Aramaico era a língua de Israel, da Síria e dos imensos territórios férteis da Mesopotâmia, então a Pérsia e a Babilónia e os berços da civilização e mesmo até, diz o autor, do Jardim do Éden.
Era esta a terra de Abraão, de Isaac e de Jacob, em que todos falavam em aramaico, há mais de dois mil anos. O primeiro livro do Génesis está em aramaico, de que o autor da tradução vai dando alguns exemplos.
Para mim o interessante é ver em que pontos difere, esta sua versão, da tradicional, conhecida, da Bíblia de Jerusalém. Começando com as primeiras linhas da Criação, não se notam diferenças. Os episódios, a expulsão do Éden, a morte de Abel por Cain, as gerações e a multiplicação pela terra, que Jeová ordena, mais do que uma vez, o desgosto com os pecados das suas criaturas, a excepção de Noé, nada por aqui me suscita interrogação.
Mas chegando ao capítulo 6 é interessante ler o que se diz: os filhos do homem começaram a multiplicar-se Na face da Terra e tiveram muitas filhas. "os filhos de Deus viram como eram belas as filhas do homem e ficaram com elas todas" o que lev a Jeová a dizer que o seu espírito não perdurará no homem porque ele é feito de carne, e viverá até aos 120 anos ( antes podiam viver até aos 800 anos, e a partir de agora é imposto um tempo certo, e este limite dos 120 anos, o que hoje em dia está a ser quase verdade, no nosso tempo actual...).
Segue-se a referência aos Gigantes, Homens Poderosos, filhos desta união dos filhos de Deus com as filhas do homem, e que seriam os heróis míticos e "da fama" dos tempos antigos.
Poderia o autor estar referir-se a Homero, à sua obra por onde tudo passa, de mitos e de lendas, que a memória arcaica foi fixando? Lembro Polifemo, o Gigante de Rodes, de que se encontrou um pé..haverá outros, como Golias ou como os que surgem nos contos populares.
Segue-se o desgosto de Jeová com a humanidade que criara, e a decisão de ajudar apenas Noé, indicando-lhe como fazer a sua arca de salvação e levar um par de cada criatura animal e humana, para escapar ao dilúvio.
A numerologia é algo de tão frequente e tão fundamental, nestes escritos, que de facto se torna uma verdadeira ciência, que só os peritos, os kabalistas podem entender.
Mas para mim, no episódio sobre o alfabeto e o significado de cada letra, a começar pelo Aleph, foi muito interessante que significa o NADA, e não como podemos pensar o VERBO primordial.
Primordial foi o Nada e nesse Nada tudo teve a sua origem.
Neste sumptuoso volume, de verdadeira edição de arte, se reúnem as aventuras de Dog Mendonça e Pizza boy, com um extra que os aficionados da banda desenhada irão apreciar ainda mais. Por ser inesperado, este extra, que se inspira numa lenda, que pode ser real na origem ou fictícia, o que interessa é que ocupa ainda hoje o imaginário da cultura chinesa, e remonta às aventuras de uma feroz pirata - mulher - que reinou pelos mares da China no século XV, tendo por base um conjunto de belos poemas, cujos versos, variando conforme o autor, mas todos louvando a coragem, o desaforo, a violência dos saques daquela misteriosa mulher.
A aventura começa com a vida de Lo Pan numa pequena aldeia de Cantão, junto ao rio das pérolas. É um menino cujo maior prazer é passear com a mãe na praia, brincar apanhando conchas e pedras redondas, e à tarde aprendendo velhos poemas, ou inventando outros que lhes ocorriam e nunca tinham sido ditos. Era uma vida de rotinas tranquilas, esta de Lo Pan com a sua mãe até lhe acontecer uma aventura extraordinária, que interrompe a sua infância feliz e o leva a um crescimento de verdade imprevisível.
A mãe, de nome Lu Shi, tinha um sonho nunca revelado, pois às mulheres ir o teatro ou de algum modo conviver com a música ou a dança ou o teatro eram actividades interditas. Mas ela guardava esse sonho, de um dia poder vir a ser actriz...sonho impossível de facto. Filha de mãe pobre, a mãe tinha-a vendido a um homem mais velho que tomaria conta dela, e do filho que tivessem.
Assim, Lu Shi o que fazia com o seu filho era brincar também, sonhar com os personagens das óperas conhecidas, repetindo os versos que uma vez ouvira, quando se disfarçou de rapaz e foi ver a Ópera de Pequim.
Nos mares do império Quing, o desta época em questão, navegavam os mais terríveis piratas, cujas aventuras corriam de boca em boca, com os assaltos os roubos, e a fama que adquiriam. O mais célebre era Zhen Pan, o marido de Lu Shi e pai do pequeno Lo Pan, dono de centenas de barcos.
Aos dez anos o pai leva-o na sua primeira viagem de barco, para que aprenda as artes do mar e da guerra. E certa outra viagem o pequeno assiste a algo de terrível, viu o pai decapitar um outro pirata, seu rival, pois queria ser o dono de todos os mares.
De regresso a casa o pequeno Lo Pan corre para os braços da mãe, e do seu carinho cheio de amor e conforto. Tinha sido para ele uma experiência terrível.
Também ele, como a mãe, tinha um segredo. De noite vestia as roupas de mulher que ela usava, pintava-se com a elegância que lhe conhecia, e depois cantava e dançava, enquanto o resto da casa dormia.
Mas um dia a mãe apanhou-o nessas brincadeiras, diante do espelho onde ele se imaginava como se fosse o palco de um grande teatro, e zangou-se com ele. O seu destino estava traçado, ele teria de ser um pirata, como o pai.
Contudo, o pequeno Lo Pan acabara de fazer uma descoberta : a beleza da Arte, e do Feminino (que Jung chamaria Anima, o feminino no Ser). Não conseguia entender por que razão algo que o fazia tão feliz podia ter algum mal.
A história sofre então uma reviravolta: o pai chega um dia antes do previsto, e apanha o miúdo vestido com as roupas da mãe, a cantar e a dançar em rodopio feliz. O pai perde a cabeça, e furioso zanga-se ao ponto de o expulsar de casa, renegando-o para sempre. Exclama que aquele não era o seu filho, e melhor ficaria na casa de uma célebre prostituta.
Ameaçado até pelos criados que o tinham visto crescer, sem que a mãe o possa ajudar, Lo Pan sai e estremece ao ouvir o bater com estrondo do portão da casa.
Foge pela noite fora, apavorado com medo dos bichos que a sua imaginação criava, até que chega a uma cidade, onde o veremos transformado de jovem rico em pedinte, a estender a mão para uma moeda ou algumas migalhas de comida.
Surge a dada altura diante de si uma mulher, que se debruça com voz suave para o ajudar: acorda, diz, chamo-me Mei Li e o seu olhar era cheio de compaixão. Lo Pan levantou-se e seguiu essa mulher, sem saber muito bem para onde. Ia começar uma nova etapa na sua vida, num barco enorme, de prostitutas que serviam com grande sucesso, clientes que ali vinham regularmente e de quem ele, nas suas vestes femininas, também serviria conforme pudesse.
Por muito estranho que de início lhe parecesse, acabou por se habituar e sentir feliz, entre elas todas. Já tinha perdido a esperança de alguma vez encontrar o caminho de volta a casa, e aceitou esta nova forma que o seu destino tomara.
O seu gosto pelo canto e pela música nunca diminuíra. e certa noite ouviu Mei Li a tocar e lembrou-se de cantar os versos da célebre canção que ele conhecia desde a sua infância, a da flor de Jasmim tão bela, tão bela e tão perfumada...Mei Li ficou espantada com tão grande dom assim revelado, e de novo a vida de Lo Pan iria levar uma volta. A beleza do seu canto tornara-se conhecida e vinham pessoas ouvi-lo cantar, juntando-se por ali à roda do barco.
Ele escolheu então o seu nome artístico :
MADAME CHEN - A MULHER DRAGÃO
Podia demorar-me aqui um pouco, para reflectir nesta escolha e no seu simbolismo: mulher-dragão, reunindo o feminino Yin e o masculino, Yang, a sombra e a luz, nesta história de alguém que busca sua identidade real, complementando contrários.
A aventura vai crescendo em acção e mistério, levando consigo o leitor.
A fama de Madame Chen chega aos ouvidos do Imperador, que chama Lo Pan ao seu palácio de Pequim. E ele/a ali fica com ele adoçando uma velhice que levava já o velho imperador para o fim dos seus dias.
O sucessor não ligava nada às artes e Lo Pan perdeu o seu lugar, saiu de Pequim, regressou à protecção de Mei Li. Não cabe num post um guião como o que Filipe Melo concebeu, base real para um filme que pode vir a ser extraordinário de acção e emoção. Basta agora dizer que numa das suas sessões, no meio de grande multidão reconhece um dos criados das su casa de infância, e força-o a levá - lo de volta até lá onde fica a saber que a mãe se suicidara com o desgosto da sua expulsão e o pai, por sua vez destroçado com a morte da mulher se retira para o mar, para os seus barcos, nunca mais sendo visto em terra.
A escrita de Filipe Melo, minuciosa, delicada e subtil, adensa a curiosidade e a emoção de quem lê, e seguimos, como quem segue uma aventura estranha que, sem que se diga, é na verdade uma história de iniciação, como num Bildungsroman - romance de formação ao modo de um Goethe, em Wilhelm Meister's Lehrjahre ou de um Fielding, por ex. em Tom Jones. E passo o célebre Dom Quixote...Há muito suporte cultural, também oriental, claro, de um imaginário antigo, aventuroso, mas contendo uma lição, ao modo do Taoísmo, ou da moral de Confúcio.
Apresso-me a não revelar tudo, o leitor deverá fazer também ele o seu percurso de iniciação pela leitura. Lo Pan usará a sua fortuna para comprar um barco, arranjar uma tripulação de assassinos de coração duro como o dele agora se tornara, feito pedra, e decide correr os mares e tornar-se tão conhecido pela ferocidade e riqueza dos saques como fora o seu pai. No seu barco serviam homens e mulheres desde que dispostos a todas as atrocidades.
E a aventura continua até ao encontro com o seu pai, que não aceita a rivalidade e tendo conseguido prendê-lo o decapita, de um só golpe, e lança corpo e cabeça ao mar.
A lenda reza que o dragão rei daqueles mares se toma de compaixão pelo jovem, opera o mágico milagre de reunir a cabeça ao corpo e lhe devolver a vida com uma condição....
E fico por aqui , o leitor terá de descobrir o que depois sucedeu.
Sem esquecer o que as ilustrações de Juan Cavia, no seu desenho ora mais carregado ora mais leve, acrescentam ao sabor das páginas com o prazer e o entendimento do que vamos lendo. A ilustração é uma arte especial, o criador tem de se fundir com o que ali está criado pela escrita, ampliando o sentido.
Já tenho escrito sobre João de Mancelos, com prazer especial, julgo que nos é comum, pela arte do Haikai. Embora um ou outro autor me tenha dito que tanto faz dizer Haikais, para plural, eu aprendi com Alberto Pimenta, cuja erudição é indiscutível, que o singular é Haiku, e o plural Haikai (sem se usar o "s"). Como não falo japonês e só leio traduções, não entrarei nesta discussão, mas tenho uma linda prenda do Alberto à minha frente, uma linha vertical de um Haiku condensando nessa imagem uma única ideia. Esse é o segredo e o encanto desta prática artística japonesa: uma ideia única numa única imagem que a condensa e contém. A ideia dirige-se ao nosso espírito, a imagem ao nosso sentimento e sensibilidade, como faria um desenho ou um quadro. Uma imagem.
Logo no título do seu livro, que prefiro chamar de poemas e não de Haikai, excepto num caso ou noutro que o permitem, o autor nos deixa com a imagem de um coração"de aluguer". É de aluguer por estar livre e feliz ou por ter sido libertado por outro, com desgosto seu?
Ficamos com curiosidade de saber e vamos ler o que nos diz, nas suas páginas. Está dividido em 4 secções: Deslumbramento, Labaredas, Abandono e Memória.
Momentos que revelam Atracção, Paixão, Afastamento e Memória
(Saudade do fim dessa paixão, poetizada ao longo dos vários versos?).
Há que ler, devagar, a leveza dos versos escritos como feridas de alma que não se ultrapassaram. Ou não haveria memória, mas esquecimento, ou apenas simples evocação. A memória traz um actualizado sofrimento, a evocação pode ser tranquila em paisagem de horizonte longínquo.
Muitas vezes me ocorrem os poemas de Rilke, a propósito das cartas a um jovem poeta, a quem recomenda que não fale logo dos seus primeiros impulsos de amor, pois o amor perturba a clareza do verso. E que só escreva se para si fôr a escrita questão de vida ou morte. Para Rilke era, e assim ele criou uma obra que se tornou universal, para não dizer eterna.
O amor, deste coração de Mancelos, não sei se será de vida ou morte, na narrativa que é oferecida. Mas a algum impulso mais fundo obedeceu, ou não o estaríamos agora a ler, acompanhando o que sentiu nos diversos momentos que também eles são universais: pois quem nunca amou, viveu e sofreu amando, até que tudo findou? O tema do amor é o mais universal, como há pouco tempo, falando de paixão e morte nos dizia José Pedro Serra em Mythos, o seu programa da televisão.
Na minha idade sei bem que paixão e amor não são a mesma coisa, e conforme as épocas e as culturas a sua vivência é diversa.
Vivemos uma época de veloz vivências, ou seja de paixões, intensas mas condenadas à brevidade dos tempos. Já o amor seria vivido de outro modo, e nem sequer está na moda. Daí que neste livro as labaredas tenham mais peso e rápido se desfaçam em abandono.
Mas volto à capa do livro, que além de ser muito bela, (parabéns à Raquel Ferreira, que não conhecia como ilustradora) nela sim, com o seu título inscrito, coração de aluguer, descubro o impulso misterioso de um Haikai: Fino rosto no meio da sombra e mão que vivamente afasta, recusa (quem sabe se depois ter aceite, alugado, alguma relação de momento, passageira?)
Um Haiku pode ser assertivo, mas pode igualmente ser de interrogação deixando ao leitor a hesitação da resposta. João de Mancelos, e este seu gosto pela cultura oriental, japonesa, terá lido Kawabata e as suas Belles Endormies, notável romance testemunho de uma prática usual ainda no seu tempo e que eu li ainda jovem, em Paris e tanto me deslumbrou pela beleza e pela crueldade que indirectamente revelava. Jovens que eram adormecidas para que os seus corpos indefesos pudessem ser alugados por quem pagasse uma noite junto delas, e vivesse a ilusão de amar e ser amado em entrega total. Muitas morriam, devido à anestesia que lhes era dada. No caso deste romance o homem já de idade que procura e aluga sempre a mesma jovem, por quem se apaixonara de verdade, e a visita uma e outra vez, o amor é vivido de forma intensa e trágica, pois ela acaba por morrer.
O amor de aluguer descrito nos Haikai de Mancelos é forçosamente diferente, pois ele é jovem, e num jovem a relação é vivida de forma intensa, e não busca um corpo tranquilo, quem em nada se recuse, mas que esteja bem vivo e que lhe corresponda, enquanto a relação dure. É o momento das LABAREDAS.
Meditando sobre a capa, uma ilustração também pode evocar uma forma de Haikai. Atrevendo-me a pensá-la ( a idade que tenho já me permite tudo, ou quase, e a intenção é desvendar amor e não criticar) eu escreveria:
Olhar que se desvia
Mão que afasta
Paixão que se acabou
ou
perdendo-me em variantes:
olhar desviado
mão que afasta
paixão que se extinguiu.
Fica-nos a questão do adjectivo, " de aluguer" .
Coração de aluguer não pode ser um coração qualquer, e só o poeta poderia explicar melhor: nessa relação que a narrativa poética descreve quem foi que por momentos a viveu, a Amada ou o Amado, quem abandonou primeiro e para sempre, disponível apenas para aquela espécie de aluguer e nada mais? Amor de acaso e de ocasião?
Mas que foi enquanto durou intenso e deixou marcas?
Vamos ler.
A PRECE é um apelo, depois de um deslumbramento, da descoberta de alguém que se deseja. Os versos adiante confirmam essa sede de amor: " o meu amor vinha / de um deserto longínquo / e tinha sede de mar.
A solidão é a imagem escondida o amor a revelada. Lembro a epígrafe de Italo Calvino, no início, o mar dentro de um copo", metáfora para a poesia. Ou aqui um deserto que procura a água do mar.
O imaginário da água atravessa estes poemas, e sabemos como da água nasceu Vénus, a deusa do amor esplendoroso a que os poetas se podem entregar. Água, amor, beijos de princípio do mundo, pássaros em busca desses vôos de pura elevação espiritual. Na verdade, tudo é inocente, o corpo do desejo, só de sonho, ainda não está presente.
Mas haverá em breve a imagem do fogo, acelerando o bater do coração sequioso.
Já em RISCANDO A NOITE, depois do elemento água temos no fósforo o elemento fogo. Água e Fogo, como Terra e Céu, os elementos base do imaginário poético desta narrativa.
No poema seguinte ANDORINHAS EM OUTUBRO, outono da melancolia, da velhice sei bem, surge o que diria uma evocação das Belas de Kawabata: "clandestinamente / a jovem e o velho amam-se". E finalmente o corpo desejado, em SOLETRO TEU CORPO DESPIDO:
"soletro o teu corpo despido / entre dosi versos. vem /
interrompe a minha morte".
Entramos assim na segunda parte, de título LABAREDAS, pois já o fogo arde na paixão finalmente vivida.
Água e fogo, fusão alquímica, de que há uma bela gravura indiana do século XVIII que Jung reproduz no seu tratado sobre Psicologia e Alquimia.
Em RAPARIGA ENTREABERTA a fusão torna-se explícita:
"ela entreabre-se ao amor: / afastam-se as águas / entra-lhe o fogo". Ou ainda em RITUAL:
"noite a noite, eu colhia / estrelas ou versos na escuridão / incendiada do teu corpo". Toda a relação se passa na escuridão da noite, como se apenas de noite (ou a dormir, como em Kawabata) a paixão pudesse plenamente ser vivida.
TODA A ESCURIDÃO DA NOITE
tinha uma só boca,
mas toda a escuridão da noite
para te beijar.
NÃO SEI O QUE CEGA MAIS
não sei o que cega mais:
o lume, o amor, o silêncio
a tua pele de cal na escuridão.
PARA SER DEUS
deus precisa da eternidade
para ser deus. a mim,
basta-me uma noite contigo.
Adiante falará do que é o seu amor como "ofício de labaredas". Até que tudo se consome e se transforma, nas cinzas do ABANDONO. Terminou a hora da entrega, acabou o que parecia eterno e era só aluguer? Paixão, mas feita de empréstimo e não de completa entrega? Só ele saberá dizer, o que encontrou no amor e na paixão a intensidade do verso.
A paixão definida como "outrora seda" é agora " a pele que a serpente despiu". Resto seco que se deixa para trás como a da serpente , que introduz aqui uma nova metáfora, pois fica no ar a perversidade que atribuímos à serpente, desde logo no Éden, jardim perverso que até agora não tinha surgido.
Recuperando o imaginário que temos acompanhado, vimos a água, o fogo, vemos agora o céu que fora indicado pelos pássaros e agora é de novo pelo vento.
O vento é o pensamento, é o que transporta e transforma, neste caso um coração que o poeta interroga:
"diz-me: quem flutua, agora,
no teu coração
assombrado pelo vento?"
Deixo ao leitor a continuação da leitura pelos versos da Memória, destacando apenas o final, porque de novo, como no início há um apelo pungente, a última chamada que se guardou algures na memória: " esta noite e para sempre /que o meu coração anoitecido / amanheça no teu peito".
Um belo livro.
O MELRO
Não estás aqui ao meu lado.
Bem posso olhar
quando a luz diminui
e na varanda
vem um melro falar.
Se me levanto ele foge
tem a sua relva algures
num jardim não muito longe
onde irá pernoitar.
É feliz esse melro
tem um poiso que conhece
e não tem de procurar.
Eu ainda te procuro
mas já não estás ao meu lado
e não sei adivinhar.
30 de Abril, 2023
O desfazer das coisas, mais uma vez.
Durmo de noite, durmito o dia todo. Tenho o seu livro à minha frente. Abro ao acaso numa daquelas páginas em que apanho logo o sobressalto de um exercício de surrealismo que joga com uma espécie de auto-cadáver exquis entre a ciência, a anatomia cruel de imagens de gráfica anatomia, descerebrada, e um puro jogo de imaginação literária, erudita, por vezes mesmo simbólica, arquetípica que nos deixa perplexos enquanto tanto imaginário que se auto desconstrói nos eleva para outro patamar.
Nuno Félix, é preciso reconhecer, é demasiado sábio para que o possamos entender. Não nos oferece conhecimento, a nós pobres leitores, mas experiência e sentimento. Exige que o sigamos por caminhos estreitos, as finíssimas ou mesmo raras sinapses entre neurónios que se vão esgotando no meio dos exercícios. O que procuro, quando o leio? De modo nenhum repetir o seu impossível exercício, mas descobrir, nos intervalos, algo que esteja escondido e me seja revelado.
Arte é revelação, e a escrita meio surrealista, ainda que entremeada de realismo, traz consigo surpresa, desafio, vontade de continuar. Viramos as páginas, seguimos outro parágrafo, procuramos, numa nova metáfora o sentido que traz. Na Ciência como na Arte o sentido dá vida.
Na desconstrução, que é busca e exercício, ambas se encontram e voltam de novo a construir. Essa é a secreta lição? O sentido da Vida?O que andava perdido do Sinal primitivo?
Leio "Isto é um risco real":
Poderemos continuar ágeis a entrar e sair dos símbolos e a papaguear detritos de uma democracia adulterada? Poderá a mente fazer os dedos agarrar as coisas e espremê-las até o nome aparecer? Como um macaco agarrar e lambê-las e esse saber ser uma nuvem com todas as cores? Quem aparecerá para pensar? Quem ouvirá o pensador desfazer-se no meio do lixo gritar por si - pelo seu nome - pelo nome das coisas querendo tudo separado por gavetas com rótulos? O tempo come os pigmentos da cabeleira das letras - Deixa os símbolos sem correspondência física ou a lei do próprio movimento destruindo a relação à coisa e recriando-se como negação - Funcionará ainda o cérebro com os símbolos rindo da sua loucura?" (p.47).
Para entender seja o que fôr, mesmo uma Democracia deteriorada, há que voltar aos gregos como num outro texto, de abertura, o autor avisou. Heidegger fez o mesmo, quando escreveu, em fim de vida e de carreira recuperada, sobre O QUE É PENSAR. E fez o que é impossível não fazer, se quisermos pensar...recorreu a um verso inicial de um dos grandes poetas, para epígrafe, Hoelderlin, no Hino à Memória, Mnemosyne: somos um sinal que perdeu o sentido...
E aqui estou eu, com Nuno Félix, e o macaco real que também pode ser um sinal, o deus Thot dos egípcios, metáfora escondida de Hermes, o da sabedoria, a cogitar sobre o que leio, também eu em busca do nome, o nome oculto, não meu para que o gritem, mas para que eu o saiba, e o guarde em silêncio?
Será pura coincidência que há dias me tenha debruçado sobre os últimos poemas de Ingeborg Bachmann para descobrir nela o peso das palavras, os nomes que Celan carregou de sentido e lhe foi transmitindo até morrer? Ao mesmo tempo que atrai e recusa os símbolos, eis Nuno procurando à rebours, ele já é de outro tempo, o de agora, o de uma nova negação que constrói e desconstrói, mas sempre para recuperar o que não queremos perdido, o Sentido que só ele dá Vida renovada ao Sinal.
Lilith
Chegara por fim
a sua hora.
À volta dele
todos queriam ajudar
queriam que se salvasse
daquela Mãe negra
que ali pairava com
sofreguidão de raiva.
Ia directa ao coração,
que não comia
como tinha feito com outros
em tempos imemoriais.
Não, desejava agora
arrancá-lo, parando
esforços de salvação,
queria arrancá-lo
do peito tão amado
e enterrá-lo bem longe
na cama de lençóis brancos
que tinha preparado
no seu reino de trevas
onde ficara exilada
por um deus sem nome
que a tinha castigado.
5 de Abril 2023
Ele quer mimo,
tem um gato.
O gato
também quer mimo
e busca na cama fofa
o seu lugar mais quentinho.
Primeiro na almofada
mas é só para enganar
ele quer mimo no pescoço
do seu dono a dormitar
e logo a seguir
no seu rosto
escondido sob o lençol
que ele ajuda a destapar.
Calor a mais não é bom
estraga o mimo procurado,
e o gato deseja agora
o seu peixinho sonhado.
Tanto amor liga estes dois
nunca dormem separados
onde está um
está o outro
este mimo é de durar.
Descubro que afinal
não vivo o Tempo, que
o grande Heidegger definia
como essência que dava ao Ser
a sua parca existência.
E digo parca
porque o Tempo será talvez eterno
se confiarmos nessa filosofia
ou no cosmos que é
também ele um infinito
segundo agora se afirma.
Mas esse Tempo não é nosso,
ensina a experiência de vida,
o nosso é o tempo pequeno
o tempo feito dos dias
que hora a hora se vivem
na busca inútil do Ser
que Heidegger definia.
Também o Ser é pequeno
conforme o tempo vivido
conforme os dias que passam
afinal vão permitindo.
Foi um abraço
tão quente
que me levantou
do chão...
e afinal foi nesse abraço
que parou o coração.
Eu não podia saber
tão grande era a minha alegria
e tão grande a emoção
que já me tirava a vida
que eu julgava devolvida
mas que em silêncio fugia
e sem que eu visse a razão.
Tanto amor à sua volta
entre gestos desejados
embora nunca pedidos
mas de novo renovados
em cada dia passado
numa ilusão fugidia...
Sábado.
Já sei que é um dia morto,
não é rei morto-
rei posto,
não obedece
ao lema tradicional.
Teremos de atravessar
este dia, faça chuva ou faça sol
dia de mediação
ora de sim ou de não
conforme acordamos cedo
com boa disposição
ora pelo contrário
quando as horas recusadas
sabem a horas mornas
que nem o café sacode
afinal são horas mortas
reviravoltas na cama
procurando o travesseiro
que já pusemos de lado
e agora queremos de novo
ele ao menos fica inteiro
escapa-se dos lençóis
que são mar traiçoeiro
sem nenhuma inspiração
que nos dê um novo impulso
até que chegue o Domingo
que se vive menos mal.
Ideias (terá dito Mallarmé...)
Ideias
nada são sem palavras
não se encontram por aí
à venda nos mercados
temos de as procurar
com paciência e cuidado
em espaços recônditos
da alma
difíceis de alcançar
muitas vezes teremos
de esperar
podemos até morrer
sem as ter encontrado
e talvez um dia por acaso
alguém
venha a tropeçar nelas
e sem pensar em nós
exclame olha que sorte
palavras tão buscadas
para uma ideia nova
só agora nos surgem
tendo escapado à morte...
Desejos
Altos são os desejos
de quem tudo pede aos deuses
e não aguenta a espera
a que o obrigam...
os deuses não respondem
a esse tudo ou nada
tão repetido
tão cansativo
tão intenso
e que consome por dentro
as energias
e pior
as alegrias
que seriam possíveis
sem pedidos
nem gritos de lamento...
os deuses são assim
por vezes mais atentos
outras vezes cruéis
na réplica do que sabem
da natureza humana
que desprezam
mesmo quando fingindo
que parecem ajudar...
não peçam,
não clamem
não desejem
é esse o meu único conselho
dos poucos que tenho para dar.
Lisboa, Março 2023
Se me perguntassem eu diria
criar é transformar.
Não é repetir
muito menos imitar
é simplesmente
transformar.
Talvez uma norma alquímica
ajudasse
ver como os sábios trabalham
a sua matéria espessa
criando com ela o branco
passando do chumbo ao ouro
da negra escuridão
à luz
a primeira que Deus tirou
da criação.
É um título algo enigmático. Quem é esse que não sabe que morreu? Um velho com Alzheimer? Um avô, um pai ou um amigo? Estamos todos tão velhos, e tão à vista de quem nos olha...
O volume, de contos, breves, de leitura rápida, mas não simples, faz-me pensar que os autores que não estão debaixo do chapéu de chuva das grandes editoras têm de fazer pela vida, pois desejam ser lidos, e assim vão aparecendo ora em editoras ditas pequenas - mas que são as que sobrevivem, contra tudo e contra todos e nelas se refugia a outra literatura, quantas vezes melhor, mais livre e arrojada - e nela se encontra um outro prazer de ler em vez dos temas recorrentes da moda...
A editora de Luís chama-se cinco livros. E é no Porto que está localizada. Curioso como no Norte o desnorte parece ser menor, a actividade resistente é maior, em comparação com Lisboa. Circula-se mais entre amigos? Ou é só um acaso?
José Luís Ferreira tem, aos 60 anos, já vários livros publicados. Este é um bom momento da vida, em que o prazer, ou a necessidade de comunicar pela palavra ainda não se perdeu. Agora, que se vive mais tempo, Jung chamaria aos 60 anos, como antes chamava aos 40-50, o meio da vida, o tempo da maturidade, do equilíbrio da Anima, do reconhecimento das pulsões do inconsciente revelados de forma indirecta em símbolos e arquétipos que podem ser recolhidos nos sonhos. A arte da Alma (Anima) é próxima da arte da jardinagem. Mas não vou falar aqui de alquimia, são tantos os seus jardins, o espaço que o post me permite não chegaria.
Falarei então do José Luís, do seu volume de contos. Recebi, mas não acusei logo a recepção, o livro tinha sumido da minha vista. Um cavalo (da alma?) trouxe-o de volta. Há uns dias o autor interpelava-me via facebook, onde vou cada vez menos, estou a ver muito mal e as gralhas não podem ser corrigidas, um irritante, diria alguém que manda em nós todos. Diga-me só se recebeu o livro. Como quem diz, não quero que leia, mas diga se recebeu. Ora bem, recebi, e estou a ler.
Leio e escrevo devagar, tanto quando se trata de mim como quando se trata de algum outro. Não escrevo sobre o que não li...defeito meu.
Mas estou a ler, e ocorrem-me autores como Lautréamont, os Cânticos de Maldoror, pela intensidade de uma prosa poética que se situa no limar de ambos os géneros: é um livro solto, de contos, alguns breves - o que é arte difícil e de elogiar - outros com uma ou duas páginas mais. Interessante é que não sendo poesia a linguagem está carregada de imagens, como se fosse. E esse aparentemente simples facto muda tudo no género conto que nos é apresentado. Temos de reler, para saborear uma linguagem que não se espera, nesta narrativa. José Luís surpreende, essa surpresa que prende obriga à releitura, a um novo pensamento, uma nova abordagem da sua originalidade.
As palavras que escolheu para a contracapa, onde se descreve a relação com o que não sabe que morreu, adquirem especial peso no final, com a frase sobre os caminhos que "nunca percorreu, a utopia e o abraço". Utopia e abraço. Visão e sentimento.
Muitos do contos são poemas de amor, na verdade, ainda que em prosa intensa. E em todos uma reflexão filosofante, sobre a circunstância do ser e do amar. Amar não chega, a consciência de uma permanente finitude entre desejos não deixa que o amor se torne numa experiência única, irrepetível. É a condição humana a que nem o poeta, ou narrador mais inspirado, poderá fugir: "estranha é a eternidade, a proximidade da emoção" (p.36).
Se retomarmos a frase citada na contracapa, a utopia e o abraço, torna-se claro que estamos perante o desejo (o corpo) e a realização (a alma), seja na vida real ou na sonhada, e de todos os modos pela palavra perseguida e carregada de sentido, um pouco no seguimento de um Herberto Helder, nos seus Passos em Volta.
"Eu sei, raros são os sonhos e os lugares profundos" (p.44). Sem dúvida, daí a dificuldade de dizer, primeiro de modo quase displicente, indefinindo os géneros literários seguidos, prosa? poesia? depois intensificando a expressão do desejo que já não se oculta, se manifesta, se afirma e se declara ostensivamente.
Sem índice que ajude, acaba o livro, mas fica aberto ao folhear de acaso do leitor.
Trata-se de uma pergunta sobre um Conto, o que é, afinal.
Foster definia o género Conto pelo limite de número de páginas, narrativa curta não mais de 30 a 50 páginas. A partir daí seria novela, ou romance, se ainda maior. Mas na verdade há narrativas curtas, short stories ou mesmo curtíssimas, a partir do momento em que os Modernistas alteram ou mesmo destroem os conceitos de género.
Mas a pergunta que me faz um amigo é outra, se pode ser conto uma prosa que escreveu e me pediu para ler. Leio. Não é a dimensão que interessa, mas o modo de escrita. Vê-se que escreveu um texto quase neo-realista pela atenção ao pormenor, ao detalhe, desde o cheiro do autocarro à irritação que lhe causa uma velha que lhe passa à frente. Ele, que chegou primeiro ao lugar, não se dispõe a levantar-se e a dizer-lhe sente-se aqui. Mas alguém que o irrita ainda mais ofereceu o lugar. Chama-lhe idiota. Está a adjectivar quem o aborrece, nesse dia que parece de todos os aborrecimento, numa curta viagem de regresso a casa.
O regresso a casa, eis um bom motivo literário para desenvolver, mesmo não tendo lido a obra dos vários psicólogos que se ocuparam dele. O mesmo do autocarro, que é mais caixote onde se empilham humanos, ou mesmo caixão, de gente que ainda não morreu e ali fechada se revolta e enche de pontapés a tampa que desceram.
O tom é de alguém que está vivo e contrariado, a quem tudo aborrece, e é desse aborrecimento que dá conta.
Se pode ser um conto? Pode, mas espera-se que tenha uma continuidade de outros que se lhe sigam e formem um volume, que diremos de contos. E quanto a este em concreto é mais quem sabe um começo, a que o conjunto de outros definirá a questão (que muitos desejam) de "género".
Assim sozinho leio o conto como uma narrativa que poderá ser, ou não, um "arranque" para o autor continuar a sua escrita, de que sente falta.
O que ele deseja é escrever, continuar a escrever, o que não lhe tem acontecido. Sente a falta desse exercício da palavra, a que exprima os seus sentimentos, seja em prosa ou em verso (ele também escreve poemas). A pulsão da escrita surge, não pode ser imposta, apenas desejada, mas quem sabe se esta narrativa de autocarro, ainda que de zanga com o mundo à volta, será já um princípio? O que vier a seguir dirá. Em vez de conto pode vir a ser uma página de diário.
Os modos amargos, de tom coloquial ou mesmo com algum termo mais grosseiro pelo meio, estão na moda. Cultiva-se a inquietação, a impaciência, a infelicidade da auto-comiseração. E tudo de modo apressado, não vá a palavra fugir. Mas o que fica, além da ideia de ser conto? Ser breve não é só por si uma qualidade literária. E um olhar desabrido sobre o mundo real também não. O que falta, na escrita, é a surpresa que nos deve trazer, a originalidade, a inovação de algum acontecimento numa banal viagem de autocarro com a vontade expressa de chamar nomes e embirrar com tudo e todos à partida.
Nomear as gotas de chuva que bateram no vidro, com nomes femininos, normais, nem ao autor / narrador, pareceu suficiente. Uma gota de chuva pode ser tanta coisa, há tanto simbolismo na água que embate nos vidros, cai no chão, na rua, nos regatos, no mar...Claro há também o feminino na Água, de cuja espuma surge a Vénus tão aclamada. Daí que as nomeie. Mas estão longe de ser a mítica figura...Podiam ser reflexo, espelho, diamante inclusive se limpas e brilhantes.
Já temos aqui matéria a explorar, a casa, o regresso, ( o que é um regresso tão contrariado? O que diria Freud?) a água, de simbolismo insofismável é só procurar (em Pessoa falei da água e da morte, mas não quero impôr o meu exemplo, procurei no seus poemas e encontrei).
O autor precisa de continuação, de mais contos, sejam curtos ou longos, mais subjectivos ou objectivos, realistas ou surrealistas, mas apontando para um outro nível, que me leve a dizer, isto é literatura. Este conto não surpreende, apenas confirma um determinado estado de alma. O desejo da escrita.
E agora caio na minha própria esparrela, o que define afinal o que é ou não literário?
Como em Heidegger, o que é Pensar?
O filósofo socorre-se de Hoelderlin, o célebre verso de sermos um Sinal que perdeu o Sentido, no Hino à Memória. Pensar é procurar o Sentido perdido. Pensar o Tempo ? Como no enorme O SER E O TEMPO? Como pensar um e outro? Viver um e outro?
Poderemos aplicar este verso à literatura, à criação poética?
É o Sentido, tal como no Pensamento, que confere outro estatuto ao que escrevemos? Cada autor é um só, e deve ser lido como tal. Voz única em cada único momento.
Quem já conhece a obra de Ana Marques Gastão não estranhará que o título contenha um duplo sentido, que nos faz pensar (tudo o que ela escreve nos obriga a pensar, não deixa que fiquemos pela rama).
Oníricas, um conjunto de sonhos que transformam as sensações, as memórias que ficam, em poemas? Ou poemas que aspiram a ser sonhos e permitam aos sonhos essas revelações contidas neles?
Ana dá no Prefácio um fio condutor de leitura a quem não entenda por completo a subliminal cultura, o desejo do risco na página do poema, para mostrar que na arte tudo é expressão, mas também que tal como nas crianças riscar é exprimir um movimento, um impulso carregado para o próprio (e quem sabe para quem está ao lado) de algum sentimento inesperado?
A arte é o inesperado. Sem surpresa não há arte, e o poeta bem sabe que muitas vezes, sem ele pedir nada, o verso o toma e surpreende, e ele então não faz mais do que obedecer, empresta a sua mão, a sua imaginação, e deixa fluir ideias, imagens, pensamentos.
Heidegger reflecte sobre o que é PENSAR. Ana reflecte sobre o que é CRIAR. Em ambos uma raiz comum, um Sinal que adquiriu um sentido, e na inovação do pensamento, ou do poema criado se manifesta. Aqui se relembra Hoelderlin, o seu hino à memória.
Dou a palavra à autora:
"Os poemas de Oníricas nasceram, na grande maioria, da transcrição de sonhos ocorridos durante décadas. Partem, por isso, da leitura sistemática de uma colecção de cadernos que fui reunindo. Apesar de o convívio próximo com o mundo além-consciência e a leitura e a escrita terem funcionado como instrumentos de um método experimental, só o processo de transfiguração poética me permitiu reflectir, do modo mais livre possível, sobre o universo da palavra por meio da qual nem a mão sabe por onde vai".
Escreve, mas não partilha do culto da escrita automática de um Breton, pois a sua escrita é cuidada e revista, talvez porque emana de um fundo que ela conhece bem, o mundo dos arquétipos que se revelam nos sonhos que se apontam. Outros não se apontam, não pertencem ao outro mas apenas a este mundo banal, mais quotidiano.
Curiosamente, como em Nuno Félix, ou Rosário Pedreira, que neste ano falaram sobre o corpo (humano, como se houvesse outro, que fosse apenas onda e não matéria) também Ana tem um conjunto que tem por título CORPOS.
Interessou-me especialmente, pela relação com os anteriores e as suas publicações. Os corpos sofrem e em tempos de guerra o despedaçar torna-se tão visível que nos dói a sua dôr. Mas também dançam, no seu balançar, estes corpos de cuja morte, sem a citar, se fala: "dança de pé com os pés / e agora larga o chão, / a prisão, a terra / o falso balanço da vida."
Pensamento de que se é salvo pela palavra poética.
Adiante, em TRONCO, é descrito o processo de salvação, os olhos fechando sobre um apelo : " torna-me informe, / diz o meu nome / pede-me o que nem sei imaginar. / rouba-me o poema...." culminando numa série de fragmentos que levam ao verso final " até o coração rebentar".
É isso, não uma implosão no onírico, mas uma explosão na palavra.
Só a palavra salva. Ao princípio era o Verbo...e o Verbo se fez Carne, não pode haver Deus sem Corpo, Espírito sem Matéria, Poesia que não nasça de um profundo Silêncio onde o sonho se esconde e o coração bate.
A pergunta foi esta:
como é o seu dia?
Fiquei a pensar
como é de verdade
o meu dia?
Acordo cedo
e não queria acordar
foi um empurrão
da madrugada
que me tirou do sono
quando eu estava a sonhar.
O resto é um rito banal
café quente
notícias da guerra
que leio no jornal.
Ao país prefiro não ligar.
(Porque hoje é Sábado, lembrando Vinicius de Morais)
Velhas rotinas
não se recuperam mais.
Vamos criar as novas
sem abdicar do café
logo de manhã
para ajudar melhor
a sacudir o sono
que ainda sobra da noite
e um pouco da madrugada.
O que fazer do dia
que aparentemente
não oferece nada?
Medir a tensão
está bem
e não esquecer de tomar
os eternos remédios
que sustentam a vida.
A guerra continua
e ninguém quer a paz
não há melhor negócio
o dinheiro que traz
para todos os lados
eterno é o negócio
e penso nesta rotina
esta é a que eu não queria
mas é o que o tempo dá
as imagens de horror
de velhos e crianças
que em breve morrerão
quem podia fugiu
e quem ficou
vai varrendo as ruínas
é a sua rotina.
E eu que faço da minha
em cada novo dia?
Acordar é bastante
dirão alguns amigos
tão grande a desolação
tão grande a monotonia...
Não sei se afinal é bom
viver tempo demais.
ELE
Não, não esperou por mim.
Quis ir à frente, como sempre fazia.
E depressa
que a minha lentidão
sempre o aborrecia.
Eu ia mais devagar
ainda a meio da rua
parada no meio da vida.
Lisboa, 22 de Fevereiro 2023
A capa da edição, com a foto do poeta, faz-me pensar que a moda vai e volta, e é o caso da franja, ou da melena que lhe cai na testa, como hoje em dia se vê em muitos jovens. Dá um ar sedutor, que evoca bem a sedução deste poeta aqui apresentado, muito na primeira pessoa, o que nos ajuda a entender melhor a vida e os percursos que se transformam em sentimentos. O sentimento da natureza, o amor do mar, ou da montanha, essa identificação mágica é muito bem transmitida nesta quase biografia, em que se salienta a matriz céltica de uma Irlanda sempre presente, por vezes só na memória.
Quando o livro foi anunciado, lembrei-me logo do volume que tinha visto na biblioteca do armário pequeno de Fernando Pessoa, em casa da sua meia-irmã, Dona Henriqueta Rosa Dias. Os livros desse armário seriam para mim tão interessantes, pelo conteúdo, como os papéis da Arca. Ali Pessoa tinha Yeats, Whitman, Joyce, testemunho da sua curiosidade pelo mundo moderno, a par dos volumes sobre matéria oculta, matéria que também foram objecto, como lemos em Cristina Carvalho, do poeta que biografou assimilando-o como um quase alter-ego que se tivesse apossado dela, como nos diz na Introdução. É esse um dos poderes dos poetas, tomar conta das almas dos outros e rasgar nelas horizontes novos, inesperados até.
Coerente com o que se conhece desta autora, a epígrafe que escolhe, de Stefan Zweig:"sempre que o espaço se alarga, a alma abre-se"(da obra sobre Montaigne). E na verdade, eu que a leio há bastante tempo, como li outrora o pai, Professor e Poeta, é isso que verifico: ela viaja, ela busca horizontes, ela escolhe obras e autores, ou cria as suas, e em tudo o que faz lemos e vivemos com ela espaços que se alargam, e desse modo vão abrindo as nossas almas. E eis-me então aqui com um poeta que por coincidência (ou seria algum momento de magia celta? ) nasce a 13 de Junho, como Pessoa, embora uns anos mais cedo, 1865.
O imaginário celta que a autora nos descreve, "feito de seres inacreditáveis" dos que vivem nas grutas e nas florestas, que são fantasmas, gnomos, fadas, bruxas, o estudo da astrologia (Pessoa, estarás também aí, mais tarde, fascinado com ele? ), a alusão ao falar com vivos e com mortos (ser medium) mais uma aproximação?
Yeats começa com o estilo romântico e simbolista dos tempos, e depois evolui para uma modernidade avançada, que lhe dará o direito a um Nobel em 1923. Na verdade, por toda a Europa os anos 20 faziam o seu caminho de revolução nas artes, poesia, música, pintura, e um criador seguia esse caminho, Yeats sendo um deles.
Cristina realça o seu permanente amor da natureza, mas não esquece algo que também foi moda dos tempos, - e se descobre em Pessoa - "a paixão pelo ocultismo, pelo espiritualismo, a mística e a astrologia. Estudei a fundo todos estes assuntos e complementei sempre a minha vida com as ciências ocultas" (pag.29)
Talvez aqui nos seja lançada a ideia de uma tese que aproxime estes dois grandes criadores, apesar das suas diferenças. Também as diferenças são merecedoras de estudo...
À medida que avançamos na nossa leitura torna-se mais clara a intenção que a autora já dera a entender na Introdução: não faria uma narrativa densa e complexa, mas escolheria momentos em que o poeta melhor se revelasse ( como quando alude à sua melena, que lhe cai sobre uma parte da testa e o torna mais bonito, vaidade que não o perturba, é vaidoso, e que mal tem? ). A nossa leitura prossegue pelas páginas em que já se situou a importância da relação com a família, o amor dos estranhos livros que estuda e da consciência que esse mundo alargado lhe confere e nem todos ou mesmo ninguém à sua volta entende, e sem dar por isso, porque é leve, directo e agradável o modo escolhido pela narradora, estamos a meio. É uma das grandes qualidades de Cristina Carvalho, da sua escrita, não tem, não precisa, de arrebiques que compliquem para dar um colorido de falsa erudição. Gosto de ler quem escreve assim, e quando acaba, acaba. Sem complexos.
Não cabe num post tudo o que se pode dizer sobre um livro que deve ser objecto à parte de estudo mais aprofundado.
Mas de novo, porque leio em regra até ao fim, antes de escrever, aprendo com Cristina Carvalho (com ela podemos sempre ter essa surpresa de aprender) que o poeta foi um iniciado da Ordem da Golden Dawn, fundada por Israel Regardie, MacGregor Mathers, Aleister Crowley (iniciado em Paris em 1900) que Pessoa conheceu bem, e alcançou o Grau de Grão-Mestre, o que o leva a sentir-se muito feliz, como afirma (pag.83).
Tal como em Pessoa, que estudei bem, Yeats mereceria agora que sobre ele fosse feito um estudo cuidado dos reflexos no seu pensamento e na sua obra, no meio de uma Inglaterra onde a teosofia, pela mão de Madame Blavatsky, que Pessoa traduziu, imperava. O ocultismo, lá como aqui, seduzia os espíritos, havia aquele impulso de saber mais, abrir o desconhecido, alargar a alma e os sentidos. Sabemos que Oscar Wilde não apreciava nem a poesia nem os estados de alma do meio que frequentava e não terá apreciado Yeats. Mas esse fica para outro momento.
Cristina alude ainda à paixão não correspondida que o poeta viveu durante longos anos, à actividade ligada ao teatro, e a pormenores da sua vida e casamento tardio, com Ezra Pound como Padrinho.
Mas na verdade a sua vida foi a sua poesia e é para ela que o livro de Cristina nos empurra, num conselho final. Sigamos o conselho...
Não só dos copos
também dos dias
se pode dizer
que se esvaziam
e onde está o tempo
o garrafão que os enche?