Thursday, September 14, 2023

Nuno Félix da Costa, Breve Manual para ser Humano, ed. Cepe, 2023

Nuno Félix da Costa, depois da prosa agora de novo a poesia.

O que há de tão especial na sua escrita, que se desdobra em géneros tão diferentes (mas na verdade nunca se opondo, antes se completando) como o ensaio, científico ou filosofante e literário, a prosa de ficção entre o real e o imaginário, a poesia que inquieta no decurso em que a palavra se busca e, mais difícil, nos busca, a nós que lemos, e não sabemos, caminhando pela mão dos seus versos, livres ou libertários (deslizando ao estilo do abjectionismo, que também na pintura se poderia encontrar) e que por vezes abandonam a primeira das linhas indicadas, seguindo outras, mais leves ou mais pesadas, de um modo que é, em simultâneo, convidativo (à reflexão) e displicente (como quem diz, é só para quem percebe e deste modo se liberta e encontra).

Há um ponto de encontro, o da atracção que exercem, contra tudo e contra todos, se assim fôr necessário. É a condição que ser humano impõe, descobrimos, enquanto lendo vamos chegando ao fim. Do livro e em parte de nós mesmos.

Será que atrai precisamente porque não se percebe? Porque, herdeiro pósmoderno do surrealismo, deixa a mão correr pelas associações livres do seu imaginário, sem receio de exibir a cultura que tem, e que no fundo, desprezando, preza acima de tudo? É sem dúvida um poeta que transporta uma cultura assimilada, de que se nutre como alimento base para um pensamento diferente. Cultiva a diferença como planta rara que é e surpreende. Por isso prende? Entre os versos a flôr azul de um nostálgico Novalis? A flôr que nunca se colhe, preferindo ficar na contemplação de uma raiz oculta e que vibrando algures, de tão grande e tão funda, mantém em suspenso o mistério das vidas no universo.

Porque Nuno Félix aborda várias vidas em cada um dos poemas que se dispõe (ou é forçado?) a escrever. A sua escrita é a vida, e na escrita é a poesia que nos fala mais alto. Não transporta imposições, mas emoções que levem ao pensamento do que se é, mudando em cada momento. Nada é igual, nem o que nasce do silêncio contido, nem o que nasce do discurso escolhido. Cada verso uma escolha, cada poema um destino escondido. 

Uma hora de estrela, no que diria Clarice Lispector, cuja voz nasceu sem o toque da infância, mas logo amadurecida.  Um olhar renovado e que renova a vida.

Leio estes poemas para ser Humano e embora não saiba qual a definição de humano que seria adequada, logo sinto que é a mim que se dirigem, são a expressão da condição humana na sua mais nua realidade, do quotidiano banal ao sonho mais sonhado.

É importante o dizer, o bater do seu ritmo quando lemos os versos em voz alta. Por ali corre sangue. 

O poema que Nuno escolheu para a contracapa veio ao meu encontro como se fosse escrito por mim, ou para mim. Agora demoro em especial em dois momentos: demorar a levantar, prolongar a abertura da janela (...) os olhos que pareciam colados ao escuro, por instantes são sonhos, espelhos densos que sabemos se fragmentarão e ao sairem da boca criam as órbitas dos astros, o brilho das estrelas e - finalmente, o resto do cosmos.

Demorar, prolongar, criar. Um exercício de paciência, um saber que a espera contida recompensa, embora não resolva o essencial mistério que só o cosmos sabe e guarda. 

Dirão, e não se alude aqui às outras qualidades deste médico que é  Professor, Poeta, Fotógrafo, Pintor, e filosofa como no tempo dos gregos sobre a existência, o ser, o ser humano na sua condição? Ou simplesmente a descoberta da consciência do que se é, na nua simplicidade da vida e da morte, ambas com destino marcado que ele, na sua sabedoria, melhor do que ninguém poderia antecipar? Não lhe faz falta, nem a nós, o excesso da consciência que se torna pesada e impede a libertação da voz. 

Na qualidade de médico conhece bem os limtes do corpo, a matéria mesma de que se ocupa noutras horas, sendo que o corpo é albergue da alma e desta também é preciso cuidar. Na qualidade de poeta conhece bem a liberdade imprescindível da voz, a que brilha com um brilho de estrela, mas que ainda que seja luz é no corpo que se materializa. Corpo e alma eis o que podemos inferir da condição humana. É pouco? É a realidade possível, frágil e com grande necessidade de compaixão e amor, pois no Éden a esse corpo e alma a eternidade nunca foi concedida. Uma parcela apenas, uma pequena por vezes tão inacessível, parcela de conhecimento. É o que o autor aqui nos oferece, em páginas múltiplas, variadas, de entrega generosa.

 




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