Tuesday, September 16, 2014

Rita Ferro, Veneza Pode Esperar (ed. LeYa, 2013)
Trata-se de um Diário: Diário I, vem na capa.
Há muito tempo que eu andava à procura de um livro que me absorvesse por completo, que me fizesse ler sem conseguir parar, puro prazer de ler e de seguir em frente. Preciso de distracção, mas distracção com boa escrita é a única que suporto. Não consigo ler má literatura. Ora acontece que o livro que abri não é de distracção, é um livro excelente, tanto do ponto de vista  do que se entenda por diário como de boa literatura (valha o termo o que valer....) ou mesmo de literatura para consumo ligeiro.
Não o li todo num dia,  mas li-o todo em dois dias. E sempre de seguida, sem aborrecimento em momento algum, encontrando, para além da escrita rápida, descomplexada e segura - seguríssima nas escolhas, nas entradas dos dias e das datas ( o que também informa sobre os tempos e ritmos da autora) nos comentários à parte, nas interrupções do quotidiano (um escritor tem um quotidiano...), nos pormenores só aparentemente dispensáveis, (nada ali do que vai escrito é dispensável, a todos nos toca, na nossa humanidade, naquilo que simplesmente somos (ou não) em cada situação, homens e mulheres de qualquer idade todos ali nos revemos ).
Claro, tenho consciência de que para além do espírito (wit sem ofensa para quem não distinga a subtileza do inglês) da autora, seu génio, sua ironia, perversa ou sincera, será mais fácil para alguém da minha idade, 74 anos, que atravessou o salazarismo e conheceu bem os méritos de António Ferro, o SNI e Amália antes de promovida a deusa ímpar, a tentativa de trazer para Portugal os grandes do Pen Internacional (algo que pouco se refere)a poesia e o carácter de Fernanda de Castro, a quem o José Carlos Ary dos Santos chamava a tia Fernanda - enfim esta sociedade a que me refiro e Rita Ferro tão bem descreve, de pena ligeira, ali está toda no seu diário e para quem não tenha hoje idade de saber a memória é útil, além de ter sido boa para quem a viveu: boas famílias, de boas casas ( alguma de aristocracia antiga e firmada, outra mais recente, mas com a aristocracia, que também o era, das fortunas grandes e estáveis).
Segue-se a fase seguinte, a de uma nova estrutura social que chega aos sopetões (gostamos de dizer sem sangue, mas houve grandes sofrimentos) e altera sobretudo comportamentos sociais e religiosos (em grande parte já o eram pouco); Rita conta como casou e descasou três vezes, como as heranças com as mortes na família se foram desfazendo, como viveu à mesma, ora mais feliz ora menos, foi sendo mãe como hoje é avó (aqui entra essa empatia humana que a aproxima de qualquer de nós): contudo não se perde nunca o que ainda hoje é verdade indiscutível, a esfera a que se pertence, de berço nascido, deixa marca indelével, e é bom, diria mesmo que é óptimo, que assim seja. Rita Ferro não renega os seus, não se renega a si mesma, como em alguns diários de grandes autores que não vou citar, vi acontecer. Há diferença entre arte e carácter e confesso que nesta leitura me senti atraída por ambas as qualidades, a da escrita e a do carácter. E como num post a dimensão tem de ser reduzida, abordo então a última  das três fases que nas descrições do diário se descobre: a da actualidade, que no caso da Rita é a dos filhos, e ela tão bem deixa entender quando fala da surpresa da separação do seu filho mais velho.
É que havia 3 sociedades num Portugal que foi evoluindo aos sacões: o do Antigamente (e ali estão os avós) o do célebre PREC do 25 de Abril ( e ali está ela com os seus pais) e o do neo-post-25 de Abril, ou da União Europeia?(e aqui está ela com filhos e já com netos: como qualquer de nós, avós, também se ocupa deles quando os filhos precisam).
Num aparentemente simples diário, Rita, que ironicamente no título adia o passeio a uma Veneza sonhada (mas não sonhámos todos com Veneza, a dada altura? Wagner, Thomas Mann, outros, de Veneza viveram e de Veneza morreram....) - Rita faz-nos atravessar três momentos de um Portugal cujas "esferas" sociais entraram em mudança, para uns melhor, outros pior, -para todos diferente, como a vida.
E agora eu iria, na companhia de Jung, à substância mais oculta de uma vida que se expõe. Na idade em que está a autora, está no que Jung chamou de "meio da vida" - o que acontece por volta dos 50 anos. E é nesse meio da vida, nesse momento especial em que a pessoa, homem ou mulher, deixa de ser uma Alice caindo pelo poço, esse momento tão especial, é aqui vivido com plena interrogação, defrontando um real - mais do que uma realidade (essa é o quotidiano, segue sempre) em que se aguarda uma revelação que seja entendimento, o da plenitude do Ser.
Se ao longo das páginas se ironizou sem lágrimas pífias, sobre o Ter que se perde, eis que alternando com elas se vê ir chegando  o momento de reflectir sobre o Ser que se tem, o ser que se é.
Apercebo-me de que até ler dois terços do livro o que mais me chamava a atenção era o modo como a autora nos trazia as três variedades de um Portugal social em modificação, ora para o melhor ora para o pior, mas também ultrapassado com a força de uma bonomia muito nossa. Chegada ao fim da leitura descubro algo mais e não menos importante: como a autora, na sua qualidade de portuguesa, que não esconde, antes se orgulha dela, nos oferece do mesmo modo, liberto e dadivoso, os três pilares do que foi e é a sua vida, de mulher, de mãe, de avó. Pilares de um edifício tão português, tão nosso, que é o edifício da Família, aqui por ela glorificado, quem sabe sem dar por isso?
 Difícil dizer mais.
Aguardo a continuação, se houver. Mas se não houver, para mim aqui tudo ficou dito, contido como  num ovo. Só Rilke, nos célebres Cadernos de Malte Laurids Brigge me entusiasmou tanto a ler.




Monday, August 25, 2014

DE ALBERTO RIOGRANDE, um livro de contos,
A Mulher Vestida de Sol, 2014

No Prefácio de Rui Machado é feito um apontamento cuidadoso sobre a escolha geral dos temas (personagens) e a sua circunstância, real ou ficcionada.
A estruturação da narrativa, transversal a um tempo ora presente ora passado, recuperado para que o decurso irregular, por vezes feliz a mais das vezes doloroso,  possa avançar é para mim a qualidade maior desta obra.
A estrutura é liberta, e liberta igualmente o leitor, que pode escolher demorar-se a reflectir nesta ou naquela situação oferecida. Estamos perante um conjunto de contos em que se chama a atenção para aspectos diria, sem ofensa, menos modernos, mas muito actuais e fora da onda dos sucessos de vendas que nos consomem, a nós que gostamos de ler com lentidão e sossego.
Há coincidências curiosas, e nesta mesma semana encontrei nas livrarias o livro póstumo de António Tabucchi, dedicado a uma Isabel que o narrador busca de capítulo em capítulo, alguém de um outro seu tempo, e que nos é trazido pela mão da Maria José Lancastre, erudita pessoana, sua companheira de sempre, na obra e nas traduções que em conjunto fizeram.
Ah, que saudade e que prazer, esta minha agora leitura lenta...Também no livro de Tabucchi, em estrutura mandálica, é a estrutura que me atrai e me faz, a momentos, ponderar:
O escritor, da caneta na mão, suspende o gesto, aguarda, até que sinta que pode seguir em frente. Tranquilo, segue. Nuns será círculo a círculo, noutros côr a côr, noutros ainda hexagrama a hexagrama, ou como no jovem que descobri recentemente, Leonardo Chioda, carta de Tarot a carta de Tarot..
Em todos a escrita é iniciação - e se não é, melhor seria não escreverem!
Em Rio Grande, para além de referências culturais próprias da sua formação e que me agradam, mas não reside nisso a qualidade da prosa, encontro o gosto do detalhe, a minúcia do olhar atento ao meio que o rodeia, a situação inicial, a paisagem, os corpos que se encontram, desejam, desencontram ou voltam a encontrar-se, fundindo-se, como diz num desses contos.
Cada vida na via que foi dada.
Por qualquer razão que não vou aprofundar, foi assim , assim direi, recuei a Coimbra, aos meus tempos de jovem estudante, em que lia Fernando Namora, amigo do meu pai, médico e escritor. A sua prosa era feita da vida que se vivia. E a outra obra de prosa igualmente directa, expurgada de inutilidades, a de Miguel Torga, também ele médico e amigo do meu pai.
Eu lia também autores muito diferentes: Jacques Prévert, Sophia de Mello Breyner, Fernando Pessoa (Ricardo Reis).
Habituei-me à variedade.
Hoje em dia a liberdade, na variedade, é total: da maior objectividade ao maior sentimentalismo, tudo é permitido, desde que em prosa escorreita.
Não farei aqui citações, pois o importante é chamar a atenção para a existência (resistência) do livro. Reparo que se em Tabucchi o desejo de contar e encantar é feito de expressa recusa, pois claramente diz, "não direi", em Riogrande a intenção é outra: é dizer, "expressamente dizer" talvez mesmo explicitamente dizer, a razão ou sentimento do que move os seus intervenientes. 
Outros tempos, este nosso em que ser explícito é quase necessidade, como se se tivesse perdido o que só no mistério se intui...e a cada momento o autor tenha de fazer como o velho Proust e procurar algures na sua escrita o seu Tempo Perdido.
Em cada conto de A Mulher Vestida de Sol poderá o leitor encontrar o seu espaço, mais urbano, ou mais poético e romântico, a variedade é aqui uma das qualidades da Obra.
Certamente outras se seguirão...





Saturday, July 26, 2014


Leonardo Chioda
Tempestardes, 2014

Este é um mês de tempestades e de descobertas.
O que me faz dizer que nunca é tarde - como em Tempestardes - para esperar por um bom livro, que nos apeteça e nos desperte uma vez mais e sempre para o enorme gozo da leitura.
O autor, Leonardo Chioda, é jovem e muito conhecedor da literatura portuguesa contemporânea, Herberto Helder destacado de longe, numa aprendizagem do desmanchar e do fundir imagens e palavras que renovam e fazem voar o verso.
Mas há outros poetas da nossa modernidade, passando por aqui, como Jorge de Sena, Sophia de Mello Breyner, Gabriela Llansol, Ana Luísa Amaral, Teresa Horta que abre em epígrafe o início, da "víscera da musa", com o seu belo verso:
Vem tempestade
vem luz
de alumiar o destino
...
Belo começo, que alumia o livro à nossa frente.
Antecedido por um prefácio que elucida o caminho, os estudos, as viagens por paisagens reais e literárias, da autoria de Ana Maria Domingues de Oliveira, Professora da UNESP, onde ensina literatura, vemos mais uma vez como é importante a relação que se pode (deve) estabelecer ente quem ensina, amando o que ensina, e quem aprende, pois aprender é o início de todos os inícios e será o fim de todos os fins que se consigam.
Leonardo Chioda faz parte desta geração a que já aludi, com Andrei Sen-Senkov e Sveta Dorosheva: jovens, viajados, lidos, cultos acima da média, e tendo por isso uma capacidade de criação original, diversa e muito diferente do que se descobre nas estantes das livrarias. O seu Verbo é atrevido, constrói e desconstrói, suga imagens em verdadeiras cartas de destino, ou segue indiferente por trilhos que outros abandonaram: perigosos por vezes, carregados de sombras e de  mitos, sabendo no entanto que os mitos são o que são, projecções que só cada um saberá entender. O poeta é e será sempre, mesmo ao comunicar o seu verso, um Ente solitário.
Andrei, que é médico, exerce a sua profissão numa Rússia problemática, alarga o verso ao espaço da comunidade e às feridas que cose. Encontrei-o no Facebook, que parece, neste mês de Julho, o espaço dos encontros para mim mais felizes.
Foi também por aqui que nos encontrámos, Leonardo e eu,via Facebook,  por muito que não se goste: porque o FB, se proporciona inusitados encontros, também revela frequentemente a vacuidade das horas e do tempo (leia-se das cabeças !).
Mas neste caso o encontro, bafejado pelas estrelas ? Foi o melhor que me podia suceder. Eu ia reler Machado de Assis, Dom Casmurro, essa obra-prima, um clássico dos clássicos, pensando que não teria, nas férias, autores que me agradassem.
E eis que finalmente chega, pelo correio, o volume das Tempestardes...
Amo a poesia e amo todos os poetas que escrevem, como se fosse respiração natural, a sua poesia.
Porque no poema se desvendam almas e destinos - o destino poético é de todos os caminhos o maior...e as almas precisam dele.
Rosne Carneiro, poeta, alumia as palavras iniciais, que deseja iniciáticas. E Ana Maria, que já referi, enquadra o bom caminho.

Entrando pelas palavras dentro, e sabendo-se que Leonardo é tarólogo, fui visitar o seu blog Café -Tarot, e estudou literatura, e entre outros  que cita vemos um G.Bachelard,  a par de uma peça de Versace - e outros exemplos do género, concluímos que o olhar deste poeta é abrangente, que tudo o que rodeia é ou pode ser momento ou fonte de inspiração: Andrei cose feridas, Leonardo entretece destinos, do Verbo ou das mais humildes palavras.
Porque nele veremos que tudo é Um, como se diz na hermética Tábua de Esmeralda que certamente leu, ainda que em partes.
Na mágica fortaleza da Alhambra, a que se refere (p.23) não evoca o último Abencerragem, seu destino, mas segue e aligeira:
(o destino 
é uma menina

ou um monstro
ao dobrar da esquina)

destino caminha feito tigre
... 
Para concluir que o destino é poesia.
O seu vocabulário alimenta-se de todos os vocábulos, das ciências literárias às ciências naturais, à botânica,  ou pura e simplesmente brinca porque o som lhe pede que o faça, alargando o sentido:
vai pelos confins do texto
no sentido litoral da palavra
(p.33)

Somatórios de acaso (mas serão apenas de acaso, ou imagens recuperadas do fixo acordar do sonho, ou da carta tirada?):
contorna o atalho da palavra
de índole harpa
na rota clepsidra
semelhante ao regresso espelho

desvela o símbolo,
...
a anulação dos verbos, dos adjectivos, deixando flutuar a palavra, a harpa, a clepsidra, o espelho - no espaço azul do símbolo - remete para segredos mais íntimos. Terá de ser o leitor a decifrar.
Ou medita, ou repete, ou deixa de parte até novo momento, e aí, como no Éden antigo, descobrirá " os frutos assombrosos".
Podíamos seguir os títulos: Sísifo, por ex.(p.35).
Abre com um "infinito" e segue por um encadeado de rimas internas, todas em i, que apanham o leitor desprevenido, pois de tal alusão ao mito de um Sísifo de cruel castigo se esperaria, quem sabe algum sabor mais trágico...pois não, e habituem-se...o poeta despe os seus mitos, como despe as suas palavras, os seus versos, até ao acaso, ocaso da linguagem!
Estamos perante uma obra em que se
desconfigura
a órbita dos mandalas
a palavra é vertical...
(p.110)
E o verso pode ser ainda mais, ser animal, como quando nos lança em desafio a utilização do verbo "panterar".
Caeiro gostava de pastorear o seu rebanho, o seu rebanho eram as suas ideias; ideia de árvore, mais do que o sentimento do que esta ou aquela árvore despertasse nele. Já Leonardo Chioda anda a "panterar", com os seus versos, todos os seus sentimentos, todas as suas sensações, de cada momento.
Não abstrai, concretiza, funde, devora...é outra modernidade a sua...
Termino, não sem antes sugerir que se leia, já no fim, SOBRE A ESPERA (Llansol revisitada), na página 130.
Não cabe aludir a tudo, num post. Mas cabe uma alusão, que alimentará estas e outras ilusões de que a poesia pode ainda salvar o nosso mundo.







Friday, July 11, 2014




Crianças entre Ruínas

Há um muro 
que as separa.

Com sede
quem lhes levará
a água?

Com fome
quem lhes levará
o pão?

Com sono
quem poderá
num enxergão desfeito
dar o último beijo, 
o último aconchego?

Perguntam
querem saber:

Quem 
lhes devolverá 
a vida
ainda tão pequena
e tão cheia de medo?

(Julho 2014)

Thursday, July 03, 2014

A criança de Gaza





A criança de Gaza

O que faz
a criança de Gaza:

a criança de Gaza
corre na rua
foge de casa
a casa
foi destruída

Onde brinca 
a criança de Gaza

a criança de Gaza
brinca na cave escura
escondida
atrás das pedras

Como vive
a criança de Gaza

a criança 
vive com medo
o medo é 
o seu companheiro

e uma ou outra vez
ajoelha-se 
e reza
a um deus
que já não é
inteiro

(Julho, 2014)


Wednesday, July 02, 2014



Sophia

Ia e vinha
e a cada coisa perguntava
que nome tinha
(Coral)
Foi assim que em Coimbra me encontrei com a sua obra.
Mais tarde, na Praia da Granja,  a praia e o mar bravo das férias, antes da sedução do Algarve, na Praia da Donana pude conhecê-la pela mão de amigos, como Eugénia Aurora e outros.
Depois foi a Revolução, um jantar íntimo em sua casa; estavam o Eduardo Lourenço, recém chegado a Portugal,  Manuel Alegre, o Eng. Cravinho, político em ascensão.
Informal, parte da noite foi de encontro de amigos, mais do que de reflexão política.
Hoje Sophia é levada com honras de Estado para o Panteão.
Não precisa.
O que nos ficaria bem, a todos nós, que a lemos e amámos, é continuar a lê-la: nas escolas, em casa, no mundo, por toda a parte.
Quantas obras suas estarão traduzidas, para que a limpidez do seu verso, da sua prosa, sejam conhecidos?
Noite fabulosa de jazz com Benny Golson, no Hot Club de Portugal.
Entre outras histórias de vida que inspiraram os temas, Benny gostou de falar de Along came Betty, seu primeiro e juvenil amor, para depois não esquecer mais Bobby, a mulher que partilha a sua vida há mais de 50 anos!
Mas vale a pena ver e ouvir tudo : música de rara emoção a par de vidas vividas , a dele e a dos outros grandes com quem dividiu inspiração, carreira, sucessos...

Saturday, June 21, 2014

Escrever para a juventude


Ainda os Contos de Quatro Cantos do Mundo:

Sempre fui de opinião que a boa literatura é para todos, de todas as idades. E que se deve, podendo, ler tudo, desde a banda desenhada de Mandrake o mágico aventuroso, ao Poirot de Agatha Christie, ou, mais científico, um Júlio Verne. Em tempo haverá tempo e oportunidade, se ficou desenvolvido o gosto de ler, para ler James Joyce, Clarice Lispector, Virginia Woolf, ou, escolhendo poesia António Gedeão, Pessoa ou Herberto Helder.
Assim, não acho que seja impositivo,  à partida, que o propósito de um escritor seja, num conto para a infância ou para a juventude, o de simplificar a sua escrita. Pode sem dúvida escrever de modo mais directo e acessível (será útil para todos, pequenos e grandes) mas isso já é definição de boa escrita, e não de escrita "simplificada", no sentido de empobrecida.
No caso destes contos de Cristina Carvalho, o que me interessou  foi ver como, à medida que a narrativa se organizava, ia surgindo de modo adequado uma "lição" do texto: informação e formação.
Assim, na aventura do pólo norte,Vidas brancas, ao mesmo tempo que acompanhamos o dia a dia de uma família de esquimós, na descrição de um avô (que chegou ao termo dos seus dias) de seus filhos e do netinho em quem se concentra mais a história, o pequeno Jal, sentiremos (a par do deslumbramento da paisagem, dos rituais quotidianos ) como é importante o laço que une uma comunidade permitindo que se organize e sobreviva, e, no caso de Jal, no encontro com a foca-bébé e a cria de raposa, como é importante a empatia com aquilo a que chamarei de "vida animal", que devemos amar e preservar. 
Houve neste conto informação genuína e formação de "lição" como já nas tabuínhas antigas da Suméria, na epopeia de Gilgamesh o contador sentia a necessidade de fazer.
Contar é acrescentar ou sublinhar algo que se tornou importante, para nós e para os outros. Um conto, como Marie-Louise von Franz nos ensinou é uma forma de iniciação.
Já na aventura do deserto, A noite é o lugar mais tranquilo do mundo, a descrição da paisagem se torna mais detalhada, mais visionária, o narrador é um "eu" solitário cujo olhar reflecte como num espelho cada pormenor à sua volta - escorpiões e cobras deslizando na areia, oásis que se adivinham verdes e frescos, contrastes de vidas e formas: " assistimos ao morrer da luz do dia num apocalipse de fogos e sentimos o ruído da água, muito perto e muito longe. É que, caminhando no deserto, nunca se sabe se a origem da vida está muito perto ou se está muito longe. Os sons são indistintos. As sombras inexistentes. O vazio, total."
Se no conto anterior a estrutura é, a seu modo, desarticulada, para dar voz ao diálogo de Jal com a raposa amiga (evoquemos um pouco o Petit Prince, de Saint-Exupéry...) aqui são as cartas do deserto que desempenham o mesmo papel. Formas de recuperar a atenção, embalada pela prosa escorreita, de um leitor distraído. Nestas cartas surge o quotidiano, como o narrador nos diz, mas também a recuperação de memórias antigas,  recuando a gerações e gerações de idênticos caminhantes, de nomadismo fundador. Um eu que se funde num todo de evocações que só o silêncio permite. Deste silêncio e de uma noite sem igual se falará na quarta carta, a última, onde o dizer se esgota e a plenitude da comunhão com a música do universo é concedida: "Sim, a noite é o local mais tranquilo do mundo". 
Três crianças dão forma à aventura na floresta amazónica de Casa verde, o terceiro conto. A par da descrição, do detalhe, das rotinas a cargo das mulheres, aos homens incumbem outras, surge a magia secreta que só o feiticeiro guarda, como guardião que é do passado, do presente e do futuro. Descrito o lugar, os lugares, é na mão dele que se guarda o tempo que reina sobre todos os seres.
Viajando sob o azul intenso das águas , é o último conto. 
Se o que anotei aqui para os leitores despertou, como espero, interesse pelo livro, não ficarão desiludidos com a história de um golfinho-roaz avistado ao largo e conduzindo a narração para outros céus - há muitos céus - recorda a narradora/narrador, mas sobretudo para o fundo do mar, onde não se avista o céu mas o abismo, sempre o abismo, em sucessivas camadas sobrepostas, que permitem igualmente sonhar. O sonho é de um encontro, mas fico por aqui, está na hora de acordar...
Boa leitura!


Friday, June 20, 2014

Cristina Carvalho, Quatro Cantos do Mundo
ed. Planeta, 2014

Este recente livro de Cristina Carvalho, pelo título e em especial pelos Viajantes que evoca, em dedicatória, Roald Amundsen, o caminhante dos Pólos, David Livingston, o do deserto do Kalahari (e a célebre frase recuperada em filmes célebres: Dr. Livingstone I suppose? ), David Attenborough que me acompanhou a mim e já também à infância dos meus filhos, e ainda, last but not least, Jacques-Yves Cousteau, da exploração submarina, que o seu filho agora continua - dizia eu que este livro de Cristina, mal o abri, me remeteu para a minha própria infância/adolescência, no Porto, com o meu pai a dar-me a ler os livros de Rómulo de Carvalho, enquanto no colégio líamos Júlio Dinis. Com o meu pai foi sempre de História ( a grande) e a Ciência, e ao mesmo tempo os livros de banda desenhada daquele tempo, que se compravam nos quiosques: o Superhomem, a família Marvel, etc. Leituras de café para me entreter e ele poder falar à vontade com os amigos.
O que quero dizer? Que o ambiente de família, o pai com quem se fala, ou a mãe, mas este pai de Cristina era o Professor- cientista (mais tarde conheci toda a sua poesia, afinal era ainda poeta, com nome de António Gedeão) nesta família o que se viu, o que se leu, rasgou horizontes e paixões que perduram.
Neste caso, a aventura e a escrita. Da viagem da escrita, pelas palavras dentro...
Uma escrita de rigor, sobre a qual se pode fantasiar, criar e recriar mundos, que por serem mágicos mas verosímeis ( no bom sentido da definição de Aristóteles) se transformam em fonte de saber e de prazer.
Leio e cada página me empurra para a outra...São quatro histórias, cada qual no seu espaço/tempo peculiar, que Manuel San-Payo ilustrou.
À medida que leio penso que este seria um livro a incluir nas colecções do Secundário, de leitura obrigatória.
Dou o exemplo e para as minhas 5 netas mais crescidas já comprei para leitura de Verão. (Pôr apenas likes nos FB não ajuda a que se leia o livro, comprar é preciso, divulgar, em casa, à mesa, à noite gozando o ar livre também.
Ocorre-me que a qualidade de um autor, como neste caso de Cristina, se nota no cuidado (que é generoso, pois podia despachar o assunto como tantos outros fazem, sem se preocupar com o rigor da palavra) com que trabalhou em cada momento a fantasia própria do lugar pelo qual faz e dá a fazer a viagem. 
É o toque dos grandes que fundaram o realismo fantástico, como em Cem Anos de Solidão, ou Como Água para Chocolate!
Preenchem-nos a vida, nesse momento único da leitura.
E neste caso ainda, o remeter para Viajantes que a ela a fizeram viajar, como nos conta no Prefácio - sabendo que com o seu livro outra juventude, curiosa, viajará também. 
Eis-me de repente feliz e rejuvenescida, e ainda  não cheguei às profundezas do mar - esse mar de onde proveio a Vida, de que tantas vezes desmerecemos... 
Obrigado Cristina!

Sunday, June 08, 2014

Ana Luísa Amaral
ESCURO
Na poesia não há matérias proibidas, à imaginação do poeta tudo é permitido.
Dizia um antigo alquimista, Dorneus, que teve grande influência entre os seus pares, cito apenas Paracelso, que "a imaginação é a estrela no homem".
Assim era inscrita a criatura humana, o homem, num universo mais vasto, o conhecido e o desconhecido. As epígrafes iniciais (não iniciáticas, mas quase) desta última obra de Ana Luísa Amaral deixam indícios: de um místico poeta e profeta como William Blake, e de um santo, São João da Cruz, que lhe é anterior e cuja noite escura da alma foi longamente glosada ao longo dos séculos: pois toda a alma tem a sua luz e a sua escuridão, e há momentos em que apenas a escuridão, o veludo perverso do seu silêncio se conseguem sentir.
Paul Celan foi, recentemente, o mais exímio poeta da escuridão e do silêncio, face a um Universo que Deus terá criado sem se preocupar com o seu destino...
Este é o efeito de um bom livro: ao ser lido conduz-nos a tantas outras paragens...Para fechar este parêntesis, recordo uma frase transcrita por alguém no Facebook: 
Pergunta um colega a Einstein " o que é mais importante, o conhecimento ou a imaginação?" 
Responde o sábio, "a imaginação; o conhecimento leva-nos de A para B; a imaginação leva-nos de A para todo o lado".
Desta vez a imaginação levou Ana Luísa para uma travessia que a deixa entre Camões e Fernando Pessoa, os Lusíadas relidos, a Mensagem retocada, e no escuro das múltiplas viagens, dos sonhos, das utopias - uma nova proposta que não se abre à luz de nenhum caminho, antes se fecha na contemplação de um mundo, o actual, em que tantos egoísmos nacionalistas, tanto sofrimento e morte prevalecem.
Viveu-se outrora uma utopia? Vive-se hoje o puro desengano.
O fio condutor destes poemas, que os torna talvez menos poéticos do que se esperava e muito mais reflexivos e descritivos, é no fundo uma meditação da História: nossa e dos outros, já que na escuridão ou na luz do Universo tudo é uno.
Ninguém me levará a mal que cite apenas o início, foram esses os versos que me entusiasmaram, pois o início do CLARO-ESCURO nos fala "da mais pura alegria", a da infância ao amanhecer, numa aldeia que seria a de um Alberto Caeiro - mas ele nunca foi criança- amanhecer de luzes, de cheiros, de barulhos, a vida aberta para um mundo de escolhas, a luz no escuro de que se falará depois:
Ontem à noite e antes de dormir,
a mais pura alegria

de um céu

no meio do sono a escorregar, solene
a emoção     e a mais pura alegria
de um dia entre criança e quase grande  

e era na aldeia, acordar às seis e meia da manhã, 
os olhos nas portadas de madeira, o som
que elas faziam ao abrir, as portadas
num quarto que não era o meu, o cheiro
ausente em nome

mas era um cheiro
entre o mais fresco e a luz
a começar     era o calor do verão,
a mais pura alegria

um céu tão côr de sangue
que ainda hoje, ainda ontem antes de dormir,
as lágrimas me chegam como então, e de repente,
o sol como um incêndio largo
e o cheiro     as cores

Mas era estar ali, de pé, e jovem
e a morte era tão longe,
e não havia mortos nem o seu desfile,
só os vivos, os risos, o cheiro
a luz

era a vida, e o poder de escolher, 
ou assim o parecia:

a cama e as cascatas frescas dos lençóis
macios como estrangeiros chegando a país novo,
ou às portadas    abertas de madeira
e o incêndio     do céu

Foi isto ontem à noite,
este esplendôr no escuro e antes de dormir.
....

Fico por aqui, a continuação iria obrigar-me a uma viagem pelos tempos, antigos e presentes, roubados de emoção.

Friday, May 16, 2014


Mais Maios

Que mês é este
em que tantos nascem
tantos morrem
e tantos outros
nem uma coisa nem outra
apenas sofrem?

Wednesday, May 14, 2014


Na Morte de Vasco Graça Moura

Morrer é isso:
saber que também nós
teremos um poente
ao fim do dia
e no fim do poema
um ponto final no verso
da nossa vida

(Maio de 2014)

Sunday, May 11, 2014




Maios

São os Maios difíceis
são os Maios da Treva:
levam embora,
não trazem,
a Primavera

Sunday, May 04, 2014

No post anterior, a propósito da poesia juvenil de Fernando Pessoa, falei de um gosto de época.
A grande marca desse gosto, provém, na pintura, do exercício simbolista de um Alphonse Mucha, que surge em Paris a tempo de brilhar na Exposição Universal de 1900, com as sua figuras femininas embrulhadas em tecidos vistosos, coroadas de flores, inaugurando pelo estilo o que viria a chamar-se de Art Nouveau.
Com ele, igualmente importante, Gustav Klimt, inexcedível no brilho oriental dos seus dourados, o luxo da imagem, e num quadro tão celebrado como O Beijo a figuração do mito do andrógino.
Escrevi sobre Mucha na antiga Revista da ColóquioArtes, e sobre Klimt num dos números da Mealibra.
Tudo isto a propósito de Baudelaire, em cuja poesia encontramos por vezes o preciosismo do sonho e da utopia, da Viagem que transcende a  existência, como a do apelo de Mignon ao seu Mentor, em Wilhelm Meister, de Goethe.
Escolhi um poema talvez menos conhecido, "La Géante", um soneto de Spleen et Idéal, para o contraste com "The Giantess/ A Gigante", de Alexander Search, recuperando de novo a tradução de Luísa Freire.
O poema de Baudelaire evoca o tempo primordial da criação, em que a força ainda algo brutal da Natureza, Terra-Mãe, lhe permitiria a volúpia de viver com uma mulher gigante, cujo corpo florisse, tal como a sua alma, e lhe concedesse um sono preguiçoso, embalado à sombra dos seus enormes seios.
Ritmado e sensual, este é um poema de um panteísmo pagão, em que o Feminino é exaltado pelo poeta através deste seu cântico de uma terra antiga e habitada por populações gigantes, de formas moldadas como montanhas.
Deixo ao leitor o trabalho de procurar o poema, enquanto passo agora ao nosso jovem Pessoa.
Ele traça a figura grotesca de uma gigante que lhe desperta o riso porque tenta comer algo de tão grande e informe que não lhe cabe na boca. É visível aquela avidez que o perturba e, não se contendo,  leva a interpelar grosseiramente a gigante, que lhe responde entre lágrimas:

"Esta comida que, de grande, se esgueira
Sempre à minha boca já dorida
É a Beleza una e toda inteira." 

Nenhuma comparação, a não ser pelo título e pela dimensão da criatura descrita, se pode estabelecer aqui, que valha a pena.
Em Baudelaire a avidez é toda sensualidade, e é ânsia dele, poeta, de se fundir na Mãe-Natureza eterna.
Em Search/Pessoa a avidez é transposta para a Gigante, num desejo  de se apossar de uma Beleza que é do Todo e do Uno impossíveis de alcançar.
Mas lá está, continuando a ler Baudelaire, que poema encontramos antes do belo soneto da Gigante? Precisamente o soneto La Beauté que podemos traduzir por Beleza, e em que nos é dito como são puras miragens as visões dos poetas que a julgam possuir, amando--a eternamente.

Je suis belle, ô mortels! comme un rêve de pierre,
Et mon sein, où chacun s'est meurtri tour à tour,
Est fait pour inspirer au poète un amour
Eternel et muet ainsi que la matière.

Je trône dans l'azur comme un sphinx incompris;
J'unis un coeur de neige à la blancheur des cygnes;
Je hais le mouvement qui déplace les lignes,
Et jamais je ne pleure et jamais je ne ris.

Les poètes, devant mes grandes attitudes,
Que j'ai l'air d'emprunter aux plus fiers monuments,
Consumeront leurs jours en d'austères études;

Car j'ai, pour fasciner ces dociles amants,
De purs miroirs qui font toutes choses plus belles:
Mes yeux, mes larges yeux aux clartés éternelles!

Há na Beleza eterna uma geometria perfeita, irrepetível, que atrai e emudece. Tudo nela é miragem, reflexo, ilusão pura.
É difícil não acreditar que o nosso jovem Search não tenha andado perdido por aqui!
Eu andei e continuo a andar...


Saturday, May 03, 2014

O prometido é devido.
Escrevo na intenção de que um jovem brasileiro (e não só) que se interessou pela obra juvenil de Fernando Pessoa me acompanhe na ideia que defendo, de há muito: há que ler o que o jovem poeta lia, em inglês ou mais tarde, já de regresso a Lisboa, em francês ( pois a literatura francesa era a nossa influência dominante) para entender melhor alguns dos temas, algumas das ideias que dominam a sua produção.
Exemplo: o poema da mão, datado de 1906.
To a Hand / Aquela Mão, na belíssima tradução de Luísa Freire, pede quem sabe, que se leia, de Rilke, Os Cadernos de Malte Laurids Brigge (1910) e as páginas em que ele descreve como se encheu de coragem para falar da mão que na sua infância o aterrorizava a ponto de quase não se atrever a entrar no quarto, a deitar-se na cama, para dormir sossegado. Não se tratava de um sonho, mas de uma visão fantasmagórica, uma alucinação perturbadora.
Não houve, é claro, não podia haver, dada a diferença das datas do poema e dos Cadernos uma influência directa.
Mas o que há, e é isso que torna a literatura comparada tão interesante, é um tom de época, transversal nos temas, nos motivos, nos símbolos como são vividos na escrita de uns e outros.
Neste caso que me ocorreu (tenho estado a reler Rilke) a imagem da mão aterradora, parece-me ser importante o pavor que ela causa, o medo descrito por Pessoa como por Rilke.
O medo era grande, o medo era enorme, e por via da imagem dessa mão era do medo da morte que Rilke nos falava, como Pessoa jovem neste longo poema nos fala do medo de simplesmente existir, ou melhor da consciência do existir. Já se desenha, na sua poesia juvenil, este jogo de opostos entre o ser e o existir, e a consciência dolorosa de um e outro destes estados.
Pois o que faz a mão? Aponta um caminho, aponta um destino, ou toca-nos e o seu toque torna-se fatal, mata, como um punhal brutalmente também nos mataria, apenas porque podemos ver nela o toque de um criador primordial, e através desse toque vir a cair num abismo, a treva de que não mais se sairá.
Pessoa cultiva, como Rilke, e antes deles Baudelaire, uma espécie de simbolismo esotérico, perturbador, que obriga a releituras constantes.
Numa obra  que tive o privilégio de partilhar com Stephen Reckert, Fernando Pessoa. tempo. solidão. hermetismo (1978) pude alertar para a importância do espólio e da sua biblioteca pessoal. Nos ensaios de Reckert já se fazia o estudo de um topos de raiz baudelaireana retomado por Alexander Search o jovem heterónimo inglês agora profusamente conhecido:
"A Passante e o futuro do Passado;
"Alexander Search, entre o Sono e o Sonho".
 Dois estudos que nada perderam da sua actualidade e que urge, quem sabe on-line, caminhando para o futuro que algum editor se disponha a dar a conhecer deste novo modo. Não vou transcrever aqui, por serem longos, mas deixo os títulos dos poemas de que se ocupou Reckert e estão incluídos no apêndice textual : In the Street, e The Maiden. Poderão ser lidos nas traduções de Luísa Freire.
Quanto a mim, nessa obra, optei por sublinhar as marcas do simbolismo alquímico, num caso, e das leituras herméticas e teosóficas na moda, com A.E.Waite e H.P.Blavatsky, ou Annie Besant:
"Fragmentação e Totalidade em Chuva Oblíqua" ;
"Episódios/A Múmia, poema-chave para o estudo do hermetismo em Fernando Pessoa";
"O espólio e a biblioteca de Fernando Pessoa:uma solução para alguns enigmas".
Nos anexos incluí , de A.Search, Nirvâna, e The Circle - que também podem ser lidos hoje em dia nas traduções de L.Freire.
A curiosidade intelectual, o estudo dos grandes temas da religião, da cultura e das civilizações, para além da inquietante busca da verdade do ser e da existência, caracterizam esta produção juvenil, imperfeita na forma, mas já densa na interpelação de uma Verdade Maior, que sempre lhe escapará.
Se tivesse de escolher dois autores que ao longo do tempo, e desde cedo, fossem alimentando o seu mundo imaginal, escolheria Goethe, com o Fausto e Shakespeare sobretudo com The Tempest : não escapou ao nosso poeta a dimensão do conhecimento hermético, mágico e alquímico destes dois grandes génios da cultura universal. Com os fragmentos do seu Fausto, quis Pessoa desafiar, ou mesmo completar, a obra do antecessor. E no poema Canção de Próspero (Song of Prospero no original de Search) incluído na edição de Luísa Freire, temos a prova de que o dramaturgo era lido, e que com ele o jovem Search dialogava treinando a mão e o ritmo de poeta. Encontramos no acto V da peça os versos da inspiração.
Mas deixo aqui para facilitar a vida ao estudioso a tradução de Luísa Freire, do poema de Search:
A Canção de Próspero
Minha vara partida no fundo enterrada
Para sempre vai ficar;
Mais fundo que nunca o prumo soou,
Afundarei meu livro no mar.
O encanto de Próspero desapareceu,
Arte e magia tudo morreu,
Mortos e jazendo no fundo do mar.

Nunca mais ligados a mim
Os alegres espíritos do ar,
O que os chamava vinha daí,
E está afundado no cavo mar.
Embora não veja da luta um renovo,
Desejo contudo esta vida de novo,
Jazendo para sempre no fundo do mar".

Sabendo que traduzir nunca é fácil, e pior ainda quando se procuram ritmo e rima, perdoaremos aqui uma ou outra coisa que talvez tivéssemos, ao traduzir, resolvido de modo diferente. Isso em nada diminui a obra e o mérito desta tradutora, que tanto neste primeiro volume como no segundo cobre os anos até 1910. Foi-lhe muito bem atribuído o Grande Prémio de Tradução da APE e do Pen Club, em 1996.
Na verdade os anos passam, e com eles a memória do que foi feito outrora, sem grandes apoios, mas com grande paixão.







Thursday, May 01, 2014

Maios




1 de Maio

Na Praça da Figueira
a florista trabalha:
o que seria o Maio
sem as suas flores
sem o seu sorriso
sem as suas dores?

Sunday, March 16, 2014

Editado pela Abysmo de João Paulo Cotrim, mais um belo livro de poesia, Ritornelos, de Joana Emídio Marques.
Edição muito cuidada, bom papel, letra bem escolhida pensando em leitores de maior idade, aqueles que como eu já não lêem as letras invisíveis tão na moda.
Texto ilustrado, com desenhos que ora acompanham ora separam os três conjuntos contidos sob um mesmo título, que já de si encerra alguma dimensão simbólica. Não irei a Deleuze, até porque vejo a repetição de outro modo, vejo-a como ampliação, ou como aprofundamento que se vai intensificando à medida que se lê.
E agora não resisto a uma queixa: não tenho Índice que me facilite a vida, tenho de desfolhar para chegar aos outros conjuntos que se seguem aos Ritornelos! São eles Cânticos da Floresta e Litanias.
E aproveito ainda para dizer que tratando-se de uma voz nova e inédita, julgo, e de uma ilustradora igualmente jovem e inédita, julgo (posso estar enganada, já não sigo tudo e todos como antigamente) - então gostaria de poder ler algo mais sobre os seus percursos, ou em discretas badanas ou na contracapa.
É uma grande ajuda a um leitor.
Mas vamos aos poemas, que li de seguida, de um fôlego, por me surgirem tão diferentes do que hoje em dia se produz.
Não são poemas de quotidiano descrito, vivido, mas banal (os quotidianos poéticos são hoje em dia todos tão parecidos...) também não exprimem em confissão por vezes involuntária estados emocionais que Rilke julgaria serem apenas e mal expressão incipiente de algum amor passsageiro e desmerecedor do genuíno esforço poético.
Porque a poesia exige esforço, feito de contenção, e isso falta por vezes na quantidade produzida para o mercado. 
Há toda uma nova geração de escritoras que se têm afirmado, mais talvez na prosa de ficção do que na poesia, e que considero muito inovadoras, pela linguagem, finalmente directa e aberta, nos temas e nas estruturas que os suportam.
Na poesia, deixando de parte a minha geração - anos sessenta - que foi na época muito marcante, original, e procurando os desafios que já vinham dos surrealistas e se misturavam com uma enorme ânsia de libertação (vivia-se em Ditadura, política, religiosa, moral, sexual) foi mais devagar que vi surgirem por aqui as vozes femininas de novas gerações, com Adília Lopes, Ana Luísa Amaral, entre tantas outras.
E eis-me agora com uma novíssima geração e estes Ritornelos.
Leio e reencontro alguma vocabulário, algumas imagens fortes que buscam no suporte dos elementos terra, água, fogo, céu, o ponto de referência para conceitos mais abstractos e mais elaborados. 
Escolhe-se a rocha, como um Guillevic, poeta bretão que poucos terão lido, e da rocha e sua firme dureza, se fazem nascer as flores sonhadas de algum desejo que algum Anjo ainda pode guardar. Transporta-se a emoção da terra para um céu inatingível, pois bem sabemos que essas flores, pelo caminho murcham...O poema 15, de dimensão mítica, evocando as "filhas entardecentes", vozes de um poente, de um ocaso que apaga o dizer das vozes é a expressão dessa impossibilidade adivinhada (p.37).
Compraz-se a autora frequentemente numa desarticulação vocabular que aponta para a desarticulação de um eu a caminho de ser, desejo de ser numa totalidade outra que interpela, que poderia ser divina se Deus alguma vez desse resposta. Uma ou outra referência bíblica (no poema 40, p.87) não resolve o apelo, não aumenta a dimensão, e no espaço vazio nenhuma voz se ouve.
Nos Cânticos da Floresta e nas Litanias o discurso torna-se mais denso, mais elaborado, por vezes com um ou outro preciosismo que me remete para uma poética hermética bem conhecida, a de Paul Celan, cujo imaginário é atravessado por despedidas cruéis, silêncios absolutos, aspirações todas de sofrimento irreprimível, insónias em que vagueiam mortos, os de outrora, os de agora, os de sempre.
Não posso deixar melhor elogio do que este, em que Joana diz mover-se "junto à quietude de uma memória" (p.171) : não importa se de alguém em especial, de um amor que passou, do Sopro de um Deus nunca manifestado, - essa quietude é a que forja o poema, no seu distanciamento.
Paul Celan teria apreciado. 


Tuesday, March 04, 2014

RUI ZINK
AS NOVAS FORMOSURAS...
(A metamorfose e outras fermosas morfoses, 2014)

Rui Zink lançou um novo livro, uma espécie de bombom côr-de-rosa, apetecível ao olhar e ao tacto, como têm sido estas edições da Teodolito, onde também saiu A Instalação do Medo a que já me referi neste blog.
E não por acaso, é com um texto pré-meta-kafkiano que ele começa a primeira das "fermosas metamorfoses"... que serão sete e muito diferentes umas das outras.
O título deste primeiro texto não esconde, mas inova, de forma muito original, a sua relação com A Metamorfose de Kafka.
Rui joga com o tempo de antes, com os momentos que antecederiam a transformação de Gregor Samsa em barata, ou escaravelho, e de que modo à volta desse não herói, dessa sombra antecipada de si mesmo, o mundo reagiria. Mundo à dimensão de um quarto, de uma irmã mais bondosa, de pais bíblicos, cinzentos e cruéis. O que se esperava, antecipa Rui, para não deixar dúvidas, é que Gregor se transformasse em bicho insignificante, algo nojento, criatura de repelir, como na realidade ao acordar sabia que tinha de ser.
Não ser, seria mesmo não chegar a ser, não cumprir um destino: o que estava reservado, naquele tempo e naquela sociedade normalizada a qualquer cidadão.
Ironizando, Rui Zink toca no mais fundo do que há de negativo na espécie, e que leva (levou outrora, estará levando agora?) a que toda a diferença deva ser apagada, como na novela de Kafka, por um gesto de súbito repúdio onde não cabem entendimento nem compaixão.
Ler Kafka, e logo de seguida ler esta obra-prima, condensada em poucas páginas, onde Rui Zink exprime, em tom de realismo fantástico o que foi (e continua a ser) a vida mesquinha, ou amesquinhante de uma certa pequena burguesia que não perde os seus tiques, e para a qual só o refúgio de uma metamorfose, real ou imaginária, pode trazer solução: a chamada solução final!
São sete, os textos, e muito diferentes, no tom e exercício de estilo, no tema e na linguagem, que adquire então a rapidez do coloquial, do calão, se necessário, para que se tornem mais intensas as relações ou os laços - perdidos e mal achados - como em "Pandora Boxe", para dar um exemplo, onde há alguma meta- -memória do célebre Quem tem medo de Virginia Woolf.
Rui explica-se, no fim do livro. Não precisaria de o fazer, mas temos aí mais uma prova da sua dimensão cultural, reflexiva.
Dessas notas finais podíamos fazer um seminário para estudantes de literatura. Kafka, Harold Pinter, de mistura com os clássicos, o todo num desafio que ele lança a si mesmo, e de seguida ao leitor.
No trocadilho humorístico se escondem as verdades de Rui Zink. Ora pondo a nú os tiques que são de moda, e passam, como tudo passa - "Largar Kristeva" ora deixando que a mão lhe corra pelas ideias enquanto espera que os seus leitores, também eles, ascendam a alguma meta-metamorfose que não os deixe iguais ao que eram dantes.
Não se passa por Rui Zink impunemente: os seus murros são directos, mas leais. Erudição e criatividade.Só me lembro de outro como ele, o Alberto Pimenta...

Thursday, January 16, 2014

Shakespeare, As You Like it, Como Queiram
(Do You Tube estas imagens que não são da peça que comento, enquanto não houver outras para ver)

Shakespeare no Teatro São Luiz, pela mão de Beatriz Batarda.

Belíssima tradução de Daniel Jonas, que é ele mesmo poeta, e talvez por isso tenha dado à sua versão um sabor ao mesmo tempo poético e  actual ainda que sem nunca trair o espírito do texto do grande dramaturgo.
Estamos perante uma comédia de teor mais pastoril do que senhorial, embora a acção envolva aristocratas que por razões de confronto de poder se degladiam até que surge a reconciliação final, pela via amorosa, como é de bom tom.
Refugiados numa floresta onde tudo e todos se cruzam, Shakespeare tira partido do travesti de uma das heroínas, que foge com a prima e se esconde vestida de rapaz, o que proporciona, no enredo amoroso, trocadilhos divertidos, mas sobretudo exige da actriz uma performance que na encenação de Beatriz Batarda para o Teatro São Luiz é excepcionalmente e subtilmente conseguida.
Numa nudez de palco evocadora do espaço do antigo Globe, permitindo ver o que se passa mas definindo bem a marcação, vamos assistindo ao longo do tempo ao modo inspirado, divertido e sempre muito centrado do "desenho"e construção das figuras, dos caracteres intervenientes.
Os figurinos são de José António Tenente, e na verdade a elegância da côr e do corte, quando surgem as duas beldades, Carla e Leonor, enchem o palco de brilho.
Carla Maciel, no papel de Rosalinda/Ganymedes, faz um exercício primoroso de encanto semi-andrógino, algo autoritária e masculina enquanto mulher, e algo hesitante e feminina enquanto rapaz, numa confusão / contradição de sentimentos muito ao gosto de Shakespeare.
De excepcional rigor e inventividade é forçoso, nesta encenação, destacar a figura do Bobo, no desempenho de Luisa Cruz. Uma composição genial de um personagem em cuja boca surge a crítica, o bom senso ou a paródia, em doses medidas, e o desbocamento também próprio dessas figuras vivendo entre o grotesco e o sábio e que não faltavam a este género de concepção do entretenimento da comédia  shakespeareana.
Falei de desenho, colorido no figurino, paródico na coroa, mas sobretudo acutilante, numa gestualidade e  dicção perfeitas, enriquecendo o texto, já de si soberbo do dramaturgo inglês, na tradução de D.J.
Quanto a Sara Carinhas, a sua juventude e graça esvoaçante, diz tudo. É já uma grande actriz.
Faltaria uma palavra para o desempenho dos actores, em quem redescubro carreiras de há muito conhecidas e que ali se entregam, em total companheirismo a um trabalho que é também musical, regido pela batuta ao mesmo tempo rigorosa e amiga de Beatriz Batarda.
Na grelha dramatúrgica aplicada pela encenadora ao texto /versão livre de Daniel Jonas, estão presentes, e bem, os grandes temas favoritos de Shakespeare, Esse é o genio de um grande encenador: transformar sem ferir o fundamento da "lição" que o autor deseja transmitir.Assim vemos, logo de início, ser apresentado no diálogo entre as duas primas, o jogo de opostos de  Natureza/ Fortuna (destino). Grande tema que se reencontra ampliado na última peça que Shakespeare escreveu, The Tempest, onde a Natureza é expressa por Caliban, e a Fortuna, ainda que poderosamente manipulada, por Próspero, o mago exilado.
Será frequentemente pela boca do Bobo, TOCASPARTES, numa recriação ao mesmo tempo divertida, como competia aos bobos da Côrte, e sábia (recuperando o antigo Coro dos clássicos gregos) que o comentário sobre a acção irá sendo feito. Trocadilhos, mas não arbitrários, pontuam as intervenções, de dimensão crítica aguda:
"É de lamentar que os tolos não falem sabiamente das acções tolas dos sábios...", eis apenas um dos muitos exemplos, de novo no âmbito do engenhoso jogo de opostos que se descobre nesta como noutras peças, e que suportam a estrutura do enredo, as situações em que se envolvem os personagens, e o desfecho final.
E vou agora a um dos aspectos mais interessantes e sedutores da peça: o imaginário animal com que são sublinhados sentimentos e intervenções.
Assim LE BEAU, é comparado a um pombo, carregado de notícias;e Célia tem logo um dito não menos expressivo:
"em cheio na cabeça do prego", isto é, são trazidas, as notícias, sem mais subterfúgios de linguagem, sem maneirismos inúteis.
Característica de linguagem, que também define o seu carácter, será o modo com Rosalinda se experime: já se avançou na acção, estamos na cena 3 do Acto I, assistiu-se à luta do gignate do Duque contra os jovens espoliados, e desenha-se uma paixão ainda muda, que  Rosalinda define à prima sem palavras, "Nem uma para atirar a um cão".
Adiante, quando o severo Duque decide expulsar a jovem Célia, Rosalinda (será ela a força condutora da acção) exclama, recusando ficar sem a amiga de sempre:
"Aonde que que vamos somos cisnes/ Como os de Juno, um par inseparável!"
Afirmação que permite concluir com alegria, na última cançaõ da peça que ali mesmo, no casamento dos pares, a deusa Juno será finalmente coroada.
No entretanto fugirão para a floresta, Rosalinda, mais esguia e masculina de porte, disfarçada de homem - serão irmã e irmão, criando assim um novo momento de diversão e suspense, mantido quase até ao fim, como nos contos do género. Mudam de roupa, mudam de nome e Rosalinda será Ganymedes, o amado dos deuses (Júpiter, esposo de Juno, neste caso...)
Não me demorarei muito nos detalhes, mas chamo a atenção para a floresta, descrita com seus rumores, seus regatos,carvalhos seculares (Jung veria aqui uma descida, ou melhor um recolhimento que força ao encontro da alma consigo mesma), o cervo (animal de sacrifício) cujo sofrimento desperta as lágrimas de quem observa a matança. Um novo sentimento é aqui introduzido, o da compaixão pelo sofrimento, do veado, como de JACQUES, - o que irá adoçar a severidade do Duque ali presente.
Mudança de Acto e Tocaspartes, o Bobo fiel, toma o seu diálogo de jocosas observações, e eis-nos de novo num reino animal domesticado: ele recorda que "beijava as tetas da da vaca que a sua bela ordenhava...e explica como lhe foi oferecer ervilhas, para que as usasse(comesse) maliciosamente. Na sua boca amar é comer pasto...e não por acaso, a seguir é mesmo de rebanhos e de pasto à venda que se falará, num lugar que os tem à venda.
Assim se foi misturando o campo na floresta, o amor na ocultação ou na perseguição,e história nos vai prendendo, cena a cena.

Mas há mais, não se trata aqui apenas de uma versão pastoril de um conto antigo.
Nesta peça se desenvolve toda uma teoria poética e dramatúrgica, em que se afloram os males e as alegrias do amor, com uma adjectivação que no rolar do discurso sempre nos cativa e surpreende (não é por acaso que a obra de Shakespeare atravessou os séculos...).
Não menos interessante é a célebre afirmação de que todo o mundo é um palco, (Acto II, cena VII), reflexão cara a Shakespeare, feita em Macbeth, divisa inscrita no frontão do Globe, erguido em 1599, e retirada de Petrónio: 
totus mundus agit histrionem.
Segue-se a divisão das idades: pequena infância, infância, adolescência, juventude, maturidade, velhice, e decrepitude (senilidade).
Quase passa despercebido a referência à música das esferas, outro dos grandes tópicos do teatro de Shakespeare, bebido nos temas de Platão, entre eles o da "Grande Cadeia de Ser". Quando harmoniosa, a música não é dissonante. Mas se algo se rompe na união, a dissonância surge, e manifesta-se em zangas, atropelos, sevícias, guerras, traições...mas deixemos este ponto para outra altura, marcando apenas aqui o diálogo entre o PRIMEIRO SENHOR e o DUQUE SENIOR, na cena 7 do Acto II.
Segue-se uma oportuna reflexão sobre as idades da vida, na vida que é um palco, que pode englobá-las a todas. Assim , em pleno espaço do riso ou do sorriso da comédia, uma chamada de atenção, e uma dolorosa observação: 
" E eis a cena final/que põe termo ao decurso desta estranha história/regressa-se à infância, criança recém-nascida/sem memória, sem dentes, sem olhos, sem gosto, sem nada".
Nos Actos III e IV pulsa o centro da acção amorosa, a que o disfarce de Rosalinda como Ganymedes confere uma subtil perversão, desenvolve-se com Febe e Sílvio e Rosalinda pelo meio a eterna história de quem ama aquele que não ama e ama outro (como num célebre poema brasileiro...) e pelo meio se ironiza sobra o modo de amor cortês, com seus rituais, numa floresta e em tais circunstâncias, difíceis de cumprir. De novo Rosalinda, na sua expressão irónica e directa, alude a um "caracol" como melhor amado do que Orlando.Segue-se, depois de uma doutrinação sobre o amor cortês, a reflexão, mais céptica e amarga, sobre a realidade do amor dos homens, efémero, como tudo na vida. Fala de si como "galo raçudo", como "papagaio", como "macaco", como "hiena" - denegrindo a imagem do que pode ser uma mulher, se desleixada pelo seu amado, seguindo na veia do bestiário shakespeariano, já referido acima.
A comédia, que é vida, continua, e no Acto V, no Epílogo, que se constitui em grande discurso de doutrina e inovação de género, se abre espaço à mútua entrega feliz de homens e mulheres, se assim quiserem..

Sunday, January 12, 2014

Falando de cabelos e cabeleiras....
La Chevelure, de Baudelaire

Evoco duas imagens, a de Salomé, e a de Sansão e Dalila (que cortando a cabeleira de Sansão lhe retira toda a força e poder que tinha). Salomé,  cruel na sua vingança ( pede a cabeça de João Baptista, que a despreza, numa salva) e Dalila que trai, variantes da Eva tentadora, perversa, que precipita a expulsão do Jardim do Éden.
Mas a mulher cuja cabeleira encanta Baudelaire, no seu célebre poema, sendo embora sensual, devolve ao poeta um pouco do paraíso nostálgico em que os corpos ainda inocentes se podiam amar sem medos nem entraves.
Não que Baudelaire fosse poeta de medos, como será Pessoa. Mas era um poeta de grandes nostalgias de um Além perdido, como se lê noutros poemas, e onde o prazer podia ter lugar.