Sunday, September 30, 2012

Pó dos Livros ao Domingo

Neste primeiro dia de domingo, com a Livraria Pó dos Livros aberta ao público, tive um reencontro feliz: com Italo Svevo, nas ed. &ETC., as Fábulas (capa e desenhos de André Ruivo).
Li outrora A Consciência de Zeno, obra-prima romanesca em que se nota, filtrada por uma ironia subtil, a influência de Freud, de quem o autor tinha traduzido a Ciência dos Sonhos.
Nascido em (1861-1928) em Trieste, cresce numa cultura atravessada por outras, como a alemã, a francesa e a italiana, de todas retirando o que de mais interessante e actual havia. Considerado precursor de Proust, e de Joyce, pela subtileza e pela criatividade da linguagem, é primeiro muito lido e traduzido e depois esquecido, como tantos outros.
Vale a pena ler este livro, pequeno de tamanho, elegante como todos os que a &Etc publica..
As suas fábulas são de grande actualidade....deixo-vos apenas com um exemplo:
3
O Senhor Deus fez-se socialista.
Aboliu o inferno e o purgatório e pôs toda a gente no paraíso, em pé de igualdade.Aí gozava-se o bem-estar de uma beatitude eterna.
Num dado momento morreu um Creso: ficou estupefacto por ser acolhido no paraíso. Mas logo se habituou à sua nova existência e bem rapidamente começou até a queixar-se.
-O que te aflige? perguntou o Senhor, colérico.
- Ah, Senhor! Manda-me para a terra! Aqui não é o verdadeiro paraíso; aqui não se vê ninguém sofrer.

Thursday, September 27, 2012

Amigos leitores,
Está on-line - agora é assim que os editores preferem vender- o meu livro, com o Pedro Gama e suas belas ilustrações,
O OUTRO LADO DA LUA, na página de Editora ESTAMPA.
Nestes momentos em que o cosmos maravilhoso se vai descobrindo, dia a dia, um conto para crianças e adultos, com alguma informação e muita imaginação bebida em lendas antigas é a porta para que todos se apaixonem pela noite. pela lua, pela astronomia.
A experiência de uma leitura em grupo, de uma avó, no Alentejo de céu límpido, rodeada de netos e amigos, despertou no fim muita discussão e curiosidade: afinal o menino, que se revela em sonhos, quando parte, regressa a um mundo imaginário ou à poeira cósmica de que todos somos feitos? (Leia-se morreu? )
Mas não: nada morre no mundo imaginário, tudo vive de muitas e variadas maneiras...
No dia seguinte as crianças fizeram os seus próprio desenhos, ao acordar, enquanto não saíam, para fugir ao calor...
Assim pode uma professora que goste de crianças inventar muito também , a partir deste livro (que nas informações objectivas foi relido por um astrofísico brilhante...)....e quanto à ilustrações tudo foi entregue à sensibilidade criadora de um artista como o Pedro Gama. a quem agradeço, do coração!

Thursday, August 30, 2012

William Blake, Songs of Innocence and of Experience


O pedido de um amigo Editor, José da Cruz Santos, fez-me voltar a Blake e à sua poesia, misteriosa e actual pelo desafio que lança à nossa imaginação.
Nesta obra Blake pretende mostrar, como diz, " the two contrary states of the human soul" - os dois estados contrários da alma humana, através das líricas da pureza inocente, canções de grande beleza rítmica, e no seu oposto as líricas misteriosas, intensas, quase perversas na inesperada inversão, do que apelida de canções de Experiência.
A Experiência é a percepção do Mal, no Universo criado, como se a mão de Deus fosse de repente desviada do seu verdadeiro primordial caminho.
A mais célebre das canções de Experiência é a do Tigre - e foi esta que o meu amigo me pediu para traduzir.
O Tigre como figuração do Mal: um mal absoluto, inexplicável, ardendo nos olhos de um animal de grande porte e nobreza. Saído da mão de um Deus não menos perigoso, cuja "outra face" é essa mesmo que o Tigre representa. Deus é um deus dividido, pois se dividiu na criação. E dele fazem parte o Bem e o Mal.
Blake, teósofo, visionário, pertencendo ao grupo de leitores de Boehme, sabe, sente, que a treva se esconde no coração da luz, e que na alma humana, como já Goethe dissera no Fausto, coexistem duas almas: a luminosa e a obscura.
Das traduções que conheço em língua portuguesa, a mais inspirada é sem dúvida a de Augusto de Campos, notável poeta e tradutor brasileiro. Pode ser encontrada pelo google.
Mas fiz a minha, para a edição do conjunto que Cruz Santos publicará na colecção "Oiro do Dia".

William Blake (1757-1827)
O Tigre

Tigre, tigre, fogo ardendo
na escuridão da floresta,
que olhar eterno ou que mão
tão temível simetria desenhou?

Em que céus ou profundezas
arde o fogo dos teus olhos?
E ele, que asas deseja ter?
Que mão ao fogo se atreve?

Qual o ombro, qual a arte,
que o teu coração torceu?
Ao começar a bater,
mão terrível, pés de horror,

que martelo e que corrente?
O teu cérebro, em que forno?
Que bigorna e que tormento
te prenderam ao temor?

Quando as estrelas suas lanças depuseram,
e o céu com as suas lágrimas molharam,
sorriu Ele perante a obra?
Ele, que fez o Cordeiro, também a ti concebeu?

Tigre, tigre, fogo ardendo
na escuridão da floresta
que olhar eterno ou que mão
tão temível simetria em ti ousou?

(versão livre, 2012)

Wednesday, August 22, 2012

Chagall

Chagall, O Pintor e a Lua, aguarela de 1917.
O seu imaginário solto, antecipando o dos futuros surrealistas, com quem conviveu em Paris, permite que se entendam símbolos e arquétipos fundadores: veja-se como neste quadro é de um sólido corpo de terra-mãe que emana a forma do pintor flutuante no espaço azul da noite; e é a terra-mãe ou é a lua, que afinal o ampara, seios grandes redondos como de lua cheia ou seu reflexo?
Outro nome é Cybele: lua, sim, mas deusa primordial ao mesmo tempo, com seus rituais assassinos, que no quadro de Chagall não transparecem..
Ele na lua bebe a inspiração que o liberta dos pormenores das casas da cidade, bem longe, lá em baixo, reduzidas a casinhas de brinquedo da sua infância, nem sequer falta o camponês com a sua cabra (animal bem terrestre): da terra à lua, do sono (que a cortina de algodão, no lado direito do quadro, protege) ao sonho, e no sonho a recuperação de símbolos primordiais. A lua é um deles,  figuração da Sombra da alma, mas em Chagall extremamente suavizada.
Desta noite da alma nasce a inspiração.
Também aqui, em Shubert...

Saturday, August 18, 2012

A RUA

Na rua larga passeiam as mulheres
que arrastam pelo chão
o último vison e a última visão

casas fantasmas de tectos ideais
emergem da noite em nevoeiro
vermelhas azuis verdes amarelas
recém pintadas fugidas dum tinteiro

duas crianças brincam no passeio
duas crianças sós e sem asseio
mas com passeio largo
reservado para elas

ratos e gatos
jogam ao polícia e ao ladrão
e um cão de guarda fuma
o cachimbo da paz
que segura na mão

há sinfonias demasiado completas
a dançar no ar
(nuar: verbo irregular;
eu nuo, tu nuas, ele nua, nudismo geral)
e por toda a parte cavalgam
os cavalos de Chagall
transpondo o arco-íris de todo o pensamento
que é realmente mento
porque só pensa é fácil
o difícil é o verdadeiro e completo
pensa-mento
(mente? pergunta alguém
não mente, mento)

no restaurante há omelettes em chamas
servidas por bombeiros voluntários
e as banheiras estão cheias
de afogados mentais

a lápide de inscrição no cemitério
 diz apenas
a vida não deu pra mais!

(in Opus 1, ed. Ática, 1961)




Thursday, August 16, 2012

O ELÉCTRICO

Para a Rita Roquette de Vasconcelos ( que vê por trás das Máscaras...)

O Eléctrico

Era o eléctrico amarelo
cheio de homens e mulheres
recortados à faca dum papel
com caras de madeira
máscaras de olhos frios
pintados a gouache sem pincel

Era o eléctrico amarelo da noite
por fora tinha côr
por dentro estava cheio de rostos
macilentos
olhos de sono
revistas de amor

Era o eléctrico feio das viagens
a noite às costas
e o vento nas janelas
e pessoas que entravam e saíam por elas
ou ficavam sentadas
e de pé
a olhar estupidamente o espaço em frente
o espaço mais além que já não tinha gente

Wednesday, August 15, 2012

Robert Bréchon

A morte recente de Robert Bréchon (1920-2012) despertou na memória dos especialistas de Fernando Pessoa a biografia que Bréchon publicou e se tornou marcante pelo novo olhar que trazia sobre a vida e obra do nosso poeta. 
Mas poucos recordaram a sua biografia de Henri Michaux: 
HENRI MICHAUX, La Poésie comme destin (éditions aden, 2005) talvez ainda mais marcante para os estudiosos de Michaux, pintor e poeta cuja obra nos desafia ainda hoje, pela sua complexidade, e que Bréchon, que foi seu amigo, acompanha numa viagem de alma páginas adentro nesse seu livro. 
Começa por contar como o conheceu, e como diante dele se sentiu primeiro intimidado. E como pouco a pouco uma relação de iguais se foi estabelecendo.
Também eu conheci Henri Michaux : um privilégio que me emocionou profundamente.
Ele dirigia ao tempo (há muito tempo) a revista HERMES e eu já me interessava por matérias ligadas à simbólica hermética e tinha lido, em Paris, alguns dos livros de Michaux.
Escrevi-lhe, pedindo alguma orientação para o meu estudo e para as minhas leituras futuras (estava já a pensar numa futura tese de doutoramento).
Respondeu logo - ah diferença para os portugueses que não respondem nunca! - e recomendou-me um autor que eu não conhecia, tradutor de Jung, fundador da Revista Junguiana de Paris, Etienne Perrot, que ele conhecera e cuja orientação (alquimia junguiana) considerava ser muito mais útil para mim. 
Assim fiz, escrevi e depois travei conhecimento com E.Perrot, com quem mantive laços de orientação e trabalho durante muitos anos.
O que desejo salientar é o modo acessível e amável de Henri Michaux: tempos mais tarde, numa das galerias de Paris que expunha obras suas (as célebres Encres) haveríamos os dois de comentar a minha paixão pela alquimia e a ajuda inicial que ele me tinha dado.
Encontro na Biografia de Bréchon, para voltar a ele, muitos detalhes destes, que nos fazem gostar do artista, mas tanto ou mais do homem que foi, e do destino que assumiu como poeta.
Eu acrescentaria também pintor: pintou a alma dos seus poemas, como os poemas pintavam a sua própria alma, a sua energia por vezes descontrolada, mas sempre tão iniciadora (iniciática mesmo) nos segredos da alma: luminosos ou negros, como em certos momentos de abismo que viveu e descreve em obras como Misérable Miracle (1956)
Bréchon fala do destino de Michaux como poeta que ele mesmo foi: era poeta, discreto e falava pouco de si.
Deixo a minha homenagem, eu que o conheci antes que ele conhecesse Pessoa, mas já amando Lisboa, onde vivia.
E sugiro que se traduza para português esta sua obra: não haverá melhor guia para o destino poético de alguém como Michaux.

Monday, August 06, 2012


Escrito para quem gosta de contos, da noite, dos segredos da lua que fascinam as crianças. Com as inspiradas ilustrações igualmente "nocturnas" do Pedro Gama. Para ler em férias....e durante o ano!

Wednesday, July 18, 2012

Manuel Alegre II


José Gil, numa obra que gosto de recordar, A Imagem-Nua e as pequenas percepções (1996), abre com “A visão do invisível”  e dedica um capítulo em especial ao “Caos  e Quadrado Negro” (p. 135).

Interroga-se José Gil: “ Porque é que a percepção estética precisa de ao mesmo tempo conhecer e ignorar a forma como objecto? Se a percepção neutraliza o conhecimento, este último, ainda que neutralizado, permanence: o quadro mais abstracto conserva sempre alguma coisa de ‘figurativo’. Até mesmo no Quadrado Branco sobre Fundo Branco de Malevitch o olhar  reconhece alguma coisa, um ‘quadrado’ pintado sobre um ‘fundo’ falso: adivinham-se aqui formas e fantasmas de formas. O quadro mais informal mostra ainda pontos, manchas, contornos, ou materiais rugosos, pregueados, lisos” (p.136).

De modo que a perturbadora criação do Quadrado Branco e a do Quadrado Negro levam o pintor a considerar a ruptura “total e definitiva com o mundo do objecto” (p.138).

Nasce a arte abstracta, como Suprematismo.

Neste movimento, de descoberta e de anulação, o que acontece à imagem como representação?

Permite o anular da imagem dar lugar a novas formas ainda que não o desejem ser? Ou é imperioso que, para existir negação, haja primeiro alguma forma de real que se negue?

E como podemos, pintando, anular a pintura? Ou falando anular a palavra? Esvaziando o sentido? Procurando um sentido no Vazio criado, adivinhado?

Encontro numa poema recente de Manuel Alegre uma interrogação semelhante:
Depois do Branco
Quem sabe o que na página se esconde
e se dentro do branco está um muro

e se depois do muro não há onde

e se depois do branco é tudo escuro?


Quem sabe o que pode acontecer

quando ao verso já escrito outro se junta

e tudo está no verso por escrever
e o que se escreve é só uma pergunta?

Quem sabe o que se vê e não se vê
se por dentro do branco apenas cabe
esse nome que nunca ninguém lê
e o verso que se sabe e não se sabe?
(in NADA ESTÁ ESCRITO, 2012 )




Este poema sublinha uma contradição de fundo : 

a do branco com o escuro ( podia chamar-se negro, como na alquimia e teríamos claramente o jogo de opostos da albedo com a nigredo); a da afirmação (do verso escrito) com a pergunta (a dúvida).

Servem estas reflexões para o aprofundamento da definição de Imagem? Imagem como representação ou anulação de um real que na Arte perdeu o sentido?

Haverá sempre um momento em que a energia profunda de uma ideia poderá apropriar-se da mão que pinta, ou que escreve – e então nascerá uma Imagem: mais realista do que outrora ( com os surrealistas, por exemplo) ou mais abstracta, mas representando sempre a pulsão que impele o criador nesse seu gesto, que será sempre vivido como primeiro, primordial e fundador.

Sendo que este branco de Manuel Alegre, como o do Quadrado de Malevitch, pressupõe uma revelação que o pintor, no seu tempo, também teve. Não a da fusão intemporal de Rimbaud no seu poema, mas a da anulação objectiva, temporal,  que o branco sobre o branco permitiu, abrindo a imaginação dos artistas a novos e revolucionários conceitos de produção artística.
O Suprematismo de uns, abolindo o Simbolismo ou o Realismo de outros, está na base da produção dos Modernistas em geral; e aqui se poderia aludir ao exemplo de Fernando Pessoa e a um dos seus mais antigos e interessantes poemas, ALÉM-DEUS, datado de 1913. Lança uma mesma interrogação, com a mesma carga metafísica, ao olhar o rio Tejo:“O que é ser-rio e correr?
O que é está-lo eu a ver?”
A descrição do que sente conduz à imagem de “Vácuo”, o vazio que toma o lugar do momento ( o tempo) e do lugar ( o espaço). 
Desta anulação da consciência nascerá a experiência de Deus.Veja-se através de que passos:
“ Tudo de repente é ôco-

Mesmo o meu estar a pensar.

Tudo – eu e o mundo em redor-

Fica mais que exterior.



Perde tudo o ser, ficar,

E do pensar se me some.

Fico sem poder ligar

Ser, idéia, alma de nome

A mim, à terra e aos céus.

E súbito encontro Deus.”
Este Deus, secreto, escondido no escuro e no silêncio da alma, Essência que não se revela mas arrebata e absorve, como um buraco negro, levando à dissolução da consciência de si, na dissolução de todo o mundo exterior – não é um Deus que Malevitch ou outros dos seguidores tenham de verdade procurado. O que procuravam, no exercício da sua Arte, era antes como destruir a norma, que lhes pesava, de um Figurativo realista que se tornara obsoleto. E pelo apagamento da Forma recuperar o Sentido: um sentido, qualquer um, desde que aberto a todas as sensações (o que em Portugal seria o projecto do Sensacionismo). E por oposição, seguindo o mesmo modelo, recusando todas as sensações, pois a recusa de tudo é uma forma de inclusão.
No Poema O Silêncio, que antecede o que citei acima, Depois Do Branco, Manuel parecia adivinhar o que eu iria dizer. Que à interrogação corresponde o silêncio, e que a este, e só a este, como sabem os místicos, pode corresponder Deus.:

O Silêncio
Subiu ao cume da montanha e não viu Deus

desceu ao fundo do mar e não o viu.

Andou caminhos e caminhos
procurou no céu procurou na terra

na confusão e no barulho da cidade
no grande espaço aberto e limpo do deserto.
Procurou na palavra e perguntou aos livros
pediu à música pediu ao vento
mas nada achou mas nada ouviu.
Procurou no silêncio
e no silêncio viu a pedra branca.
Mas a pedra que fala não falava
e o silêncio era a única palavra.
(p.26)


Ao longo das outras 7 partes do livro, muita outra coisa acontece: o olhar que se demora na rua da cidade, na beleza do campo ou no vôo da gaivota, no desgosto de um falecimento ou de um extermínio cruel (o de Auschwitz), sem esquecer alguma evocação de amor antigo, ou memórias graves da História, antiga (Tróia) ou mais recente (a morte de Trotsky).Percebe-se que há neste poeta uma cultura literária, política, artística (Malevitch, com os seus quadrados) e religiosa até no que encerra de mais fundo: a meditação da noite do silêncio e dentro do silêncio uma Palavra, única, a do Poema.
Não é por acaso que se escolhe como epígrafe um dizer de San Juan de la Cruz: “ aunque es de noche”….(p.41).
Não se estranhe pois que eu escolha, de SETE, o poema Sombra e Forma (p.84):
O poema há-de emergir da sombra
florir no zero e no silêncio
o poema que está dentro
da forma por nascer
o poema que já é
antes de ser.

Retomo aqui a reflexão sobre a Imagem/Representação, tal como nos pode surgir a partir do Quadrado Negro; o negro, bem sabiam os alquimistas, absorve e afunda; mas dele emerge o branco (da Pedra, ou do Poema) que liberta e explode.







Friday, July 06, 2012

Manuel Alegre, Nada está Escrito

Terá sido este título?
A primeira vez que escrevi um post sobre este novo livro do Manuel foi engolido pelo espaço ( levado por algum maldoso bosão?)
E agora foram precisas várias tentativas até conseguir escolher a imagem da capa. Deve ser do título: nada está escrito, então que nada se escreva a propósito.
Mas sou teimosa.
Manuel Alegre, mesmo quando triste ("de alegre se fez triste"....) é um poeta feliz: encontra as memórias e as palavras certas para o que pretende dizer. 
O livro está dividido em 7 partes, como as 7 partidas do mundo, por aí podemos adivinhar que há sonho nos poemas, há desejo, utopia, - ainda que num momento de especial fragilidade identitária: afinal somos europeus, mas sem o ser plenamente?Somos europeus, se pensarmos na nossa tradição cultural.
O primeiro poema do livro, belíssimo, BALADA DOS AFLITOS é desde logo a prova de que uma cultura entranhada na tradição e na memória literária se actualiza em qualquer momento e se faz portadora de voz outra, nacional, que não nacionalista - e deste modo podemos falar de uma cultura europeia universal, vivida e absorvida pelos seus grandes. Eis a Balada:
Irmãos humanos tão desamparados
a luz que nos guiava já não guia
somos pessoas - dizeis - e não mercados
este por certo não é tempo de poesia
gostaria de vos dar outros recados
com pão e vinho e menos mais valia.


Irmãos meus que passais um mau bocado
e não tendes sequer a fantasia
de sonhar outro tempo e outro lado
como António digo adeus a Alexandria
desconcerto do mundo tão mudado
tão diferente daquilo que se queria.


Talvez Deus esteja a ser crucificado
neste reino onde tudo se avalia
irmãos meus sem valor acrescentado
rogai por nós Senhora da Agonia
irmãos meus a quem tudo é recusado
talvez o poema traga um novo dia.


Rogai por nós Senhora dos Aflitos
em cada dia em terra naufragados
mão invisível nos tem aqui proscritos
em nós mesmos perdidos e cercados
venham por nós os versos nunca escritos
irmãos humanos que não sois mercados.


Balada de ritmo pungente, logo no primeiro verso declara a sua filiação: retoma o lamento do ÉPITAPHE VILLON de François Villon, o grande poeta francês do século XV (1431-?) de vida aventurosa, várias vezes condenado e preso, em 1463 condenado à forca ( é quando escreve a célebre Ballade des Pendus, Balada dos Enforcados) e depois libertado. A seguir a esta data nada mais se sabe da sua vida. 
Ora vem isto a propósito da cultura, da tradição e da memória: todos os bons leitores de poesia conhecem e reconhecem este poeta e a sua poesia sem igual:
Frères humains qui après nous vivez,
N'ayez les coeurs contre nous endurcis,
Car, si pitié de nous pauvres  avez,
Dieu en aura plutôt de vous mercis.
Vous nous voyez ci attachés cinq, six:
Quant de la chair, que trop avons nourrie,
Elle est pièça dévorée et pourrie,
Et nous, les os, devenons cendre et poudre.
De notre mal personne ne s'en rie;
Mais priez Dieu que tous nous veuille absoudre!
.....
E segue, a Balada, com a plena consciência do pecado, mancha da humanidade e não apenas dos condenados, pedindo a Deus que todos sejam perdoados. Este é o refrão com que termina cada uma das estrofes: 
"Mais priez Dieu que tous nous veuille absoudre !". Rogai a Deus que a todos nos absolva!
O poema de Manuel actualiza e politiza o lamento, mas ainda assim mantém um apelo ao divino, como que reconhecendo que entre os homens não tem havido ou não haverá solução. É o lamento de alguém que reconhece que estão perdidos laços e caminhos; que talvez só mesmo a palavra poética ajude à salvação: do poeta de certeza, que se liberta nela e por ela; mas dos outros? Só mesmo de quem lê.... 
E nem de propósito, eis o poema com que encerra a primeira parte do livro:
DEPOIS DO BRANCO
Quem sabe o que na página se esconde
e se dentro do branco está um muro
e se depois do muro não há onde
e se depois do branco é tudo escuro?


Quem sabe o que pode acontecer 
quando ao verso já escrito outro se junta
e tudo está no verso por escrever
e o que se escreve é só uma pergunta?


Quem sabe o que se vê e não se vê
se por dentro do branco apenas cabe
esse nome que nunca ninguém lê
e o verso que se sabe e não se sabe?


Sobre este poema escrevi algumas notas noutro blog, Cultura Visual, ao evocar Malevitch e os seus célebres Quadrados, Brancos e Negros...remeto para lá, pois não caberia aqui outro texto mais longo.
Como é costume, o que se aconselha agora é que se leia o livro, pois se Nunca Nada está Escrito, ainda menos está lido....(ed. D.Quixote, 2012).



Tuesday, June 19, 2012

Schubert Canto do Cisne

Franz Schubert ( 1797- 1828)
III
Schwanengesang / Canto do Cisne

Neste último ciclo é maior a variedade de estilos e de poemas, talvez porque, sendo póstumo, a organização ficou a dever-se aos seu editor, e não ao compositor.
Os poemas de Ludwig Rellstab (1799 – 1860) teriam sido inicialmente dados a Beethoven, que anotou alguns mas não chegou a compôr; são esses anotados que Schubert terá igualmente escolhido. De um lirismo musical, fluído, rimado e cantado, não formam propriamente um ciclo, pois não há um fio condutor que se adivinhe.
O que há, e era ao gosto do tempo, é uma sucessão de motivos, indicados nos títulos de cada canção: Herbst /Outono, n.1, Liebesbotschaft / Mensageiro de Amor, n. 2, em que nos surge o regato, com a sua água que corre, ligeira e cristalina, como menageiro do amor do poeta.
E assim por diante, com Fruehlingssehnsucht /Saudade da Primavera, n4, até ao poema final, intitulado precisamente Abschied / Despedida, n.8. 
Por muito que se estranhem, num compositor devoto de Goethe e de Heine, estas escolhas mais humildes,  os poemas musicados foram também esses e não outros, e a razão pode prender-se com uma simplicidade que permitia, de tão nua, elaborar melodia e harmonia de forma muito mais livre e mais consentânea com a sensibilidade do compositor.  No Canto do Cisne podemos mesmo assim detectar uma evolução no sentido e no gosto das escolhas. É nesta altura e nesta fase que se desenvolve, com Novalis e Friedrich Schlegel, o conceito de “Fragmento como forma literária de arte” assumindo assim o pleno desafio do Fragmento, da Obra Aberta. 
Na arte do fragmento podia-se fundir filosofia e poesia, um pouco como se verificava nos Ditos, Aforismos, Máximas e  Reflexões ( de um Goethe, por exemplo).
Forma contida, de inspiração oriental (no West-Oestliche Divan de Goethe,a relação é directa ) desafiava o espírito por não ser conclusiva mas antes deixando em aberto, ou em suspenso, a conclusão a tirar. Podia ter carácter moralizador (como em de la Rochefoucauld). Mas o que tinha, acima de tudo, era uma preocupação poética, estética, bebida na ideia de Belo de Platão, mas sobretudo deixando ao leitor ou ao ouvinte um espaço mais largo para a sua própria imaginação criadora, fundindo-a num Todo com a obra apresentada.
 Neste dvd assistimos a uma reflexão do cantor sobre a sua arte, sublinhando a importância de ser fiel a um sentido íntimo que a sua interpretação deverá acompanhar.
Lições de Mestres...



Wednesday, June 13, 2012

Orfeu nos Infernos: a desconstrução de um mito

Orphée aux enfers é uma ópera-bufa composta por Jaques Offenbach, com libreto de Ludovic Halévy posteriormente revisto por Hector-Jonathan Crémieux.
A primeira apresentação data de 1858 e foi considerada a primeira opereta clássica com tal nome.
O libreto recupera a mitologia grega como divertimento por vezes delirante e sempre em busca de uma gargalhada divertida.
É um bom contraponto à melancolia do mito tradicional, sombrio, como nos surge na bela peça de Gluck.
O enredo envolve os dois deuses, Júpiter no seu Olimpo, Plutão no seu Hades, para onde Eurídice, cobiçada por ambos, deveria ter ido.
Neste fragmento Júpiter, sob a forma de mosca, seduz a bela, levando a melhor sobre as trevas ( e sobre o triste Orfeu! )
Coisas dos deuses....

Thursday, June 07, 2012

A Princesa Pele de Burro

Um Conto de Charles Perrault actualizado pelo olhar de Jacques Demy, com música de Michel Legrand e um magnífico cast de actores, de que se destacam Catherine Deneuve, a Princesa, e Delphine Seyrig, a Fada que a protege no seu momento de aflição, quando o Rei, viúvo (Jean Marais) se apaixona pela própria filha.
Todo o Conto tradicional encerra uma lição: neste caso a do impulso do incesto, pulsão ancestral, primitiva (basta recordar os episódios das filhas de Moisés no Antigo Testamento) que a Fada explica e contraria, numa Área subtil e cheia de humor, que desdramatiza o facto enquanto lhe encontra solução: a fuga e a pele de burro que cobrirá a Princesa.
Sendo que o burro é o animal que melhor simboliza as pulsões primitivas que na evolução dos costumes, na moral social, terão de ser sublimadas.
Deve-se ler, a este propósito, o Burro de Ouro, de Apuleio, filósofo do século II da nossa Era, obra a que Marie-Louise von Franz (ilustre discípula de Jung) dedicou um estudo muito elucidativo.
Com mais ou menos erudição, o mundo de encanto e maravilhamento que Deneuve nos traz, neste filme, merece a revisita que aqui deixo.

Saturday, June 02, 2012

Bob Wilson, a Rainha e o Poeta...

 A apresentação dos Sonetos de Shakespeare, pela mão genial de Bob Wilson.
A História de Inglaterra está presente - revela-se na figura orgulhosa da Rainha Isabel I, Mecena das Artes.
O Poeta é o que são todos os poetas....inspirados, mas sempre dependentes!
A recriação do Soneto: um momento do génio criador de Bob Wilson; sabe como evocar um mundo de sonho e fantasia e ao mesmo tempo desconstruir a obra no nosso imaginário.
A leitura surge no fim, em alemão, pois foi uma produção do Teatro de Hamburgo, com os actores com que Wilson, desde o Black Rider, se habituou a trabalhar.
Fica o repto: quem fará algo de semelhante com os Sonetos de Camões?

Tuesday, May 29, 2012

Le Coq d'Or

De Nikolai Rimsky-Korsakov, Le Coq d'Or, a obra-prima inspirada numa lenda popular.
A produção recente de um grande encenador como é Kent Nagano, devolve-nos a atmosfera de magia e maravilhamento de um imaginário orientalizante, com uma abundância e riqueza de detalhes de tal modo sensual que contagia todos: intérpretes e público assistente.
Esta é a Ária de uma jovem Princesa, na realidade emanada de uma força maléfica, no acto de seduzir um Rei que depois será levado a um triste fim.
O libretto desta ópera, da autoria de Vladimir Belsky, é inspirado no poema de Alexander Pushkin, Conto do Galo de Ouro, por sua vez lido nos Tales of the Alhambra de Washington Irving.
A ópera data de 1907, e teve a estreia em Moscovo, em 1909, depois da morte do compositor.
Fora da Rússia foi representada em França e em francês, com o título Le Coq d'Or.
Nesta época de 1907, quando o compositor julgara já ter chegado ao fim e ao melhor dos seus trabalhos, surge-lhe a ideia de caricaturar o Império e o Imperador, que se envolvera numa guerra fútil contra o Japão. Já outro texto de Pushkin, Tsar Saltan, o tinha inspirado, com uma mesma magia feita das trevas da alma, que iremos descobrir em O Galo de Ouro.
A atmosfera é concebida a partir de elementos da tradição popular que adensam o orientalismo patente nas mais belas Árias.
É preciso recordar que já em 1905 a Rússia tinha tido os seus primeiros levantamentos populares, e que a guerra contra o Japão, de que a Rússia saiu derrotada, permitia a ironia severa do olhar dos seus artistas e não apenas do povo martirizado.
Assim, o Rei Dodon, ao avançar para guerras preventivas, como as reais, de Nicolau II, a que se assistira, acabará mal, num fim mais grotesco do que trágico.
Começada em 1906, terminada em 1907, a ópera evoca os massacres de 1905, que não terão perdão. Foi logo proibida na altura.
A Metropolitan Opera de Nova Yorque, conhecida como The Met, apresentou o Le Coq d'Or regularmente em francês, durante a segunda guerra mundial. Existem ainda gravações em inglês e em russo, todas acessíveis hoje em dia, em dvd.
O interessante é como se pode recriar um Conto maravilhoso, actualizando o seu sentido profundo, universal: quando um homem (um Rei) esquece o seu dever de respeito para com os outros, as forças do mal tomam conta da sua alma, que merecerá castigo e talvez pior: anulação.

Saturday, May 19, 2012

Ganymed


Brilhas à minha volta
na radiosa manhã, 
Primavera, minha amada!
Ardem no meu peito
as mil bençãos de amor
do teu calor eterno 
sentimento sagrado,
 beleza infinita!

Pudesse eu prender-te
nos meus braços!

Ah, no teu peito
repouso, com langor,
e as tuas flores, e as relvas,
penetram-me o coração.
Refrescas a sede que arde
no meu peito, 
amada brisa  matinal!
Oiço o canto de amor  
do rouxinol 
no vale envoado.

Já vou, já vou! 
Mas para onde? para onde?

Para o Alto! Subir é a palavra!
As nuvens debruçam-se,
as nuvens inclinam-se 
para o amor que as chama.
A mim! A mim!
subo
para o vosso colo!
Abraçando abraçado!
Subindo para o teu peito,
Pai de Eterno amor !


( J.W.Goethe, trad. Yvette Centeno)


Ganymedes, no coração do mito:
filho do Rei Tros, que deu o nome a Troia, era o jovem mais belo que se conhecia e por isso foi escolhido pelos deuses para servir Zeus.
Consta que Zeus desejava algo mais, desejava-o para seu amante. Assim, disfarçando-se de águia, arrebatou o jovem das planícies troianas.
Hermes, para consolar Tros do seu desgosto e da sua perda, oferece ao desditoso pai uma taça de ouro, fundida por Hephaestus ( o esposo de Vénus), mais dois belos cavalos,assegurando-lhe que Ganymedes era agora um ser imortal, poupado às misérias da velhice, e que sorridente, de taça de ouro na mão, serviria para sempre o néctar divino ao pai dos céus (Zeus).
Todo o mito contém uma lição: neste, o que inspira Goethe, poeta de grandeza universal, é a lição de que a paixão dos excessos do Belo, para ser eterna, não pode durar muito, uma  contradição apenas aparente, o poeta com este poema liberta-se da sua ânsia juvenil, abrindo espaço para outras fases da sua criação.
E ainda outra: que o poeta (o criador) que faz unicamente do Belo a sua paixão corre perigo, pois o muito amor dos deuses que amam o Belo através dele (a sua obra) mata em vez de redimir.


Bibliografia:
Robert Graves,(The Greek Myths, vol. I, II)








Monday, May 07, 2012

Mais Poetas da Catalunha...


JOAN PERUCHO ( 1920- 2003): OS LUGARES DA POESIA

Nascido em Barcelona, em 1920, Joan Perucho é outro distinto criador pertencente à  geração que deu à Catalunha o nome de Pátria das Artes, com um escol de poetas, pintores, ficcionistas, críticos de arte de renome mundial.
Perucho era Juiz, de profissão, mas foi sempre cultor da Arte e distinguido com vários prémios ao longo da sua vida: em 1995 obteve o Prémio Nacional de Literatura da Generalitat da Catalunha, e em 2002 o prestigiado Prémio Nacional das Letras Espanholas.
Dele observa L.Alberto de Cuenca que “escrevia com uma vertigem expressiva” apoiada em sólida erudição, conferindo à sua escrita uma originalidade marcante no conjunto das literaturas da Península.
É extensa a sua bibliografia, com obras de poesia publicadas desde 1947 e de ficção  desde 1953, até 2001.
Aqui deixarei apenas, como já fiz com os outros autores escolhidos, a versão livre do conjunto que foi apresentado em 1996 na Fundação Gulbenkian.
Iremos encontrar tanto a emoção da memória e da cultura (nos poemas dedicados a Vicente Aleixandre e Dámaso Alonso) como a solidariedade com os que sofreram as atrocidades da Guerra Civil de Espanha (como por exemplo no poema Os Soldados ou em Elegia À Terra E Aos Mortos de Gandesa, pequena localidade que foi palco da Batalha do Ebro). 
Reencontro em Perucho, como nos outros da sua geração, um amor à cultura que em Paris, sobretudo, nos seus grandes poetas, ( Baudelaire, mas poderia citar tantos) no rio Sena de águas transformadoras vai nos anos da Guerra e das grandes Ilusões (penso em René Clair, penso em Prévert, o amigo de Picasso) manter viva e ardente a chama da criação. 
Poderá ser mais livre e radical ou mais factual e descritiva, mas será sempre testemunho do Homem que respeitou o sofrimento e procurou a mudança.

AS FIGURAS DE CERA

Reinvindicam um  amor eterno e imarcescível.
Paradas no tempo descem às paragens
que causam horror aos humanos. Mas ficam sempre
com os seus sorrisos extáticos, com desvelo seguro
e não com esta vida impura que envelhece e deforma.
“ O mort, vieux capitaine, il est temps, levons l’ancre”.

Mas estes lábios femininos que suspiram imóveis
não podem dizer todo o horror de Carlota Corday
nem o da Belle Heaulmière que amou o poeta.
Um grito, o pestanejar, o suave gesto daquela mão
tudo agora permanence imutável na sua aparência mais profunda
 O crime é na verdade sangrento; o amor esta cera amarelecida.



OS SOLDADOS

Avançam lentamente pelo caminho enlameado
mas agora já não pensam na mulher nem nos filhos
nem na casa que deixaram para trás, abandonada.
Macilentos
avançam e cantam hinos de violência sob o sol
duma terra áspera e enegrecida. A morte, contudo, 
empurra-os para a frente 
nas suas longas fileiras de tristes destinos, sombras
do que foram outrora. Jamais voltarão a encontrar
a paz daquelas horas que viveram, longínquas
como o écran branco do cinema, como na sede
daquele domingo em que ofereceram o seu tímido amor.


O PAÍS DAS MARAVILHAS

A uma hora de caminho da montanha sagrada
quando os dentes riem sozinhos de forma glacial
e as palmas das mãos voam pelo ar
desafia-se o que é imprevisível
o lamento dos violinos
a íntima tragédia.

Não há escola como a da vida.
Mas há o restaurante económico,
aquele das palavras cozinhadas, recozinhadas,
e os beijos na face com pública virtude.
Amanhã, Senhora minha, partiremos em viagem.
Não sei se jamais nos voltaremos a encontrar.


ELEGIA À TERRA E AOS MORTOS DE GANDESA

Triste flôr de Dezembro
no vento enraizada
nutrida pelo sangue de tantos mortos que nesta terra
foram crescer
em mato e em arbustos;
que na casa paterna
e nss chuvas de Inverno
foram hóspedes alegres
ares cinzentos, miúdas flores do bosque
que, com o aroma do tempo,
perderam os júbilos agrestes da Primavera
tristes alegrias que foram outrora graciosamente concedidas.

Seca e miserável terra. Avaramente apostada em
sobreviver ao pó
daquelas torrentes desoladas
e à infinita melancolia do camponês que chora
sob o grito do abutre.
Dura terra que amo na sua agonia
dura agonia minha
dentro do peito guardada.

Não, não há semente que possa fertilizar a rocha.
Alimentada pelo sangue destes mortos que floriram
em ásperos tomilhos
nada te acompanha a não ser o silêncio,
a espera abandonada,
a imensidade augusta e muda do firmamento.

A BALADA DO SENA

Um rosto difuso passeia sob as pontes
espreita quilhas, o cinzento da madrugada,
vidas entrelaçadas, chuvosas raízes,
mil desejos que se perdem como luzes na água espessa.

São Luís reclinado na Sainte Chapelle.
Os anos passam a voar.
Uma senhora estrangeira penteia-se na parede
e uma rosa floresce no olho esquerdo do grácil unicórnio.

Voam os estandartes. Em Saint-Julien-le-Pauvre
dizem Missa perpétua pelos afogados nocturnos.
Sinto como sobe, agora, a maré.
Como sobe a maré.
E os lábios de Paris.

Algo de fosforecente passa sob a água.
E há um restaurante chinês na rua Grégoire de Tours.
Gertrud Stein morreu faz agora sete anos
com uma doce melancolia perfumada.
Au revoir, mes amours.

Quando o movimento devora este silêncio
uma voz declama, boulevard Saint-Germain,
os versos de uma balada misteriosa e obscura.
Mas sobe-me pelos pés a relva, o mato, 
e também o sangue do meu país.

Debruço-me a olhar o Sena.
Os pássaros de Abril fugiram tristemente.
Penso na minha vida,
alguns dias alegres e distantes.
Outros olhos contemplarão o Sena, penso.
A terra, nos meus olhos, florirá alegremente.