Sunday, April 14, 2024

 PALESTINA

a voz das crianças

 

Ninguém as acompanha.

Partem sozinhas

em revoada

as almas tão pequenas

daquelas crianças mortas.

Vão todas juntas interpelar

o Pai da criação:

Que mal fizemos nós

que tanto te ofendemos?

E os outros que nos perseguem

quais as suas razões?

E onde estão os teus Anjos

os luminosos

que escondes nos Infernos?

Profetizam, por ordem tua

mas não sabem o quê.

Houve um princípio, dizem,

terá de haver um fim.

Mas esse fim

tão longe de nós ainda

não se vê.

 

9 de Abril, 2024

Sementes

 SEMENTES

É na hora de morrer

que pensamos nas sementes.

O jardim fica tão longe

já esquecemos o caminho

que nos podia levar

e nos podia trazer

de volta com as sementes

que devíamos plantar.

Sementes de vida fértil

de vida continuada

em árvores que já outrora

tinham sido abençoadas.

Tinham frutos comestíveis

garantiam gerações

que os Anjos protegeriam.

Mas onde estão esses Anjos

cujo abraço mete medo

aos poetas que preferem

um passeio descuidado?

Os poetas temerosos

não se atrevem

às perguntas mais difíceis

passeiam para esquecer

que tinha havido sementes

que tinha havido um abraço

um grito que se abafava

um espanto para dizer.

14 de Abril, 2024

(para os dois Luís Galego)


 

Tuesday, April 09, 2024

Amar e ser amado

 

É preciso amar 

para ser amado.

E amar é tão fácil...

basta dar atenção 

ao outro

que está ao nosso lado

Saturday, April 06, 2024

AMORES

 


 AMORES

 

Tão jovens ainda

aqueles amores tão puros

escondidos nos jardins

a química do desejo

ainda a despontar

não podiam ser vistos

de mãos dadas

havia sempre alguém

a denunciar

 e pelos salões dos velhos

corações ressequidos

também a invejar

 

É bela a juventude

incendeia os corações

que simplesmente

se entregam

sem segundas intenções

a não ser a descoberta

que pode ser de uma vida

ou de um adeus discreto

beijo de despedida


era um amor sincero

naquele momento eterno

em que os corpos ardiam

mas não se repetiriam...

havia deuses adversos

escondidos nos arbustos

que também invejavam

cada beijo roubado

e sem que os jovens soubessem

separavam caminhos.

 

8 de Abril, 2024

 

 



Friday, March 29, 2024

DEMÉTER

 

DEMÉTER

 

Deméter está zangada.

As árvores já estão verdes

mas não há frutos no chão.

Não há trigo plantado

não há pão

 

29 de Março, 2024

Sexta-Feira da Paixão

Wednesday, March 27, 2024

 Sábados

(para o Carlos, feliz na sua ilha)

O Sábado é um dia mau.

Não sei porquê

mas é mau.

É o último dia,

o Criador rejubila

com a sua criação

mas logo a seguir

num dia outro qualquer

perde o sonhado descanso

longamente ambicionado.

Eva era afinal màzinha

Adão um caso perdido

e ele o Criador

já se tinha arrependido.

Mas era tarde demais

pouco podia fazer

além de contar as árvores

plantadas no seu Jardim.

Ali estavam elas

de raízes profundas

de frutos apetitosos

que ele nunca comeria

pois que a sua eternidade

tal coisa não permitia.

Eterno já ele era

e que ganhava com isso?

Expulso o par primordial

nada mais o entretinha
 restava-lhe passear ou

dormir estendido na sombra

que as copas ofereciam

e falar com a serpente,

a verdadeira Rainha.


27 de Março, 2024

 


Friday, March 22, 2024

A DÔR E A MÃO

 

 

A DÔR e a MÃO


Inspiro-me em Ionesco,

 não que esteja a morrer

como o seu Rei

que a literatura

ou seria a música?

aliviava um pouco

e agora, pensando nele,

ouvindo música barroca

em velhos instrumentos

sinto que a mim

entre os vários tratamentos

a música me alivia.


Dores não de corpo e alma

mas apenas de corpo

mão estupidamente partida

numa queda distraída

mas que foi operada,

engessada

desengessada

e agora continua a doer,

malvada, sem ter em conta

que chegou a Primavera

e era hora de eu voltar

a escrever

mas quando a mão me dói

dói também o pensamento
e fico paralisada.

Maldita Primavera

semana de tanta festa

e glorificação

e é a mim

que me julgava feliz

pois saiu mais um livro

que me dói tanto a mão...

 

O Rei morre?

Mas eu não quero ainda

o corpo dói

mas a alma vive

e na música

eterno pensamento

sinto o meu prolongamento

 

22 de Março, 2024

Tuesday, March 19, 2024

 Nuno Júdice III

Ela chegou

princesa envolta em flores

que ele iria colher

mas chovia tanto

há tanto tempo

no interior das palavras

que eram flores

e que ele tanto aguardara

que as suas forças falharam

no último momento

e ela foi engolida

mais uma vez raptada

pelo rei poderoso

comandando o destino

Monday, March 18, 2024

Nuno Júdice, in memoriam

 Não é logo

sobre tantos retratos

tranquilos

de sorriso enigmático

com algo escondido

no olhar e

que alguém se precipita

a revelar

que surge a palavra certa,

a do lamento.

Na Primavera também morrem

poetas

como qualquer pessoa

de modo inesperado

mas dos poetas

exige-se tanto mais...

que fiquem

que perdurem

que nunca de ninguém

se vejam separados

não é para isso que servem

os retratos?

E as palavras, tantas,

que nele ficaram sem tempo

 atravessadas?

Não era Primavera?

Não estava a chegar

a bela Proserpina?

Mas poeta é assim:

Conhecida afinal

a última palavra

já não quis esperar.





 

Sunday, March 10, 2024

 O PAÍS

 

Em que país vivemos:

país de empurrão e de ruído

sempre assustado

como se houvesse medo

que no comboio da vida

alguém viesse ocupar

o lugar que já tinham reservado

 

7 de Março, 2024

 

 

 Trombetas no Apocalipse

 

E por que não um Scriabin

deslizando suave e breve

pelas teclas de um piano?

Podiam ser asas de Anjo

de compaixão e bondade

pondo fim a uma vida

que foi dada, não pedida

e agora chegava ao fim.

Afinal o que era a Eternidade

que não devia ter fim?

Cito um pintor amigo:

Eternidade, se existe, não tem

princípio nem fim

limita-se a existir, ultrapassa

o que dizemos, pois falamos sem saber.

Deus saberá talvez

e mesmo assim...

 

6 de Março, 2024

 

 

 

Friday, March 01, 2024

 CARLOS NO ATELIER

(para Carlos Nogueira, amizade, admiração)

 

Caminhar à beira-rio

já é parte dessa busca

que o fecha no atelier

Fernando Pessoa dizia

sempre inquieto com perguntas

o que é ser rio e correr

o que é estar eu a ver?

Sabia o que era esse rio

que corria para o mar

mas de si nada sabia

tinha de perguntar.

Carlos também pergunta

no atelier tem respostas

que podem ser mais perguntas

e o levam a procurar...

junta coisas

junta pedras

desenha no chão

mais espaços

podem ser quartos da infância

brinquedos que se partiram

e ele agora recupera

num moderno imaginário

de que faz parte a pintura

geometrias da alma

num papel ou numa tela

letras de brincadeira

projectos de perfeição

rabiscos de vida inteira

o que se esconde afinal

nesta casa que é segunda

um atelier de magias

onde ele se fecha consigo

faz e desfaz à vontade

o que é de si e de um outro

não perguntem que ele não diz

às vezes nascem de um rio

essas formas que ele inventa

ou de um céu cheio de nuvens

ou de um papel sujo no chão

na alma não há desperdício

todo o sinal tem sentido

merece a sua atenção

Carlos é criador

não é poeta perdido

como Pessoa no rio

pinta a interrogação...

 

YKC, Lisboa 1 de Março, 2024

 

  

 


Monday, February 19, 2024

AD TREVAM

  AD TREVAM

in memoriam NAVALNY

 

Todo o planeta explode

na semana

em que começa

o caminho das trevas

no mar erguem-se

as marés furiosas

afundam-se as florestas

e a terra estremece

como já tantas vezes

outrora aconteceu

perdidos caminham

os homens sem sentido

ao verem como caem

os homens bons

os justos

que ainda guardavam

uma esperança

mais uma vez adiada

o que farão os outros

os que esperam

será que ainda lutam

na treva

pela luz anunciada?

 

18 de fevereiro

Sunday, January 28, 2024

VIERAM

 

VIERAM

vieram

não os chamei

mas vieram

os espíritos

estavam guardados

entre as pregas da vida

e muito esfomeados

não os chamei

mas vieram

agora vão saciados

Thursday, January 04, 2024

Revista NERVO

 A revista NERVO, de literatura e arte, editada por Maria F. Roldão, abre o ano de 2024 com uma capa de Nuno Félix da Costa: foto de Fernando Pessoa em frente (enfrentando? ) do Coelho de Alice. Tal como nos desenhos que ilustram a primeira  edição de Lewis Carroll, aqui o coelho é da altura de Pessoa. Um frente a frente simétrico, embora se pressinta que toda a simetria se esgota aí. Serão muito diferentes, nesta fotografia, embora no livro de Carroll o coelho possa ser considerado o condutor de Alice, que vai correr atrás dele até cair na sua toca, um poço de mistério profundo onde tudo pode acontecer e vai acontecendo. Alice, com o coelho, vive uma série de peripécias que a fazem crescer ao longo de uma narrativa que todo o tempo surpreende. Pessoa, pelo contrário, frente ao coelho não deixa de se revelar homem crescido, sisudo mesmo, e quem sabe se incapaz de toda e qualquer aventura que surpreenda, como as de Alice.

O que levou então o autor, neste caso da foto, Nuno Félix, a colocá-los frente a  frente?  E que título se daria a esta obra? Pessoa na toca do coelho? Impossível, pois o poeta da Mensagem e da Ode Marítima nunca seria capaz de correr atrás de um imprevisto, ele que sofria de um mal terrível, o da permanente e paralisante interrogação do destino, o seu e o dos outros, no somatório do país e do mundo.

O coelho levou Alice a correr o mundo, da fantasia e da vida. Ela foi sempre andando, por aqui e por ali. Ele ficou sempre parado, inquirindo, é certo, mas os mistérios nunca se lhe revelaram. Alice, podemos dizer que foi de certa maneira iniciada com a intervenção do coelho. Já Pessoa desejou profundamente uma iniciação que não chegava. As correrias do coelho, que se dizia sempre atrasado (até chegar à Rainha de Copas) não eram as de Pessoa, que podemos dizer com justiça que esteve sempre adiantado e foi sempre adiado no seu desejo profundo, talvez por isso mesmo. O coelho era prenda de crianças ainda em desenvolvimento, emocional (e sem querer ofender leitores mais sensíveis) e sexual. O coelho da reprodução, necessidade da espécie. De frente para o sisudo Pessoa, escolhido por Nuno Félix, percebe-se que o condena, por ser um pensador abstinente. Por sua vez o ar de Pessoa não disfarça como as correrias do coelho o deixariam ainda mais quieto e indiferente.

Não era homem de pressas, e os desvarios de um Álvaro de Campos não eram mais do que isso : excitação puramente intelectual, quem sabe se com algum desejo oculto de escandalizar o burguês do seu tempo, mas na prática não o levando a mexer-se da cadeira, ou do encosto à cómoda onde gostava por vezes de escrever em pé, como Montaigne no seu castelo. Pessoa o pensador, frente ao coelho reprodutor, está dito. Vendo bem, o coelho assusta tanto, quando olhamos para ele, como Pessoa, o venerado poeta. Não há riso, naquela foto. E sabemos que Alice, na sombra, se interroga por trás de ambos. 

Alusão a uma Anima que embora ausente da foto se vai manifestando através deles? Um sinal que ao contrário do que afirma Hoelderlin está mesmo carregado de sentido?

Félix deixa-nos então à mercê não de uma resposta ao desafio, mas de uma pergunta, quem sabe sem resposta. 

Mais fácil é compreender as duas outras ilustrações, com ouras duas fotos, Pessoa e Camões frente e frente. Na primeira entrepõe-se entre Pessoa e o seu sonho de Super-Camões um corpo de mulher, oferecida, de costas. A lição é directa não haverá mulher, nem corpo tentador que se interponha entre Pessoa e o seu sonho. Na segunda foto já nem sequer a mulher está presente. O desejo do feminino, se alguma vez existiu, foi apagado.   







  

  

Wednesday, December 27, 2023

Agnus Dei

 

Agnus Dei

(ouvindo o Requiem de Mozart

 Era o cordeiro de Deus

mas não foi salvo.

Deus não interrompeu

o sacrifício

do filho bem-amado

o sangue teria de escorrer

para que o corpo fosse

transformado

e o Adão primordial

pudesse ter perdão

Saturday, December 16, 2023

 Na Quinta das Lágrimas

 De novo se pode amar

naqueles jardins

as árvores tão antigas

ainda carregam memórias

mas há sombras e recantos

no espaço mais alargado

que tornam a fonte feliz

depois do amor derramado

outrora foi côr de sangue

foi uma dôr do passado

agora é só luz e beleza

jardim de amor encantado

 

Y.K.Centeno

(Para a Cristina Castel-Branco

 16 de Dezembro, 2023)

Thursday, November 30, 2023

 

Yuja Wang e Gautier Capuçon

(O Cisne de Saint-Saens)

 

Na água adormecida

desliza o Cisne

de pena branca

sedutora e suave.

Vem buscar a Amada

que ali não o esperava

e quando ele chega

e se revela Deus

já não a encontra ali

já tinha sido levada

por uma asa mais negra

inesperada

 

1 de Dezembro, 2023

Tuesday, November 28, 2023

 Granada

I

Em Granada de noite

junto aos jardins do Alhambra

os jovens que se amam

tão quente ainda e tão suave

o momento que em breve

cessará

caindo noutro tempo

II

É tão fria a velhice

o sangue não circula

o coração não bate

não existe o desejo

que já nem é memória

da emoção perdida

naquela noite quente

tão suave de outrora


Y.K.Centeno

 5 de Dezembro, 2023

 

Tuesday, November 21, 2023

 Haiku da simples velhice (para o Miguel Real)

Dizemos

que bom, estou viva!

Mas não estamos,

devagar a Vida 

já começou a tirar

as coisas de que gostamos

Y.K.Centeno

21 de Novembro, 2023 

Monday, November 13, 2023

Jorge Reis-Sá, Todos os dias, ed. casa dos ceifeiros, 2023

 Hoje em dia, não todos os dias, mas de vez em quando, como ultimamente, o que me surge para ler parece ter sido escrito de propósito para mim, para mais uma leitura que não me deixe esquecer como ler é importante. Mantemo-nos vivos, por via dos outros que se ocupavam da vida, no seu tempo.

Estamos perante a reedição do que foi o primeiro romance de Jorge Reis-Sá. É raro um autor que deseje  recuperar o que foi a sua primeira tentativa, poética ou romanesca, ou porque a considera ingénua, ou imperfeita,face aos progressos que fez, e conheço alguns, que não citarei, que até omitem, na sua bibliografia, esse primeiro título.

Mas aqui não foi o caso.

 Jorge não renegou a sua primeira narrativa, feita de episódios que têm a contenção dos contos, sendo que sempre achei a arte do conto a mais difícil de todas, precisamente pela capacidade de dizer com menos um todo que ali está contido, do sentido do momento que ali se viveu, e onde é contado.

Eu, falando por mim, confesso que não releio nunca o que escrevi. O que em cada moemnto tinha de ser dito, foi dito, e assim ficará, porque o meu impulso é de seguir em frente, procurar o que há para além do dito, tentando dizer algo mais, ou outra coisa, que reflicta o momento em que vivo. Vivemos em cada momento uma espécie de totalidade que nos aguarda, ao escrever, que não tenha repetição, que seja única, ali mesmo, ainda que difícil de explicar, como a misteriosa afirmação de Deus a quem o interpela sobre quem é ele: eu sou aquele que é. Prefiro esta designação, em vez da usual eu sou aquele que sou. Nesta podemos inferir que ele simplifica a existência do Ser, sou assim como sou e não tenho mais nada a dizer. Uma espécie (perdoem-me o atrevimento...) de aguentem, ouvido na política da indiferença. Já eu sou aquele QUE É alarga o conceito de SER a uma misteriosa universalidade, eterna, de que Heidegger se ocupará longamente no SER E O TEMPO. Aquele que é, é eterno no eterno rio do Tempo, na vibração do cosmos, e está dada uma resposta que não aquieta, mas antes inquieta para sempre aquele que faz a pergunta.

O autor escolheu para epígrafe uma citação de Carl Sagan, o sábio que ilustrou e antecipou gerações que se debruçaram sobre os mistérios de um cosmos eterno face a face com a vida, a existência que é nossa, em que dia a dia todos os dias se materializam, parecendo comungar de uma esperança de eternidade que Sagan refere como desejada, mas reconhece como provavelmente impossível. Tudo no decurso dos dias, todos eles, nos dão a ver o fio da efemeridade, do nascimento à morte. 

É ilusão julgar que alguma coisa de nós, ideia, sentimento, memória que deixemos irá alguma vez perdurar. Um pouco, sim, mas não para sempre. 

Volto a esta obra de Jorge Reis-Sá, que chegou até mim, agora, depois de tantos anos. Alguma coisa nela deixou marca e temos de ler e descobrir o que foi. A forma, como se diz ? O conteúdo? como se diz ao querer determinados conceitos fixados que o Modernismo aboliu por completo, nos anos vinte da Europa? Eu diria que a fusão de ambos, conteúdo com um sentido herdado do neo-realismo detalhado, cuidando do ambiente, da descrição cuidada de personagens e acontecimentos relativos a cada momento descrito, e forma que de facto inova, na estrutura da narrativa entrecortada por reflexões que obrigam a desvio do pensamento do leitor, da época que é de memória de outros tempos, para o presente de agora. E é por essa necessidade de trazer o passado até  ao agora dos nossos dias, todos os dias, que alarga a dimensão da narrativa e deixa a marca, aquela ideia, sentimento, memória, por pequena que fosse, de que falava Sagan. 

Nisto reside o interesse e a actualidade desta obra, num momento em que diários e memórias, recuperação e transversalidades, se tornaram actuais, renovando o prazer de reler o que outrora foi escrito.

Logo no Índice temos a indicação de que estamos perante o esforço de recuperar, reflectido numa prosa cuidada, de um tempo que remonta ao passado, e se divide em fases: a Aurora, a Manhã, o Almoço, a Tarde, o Crepúsculo, o Jantar e a Noite. Para que se perceba que estamos no recuperar dos tempos de uma vida, nada seria melhor do que esta partição de capítulos. O tema, então, é aqui o Tempo, atravessando o ser, os diversos seres que a escrita materializa ao descrever as situações  e os comportamentos de cada interveniente. A progressão da vida, os incidentes do quotidiano vivido na existência mais comum ou mais complexa. Gosto especialmente do modo como o narrador é seduzido, ao longo das páginas que correm, pela imagem-memória de uma criança que por ali se atravessa e o leva a dizer que essa criança é o mlehor que se tem. Pois através dela se recupera a infância que também já se teve, e embora longínqua se torna viva e presente.

Alguém, não me lembro onde, fez referência negativa ao uso da palavra moço numa prosa actual. Não sei porquê. Está em perfeita harmonia com o realismo dos ambientes descritos, desde a casa, ao campo, às galinhas, ao ranger das madeiras, tantos outros pormenores marcantes num neorealismo ali exercitado. Sou do tempo em que na Tavira da minha avó Rosa ouvia dizer, dos rapazes, os moços, ou os mocinhos, se eram mais pequenos, e das meninas as moças, ou as mocinhas, era um modo de dizer carinhoso e adequado aos tempos. 

O que me leva ao elogio da escrita, nesta narrativa de visão e divisão: não cai em elaborações de roupagens estilísticas a despropósito, é realista, sim, mas directa e despida de arrebiques que se usam tantas vezes apenas para encher mais páginas...

Quando a narrativa, mesmo e sobretudo de evocação é genuína, nada mais lhe faz falta. Basta a fidelidade ao que se viveu e se recupera de novo. Com os detalhes necessários, que enquadram o ambiente e as personagens e emoções da altura, apenas talvez com a tal marca de que falava Sagan, o desejo de que mesmo do pouco que somos algo que seja muito permaneça. 

Y. K.Centeno

Lisboa, 2023     






Thursday, November 09, 2023

OS ANJOS DE RILKE, AGORA

 Quem se eu gritasse

me ouviria

de entre as hierarquias

dos Anjos?

E se algum deles

de repente

me tomasse nos braços

e me apertasse contra o peito

 num gesto de grande amor ?

Eu morreria de certeza

pela resposta 

a um apelo gritado

uma pergunta não feita

tal o terror

que perguntar inspirava. 

O silêncio é o domínio

dos Anjos

o pavor a reacção dos humanos

se quebram esse pavor

interrogando.

Deus não permite 

a interrogação

apenas o aceitar submisso

que até aos Anjos impõe.

Que espero eu então 

do meu grito calado

além de um silêncio

que os Anjos

não interrompem?

Morreriam

desfeitos na sua luz

na sua esfera distante

onde o silêncio

e apenas o silêncio

se poderia ouvir.

Como eu 

ficariam imóveis

feitos pedra

cadáveres

aguardando sepultura

numa cova imperfeita.

Ninguém viria a tempo

de estender a mão 

limpar a testa gelada

ou dar o beijo final

da compaixão.

Fiquemos todos então

guardados

resguardados

do temível abraço

do grito

que ainda se afoga

no peito

sem liberdade

nas pregas

da sua oculta ondulação

Y.K.Centeno


 






Tuesday, November 07, 2023

António Caeiro, O que é a Filosofia.

ANTÓNIO CAEIRO, O QUE É A FILOSOFIA?

 A explicação que dá título a esta edição, da Tinta da China, 2023, responde a uma pergunta, sobre o que é a filosofia, começando pela obra de Platão e Aristóteles, que ambos dão início a uma interrogação que ora corresponde ora não, ao que mais nos inquieta: o que somos, nesta vida que é dada, e o que dela fazemos, com o que sabemos, com o que procuramos saber.

António Caeiro, de currículo vasto, nesta e noutras áreas, como na filologia a origem do sentido das definições que se atribuem à filosofia, ajuda a que se entenda melhor a definição usual: é o amor da sabedoria.

Mas definir o que é a sabedoria é uma tarefa difícil. Bom senso, experiência de vida, conhecimento num grau mais elevado do que é o ser, ou mais ainda do que é o universo criado? Do que é o seu criador? Ou ainda conhecimento de si, do que se é, o célebre nosce te ipsum? Conhece-te a ti próprio (porque assim pela via do que és, conhecerás tudo o mais?)

Ler Platão ensina o contraponto do diálogo, argumento e contra-argumento, e em alguns diálogos, como o Fédon ou o Timeu a reflexão sobre o que se é: sombras de uma realidade que nunca poderá ser conhecida, como tal e em si, e ainda, noutra vertente do seu pensamento, a descoberta de mitos, como o da Atlântida, ou o da música das esferas, que percorrerá a nossa cultura ocidental, recuperado por Shakespeare, por exemplo em algumas das suas peças. Ainda, e quem sabe se oferecendo matéria de maior profundidade, a contraposição, no livro X de A República de dois modelos de utopia social: o da cidade perfeita, em que reina a ordem de um pensamento de sábios, sendo eles que dominam e um outro, em que os criadores, os poetas, têm o seu lugar, ao passo que na cidade perfeita não o têm, devem ser expulsos, pois o imaginário criador perturba a ordem racional que se deseja que impere. Uma utopia, a ordem da cidade, um mito, o da criação perturbadora, que iremos descobrir adiante, nas tragédias, o género literário de que Aristóteles, na Poética, será um sistematizador. Mas Platão deixou um rasto na sua doutrina, o das Ideias fundadoras do Belo, do Bom e do Verdadeiro.

Aqui se torna complexo o nosso estudo do que é a filosofia: é a busca destas ideias materializadas no mundo que conhecemos, na nossa realidade? Ou sendo ideias antes fundam o que passaremos a chamar de idealismo platónico na história da filosofia? Ideias, mas não a realidade, matérias do imaginário mas não do conhecimento tal como o entendemos, de conhecimento racional da realidade palpável, por assim dizer. Séculos mais tarde, nos séculos XVII e XVIII ainda veremos que se discute a oposição razão vs. sentimento, racionalismo vs. idealismo sendo este um dos fundamentos do movimento do Romantismo, tal como o conheceremos sobretudo nos grandes criadores alemães.

Antes disso teremos com Descartes a afirmação do pensamento como razão mesma da existência: je pense donc je suis, penso, logo existo.

Embora na versão traduzida, entre o ser e o existir alguma coisa da essência (a essência do ser, segundo Heidegger) se perca pelo caminho. Em o Ser e o Tempo é aprofundada esta questão. A noção do Ser pertence ao reino da imaterialidade intemporal, universal, das Ideias de Platão, ao passo que é no Tempo que se materializa a existência da condição humana que é a nossa, particular, individual, limitada.

A escolha de Kant, sobretudo com a Crítica da Razão Prática, introduz a dimensão moral nesta apresentação das doutrinas filosóficas que até ele não tinham sido discutidas de modo autónomo. A Ética passa agora a ser uma área de reflexão com um estatuto autónomo próprio, que não só tem lugar como ultrapassa a questão do conhecimento só por si. Entram o bem e o mal na discussão dos valores e das opções que se colocam ao homem no momento da escolha.  Sem Kant não poderíamos entender Nietzsche e a sua reflexão em Para Além do Bem e do Mal que teria, como teve, um percurso que chegou aos nossos dias, pela escrita de um Musil, em O Homem sem Qualidades, ou o fanatismo de um Hitler.

Chamo a atenção dos meus leitores para o facto de eu não estar a fazer aqui um exercício de crítica literária, não faço crítica literária, nem tento, ainda menos, fazer crítica filosófica. Converso, ao correr da pena, com este livro de António Caeiro que me seduziu pelo modo como nos apresenta o seu ponto de vista sobre o que é a filosofia, através de uma escolha de pensadores que estão na base e nos dão os fundamentos do pensar filosófico, desde Platão até Heidegger ou Wittgenstein. 

Interessante como no percurso escolhido poderemos ler em Heidegger a transição para O QUE É PENSAR, suas últimas aulas de filosofia. Pois toda a filosofia é pensamento. E como se dá, em Wittgenstein, uma nova transição, muito própria do Modernismo, sobre as questões da linguagem e modos de exprimir o que se pensou e deseja dizer.  A conclusão parece simples, mas não é: wovon man nicht sprechen kann darueber muss man schweigen. Devemos calar o que não conseguimos dizer. Aqui poderia entrar o célebre comentário de Kierkegaard: onde as palavras acabam, entra a música.

Há então um limite no que concerne às palavras, a expressão, o dizer do que seja impossível. Celan trabalhou o dizer impossível, nos seus versos despidos. Mas Wittgenstein, filósofo que se ocupou em simultâneo do pensamento, como Heidegger, e da linguagem, como Saussure e os estruturalistas, pretende ir mais longe, e nega o que lhe surge como impossível. Será contrariado por Valère Novarina, pintor e dramaturgo franco-suíço que o desafia: ce dont on ne peut parler, c'est cela qu'il faut dire. O que é preciso é dizer aquilo de que não se pode falar. E não se pode por um conjunto de razões, nem sempre fáceis. Por ignorância? Por não se entender os fundamentos que obrigariam ao silêncio? A moda? A pressão social ou política? A descrença num mundo de crenças, algumas radicais e temíveis? Ou pura e simplesmente porque conceitos como os da doutrina platónica das Ideias nos parecem tão distantes do real conhecido que falar ou aspirar a um mundo melhor, mais humano e perfeito não só não pode ser credível, como está imbuído de uma irracionalidade chocante para o homem do século XXI, já bastante orientado por logaritmos, e não por sentimentos piedosos, mas que se tornaram caricatos.

E contudo... a filosofia, com o seu pensar este mundo e o outro, e a reflexão sobre o que é a condição humana (a natura naturata de um Spinoza) ainda continua e ainda nos desafia. A sua importância, o seu estudo, são cada vez mais importantes para a mente humana na inquirição precisamente do que é, e do que pode vir a ser, a menos que seja varrida do mundo por alguma catástrofe inesperada e fatal.

Pensar é algo de estruturante, na mente humana. Nasce da imperiosa busca para lá dos Sinais que, como dizia Hoelderlin, tenham perdido o Sentido). E a linguagem, o que é senão essa mesma estrutura já constituída geneticamente que podemos observar, segundo alguns, desde a infância e evoluindo depois segundo o meio cultural, social, político em que cada um se desenvolve. Discute-se nesta aquisição da linguagem, se é algo de adquirido ou já inato. 

O problema não se coloca a um filósofo, no seu percurso, em que é o pensar que estrutura as suas ideias e a exposição das mesmas, ora seguidas ora contrariadas, como na acentuação do Racionalismo face ao Idealismo ou ao místico neoplatonismo que virá a ter grande influência no século XV, com as primeiras traduções dos antigos clássicos feitas por Pico della Mirandola, Marsilio Ficino e Reuchlin (para a Kabalah judaica). Com eles tem início o chamado Humanismo no Renascimento filosófico e literário (e podemos dizer, em parte, místico, com as traduções de Platão e Plotino). Em Pico della Mirandola é especialmente interessante o seu discurso Sobre a Dignidade do Homem, que fundamenta esse novo conceito de Humanismo, que surge em ligação com o Renascimento.

Trazer a discussão à dignidade humana, sendo o homem uma criação divina, relaciona um com o outro, o homem com Deus, a dignidade suprema, e Deus com o homem, a sua suprema criação.

 Por aqui podíamos regressar a Kant, e à sua Razão Prática, voltando a aprofundar o conceito de Moral e criando um espaço filosófico, o da Ética.

Nesta procura do saber, pela via do saber filosófico, percorre-se um caminho em que tudo está ligado, desde o princípio ao fim que ainda não conhecemos, mas pelo qual vamos, por tentativas, procurar entender o que pode significar. Torna-se explícita a necessidade de ser curioso, de ir fazendo perguntas, ainda que fiquem sem resposta, pois sem a curiosidade que nos move, em nada poderemos progredir, nem na ciência, nem na sabedoria da experiência de vida que é a nossa. A filosofia, pouco a pouco, é isso que nos mostra: o amor e a curiosidade de saber. Saber mais sobre o homem (a dada altura será diálogo com os eus da consciência e do inconsciente) a natureza e o mundo. Um mundo que se alarga para lá do planeta conhecido até ao cosmos infinito.

Até agora passeei por um jardim, com alamedas cuidadas, cada uma conduzindo a uma saída possível, diferente, e com um pequeno banco onde nos pudéssemos sentar, a reflectir. Está na hora de apresentar melhor o Jardineiro, fazendo-lhe a justiça que merece, pois foi ele sempre, e continua a ser, o Cuidador. 

Cito-o, como é devido, nas suas conclusões: 

" No tédio profundo renasce o espírito da filosofia. A filosofia exige a transparência relativamente ao modo como temos vivido, como temos sido com os outros, como temos sido com a nossa própria possibilidade, o nosso potencial. Essa transfiguração e metamorfose podem durar um breve lapso de tempo, numa manhã, no local mais insuspeito, como o corredor da nossa casa a caminho de uma divisão. Nesses momentos faz-se a experiência da vida no estrangulamento do seu sentido. É também aí que nasce a possibilidade de ser quem se é. Portanto, a filosofia não acontece num horário determinado. A possibilidade da filosofia dá-se no interior da existência, 24 horas por dia, sete dias por semana. Porque é óbvio que não nos encontramos nessa situação extrema e radical. O que aconteceu no tédio profundo foi uma vivência que temos de rever e tentar compreender vezes sem conta. A possibilidade de vivermos uma pergunta é também a sua resposta. Depois de nos ter acordado para a existência, a filosofia tem de ser mantida acordada, não a podemos deixar adormecer, porque a ditadura do quotidiano pretende vingar e fazer esquecer-nos do que verdadeiramente nos aconteceu." (p.367).

Descubro aqui uma coincidência (sincronicidade?) com o que Clarice Lispector chamaria a sua Hora da Estrela. Não estão longe um do outro esta autora que comecei a ler aos 18 anos e que agora me chega do passado e este filósofo, moderno criador que nos explica e inspira para um despertar também ele de estrela. 

 Y. K. Centeno

Lisboa, 7 de Novembro, 2023.

Saturday, October 28, 2023


Ah se eu pudesse chorava

lágrimas como rios

não apenas por mim

que já chorei

o que podia chorar

mas por todos os outros

os feridos

os mortos

os que abandonados

sobram

mas não têm destino

ah se eu pudesse chorava

lágrimas como rios

que se abatem com força

pelos ínvios caminhos

onde tropeçam homens

e mulheres

e mais à frente

ainda brincam meninos...


Y.K.Centeno 

Lisboa, 23 de Outubro, 2023

Monday, October 16, 2023

MÃES

 



MÃES

Já estavam mortas 

quando os soldados voltaram

para as matar.

Tinham levado os filhos

não diziam para onde

se mais perto ou mais longe

e as mães sem saber como

nunca os iriam encontrar.

16 de Outubro, 2023

Sunday, October 15, 2023

 Corações

São corações partidos

que se debruçam

sobre os corpos

que Alguém

se esqueceu

de abençoar.

Não há terra que chegue

e só o Tempo

com tempo

os poderá tapar