Wednesday, August 16, 2023

GELO, de SÉRGIO NAZAR DAVID

 Poemas de um grande poeta que olha em seu redor, enquanto também se rodeia de silêncio, que não lhe pesa, antes o deseja, quando escreve.

A sua mão corre no papel, o primeiro verso quase que arrasta os outros, que constrói ou desconstrói, com o bater de um mesmo ritmo, podia ser de Camões ou de Pessoa, ou de Mário de Andrade, o Modernista.

A narrativa poética é aqui tão natural que fulgura, apesar de algum hermetismo no poema que, apesar de tudo, por ser poema, permanece fechado em si mesmo, exigindo releitura. E voltamos a ler, decifrando o que se esconde no intervalo das palavras, aí reside o sentido do verso, a sua necessidade.

Em Tercetos Queimados, que também li, e foram a minha primeira revelação da sua obra (terei de ler o blog mais uma vez) não referi o que agora ma parece tão óbvio, pelo contraponto com o GELO. No primeiro a presença subtil do elemento Fogo, e neste agora a presença da Água. Pois este gelo é água, um dos quatro elementos da alquimia transformadora. 

No poema da p.19, Gelo -1, que indica que deve ser lido junto com outro de Mário de Andrade, eis o que escreve:

Por isso descremos dos gestos profiláticos,

por isso sempre que possível o compasso

de ombros e pernas fora da máquina-mundo, 

e a sede do nada se nos alcança o êxtase

da carne ou do verbo. Um corpo é sempre

um corpo estranho; um ano, vinte e tantos

anos. Dentro de mim um cubo muito se perde mas

daqui indago a emaranhada forma humana

corrupta da vida que muge e se aplaude.

Ossos rijos, por enquanto, sangue em temperaturas

voláteis. Algo o detém como se esperassem.

Exegetas pouco pouco alcançam a miserabilíssima arte

nossa ao mesmo tempo em que se rompem

e se dobram fronteiras e colunas (vertebrais).


Adiante, em Gelo II, p.33, o contraponto surge mais claro, nestes versos:

...

Num pico

de neve escarpas de medo

e coragem ardendo.

As mãos frias dos mortos

têm esse fogo por dentro.

E segue num Gelo III, p.37 a experiência que um " grito primevo" num sonho lhe permite ouvir, enquanto"tanta coisa se move, e a vida desaba". Por isso o poema, este, dialoga com outros, como no poema que deve ser lido com e, como ele diz, "não deságua, nem se move nem se abre". Tem de ser o leitor a abrir.

Sérgio dialoga, nos seus poemas, com outros que são poetas, como ele. Num dos seguintes, No Teu Rosto, a experiência provém de Gastão Cruz, O Verão Novo, na p.63:

E termina: "o gesto busca um novo sopro / uma sílaba ao menos - agora / que já somos outros". A experiência que define como " de tempo e espaço, tempo e modo" é a experiência da cidade e de um corpo que mudam. Mudaram e são outros, e talvez essa mudança lhes permita o verso.

E de novo o Fogo marca a sua presença, p.73, em O Cacto:

O poema é o próprio fogo, imaterial

em sua imanência mas fogo

...fecho os olhos, apenas fecho

os olhos para que o poema nasça.


No poema AINDA, (saberia ele que é o título de um meu próximo livro?, ou é uma destas sincronias, como dizia Jung? ) que releio porque ali surge a pergunta de "quem sou", igual em todos os que escrevem, para saber quem são, e ainda que não haja resposta, pois só Deus disse eu sou o que sou (ou aquele que sou) - não disse sou quem sou, nem sou aquele que é, a questão do ser ficou em suspenso, desde os primeiros tempos, e até hoje. 

Sérgio escreve no poema que tudo foi mudando, e até as frases já não são inteiras, pobres versos fracturados, incompletos, em busca do que seriam, se o ser afinal fosse outro e não o que é. Mas conclui, Ainda assim escrevo, e é nesta palavra que desejo ficar, pois vem ter comigo assim que a leio, eu que me julgava parada, não apenas interrompida por coisas que são mais do que eu, e de repente me descubro Ainda a escrever .

Neste Gelo de Sérgio Nazar David se regressa ao corpo, e de forma muito especial à Vida. 








 

Friday, August 04, 2023

João Cunha Borges, Chão de Estrada Nenhuma, 2023

Um chão de Estrada Nenhuma, título que se torna apelativo pelo facto de uma estrada ser assim, que pode ser sonhada, ou sentida como enigma, pois onde leva, se não existe, ou pelo contrário existe sem limites, esse nada é um tudo, acelera o caminhar em tantas e tão múltiplas possibilidades que difícil será escolher. Mas estão lá, em nenhum e em todo o lado, e é para o caminhar que se aponta no simbolismo do título. O poeta é um caminhante, um viandante, um Wanderer, sobre um chão que se materializou, enquanto a estrada se transformou em onda, roubando agora os conceitos da física de partículas, o poeta vivendo ora no chão-partícula ora na onda que o seu olhar transforma. 
Pois todo o olhar transforma aquilo que vê, e o do poeta ainda mais, pois tem um olhar que sente, um olhar que vibra e que transforma o mundo à sua volta.
Em livros anteriores, pequenas edições altamente cuidadas, com belos desenhos e ilustrações de hors-texte de conhecidos artistas, temos livros de desejo em suspenso e de paixão, seguidos de um desalento citadino, como era tão próprio de Pessoa, o mais citadino dos nossos grandes poetas.
Neste livro encontramos, dedicado a duas amigas, ambas artistas, um Quarto com vista para o silêncio (pag. 59).
Falarei adiante do silêncio, mas de momento devo salientar a cultura vasta deste poeta, que se manifesta logo de início pelas epígrafes que escolhe para enquadrar num pensamento orientador, dos muitos que leu, a sua própria criação. É um poeta lido, culto, e que nos dá em antecipação a memória de algo que o inspirou. 
Era Eduardo Prado Coelho que valorizava muito, nas suas apreciações, as epígrafes que cada um, incluindo ele próprio, escolhia. E na verdade representam uma afinidade do criador com outro criador que também ao leitor podem abrir caminhos de pensamento.
Foi um acaso, ou uma coincidência feliz, que estando eu a ver na televisão o discurso formal do Papa no primeiro dia, o tenha ouvido falar de caminhos, a variedade, e  que na inquietação da procura, ou da escolha, tantas possibilidades fossem oferecidas.
João Borges tem o seu chão. Mas caminha, na inquietação de que não vê estrada nenhuma. Mas caminhando alguma estrada lhe surgirá pela frente, e no caso dele a pulsão do poema, em movimento irrecusável, será a estrada que parecia não existir.
Penso em Clarice Lispector, que dizia que eram tantos os gritos que a abafavam que às tantas se tornava imperioso gritar, por via da sua escrita, apaixonada e intensa, de  coração selvagem. 
Assim nasce o poema. Da necessidade absoluta de ser dito. Esse dizer será construído no silêncio em que as palavras se procuram. São estradas, essas palavras, são caminhos esses versos, tantas vezes imprevisíveis, mas que na inquietação precisamente se afirmam.
Gostei de ver, ao ir lendo o livro, a presença de uma certa marca oriental, sob a forma de um ciclo de dois versos, como se fossem um percurso de Kaikai e que destaco os finais: " dúvidas sobre a verdade / e contas a ajustar no coração / sou eu".
Que belo final, não apenas para um poeta mas para todos nos que o lemos. Pois é a dúvida que conduz à vida, não a certeza, a inquietação conduz, a certeza mata. 
O poeta é o puer eternus de que fala Jung, a criança eterna em nós, a irrequietude da curiosidade, que só ela, como também disse Hawking aos seus alunos de astrofísica conduz ao progresso. O chão a que o poeta se refere, não é o chão que nos prende e paraliza, como na frase popular de ficar pregado ao chão. É o espaço em que o tempo se suspende e nos protege, até que novo impulso nos leve a arriscar, novos desejos, nova paixões ainda que breves se esgotem e possam deixar desalento e amargura. Faz parte da vida, viver o que a vida nos dá de melhor e pior. Viver é uma abertura permanente ao que aí está, e acabaremos por ver, ao caminhar. Nenhuma estrada é o silêncio que a seguir abre a convulsão da palavra. e lembro para lá de Clarice, o filósofo Kierkegaard : quando se esgotam as palavras vem a música. 

Mas gosto da escolha de Gastão Cruz, neste ciclo de dois versos que acima referi. É  dele que João retira o título do seu livro, O chão de estrada nenhuma (pag.17). Criador, com os do Grupo da Poesia 61, ele quer renovar o discurso poético do tempo, junto com Fiama, Luisa Neto Jorge, e outros. Era o discurso do neo-realismo, mas mantendo na mesma um olhar realista sobre a necessidade de mudança social e política, em tempos de ditadura.
 Gastão afirma: " um verso é uma zona proibida" . E era, na altura.
Agora não  há zonas proibidas.
João Borges é já um produto dessa novo imaginário na poesia, nas experiências que abalam corpo e alma, e nada impede que se exprimam, na dôr ou na alegria mais íntima. Os surrealistas serão os grandes arautos da nova escrita, da imaginação em liberdade, da experimentação automática, de cariz freudiano assumido e obrigando a novo pensamento sobre as mensagens do inconsciente, individual e colectivo. 
Quantas estradas, afinal...
Não cabe no curto espaço de um comentário tudo o que a leitura no oferece. terá de ser o leitor a completar os sinais e os sentidos do escrito, do dito e do não dito.

 




 

Thursday, August 03, 2023

Portugal, Lisboa, Bairro da Mouraria

 Mouraria, Mouraria

tanta côr tanta alegria

imagem de tanta vida

de longe e de perto vivida

por amor foste escolhida

tua gente repartida

como versos de cantiga

aberta nos corações

não há lágrimas que durem

são limpas por tua luz

pelo encanto das ondas

desse mar que nos seduz



Friday, June 30, 2023

The First Century Aramaic Bible in Plain English - (The Torah - The Five Books of Moses)

 Fica-se logo a saber, na introdução, que estes livros resultam da tradução feita por um cristão do séc.I, convertido e conhecedor do hebraico e do aramaico e que achou útil dar a conhecer esta versão, mais antiga, dos livros sagrados da Bíblia, dos espaços onde decorreriam os momentos da História de Israel. O Aramaico era a  língua de Israel, da Síria e dos imensos territórios férteis da Mesopotâmia, então a Pérsia e a Babilónia e  os berços da civilização e mesmo até, diz o autor, do Jardim do Éden. 

Era esta a terra de Abraão, de Isaac e de Jacob,  em que todos falavam em aramaico,   há mais de dois mil anos.  O primeiro livro do Génesis está em aramaico, de que o autor da tradução vai dando alguns exemplos.

Para mim o interessante é ver em que pontos difere, esta sua versão, da tradicional, conhecida, da Bíblia de Jerusalém. Começando com as primeiras linhas da Criação, não se notam diferenças. Os episódios, a expulsão do Éden, a morte de Abel por Cain, as gerações e a multiplicação pela terra, que Jeová ordena, mais do que uma vez, o desgosto com os pecados das suas criaturas, a excepção de Noé, nada por aqui me suscita interrogação. 

Mas chegando ao capítulo 6 é interessante ler o que se diz: os filhos do homem começaram a multiplicar-se Na face da Terra e tiveram muitas filhas. "os filhos de Deus viram como eram belas as filhas do homem e ficaram com elas todas" o que lev a Jeová a dizer que o seu espírito não perdurará  no homem porque ele é feito de carne, e viverá até aos 120 anos ( antes podiam viver até aos 800 anos, e a partir de agora é imposto um tempo certo, e este limite dos 120 anos, o que hoje em dia está a ser quase verdade, no nosso tempo actual...).

Segue-se a referência aos Gigantes, Homens Poderosos, filhos desta união dos filhos de Deus com as filhas do homem, e que seriam os heróis míticos e "da fama" dos tempos antigos. 

Poderia o autor estar referir-se a Homero, à sua obra por onde tudo passa, de mitos e de lendas, que a memória arcaica foi fixando? Lembro Polifemo, o Gigante de Rodes, de que se encontrou um pé..haverá outros, como Golias ou como os que surgem nos contos populares.

Segue-se o desgosto de Jeová com a humanidade que criara, e a decisão de ajudar apenas Noé, indicando-lhe como fazer a sua arca de salvação e levar um par de cada criatura animal e humana, para escapar ao dilúvio.

A numerologia é algo de tão frequente e tão fundamental, nestes escritos, que de facto se torna uma verdadeira ciência, que só os peritos, os kabalistas podem entender.

Mas para mim, no episódio sobre o alfabeto e o significado de cada letra, a começar pelo Aleph, foi muito interessante que significa o NADA, e não como podemos pensar o VERBO primordial.

Primordial foi o Nada e nesse Nada tudo teve a sua origem.

 

Tuesday, June 20, 2023

FILIPE MELO e JUAN CAVIA, SANTIAGO VILLA, Dog Mendonça e Pizza Boy, 2023

 Neste sumptuoso volume, de verdadeira edição de arte, se reúnem as aventuras de Dog Mendonça e Pizza boy, com um extra que os aficionados da banda desenhada irão apreciar ainda mais. Por ser inesperado, este extra, que se inspira numa lenda, que pode ser real na origem ou fictícia, o que interessa é que ocupa ainda hoje o imaginário da cultura chinesa, e remonta às aventuras de uma feroz pirata - mulher -  que reinou pelos mares da China no século XV, tendo por base um conjunto de belos  poemas, cujos versos, variando conforme o autor, mas todos louvando a coragem, o desaforo, a violência dos saques daquela misteriosa mulher.

A aventura começa com a vida de Lo Pan numa pequena aldeia de Cantão, junto ao rio das pérolas. É um menino  cujo maior prazer é passear com a mãe na praia, brincar apanhando conchas e pedras redondas, e à tarde aprendendo velhos poemas, ou inventando outros que lhes ocorriam e nunca tinham sido ditos. Era uma vida de rotinas tranquilas, esta de Lo Pan com a sua mãe até lhe acontecer uma aventura extraordinária, que interrompe a sua infância feliz e o leva a um crescimento de verdade imprevisível.

A mãe, de nome Lu Shi, tinha um sonho nunca revelado, pois às mulheres ir o teatro ou de algum modo conviver com a música ou a dança ou o teatro eram actividades interditas. Mas ela guardava esse sonho, de um dia poder vir a ser actriz...sonho impossível de facto. Filha de mãe pobre, a mãe tinha-a vendido a um homem mais velho que tomaria conta dela, e do filho que tivessem.

Assim, Lu Shi o que fazia com o seu filho era brincar também, sonhar com os personagens das óperas conhecidas, repetindo os versos que uma vez ouvira, quando se disfarçou de rapaz e foi ver a Ópera de Pequim.

Nos mares do império Quing, o desta época em questão, navegavam os mais terríveis piratas, cujas aventuras corriam de boca em boca, com os assaltos os roubos, e a fama que adquiriam. O mais célebre era Zhen Pan, o marido de Lu Shi e pai do pequeno Lo Pan, dono de centenas de barcos.

Aos dez anos o pai leva-o na sua primeira viagem de barco, para que aprenda as artes do mar e da guerra. E certa outra viagem o pequeno assiste a algo de terrível, viu o pai decapitar um outro pirata, seu rival, pois queria ser o dono de todos os mares. 

De regresso a casa o pequeno Lo Pan corre para os braços da mãe, e do seu carinho cheio de amor e conforto. Tinha sido para ele uma experiência terrível.

Também ele, como a mãe, tinha um segredo. De noite vestia as roupas de mulher que ela usava, pintava-se com a elegância que lhe conhecia, e depois cantava e dançava, enquanto o resto da casa dormia.

Mas um dia a mãe apanhou-o nessas brincadeiras, diante do espelho onde ele se imaginava como se fosse o palco de um grande teatro, e zangou-se com ele. O seu destino estava traçado, ele teria de ser um pirata, como o pai.

Contudo, o pequeno Lo Pan acabara de fazer uma descoberta : a beleza da Arte, e do Feminino (que Jung chamaria Anima, o feminino no Ser). Não conseguia entender por que razão algo que o fazia tão feliz podia ter algum mal. 

A história sofre então uma reviravolta: o pai chega um dia antes do previsto, e apanha o miúdo vestido com as roupas da mãe, a cantar e a dançar em rodopio feliz. O pai perde a cabeça, e furioso zanga-se ao ponto de o expulsar de casa, renegando-o para sempre. Exclama que aquele não era o seu filho, e melhor ficaria na casa de uma célebre prostituta. 

Ameaçado até pelos criados que o tinham visto crescer, sem que a mãe o possa ajudar, Lo Pan sai e estremece ao ouvir o bater com estrondo do portão da casa. 

Foge pela noite fora, apavorado com medo dos bichos que a sua imaginação criava, até que chega a uma cidade, onde o veremos transformado de jovem rico em pedinte, a estender a mão para uma moeda ou algumas migalhas de comida.

Surge a dada altura diante de si uma mulher, que se debruça com voz suave para o ajudar:  acorda, diz, chamo-me Mei Li e o seu olhar era cheio de compaixão. Lo Pan levantou-se e seguiu essa mulher, sem saber muito bem para onde. Ia começar uma nova etapa na sua vida, num barco enorme, de prostitutas que serviam com grande sucesso, clientes que ali vinham regularmente e de quem ele, nas suas vestes femininas, também serviria conforme pudesse. 

Por muito estranho que de início lhe parecesse, acabou por se habituar e sentir feliz, entre elas todas. Já tinha perdido a esperança de alguma vez encontrar o caminho de volta a casa,  e aceitou esta nova forma que o seu destino tomara.

O seu gosto pelo canto e pela música nunca diminuíra. e certa noite ouviu Mei Li a tocar e lembrou-se de cantar os versos da célebre canção que ele conhecia desde a sua infância, a da flor de Jasmim tão bela, tão bela e tão perfumada...Mei Li ficou espantada com tão grande dom assim revelado, e de novo a vida de Lo Pan iria levar uma volta. A beleza do seu canto tornara-se conhecida e vinham pessoas ouvi-lo cantar, juntando-se por ali à roda do barco.

Ele escolheu então o seu nome artístico :

MADAME CHEN - A MULHER DRAGÃO

Podia demorar-me aqui um pouco, para reflectir nesta escolha e no seu simbolismo: mulher-dragão, reunindo o feminino Yin e o masculino, Yang, a sombra e a luz, nesta história de alguém que busca sua identidade real, complementando contrários.

A aventura vai crescendo em acção e mistério, levando consigo o leitor.

A fama de Madame Chen chega aos ouvidos do Imperador, que chama Lo Pan ao seu palácio de Pequim. E ele/a ali fica com ele adoçando uma velhice que levava já o velho imperador para o fim dos seus dias.

O sucessor não ligava nada às artes e Lo Pan perdeu o seu lugar, saiu de Pequim, regressou à protecção de Mei Li. Não cabe num post um guião como o que Filipe Melo concebeu, base real para um filme que pode vir a ser extraordinário de acção e emoção. Basta agora dizer que numa das suas sessões, no meio de grande multidão reconhece um dos criados das su casa de infância, e força-o a levá - lo de volta até lá onde fica a saber que a mãe se suicidara com o desgosto da sua expulsão e o pai, por sua vez destroçado com a morte da mulher se retira para o mar, para os seus barcos, nunca mais sendo visto em terra.

A escrita de Filipe Melo, minuciosa, delicada e subtil, adensa a curiosidade e a emoção de quem lê, e seguimos, como quem segue uma aventura estranha que, sem que se diga, é na verdade uma história de iniciação, como num Bildungsroman - romance de formação ao modo de um Goethe, em Wilhelm Meister's Lehrjahre ou de um Fielding, por ex. em Tom Jones. E passo o célebre Dom Quixote...Há muito suporte cultural, também oriental, claro, de um imaginário antigo, aventuroso, mas contendo uma lição, ao modo do Taoísmo, ou da moral de Confúcio. 

Apresso-me a não revelar tudo, o leitor deverá fazer também ele o seu percurso de iniciação pela leitura. Lo Pan usará a sua fortuna para comprar um barco, arranjar uma tripulação de assassinos de coração duro como o dele agora se tornara, feito pedra, e decide correr os mares e tornar-se tão conhecido pela ferocidade e riqueza dos saques como fora o seu pai. No seu barco serviam homens e mulheres desde que dispostos a todas as atrocidades.

E a aventura continua até ao encontro com o seu pai, que não aceita a rivalidade e tendo conseguido prendê-lo o decapita, de um só golpe, e lança corpo e cabeça ao mar.

A lenda reza que o dragão rei daqueles mares se toma de compaixão pelo jovem, opera o mágico milagre de reunir a cabeça ao corpo e lhe devolver a vida com uma condição....

E fico por aqui , o leitor terá de descobrir o que depois sucedeu. 

Sem esquecer  o que as ilustrações de Juan Cavia, no seu desenho ora mais carregado ora mais leve, acrescentam ao sabor das páginas com o prazer e o entendimento do que vamos lendo.  A ilustração é uma arte especial, o criador tem de se fundir com o que ali está criado pela escrita, ampliando o sentido.



 


Saturday, May 27, 2023

João de Mancelos, CORAÇÃO DE ALUGUER, ed. Colibri, 2023

 Já tenho escrito sobre João de Mancelos, com prazer especial, julgo que nos é comum, pela arte do Haikai. Embora um ou outro autor me tenha dito que tanto faz dizer Haikais, para plural, eu aprendi com Alberto Pimenta, cuja erudição é indiscutível, que o singular é Haiku, e o plural Haikai (sem se usar o "s"). Como não falo japonês e só leio traduções, não entrarei nesta discussão, mas tenho uma linda prenda do Alberto à minha frente, uma linha vertical de um Haiku condensando nessa imagem uma única ideia. Esse é o segredo e o encanto desta prática artística japonesa: uma ideia única numa única imagem que a condensa e contém. A ideia dirige-se ao nosso espírito, a imagem ao nosso sentimento e sensibilidade, como faria um desenho ou um quadro. Uma imagem.

Logo no título do seu livro, que prefiro chamar de poemas e não de Haikai, excepto num caso ou noutro que o permitem, o autor nos deixa com a imagem de um coração"de aluguer". É de aluguer por estar livre e feliz ou por ter sido libertado por outro, com desgosto seu? 

Ficamos com curiosidade de saber e vamos ler o que nos diz, nas suas páginas. Está dividido em 4 secções: Deslumbramento, Labaredas, Abandono e Memória.

Momentos que revelam Atracção, Paixão, Afastamento e  Memória

(Saudade do fim dessa paixão, poetizada ao longo dos vários versos?).

Há que ler, devagar, a leveza dos versos escritos como feridas de alma que não se ultrapassaram. Ou não haveria memória, mas esquecimento, ou apenas simples evocação. A memória traz um actualizado sofrimento, a evocação pode ser tranquila em paisagem  de horizonte longínquo.

Muitas vezes me ocorrem os poemas de Rilke, a propósito das cartas a um jovem poeta, a quem recomenda que não fale logo dos seus primeiros impulsos de amor, pois o amor perturba a clareza do verso. E que só escreva se para si fôr a escrita questão de vida ou morte. Para Rilke era, e assim ele criou uma obra que se tornou universal, para não dizer eterna.

O amor, deste coração de Mancelos, não sei se será de vida ou morte, na narrativa que é oferecida. Mas a algum impulso mais fundo obedeceu, ou não o estaríamos agora a ler, acompanhando o que sentiu nos diversos momentos que também eles são universais: pois quem nunca amou, viveu e sofreu amando, até que tudo findou? O tema do amor é o mais universal, como há pouco tempo, falando de paixão e morte nos dizia José Pedro Serra em Mythos, o seu programa da televisão.

Na minha idade sei bem que paixão e amor não são a mesma coisa, e conforme as épocas e as culturas a sua vivência é diversa.

Vivemos uma época de veloz vivências, ou seja de paixões, intensas mas condenadas à brevidade dos tempos. Já o amor seria vivido de outro modo, e nem sequer está na moda. Daí que neste livro as labaredas tenham mais peso e rápido se desfaçam em abandono. 

Mas volto à capa do livro, que além de ser muito bela, (parabéns à Raquel Ferreira, que não conhecia como ilustradora) nela sim, com o seu título inscrito, coração de aluguer, descubro o impulso misterioso de um Haikai: Fino rosto no meio da sombra e mão que vivamente afasta, recusa (quem sabe se depois ter aceite, alugado, alguma relação de momento, passageira?)

Um Haiku pode ser assertivo, mas pode igualmente ser de interrogação deixando ao leitor a hesitação da resposta. João de Mancelos, e este seu gosto pela cultura oriental, japonesa, terá lido Kawabata e as suas Belles Endormies, notável romance testemunho de uma prática usual ainda no seu tempo e que eu li ainda jovem, em Paris e tanto me deslumbrou pela beleza e pela crueldade que indirectamente revelava. Jovens que eram adormecidas para que os seus corpos indefesos pudessem ser alugados por quem pagasse uma noite junto delas, e vivesse a ilusão de amar e ser amado em entrega total. Muitas morriam, devido à anestesia que lhes era dada. No caso deste romance o homem já de idade que procura e aluga sempre a mesma jovem, por quem se apaixonara de verdade, e a visita uma e outra vez, o amor é vivido de forma intensa e trágica, pois ela acaba por morrer. 

O amor de aluguer descrito nos Haikai de Mancelos é forçosamente diferente, pois ele é jovem, e num jovem a relação é vivida de forma intensa, e não busca um corpo tranquilo,  quem em nada se recuse, mas que esteja bem vivo e que lhe corresponda, enquanto a relação dure. É o momento das LABAREDAS. 

Meditando sobre a capa, uma ilustração também pode evocar uma forma de Haikai. Atrevendo-me a pensá-la ( a idade que tenho já me permite tudo, ou quase, e a intenção é  desvendar amor e não  criticar) eu escreveria:

Olhar que se desvia

Mão que afasta

Paixão que se acabou 

ou

 perdendo-me em variantes:

olhar desviado

mão que afasta

paixão que se extinguiu.

Fica-nos a questão do adjectivo, " de aluguer" .

Coração de aluguer não pode ser um coração qualquer, e só o poeta poderia explicar melhor: nessa relação que a narrativa poética descreve quem foi que por momentos a viveu, a Amada ou o Amado, quem abandonou primeiro e para sempre, disponível apenas para aquela espécie de aluguer e nada mais? Amor de acaso e de ocasião?

Mas que foi enquanto durou intenso e deixou marcas?

Vamos ler.

A PRECE é um apelo, depois de um deslumbramento, da descoberta de alguém que se deseja. Os versos adiante confirmam essa sede de amor: " o meu amor vinha / de um deserto longínquo / e tinha sede de mar.

A solidão é a imagem escondida o amor a revelada. Lembro a epígrafe de Italo Calvino, no início, o mar dentro de um copo", metáfora para a poesia. Ou aqui um deserto que procura a água do mar.

O imaginário da água atravessa estes poemas, e sabemos como da água nasceu Vénus, a deusa do amor esplendoroso a que os poetas se podem entregar. Água, amor, beijos de princípio do mundo, pássaros em busca desses vôos de pura elevação espiritual. Na verdade, tudo é inocente, o corpo do desejo, só de sonho, ainda não está presente.

Mas haverá em breve a imagem do fogo, acelerando o bater do coração sequioso.

Já em RISCANDO A NOITE, depois do elemento água  temos no fósforo o elemento fogo. Água e Fogo, como Terra e Céu, os elementos base do imaginário poético desta narrativa. 

No poema seguinte ANDORINHAS EM OUTUBRO, outono da melancolia,  da velhice sei bem, surge o que diria uma evocação das Belas de Kawabata: "clandestinamente / a jovem e o velho amam-se". E finalmente o corpo desejado, em SOLETRO TEU CORPO DESPIDO:

"soletro o teu corpo despido / entre dosi versos. vem /

interrompe a minha morte".

Entramos assim na segunda parte, de título LABAREDAS, pois já o fogo arde na paixão finalmente vivida.

Água e fogo, fusão alquímica, de que há uma bela gravura indiana do século XVIII que Jung reproduz no seu tratado sobre Psicologia e Alquimia.

Em RAPARIGA ENTREABERTA a fusão torna-se explícita:

"ela entreabre-se ao amor: / afastam-se as águas / entra-lhe o fogo". Ou ainda em RITUAL:

"noite a noite, eu colhia / estrelas ou versos na escuridão / incendiada do teu corpo". Toda a relação se passa na escuridão da noite, como se apenas de noite (ou a dormir, como em Kawabata) a paixão pudesse plenamente ser vivida.

TODA A ESCURIDÃO DA NOITE

tinha uma só boca, 

mas toda a escuridão da noite

para te beijar.

NÃO SEI O QUE CEGA MAIS

não sei o que cega mais:

o lume, o amor, o silêncio

a tua pele de cal na escuridão.

PARA SER DEUS

deus precisa da eternidade 

para ser deus. a mim,

basta-me uma noite contigo.


Adiante falará do que é o seu amor como "ofício de labaredas". Até que tudo se consome e se transforma, nas cinzas do ABANDONO. Terminou a hora da entrega, acabou o que parecia eterno e era só aluguer? Paixão, mas feita de empréstimo e não de completa entrega? Só ele saberá dizer, o que encontrou no amor e na paixão a intensidade do verso.

A paixão definida como "outrora seda" é agora " a pele que a serpente despiu". Resto seco que se deixa para trás como a da serpente , que introduz aqui uma nova metáfora, pois fica no ar a perversidade que atribuímos à serpente, desde logo no Éden, jardim perverso que até agora não tinha surgido. 

Recuperando o imaginário que temos acompanhado, vimos a água, o fogo, vemos agora o céu que fora indicado pelos pássaros e agora é de novo pelo vento.

O vento é o pensamento, é o que transporta e transforma, neste caso um coração que o poeta interroga:

"diz-me: quem flutua, agora,

no teu coração

assombrado pelo vento?"


Deixo ao leitor a continuação da leitura pelos versos da Memória, destacando apenas o final, porque de novo, como no início há um apelo pungente, a última chamada que se guardou algures na memória: " esta noite e para sempre /que o meu coração anoitecido / amanheça no teu peito".

Um belo livro.






 


  





Sunday, April 30, 2023

  

O MELRO

Não estás aqui ao meu lado.

 Bem posso olhar

quando a luz diminui

e na varanda

vem um melro falar.

Se me levanto ele foge

tem a sua relva algures

num jardim não muito longe

onde irá pernoitar.

É feliz esse melro

tem um poiso que conhece

e não tem de procurar.

Eu ainda te procuro

mas já não estás ao meu lado

e não sei adivinhar.

 

30 de Abril, 2023

 

 

Nuno Félix , O Desfazer Das Coisas E As Coisas Já Desfeitas, ed. Companhia das Ilhas, 2015

 

O desfazer das coisas, mais uma vez.

Durmo de noite, durmito o dia todo. Tenho o seu livro à minha frente. Abro ao acaso numa daquelas páginas em que apanho logo o sobressalto de um exercício de surrealismo que joga com uma espécie de auto-cadáver exquis entre a ciência, a anatomia cruel de imagens de gráfica anatomia, descerebrada, e um puro jogo de imaginação literária, erudita, por vezes mesmo simbólica, arquetípica que nos deixa perplexos enquanto tanto imaginário que se auto desconstrói nos eleva para outro patamar.

Nuno Félix, é preciso reconhecer, é demasiado sábio para que o possamos entender. Não nos oferece conhecimento, a nós pobres leitores, mas experiência e sentimento. Exige que o sigamos por caminhos estreitos, as finíssimas ou mesmo raras sinapses entre neurónios que se vão esgotando no meio dos exercícios. O que procuro, quando o leio?  De modo nenhum repetir o seu impossível exercício, mas descobrir, nos intervalos, algo que esteja escondido e me seja revelado.

Arte é revelação, e a escrita meio surrealista, ainda que entremeada de realismo, traz consigo surpresa, desafio, vontade de continuar. Viramos as páginas, seguimos outro parágrafo, procuramos, numa nova metáfora o sentido que traz. Na Ciência como na Arte o sentido dá vida.

Na desconstrução, que é busca e exercício, ambas se encontram e voltam de novo a construir. Essa é a secreta lição?  O sentido da Vida?O que andava perdido do Sinal primitivo?

Leio "Isto é um risco real":

Poderemos continuar ágeis a entrar e sair dos símbolos e a papaguear detritos de uma democracia adulterada? Poderá a mente fazer os dedos agarrar as coisas e espremê-las até o nome aparecer? Como um macaco agarrar e lambê-las e esse saber ser uma nuvem com todas as cores? Quem aparecerá para pensar? Quem ouvirá o pensador desfazer-se no meio do lixo gritar por si - pelo seu nome - pelo nome das coisas querendo tudo separado por gavetas com rótulos? O tempo come os pigmentos da cabeleira das letras - Deixa os símbolos sem correspondência física ou a lei do próprio movimento destruindo a relação à coisa e recriando-se como negação - Funcionará ainda o cérebro com os símbolos rindo da sua loucura?" (p.47).

Para entender seja o que fôr, mesmo uma Democracia deteriorada, há que voltar aos gregos como num outro texto, de abertura, o autor avisou. Heidegger fez o mesmo, quando escreveu, em fim de vida e de carreira recuperada,  sobre O QUE É PENSAR. E fez o que é impossível não fazer, se quisermos pensar...recorreu a um verso inicial de um dos grandes poetas, para epígrafe, Hoelderlin, no Hino à Memória, Mnemosyne: somos um sinal que perdeu o sentido...

E aqui estou eu, com Nuno Félix, e o macaco real que também pode ser um sinal, o deus Thot dos egípcios, metáfora escondida de Hermes, o da sabedoria, a cogitar sobre o que leio, também eu em busca do nome,  o nome oculto, não meu para que o gritem, mas para que eu o saiba, e o guarde em silêncio? 

Será pura coincidência que há dias me tenha debruçado sobre os últimos poemas de Ingeborg Bachmann para descobrir nela o peso das palavras, os nomes que Celan carregou de sentido e lhe foi transmitindo até morrer? Ao mesmo tempo que atrai e recusa os símbolos, eis Nuno procurando à rebours, ele já é de outro tempo, o de agora, o de uma nova negação que constrói e desconstrói, mas sempre para recuperar o que não queremos perdido, o Sentido que só ele dá Vida renovada ao Sinal.    




Thursday, April 13, 2023

O TEMPO

 Uns viram-se para fora

outros viram-se para dentro

entre o fora e o dentro

o Tempo

Tuesday, April 04, 2023

LILITH

 

Lilith

Chegara por fim

a sua hora.

À volta dele

todos queriam ajudar

queriam que se salvasse

daquela Mãe negra

que ali pairava com

 sofreguidão de raiva.

 Ia directa ao coração,

que não comia

como tinha feito com outros

em tempos imemoriais.

Não, desejava agora

arrancá-lo, parando

esforços de salvação,

queria arrancá-lo

do peito tão amado

e enterrá-lo bem longe

na cama de lençóis brancos

que tinha preparado

no seu reino de trevas

onde ficara exilada

por um deus sem nome

que a tinha castigado.

 

5 de Abril 2023

 

 

 

Saturday, April 01, 2023

 UM LIVRO

Um livro é um amigo

pode ficar na mesa

à nossa frente ou

ao nosso lado

com os outros

que foram lidos

 e deixamos ali

desarrumados

é uma presença fiel

não obriga a ser lido

pode ficar assim

no seu silêncio

não há ofensa

ele fechado

e nós calados

 

2 de Abril, 2023

Saturday, March 25, 2023

GATOS , para o João

 

Ele quer mimo,

tem um gato.

O gato

também quer mimo

e busca na cama fofa

o seu lugar mais quentinho.

Primeiro na almofada

mas é só para enganar

ele quer mimo no pescoço

do seu dono a dormitar

e logo a seguir

no seu rosto

escondido sob o lençol

que ele ajuda a destapar.

Calor a mais não é bom

estraga o mimo procurado, 

e o gato deseja agora 

 o seu peixinho sonhado.

Tanto amor liga estes dois

nunca dormem separados

onde está um 

está o outro

este mimo é de durar.



Ainda o Tempo

 

Descubro que afinal

não vivo o Tempo, que

o grande Heidegger definia 

como essência que dava ao Ser

a sua parca existência.

E digo parca

porque o Tempo será talvez eterno

se confiarmos nessa filosofia

ou no cosmos que é 

 também ele um infinito 

segundo agora se afirma.

Mas esse Tempo não é nosso,

ensina a experiência de vida,

o nosso é o tempo pequeno

o tempo feito dos dias

que hora a hora se vivem

na busca inútil do Ser

que Heidegger definia.

Também o Ser é pequeno

conforme o tempo vivido

conforme os dias que passam

afinal vão permitindo.

  

Abraços

 

Foi um abraço

tão quente

que me levantou 

do chão...

e afinal foi nesse abraço

que parou o coração.

Eu não podia saber

tão grande era a minha alegria

e tão grande a emoção

que já me tirava a vida

que eu julgava devolvida

mas que em silêncio fugia

e sem que eu visse a razão.

Tanto amor à sua volta

entre gestos desejados

embora nunca pedidos

mas de novo renovados

em cada dia passado

numa ilusão fugidia...




 Sábado.

Já sei que é um dia morto,

 não é rei morto-

rei posto,

não obedece

ao lema tradicional.

Teremos de atravessar

este dia, faça chuva ou faça sol

dia de mediação

ora de sim ou de não

conforme acordamos cedo

com boa disposição

ora pelo contrário

quando as horas recusadas

sabem a  horas mornas

que nem o café sacode

afinal são horas mortas

 reviravoltas na cama 

procurando o travesseiro

que já pusemos de lado

e agora queremos de novo

ele ao menos fica inteiro

escapa-se dos lençóis

que são mar traiçoeiro

sem nenhuma inspiração

 que nos dê um novo impulso

até que chegue o Domingo

que se vive menos mal. 


Tuesday, March 21, 2023

IDEIAS

 Ideias (terá dito Mallarmé...)

Ideias

nada são sem palavras

não se encontram por aí 

à venda nos mercados

temos de as procurar

com paciência e cuidado

em espaços recônditos

da alma

difíceis de alcançar

muitas vezes teremos

de esperar

podemos até morrer

sem as ter encontrado

e talvez um dia por acaso

alguém

venha a tropeçar nelas

e sem pensar em nós

exclame olha que sorte

palavras tão buscadas

para uma ideia nova

 só agora nos surgem

tendo escapado à morte...  

Monday, March 20, 2023

DESEJOS

  Desejos

Altos são os desejos 

de quem tudo pede aos deuses

e não aguenta a espera

a que o obrigam...

os deuses não respondem

a esse tudo ou nada

tão repetido

tão cansativo

tão intenso

e que consome por dentro

as energias

e pior

as alegrias

que seriam possíveis

sem pedidos

nem gritos de lamento...

os deuses são assim

por vezes mais atentos

outras vezes cruéis

na réplica do que sabem

da natureza humana

que desprezam

mesmo quando fingindo

que parecem ajudar...

não peçam,

não clamem

não desejem

é esse o meu único conselho

dos poucos que tenho para dar.

 

Lisboa, Março 2023

 

 

Saturday, March 18, 2023

CRIAR

 Se me perguntassem eu diria

 criar é transformar.

Não é repetir

muito menos imitar

é simplesmente 

transformar. 

Talvez uma norma alquímica

 ajudasse

ver como os sábios trabalham

a sua matéria espessa 

criando com ela o branco

passando do chumbo ao ouro

da negra escuridão

à luz

a primeira que Deus tirou

da criação.



Friday, March 17, 2023

JOSÉ LUÍS FERREIRA, ELE AINDA NÃO SABE QUE MORREU, 2022

 É um título algo enigmático. Quem é esse que não sabe que morreu? Um velho com Alzheimer? Um avô, um pai ou um amigo? Estamos todos tão velhos, e tão à vista de quem nos olha...

O volume, de contos, breves, de leitura rápida, mas não simples, faz-me pensar que os autores que não estão debaixo do chapéu de chuva das grandes editoras têm de fazer pela vida, pois desejam ser lidos, e assim vão aparecendo ora em editoras ditas pequenas  - mas que são as que sobrevivem, contra tudo e contra todos e nelas se refugia a outra literatura, quantas vezes melhor, mais livre e arrojada - e nela se encontra um outro prazer de ler em vez dos temas recorrentes da moda...

A editora de Luís chama-se cinco livros. E é no Porto que está localizada. Curioso como no Norte o desnorte parece ser menor, a actividade resistente é maior, em comparação com Lisboa. Circula-se mais entre amigos? Ou é só um acaso?

José Luís Ferreira tem, aos 60 anos, já vários livros publicados. Este é um bom momento da vida, em que o prazer, ou a necessidade de comunicar pela palavra ainda não se perdeu. Agora, que se vive mais tempo, Jung chamaria aos 60 anos, como antes chamava aos 40-50, o meio da vida, o tempo da maturidade, do equilíbrio da Anima, do reconhecimento das pulsões do inconsciente revelados de forma indirecta em símbolos e arquétipos que podem ser recolhidos nos sonhos.  A arte da Alma (Anima) é próxima da arte da jardinagem. Mas não vou falar aqui de alquimia, são tantos os seus jardins, o espaço que o post me permite não chegaria.

Falarei então do José Luís, do seu volume de contos. Recebi, mas não acusei logo a recepção, o livro tinha sumido da minha vista. Um cavalo (da alma?) trouxe-o de volta. Há uns dias o autor interpelava-me via facebook, onde vou cada vez menos, estou a ver muito mal e as gralhas não podem ser corrigidas, um irritante, diria alguém que manda em nós todos. Diga-me só se recebeu o livro. Como quem diz, não quero que leia, mas diga se recebeu. Ora bem, recebi, e estou a ler.

Leio e escrevo devagar, tanto quando se trata de mim como quando se trata de algum outro. Não escrevo sobre o que não li...defeito meu. 

Mas estou a ler, e ocorrem-me autores como Lautréamont, os Cânticos de Maldoror, pela intensidade de uma prosa poética que se situa no limar de ambos os géneros: é um livro solto, de contos, alguns breves - o que é arte difícil e de elogiar - outros com uma ou duas páginas mais. Interessante é que não sendo poesia a linguagem está carregada de imagens, como se fosse. E esse aparentemente simples facto muda tudo no género conto que nos é apresentado. Temos de reler, para saborear uma linguagem que não se espera, nesta narrativa. José Luís surpreende, essa surpresa que prende obriga à releitura, a um novo pensamento, uma nova abordagem da sua originalidade. 

As palavras que escolheu para a contracapa, onde se descreve a relação com o que não sabe que morreu, adquirem especial peso no final, com a frase sobre os caminhos que "nunca percorreu, a utopia e o abraço". Utopia e abraço. Visão e sentimento.

Muitos do contos são poemas de amor, na verdade, ainda que em prosa intensa. E em todos uma reflexão filosofante, sobre a circunstância do ser e do amar. Amar não chega, a consciência de uma permanente finitude entre desejos não deixa que o amor se torne numa experiência única, irrepetível. É a condição humana a que nem o poeta, ou narrador mais inspirado, poderá fugir: "estranha é a eternidade, a proximidade da emoção" (p.36).

Se retomarmos a frase citada na contracapa, a utopia e o abraço, torna-se claro que estamos perante o desejo (o corpo) e a realização (a alma), seja na vida real ou na sonhada, e de todos os modos pela palavra perseguida e carregada de sentido, um pouco no seguimento de um Herberto Helder, nos seus Passos em Volta.

"Eu sei, raros são os sonhos e os lugares profundos" (p.44).  Sem dúvida, daí a dificuldade de dizer, primeiro de modo quase displicente, indefinindo os géneros literários seguidos, prosa? poesia? depois intensificando a expressão do desejo que já não se oculta, se manifesta, se afirma e se declara ostensivamente.

Sem índice que ajude, acaba o livro, mas fica aberto ao folhear de acaso do leitor. 





Thursday, March 16, 2023

Reflexão para um Amigo, Vítor Gameiro Pais, Lucília e Cecília, um conto.

 Trata-se de uma pergunta sobre um Conto, o que é,  afinal.

Foster definia o género Conto pelo limite de número de páginas, narrativa curta não mais de 30 a 50 páginas. A partir daí seria novela, ou romance, se ainda maior. Mas na verdade há narrativas curtas, short stories ou mesmo curtíssimas, a partir do momento em que os Modernistas alteram ou mesmo destroem os conceitos de género.

Mas a pergunta que me faz um amigo é outra, se pode ser conto uma prosa que escreveu e me pediu para ler. Leio. Não é a dimensão que interessa, mas o modo de escrita. Vê-se que escreveu  um texto quase neo-realista pela atenção ao pormenor, ao detalhe, desde o cheiro do autocarro à irritação que lhe causa uma velha que lhe passa à frente. Ele, que chegou primeiro ao lugar, não se dispõe a levantar-se e a dizer-lhe sente-se aqui. Mas alguém que o irrita ainda mais ofereceu o lugar. Chama-lhe idiota. Está a adjectivar quem o aborrece, nesse dia que parece de todos os aborrecimento, numa curta viagem de regresso a casa.

O regresso a casa, eis um bom motivo literário para desenvolver, mesmo não tendo lido a obra dos vários psicólogos que se ocuparam dele.  O mesmo do autocarro, que é mais caixote onde se empilham humanos, ou mesmo caixão, de gente que ainda não morreu e ali fechada se revolta e enche de pontapés a tampa  que desceram.   

O tom é de alguém que está vivo e contrariado, a quem tudo aborrece, e é desse aborrecimento que dá conta. 

Se pode ser um conto? Pode, mas espera-se que tenha uma continuidade de outros que se lhe sigam e formem um volume, que diremos de contos. E quanto a este em concreto é mais quem sabe um começo, a que o conjunto de outros definirá a questão (que muitos desejam) de "género".

Assim sozinho leio o conto como uma narrativa que poderá ser, ou não, um "arranque" para o autor continuar a sua escrita, de que sente falta.

O que ele deseja é escrever, continuar a escrever, o que não lhe tem acontecido. Sente a falta desse exercício da palavra, a que exprima os seus sentimentos, seja em prosa ou em verso (ele também escreve poemas). A pulsão da escrita surge, não pode ser imposta, apenas desejada, mas quem sabe se esta narrativa de autocarro, ainda que de zanga com o mundo à volta, será já um princípio? O que vier a seguir dirá. Em vez de conto pode vir a ser uma página de diário.

Os modos amargos,  de tom coloquial ou mesmo com algum termo mais grosseiro pelo meio, estão na moda. Cultiva-se a inquietação, a impaciência, a infelicidade da auto-comiseração. E tudo de modo apressado, não vá a palavra fugir. Mas o que fica, além da ideia de ser conto? Ser breve não é só por si uma qualidade literária. E um olhar desabrido sobre o mundo real também não. O que falta, na escrita, é a surpresa que nos deve trazer, a originalidade, a inovação de algum acontecimento numa banal viagem de autocarro com a vontade expressa  de chamar nomes e embirrar com tudo e todos à partida.

Nomear as gotas de chuva que bateram no vidro, com nomes femininos, normais, nem ao autor / narrador, pareceu suficiente. Uma gota de chuva pode ser tanta coisa, há tanto simbolismo na água que embate nos vidros, cai no chão, na rua, nos regatos, no mar...Claro há também o feminino na Água, de cuja espuma surge a Vénus tão aclamada. Daí que as nomeie. Mas estão longe de ser a mítica figura...Podiam ser reflexo, espelho, diamante inclusive se limpas e brilhantes.

Já temos aqui matéria a explorar, a casa, o regresso, ( o que é um regresso tão contrariado? O que diria Freud?) a água, de simbolismo insofismável é só procurar (em Pessoa falei da água e da morte, mas não quero impôr o meu exemplo, procurei no seus poemas e encontrei).

O autor precisa de continuação, de mais contos, sejam curtos ou longos, mais subjectivos ou objectivos, realistas ou surrealistas, mas apontando para um outro nível, que me leve a dizer, isto é literatura. Este conto não surpreende, apenas confirma um determinado estado de alma. O desejo da escrita. 

E agora caio na minha própria esparrela, o que define afinal o que é  ou não literário?

Como em Heidegger, o que é Pensar?

O filósofo socorre-se de Hoelderlin, o célebre verso de sermos um Sinal que perdeu o Sentido, no Hino à Memória. Pensar é procurar o Sentido perdido. Pensar o Tempo ? Como no enorme O SER E O TEMPO? Como pensar um e outro? Viver um e outro?

Poderemos aplicar este verso à literatura, à criação poética?

É o Sentido, tal como no Pensamento, que confere outro estatuto ao que escrevemos? Cada autor é um só, e deve ser lido como tal. Voz única em cada único momento.