Monday, March 26, 2012

A Valquiria


 Continuando com esta ópera grandiosa de Wagner, vemos que no segundo Acto se dá então a ver o brilho esplendoroso da Valquíria, Bruennhilde, também ela filha de Wotan e sua preferida, talvez por ter sido gerada com ERDA, a Grande-Mãe, a Natureza cuja voz mística e profunda Wotan não respeitou, fazendo com que a maldição do anel destrua os deuses e com eles toda a esperança de um mundo melhor. Algo que se verá no CREPÚSCULO DOS DEUSES.
De início tudo parece bem no melhor dos mundos, mas a ilusão depressa se desfaz. Surge a severa e impiedosa Fricka, a quem o dever diz mais do que o amor, ainda menos a paixão, pois Wotan, infiel e sempre apaixonado, mas por outrém, não lhe inspira respeito. Assim, enquanto antes pedira a Brunilda ( aportuguesando o nome ) que protegesse Siegmund, depois de ceder cobardemente à exigência de Fricka ( as razões dessa moral parecem pouco credíveis, mais próximas do ciúme do que de outra coisa ), agora exige e com brutalidade que deixe morrer o herói na sua luta com Hunding,o marido de Sieglinde.
As belíssimas Arias de Brunilda exprimem uma consciência moral que falta ao pai dos deuses. A sua voz é a verdadeira voz do Amor e do respeito pela palavra dada.Wotan dissera ao filho que uma espada especial lhe estava reservada bem como uma glória merecida.Deixou-o aceder à espada, tão facilmente como depois lhe retirou todo o apoio. É Brunilda quem se escandaliza com o comportamento do pai, é ela que tenta fazer com que Siegmund não enfrente o inimigo, e será ela quem salvará Sieglinde de um triste destino, não a deixando cair nas mãos do cruel marido.
Wagner põe à discussão, neste segundo Acto, a Consciência e a Honra. Por outras palavras dá-nos de novo a pensar o que significam o Bem e o Mal, numa época (como a sua, de resto) em que o progresso que a Revolução Industrial parecia trazer abafaria as razões mais nobres da Liberdade, do Amor, da Igualdade, da Fraternidade e outros sonhos que pouco a pouco cairiam, como se verificou nas óperas seguintes (e na própria História da Alemanha).
A cobardia moral de Wotan traça o destino do herói.A esfera pendular cessa o seu movimento (ideia fantástica do grande encenador-leitor que foi Chéreau ).
Na última cena, a preocupação de Brunilda com o primeiro pedido do pai (e a palavra dada por ele a seu filho) faz com que tente proteger Siegmund da lança traiçoeira.
Wotan irrompe furioso e quebra a espada: In Stuecke das Schwert ! Que se quebre a espada !
Brunilde foge com Sieglinde e Wotan ameaça castigar a filha que não respeitou a sua ordem.
Retira-lhe a condição divina, fá-la cair em sono profundo no alto de um rochedo rodeado de fogo que só um grande herói poderá atravessar.
Anselm Kiefer pinta em 1980 um acrílico que faz de Brunhilde uma espécie de bela adormecida : a que vemos na imagem colocada ao alto.

António Tabucchi

Agora o seu rosto será visto, um pouco por todo o lado.
Por uns dias, por uns meses.
O que farão dos seus livros?
Haverá Bibliotecas, ou Escolas, a comprá-los?
E os amigos a quem dedicou alguns, irão às suas estantes procurá-los, para reler ou dar a outros para que leiam também?
Deixarão na mesa de cabeceira este ou aquele preferido? Reparando na caligrafia delicada das  generosas dedicatórias?
E antes de adormecer recordarão a suave melancolia do olhar?
Um olhar que desvendava o mundo: na sua beleza, na sua mesquinhez.
O rigor da palavra não era nele um artifício da arte, era o prolongamento natural do seu rigor de carácter, limpo, sem hipocrisias.
Descreveu em Afirma Pereira um país, Portugal, nas décadas de 30-40, onde uma burguesia de pequenos funcionários olhava à sua volta com suspeição, e muita reserva feita de temor.
Temor que a constante presença da polícia política quase justificava.
Digo quase.
Porque há momentos em que a dignidade obrigaria ao protesto, e ao exemplo.
Há na vida e na obra de Tabucchi esse  apelo ao exemplo, e sinto que tanto mais haveria a aprender com ele, se não nos tivesse deixado, em plena Primavera.
Passaram mais de dez anos sobre um belo Colóquio de Homenagem, na Fundação Gulbenkian: e António, amigo de filósofos, pintores, poetas, eruditos, tradutores, ali conviveu com eles, reunidos em breves quatro dias. Agora penso que deveriam ter sido  anos, e não dias. 
O Tempo foi afinal muito severo com ele, a Parca estava atenta, e ciumenta. Aguardava o momento, que chegou num dia de Primavera enevoada. 
António cedeu e foi com ela, nós ficámos mais sós e ainda mais pobres.

Sunday, March 11, 2012


JORDI DOMÈNECH  ( Sabadell 1941 – 2003): PORTAS E LIMIARES 


Nasceu em Sabadell, arredores de Barcelona e berço, pelo que fui descobrindo, de um grupo de artistas, poetas, pintores, que ali já tinham ou vieram depois a adquirir as suas casas, e nas montanhas circundantes os seus profundos lugares de inspiração.
Já falei de Perejaume, a quem dediquei um poema, publicado em 1997, no meu livro
ENTRE SILÊNCIOS :

Visitarei um dia
essa floresta
perdida no alto
da montanha
com a famosa caverna
das palavras
por onde fugiam 
ratos
e morcegos
arrepanhando os sonhos
do poeta
Poeta que já não escreve:
ergue palavras-pedra
escolhendo cada palavra
com cuidado
obedecendo às ordens
do Senhor da floresta
o Rei dos Álamos
que o obrigava a construir
cavernas
com as palavras escuras
das pedras
que encontrava

palavras que eram castelos
caves túmulos muralhas

palavras que aprisionavam
e que ele agora
esquecia
e recordava...
(y.k.c.,1997)



Confesso que fui surpreendida, com grande desgosto, pela morte de Jordi, com quem tinha estabelecido uma relação de amizade fraternal, e a quem devemos, nós poetas portugueses, o seu gesto de elegância, de tradução numa plaquette de 1997, feita em Sabadell, a terra mágica de um conjunto de poemas que intitulou
 DINANT A BARCELONA,
SOPANT A LISBOA
(PER A LA NÚRIA, QUE HI ERA) : Núria, sua mulher, então falecida deixando-o a ele profundamente abalado.
Na plaquette que nos ofereceu encontramos os nomes de Casimiro de Brito, Egito Gonçalves, Fiama Hasse Pais Brandão, Gastão Cruz, José Viale Moutinho, Nuno Júdice, Rosa Alice Branco, Yvette Centeno. 
Vê-se pela escolha dos poemas que conhecia bem a nossa literature, e sinto que lhe é devida a homenagem que agora sou eu que lhe desejo prestar.
Estará o poeta junto da sua amada Núria, quem sabe a acompanhar o meu trabalho de renda: pois a tradução de um poeta é sempre um trabalho de minúcia, de renda, de carinhosa empatia.
Jordi nasceu num meio operário, o pai foi perseguido pelo regime de Franco devido à sua fidelidade à República. Ele, já maior, estudou desenho industrial na Escola Massana de Barcelona.
Autodidacta na formação literária, com obra publicada desde 1970, é sobretudo no livro que escreve depois da morte da mulher, em 1997, AMB SENSE, COM SENTIDO (ed. 2002) que atinge o ponto mais alto e impressionante da sua carreira. Poeta transgressor, de rupturas e olhar inovador é considerado um dos maiores da Catalunha do século XX. 
Foi igualmente tradutor de inúmeros autores, ao longo da sua vida, e por essa razão foi criado em 2005 o Prémio Jordi Domènech DE TRADUÇÃO DE POESIA.

Os poemas escolhidos pertencem ao livro História da Arquitectura ( ed. 1995). à excepção dos dois últimos e por aqui se poderá ver como o seu olhar se comprazia em descobrir, revisitar, cidades, espaços de museu que para ele não são apenas cemitérios mas antes refúgio e memória de dôr como de arte e de artistas.


SALAS DO MUSEU DE LAMEGO

Estas salas brancas por onde o homem
deambula por detrás dos seus óculos
de armação pesada e lentes grossas
( a sua miopia magistral ) 
(nas paredes seis tapeçarias flamengas)
perscruta, entre os fios, misteriosos
rituais: lã, seda, labirinto
dando a ver aos meus olhos personagens
que já não vejo.
Na mão direita levam 
cachos de touriga onde bate o sol.


POMBAL NO PÁTIO DA CASA DE BONASTRUC ÇA PORTA,
NA JUDIARIA DE GERONA

Triangulação dos azulejos
repetidos sobre descoloridos
ocres de chuva. Descida até ao fundo
de um jardim sem fundo(as flores vermelhas
sobressaem do verde) (os sefiroth
que caem das mãos) (alusões 
ao pensamento moderno? ). Banhos rituais.
O cego, vidente. As palavras formando
um vazio de sabedoria. Os gerânios.


NA ESCURIDÃO, O LOUREIRAL 

Na escuridão o perfume do loureiral
é de piedosos e apagados aromas: mais próprios
do húmus: o estropiado, belo, espia
o rumor que sobe ( o cérebro mais
alto dos inomináveis estados).
Sábado, Dezembro, à noite. Desfazem 
a memória armários cheios de livros
no palácio paterno que alberga o gelado
fascismo. O insuportável rumor
de asas de anjo que tansportam e deixam
suavemente em terra a casa santa
com revestimento de mármore 
de quinhentos, fumo e fartura de pombos.
A farsa começa a expansão.

(do livro “contas da revolução” ) 


POR ESTAS PRAÇAS, RUAS E ESCADAS

Por estas praças, ruas e escadas
correu o sangue (Não é uma frase
feita: parece que foi literalmente 
assim). Inocência. A aura move
as caras dos espectadores, sobe
uma dôr pelo seu flanco esquerdo,
imperial, alguém que circula com
algma coisa descabeçada e um
velho estranho que come um galo
da Índia com chanfana. Tudo entre
dois enormes espelhos um pouco
inclinados reflectindo muitíssimas vezes
os meios corpos, as caras, os poentes,
durante aquele longo fim de semana.

( do livro “contas da revolução” )





   







Saturday, February 11, 2012

Perejaume:Os Lugares da Pintura

Nasceu em 1957 na Catalunha, cresceu numa quinta, e talvez por isso o amor à terra, terra-mãe, generosa e dura, nunca o tenha deixado por completo. 
A sua obra distingue-se, na poesia, prosa poética ou reflexiva, tanto como na pintura e na escultura, por uma atenção peculiar à natureza, ao mundo que o rodeia, à intervenção que a própria arte exige.
É marcante a influência que sofre de Joan Brossa, o grande modernista, também no seu duplo interesse por pintura e poesia, como se o impulso existisse quase que em simultâneo e logo desse modo se manifestasse.
Ganhou em 2005 o Prémio Nacional de Artes Visuais da Catalunha, em 2006 o Prémio Nacional de Espanha para as Artes Plásticas e em 2007 o Prémio Nacional de Espanha para as Artes Gráficas.
Revela-se um artista de múltiplos interesses e criatividade, algo que já nos encontros de 1996, em Lisboa, se podia descobrir nos textos que deixou e aqui apresento em versão livre.
No título de um dos seus livros de 1989, já se vê que entendimento tem da produção artística; o título reza: “O que é a collage senão reunir solidões?” E na realidade ultrapassa solidões ao interessar-se por pintura mas também por fotografia, video, e não desdenhar o fazer instalações, por precários que se entendam esses momentos.
Perejaume entende a precariedade da arte, como da vida.
Relativiza, com ironia ácida por vezes, mas severa na exigência do fazer que oferece ao olhar e ao pensamento dos outros.
O mundo natural nunca está longe, e sobre o natural e o artificial no conceito de criação reside a sua diferença e como por vezes diz, a sua” dissenção”.
 Ele difere, não segue, não imita, não concede.
Criou um ciclo interessante, deste ponto de vista: Formas da Dissenção (Formes de la dissenció) em 1990-91, e neste mesmo espírito expôs variadas obras na galeria mais célebre de Barcelona, a Galeria Joan Prats ( de que Brossa era também um dos artistas).
É talvez mais conhecido pelas performances, workshops, instalações feitas ao longo dos anos, mas os textos que aqui ficam explicam muito do sentido, da originalidade e actualidade do seu pensamento criador.
Veremos nestes poemas a espessura (a matéria na imagem), a reflexão e a ironia de  um permanente desafio, lançado a si próprio e a nós todos.
Em muitos dos poemas que ele mesmo escolheu podemos ler uma teorização da pintura moderna, sua e alheia, à qual de vez em quando recorda que não há imagem que suplante a emoção da própria natureza: ele contempla-a no alto das suas montanhas pirenaicas!
Tal como fiz com Arnau Pons, apresentarei aqui algumas versões dos seus poemas, esperando a benévola reacção dos meus leitores. 
Traduzir é como se sabe, parcialmente trair, mas a quem ama a poesia tudo deve ser perdoado! 
A GRANDE COLHEITA
Na casa, o fogo faz arder portas falsas.

É deus Polar, vertical como os merididanos,

e com os cimos em cruz na flor da azinheira, ergue-se

diante do Cruzeiro com o Hissope nas maõs.



Brota na torrente a cauda de um cometa,
pela encosta abaixo, saltando sem barulho, 
enquanto os palheiros, em branco ou em maquette
enchem a Carroça grande ou a mais Pequena


Fundem-se pouco a pouco na dôr,
a água é um bosque ainda não consumido,
com flocos de casa no ar puro.


Sobre a folhagem luz a serrania,
arde nas rochas a água prateada,
suspenso no céu o fundo obscuro.




MOLDURA
A serrania e a tarde são uma
única moldura de ouro velho e sombras:

não há barrancos pirenaicos nem círculos de lua

descritos no cinzelado fantasioso



da talha, o acanto luminoso que faz ondular

as águas, a concha de turvo nevoeiro fundida

no alto com a espessura de algum antigo

arvoredo no lugar mais distante



onde se cruzam as brisas do museu
e a pintura, com a marca indivisa
que fecha a tarde sobre um Pirinéu
dourado, completamente vago, impreciso…

O PESO
O peso dos quadros é bom de sentir quando é real, porque os levamos às costas, subindo sempre, e ainda mais se é para algum lugar onde raramente se deslocam os pintores. O peso dos quadros é, pelo contrário, aborrecido, se de termos já visto tantos o quadro se torna como que um peso morto, tão igual que nos cansa e nos afasta, desejando fugir para mais longe, mas sem que haja maneira de o fazer, tudo o que vemos se parte em quadros, e cada quadro em dúzias de quadros iguais.

POSTNATURALISMO  1
Alongar um Giacometti, endireitar um
Soutine, encher os Fauves de cinzentos,
encurvar um Mondrian.


POSTNATURALISMO 2
Obter com tranformações 
genéticas, realmente, numa
rosa, o vermelho com que 
pintava Emil Nolde uma rosa.

O MONTE
Num extremo da língua, num extremo
inclemente da língua, distante e sem empatia,
dar um concerto. Levar os instrumentos e as
cadeiras, mas depois não interpretar nada…
Que os instrumentos também ouçam, lá cima,
o volume extremo da língua. 


DESDESENHEM TUDO



Desdesenhem tudo e ponham na tela os desdesenhos! Procurem

com afã novas dilações! Nunca saberemos se os quadros nos

estorvam ou nos ajudam. Levamos na cabeça um lugar vingador,

e é com esse irreprimível desejo de pintar que exortamos os 

brancos luteranos, a erosão dos narizes, os formatos abertos…

e com fixadores por cima do apagar de borrachas quase  

descobrimos uma vontade forte no deixar de fazer.





Thursday, February 02, 2012

ARNAU PONS : a palavra que ofusca

NOITES QUE FABRICAS, rigorosas;
as mãos na
clara-sementeira das centáureas
o sangue derramado exposto
ao vento,

Tantas estrelas quantas podes abarcar,
tanto negrume de nuvens, tantos
desastres de chuva, as imagens do mundo
destituídas,

tudo isto se abre,
decresce
extingue-se apenas

dentro da cesura, um corte
de miséria com
os tenros anos no cardal,
de novembro a novembro,
dentro das gaiolas,
como os tão vãos
ofiúros da videira, com a dormideira,
junto aos duplos reinos:

entre os dedos toda
aquela escuridão que estagna, eterna;
mais nada.

Saturday, December 17, 2011

Eduardo Lourenço, Prémio Pessoa 2011

Veio mesmo a tempo, este prémio, mais do que merecido, para fechar um 2011 no geral desolador.
Alguém disse de Eduardo Lourenço: ele ama Portugal.
Não duvido; mas duvido que ame os portugueses...os portugueses de hoje desencantam, não podem ser amados no sentido amplo e generoso da palavra. Só algumas excepções: as crianças doentes e de olhar perdido, os velhos, os desamparados, humilhados e recolhidos a si e a um silêncio que pesa, agora e sempre. Esses merecem ser amados, merecem mais, que se lhes peça perdão pelo mal que se tem feito e continua a fazer.
O olhar de E.Lourenço sobre Portugal é de interrogação: e quem sabe se de perplexidade? Um Portugal que se diz ou se quer europeu sem saber o que isso significa?
Pois há muitas Europas, tantas quantas as diversas línguas e culturas nacionais...no meio delas Portugal parece uma barco à deriva (não, não uma caravela, um botezito!).
Quando Eduardo Lourenço chega a Portugal em 1975 para um Seminário sobre Fernando Pessoa e o Modernismo a esperança era outra, era grande.
Contudo, logo nas primeiras aulas (sim, havia aulas, e nós, na altura já a caminho de doutoramentos, cada qual o seu, íamos com imenso prazer assistir a essas aulas, ávidos de outros conhecimentos, outras ideias e outros pensamentos) - logo nessas primeiras aulas o exemplo que Lourenço nos deu, lendo um poema de Pessoa, foi o da consciência que se interroga a si mesma interrogando o mundo
do ciclo Além-Deus, começou a ler:
I/Abismo
Olho o Tejo, e de tal arte
Que me esquece olhar olhando,
E súbito isto me me bate
De encontro ao devaneando-
O que é ser-rio, e correr?
O que é está-lo eu a ver?

Ficámos com esta reflexão, que haveria de ser a marca de todas as sessões desses seminários, tão diferentes do ensino tradicional a que se estava habituado.
Eduardo Lourenço não definia sentidos, sublinhava as interrogações.
Deslocou desse modo o nosso olhar: não era o ímpeto moderno-futurista de Álvaro de Campos, não era o filosofar aristocrático e distante de Ricardo Reis, nem sequer era, ao fim e ao cabo, o místico panteísmo de Alberto Caeiro (o Mestre) a grande lição pessoana.
Era sim, como na Aurora dos tempos, como no despertar do Homem primitivo, a surpresa de dar consigo a ver - isto é, a tomar consciência de si enquanto tomava consciência do mundo à sua volta, neste caso do poema o rio, um Tejo de águas mansas correndo como corre o pensamento.
Os restantes poemas do ciclo não foram ali abordados.
Mas eu continuei a ler, pois a minha curiosidade fora despertada e não sendo eu "pessoana", como outros, queria ir um pouco mais longe, se possível.
Assim eram dadas as lições dos Mestres: despertando em nós o desejo de ir um pouco mais longe!
O Além-Deus do título do ciclo iria levar-me a cogitações de ordem iniciática e alquímica, neste como noutros textos de que mais tarde me viria a ocupar.
Eu já estudava nessa altura (para a minha tese sobre o Fausto I e II de Goethe) a simbólica alquímica e esse imaginário era-me familiar.
Pouco a pouco fui encontrando as similitudes que na obra de Pessoa - poética e de prosa ensaística - tinham deixado marca, ora mais ora menos visível.
O estudo da ciência (ou da arte?) dos símbolos e do imaginário criador não estavam ainda na moda, como hoje em dia (hoje é quase doença, nem ciência nem arte!).
Era difícil citar Gaston Bachelard ou Gilbert Durand (pior ainda Jung) sem que algum esgar desdenhoso aflorasse ao rosto de bons colegas !
Mas as reflexões sempre de inspiração aberta de Eduardo Lourenço foram um incentivo.
Primeiro lendo Heterodoxia, depois lendo Pessoa Revisitado, o Labirinto da Saudade e por aí fora, acompanhando a sua actividade e a sua bibliografia.
Agora Eduardo Lourenço recebe um justo prémio, que tem o nome que melhor lhe convém: Pessoa.
E na Fundação Gulbenkian procede-se à edição da sua Obra Completa.
Só posso saudar estas iniciativas, recordando como, pela sua mão, fui entrando no labirinto de uma eterna saudade: de Pessoa? deste país? de nós mesmos perdidos nele?



Thursday, December 15, 2011

Rui Zink


De Rui Zink, mesmo a tempo do Natal:
O Amante é sempre o último a saber,ed.Planeta,2011, já em segunda edição.
Abri o livro e logo comecei a ler: encontro na prosa do Rui aquela energia que nos agarra pelo estilo, pela imaginação, sempre fértil na criação de enredos, atravessados por um humor subtil, não o da gargalhada mas o do sorriso que devolve curiosidade à leitura, e tudo isto, como se não bastasse, atravessado por diálogos simples,directos, que empurram a acção, abrem as peripécias de capítulo em capítulo, sem que se deixem adivinhar os desfechos (im)possíveis.
Espera-se de tudo nesta inconcebível viagem a um Japão também ele difícil de (re)conhecer....
Admiro a criatividade de Rui Zink que abarca o imaginário infantil (filhos e netos pedem sempre os seus livros, mal chegam aqui a casa, o preferido agora é o do Menino que não gostava de televisão, é o meu neto de um ano e meio que agora mais gosta dele) tanto quanto brilha na prosa de ficção, ou no ensaio erudito.
Consegue algo raro entre nós: ser escritor de talento e investigador inspirado.
Deixo esta rápida chamada de atenção ao seu recente romance, enquanto acabo de ler, para que aproveitem a época e ofereçam bons livros e boa leitura em vez de prendas banais, que logo ficam esquecidas.

Friday, November 25, 2011

Outonais

Está no blurb, pela mão adorável da minha nora Sara, o meu novo livro de poemas, que de brincadeira digo que será o último! Espero que leiam e vos faça passar um tempo agradável, como é próprio da poesia!Tem alguns poemas dedicados a pessoas muito especiais...

Tuesday, September 27, 2011

Helder Macedo, A Poesia é de Sempre

Foi lançado o novo livro de Helder Macedo, com poemas novos e velhos, segundo o título e a indicação das datas: mas não há tempo certo na palavra poética, só infinita e universal duração..
O livro abre com um poema recente, do ciclo intitulado
COLAGENS:

O rio corre
da fonte seca
como se rio
de fonte morta
chegasse ao mar
quebrada a ponte
das águas turvas
na torva treva
que o ramo quebra
onde pousassem
aves que houvesse
se ali cantassem
vindas do monte
que o rio leva
de engano em dano
por terra seca
ao mar sem praias
que corre e morre
sem vale ou serra
do mar à fonte

Apercebi-me numa primeira leitura de que havia aqui um eco pessoano, do seu melhor Ricardo Reis, na consciência plena e dolorosa de que no correr do rio seco da alma o próprio tempo se esvai e a vida perde o sentido.
Veja-se como os versos insistem no tempo condicional, o que adia para um talvez improvável ou um nunca mais o que poderia acontecer se alguma vez o rio, pleno, chegasse ao mar, ou mesmo o contrário, se o ímpeto do mar (aquele em que Freud via a pulsar do inconsciente) levasse a sua onda à fonte.
Estamos, nesta poesia de alma, de balanço de vida (sua e alheia) reflexão e distanciamento, perante a terre gaste dos cavaleiros do Graal, ou de uma Waste Land de um T.S.Eliot que Helder Macedo, como todos os da sua geração, conheceram bem.
Neste poema de abertura de um ciclo emblemático as imagens da água (fonte, mar) da terra (também ela seca) e das aves que não cantam (ar) não permitem a ampliação para algo de mais completo e feliz, pois água, terra, ar são neste caso elementos que "regridem", são o reverso de um imaginário alquímico de possível sublimação. Helder Macedo, contudo, não omite a referência a um outro elemento, o poderoso fogo - neste caso a chama que já ardia em Camões, do invisível amor.
O poema 3 deixa a pergunta: como dizer, como exprimir, o que mal se conhece:

Na verdade não sei

O ar é o mesmo
as águas iguais
na terra sem solo
quando o sol é grande
e as aves caídas
voaram do chão

Mas o que eu sei tão mal
como o direi?

Na verdade já está dizendo: não é do exterior que se trata, é da consciência desse Ungrund onde se formam as ideias-força, as imagens arquetípicas, as poeiras do universo da alma, que se trata. O sol (finalmente o fogo) é grande.
Relembrando Valère Novarina, é precisamente "o que não se pode dizer que se deve dizer". Mas um poeta lúcido, como neste caso de Helder, será que se deixa seduzir por este desafio?
A resposta é positiva, e vem no último poema do ciclo, que anuncia um recomeço:
...
sendo assim
recomecemos

havia aqui uma fonte
e árvores
e sombras
as aves todas cantavam de amor

porque tudo é só como parece
e é sem cura

O canto de amor das aves é finalmente redentor, só porque existe. O olhar e o dizer, como em Alberto Caeiro, bastam-se na simplicidade do existir: ser e não o saber...
E assim se descobre e se aceita neste ciclo um devir-eu, um devir-outro, um devir-só que Pessoa tão profundamente (re)conheceu.

Friday, September 23, 2011

Um Adeus para José Niza

José Niza faleceu, aos 73 anos. Vivia em Santarém mas vinha frequentemente a Lisboa onde tinha muitos dos seus amigos.
Deixará muitas saudades a todos os que o conheceram de perto.
Eu recordo o seu trato amável, o seu sorriso discreto, o seu humor.
Outrora, como nos contou um dia, fazendo a tropa no mato, sendo psiquiatra e tendo de lidar com os traumas dos seus soldados, teve a ideia, que todos saudaram, de encenar uma pequena peça de teatro, que ele já tinha acompanhado em Coimbra quando estudante e para a qual compusera um tema: era a minha tradução de Brecht, de A Excepção e a Regra!
Assim foi: com o texto de um Brecht que a Censura da época não pudera proibir e a música, à viola, de José Niza, o sofrimento da guerra ficou por momentos em suspenso e a lição ficou gravada na memória de quem partilhou o texto: a excepção ivia em Santarém mas tinha em Lisboa muitos dos seus amigos de sempre.(que naquele caso era a guerra) não poderia nunca ser a regra.
Devemos a José Niza, entre outras coisas, o poema E Depois do Adeus que a voz de Paulo de Carvalho num Festival da Canção tornou conhecido do grande público e que a Revolução de Abril adoptou como uma das suas Senhas.
Mas o que fica é acima de tudo a dimensão humana deste músico amigo dos seus amigos, numa tranquilidade generosa que nada parecia abalar.
Guardo a sua memória.

Lá no alto
no seu Olimpo
de treva
os deuses procuram
com inveja
algum brilho maior
entre os humanos

Cai Orfeu
pela mão da Bacante
cujo nome é cruel

Mas a sua memória
permanece:
o som da sua voz
ecoa docemente
por entre as sombras
do vale mais distante

Sunday, July 10, 2011

Alexandre Delgado,A Rainha Louca

Primeiro foram as Luzes de Leonor, a Marquesa de Alorna, sua vida romanceada de um modo próximo (para não dizer mesmo vivido) por Teresa Horta.
E agora, integrada no Festival de Almada, encenada por Joaquim Benite, a ópera que nos é oferecida por Alexandre Delgado, libretista e compositor.
Parte da peça de um jovem dramaturgo que nos deixou um legado de rememoração crítica da nossa História, Miguel Rovisco: O Tempo Feminino.
E como que lembrando que somos antigos, cultos e quem sabe loucos, neste momento de crise política e identitária (com uma Europa que afinal...) - surge então esta Rainha Louca pela mão de Alexandre Delgado.
Saúdo a iniciativa, saúdo a encenação, tanto mais sóbria quanto mais na loucura da Rainha se avança, a cenografia de apontamento até à cena final, de rodopio semi-expressionista ampliando os gritos e a dança frenética com que desce o pano.
E saúdo o libretista: não é fácil adaptar um texto à composição musical, ainda que se faça como Wagner, que diz que só quando tem tudo bem incorporado na imaginação se lança para a escrita da música e do poema.
Partir de uma peça que já tem linguagem e construção dramática própria é certamente mais difícil. Onde houver excesso, que a peça permite, terá de haver contenção e equilíbrio que depure o texto sem o deformar, antes condensando as imagens mais fortes que a música por sua vez poderá ampliar.
Deste ponto de vista a escrita de Alexandre Delgado é magnífica: reduz ao essencial o que no palco é dito (cantado) deixando que a nossa imaginação preencha também alguns dos espaços em aberto.
Assim vivemos com a Rainha, votada ao grande isolamento da sua loucura (segundo alguns não era loucura, era uma enorme depressão que lhe tomou conta da vida), os momentos cruciais de um fim de vida. Podemos fixar-nos num conjunto de imagens, que texto e música oferecem, e ajudam a estruturar melhor o sentido.
Esta escolha é a marca de um bom libreto, de uma escrita que conduz, sem perder nunca o fio.
Quando a Rainha, de quem as damas já gritam que está louca, chama pela sua Rosa, a sua Anima negra, sabemos que o fim não tardará.

Friday, June 24, 2011

AS LUZES DE TERESA HORTA

Está nas livrarias este novo romance de Maria Teresa Horta, inspirado desta vez na vida e obra da 4. Marquesa de Alorna, D. Leonor de Almeida Portugal.
É a obra de uma vida, que se deve à paixão que uniu através dos séculos duas mulheres que partilham o mesmo gosto pelas Ideias (as Luzes, o Racionalismo nascente), pela Cultura e pela Literatura, faltando só acrescentar uma mesma exigência de Liberdade e Respeito pela condição e dignidade da mulher.
Neste romance que é bem mais do que isso, e não aludo ao número de páginas, mas à substância do que é oferecido, a autora "interroga o lugar social, político, intelectual e sexualmente marcado do feminino na cultura portuguesa" - citação que roubo a Vanda Anastácio, no seu prefácio à obra.
Obra que demorou anos de estudo, e dias e noites de grande inspiração, não cede a facilidades: tudo o que inclui é para ser lido e meditado: as cartas, os poemas, a vida intensa de uma mulher que no século XVIII se tornou ilustre por muitas e variadas razões, de que a coragem da afirmação cultural e política não foi a menor.
Agora apenas dou conta de que o romance está aí, para ser lido.
Eu própria é o que vou fazer, no tempo do Verão.

MÁRIO QUINTANA

Dos Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século, este poema que nos faz respirar:

EMERGÊNCIA
Quem faz um poema abre uma janela.
Respira, tu que estás numa cela
abafada,
esse ar que entra por ela.
Por isso é que os poemas têm ritmo
- para que possas profundamente respirar.
Quem faz um poema salva um afogado.

Sunday, March 13, 2011

Cristina Branco


A discografia de Cristina Branco, geralmente associada ao fado canção e à canção popular portuguesa, tem marcas muito próprias que a distinguem:
uma excepcional cultura literária e um bom gosto na escolha dos poemas que fazem da sua esfera de criação musical um caso raro que merece o destaque que lhe vou dar, neste espaço de literatura e arte.
Frequentemente traduzo Lied e Canção lírica francesa, para amigos, como o pianista Nuno Vieira de Almeida e, através da maravilhosa experiência que tal colaboração me permite, sei como é importante a base literária de que se parte para a composição musical e para voz do intérprete.
Ao contrário dos sucessos que em Portugal, ainda que com algum humor, se têm promovido, em que nada faz falta, nem texto, nem música, nem muito menos voz (!) todos estes elementos - texto, música, voz - são na verdade indispensáveis e com o tempo se verifica que são também a verdadeira base do sucesso continuado e merecido.
Frank Sinatra lembrava aos incautos do momento que fama imediata é algo que pode acontecer a todos , mas só acontece a alguns manterem-se no pico da sua fama durante anos seguidos. A razão era, como é hoje e será sempre, a qualidade musical, poética e de sensibilidade e inteligência (não apenas vocal) do intérprete.
Frank Sinatra outrora, Amália, no nosso caso, e agora, para mim, sem dúvida alguma Cristina Branco.
Já em Kronos, onde precisamente a reflexão musical que se propõe é sobre o tempo ( e recordo aos amantes de filosofia que o Ser e o Tempo estão intimamente ligados...) a marca da escolha poética definia o seu estilo, um estilo de grande qualidade literária como se pode ver pela lista dos escolhidos:
Manuel Alegre
Hélia Correia
Sérgio Godinho
Álvaro de Campos
Amélia Muge
José Mário Branco
Vasco Graça Moura, para só citar alguns.

De Portugal para o mundo, eis este novo disco, recentemente lançado em cd e dvd Não há só Tangos em Paris.
Da belíssima qualidade dos temas musicais e dos arranjos, da produção artística, executiva, da qualidade do som na captação de voz e instrumentos tão rara entre nós, mesmo com os melhores autores, não falarei, para deixar esse comentário aos entendidos.
Mas da qualidade dos poemas, e novamente do bom gosto das escolhas, terei mesmo de falar. E da sensibilidade da interpretação, para além do à vontade no domínio das línguas estrangeiras, neste caso o francês e o castelhano ( não digo espanhol, é o castelhano da Argentina).
Reencontro na voz de Cristina a mesma sensualidade envolvente de um Gardel no seu Tango, ou de Amália no seu Fado, por uma razão bem simples: um e outro têm a clara noção de cada palavra do que estão a dizer.
Não há atropelos na dicção perfeita de Cristina, em nenhuma das línguas. Até alguns dos nosso actores poderiam beneficiar com a audição deste disco.
A verdade e a experiência ensinam que articulamos melhor o que bem controlamos, a saber: o sentido e o peso de cada palavra no conjunto do poema (aprofundando a intenção do poeta), e a busca da melhor colocação na voz para um dizer mais perfeito.
Tudo isto é realizado com perfeição, repito mais uma vez, rara entre nós, no caso de Cristina Branco.
E como não me regozijar com a escolha dos poetas?
Eis a lista:Manuela de Freitas (ela mesma, que recordo como notável actriz, perfeita na dicção como perfeita neste belo poema)
Pedro da Silva Martins ( o seu poema dá o título ao disco)
Baudelaire ( o pai dos pais da Modernidade literária, para dizer só isto...)
Carlos Tê
Jacques Brel
Miguel Farias
Isolina Carrillo (para o célebre Dos Gardenias para ti...)
António Lobo Antunes
António Gedeão ( para mim sempre grande, desde a Pedra Filosofal), entre outros.

O pianista João Paulo Esteves da Silva não levará a mal o meu comentário de melómana e admiradora fiel da sua arte, ao confessar que, ouvindo a sua Invitation au Voyage, descobri uma nova interpretação (leitura) do poema de Baudelaire através do modo como ele musicalmente o leu e Cristina Branco o interpretou.
O tema tornou-se para mim mais do que moderno, post-moderno, na sua súbita alegria e quase desprendimento, (da melancolia e saudade de um Além desejado mas tão longínquo na sua promessa como o país de Mignon, no sul da Alma, onde limões floresciam). O Longe aqui evocado é o da Holanda (segundo é dito pelo próprio poeta) com os seus canais, e não a Itália de Goethe. Mas isso em nada altera a emoção que o poema nos causa.
L'Invitation au Voyage (1857)/O Convite à Viagem (versão livre)

Minha filha, minha irmã,
Pensa na doçura
De viver juntos bem longe!
Amar à vontade,
Amar e morrer
No país à tua imagem!
Os sóis molhados
Daqueles céus enevoados
São para mim o encanto
Misterioso
Da traição dos teus olhos
Brilhando através das lágrimas.

Lá longe, tudo é ordem e beleza,
Luxo, volúpia e calma .

Móveis brilhantes,
Polidos pelos anos,
A decorar o nosso quarto;
As mais raras flores
Misturando odores
Com um vago perfume de âmbar,
Os tectos ornados,
Os espelhos fundos,
O esplendôr oriental,
Tudo nos falaria
À nossa alma em segredo
Na suave língua natal.

Lá longe, tudo é ordem e beleza,
Luxo, volúpia e calma.

Repara naqueles canais
Como dormem as barcaças
Cujo humor é vagabundo;
É para satisfazer
O menor dos teus desejos
Que venha do fim do mundo.
- Poentes
Cobrem os campos,
Os canais, toda a cidade,
de ouro e flôr de jacinto;
O mundo adormece embalado
No calor daquela luz.

Lá longe tudo é ordem e beleza,
Luxo, volúpia e calma.

Claro, neste meu caso de traduzir um clássico tive de ser literal, sobretudo no refrão.
Perde-se a rima, mas não se perde a intenção do poeta.
Em condições normais, para dizer em voz alta, eu traduziria assim o refrão:
Lá longe tudo é harmonia de alma
Luxo, volúpia e calma.

Não deixem de ouvir o disco!













Wednesday, March 02, 2011

A Noite Abre Meus Olhos


De José Tolentino Mendonça a obra poética reunida, num livro que é ele mesmo um objecto poético precioso: pela dimensão, pelo design e ilustração da capa, a partir de um quadro de Lourdes Castro, um livro como um missal, exclamou Teresa Horta ao pegar nele. Cabe na mão, apetece levá-lo connosco e foi o que fizemos.
Comecei pelo princípio e lá encontro a influência maior que todos nós sofremos: Herberto Helder.
E fui continuando.
Acompanho a palavra discreta que fala das ruas da infância, das janelas por onde o mundo entra, enquanto as senhoras ( ainda foi assim no meu tempo, em casa da minha avó ) continuam bordando.
O que se bordava, naquele tempo? O próprio tempo: a espera, se as jovens ao redor ainda não tinham namorado; a melancolia ou o aborrecimento se a vida já as estivesse a consumir, a elas, a essas mulheres das casas com janelas, mas de cortinas quase sempre corridas (o sol estragava os móveis, mas havia pior: a vida estragava as vidas).
Nalguma poesia de Tolentino é manhã, sim, como ele diz,mas já é tarde.
Terá Deus faltado ao compromisso, ao desejado encontro?

Olhar sobre a cidade
...
anda atravessar os velhos pórticos
e depois fica
sem saber em que tempo
estamos
ou se teremos ainda
que morrer

anda, é manhã sim
mas já é tarde
e tu sabes

A interrogação, em Tolentino, bate no centro do poema, no fundo escuro onde a palavra tem origem.
Como Paul Celan, o poeta pede que lhe digam, para que ele possa dizer a si mesmo o que está mais oculto e lhe é mais inacessível na razão das coisas, do simples existir:

O olhar descoberto
Diz-me
....
se há um sentido oculto
no rodar das estações

Diz-me se
toda a imagem é engano
ou filha enjeitada
do fogo

Diz-me se é certo
que o tempo é um único olhar
prolongado nos dias

se a vida é o avesso da vida
e se há morte

A caminho do fim do livro, não me admiro de encontrar Lourdes Castro, a rainha da Sombra, tal como (no fulgôr oposto) encontrei Herberto Helder ao começar a leitura.Não por serem ambos ilhéus, ambos rochedos da Ilha da Madeira, cada qual com a sua história de fuga e reencontro; mas por ambos terem projectado, nos anos sessenta e setenta de um Portugal obscuro, a luz das suas obras, o ranger das portas que empurravam, ou o clamor dos gritos que abafavam.
Numa entrevista recente Lourdes dizia à realizadora do filme: tudo nasce da sombra, não é assim? Mostrava a raiz da planta que já estava a crescer.
E Era assim.
O mesmo com Tolentino, a noite abre os seus olhos, escolheu ele para título da sua poesia reunida.

Lourdes Castro, Rua da Olaria
....
A minha arte é uma espécie de pacto:
não distingo as áreas selvagens das cultivadas
e elas não distinguem a minha sombra
da minha luz


Se não fosse que ao tornar-se moda se tornou para mim cada vez mais difícil falar de alquimia, esta seria a conclusão melhor para o meu comentário, como parece ter sido a melhor conclusão para a obra de Tolentino: o pacto (eu diria o caminhar pelo obscuro) levou à imagem suprema da conjunção alquímica de opostos: luz e sombra, depois de percorrido o que há em nós de selvagem e de cultivado.
Poética de palavra discreta, de passos só aparentemente pequenos, de silêncios que se (nos) aprofundam, este não é um livro para qualquer um.
Só para quem ame a poesia no seu estado mais depurado e sublime. Sabemos, com Celan, que
tudo é menos, do
que é
tudo é mais.


Wednesday, February 02, 2011

O Sol das Palavras

A Primavera da poesia chega pela mão amiga de José da Cruz Santos e as ed. Modo de Ler.
Resistentes, alguns (poucos) editores e poetas insistem em escrever e dar a publicar, dar a ler prazenteiramente, livro na mão, como nós, os da geração de sessenta, nos habituámos desde sempre.
É bom que a geração do livro não desista - quando esses desisitirem o país ficará mais pobre, alem de mais inculto.
Ora a incultura já é tão desmedida...falta que chegue a pobreza: pobreza de alma, pobreza de entrega ao pulsar de vida que se mantém nas palavras.
Onde houver poesia viverá a palavra, a alegria solar de saber e dizer : que o dito não se esconda, não se apague, demonstre a sua força.
Neste seu livro José Carlos de Vasconcelos recorda, no Prefácio, que publicou o seu primeiro livro em 1960, aos dezanove anos. E passados estes cinquenta anos a poesia continua com ele.
No Princípio
No princípio era o sol
No princípio era a água
No princípio era o vento
No princípio era o tempo
o tempo ainda sem tempo
sem sentido e sem sinais

Depois chegou o verbo o verso
O caos se transformou em cosmos
E o sol a água o vento o tempo
passaram a ser reais.

Entre a reflexão e algum discreto experimentalismo, nos poemas seguintes, José Carlos pratica o seu Ofício de Fogo:
....
Meu colorido é a branco e preto.
Mas no rigor de muitas, desvairadas
navegações, também mudo de rumo
no interior do mapa secreto.
Trabalho por dentro das madrugadas
e meu ofício é de fogo, sem fumo.

Todo o bom leitor de poesia se reconhecerá, ao longo destes versos, com alguma alegria melancólica escondida na luz do existir. Como o poeta que gritou: estou vivo e escrevo sol!
Adiante no livro, em Guardo o Poema ( como Alberto Caeiro guardava os pensamentos, em rebanho de feliz improviso) está toda uma teoria poética, ou melhor, toda uma arte de bem viver a poesia pela escolha das imagens mais actuantes:
"emblema de ouro, rosa vermelha, quadro abstracto, silêncio absoluto, música de festa no meio do luto, peixe que nada em aquário partido, olhar da infância no livro aberto, valsa de Strauss fora de moda" até à chave final, a que abre o segredo de uma vida:
guardo o poema
para adiar a morte

Guardemos o livro, com os seus poemas; adiemos também nós a morte.
Cultivemos, seja a ler, seja a escrever, com José Carlos,
"Um ofício de palavras como laranjas no vento".



Tuesday, February 01, 2011

Roberta Ferraz


Um gesto amigo de Roberta Ferraz, que me envia os seus poemas, adivinhando que poesia é o que eu mais gosto de ler:
LACRIMATÓRIOS, ENÓCOAS (título que precisa de explicação para o comum dos mortais, e ela explica: lacrimatório diz-se de pequeno vaso funerário romano, de barro ou de vidro, para supostamente recolher as lágrimas de pessoas enlutadas, mas que continha os óleos odoríferos e bálsamos necessários aos ritos fúnebres; Enócoa: "jarro grego, com a curva da asa mais alta que a boca, usado para retirar vinho de recipientes maiores e servi-lo à mesa"), ao que julgo saber um primeiro bonito livro de 2009, capa de Mariana Mazzetto. Um livro de tom experimental, algo surrealista no contraponto das imagens, em busca de um novo equilíbrio interior, como quem, logo no primeiro poema o estrangeiro, "espera alguém para jantar". O poeta é sempre aquele que espera, é sempre aquele que chega - sendo ele mesmo ou o outro, como ensina Pessoa.
E de 2010 outros dois livros:
FIO, FENDA, FALÉSIA, escrito a três, como uma espécie de cadavre-exquis, ou de Renga, de sabor oriental na condensação da palavra, nalguns poemas, ou de explosão incontida nalguns outros, - todos ligados por um mesmo fio de inconsciente desejo de dizer;
e DIONISO E ARIADNE, com ilustrações de Isabella Lotufo.
Se Dioniso é tentação, Ariadne é referida como Anima - e aí mesmo começa o mistério, o labirinto e a busca.
Como escreve Maiara Gouveia no elegante posfácio que chamou de Saudação:
" Esta é a jornada de um desejo: Anima, o feminino sobre o mundo. Ariadne: começo do percurso (...) Com a destreza de Hermes, ponte entre dois mundos, Roberta reconta histórias subterrâneas, as mesmas de antes, as mesmas de sempre, inteiramente novas. E põe a mulher no centro da dança".
A recuperação de arquétipos do nosso imaginário permite o que neste livro acontece: um renovado prazer no contar, no encontrar dos ritmos que são próprios do desejo, do fazer e desfazer, nas pregas recônditas da memória.
O mito renovado esconde e ao mesmo tempo revela as nossas novas pulsões, o medo ultrapassado.