Saturday, May 27, 2023

João de Mancelos, CORAÇÃO DE ALUGUER, ed. Colibri, 2023

 Já tenho escrito sobre João de Mancelos, com prazer especial, julgo que nos é comum, pela arte do Haikai. Embora um ou outro autor me tenha dito que tanto faz dizer Haikais, para plural, eu aprendi com Alberto Pimenta, cuja erudição é indiscutível, que o singular é Haiku, e o plural Haikai (sem se usar o "s"). Como não falo japonês e só leio traduções, não entrarei nesta discussão, mas tenho uma linda prenda do Alberto à minha frente, uma linha vertical de um Haiku condensando nessa imagem uma única ideia. Esse é o segredo e o encanto desta prática artística japonesa: uma ideia única numa única imagem que a condensa e contém. A ideia dirige-se ao nosso espírito, a imagem ao nosso sentimento e sensibilidade, como faria um desenho ou um quadro. Uma imagem.

Logo no título do seu livro, que prefiro chamar de poemas e não de Haikai, excepto num caso ou noutro que o permitem, o autor nos deixa com a imagem de um coração"de aluguer". É de aluguer por estar livre e feliz ou por ter sido libertado por outro, com desgosto seu? 

Ficamos com curiosidade de saber e vamos ler o que nos diz, nas suas páginas. Está dividido em 4 secções: Deslumbramento, Labaredas, Abandono e Memória.

Momentos que revelam Atracção, Paixão, Afastamento e  Memória

(Saudade do fim dessa paixão, poetizada ao longo dos vários versos?).

Há que ler, devagar, a leveza dos versos escritos como feridas de alma que não se ultrapassaram. Ou não haveria memória, mas esquecimento, ou apenas simples evocação. A memória traz um actualizado sofrimento, a evocação pode ser tranquila em paisagem  de horizonte longínquo.

Muitas vezes me ocorrem os poemas de Rilke, a propósito das cartas a um jovem poeta, a quem recomenda que não fale logo dos seus primeiros impulsos de amor, pois o amor perturba a clareza do verso. E que só escreva se para si fôr a escrita questão de vida ou morte. Para Rilke era, e assim ele criou uma obra que se tornou universal, para não dizer eterna.

O amor, deste coração de Mancelos, não sei se será de vida ou morte, na narrativa que é oferecida. Mas a algum impulso mais fundo obedeceu, ou não o estaríamos agora a ler, acompanhando o que sentiu nos diversos momentos que também eles são universais: pois quem nunca amou, viveu e sofreu amando, até que tudo findou? O tema do amor é o mais universal, como há pouco tempo, falando de paixão e morte nos dizia José Pedro Serra em Mythos, o seu programa da televisão.

Na minha idade sei bem que paixão e amor não são a mesma coisa, e conforme as épocas e as culturas a sua vivência é diversa.

Vivemos uma época de veloz vivências, ou seja de paixões, intensas mas condenadas à brevidade dos tempos. Já o amor seria vivido de outro modo, e nem sequer está na moda. Daí que neste livro as labaredas tenham mais peso e rápido se desfaçam em abandono. 

Mas volto à capa do livro, que além de ser muito bela, (parabéns à Raquel Ferreira, que não conhecia como ilustradora) nela sim, com o seu título inscrito, coração de aluguer, descubro o impulso misterioso de um Haikai: Fino rosto no meio da sombra e mão que vivamente afasta, recusa (quem sabe se depois ter aceite, alugado, alguma relação de momento, passageira?)

Um Haiku pode ser assertivo, mas pode igualmente ser de interrogação deixando ao leitor a hesitação da resposta. João de Mancelos, e este seu gosto pela cultura oriental, japonesa, terá lido Kawabata e as suas Belles Endormies, notável romance testemunho de uma prática usual ainda no seu tempo e que eu li ainda jovem, em Paris e tanto me deslumbrou pela beleza e pela crueldade que indirectamente revelava. Jovens que eram adormecidas para que os seus corpos indefesos pudessem ser alugados por quem pagasse uma noite junto delas, e vivesse a ilusão de amar e ser amado em entrega total. Muitas morriam, devido à anestesia que lhes era dada. No caso deste romance o homem já de idade que procura e aluga sempre a mesma jovem, por quem se apaixonara de verdade, e a visita uma e outra vez, o amor é vivido de forma intensa e trágica, pois ela acaba por morrer. 

O amor de aluguer descrito nos Haikai de Mancelos é forçosamente diferente, pois ele é jovem, e num jovem a relação é vivida de forma intensa, e não busca um corpo tranquilo,  quem em nada se recuse, mas que esteja bem vivo e que lhe corresponda, enquanto a relação dure. É o momento das LABAREDAS. 

Meditando sobre a capa, uma ilustração também pode evocar uma forma de Haikai. Atrevendo-me a pensá-la ( a idade que tenho já me permite tudo, ou quase, e a intenção é  desvendar amor e não  criticar) eu escreveria:

Olhar que se desvia

Mão que afasta

Paixão que se acabou 

ou

 perdendo-me em variantes:

olhar desviado

mão que afasta

paixão que se extinguiu.

Fica-nos a questão do adjectivo, " de aluguer" .

Coração de aluguer não pode ser um coração qualquer, e só o poeta poderia explicar melhor: nessa relação que a narrativa poética descreve quem foi que por momentos a viveu, a Amada ou o Amado, quem abandonou primeiro e para sempre, disponível apenas para aquela espécie de aluguer e nada mais? Amor de acaso e de ocasião?

Mas que foi enquanto durou intenso e deixou marcas?

Vamos ler.

A PRECE é um apelo, depois de um deslumbramento, da descoberta de alguém que se deseja. Os versos adiante confirmam essa sede de amor: " o meu amor vinha / de um deserto longínquo / e tinha sede de mar.

A solidão é a imagem escondida o amor a revelada. Lembro a epígrafe de Italo Calvino, no início, o mar dentro de um copo", metáfora para a poesia. Ou aqui um deserto que procura a água do mar.

O imaginário da água atravessa estes poemas, e sabemos como da água nasceu Vénus, a deusa do amor esplendoroso a que os poetas se podem entregar. Água, amor, beijos de princípio do mundo, pássaros em busca desses vôos de pura elevação espiritual. Na verdade, tudo é inocente, o corpo do desejo, só de sonho, ainda não está presente.

Mas haverá em breve a imagem do fogo, acelerando o bater do coração sequioso.

Já em RISCANDO A NOITE, depois do elemento água  temos no fósforo o elemento fogo. Água e Fogo, como Terra e Céu, os elementos base do imaginário poético desta narrativa. 

No poema seguinte ANDORINHAS EM OUTUBRO, outono da melancolia,  da velhice sei bem, surge o que diria uma evocação das Belas de Kawabata: "clandestinamente / a jovem e o velho amam-se". E finalmente o corpo desejado, em SOLETRO TEU CORPO DESPIDO:

"soletro o teu corpo despido / entre dosi versos. vem /

interrompe a minha morte".

Entramos assim na segunda parte, de título LABAREDAS, pois já o fogo arde na paixão finalmente vivida.

Água e fogo, fusão alquímica, de que há uma bela gravura indiana do século XVIII que Jung reproduz no seu tratado sobre Psicologia e Alquimia.

Em RAPARIGA ENTREABERTA a fusão torna-se explícita:

"ela entreabre-se ao amor: / afastam-se as águas / entra-lhe o fogo". Ou ainda em RITUAL:

"noite a noite, eu colhia / estrelas ou versos na escuridão / incendiada do teu corpo". Toda a relação se passa na escuridão da noite, como se apenas de noite (ou a dormir, como em Kawabata) a paixão pudesse plenamente ser vivida.

TODA A ESCURIDÃO DA NOITE

tinha uma só boca, 

mas toda a escuridão da noite

para te beijar.

NÃO SEI O QUE CEGA MAIS

não sei o que cega mais:

o lume, o amor, o silêncio

a tua pele de cal na escuridão.

PARA SER DEUS

deus precisa da eternidade 

para ser deus. a mim,

basta-me uma noite contigo.


Adiante falará do que é o seu amor como "ofício de labaredas". Até que tudo se consome e se transforma, nas cinzas do ABANDONO. Terminou a hora da entrega, acabou o que parecia eterno e era só aluguer? Paixão, mas feita de empréstimo e não de completa entrega? Só ele saberá dizer, o que encontrou no amor e na paixão a intensidade do verso.

A paixão definida como "outrora seda" é agora " a pele que a serpente despiu". Resto seco que se deixa para trás como a da serpente , que introduz aqui uma nova metáfora, pois fica no ar a perversidade que atribuímos à serpente, desde logo no Éden, jardim perverso que até agora não tinha surgido. 

Recuperando o imaginário que temos acompanhado, vimos a água, o fogo, vemos agora o céu que fora indicado pelos pássaros e agora é de novo pelo vento.

O vento é o pensamento, é o que transporta e transforma, neste caso um coração que o poeta interroga:

"diz-me: quem flutua, agora,

no teu coração

assombrado pelo vento?"


Deixo ao leitor a continuação da leitura pelos versos da Memória, destacando apenas o final, porque de novo, como no início há um apelo pungente, a última chamada que se guardou algures na memória: " esta noite e para sempre /que o meu coração anoitecido / amanheça no teu peito".

Um belo livro.






 


  





Sunday, April 30, 2023

  

O MELRO

Não estás aqui ao meu lado.

 Bem posso olhar

quando a luz diminui

e na varanda

vem um melro falar.

Se me levanto ele foge

tem a sua relva algures

num jardim não muito longe

onde irá pernoitar.

É feliz esse melro

tem um poiso que conhece

e não tem de procurar.

Eu ainda te procuro

mas já não estás ao meu lado

e não sei adivinhar.

 

30 de Abril, 2023

 

 

Nuno Félix , O Desfazer Das Coisas E As Coisas Já Desfeitas, ed. Companhia das Ilhas, 2015

 

O desfazer das coisas, mais uma vez.

Durmo de noite, durmito o dia todo. Tenho o seu livro à minha frente. Abro ao acaso numa daquelas páginas em que apanho logo o sobressalto de um exercício de surrealismo que joga com uma espécie de auto-cadáver exquis entre a ciência, a anatomia cruel de imagens de gráfica anatomia, descerebrada, e um puro jogo de imaginação literária, erudita, por vezes mesmo simbólica, arquetípica que nos deixa perplexos enquanto tanto imaginário que se auto desconstrói nos eleva para outro patamar.

Nuno Félix, é preciso reconhecer, é demasiado sábio para que o possamos entender. Não nos oferece conhecimento, a nós pobres leitores, mas experiência e sentimento. Exige que o sigamos por caminhos estreitos, as finíssimas ou mesmo raras sinapses entre neurónios que se vão esgotando no meio dos exercícios. O que procuro, quando o leio?  De modo nenhum repetir o seu impossível exercício, mas descobrir, nos intervalos, algo que esteja escondido e me seja revelado.

Arte é revelação, e a escrita meio surrealista, ainda que entremeada de realismo, traz consigo surpresa, desafio, vontade de continuar. Viramos as páginas, seguimos outro parágrafo, procuramos, numa nova metáfora o sentido que traz. Na Ciência como na Arte o sentido dá vida.

Na desconstrução, que é busca e exercício, ambas se encontram e voltam de novo a construir. Essa é a secreta lição?  O sentido da Vida?O que andava perdido do Sinal primitivo?

Leio "Isto é um risco real":

Poderemos continuar ágeis a entrar e sair dos símbolos e a papaguear detritos de uma democracia adulterada? Poderá a mente fazer os dedos agarrar as coisas e espremê-las até o nome aparecer? Como um macaco agarrar e lambê-las e esse saber ser uma nuvem com todas as cores? Quem aparecerá para pensar? Quem ouvirá o pensador desfazer-se no meio do lixo gritar por si - pelo seu nome - pelo nome das coisas querendo tudo separado por gavetas com rótulos? O tempo come os pigmentos da cabeleira das letras - Deixa os símbolos sem correspondência física ou a lei do próprio movimento destruindo a relação à coisa e recriando-se como negação - Funcionará ainda o cérebro com os símbolos rindo da sua loucura?" (p.47).

Para entender seja o que fôr, mesmo uma Democracia deteriorada, há que voltar aos gregos como num outro texto, de abertura, o autor avisou. Heidegger fez o mesmo, quando escreveu, em fim de vida e de carreira recuperada,  sobre O QUE É PENSAR. E fez o que é impossível não fazer, se quisermos pensar...recorreu a um verso inicial de um dos grandes poetas, para epígrafe, Hoelderlin, no Hino à Memória, Mnemosyne: somos um sinal que perdeu o sentido...

E aqui estou eu, com Nuno Félix, e o macaco real que também pode ser um sinal, o deus Thot dos egípcios, metáfora escondida de Hermes, o da sabedoria, a cogitar sobre o que leio, também eu em busca do nome,  o nome oculto, não meu para que o gritem, mas para que eu o saiba, e o guarde em silêncio? 

Será pura coincidência que há dias me tenha debruçado sobre os últimos poemas de Ingeborg Bachmann para descobrir nela o peso das palavras, os nomes que Celan carregou de sentido e lhe foi transmitindo até morrer? Ao mesmo tempo que atrai e recusa os símbolos, eis Nuno procurando à rebours, ele já é de outro tempo, o de agora, o de uma nova negação que constrói e desconstrói, mas sempre para recuperar o que não queremos perdido, o Sentido que só ele dá Vida renovada ao Sinal.    




Thursday, April 13, 2023

O TEMPO

 Uns viram-se para fora

outros viram-se para dentro

entre o fora e o dentro

o Tempo

Tuesday, April 04, 2023

LILITH

 

Lilith

Chegara por fim

a sua hora.

À volta dele

todos queriam ajudar

queriam que se salvasse

daquela Mãe negra

que ali pairava com

 sofreguidão de raiva.

 Ia directa ao coração,

que não comia

como tinha feito com outros

em tempos imemoriais.

Não, desejava agora

arrancá-lo, parando

esforços de salvação,

queria arrancá-lo

do peito tão amado

e enterrá-lo bem longe

na cama de lençóis brancos

que tinha preparado

no seu reino de trevas

onde ficara exilada

por um deus sem nome

que a tinha castigado.

 

5 de Abril 2023

 

 

 

Saturday, April 01, 2023

 UM LIVRO

Um livro é um amigo

pode ficar na mesa

à nossa frente ou

ao nosso lado

com os outros

que foram lidos

 e deixamos ali

desarrumados

é uma presença fiel

não obriga a ser lido

pode ficar assim

no seu silêncio

não há ofensa

ele fechado

e nós calados

 

2 de Abril, 2023

Saturday, March 25, 2023

GATOS , para o João

 

Ele quer mimo,

tem um gato.

O gato

também quer mimo

e busca na cama fofa

o seu lugar mais quentinho.

Primeiro na almofada

mas é só para enganar

ele quer mimo no pescoço

do seu dono a dormitar

e logo a seguir

no seu rosto

escondido sob o lençol

que ele ajuda a destapar.

Calor a mais não é bom

estraga o mimo procurado, 

e o gato deseja agora 

 o seu peixinho sonhado.

Tanto amor liga estes dois

nunca dormem separados

onde está um 

está o outro

este mimo é de durar.



Ainda o Tempo

 

Descubro que afinal

não vivo o Tempo, que

o grande Heidegger definia 

como essência que dava ao Ser

a sua parca existência.

E digo parca

porque o Tempo será talvez eterno

se confiarmos nessa filosofia

ou no cosmos que é 

 também ele um infinito 

segundo agora se afirma.

Mas esse Tempo não é nosso,

ensina a experiência de vida,

o nosso é o tempo pequeno

o tempo feito dos dias

que hora a hora se vivem

na busca inútil do Ser

que Heidegger definia.

Também o Ser é pequeno

conforme o tempo vivido

conforme os dias que passam

afinal vão permitindo.

  

Abraços

 

Foi um abraço

tão quente

que me levantou 

do chão...

e afinal foi nesse abraço

que parou o coração.

Eu não podia saber

tão grande era a minha alegria

e tão grande a emoção

que já me tirava a vida

que eu julgava devolvida

mas que em silêncio fugia

e sem que eu visse a razão.

Tanto amor à sua volta

entre gestos desejados

embora nunca pedidos

mas de novo renovados

em cada dia passado

numa ilusão fugidia...




 Sábado.

Já sei que é um dia morto,

 não é rei morto-

rei posto,

não obedece

ao lema tradicional.

Teremos de atravessar

este dia, faça chuva ou faça sol

dia de mediação

ora de sim ou de não

conforme acordamos cedo

com boa disposição

ora pelo contrário

quando as horas recusadas

sabem a  horas mornas

que nem o café sacode

afinal são horas mortas

 reviravoltas na cama 

procurando o travesseiro

que já pusemos de lado

e agora queremos de novo

ele ao menos fica inteiro

escapa-se dos lençóis

que são mar traiçoeiro

sem nenhuma inspiração

 que nos dê um novo impulso

até que chegue o Domingo

que se vive menos mal. 


Tuesday, March 21, 2023

IDEIAS

 Ideias (terá dito Mallarmé...)

Ideias

nada são sem palavras

não se encontram por aí 

à venda nos mercados

temos de as procurar

com paciência e cuidado

em espaços recônditos

da alma

difíceis de alcançar

muitas vezes teremos

de esperar

podemos até morrer

sem as ter encontrado

e talvez um dia por acaso

alguém

venha a tropeçar nelas

e sem pensar em nós

exclame olha que sorte

palavras tão buscadas

para uma ideia nova

 só agora nos surgem

tendo escapado à morte...  

Monday, March 20, 2023

DESEJOS

  Desejos

Altos são os desejos 

de quem tudo pede aos deuses

e não aguenta a espera

a que o obrigam...

os deuses não respondem

a esse tudo ou nada

tão repetido

tão cansativo

tão intenso

e que consome por dentro

as energias

e pior

as alegrias

que seriam possíveis

sem pedidos

nem gritos de lamento...

os deuses são assim

por vezes mais atentos

outras vezes cruéis

na réplica do que sabem

da natureza humana

que desprezam

mesmo quando fingindo

que parecem ajudar...

não peçam,

não clamem

não desejem

é esse o meu único conselho

dos poucos que tenho para dar.

 

Lisboa, Março 2023

 

 

Saturday, March 18, 2023

CRIAR

 Se me perguntassem eu diria

 criar é transformar.

Não é repetir

muito menos imitar

é simplesmente 

transformar. 

Talvez uma norma alquímica

 ajudasse

ver como os sábios trabalham

a sua matéria espessa 

criando com ela o branco

passando do chumbo ao ouro

da negra escuridão

à luz

a primeira que Deus tirou

da criação.



Friday, March 17, 2023

JOSÉ LUÍS FERREIRA, ELE AINDA NÃO SABE QUE MORREU, 2022

 É um título algo enigmático. Quem é esse que não sabe que morreu? Um velho com Alzheimer? Um avô, um pai ou um amigo? Estamos todos tão velhos, e tão à vista de quem nos olha...

O volume, de contos, breves, de leitura rápida, mas não simples, faz-me pensar que os autores que não estão debaixo do chapéu de chuva das grandes editoras têm de fazer pela vida, pois desejam ser lidos, e assim vão aparecendo ora em editoras ditas pequenas  - mas que são as que sobrevivem, contra tudo e contra todos e nelas se refugia a outra literatura, quantas vezes melhor, mais livre e arrojada - e nela se encontra um outro prazer de ler em vez dos temas recorrentes da moda...

A editora de Luís chama-se cinco livros. E é no Porto que está localizada. Curioso como no Norte o desnorte parece ser menor, a actividade resistente é maior, em comparação com Lisboa. Circula-se mais entre amigos? Ou é só um acaso?

José Luís Ferreira tem, aos 60 anos, já vários livros publicados. Este é um bom momento da vida, em que o prazer, ou a necessidade de comunicar pela palavra ainda não se perdeu. Agora, que se vive mais tempo, Jung chamaria aos 60 anos, como antes chamava aos 40-50, o meio da vida, o tempo da maturidade, do equilíbrio da Anima, do reconhecimento das pulsões do inconsciente revelados de forma indirecta em símbolos e arquétipos que podem ser recolhidos nos sonhos.  A arte da Alma (Anima) é próxima da arte da jardinagem. Mas não vou falar aqui de alquimia, são tantos os seus jardins, o espaço que o post me permite não chegaria.

Falarei então do José Luís, do seu volume de contos. Recebi, mas não acusei logo a recepção, o livro tinha sumido da minha vista. Um cavalo (da alma?) trouxe-o de volta. Há uns dias o autor interpelava-me via facebook, onde vou cada vez menos, estou a ver muito mal e as gralhas não podem ser corrigidas, um irritante, diria alguém que manda em nós todos. Diga-me só se recebeu o livro. Como quem diz, não quero que leia, mas diga se recebeu. Ora bem, recebi, e estou a ler.

Leio e escrevo devagar, tanto quando se trata de mim como quando se trata de algum outro. Não escrevo sobre o que não li...defeito meu. 

Mas estou a ler, e ocorrem-me autores como Lautréamont, os Cânticos de Maldoror, pela intensidade de uma prosa poética que se situa no limar de ambos os géneros: é um livro solto, de contos, alguns breves - o que é arte difícil e de elogiar - outros com uma ou duas páginas mais. Interessante é que não sendo poesia a linguagem está carregada de imagens, como se fosse. E esse aparentemente simples facto muda tudo no género conto que nos é apresentado. Temos de reler, para saborear uma linguagem que não se espera, nesta narrativa. José Luís surpreende, essa surpresa que prende obriga à releitura, a um novo pensamento, uma nova abordagem da sua originalidade. 

As palavras que escolheu para a contracapa, onde se descreve a relação com o que não sabe que morreu, adquirem especial peso no final, com a frase sobre os caminhos que "nunca percorreu, a utopia e o abraço". Utopia e abraço. Visão e sentimento.

Muitos do contos são poemas de amor, na verdade, ainda que em prosa intensa. E em todos uma reflexão filosofante, sobre a circunstância do ser e do amar. Amar não chega, a consciência de uma permanente finitude entre desejos não deixa que o amor se torne numa experiência única, irrepetível. É a condição humana a que nem o poeta, ou narrador mais inspirado, poderá fugir: "estranha é a eternidade, a proximidade da emoção" (p.36).

Se retomarmos a frase citada na contracapa, a utopia e o abraço, torna-se claro que estamos perante o desejo (o corpo) e a realização (a alma), seja na vida real ou na sonhada, e de todos os modos pela palavra perseguida e carregada de sentido, um pouco no seguimento de um Herberto Helder, nos seus Passos em Volta.

"Eu sei, raros são os sonhos e os lugares profundos" (p.44).  Sem dúvida, daí a dificuldade de dizer, primeiro de modo quase displicente, indefinindo os géneros literários seguidos, prosa? poesia? depois intensificando a expressão do desejo que já não se oculta, se manifesta, se afirma e se declara ostensivamente.

Sem índice que ajude, acaba o livro, mas fica aberto ao folhear de acaso do leitor. 





Thursday, March 16, 2023

Reflexão para um Amigo, Vítor Gameiro Pais, Lucília e Cecília, um conto.

 Trata-se de uma pergunta sobre um Conto, o que é,  afinal.

Foster definia o género Conto pelo limite de número de páginas, narrativa curta não mais de 30 a 50 páginas. A partir daí seria novela, ou romance, se ainda maior. Mas na verdade há narrativas curtas, short stories ou mesmo curtíssimas, a partir do momento em que os Modernistas alteram ou mesmo destroem os conceitos de género.

Mas a pergunta que me faz um amigo é outra, se pode ser conto uma prosa que escreveu e me pediu para ler. Leio. Não é a dimensão que interessa, mas o modo de escrita. Vê-se que escreveu  um texto quase neo-realista pela atenção ao pormenor, ao detalhe, desde o cheiro do autocarro à irritação que lhe causa uma velha que lhe passa à frente. Ele, que chegou primeiro ao lugar, não se dispõe a levantar-se e a dizer-lhe sente-se aqui. Mas alguém que o irrita ainda mais ofereceu o lugar. Chama-lhe idiota. Está a adjectivar quem o aborrece, nesse dia que parece de todos os aborrecimento, numa curta viagem de regresso a casa.

O regresso a casa, eis um bom motivo literário para desenvolver, mesmo não tendo lido a obra dos vários psicólogos que se ocuparam dele.  O mesmo do autocarro, que é mais caixote onde se empilham humanos, ou mesmo caixão, de gente que ainda não morreu e ali fechada se revolta e enche de pontapés a tampa  que desceram.   

O tom é de alguém que está vivo e contrariado, a quem tudo aborrece, e é desse aborrecimento que dá conta. 

Se pode ser um conto? Pode, mas espera-se que tenha uma continuidade de outros que se lhe sigam e formem um volume, que diremos de contos. E quanto a este em concreto é mais quem sabe um começo, a que o conjunto de outros definirá a questão (que muitos desejam) de "género".

Assim sozinho leio o conto como uma narrativa que poderá ser, ou não, um "arranque" para o autor continuar a sua escrita, de que sente falta.

O que ele deseja é escrever, continuar a escrever, o que não lhe tem acontecido. Sente a falta desse exercício da palavra, a que exprima os seus sentimentos, seja em prosa ou em verso (ele também escreve poemas). A pulsão da escrita surge, não pode ser imposta, apenas desejada, mas quem sabe se esta narrativa de autocarro, ainda que de zanga com o mundo à volta, será já um princípio? O que vier a seguir dirá. Em vez de conto pode vir a ser uma página de diário.

Os modos amargos,  de tom coloquial ou mesmo com algum termo mais grosseiro pelo meio, estão na moda. Cultiva-se a inquietação, a impaciência, a infelicidade da auto-comiseração. E tudo de modo apressado, não vá a palavra fugir. Mas o que fica, além da ideia de ser conto? Ser breve não é só por si uma qualidade literária. E um olhar desabrido sobre o mundo real também não. O que falta, na escrita, é a surpresa que nos deve trazer, a originalidade, a inovação de algum acontecimento numa banal viagem de autocarro com a vontade expressa  de chamar nomes e embirrar com tudo e todos à partida.

Nomear as gotas de chuva que bateram no vidro, com nomes femininos, normais, nem ao autor / narrador, pareceu suficiente. Uma gota de chuva pode ser tanta coisa, há tanto simbolismo na água que embate nos vidros, cai no chão, na rua, nos regatos, no mar...Claro há também o feminino na Água, de cuja espuma surge a Vénus tão aclamada. Daí que as nomeie. Mas estão longe de ser a mítica figura...Podiam ser reflexo, espelho, diamante inclusive se limpas e brilhantes.

Já temos aqui matéria a explorar, a casa, o regresso, ( o que é um regresso tão contrariado? O que diria Freud?) a água, de simbolismo insofismável é só procurar (em Pessoa falei da água e da morte, mas não quero impôr o meu exemplo, procurei no seus poemas e encontrei).

O autor precisa de continuação, de mais contos, sejam curtos ou longos, mais subjectivos ou objectivos, realistas ou surrealistas, mas apontando para um outro nível, que me leve a dizer, isto é literatura. Este conto não surpreende, apenas confirma um determinado estado de alma. O desejo da escrita. 

E agora caio na minha própria esparrela, o que define afinal o que é  ou não literário?

Como em Heidegger, o que é Pensar?

O filósofo socorre-se de Hoelderlin, o célebre verso de sermos um Sinal que perdeu o Sentido, no Hino à Memória. Pensar é procurar o Sentido perdido. Pensar o Tempo ? Como no enorme O SER E O TEMPO? Como pensar um e outro? Viver um e outro?

Poderemos aplicar este verso à literatura, à criação poética?

É o Sentido, tal como no Pensamento, que confere outro estatuto ao que escrevemos? Cada autor é um só, e deve ser lido como tal. Voz única em cada único momento. 



 


Monday, March 13, 2023

Se pudesse dormia. 

Tão breve a noite,

tão longo o dia...





 

Capuçon e Wang

(Franck e Chopin)

Chora o violoncelo

o piano responde

neste cair de tarde 

em que ressoa a morte

os corpos caídos arrefecem

abandonados não ouvem

 a dôr destes acordes

Friday, March 10, 2023

Oníricas, de Ana Marques Gastão

 Quem já conhece a obra de Ana Marques Gastão não estranhará que o título contenha um duplo sentido, que nos faz pensar (tudo o que ela escreve nos obriga a pensar, não deixa que fiquemos pela rama).

Oníricas, um conjunto de sonhos que transformam as sensações, as memórias que ficam, em poemas? Ou poemas que aspiram a ser sonhos e permitam aos sonhos essas revelações contidas neles?

Ana dá  no Prefácio um fio condutor de leitura a quem não entenda por completo a subliminal cultura, o desejo do risco na página do poema, para mostrar que na arte tudo é expressão, mas também que tal como nas crianças riscar é exprimir um movimento, um impulso carregado para o próprio (e quem sabe para quem está ao lado) de algum sentimento inesperado? 

A arte é o inesperado. Sem surpresa não há arte, e o poeta bem sabe que muitas vezes, sem ele pedir nada, o verso o toma e surpreende, e ele então não faz mais do que obedecer, empresta a sua mão, a sua imaginação, e deixa fluir ideias, imagens, pensamentos. 

Heidegger reflecte sobre o que é PENSAR. Ana reflecte sobre o que é CRIAR. Em ambos uma raiz comum,  um Sinal que adquiriu um sentido, e na inovação do pensamento, ou do poema criado se manifesta. Aqui se relembra Hoelderlin, o seu hino à memória.

Dou a palavra à autora:

"Os poemas de Oníricas nasceram, na grande maioria, da transcrição de sonhos ocorridos durante décadas. Partem, por isso, da leitura sistemática de uma colecção de cadernos que fui reunindo. Apesar de o convívio próximo com o mundo além-consciência e a leitura e a escrita terem funcionado como instrumentos de um método experimental, só o processo de transfiguração poética me permitiu reflectir, do modo mais livre possível, sobre o universo da palavra por meio da qual nem a mão sabe por onde vai".

Escreve, mas não partilha do culto da escrita automática de um Breton, pois a sua escrita é cuidada e revista, talvez porque emana de um fundo que ela conhece bem, o mundo dos arquétipos que se revelam nos sonhos que se apontam. Outros não se apontam, não pertencem ao outro mas apenas a este mundo banal, mais quotidiano. 

Curiosamente, como em Nuno Félix, ou Rosário Pedreira, que neste ano falaram sobre o corpo (humano, como se houvesse outro, que fosse apenas onda e não matéria) também Ana tem um conjunto que tem por título CORPOS. 

Interessou-me especialmente, pela relação com os anteriores e as suas publicações. Os corpos sofrem e em tempos de guerra o despedaçar torna-se tão visível que nos dói a sua dôr. Mas também dançam, no seu balançar, estes corpos de cuja morte, sem a citar, se fala: "dança de pé com os pés /  e agora larga o chão, / a prisão, a terra / o falso balanço da vida."

Pensamento de que se é salvo pela palavra poética.

Adiante, em TRONCO, é descrito o processo de salvação, os olhos fechando sobre um apelo : " torna-me informe, / diz o meu nome / pede-me o que nem sei imaginar. / rouba-me o poema...." culminando numa série de fragmentos que levam ao verso final " até o coração rebentar".

É isso, não uma implosão no onírico, mas uma explosão na palavra.

Só a palavra salva. Ao princípio era o Verbo...e o Verbo se fez Carne, não pode haver Deus sem Corpo,  Espírito sem Matéria, Poesia que não nasça de um profundo Silêncio onde o sonho se esconde e o coração bate.


 


O DIA E A NOITE

 

Ao fim da manhã

se pudesse dormia.

Quero a noite

de dia

já que de noite

tenho o dia...


Tuesday, March 07, 2023

A pergunta

A pergunta foi esta: 

como é o seu dia?

Fiquei a pensar

como é de verdade

o meu dia?

Acordo cedo

e não queria acordar

foi um empurrão

da madrugada

que me tirou do sono

quando eu estava a sonhar.

O resto é um rito banal

café quente

notícias da guerra 

que leio no jornal.

Ao país prefiro não ligar.

Saturday, March 04, 2023

Rotinas

(Porque hoje é Sábado, lembrando Vinicius de Morais

Velhas rotinas

não se recuperam mais.

Vamos criar as novas

sem abdicar do café

logo de manhã 

para ajudar melhor

a sacudir o sono

que ainda sobra da noite

e um pouco da madrugada.

O que fazer do dia

que aparentemente 

não oferece nada? 

Medir a tensão

está bem

e não esquecer de tomar

os eternos remédios

que sustentam a vida.

 A guerra continua

e ninguém quer a paz

não há melhor negócio

o dinheiro que traz

para todos os lados

eterno é o negócio

e penso nesta rotina

esta é a que eu não queria

mas é o que o tempo dá

as imagens de horror

de velhos e crianças

que em breve morrerão

quem podia fugiu

e quem ficou

vai varrendo as ruínas

é a sua rotina.

E eu que faço da minha

em cada novo dia? 

Acordar é bastante

dirão alguns amigos

tão grande a desolação

tão grande a monotonia...

Não sei se afinal é bom 

viver tempo demais.

 











Thursday, February 23, 2023

ELE

 ELE

Não, não esperou por mim.

Quis ir à frente, como sempre fazia.

 E depressa

que a minha lentidão

sempre o aborrecia.

Eu ia mais devagar

ainda a meio da rua

parada no meio da vida.

Lisboa, 22 de Fevereiro 2023



Wednesday, February 22, 2023

W.B. Yeats por Cristina Carvalho

 A capa da edição, com a foto do poeta, faz-me pensar que a moda vai e volta, e é o caso da franja, ou da melena que lhe cai na testa, como hoje em dia se vê em muitos jovens. Dá um ar sedutor, que evoca bem a sedução deste poeta aqui apresentado, muito na primeira pessoa, o que nos ajuda a entender melhor a vida e os percursos que se transformam em sentimentos. O sentimento da natureza, o amor do mar, ou da montanha, essa identificação mágica é muito bem transmitida nesta quase biografia, em que se salienta a matriz céltica de uma Irlanda sempre presente, por vezes só na memória.

Quando o livro foi anunciado, lembrei-me logo do volume que tinha visto na biblioteca do armário pequeno de Fernando Pessoa, em casa da sua meia-irmã, Dona Henriqueta Rosa Dias. Os livros desse armário seriam para mim tão interessantes, pelo conteúdo, como os papéis da Arca. Ali Pessoa tinha Yeats, Whitman, Joyce, testemunho da sua curiosidade pelo mundo moderno, a par dos volumes sobre matéria oculta, matéria que também foram objecto, como lemos em Cristina Carvalho, do poeta que biografou assimilando-o como um quase alter-ego que se tivesse apossado dela, como nos diz na Introdução. É esse um dos poderes dos poetas, tomar conta das almas dos outros e rasgar nelas horizontes novos, inesperados até.

Coerente com o que se conhece desta autora, a epígrafe que escolhe, de Stefan Zweig:"sempre que o espaço se alarga, a alma abre-se"(da obra sobre Montaigne). E na verdade, eu que a leio há bastante tempo, como li outrora o pai, Professor e Poeta, é isso que verifico: ela viaja, ela busca horizontes, ela escolhe obras e autores, ou cria as suas, e em tudo o que faz lemos e vivemos com ela espaços que se alargam, e desse modo vão abrindo as nossas almas. E eis-me então aqui com um poeta que por coincidência (ou seria algum momento  de magia celta? ) nasce a 13 de Junho, como Pessoa, embora uns anos mais cedo, 1865.

O imaginário celta que a autora nos descreve, "feito de seres inacreditáveis" dos que vivem nas grutas e nas florestas, que são fantasmas, gnomos, fadas, bruxas, o estudo da astrologia (Pessoa, estarás também aí, mais tarde, fascinado com ele? ), a alusão ao falar com vivos e com mortos (ser medium) mais uma aproximação?

 Yeats começa com o estilo romântico e simbolista dos tempos, e depois evolui para uma modernidade avançada, que lhe dará o direito a um Nobel em 1923. Na verdade, por toda a Europa os anos 20 faziam o seu caminho de revolução nas artes, poesia, música, pintura, e um criador seguia esse caminho, Yeats sendo um deles.

Cristina realça o seu permanente amor da natureza, mas não esquece algo que também foi moda dos tempos, - e se descobre em Pessoa - "a paixão pelo ocultismo, pelo espiritualismo, a mística e a astrologia. Estudei a fundo todos estes assuntos e complementei sempre a minha vida com as ciências ocultas" (pag.29)

Talvez aqui nos seja lançada a ideia de uma tese que aproxime estes dois grandes criadores, apesar das suas diferenças. Também as diferenças são merecedoras de estudo...

À medida que avançamos na nossa leitura torna-se mais clara a intenção que a autora já dera a entender na Introdução: não faria uma narrativa densa e complexa, mas escolheria momentos em que o poeta melhor se revelasse ( como quando alude à  sua melena, que lhe cai sobre uma parte da testa e o torna mais bonito, vaidade que não o perturba, é vaidoso, e que mal tem? ). A nossa leitura prossegue pelas páginas em que já se situou a importância da relação com a família, o amor dos estranhos livros que estuda e da consciência que esse mundo alargado lhe confere e nem todos ou mesmo ninguém à sua volta entende, e sem dar por isso, porque é leve, directo e agradável o modo escolhido pela narradora, estamos a meio. É uma das grandes qualidades de Cristina Carvalho, da sua escrita, não tem, não precisa, de arrebiques que compliquem para dar um colorido de falsa erudição. Gosto de ler quem escreve assim, e quando acaba, acaba. Sem complexos.

Não cabe num post tudo o que se pode dizer sobre um livro que deve ser objecto à parte de estudo mais aprofundado.

 Mas de novo, porque leio em regra até ao fim, antes de escrever, aprendo com Cristina Carvalho (com ela podemos sempre ter essa surpresa de aprender) que o poeta foi um iniciado da Ordem da Golden Dawn, fundada por Israel Regardie, MacGregor Mathers, Aleister Crowley (iniciado em Paris em 1900) que Pessoa conheceu bem, e alcançou o Grau de Grão-Mestre, o que o leva a sentir-se muito feliz, como afirma (pag.83).

Tal como em Pessoa, que estudei bem, Yeats mereceria agora que sobre ele fosse feito um estudo cuidado dos reflexos no seu pensamento e na sua obra, no meio de uma Inglaterra onde a teosofia, pela mão de Madame Blavatsky, que Pessoa traduziu, imperava. O ocultismo, lá como aqui, seduzia os espíritos, havia aquele impulso de saber mais, abrir o desconhecido, alargar a alma e os sentidos. Sabemos que Oscar Wilde não apreciava nem a poesia nem os estados de alma do meio que frequentava e não terá apreciado Yeats. Mas esse fica para outro momento.

Cristina alude ainda à paixão não correspondida que o poeta viveu durante longos anos, à actividade ligada ao teatro, e a pormenores da sua vida e casamento tardio, com Ezra Pound como Padrinho. 

Mas na verdade a sua vida foi a sua poesia e é para ela que o livro de Cristina nos empurra, num conselho final. Sigamos o conselho... 





Wednesday, January 11, 2023


 morno o corpo

 que de noite

 nos resgata

não são precisas palavras

não é preciso mais nada



Friday, December 30, 2022

FIM DE ANO

 À medida que o tempo passa

enquanto os dias se alongam

não é o tempo que passa

somos nós.




Tuesday, December 13, 2022

 Embrulho a alma

em cobertores de lã

e mesmo assim não aquece. 

Ao fim do dia revivo

aquele momento

em que a vida fugia

e eu ainda insistia

e era tarde demais

o frio já instalado

a alma já de partida


Saturday, December 10, 2022

 A Grande Mãe

 surgiu das águas fundas

abriu os braços 

abraçou o planeta

devia ser a terra

mas não era

nada ali tinha vida

era um planeta morto

feito de terra seca

um coração de pedra

que nem sequer batia

no céu brilhava a lua

o astro dos enganos

fingia ser a Mãe

reflexo dos oceanos

canto da luz eterna



 

Wednesday, November 30, 2022

 Invernos 

Coração amachucado

 folha de papel num charco

onde já não cresce nada


Saturday, October 08, 2022

Tempos

 Não só dos copos

também dos dias

se pode dizer

que se esvaziam

e onde está o tempo

o garrafão que os enche?

Friday, September 30, 2022

REVOLUÇÃO

 Ainda que fosse bordado a ouro e diamantes

esse pano que vos cobre a cabeça

para tapar os longos cabelos

que chegam à cintura

ainda assim esse pano seria sempre 

sinal de escravatura. 

Ó jovens do Irão

rasgai os panos 

cortai os longos cabelos

 quebrai as varas com que

vos martirizam

esses falsos profetas 

de um deus que nada disse


Chamai os Anjos do Céu

que desçam

com as suas espadas de fogo

e que degolem

os homens que foram filhos

e agora torturam mães.

Wednesday, September 28, 2022

Estranhamentos, ainda os poemas

 Quando o livro me chegou, pelo correio, não estranhei a beleza da edição, há anos que a editora Quetzal da Piedade Ferreira e do Rogério Petinga me habituaram ao bom papel, à letra cuidada, escolhida para que se leia, aos autores que depois arrumo na estante que chamo dos amigos. Só bons autores, bem editados, um prazer. Prosa ou poesia, sempre a colheita é genuína.

Por que me ocorre então esta palavra, estranhamento, com este livro de agora, O MEU CORPO HUMANO de Maria do Rosário Pedreira?Poderia ser outra coisa, o seu corpo, a não ser humano? Podiam os poemas ser de animais, uma espécie de bestiário moderno, ao gosto dos textos de metáforas medievais? Que humanidade especial deseja a poeta sublinhar, neste livro, com estes poemas? O tu a quem se dirigem não perceberia o sentido se ela não o sublinhasse? Que é corpo, (tanto como será de alma) e cada parcela do seu corpo adquire vida própria, como se fosse de vida renovada, pelos sentidos despertos, que abrem  em epígrafe o início da escrita e da nossa leitura:

É o meu corpo

humano, vê, ouve,

toca, pensa e

dói-lhe.

Volto porque

preciso muito

que me amem.

 

O livro fala do que sente um corpo que ama, mas deseja mais, que sofre e evoca o sofrimento, ainda que passado, desarticula, como se fosse livro de estudo de anatomia, as várias partes de um corpo que no poema se disseca. Tem a noção da efemeridade do que é humano no corpo, sem se sentir obrigada, no exercício poético a exprimir estados românticos de alma: "daqui até à morte é um instante". Pede contudo que aquele a quem se dirige - esse outro sempre presente - lhe ensine no intervalo da vida " as horas do amor". O amor, dado e pedido, faz a materialidade do seu corpo mais presente, ou mesmo sempre presente, quando é expresso. Basta um gesto, uma presença, uma comunhão, mesmo ao envelhecer pensando em como foi o sexo que fizeram e o que vão fazer. O mesmo com os poemas, pois também os versos terão o seu tempo, ou já o tiveram, e não se sabe se voltarão a ter. Esta não é uma poética de interrogação, é uma poética de evocação (bem humana) ou de afirmação convicta do que diz. Torna-se um quase diário que se não estivesse ordenado em estrofes, poderíamos chamar de prosa poética como a de Comte Lautréamont: prosa pela narrativa nua, realista por vezes de tão directa (passo a mão pelo veludo das tuas calças velhas / e aperto as nádegas / firmes do passado. Não sou /  só eu: as tuas roupas também / têm saudades".

Oscilamos, ao ler, entre passado e presente outrora um tempo feliz, agora um tempo que se suspende entre ser e não ser um tempo (um corpo) desejado. Ou como no poema de Sexo, um envelhecer ainda assim cuidado: " Os poemas, tal como nós, já vão / murchando. Há uma espécie de / bolor que se instala nas pregas da / nossa vida e deixa as mãos mais / trôpegas sobre o papel. / Ao fim da tarde / eu fico triste sem razão e / tu adormeces diante de um bom / livro. Temos medo do que aí vem, / mas não o confessamos (...) mas juntos e abraçados até ao fim. " O sexo, o acto de o praticar, com desejo e amor, é referido no poema, em suspenso porque como nos poemas tudo pode ter um fim: são corpo e são humanos os poemas, como a carne de quem escreve e também tem o seu tempo. 

O tempo, de sofrer, de ser feliz, de amar e ser amada, recordar e esquecer,  atravessa esta obra de Rosário Pedreira. É o tempo que torna humano esse seu corpo que ela detalha materializando, como Heidegger, o Ser. 

E já percebo porque me ocorreu a palavra estranhamento ao pegar neste seu livro. Quem já tanto fez, já tanto disse e escreveu, sente esta necessidade imperiosa de voltar a dizer, por que razão? Devolve a quem lhe deu outra vida, um seu relato, cheio de amor e gratidão que se adivinha entre linhas? Diz da sua existência, quem sabe outrora apagada, agora feliz num corpo que sente amado e por isso mesmo humano? Mais humano, como em Nietzche? Humano, demasiado humano, e precisando de mais e mais consciência de que é amado esse corpo, que é o seu. Não esquecer nunca que esta poeta é culta, lida, vivida, e não estranhemos o que nos pode a nós parecer estranho.

Estranha mesmo só a vida...

 



Tuesday, September 20, 2022

Maria do Rosário Pedreira, Os Poemas

 

Entrámos em Agosto, já Setembro, um Outono quente e húmido.

Ando há muito tempo com a ideia de falar daquele encontro no Parque Eduardo VII onde se iam fechar as festas de Lisboa. Nós tínhamos convite para as filas da frente, porque iam tocar os nossos filhos, acompanhando um grande músico brasileiro, que eles conheciam bem, e era o convidado de honra.

O Bernardo tinha sido operado há muito pouco tempo, e íamos os dois, sem empurrões, caminhando na fila para os nosso lugares.

Foi então que me cruzei com um dos meus antigos editores, que não via há tempos, a saudação foi rápida, era hora do concerto, mas o que vi então me deixou até hoje com o que descobri ser da parte dele a revelação – por um breve gesto que fez – de um amor grande e terno. Ia à nossa frente com uma jovem mulher, de aspecto frágil, cujo rosto não vi, mas que ele carinhosamente, com muito cuidado, aconhegou da humidade da noite, puxando-lhe sobre os ombros um casaquinho de malha. Ou seria um xailinho?

Ele visivelmente cuidando do seu amor. Ela visivelemente deixando-se ser cuidada.

Seguiram para os seus lugares, no fim do concerto já não nos voltámos a encontrar.

Ainda hoje, já passaram mais de dez anos, revejo a cena tão comovente e tão reveladora.

Como num gesto tão simples se pode esconder tanto amor.

Hoje são um casal, andam juntos por todo o lado, põem as suas fotos no facebook, a ele conheci muito bem, porque foi meu editor, a ela não conheço pessoalmente, conheço os seus poemas, alguns deles carregados da sombra que é a marca do fado, e muitos deles têm sido cantados por isso mesmo.

Hoje colocou no facebook, que se tem transformado em espelho de alma de alguns, um poema em que ao falar de antigo sofrimento, de todas as maneiras – termina dizendo, pode não parecer, mas é um poema de amor. Eu sei a quem, vi-os, naquela noite, ali começou ternamente a química que os salvava, a ele da solidão e a ela, quem sabe, da morte ao mesmo tempo temida e desejada.

Há um Anjo que protege os amantes na hora do amor. Rilke sabia.

Ocorre-me que tudo no amor é química, e por isso de repente surge uma fusão tão intensa, que se torna irrecusável. Durará para sempre ? Não podemos saber, mas não importa, a força está na magia do instante. Essa é a magia irrecusável, a suave atracção que unirá dois seres. Quantas vezes na vida poderá acontecer? Também não saberemos. Importante é o momento, a entrega subtil, feita em silêncio e tão alquímica que de dois faz um só, num tempo que se tornou perfeito. O que se perdeu regressa, transformado. Os poemas são os anéis da alma, ouro fundido em que todos os nomes se renovam: outrora cinzas, agora estrelas.

 

Friday, September 02, 2022

Félix com Hegel e Lacan (relendo Slavoj Zizec)

 Na edição da puf, de 2011, Zizec é definido como "o mais sublime dos histéricos". Uma adjectivação que atrai, porque o define como anti- seja o que fôr, neste caso contra Platão, o que Aristóteles já fora e continuando a distinção entre o que é possível ou desejável num filósofo Zizec vai fazendo um rápido mas brilhante historial dos filósofos que distinguiu, Fichte, o dos Discursos à Nação Alemã a ser derrotada por Napoleão, a Hegel, que ele define, como se diz no prefácio a este volume, como "monstro do panlogicismo, a mediação dialéctica total da realidade,  da dissolução total da realidade no automovimento da IDEIA. Face a este monstro afirmou-se, pelo contrário, o elemento que era suposto escapar à mediação do conceito" (p.11). Assim evoluíram os sistemas ditos post-hegelianos que se opuseram ao absolutismo da da Ideia em nome do abismo irracional da Vontade, cita-se Schelling, eu lembraria também Schopenhauer ( o mundo como Vontade e Representação), cita-se Kierkegaard evocando o "paradoxo da existência do indivíduo" e ainda Marx "em nome do processo produtivo da vida". A questão que permanece, em relação a Hegel, é que não se ultrapasse o limite que é constituído pelo Saber Absoluto. Zizec interroga-se sobre a origem deste conceito, e que causa horror, do Saber Absoluto. Donde vem? O que se esconde por trás de uma ideia fantasmagórica como esta e da sua presença "fascinante" ? (p.13) Um buraco, um vazio, que só pode ser preenchido se lermos Hegel com Lacan, é a tese defendida por Zizec, ou seja, sobre o fundo da problemática lacaniana da ausência no Outro, o vazio traumático à volta do qual se articula o processo significante. Podemos, por limitação de espaço, saltar para as três étapas do Simbólico em Lacan, a partir do seu hegelianismo : a primeira é a da função e do campo da palavra e da linguagem na psicanálise, que coloca o acento sobre a dimensão intersubjectiva da palavra: a palavra como meio do reconhecimento intersubjectivo do desejo. O que aí predomina são os temas da simbolisação como historiarização, realização simbólica: os sintomas, os traumatismos são "brancas", são espaços vazios, não historiados, do universo simbólico do sujeito; a análise realiza no simbólico esses traços traumáticos, inclui-os no universo simbólico conferindo-lhes a-posteriori, retroactivamente um significado. No fundo estamos ainda numa concepção fenomenológica da linguagem, tendo a análise como objectivo produzir o reconhecimento do desejo numa palavra  "total", de a integrar no universo da significação, identificando a ordem da palavra à da significação. Citando Lacan: " Toda a experiência analítica é uma experiência de significação" (Lacan, 1978, p.374). Será preciso recordar agora que Hegel estudou nos seminários de Hoelderlin e Schelling ambos tido influencia nos seus conceitos idealistas, o que nos levaria até Platão, o Pai das Ideias fundadoras do Bem, do Belo e do Verdadeiro. Uma herança que foi chegando aos nossos dias, incluindo como Zizec refere a utopia do marxismo (tal como em Platão também já tínhamos tido  A República e a sua ideia da sociedade perfeita, gerida por sábios filósofos (com a expulsão dos poetas, perturbadores das almas). Mas retomando Lacan:  eis que da filosofia, pela análise se busca agora o sentido, aquele que se oculta e reprime nos sinais de que falara Hoelderlin, nos seus Hinos. Ser um sinal que perdeu o sentido...E chegou o momento de falar de Nuno Félix, que conhece bem este filósofo, Lacan, e para quem a citação de que toda a análise é uma experiência de significação nos remete também para o célebre verso do poeta alemão: somos um sinal que perdeu o sentido. Filósofos, que constroem os seus sistemas buscando uma racionalidade que se torne explícita e clara, são diferenciados em relação aos poetas que. embora filosofando não é da racionalidade que se ocupam, mas sim de todas as outras formas possíveis, as irracionais também e acima de tudo. Porque há uma razão oculta no irracional, a circunstância, o acontecimento, a vivência (  o desejo ou a repulsa reprimidos). O interessante em Lacan é o modo como ele transita para os domínios da palavra, da linguagem, no dizer de não-sistemas que se aproximam mais da poesia do que da filosofia, manipulam símbolos como se fossem coisas palpáveis no mundo impalpável do que já foi e não é recuperável, engana-se quem julga que o tempo devolve ao outro tempo, do imaginário, o que nele se dissolveu. O que lhe devolve é já outra coisa, que a análise digeriu.

Podemos não ter herdeiros, mas temos antepassados. Nesta leitura que o estudo de Nuno Félix desencadeou há um Freud, fundador e que a todos guiou nos seus vários caminhos, mas há, como em Lacan, as árvores do pensamento dos caminhos de floresta de um Heidegger, por sua vez abrindo a questão do ser e do tempo - tudo o que é, é no tempo - e adiante a questão da linguagem, o sinal e o sentido, deriva que fez os linguistas de Paris dizer que Lacan tinha dado cabo dos estudos de Linguística na Universidade, ao formatar conceitos oriundos da filosofia e da psicanálise, traduzidos do alemão e por aí inovando e confundindo o que era normalmente ensinado.

Félix teve todos estes antepassados e foi ele próprio inovador: bebeu no surrealismo metáforas e símbolos arcaicos, mas a que deu novo sopro e nova actualidade. Toda a imagem, todo o objecto, e nas várias escolas também as da abjeccção, com em Bataille, se forem úteis serão utilizadas. A liberdade é total, Freud pode lá estar mas sem autoritarismo. Termino como ele faz, citando Wittgenstein: calar aquilo de que não se pode (por não conseguir) falar.

Mas deixo Valère Novarina, pintor e poeta, que afirma o contrário: ce dont on ne peut parler c'est cela qu'il faut dire!

Não tem fim o caminho...



   

Thursday, September 01, 2022

Nuno Félix da Costa, breve manual para ser humano, Cepe editora, 2022

Por coincidência, Rosário Pedreira publica sobre o seu corpo humano, e Nuno Félix da Costa um outro livro, em que também é do humano que se ocupa. O meu corpo humano, poemas de tristeza passada a ferro como ela diz. Alisar o sofrimento de que padece o corpo? Ou exorcizar, dizendo o que tem a dizer, e é sempre tão humana a sua voz, feita de canto e lágrimas, por vezes. Mas leio o Nuno Félix: prosa poética, ou poemas em prosa, conceptuais, em que a cultura é transversal à imagem poética, por vezes surpreendente, como já disse a propósito de outras obras. Um pensador que escreve poesia, ou que fala de como ela surge, ainda que de modo insólito (não esquecer que estamos perante um psiquiatra): "O corpo é uma noção acimentada num conjunto / O que o cérebro leva do corpo qualquer máquina de reanimar / supre"(p.9). Assim começa a nossa leitura.Com um texto em que se declara que se vive do pouco que a máquina dá, concluindo com ácida ironia que "confia na pátria e nas soluções mecânicas para a vida". Estão lançados os dados para uma aprendisagem (é um manual...) que se torna por vezes desconcertante, mas essa é precisamente aqui a intenção do poeta. Não facilita, obriga. O dia que começa será vagaroso, e nesse vagar ou desse vagar nascerá o brilho das estrela, e o resto do cosmos. Do corpo que esteve adormecido, sonhando, nascerão outros corpos, as órbitas dos astros. Faz parte do imaginário do humano o sobrehumano, para logo num poema seguinte recuperar uma fisiologia anatómica que conduzirá no fim à ideia, higiénica, de ir tomar banho. Álvaro de Campos não faria melhor. Mas também penso em Lautréamont, é difícil, ao ler, não evocar outras leituras: sem palavras para uma teoria da simplicidade, eis o título de um poema em que o mais é menos, e o menos é mais, ao gosto de Celan. Pois nada é simples, em Nuno Félix, tudo é complexo e obriga a revisitar o que se leu: "A visão da palavra antecede-a. É assim o fundo do mar onde a luz que cada uma emite encontra o alvo - sinos que mantêm silencioso o pensamento A mentira não existe entre os peixes do inconsciente" (p.16). A visão da palavra antecede-a: no primeiro verso já se revela o último, que é feito do silêncio dos peixes do inconsciente, nos sonhos. Fica no ar: o pensamento é mentiroso? Porque na oposição racional versus irracional, é esta última ideia a vencedora? Porque no inconsciente não há filtros ambíguos, a imagem é simples e directa e diz o que diz, sem mais? Como Freud via o mar - as ondas revoltosas, os perigos de naufrágio sem bóia de salvação, Nuno Félix em "conhece-te a ti mesmo" poema do impossível, reflecte também sobre o que vê no mar: "O mar limpa a necessidade de ordem, interrompe-a e afoga / a luz de uma obscura consciência num mim aquiescente / a personagem, uma massa de anjos habituados a mim" (p.18). Aqui poderia entrar uma nova imagem, uma nova palavra, o sublime, dos anjos, ou então a sublimação de um "ego" que se metaforizou num "mim" (a margem de diferença entre o Ich e o Selbst de um Jung, sobrevoando a massa de anjos descrita). A reflexão sobre o eu e o mim é talvez a pulsão mais funda deste livro no poeta que se sentiu impelido a escrever sobre o que sente e o que sabe que sente. Não é fácil, nem isso lhe interessa. Deixa fluir, para ficar mais livre: "liberto do lastro do eu tento ver sem mim...." ou adiante: "conheço como ninguém o que desconheço..."(p.19). Gostaria neste momento de utilizar a definição de Jung para Selbst, que ele distingue do conceito de Ich como sendo mais abrangente, englobando o todo da consciência (domínio do eu, do Ich) até à esfera do sub- e do inconsciente. Com os perigos de inflação de um eu que se funde, mas não se sublima de facto. Já disse atrás que este é um livro desconcertante, que alia ciência e conhecimento da psique à uma exposição do corpo - é o corpo que nos faz humanos, com as particularidades que Nuno Félix não hesita em referir, é no corpo e pelo corpo que na verdade sentimos, a dôr ou as alegrias, ainda que passageiras, da vida que é dada, e é por aí que o autor nos leva, quando fala de manual para ser humano. Alguns leitores terão dificuldade em segui-lo, outros gostarão do pensamento que desafia, nas suas contradições. Não vale a pena querer unificar o que não é uno, pois sabemos que não há unidade, há oposições, contraposições, associações livres e únicas, como muito bem expressaram os surrealistas, e das múltiplas imagens e símbolos que ocorrem, nos sonhos mais fundos ou nos meio-acordados (a rêverie). De todas estas manifestações que se dão na escrita, como na arte em geral - Nuno Félix não exclui a Fotografia como ARTE ÚLTIMA, numa das suas obras mais belas de fotografias encenadas - a discussão (não chega a ser discussão mas reflexão cuidada) entre o eu e o mim não fica fechada, continua em aberto, entre um que pensa o que é, e se o que é o define, o completa, ou inquieta. Inquieta, por isso, embora proclame que "conhece como ninguém o que desconhece" é imparável a sua necessidade de fazer ou refazer com outro olhar o que foi feito. Nunca se vê da mesma maneira o que já foi visto. Basta a deslocação subtil do tempo, do espaço, isto é da circunstância própria que os define. Marie-Louise von Franz, colaboradora privilegiada de Jung, ela mesma grande erudita, explica num das suas obras, Zahl und Zeit como se aproximam a Psicologia das profundidades e a Física (ed. Surkamp,1980) numa obra que ao tempo foi pioneira, mas que hoje em dia, como se vê pelas obras de Félix se tornou objecto normal de estudo e reflexão. Aproveito, porque a ela, colega e amiga devo a gentileza, para agradecer a Anabela Mendes a oferta deste livro, que ela me deu em 1984, estávamos ambas interessadas nestes domínios que os freudianos caseiros ainda abominavam. O cap. 1 afirma desde logo que é o número que ordena a psique e a matéria. Podemos regressar à narrativa bíblica, para entender melhor como a fundação primordial começou com uma criação ordenada em números, os seis primeiros e finalmente o 7º que deveria ser de um eterno descanso, que nunca chegou a ser... Psique e Matéria dificilmente se entredefinem, a não ser, como Nuno explica, se se traçar, com cuidado, com tempo (um outro conceito muito caro a Marie-Louise) um caminho que vá abrindo esferas num todo que permanece fechado, até que se lhe dê atenção e cuidado. Como a rosa de Rilke, tão múltipla e tão rara cujo centro é o centro do cosmos por onde vagueia ainda em ignorância o nosso pequeno planeta, como Dante nos círculos do Inferno. Contudo é este planeta uma das partes do corpo do universo, e a humanidade a sua materialização. Jung refere que sem o Homem, ser que Deus ele mesmo criou, não teria tido consciência de si mesmo e é assim que Jung lê os tormento de Job: a dôr injusta faz parte desta aposta na vida, nascida no Éden e envenenada à partida. Deus - Jeová - precisou de se materializar em corpo humano, para adquirir consciência de si mesmo. E assim aconteceu com Jesus, nascido de uma virgem inocente, e se transformou em Cristo, alter ego da Trindade da religião ocidental. Com a Ascenção de Maria o trio divino se tornará em todo mágico, com o Eterno Feminino conduzindo, como em Goethe, o Espírito Santo da futura Utopia num sonho que se viveu como real, durante séculos. Resumindo, sem corpo não há consciência, nem da divindade criadora nem da humanidade que foi por ela criada. Na obra de Marie-Louise von Franz, ainda no capítulo 1, iremos encontrar as suas reflexões sobre o que são as descobertas de Jung sobre as matérias da consciência e do inconsciente, em Freud ainda aceite como individual, em Jung já acumulando as investigações sobre o que o levariam ao tão discutido, na altura entre ambos, de inconsciente colectivo, acumulação universal de símbolos e mitos que ele estudara em muitas e variadas memórias de antigas civilizações.
Marie-Louise traz à nossa leitura uma comparação que faz todo o sentido para entender melhor esta obra de Nuno Félix de que nos ocupamos: o conceito de onda e de partícula que o estudo da física quântica, praticamente no início ainda do século XX apresentou aos cientistas, para melhor entender o comportamento da matéria. E como nos é útil agora, para seguir a nossa leitura de uma obra ao mesmo tempo conceptual e poética, atravessada por imagens e símbolos que nascem do inconsciente e não de uma racionalidade expectável, esta nova aproximação ao entendimento do humano, que em si mesmo contém o espiritual e o material, no somatório de um eu e de um mim que ora são onda ora são partícula, do todo do ser, definido por Jung e pela sua discípula pelo número 4, nos capítulos em que analisam a simbólica dos quatro primeiros números. 
Termino, um post não pode ser exaustivo, com a citação do nº12 de Arte Última, publicado em 1998:
" A mente é o altar
entre o abismo da ordem 
e o caos da exactidão".