Pensamentos ao longo do caminho: Onde o Espírito é livre o coração não teme, a harmonia é perfeita. ... A grandeza do pensamento não tem limite nos territórios da emoção. É pois verdade que toda a beleza do sonho reside no elogio de um lugar não atingido. ... Os ruídos no coração do homem não são senão os ruídos deste mundo laborioso que nos rodeia. ... A vida não é um dom, é a obra incessante de uma oferenda. ... A palavra do livro é muitas vezes silenciosa...
Au Matin de la Parole, com posfácio de Patrick Quillier, também ele poeta.
Foi uma leitura, ou melhor releitura, o Patrick já me tinha oferecido o livro há alguns anos atrás, gratificante, como bálsamo na alma, em momento que carecia de mais intensidade e mais simplicidade ao mesmo tempo.
Pode parecer contradição, mas não é.
O sentimento mais intenso é, ao fim e ao cabo, como lemos nas palavras dos Mestres de Okoundji, que ele evoca e retoma neste livro, é o sentimento mais simples.
Mais simples das coisas da vida, e também da vida no seu quotidiano, que esquecemos ou até desprezamos, no mundo actual demasiado apressado e demasiado febril. Vaidade das Vaidades...
No Amanhecer da Palavra seria o título em português.
Comecemos por aí: pelo amanhecer, ao mesmo tempo Aurora e Nascimento de um Verbo que se tornará matéria mesma da vida.
Vida contemplativa, feita de atenção e de recolhimento humilde.
Okundji é natural de uma tribu do Congo Brazzaville, e actualmente Psicólogo Clínico num hospital de Bordeaux, e Professor da Universidade.
A sua obra poética define-o como uma das vozes maiores da poesia africana, distinguida com vários Prémios. E este seu título que agora intercala no seu nome, de Mwènè, significa que completou um longo processo de iniciação com os Sábios da tribu originária, e que nele foi delegada a responsabilidade de continuar com a tradição, actualizando-a, pela vida e pela obra.
Este amanhecer que aqui nos é oferecido é um renascimento, um processo ritual de maturação filosófica e religiosa que só o tempo, Sábio máximo, nos pode conceder.
O Tempo e a Vida. A vida na sua multipla abundância: de luz, de escuridão, de frio, de calor, de alegria e de dôr, aquilo a que o poeta chama " os estados do ser vivo".
O amor é parte integrante desse estado de ser vivo: amor de plenitude, entrega e compaixão.
Fico-me, esperando ter despertado a curiosidade por este poeta secreto, com uma das citações dos aforismos de Ampili, a Grande-Mãe e Pampou, o Pai Eterno:
" que a ignorância é o ninho que o pássaro perdeu"...
E como se torna imperioso que os pássaros que por todo o lado esvoaçam, perdidos, recuperem o ninho, ao recuperar também a Palavra perdida, no seu Amanhecer!
Friday, August 23, 2013
Lendo, em Férias... Cristina Carvalho
Uma escrita fluida como onda, surpreendente de tão detalhada, herdeira de um realismo fantástico por vezes feliz, por vezes dorido, em que somos conduzidos por um desejo que é de amor, compaixão e saudade.
Em Ana de Londres é de nós todos que se fala.
Já em Marginal fui descobrir uma narrativa talvez mais pessoal, com atravessamento de memórias, numa escrita rápida e firme, de quem sabe o que pretende dizer, e não deseja perder tempo.
O início é sedutor, e os livros que prendem o leitor têm de seduzir.
A descoberta na rua de um conjunto de fotos antigas, que uma filha entrega à mãe, que por sua vez nelas redescobre um tempo que foi passado e vai tornar-se presente,- é o mote perfeito.
À medida que progredimos na leitura o espaço materializa-se, as personagens adquirem vida própria, sob um olhar que se tornou exigente e contundente: a Marginal, estrada de atravessamentos múltiplos, torna-se quase perigosa, no fogo das emoções que (supomos, não é claramente afirmado) a Revolução de Abril despoletou.
Muitos amores, muitas separações.
O quotidiano banal torna-se insuportável: crítica bem detalhada de tiques e vaidades de pequena burguesia, que se julga de repente emancipada. Mas Cristina, no alter-ego da narradora, não perdoa. Poderia ter dito, como em Downtown Abbey: don't! It's so middle class!
O que me remete para a abertura do livro, antes do 1º capítulo, e a declaração frontal, como que de revolta:
" A Revolução não fui eu que a fiz".
E não foi, mas viveu com ela, ou através dela, todas a mudanças que um ar novo, ainda que de louca rabanada, introduziu.
Cristina tem um olhar arguto, que no traço grosso das personagens caricaturadas remete para algum realismo expressionista, de onde nos leva a seguir para vivências mais fundas, as do amor sentido.
As páginas que são tocadas ao de leve, numa estrutura musical, de "andamentos" preparam as que se seguem, do conjunto de negativos revelados, por onde escorre um amor secreto, amor passado e revivido: mas por quem?
Um itálico separa amor passado de vida presente.
No itálico permanece encerrada uma paixão violenta, de entrega rápida, de desejo que não terá controle.
Mas nas Revoluções, como nas paixões, a intensidade depressa se esgota: a vida regressa a um decurso normal (que pode tornar-se insuportável, conduzindo à separação consequente).
Assim, de foto em foto, se percorre um tempo irrecuperável, num espaço que também ele foi mudando, ao longo da Marginal.
A própria vida se tornou em parte marginal, vivida em recato à margem, mas que uma súbita pulsão poderá, a qualquer momento, fazer de novo explodir.
Talvez só em melancólica saudade?
A estrutura da narrativa é aleatória, mas sem que se perca um dos fios da meada, para mim talvez o mais interessante, e que gosto de ver na obra de Cristina: a capacidade de olhar e descrever com objectividade surpreendente o mundo à sua volta, desde o jardim mais pequeno, à planta mais solitária, ao recanto da casa mais cuidado. Sempre a palavra certa, quando estamos em época de tanta vaguidão e de tanto vazio...
Herança de um pai cientista e poeta?
A qualidade da escrita, neste romance, tem a ver com a minúcia do detalhe, mais do que com a pressa de alguns momentos em que a hesitação, ou a reflexão, poderiam ter tornado o "menos" mais intenso do que o "mais" do seu dizer.
No menos fica guardado o mistério, no mais o explícito apaga a sombra que o teria coberto.
Já li o seu romance, deste lado do mar vermelho, e como sempre me acontece, é-me difícil
falarsobre obra alheia. Por isso nunca,
ou muito raramente, fiz crítica literária, para jornais ou revistas.
Por uma razão: também sou escritora e entendo que todo o
autor – é ele que assina o livro – tem direito ao mais e ao menos, em cada
momento da sua escrita.
Escrevi o meu primeiro romance aos dezoito anos, em francês
(estava em Paris, onde tinha a família da minha mãe). De regresso a Portugal
reescrevi, em português, e saiu na Ática: 1961.
O meu último, publicado em 2011 na Sextante, representa a
chegada aos 71 anos com romances, teatro, poesia e ensaios académicos de
investigação.
A escrita mudou, como a sua mudará – mas para si, felizmente ainda há muito tempo!....
Este é o seu segundo livro, adivinho uma grande e intensa
paixão e necessidade de escrever. Ainda bem, é a marca de um escritor, essa
necessidade. Desde Rilke que os grandes autores dizem que, se a escrita e a sua
emoção não forem sentidas como um acto de sobrevivência, o melhor seria não
escrever.
Descubro no seu romance, com espanto, porque não é usual, um
perfeito e raro domínio da língua e da sua expressividade, nas descrições que
faz. Com marcas da grande prosa neo-realista, que me recordo de ler num Alves
Redol ou num Aquilino Ribeiro, ou mais do meu tempo, um Cardoso Pires (que
conheci e sempre admirei muito). Talvez eu esteja enganada, mas julgo que são
estes os seus antepassados literários? Claro ainda há o Saramago.
Essa marca estilística é uma grande qualidade, que se purificará ou adensará com os anos, com os temas, com o que vier a ser escolhido, na necessidade de cada novo momento.
Quem pensa bem e escreve ainda melhor o que pensa tem o
caminho aberto à sua frente.
Se o estilo é realista, falta agora aludir ao imaginário –
herança de outros, já do realismo dito fantástico, como nos célebres e
fundadores Cem Anos de Solidão, que Saramago também leu bem, e a seguir a ele,
tantos outros das novas gerações.
O seu imaginário é no entanto mais obscuro e mais onírico –
o que o torna mais apelativo para quem a lê.
Deseja-se ler mais, saber um pouco mais.
Aqui entra a chamada estrutura da narrativa: recortada,
post-moderna no uso do flash-back e no aleatório de algumas situações que não
se fundem, antes se vão somando umas às outras.
A Sónia escolhe o mais, em vez do que na minha idade eu
teria escolhido: o menos.
Era Celan que dizia, num poema Cello-Einsatz: tudo é menos / do que é/ tudo é mais.
Por outras palavras, filosofando sobre a depuração do estilo
numa narrativa, o “menos” é na realidade “mais" : porque deixa o sentido profundo em aberto, o
leitor pode completar, reflectindo sobre o que não está dito…o mesmo podendo suceder connosco, ao
escrever deixando uma interrogação só nossa e que nos levará depois a outro
livro…
Resumindo: há uma soma de situações que tornam a narrativa talvez demasiado densa – sem que deixe de ser interessante - isto não é uma crítica negativa. É
uma constatação, apenas.
Mas noutros livros se calhar pensará que o denso, mais
depurado, não ficará menos intenso…escolha que será sempre sua, claro, o autor é dono e
senhor da sua criação!
Na folha de rosto de OFÍCIO CANTANTE (1953-1963) edição da antiga Portugália Editora, que acarinhava os jovens da época, tanto como os consagrados, encontro e deixo para deleite dos leitores, um poema que não pretende ser mais do que isso: escrito ali, à mão, em letra generosa bem desenhada, quase contida, de tinta permanente, para ser lido antes de se começar o livro propriamente dito.
É um sinal, para os amigos, mais do que para os admiradores futuros... amigos há poucos, admiradores há e haverá sempre tantos...
Passo a transcrever: Mexo a boca, mexo os dedos, mexo a ideia da experiência. Não mexo no arrependimento pois que o corpo é interno e externo do seu corpo. Não tenho inocência, mas o dom de toda uma inocência. E lentidão ou harmonia. Poesia sem perdão ou esquecimento. Idade de poesia. (Herberto Helder)
Não se esconde aqui o ser e não ser de um Fernando Pessoa, na plena consciência do que se é não é: " o corpo é interno e externo do seu corpo".Podia este verso ser remetido para o de Pessoa, em frente ao rio, e que Eduardo Lourenço tanto nos deu a ler, quando voltou a Portugal em 1974-1975, para um Seminário da Universidade Nova: " o que é ser rio e correr / o que é está-lo eu a ver"...(in ALÉM_DEUS). Aqui se reflectia sobre a questão do despertar da consciência de si, através da contemplação do mundo (era o rio, mas podia ser "o outro", o outro nele, o do permanente que se revelava do lado de lá das coisas e dos seres, e do eu em si mesmo.
Mas é mais interessante e mais verdadeiro, neste caso deste poema de H.H. ir recuperar a epígrafe de HENRI MICHAUX que ele escolhe, não por acaso.
Quem lia Michaux, naquele tempo? Ninguém, a não ser ele, H.H., por força das suas viagens, de onde trazia leitura e inspiração modificadora da sua relação com a experiência poética, eu, por força da minha cultura, devida em grande parte à via familiar em Paris, numa família onde a edição de PAROLES, de Prévert foi a iniciadora de um novo e duradouro culto da sua obra, pela qual me apaixonei, como pela de Henri Michaux, que me orientou para os estudos do hermetismo e da alquimia, através de um seu amigo. Eram assim os criadores: generosos, distribuindo a alegria e a energia do seu saber e experiência criadora. Eis a epígrafe, que dirá muito sobre este poema de H.H. : Je ne peux pas me reposer, ma vie est une insomnie, je ne travaille pas, je ne dors pas, je fais de l'insomnie, tantôt mon âme est de- bout sur mon corps couché, tantôt mon âme couchée sur mon corps debout, mais jamais il n'y a sommeil pour moi, ma colonne verté- brale a sa veilleuse, impossible de l'éteindre. Ne serait-ce pas la prudence qui me tient éveillé, car cherchant, cherchant, et cherchant, c'est dans tout indifféremment que j'ai chance de trouver ce que je cherche puisque ce que je cherche je ne le sais pas. (Henri Michaux)
Neste anos, de 50 a 60 e um pouco mais - eu, pelo meu lado, seguindo o conselho de Michaux, estudei durante anos a fio os documentos herméticos e alquímicos, procurando, sem saber bem o quê, tal como eles, um fio revelador.
Mas eram eles, Michaux e Helder que na sua obra iam desfiando os fios do saber: Helder na firme ideia de que o corpo é interior e exterior e dessas duas realidades se devia dar testemunho, e Michaux, o insomníaco, buscando na pintura as formas que lhe assombravam as noites e os dias. A COLHER NA BOCA, de H.H. editada na antiga Ática em 1961 faz a primeira recolha desta poesia do corpo, retomada em OFÍCIO CANTANTE: por aqui corre o sangue, um sangue feminino: Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombra o seu arbusto de sangue. Com ela encanterei a noite. .... Cantar? Longamente cantar. Uma mulher com quem beber e morrer. .... Em cada mulher existe uma morte silenciosa. ( O AMOR EM VISITA)
Este prazer, esta busca constante do Feminino em Herberto Helder não se encontra em Michaux. Helder procura um corpo e alma gémeos do seu, que o alimentem, como nos antigos ritos da Deusa-Mãe. Ritos de que se pode morrer.
Michaux já estava do outro lado do Ser , masculino ou feminino, só muito no fim da vida se descobre (no Espólio) aquele jardim parisiense, oriental, onde cultivou uma paz que não vinha do corpo, talvez nem sequer da alma, mas de uma comum entrega e desistência da vida. Uma entrega perfeita...
Sunday, May 19, 2013
Celebrando o aniversário de Wagner, Tristão e Isolde, a ópera mais inspirada, a partir do conjunto de textos do século XII e XIII que hoje podemos ler, em francês moderno, pela mão de René Louis.
No caso de Wagner, o autor lido foi Gottfried von Strasbourg, que narrou em poema a trágica aventura dos dois amantes, de que iremos encontrar testemunhos na literatura inglesa, francesa e alemã, como é o caso.
Para um estudo completo é à Obra de Joseph Bédier que devemos recorrer, pois compilou todos esses manuscritos medievais: uns mais completos, outros guardando apenas partes da tradição, em prosa ou poesia, conhecida até ele, em 1900.
Da autoria de João Moreira dos Santos - cujo nome deveria figurar na capa- um contributo inestimável para o conhecimento do que ele chama de " 90 anos de swing nas letras, 1923-2003".
Um levantamento cuidadoso do que se publicou, em tradução e não só, deixando ver como na era do Modernismo português eram chamados ao design e ilustração das capas alguns dos nossos melhores artistas.
Quanto ao Jazz, a história da sua divulgação em Portugal é antiga, como se pode concluir pela obra de J.Moreira dos Santos.
Aqui fica o destaque, e a sugestão de leitura a todos os que amam essa arte maravilhosa da improvisação, que não nos cansamos de ouvir e todo o tempo, pelas novas gerações, se renova, mesmo quando aparentemente se repete!
Monday, February 18, 2013
I
De vez em quando, num dos meus cursos de Escrita Criativa, era abordada a questão do estilo: o que é o estilo, e o que é o estilo deste ou daquele autor?
A resposta não pode ser imediata: em vários autores se foram notando "mudanças de estilo" ao longo dos anos, devido a um alargamento da sua cultura, da sua necessidade de exprimir, de forma coerente (defendo que num criador a estrutura profunda do seu imaginário pessoal será sempre detectável...) mas renovada.
Picasso podia ser um excelente exemplo: da inicial fase azul, figurativa, mas já com um olhar de través sobre o pano de fundo do real até ao seu cubismo fundador de uma nova linguagem : e aqui se pode encontrar já uma primeira resposta sobre a questão do estilo. Na pintura, como na música, como na literatura, o estilo de um criador será a sua linguagem própria, reconhecível, ainda que renovada.
Vem isto a propósito do mais recente romance de Helder Macedo, Tão Longo Amor Tão Curta A Vida, (ed. Presença, 2013).
Helder tem o dom dos títulos certeiros, e este é mais um deles. Prende o olhar, na livraria, prende as mãos, que folheiam em busca das matérias sensíveis ao gosto de quem gosta de ler. Eu gosto de pegar num livro, de o folhear e por vezes, se calhar de modo injusto (porque impaciente) não conseguir continuar, por falta de marcas de estilo, ou de verdadeiras matérias de interesse.
Helder, de seguida, desfia uma série de epígrafes que emolduram o seu pensamento e clarificam o nosso: de Mário Cesariny, o nosso grande poeta/pintor surrealista, passando pelo Padre António Vieira ( a solidez pioneira da sua prosa), continuando com a irreverência de Alexandre O'Neill, mas sem esquecer Fernando Pessoa / Álvaro de Campos (e aqui se retomaria a questão dos estilos, num mesmo criador em desmultiplicação), C. Drummond de Andrade, William Shakespeare, e finalmente last but not least, Camões, com os versos do soneto que inspirou o título da obra:
Mais servira, se não fora
para tão longo amor tão curta a vida.
II
Começo então a ler.
São 12 capítulos, cada qual com um título que dará indicação de tempo, ou de espaço, ou de ambos. Recordando que existem, em simultâneo com o tempo medido ou o espaço geográfico, um tempo e um espaço de interioridade criativa ilimitada no espaço aberto da imaginação (onírica, muitas vezes assumida, como na prática surrealista).
O romance começa sem preâmbulos desnecessários directamente com o diálogo entre o narrador e um personagem meio estranho, que lhe aparece em casa a desoras, invocando a absoluta necessidade de lhe falar.
O narrador transforma-se em ouvinte paciente, sem deixar de comentar ora a estranheza ora a curiosidade que o mantém atento.
E nós, leitores, acompanhamos o narrador nesse exercício.
Sendo o narrador, tal como o autor, um escritor preocupado com a sua escrita, não será surpresa, mas antes confirmação, que a par do enredo e da intriga que se tece, nos seja oferecida uma vasta reflexão sobre literatura e arte no sentido mais geral: a música estará muito presente ( o cap.12 tem por título a Winterreise de Shubert, que por sua vez nos remete para a Viagem deInverno, que Helder republicou, com outros poemas, em 2011).
À medida que o romance se desenvolve, numa escrita que não faz cedências, mas de tão directa e aparentemente simples no seu dialogar connosco, nos prende página a página, iremos encontrando as referências aos grandes da literatura universal, alguns já constando das epígrafes, como Shakespeare.
Helder recupera em pano de fundo a sua mundivivência, feita de muitas leituras, muitas viagens, muito convívio artístico - algo que o facto de o seu narrador ser também escritor permite, e vai dando substância à realidade e à misteriosa ficção descritas, num cruzamento de situações e reflexões a que não faltam o humor (bem inglês) e a crítica política - mas sem nunca nos deixar perder o fio da meada.
Destaco, como marca própria de estilo, que muito me agrada nesta obra, o rigor do pensamento numa prosa sem falhas, um continuum de reflexão, abrindo no realismo da prosa um espaço para lá dela mesma.
Se tomarmos o muro de Berlin, o seu erguer ( a que assisti, em 1961!) e a sua queda como emblema de um mundo que como todos os mundos ( incluindo o da vida, tão curta, para desejos tão longos) tem um destino marcado e um ponto final, essa recuperação da memória das utopias ocidentais (agora europeias) será, neste romance, o núcleo vital de mais um percurso filosofante com que o autor nos deixa, a par de uma intriga quase policial....
Mas não esperem que aqui vos resuma a história: a ideia é que a leiam...
Franz Schubert (1797-1828) / J.W. Goethe ( 1749-1832)
Em 1822 Schubert escreve o seguinte:
“Quando queria cantar o amor, sentia sofrimento; quando queria cantar a dôr o que sentia era o amor”.
Assim definia a sua alma, complexa e contraditória, tal como veremos que o próprio Goethe, na obra poética como principalmente na personagem do seu herói, Fausto, também a virá a descrever: alma dupla, alma sentida como se fossem duas, cada qual a desejar e a seguir um impulso diferente; recordo o monólogo célebre na primeira parte da tragédia, em que Fausto se dirige ao seu discípulo Wagner:
“Só duma aspiração tens consciência;
Oh, não queiras jamais sentir a outra!
Duas almas habitam no meu peito,
Uma da outra separar-se anseiam:
Uma com órgãos materiais se aferra
Amorosa e ardente ao mundo físico;
Outra quer insofrida remontar-se
De sua excelsa origem às Alturas”.
Nos finais do século XVIII, o século da Razão e dos Iluministas que parecia poder abafar o peso do Sentimento e da sua expressão, - artistas como Goethe, e neste caso Schubert, ambos entrando pelo século XIX dentro, conhecendo os expoentes do movimento romântico e sendo até em muitas obras seus precursores inspirados, mantêm viva a chama do mais fundamental na tradição poética:
a expressão do amor, feliz ou infeliz,
a memória das tradições populares, com uma sabedoria própria, por vezes muito irónica,
sem esquecer o que chamo de grandes temas da literatura universal:
a morte, a interrogação perante a vida, o sentido da vida, o destino, a consciência que se adquire à medida que o tempo vai passando e como que nos traça o desenho do que foi e do que será.
A vida faz de nós Viandantes: não admira pois que poemas como este, tão célebre, ou mesmo só os que abordem o tema da viagem, como se vê na Winterreise, a Viagem de Inverno –tenham um sabor especial para os compositores mais sensíveis à arte da poesia.
O lirismo do poema permite melhor que tudo exprimir de forma concisa as peplexidades, as interrogações que nos assaltam na viagem que é a vida.
Surge ainda nesta altura o conceito de Fragmento, de Inacabado, como forma própria, legítima, de criação. E o poético adquire também deste modo uma profundidade que o aproxima ainda mais da filosofia.
Torna-se género de culto, na Alemanha, como em Viena–de onde aliás, já no século XX, um Musil, um Wittgenstein farão das suas obras fragmentadas os pilares de um novo pensamento, uma nova forma de elaboração filosófica.
Schubert tem 17 anos quando compõe a canção de Gretchen na roca a fiar. Goethe era também muito jovem, não tanto quando escreveu o Fausto I, mas quando pela primeira vez abandonou uma jovem namorada à sua sorte. É esta memória que ecoa no monólogo de Gretchen, de forma tão comovente: Goethe não perdeu nunca a sensibilidade ao sofrimento de amor; sofreu e fez sofrer, ao longo de toda a sua vida!
Outros grandes poemas, datando da fase incial da sua criação, como Prometeu, Ganymed, Limites da Humanidade, irão inspirar os mais célebres compositores.
Porque abordam temas de sempre:
Prometeu, o da revolta contra a opressão e a injustiça dos deuses, Ganymed, o da entrega a um amor luminoso, Limites da Humanidade o da aceitação humilde da vida que nos é dada: temos de ter consciência dos nossos direitos mas sobretudo dos nossos limites, nisso reside a sabedoria verdadeira.
II
Wilhelm Meister, Os Anos de Aprendizagem:
Fulgurações de Mignon
O romance de Wilhelm Meister, tal como o drama de Fausto, foram obras que acompanharam Goethe ao longo da sua vida, dos anos mais turbulentos do Sturm und Drang aos amadurecidos da plenitude do conhecimento adquirido: pela experiência de vida, pela inquirição científica, filosófica, artística dos múltiplos pontos de vista, mesmo que contrários e contraditórios.
Aliás a sua maior lição é mesmo essa: da contradição que leva à plenitude do reconhecimento do Todo e do Uno, na esfera do grande como do pequeno mundo.- para usar uma expressão corrente no seu tempo ( e que conhecemos de Shakespeare e dos filósofos herméticos).
A leitura dos seus escritos autobiográficos permite entender melhor as características da sua formação; cresce num meio burguês de cultura cuidada, onde desde cedo estuda música, aprende línguas, segue direito filosofia, teologia, embora se oriente mais tarde para outras escolhas.
Mas a formação ficou lá e moldou o seu pensamento e a sua imaginação criadora. Não é por acaso que à data em que escreve as primeiras versões de Wilhelm Meister é a criação teatral que o apaixona, fazendo com que contraponha a escola francesa de Gottshed e a proposta de um teatro clássico aristotélico ao modelo muito mais livre e sedutor de Shakespeare, que Wieland dera a conhecer na Alemanha.
Um encenação de Hamlet é discutida longamente com a troupe de quem Wilhelm se torna amigo, viajando com eles. Entre eles viverá o seu primeiro amor e o seu primeiro desengano. Através deles conhecerá Migon, e o Harpista – duas figuras emblemáticas da obra, de que falarei adiante.
A Par das discussões sobre o teatro como arte e expressão da vida no seu todo, no que tem de melhor e pior, e como arte suprema, pois inclui a palavra, a música, a dança - é uma arte total – desenha-se ao longo da narrativa um pensamento filosófico, inspirado na Ética de Spinoza, que que está a ler, como diz na autobiografia e ainda em Rousseau, sobretudo nas Confissões.
Temos assim a apresentação e discussão de modelos filosóficos, estéticos e éticos (bem como pedagógicos, inspirados no suiço Pestalozzi) que ora Wilhelm ora outros intervenientes introduzem numa narrativa por vezes confusa e que só com a evolução do contar, sobretudo nos Anos de Viagem se aclara finalmente.
Contempla-se em Wilhelm Meister um grande fresco da sociedade da época:
1 do pequeno mundo do povo, do teatro ambulante que se deseja maior do que é e mais interessante, como projecto de vida;
2 à burguesia culta, dividida entre o Iluminismo da Razão Pura e o Pietismo, doutrina de misticismo laico mas muito actuante na Alemanha do norte ;
3 sem esquecer a discreta mas real proliferação da maçonaria e suas Lojas, em que se proclamava a liberdade, a igualdade, a fraternidade, e sobretudo uma utopia moral e social que em Wilhelm Meister é representada pela misteriosa Sociedade da Torre.
Tudo isto vem a propósito de se sentir que as personagens de Mignon e do harpista que a acompanha, sendo como são inspiradoras, carecem de um enquadramento que as justifique no seu mistério e sobretudo no desenrolar do romance.
Pois na narrativa servem de fio que une os anos de Aprendizagem e de Viagem do herói, apesar de, numa leitura apressada, poderem parecer mais dispiciendas.
Como surge Mignon e como é descrito?
De início como criatura meio andrógina, Wilhelm não sabe dizer se é rapaz ou rapariga, roupas trapalhonas, ar algo selvagem; mas vendo melhor opta por menina; de facto é uma menina, criança que anda com a troupe fazendo habilidades, e que Wilhelm, compadecido do seu destino, e logo atraído por ela a compra por 30 tálers (30 dinheiros de Cristo…), libertando-a do jugo cruel do seu dono, que era o dono do circo.
(Mas permanece o nome de Mignon: de origem francesa, Mignon era na corte o favorito do rei; detecto aqui no romance alguma ambiguidade de relação, implícita, mas que não se pode confirmar).
Ela será a favorita de Meister, e a ele se devota de todo o coração.
Pela mão dele será educada, vestida como deve ser, ainda que sempre de branco, alusivo a uma outra origem, mística, mais sublime. Um embrião de alma descido a um mundo de imperfeição.
Mignon não fala, ou muito pouco, e sempre de modo hermético, carregado de alusões: canta, como se fosse o seu modo natural de expressão, mais intuitivo e expressivo do que seria um dizer articulado.
O seu mundo é o da pura emoção. Daí que ao longo dos tempos tenha inspirado tantos e tantos compositores, sendo Schubert um deles.
Do ciclo de Mignon, a canção mais célebre é a da nostalgia de um país maravilhoso, solar, em que florescem limoeiros e laranjeiras, se erguem belos palácios e antigas lendas e mitos encantam a imaginação. É para aí que Mignon deseja ir, levando Wilhelm, Amado, Protector, e Pai.
Conheces o país onde os limões florescem,
E brilha na folhagem escura o ouro das laranjas,
Do céu azul sopra um vento suave,
A murta silenciosa e o altivo loureiro,
Conheces?
Partir! Partir,
O meu desejo é ir para lá contigo, meu Amado.
Conheces a casa?Sobre colunas está pousado o tecto,
A sala brilha, refulge o aposento,
As estátuas de mármore fitam-me com o seu olhar:
Pobre criança, que fizeram contigo?
Conheces isso?
Partir! Partir,
É o que desejo, contigo partir, meu Protector.
Conheces o monte, o carreiro entre as nuvens?
A mula procura o caminho na névoa;
Nas grutas vive a antiga raça dos dragões;
Despenham-se os rochedos e em torrente as águas,
Conheces?
Partir! Partir,
Seguir nosso caminho! Ó Pai, vamos embora!
Nos últimos capítulos do romance saberemos do que se trata e quais foram as peripécias trágicas da vida de Mignon.
Mas a resolução final do mistério, ou dos mistérios, da sua vida terrena, que tanto aproximou Wilhelm da sua própria iniciação nas mais altas esferas da vida Superior (a que a protecção da Sociedade Torre não é alheia) não impede a dúvida que permanece:
Afinal o que representa, na iniciação do herói esta jovem Mignon? Raptada (do seu mundo perfeito, que ela evoca numa canção), sofrendo em silêncio os males (a degradação) do mundo (evocados noutra canção), protegida pelo herói , que a entrega aos bons cuidados de uma alma generosa, Natalie (com quem Wilhelm virá a casar) morrendo nos seus braços do amor excessivo que a consumia em silêncio – afinal o que representa ela?
No segundo capítulo do livro VIII Mignon surge diante das outras crianças da casa vestida de Anjo, numa figuração alegórica (como era costume, ao tempo, para surpresa e divertimento nos salões, perante amigos e convidados).
É travado um diálogo que remete para o Maerchen, conto maravilhoso datado de 1795, próximo da escrita dos Anos de Aprendizagem, carregado de simbólica alquímica e maçónica em que diálogos cifrados também cumprem um papel.
Natalie explica a Wilhelm que Mignon, na companhia das meninas da casa de que ela se ocupava, se habituara a gostar das roupas femininas, antes tão difíceis de lhe impôr. E para festejar o aniversário de umas gémeas a vestira de Anjo, de longas vestes brancas, a que não faltava um cinto dourado, tendo-lhe colocado também na cabeça um diadema igual. Tinha ainda duas asas a compor a imagem. Nas mãos levava um lírio e um cestinho com prendas.
À sua chegada Natalie exclama: Aqui está o Anjo!
E seguem-sa as perguntas das crianças, que reconhecem Mignon.
-Tu és um Anjo?
-Quem me dera, responde Mignon.
-Por que trazes um lírio?
-Se o meu coração fosse tão puro e sincero eu seria feliz.
-E as asas? Mostra lá!
-As mais belas são as que ainda não se abriram.
Cumprido este momento mágico ( e de verdadeira iniciação, como acontece no Maerchen), quiseram despir Mignon das suas vestes, ao que ela se opôs, pegou na sua cítara, sentou-se numa escrivaninha e cantou uma canção de grande suavidade: “ So lasst mich scheinen, bis ich werde / Zieht mir das weisse Kleid nicht aus! “
Nesta canção se exprime o alto conhecimento adquirido por toda uma experiência de vida que trouxe Wilhelm Meister até aqui, ao reencontro com Mignon, e com o destino que junto de Natalie o tornará maduro e sábio, pois entenderá as emoções que desde a juventude (na agitada vocação teatral o tinham perturbado). Mignon for a a sua Anima : incipiente, indefinida, como um Daimon ( a que Goethe se refere, noutros escritos) exprimindo-se por impulsos intensos a que cedia. Mignon morrerá para ele sobreviver: pois a pulsão tem de ser integrada ( sofrer morte simbólica, como na alquimia) para se progredir no domínio da Razão superior, da Sabedoria que só a vida concede. No Maerchen, de que se respira aqui muito da sua influência, as palavras de redenção iniciática são maçónicas: a Sabedoria, a Aparência, a Força ( na maior parte dos tradutores de “die Weisheit, der Schein, die Gewalt” , a que no Conto se irá acrescentar outra palavra, o Amor, como força criadora). Rudolf Steiner, Oswald Wirth, teósofos e maçons é assim que traduzem estas palavras de iniciação.
João Barrento, na sua tradução escolhe a palavra que me parece mais adequada: “ a Sabedoria, a Luz e a Força” (p. 318, vol I, ed. Relógio d’Água).
Porque o verbo scheinen, e especialmente aqui, nesta canção de Mignon,tem tudo a ver com o brilho, o brilho da luz da alma, da pura essência em que ela, ao morrer se tronará para sempre, ascendendo à esfera em que não se distinguem mais as formas masculinas/femininas, partilhando todas a mesma fusão do Uno e do Todo na perfeita completude primordial.
Assim também eu traduzo de um modo que me parece mais fiel ao ideário iniciático de Goethe, esta canção que fecha o ciclo, aberto no capítulo IV do Livro Segundo, quando Wilhelm, ao ver Mignon surgir de surpresa e logo fugir dali, não sabe dizer ao certo se a criança é rapaz ou rapariga. Opta pelo sexo feminino, a que ela se irá moldando com o tempo (sobretudo com Natalie). O que faz todo o sentido, pois Mignon será um daimon prefigurando uma Anima que Natalie incarnará por completo, já no fim.
Curiosamente, ao traduzir esta canção, João Barrento que no Maerchen optou pelo brilho da luz, aqui cede ao jogo da rima entre parecer e ser (scheinen /werden) recuperando o termo dos tradutores que acima referi.
Prefiro manter a sedução da luz e do brilho das altas esferas, até porque o termo werden implica, como no Fausto, transformar-se, não é um verbo estático, como sein, em que o ser (a essência) já se dá por adquirida.
Deixai então que brilhe até me transformar,
Não me tireis ainda as brancas vestes!
Da bela terra apresso-me a sair
Para descer àquela escura casa.
Deste termo, “feste Haus” casa segura, há uma variante, que prefiro recuperar: “ dunkle”, escura. Pois é na descida à escuridão da alma ( a casa) que toda a sublimação se dá.
Aí descansarei por um momento,
Até que que em mim se rasgue um novo olhar
E deixarei então as vestes puras
O cinto e a coroa de enfeitar.
E aquelas formas celestiais
Que não distinguem homem ou mulher
Ou roupagens ou pregas envolventes
Receberão o corpo sublimado.
É certo que vivi sem esforço nem cuidado,
Mas sofri dores bastantes nesta vida
E de desgosto envelheci antes de tempo;
Fazei-me jovem de novo eternamente!
Aqui está finalmente a chave do romance e a sua conclusão: que o mistério da vida é insondável, que o destino é força que tem de ser entendida e assumida na sua complexidade, que inclui a treva ( o sofrimento) como inclui a luz, a Vida Eterna por todos desejada.
Jeanne Ancelet-Hustache, grande germanista, tradutora de Wilhelm Meister,(ed. Aubier Montaigne) relembra no Prefácio os poemas órficos de Goethe, nos últimos anos de vida (1815-1831). Um deles é especialmente interesssante para esta figuração, fulguração de Mignon como daimon-pulsão sublimadora: o título é Daimon, e tem o seguinte verso: “ a ti não fugirás, assim terás de ser” (trad. Paulo Quintela).