Tuesday, May 29, 2012

Le Coq d'Or

De Nikolai Rimsky-Korsakov, Le Coq d'Or, a obra-prima inspirada numa lenda popular.
A produção recente de um grande encenador como é Kent Nagano, devolve-nos a atmosfera de magia e maravilhamento de um imaginário orientalizante, com uma abundância e riqueza de detalhes de tal modo sensual que contagia todos: intérpretes e público assistente.
Esta é a Ária de uma jovem Princesa, na realidade emanada de uma força maléfica, no acto de seduzir um Rei que depois será levado a um triste fim.
O libretto desta ópera, da autoria de Vladimir Belsky, é inspirado no poema de Alexander Pushkin, Conto do Galo de Ouro, por sua vez lido nos Tales of the Alhambra de Washington Irving.
A ópera data de 1907, e teve a estreia em Moscovo, em 1909, depois da morte do compositor.
Fora da Rússia foi representada em França e em francês, com o título Le Coq d'Or.
Nesta época de 1907, quando o compositor julgara já ter chegado ao fim e ao melhor dos seus trabalhos, surge-lhe a ideia de caricaturar o Império e o Imperador, que se envolvera numa guerra fútil contra o Japão. Já outro texto de Pushkin, Tsar Saltan, o tinha inspirado, com uma mesma magia feita das trevas da alma, que iremos descobrir em O Galo de Ouro.
A atmosfera é concebida a partir de elementos da tradição popular que adensam o orientalismo patente nas mais belas Árias.
É preciso recordar que já em 1905 a Rússia tinha tido os seus primeiros levantamentos populares, e que a guerra contra o Japão, de que a Rússia saiu derrotada, permitia a ironia severa do olhar dos seus artistas e não apenas do povo martirizado.
Assim, o Rei Dodon, ao avançar para guerras preventivas, como as reais, de Nicolau II, a que se assistira, acabará mal, num fim mais grotesco do que trágico.
Começada em 1906, terminada em 1907, a ópera evoca os massacres de 1905, que não terão perdão. Foi logo proibida na altura.
A Metropolitan Opera de Nova Yorque, conhecida como The Met, apresentou o Le Coq d'Or regularmente em francês, durante a segunda guerra mundial. Existem ainda gravações em inglês e em russo, todas acessíveis hoje em dia, em dvd.
O interessante é como se pode recriar um Conto maravilhoso, actualizando o seu sentido profundo, universal: quando um homem (um Rei) esquece o seu dever de respeito para com os outros, as forças do mal tomam conta da sua alma, que merecerá castigo e talvez pior: anulação.

Saturday, May 19, 2012

Ganymed


Brilhas à minha volta
na radiosa manhã, 
Primavera, minha amada!
Ardem no meu peito
as mil bençãos de amor
do teu calor eterno 
sentimento sagrado,
 beleza infinita!

Pudesse eu prender-te
nos meus braços!

Ah, no teu peito
repouso, com langor,
e as tuas flores, e as relvas,
penetram-me o coração.
Refrescas a sede que arde
no meu peito, 
amada brisa  matinal!
Oiço o canto de amor  
do rouxinol 
no vale envoado.

Já vou, já vou! 
Mas para onde? para onde?

Para o Alto! Subir é a palavra!
As nuvens debruçam-se,
as nuvens inclinam-se 
para o amor que as chama.
A mim! A mim!
subo
para o vosso colo!
Abraçando abraçado!
Subindo para o teu peito,
Pai de Eterno amor !


( J.W.Goethe, trad. Yvette Centeno)


Ganymedes, no coração do mito:
filho do Rei Tros, que deu o nome a Troia, era o jovem mais belo que se conhecia e por isso foi escolhido pelos deuses para servir Zeus.
Consta que Zeus desejava algo mais, desejava-o para seu amante. Assim, disfarçando-se de águia, arrebatou o jovem das planícies troianas.
Hermes, para consolar Tros do seu desgosto e da sua perda, oferece ao desditoso pai uma taça de ouro, fundida por Hephaestus ( o esposo de Vénus), mais dois belos cavalos,assegurando-lhe que Ganymedes era agora um ser imortal, poupado às misérias da velhice, e que sorridente, de taça de ouro na mão, serviria para sempre o néctar divino ao pai dos céus (Zeus).
Todo o mito contém uma lição: neste, o que inspira Goethe, poeta de grandeza universal, é a lição de que a paixão dos excessos do Belo, para ser eterna, não pode durar muito, uma  contradição apenas aparente, o poeta com este poema liberta-se da sua ânsia juvenil, abrindo espaço para outras fases da sua criação.
E ainda outra: que o poeta (o criador) que faz unicamente do Belo a sua paixão corre perigo, pois o muito amor dos deuses que amam o Belo através dele (a sua obra) mata em vez de redimir.


Bibliografia:
Robert Graves,(The Greek Myths, vol. I, II)








Monday, May 07, 2012

Mais Poetas da Catalunha...


JOAN PERUCHO ( 1920- 2003): OS LUGARES DA POESIA

Nascido em Barcelona, em 1920, Joan Perucho é outro distinto criador pertencente à  geração que deu à Catalunha o nome de Pátria das Artes, com um escol de poetas, pintores, ficcionistas, críticos de arte de renome mundial.
Perucho era Juiz, de profissão, mas foi sempre cultor da Arte e distinguido com vários prémios ao longo da sua vida: em 1995 obteve o Prémio Nacional de Literatura da Generalitat da Catalunha, e em 2002 o prestigiado Prémio Nacional das Letras Espanholas.
Dele observa L.Alberto de Cuenca que “escrevia com uma vertigem expressiva” apoiada em sólida erudição, conferindo à sua escrita uma originalidade marcante no conjunto das literaturas da Península.
É extensa a sua bibliografia, com obras de poesia publicadas desde 1947 e de ficção  desde 1953, até 2001.
Aqui deixarei apenas, como já fiz com os outros autores escolhidos, a versão livre do conjunto que foi apresentado em 1996 na Fundação Gulbenkian.
Iremos encontrar tanto a emoção da memória e da cultura (nos poemas dedicados a Vicente Aleixandre e Dámaso Alonso) como a solidariedade com os que sofreram as atrocidades da Guerra Civil de Espanha (como por exemplo no poema Os Soldados ou em Elegia À Terra E Aos Mortos de Gandesa, pequena localidade que foi palco da Batalha do Ebro). 
Reencontro em Perucho, como nos outros da sua geração, um amor à cultura que em Paris, sobretudo, nos seus grandes poetas, ( Baudelaire, mas poderia citar tantos) no rio Sena de águas transformadoras vai nos anos da Guerra e das grandes Ilusões (penso em René Clair, penso em Prévert, o amigo de Picasso) manter viva e ardente a chama da criação. 
Poderá ser mais livre e radical ou mais factual e descritiva, mas será sempre testemunho do Homem que respeitou o sofrimento e procurou a mudança.

AS FIGURAS DE CERA

Reinvindicam um  amor eterno e imarcescível.
Paradas no tempo descem às paragens
que causam horror aos humanos. Mas ficam sempre
com os seus sorrisos extáticos, com desvelo seguro
e não com esta vida impura que envelhece e deforma.
“ O mort, vieux capitaine, il est temps, levons l’ancre”.

Mas estes lábios femininos que suspiram imóveis
não podem dizer todo o horror de Carlota Corday
nem o da Belle Heaulmière que amou o poeta.
Um grito, o pestanejar, o suave gesto daquela mão
tudo agora permanence imutável na sua aparência mais profunda
 O crime é na verdade sangrento; o amor esta cera amarelecida.



OS SOLDADOS

Avançam lentamente pelo caminho enlameado
mas agora já não pensam na mulher nem nos filhos
nem na casa que deixaram para trás, abandonada.
Macilentos
avançam e cantam hinos de violência sob o sol
duma terra áspera e enegrecida. A morte, contudo, 
empurra-os para a frente 
nas suas longas fileiras de tristes destinos, sombras
do que foram outrora. Jamais voltarão a encontrar
a paz daquelas horas que viveram, longínquas
como o écran branco do cinema, como na sede
daquele domingo em que ofereceram o seu tímido amor.


O PAÍS DAS MARAVILHAS

A uma hora de caminho da montanha sagrada
quando os dentes riem sozinhos de forma glacial
e as palmas das mãos voam pelo ar
desafia-se o que é imprevisível
o lamento dos violinos
a íntima tragédia.

Não há escola como a da vida.
Mas há o restaurante económico,
aquele das palavras cozinhadas, recozinhadas,
e os beijos na face com pública virtude.
Amanhã, Senhora minha, partiremos em viagem.
Não sei se jamais nos voltaremos a encontrar.


ELEGIA À TERRA E AOS MORTOS DE GANDESA

Triste flôr de Dezembro
no vento enraizada
nutrida pelo sangue de tantos mortos que nesta terra
foram crescer
em mato e em arbustos;
que na casa paterna
e nss chuvas de Inverno
foram hóspedes alegres
ares cinzentos, miúdas flores do bosque
que, com o aroma do tempo,
perderam os júbilos agrestes da Primavera
tristes alegrias que foram outrora graciosamente concedidas.

Seca e miserável terra. Avaramente apostada em
sobreviver ao pó
daquelas torrentes desoladas
e à infinita melancolia do camponês que chora
sob o grito do abutre.
Dura terra que amo na sua agonia
dura agonia minha
dentro do peito guardada.

Não, não há semente que possa fertilizar a rocha.
Alimentada pelo sangue destes mortos que floriram
em ásperos tomilhos
nada te acompanha a não ser o silêncio,
a espera abandonada,
a imensidade augusta e muda do firmamento.

A BALADA DO SENA

Um rosto difuso passeia sob as pontes
espreita quilhas, o cinzento da madrugada,
vidas entrelaçadas, chuvosas raízes,
mil desejos que se perdem como luzes na água espessa.

São Luís reclinado na Sainte Chapelle.
Os anos passam a voar.
Uma senhora estrangeira penteia-se na parede
e uma rosa floresce no olho esquerdo do grácil unicórnio.

Voam os estandartes. Em Saint-Julien-le-Pauvre
dizem Missa perpétua pelos afogados nocturnos.
Sinto como sobe, agora, a maré.
Como sobe a maré.
E os lábios de Paris.

Algo de fosforecente passa sob a água.
E há um restaurante chinês na rua Grégoire de Tours.
Gertrud Stein morreu faz agora sete anos
com uma doce melancolia perfumada.
Au revoir, mes amours.

Quando o movimento devora este silêncio
uma voz declama, boulevard Saint-Germain,
os versos de uma balada misteriosa e obscura.
Mas sobe-me pelos pés a relva, o mato, 
e também o sangue do meu país.

Debruço-me a olhar o Sena.
Os pássaros de Abril fugiram tristemente.
Penso na minha vida,
alguns dias alegres e distantes.
Outros olhos contemplarão o Sena, penso.
A terra, nos meus olhos, florirá alegremente.




















Monday, March 26, 2012

A Valquiria


 Continuando com esta ópera grandiosa de Wagner, vemos que no segundo Acto se dá então a ver o brilho esplendoroso da Valquíria, Bruennhilde, também ela filha de Wotan e sua preferida, talvez por ter sido gerada com ERDA, a Grande-Mãe, a Natureza cuja voz mística e profunda Wotan não respeitou, fazendo com que a maldição do anel destrua os deuses e com eles toda a esperança de um mundo melhor. Algo que se verá no CREPÚSCULO DOS DEUSES.
De início tudo parece bem no melhor dos mundos, mas a ilusão depressa se desfaz. Surge a severa e impiedosa Fricka, a quem o dever diz mais do que o amor, ainda menos a paixão, pois Wotan, infiel e sempre apaixonado, mas por outrém, não lhe inspira respeito. Assim, enquanto antes pedira a Brunilda ( aportuguesando o nome ) que protegesse Siegmund, depois de ceder cobardemente à exigência de Fricka ( as razões dessa moral parecem pouco credíveis, mais próximas do ciúme do que de outra coisa ), agora exige e com brutalidade que deixe morrer o herói na sua luta com Hunding,o marido de Sieglinde.
As belíssimas Arias de Brunilda exprimem uma consciência moral que falta ao pai dos deuses. A sua voz é a verdadeira voz do Amor e do respeito pela palavra dada.Wotan dissera ao filho que uma espada especial lhe estava reservada bem como uma glória merecida.Deixou-o aceder à espada, tão facilmente como depois lhe retirou todo o apoio. É Brunilda quem se escandaliza com o comportamento do pai, é ela que tenta fazer com que Siegmund não enfrente o inimigo, e será ela quem salvará Sieglinde de um triste destino, não a deixando cair nas mãos do cruel marido.
Wagner põe à discussão, neste segundo Acto, a Consciência e a Honra. Por outras palavras dá-nos de novo a pensar o que significam o Bem e o Mal, numa época (como a sua, de resto) em que o progresso que a Revolução Industrial parecia trazer abafaria as razões mais nobres da Liberdade, do Amor, da Igualdade, da Fraternidade e outros sonhos que pouco a pouco cairiam, como se verificou nas óperas seguintes (e na própria História da Alemanha).
A cobardia moral de Wotan traça o destino do herói.A esfera pendular cessa o seu movimento (ideia fantástica do grande encenador-leitor que foi Chéreau ).
Na última cena, a preocupação de Brunilda com o primeiro pedido do pai (e a palavra dada por ele a seu filho) faz com que tente proteger Siegmund da lança traiçoeira.
Wotan irrompe furioso e quebra a espada: In Stuecke das Schwert ! Que se quebre a espada !
Brunilde foge com Sieglinde e Wotan ameaça castigar a filha que não respeitou a sua ordem.
Retira-lhe a condição divina, fá-la cair em sono profundo no alto de um rochedo rodeado de fogo que só um grande herói poderá atravessar.
Anselm Kiefer pinta em 1980 um acrílico que faz de Brunhilde uma espécie de bela adormecida : a que vemos na imagem colocada ao alto.

António Tabucchi

Agora o seu rosto será visto, um pouco por todo o lado.
Por uns dias, por uns meses.
O que farão dos seus livros?
Haverá Bibliotecas, ou Escolas, a comprá-los?
E os amigos a quem dedicou alguns, irão às suas estantes procurá-los, para reler ou dar a outros para que leiam também?
Deixarão na mesa de cabeceira este ou aquele preferido? Reparando na caligrafia delicada das  generosas dedicatórias?
E antes de adormecer recordarão a suave melancolia do olhar?
Um olhar que desvendava o mundo: na sua beleza, na sua mesquinhez.
O rigor da palavra não era nele um artifício da arte, era o prolongamento natural do seu rigor de carácter, limpo, sem hipocrisias.
Descreveu em Afirma Pereira um país, Portugal, nas décadas de 30-40, onde uma burguesia de pequenos funcionários olhava à sua volta com suspeição, e muita reserva feita de temor.
Temor que a constante presença da polícia política quase justificava.
Digo quase.
Porque há momentos em que a dignidade obrigaria ao protesto, e ao exemplo.
Há na vida e na obra de Tabucchi esse  apelo ao exemplo, e sinto que tanto mais haveria a aprender com ele, se não nos tivesse deixado, em plena Primavera.
Passaram mais de dez anos sobre um belo Colóquio de Homenagem, na Fundação Gulbenkian: e António, amigo de filósofos, pintores, poetas, eruditos, tradutores, ali conviveu com eles, reunidos em breves quatro dias. Agora penso que deveriam ter sido  anos, e não dias. 
O Tempo foi afinal muito severo com ele, a Parca estava atenta, e ciumenta. Aguardava o momento, que chegou num dia de Primavera enevoada. 
António cedeu e foi com ela, nós ficámos mais sós e ainda mais pobres.

Sunday, March 11, 2012


JORDI DOMÈNECH  ( Sabadell 1941 – 2003): PORTAS E LIMIARES 


Nasceu em Sabadell, arredores de Barcelona e berço, pelo que fui descobrindo, de um grupo de artistas, poetas, pintores, que ali já tinham ou vieram depois a adquirir as suas casas, e nas montanhas circundantes os seus profundos lugares de inspiração.
Já falei de Perejaume, a quem dediquei um poema, publicado em 1997, no meu livro
ENTRE SILÊNCIOS :

Visitarei um dia
essa floresta
perdida no alto
da montanha
com a famosa caverna
das palavras
por onde fugiam 
ratos
e morcegos
arrepanhando os sonhos
do poeta
Poeta que já não escreve:
ergue palavras-pedra
escolhendo cada palavra
com cuidado
obedecendo às ordens
do Senhor da floresta
o Rei dos Álamos
que o obrigava a construir
cavernas
com as palavras escuras
das pedras
que encontrava

palavras que eram castelos
caves túmulos muralhas

palavras que aprisionavam
e que ele agora
esquecia
e recordava...
(y.k.c.,1997)



Confesso que fui surpreendida, com grande desgosto, pela morte de Jordi, com quem tinha estabelecido uma relação de amizade fraternal, e a quem devemos, nós poetas portugueses, o seu gesto de elegância, de tradução numa plaquette de 1997, feita em Sabadell, a terra mágica de um conjunto de poemas que intitulou
 DINANT A BARCELONA,
SOPANT A LISBOA
(PER A LA NÚRIA, QUE HI ERA) : Núria, sua mulher, então falecida deixando-o a ele profundamente abalado.
Na plaquette que nos ofereceu encontramos os nomes de Casimiro de Brito, Egito Gonçalves, Fiama Hasse Pais Brandão, Gastão Cruz, José Viale Moutinho, Nuno Júdice, Rosa Alice Branco, Yvette Centeno. 
Vê-se pela escolha dos poemas que conhecia bem a nossa literature, e sinto que lhe é devida a homenagem que agora sou eu que lhe desejo prestar.
Estará o poeta junto da sua amada Núria, quem sabe a acompanhar o meu trabalho de renda: pois a tradução de um poeta é sempre um trabalho de minúcia, de renda, de carinhosa empatia.
Jordi nasceu num meio operário, o pai foi perseguido pelo regime de Franco devido à sua fidelidade à República. Ele, já maior, estudou desenho industrial na Escola Massana de Barcelona.
Autodidacta na formação literária, com obra publicada desde 1970, é sobretudo no livro que escreve depois da morte da mulher, em 1997, AMB SENSE, COM SENTIDO (ed. 2002) que atinge o ponto mais alto e impressionante da sua carreira. Poeta transgressor, de rupturas e olhar inovador é considerado um dos maiores da Catalunha do século XX. 
Foi igualmente tradutor de inúmeros autores, ao longo da sua vida, e por essa razão foi criado em 2005 o Prémio Jordi Domènech DE TRADUÇÃO DE POESIA.

Os poemas escolhidos pertencem ao livro História da Arquitectura ( ed. 1995). à excepção dos dois últimos e por aqui se poderá ver como o seu olhar se comprazia em descobrir, revisitar, cidades, espaços de museu que para ele não são apenas cemitérios mas antes refúgio e memória de dôr como de arte e de artistas.


SALAS DO MUSEU DE LAMEGO

Estas salas brancas por onde o homem
deambula por detrás dos seus óculos
de armação pesada e lentes grossas
( a sua miopia magistral ) 
(nas paredes seis tapeçarias flamengas)
perscruta, entre os fios, misteriosos
rituais: lã, seda, labirinto
dando a ver aos meus olhos personagens
que já não vejo.
Na mão direita levam 
cachos de touriga onde bate o sol.


POMBAL NO PÁTIO DA CASA DE BONASTRUC ÇA PORTA,
NA JUDIARIA DE GERONA

Triangulação dos azulejos
repetidos sobre descoloridos
ocres de chuva. Descida até ao fundo
de um jardim sem fundo(as flores vermelhas
sobressaem do verde) (os sefiroth
que caem das mãos) (alusões 
ao pensamento moderno? ). Banhos rituais.
O cego, vidente. As palavras formando
um vazio de sabedoria. Os gerânios.


NA ESCURIDÃO, O LOUREIRAL 

Na escuridão o perfume do loureiral
é de piedosos e apagados aromas: mais próprios
do húmus: o estropiado, belo, espia
o rumor que sobe ( o cérebro mais
alto dos inomináveis estados).
Sábado, Dezembro, à noite. Desfazem 
a memória armários cheios de livros
no palácio paterno que alberga o gelado
fascismo. O insuportável rumor
de asas de anjo que tansportam e deixam
suavemente em terra a casa santa
com revestimento de mármore 
de quinhentos, fumo e fartura de pombos.
A farsa começa a expansão.

(do livro “contas da revolução” ) 


POR ESTAS PRAÇAS, RUAS E ESCADAS

Por estas praças, ruas e escadas
correu o sangue (Não é uma frase
feita: parece que foi literalmente 
assim). Inocência. A aura move
as caras dos espectadores, sobe
uma dôr pelo seu flanco esquerdo,
imperial, alguém que circula com
algma coisa descabeçada e um
velho estranho que come um galo
da Índia com chanfana. Tudo entre
dois enormes espelhos um pouco
inclinados reflectindo muitíssimas vezes
os meios corpos, as caras, os poentes,
durante aquele longo fim de semana.

( do livro “contas da revolução” )





   







Saturday, February 11, 2012

Perejaume:Os Lugares da Pintura

Nasceu em 1957 na Catalunha, cresceu numa quinta, e talvez por isso o amor à terra, terra-mãe, generosa e dura, nunca o tenha deixado por completo. 
A sua obra distingue-se, na poesia, prosa poética ou reflexiva, tanto como na pintura e na escultura, por uma atenção peculiar à natureza, ao mundo que o rodeia, à intervenção que a própria arte exige.
É marcante a influência que sofre de Joan Brossa, o grande modernista, também no seu duplo interesse por pintura e poesia, como se o impulso existisse quase que em simultâneo e logo desse modo se manifestasse.
Ganhou em 2005 o Prémio Nacional de Artes Visuais da Catalunha, em 2006 o Prémio Nacional de Espanha para as Artes Plásticas e em 2007 o Prémio Nacional de Espanha para as Artes Gráficas.
Revela-se um artista de múltiplos interesses e criatividade, algo que já nos encontros de 1996, em Lisboa, se podia descobrir nos textos que deixou e aqui apresento em versão livre.
No título de um dos seus livros de 1989, já se vê que entendimento tem da produção artística; o título reza: “O que é a collage senão reunir solidões?” E na realidade ultrapassa solidões ao interessar-se por pintura mas também por fotografia, video, e não desdenhar o fazer instalações, por precários que se entendam esses momentos.
Perejaume entende a precariedade da arte, como da vida.
Relativiza, com ironia ácida por vezes, mas severa na exigência do fazer que oferece ao olhar e ao pensamento dos outros.
O mundo natural nunca está longe, e sobre o natural e o artificial no conceito de criação reside a sua diferença e como por vezes diz, a sua” dissenção”.
 Ele difere, não segue, não imita, não concede.
Criou um ciclo interessante, deste ponto de vista: Formas da Dissenção (Formes de la dissenció) em 1990-91, e neste mesmo espírito expôs variadas obras na galeria mais célebre de Barcelona, a Galeria Joan Prats ( de que Brossa era também um dos artistas).
É talvez mais conhecido pelas performances, workshops, instalações feitas ao longo dos anos, mas os textos que aqui ficam explicam muito do sentido, da originalidade e actualidade do seu pensamento criador.
Veremos nestes poemas a espessura (a matéria na imagem), a reflexão e a ironia de  um permanente desafio, lançado a si próprio e a nós todos.
Em muitos dos poemas que ele mesmo escolheu podemos ler uma teorização da pintura moderna, sua e alheia, à qual de vez em quando recorda que não há imagem que suplante a emoção da própria natureza: ele contempla-a no alto das suas montanhas pirenaicas!
Tal como fiz com Arnau Pons, apresentarei aqui algumas versões dos seus poemas, esperando a benévola reacção dos meus leitores. 
Traduzir é como se sabe, parcialmente trair, mas a quem ama a poesia tudo deve ser perdoado! 
A GRANDE COLHEITA
Na casa, o fogo faz arder portas falsas.

É deus Polar, vertical como os merididanos,

e com os cimos em cruz na flor da azinheira, ergue-se

diante do Cruzeiro com o Hissope nas maõs.



Brota na torrente a cauda de um cometa,
pela encosta abaixo, saltando sem barulho, 
enquanto os palheiros, em branco ou em maquette
enchem a Carroça grande ou a mais Pequena


Fundem-se pouco a pouco na dôr,
a água é um bosque ainda não consumido,
com flocos de casa no ar puro.


Sobre a folhagem luz a serrania,
arde nas rochas a água prateada,
suspenso no céu o fundo obscuro.




MOLDURA
A serrania e a tarde são uma
única moldura de ouro velho e sombras:

não há barrancos pirenaicos nem círculos de lua

descritos no cinzelado fantasioso



da talha, o acanto luminoso que faz ondular

as águas, a concha de turvo nevoeiro fundida

no alto com a espessura de algum antigo

arvoredo no lugar mais distante



onde se cruzam as brisas do museu
e a pintura, com a marca indivisa
que fecha a tarde sobre um Pirinéu
dourado, completamente vago, impreciso…

O PESO
O peso dos quadros é bom de sentir quando é real, porque os levamos às costas, subindo sempre, e ainda mais se é para algum lugar onde raramente se deslocam os pintores. O peso dos quadros é, pelo contrário, aborrecido, se de termos já visto tantos o quadro se torna como que um peso morto, tão igual que nos cansa e nos afasta, desejando fugir para mais longe, mas sem que haja maneira de o fazer, tudo o que vemos se parte em quadros, e cada quadro em dúzias de quadros iguais.

POSTNATURALISMO  1
Alongar um Giacometti, endireitar um
Soutine, encher os Fauves de cinzentos,
encurvar um Mondrian.


POSTNATURALISMO 2
Obter com tranformações 
genéticas, realmente, numa
rosa, o vermelho com que 
pintava Emil Nolde uma rosa.

O MONTE
Num extremo da língua, num extremo
inclemente da língua, distante e sem empatia,
dar um concerto. Levar os instrumentos e as
cadeiras, mas depois não interpretar nada…
Que os instrumentos também ouçam, lá cima,
o volume extremo da língua. 


DESDESENHEM TUDO



Desdesenhem tudo e ponham na tela os desdesenhos! Procurem

com afã novas dilações! Nunca saberemos se os quadros nos

estorvam ou nos ajudam. Levamos na cabeça um lugar vingador,

e é com esse irreprimível desejo de pintar que exortamos os 

brancos luteranos, a erosão dos narizes, os formatos abertos…

e com fixadores por cima do apagar de borrachas quase  

descobrimos uma vontade forte no deixar de fazer.





Thursday, February 02, 2012

ARNAU PONS : a palavra que ofusca

NOITES QUE FABRICAS, rigorosas;
as mãos na
clara-sementeira das centáureas
o sangue derramado exposto
ao vento,

Tantas estrelas quantas podes abarcar,
tanto negrume de nuvens, tantos
desastres de chuva, as imagens do mundo
destituídas,

tudo isto se abre,
decresce
extingue-se apenas

dentro da cesura, um corte
de miséria com
os tenros anos no cardal,
de novembro a novembro,
dentro das gaiolas,
como os tão vãos
ofiúros da videira, com a dormideira,
junto aos duplos reinos:

entre os dedos toda
aquela escuridão que estagna, eterna;
mais nada.

Saturday, December 17, 2011

Eduardo Lourenço, Prémio Pessoa 2011

Veio mesmo a tempo, este prémio, mais do que merecido, para fechar um 2011 no geral desolador.
Alguém disse de Eduardo Lourenço: ele ama Portugal.
Não duvido; mas duvido que ame os portugueses...os portugueses de hoje desencantam, não podem ser amados no sentido amplo e generoso da palavra. Só algumas excepções: as crianças doentes e de olhar perdido, os velhos, os desamparados, humilhados e recolhidos a si e a um silêncio que pesa, agora e sempre. Esses merecem ser amados, merecem mais, que se lhes peça perdão pelo mal que se tem feito e continua a fazer.
O olhar de E.Lourenço sobre Portugal é de interrogação: e quem sabe se de perplexidade? Um Portugal que se diz ou se quer europeu sem saber o que isso significa?
Pois há muitas Europas, tantas quantas as diversas línguas e culturas nacionais...no meio delas Portugal parece uma barco à deriva (não, não uma caravela, um botezito!).
Quando Eduardo Lourenço chega a Portugal em 1975 para um Seminário sobre Fernando Pessoa e o Modernismo a esperança era outra, era grande.
Contudo, logo nas primeiras aulas (sim, havia aulas, e nós, na altura já a caminho de doutoramentos, cada qual o seu, íamos com imenso prazer assistir a essas aulas, ávidos de outros conhecimentos, outras ideias e outros pensamentos) - logo nessas primeiras aulas o exemplo que Lourenço nos deu, lendo um poema de Pessoa, foi o da consciência que se interroga a si mesma interrogando o mundo
do ciclo Além-Deus, começou a ler:
I/Abismo
Olho o Tejo, e de tal arte
Que me esquece olhar olhando,
E súbito isto me me bate
De encontro ao devaneando-
O que é ser-rio, e correr?
O que é está-lo eu a ver?

Ficámos com esta reflexão, que haveria de ser a marca de todas as sessões desses seminários, tão diferentes do ensino tradicional a que se estava habituado.
Eduardo Lourenço não definia sentidos, sublinhava as interrogações.
Deslocou desse modo o nosso olhar: não era o ímpeto moderno-futurista de Álvaro de Campos, não era o filosofar aristocrático e distante de Ricardo Reis, nem sequer era, ao fim e ao cabo, o místico panteísmo de Alberto Caeiro (o Mestre) a grande lição pessoana.
Era sim, como na Aurora dos tempos, como no despertar do Homem primitivo, a surpresa de dar consigo a ver - isto é, a tomar consciência de si enquanto tomava consciência do mundo à sua volta, neste caso do poema o rio, um Tejo de águas mansas correndo como corre o pensamento.
Os restantes poemas do ciclo não foram ali abordados.
Mas eu continuei a ler, pois a minha curiosidade fora despertada e não sendo eu "pessoana", como outros, queria ir um pouco mais longe, se possível.
Assim eram dadas as lições dos Mestres: despertando em nós o desejo de ir um pouco mais longe!
O Além-Deus do título do ciclo iria levar-me a cogitações de ordem iniciática e alquímica, neste como noutros textos de que mais tarde me viria a ocupar.
Eu já estudava nessa altura (para a minha tese sobre o Fausto I e II de Goethe) a simbólica alquímica e esse imaginário era-me familiar.
Pouco a pouco fui encontrando as similitudes que na obra de Pessoa - poética e de prosa ensaística - tinham deixado marca, ora mais ora menos visível.
O estudo da ciência (ou da arte?) dos símbolos e do imaginário criador não estavam ainda na moda, como hoje em dia (hoje é quase doença, nem ciência nem arte!).
Era difícil citar Gaston Bachelard ou Gilbert Durand (pior ainda Jung) sem que algum esgar desdenhoso aflorasse ao rosto de bons colegas !
Mas as reflexões sempre de inspiração aberta de Eduardo Lourenço foram um incentivo.
Primeiro lendo Heterodoxia, depois lendo Pessoa Revisitado, o Labirinto da Saudade e por aí fora, acompanhando a sua actividade e a sua bibliografia.
Agora Eduardo Lourenço recebe um justo prémio, que tem o nome que melhor lhe convém: Pessoa.
E na Fundação Gulbenkian procede-se à edição da sua Obra Completa.
Só posso saudar estas iniciativas, recordando como, pela sua mão, fui entrando no labirinto de uma eterna saudade: de Pessoa? deste país? de nós mesmos perdidos nele?



Thursday, December 15, 2011

Rui Zink


De Rui Zink, mesmo a tempo do Natal:
O Amante é sempre o último a saber,ed.Planeta,2011, já em segunda edição.
Abri o livro e logo comecei a ler: encontro na prosa do Rui aquela energia que nos agarra pelo estilo, pela imaginação, sempre fértil na criação de enredos, atravessados por um humor subtil, não o da gargalhada mas o do sorriso que devolve curiosidade à leitura, e tudo isto, como se não bastasse, atravessado por diálogos simples,directos, que empurram a acção, abrem as peripécias de capítulo em capítulo, sem que se deixem adivinhar os desfechos (im)possíveis.
Espera-se de tudo nesta inconcebível viagem a um Japão também ele difícil de (re)conhecer....
Admiro a criatividade de Rui Zink que abarca o imaginário infantil (filhos e netos pedem sempre os seus livros, mal chegam aqui a casa, o preferido agora é o do Menino que não gostava de televisão, é o meu neto de um ano e meio que agora mais gosta dele) tanto quanto brilha na prosa de ficção, ou no ensaio erudito.
Consegue algo raro entre nós: ser escritor de talento e investigador inspirado.
Deixo esta rápida chamada de atenção ao seu recente romance, enquanto acabo de ler, para que aproveitem a época e ofereçam bons livros e boa leitura em vez de prendas banais, que logo ficam esquecidas.

Friday, November 25, 2011

Outonais

Está no blurb, pela mão adorável da minha nora Sara, o meu novo livro de poemas, que de brincadeira digo que será o último! Espero que leiam e vos faça passar um tempo agradável, como é próprio da poesia!Tem alguns poemas dedicados a pessoas muito especiais...

Tuesday, September 27, 2011

Helder Macedo, A Poesia é de Sempre

Foi lançado o novo livro de Helder Macedo, com poemas novos e velhos, segundo o título e a indicação das datas: mas não há tempo certo na palavra poética, só infinita e universal duração..
O livro abre com um poema recente, do ciclo intitulado
COLAGENS:

O rio corre
da fonte seca
como se rio
de fonte morta
chegasse ao mar
quebrada a ponte
das águas turvas
na torva treva
que o ramo quebra
onde pousassem
aves que houvesse
se ali cantassem
vindas do monte
que o rio leva
de engano em dano
por terra seca
ao mar sem praias
que corre e morre
sem vale ou serra
do mar à fonte

Apercebi-me numa primeira leitura de que havia aqui um eco pessoano, do seu melhor Ricardo Reis, na consciência plena e dolorosa de que no correr do rio seco da alma o próprio tempo se esvai e a vida perde o sentido.
Veja-se como os versos insistem no tempo condicional, o que adia para um talvez improvável ou um nunca mais o que poderia acontecer se alguma vez o rio, pleno, chegasse ao mar, ou mesmo o contrário, se o ímpeto do mar (aquele em que Freud via a pulsar do inconsciente) levasse a sua onda à fonte.
Estamos, nesta poesia de alma, de balanço de vida (sua e alheia) reflexão e distanciamento, perante a terre gaste dos cavaleiros do Graal, ou de uma Waste Land de um T.S.Eliot que Helder Macedo, como todos os da sua geração, conheceram bem.
Neste poema de abertura de um ciclo emblemático as imagens da água (fonte, mar) da terra (também ela seca) e das aves que não cantam (ar) não permitem a ampliação para algo de mais completo e feliz, pois água, terra, ar são neste caso elementos que "regridem", são o reverso de um imaginário alquímico de possível sublimação. Helder Macedo, contudo, não omite a referência a um outro elemento, o poderoso fogo - neste caso a chama que já ardia em Camões, do invisível amor.
O poema 3 deixa a pergunta: como dizer, como exprimir, o que mal se conhece:

Na verdade não sei

O ar é o mesmo
as águas iguais
na terra sem solo
quando o sol é grande
e as aves caídas
voaram do chão

Mas o que eu sei tão mal
como o direi?

Na verdade já está dizendo: não é do exterior que se trata, é da consciência desse Ungrund onde se formam as ideias-força, as imagens arquetípicas, as poeiras do universo da alma, que se trata. O sol (finalmente o fogo) é grande.
Relembrando Valère Novarina, é precisamente "o que não se pode dizer que se deve dizer". Mas um poeta lúcido, como neste caso de Helder, será que se deixa seduzir por este desafio?
A resposta é positiva, e vem no último poema do ciclo, que anuncia um recomeço:
...
sendo assim
recomecemos

havia aqui uma fonte
e árvores
e sombras
as aves todas cantavam de amor

porque tudo é só como parece
e é sem cura

O canto de amor das aves é finalmente redentor, só porque existe. O olhar e o dizer, como em Alberto Caeiro, bastam-se na simplicidade do existir: ser e não o saber...
E assim se descobre e se aceita neste ciclo um devir-eu, um devir-outro, um devir-só que Pessoa tão profundamente (re)conheceu.

Friday, September 23, 2011

Um Adeus para José Niza

José Niza faleceu, aos 73 anos. Vivia em Santarém mas vinha frequentemente a Lisboa onde tinha muitos dos seus amigos.
Deixará muitas saudades a todos os que o conheceram de perto.
Eu recordo o seu trato amável, o seu sorriso discreto, o seu humor.
Outrora, como nos contou um dia, fazendo a tropa no mato, sendo psiquiatra e tendo de lidar com os traumas dos seus soldados, teve a ideia, que todos saudaram, de encenar uma pequena peça de teatro, que ele já tinha acompanhado em Coimbra quando estudante e para a qual compusera um tema: era a minha tradução de Brecht, de A Excepção e a Regra!
Assim foi: com o texto de um Brecht que a Censura da época não pudera proibir e a música, à viola, de José Niza, o sofrimento da guerra ficou por momentos em suspenso e a lição ficou gravada na memória de quem partilhou o texto: a excepção ivia em Santarém mas tinha em Lisboa muitos dos seus amigos de sempre.(que naquele caso era a guerra) não poderia nunca ser a regra.
Devemos a José Niza, entre outras coisas, o poema E Depois do Adeus que a voz de Paulo de Carvalho num Festival da Canção tornou conhecido do grande público e que a Revolução de Abril adoptou como uma das suas Senhas.
Mas o que fica é acima de tudo a dimensão humana deste músico amigo dos seus amigos, numa tranquilidade generosa que nada parecia abalar.
Guardo a sua memória.

Lá no alto
no seu Olimpo
de treva
os deuses procuram
com inveja
algum brilho maior
entre os humanos

Cai Orfeu
pela mão da Bacante
cujo nome é cruel

Mas a sua memória
permanece:
o som da sua voz
ecoa docemente
por entre as sombras
do vale mais distante