Tuesday, August 11, 2026

José Luís Ferreira, POR DENTRO DE TI TODAS AS PALAVRAS, 2026

 

Um livro de poemas que acabo de ler, todo atravessado pelo amor de uma única mulher, foi realidade ou ficção para leitor ler?

O mesmo me deixa a interrogação que se cola nos poemas de amor, era desejo o que o poeta sentia? E afinal o que se pode dizer sobre o desejo amoroso?

O que é o desejo?

Um impulso feito de uma química especial que aproxima subitamente as pessoas? Duas pessoas?Mais?

É selvagem o desejo, com resquícios da distante Idade da Pedra? Um corpo que vandaliza outro, sem mais, ou algo que se suaviza e se transforma em amor. 

O desejo leva a que se fale de amor, e não de desejo, com o passar de um tempo partilhado, vivido de modo pleno em conjunto, durante uma vida inteira ou pelo menos alguns anos. O amor tem medida, o desejo não tem.

O livro deixa-nos com esta interrogação - desejo, embora diga amor?

O desejo é obscuro, no seu impulso, o amor tem claridade.

Faz pensar tanto quanto sentir. O amor é sentimento. O desejo é paixão. É rápida a paixão, é lento o sentimento do amor. É paciente.

Pensei em trazer para aqui duas obras de amor e morte, que são de leitura eterna, a medieval, de Tristão e Isolde (que inspirou Wagner) e a renascentista  de Shakespeare, Romeu e Julieta.

 Mas em ambas, o desejo e o amor fatal, a trama deve-se a uma confusão, uma situação que induz a falsa morte de um dos amantes, morrendo desguida o outro e por fim os dois. 

Não é de morte que se trata neste conjunto de poemas, mas de desejo e amor consentido, de entrega de corpos  que tiveram a rara felicidade de poder consumir-se na mesma chama que os atraiu.

Há coincidências felizes. Paro de ler e vejo na talevisão um bailado cujo título AS PALAVRAS e o ESPAÇO se aplicam tão perfeitamente  à substância do que leio:

As palavras são o tempo do poeta, do poema, o espaço é o corpo da amada, entregue e  disponível para que nele se refaçam vezes sem conta o desejo e a vida. 

A reflexão sobre o desejo será melhor aprofundada com a obra do filósofo  António de Castro Caeiro, SOBRE OS SENTIMENTOS, que já vai em segunda edição, na ed. Tinta da China que publica livros de grande requinte que vou acompanhando. 

1 comment:

mceupc said...

Adorei ler o seu review, que é profundo como.parecem ser as Palavras deste Poeta, no tempo e espaço.
Um estímulo para próxima
leitura.