Paul Celan : Dôr
(para o João Monge)
Dôr é o seu nome secreto
o seu nome escondido
o que nunca se diz
cobre as palavras despidas
do poema desfeito
escorrendo no meio do rio
do Verbo apodrecido
Paul Celan : Dôr
(para o João Monge)
Dôr é o seu nome secreto
o seu nome escondido
o que nunca se diz
cobre as palavras despidas
do poema desfeito
escorrendo no meio do rio
do Verbo apodrecido
O Papa recupera bem, veio à janela dizer o Angellus, o anúncio do Anjo a Maria
Agora caiu a noite, tenho a Rosário a meu lado. Vem lá na televisão daqui a pouco o debate Bolsonaro /Lula.
Não sei porquê neste momento sinto-me pacificada.
Com os dias, com a vida que me foi dada.
Começar pelo título, Indícios.
Isto é, começos e não definições conclusivas. Aberturas de pensamento na consciência que temos deles, nós seres pensantes entregues aos impulsos que o inconsciente impõe. Na bela capa negra o rasgão de luz que uma janela abre, mas ainda assim impede que se fuja, porque o Nuno lhe desenhou um gradeado fino, e com ligeira sombra, apenas perceptível. Mas está lá, tem uma função, a de não deixar que se esqueça a sombra. A sombra é a realidade, como diz noutro sítio, ou como diria Platão é a única realidade que nos é dado conhecer. À pura ideia do real não se consegue chegar, menos ainda à nossa consciência de um Deus criador de que falamos, como aqui se vai falando com grande desconfiança. Existe? Fomos criados por Ele? Se existe por que não se mostra ultrapassando as coisas de que se compõe, o mundo que nos rodeia, as sombras...
Deus, essa grande parede na qual embatemos sem poder ir mais além mais longe, para lá do espelho que nos devolve um real invertido. Disse eu sou aquele que é. E o que é ser isso, é ser o Todo que nos escapa? E por que razão temos imbuído no nosso pensamento essa palavra, Deus? E a seguir o adjectivo, Criador? De um Todo que abarca o Céu e a Terra. Ler a Bíblia ajuda.
Por aqui teremos de caminhar.
O que leva um sábio e poeta a lançar-se e a lançar-nos logo de início contra a difícil discussão da existência de um deus criador, e suas tantas e múltiplas formas, nas várias zonas do mundo desde o primiro dos séculos?
Que desafio.
E não pretende respostas, lança interrogações, incluindo ao próprio deus. Letra pequena, pois são tantos, só o nosso, o de cada um, tem direito a letra grande.
Maior que a discussão de um deus que nunca conheceremos, é a discussão do poema. Essse sim, indecifrável, aberto, que deixa ver, paral á das sombras a luz inevitável que se deixa espreitar por trás de grades e por aí desafia a consciência do que é a luz rompendo as sombras e como chega até nós desde o princípio dos tempos numa imaterialiddade fictícia, que duplas ondas de ser e não ser disfarçam e nos deixam tão sós diante de coisa nenhuma: o sentido que fugiu ao sinal, o esvaziou e nós com ele, não sabermos como enfrentar o que aí vem, o que maldosamente espera por um momento que não podemos adivinhar, escondido num Éden
de frutos enganadores que só a serpente guarda.
Falso o fruto que aponta e deixa que seja comido, do conhecimeto impossível, pois deus vela e só ele sabe o que o Éden por onde passeia, senhor absoluto de uma consciência que só ele detém, que a criou ou deixou que se formasse nem mesmo ele sabendo como.
Nuno atirou-nos para este difícil, senão impossível desafio: deus, que é um entre muitos, nas várias comunidades que ao longo dos tempos se contituíram. e noção da consciência, entre nós humanos, do seu entendimento.
Ocorreu-me ir pelo caminho puramente literário e simbólico das Paroles en Liberte´, Palavras em Liberdade, soltas ao acaso, flutuando no limiar da consciência num vôo aberto e liberto. O que diria isso sobre o deus , agora de um surrealismo modernista? Pouco, brincadeira de um sábio cansado de tanta sabedoria.
Mas este é um sábio especial. Exige pensamento, e pensamento é conscieência e consciência do que é. Não dissera deus, lá atrás eu sou aquele que é?
Nisto devemos pensar. Porque nos leva ao ser, e no fundo o que tem importância é o sentido do ser e da consciência de ser, que aqui nos é trazida à reflexão.
O que faz Nuno Félix da Costa, o sábio, e não o poeta filósofo confrontando-nos com as múltiplas variantes da sua abordagem de deus?. DE todos, de tantos?
O Mesmo que o poeta faz co as palavras em liberdade. Só que neste caso são pensamentos em liberdade.
Soltos, livres, fora de qualquer sitema pré-concebido. Exigindo de nós uma idêntica abertura.
Quando leio que um deus mínimo titubeia pertido numa célula e desse modo vai nascer uma vida, que posso entender senão que é algo de parecido com uma palavra livre de onde brotam os múltiplos sentidosque procuro, dentro do sinal dessa palavra?
"O tempo começa no intervalo dos passos que ignoram para onde se dirigem"...talcomo as palavras iniciais libertas, que vão para todos os lados, ignorantes como esse tempo que nos surge livre e sem destino...
É ssim por estranho que pareça que este livro deve ser lido e meditado.
ideias soltas, consciências que se anulam enquanto se procuram, existências como buracos negros que algum nada preenche ou deixa ao abandono de uma ideia de deus nunca acabado, Não tem fim, não pode ter tido princípio.
Enigmas em eterna sucessão, um rodopio de espantos que sacodem as nossas consciências. Pois, temos mais, muito mais do que uma...
São jovens.
O tempo é longo para eles
não têm pressa
ocupam neste momento
os seus espaços felizes
ali ainda nada lhes falta
nem o amor nem a dôr
ou o prazer
dos sorrisos abertos
das plantas mais floridas
Estas estórias que agora leio não são de ontem, são de hoje, no momento em que leio.
Narrativas de mão simples, escorreita, que ajudam muito ao prazer da leitura. Não se alargam sem necessidade, só para "encher papel..." obrigando o leitor a um esforço desnecessário. Este é o modo que mais me agrada e me leva a ler, como quem ouve música do passado e do presente, isto é, eterna na simplicidade dos seus acordes. Debussy, Ravel, uma aparente simplicidade que se transforma no nosso imaginério em algo de misterioso mas necessário...Como uma chuva de estrelas, por exemplo, que sacodem uma noite de Agosto em que nos estendemos ao comprido na praia e aguardamos, para ver, quem sabe ouvir, há música no universo, e de certeza ler para entender.
O que foi o ontem, o que é o hoje, e o que somos, entre um tempo e outro, nós no nosso breve corpo, espaço que nos foi dado e ocupamos sem grandes interrogações. Vivendo, apenas.
Manuel é músico, passou pelo Jazz, o que abre a alma e agora escreveu estas narrativas, que não são contos, nem versos em prosa, são memórias breves que lhe ocorrem e ele põe por escrito. Conhecemo-nos há muitos anos, depois a vida seguiu para cada um outros caminhos e confesso que foi grande alegria este reencontro por meio de um elegante livro, cinzento de tão bom gostoe com a dimensão agradável do número de páginas, e que ele acompanhou com a enorme gentileza de uma carta em que me conta com fomos coincidindo no bairro onde ainda vivo, esplanadas onde me via com o meu marido, mas por timidez, o que lamento, nunca chegou a tomar a decisão do passo em frente para nos falarmos. Falamos agora, para mim é tarde já não vou a nenhuma esplanada a não ser que um filho me venha buscar, mas fica ets gesto amigo de um livro que é todo ele de "família", que cheguei a conhecer. A sua mulher era afilhada de um grande amigo do meu marido.
Além do prazer de uma prosa límpida, o seu livro remete-me para uma reflexão sobre a memória, ou os fragmentos dela, que nos dão este impulso da escrita.
Diz-me que foi lendo o RECOMEÇO, que a Companhia das Ilhas me publicou. Temos por aí um encontro especial. Também eu nesse livro me ocupei com o que da memória dos dias me ia ocorrendo. O Manuel, nascido em 1950, é tão mais novo do que eu sou ou era o Binau, meu marido, nos tempos do Hot Club da Praça da Alegria.
Mas a idade não deve separar, e a prova é que há gostos comuns, empatias no meio dos silêncios e eis-me a recuperar um tempo perdido, como Proust, pela mão deste autor nas suas narrativas. Fala-me da sua neta Veroca, como eu também tenho e assim lhe chamo, ela é hoje uma pintora de quase trinat anos, a dele é ainda um bébé de um ano, fase deliciosa de crescimento...tenho 15 netos. Primeiro vieram as meninas, depois os rapazes. Hoje tudo gente crescida, nos estudos, no trabalho. Desejo ao Manuel as maiores felicidades a ver crescer, entre música e livros a sua neta Veroca. Correm bons genes na sua família, penso na correspondêncis que de vez em quando releio de Eça e Ramalho Ortigão, uma tão afiada caricatura de um país, caricato ainda hoje. Manuel diz-me que esteve em Londres a viver, mas depois regressou a Portugal e eis-nos agora vizinhos.
Os portugueses são assim, partem mas regessam temos nós todos um apurado sentido de família, e assim é em Portugal que voltamos a viver, o sentimento da saudade é grande, vi isso acontecer com o meu pai, quando fomos para a Argentina e ele acabou por regressar apesar do seu anti-salazarismo, que nunca perdeu e lhe causou sempre grandes problemas.
O Manuel teve a gentileza de marcar algumas das narrativas para eu ler, entre elas a do Jazz. Mas leio tudo, embora não escreva, porque luto com um computador que faz o que lhe apetece, muda o tamanho da letra, diz-me que não ficaram as updates, etc. Fala comigo, mas eu não sei falar com ele. Sou de outro século...
Descubro então, enquanto leio, que esta é uma verdadeira autobiografia, de alguém a quem a vida concedeu o dom do amor atento e daí generoso, à famíçia onde nasceu, com quem viveu e a que fez crescer à sua volta. Talvez por ter e manifestar uma tão feliz entrega, lhe tenham os deuses concedido a benção de muitas filhas, as mulheres são tão diferentes dos homens, elas atentas, eles desprendidos à medida que crescem. O Manuel, um pai entre filhas, como ele diz, e agora entre netas que começaram a nascer.
Fala muito de si, no meio do que o rodeia e observa e de um modo que é mais de conversa informal, à mesa das refeições, ele ocupou-se das compras, elas se calhar ajudavam a apurar algum prato especial na cozinha. Pelo meio a história das peúgas, que elas lhe roubavam e que ele acabou por reservar num conjunto comprado só para elas e arrumado numa das gavetas de baixo da sua cómoda grande, onde tudo cabia.
Não vou resumir o livro, mas recordo apenas como uma verdadeira autobiografia nos revela tudo o que há numa vida, e nos ajuda, quando assim escrita, com uma quase displicência de humor subtil e prazenteiro, a olhar também o que temos na nossa vida.
A maior qualidade, agora que penso nisso, é que este livro de e para a família, nos inclui, é um livro generoso.
Um livro de poemas que acabo de ler, todo atravessado pelo amor de uma única mulher, foi realidade ou ficção para leitor ler?
O mesmo me deixa a interrogação que se cola nos poemas de amor, era desejo o que o poeta sentia? E afinal o que se pode dizer sobre o desejo amoroso?
O que é o desejo?
Um impulso feito de uma química especial que aproxima subitamente as pessoas? Duas pessoas?Mais?
É selvagem o desejo, com resquícios da distante Idade da Pedra? Um corpo que vandaliza outro, sem mais, ou algo que se suaviza e se transforma em amor.
O desejo leva a que se fale de amor, e não de desejo, com o passar de um tempo partilhado, vivido de modo pleno em conjunto, durante uma vida inteira ou pelo menos alguns anos. O amor tem medida, o desejo não tem.
O livro deixa-nos com esta interrogação - desejo, embora diga amor?
O desejo é obscuro, no seu impulso, o amor tem claridade.
Faz pensar tanto quanto sentir. O amor é sentimento. O desejo é paixão. É rápida a paixão, é lento o sentimento do amor. É paciente.
Pensei em trazer para aqui duas obras de amor e morte, que são de leitura eterna, a medieval, de Tristão e Isolde (que inspirou Wagner) e a renascentista de Shakespeare, Romeu e Julieta.
Mas em ambas, o desejo e o amor fatal, a trama deve-se a uma confusão, uma situação que induz a falsa morte de um dos amantes, morrendo desguida o outro e por fim os dois.
Não é de morte que se trata neste conjunto de poemas, mas de desejo e amor consentido, de entrega de corpos que tiveram a rara felicidade de poder consumir-se na mesma chama que os atraiu.
Há coincidências felizes. Paro de ler e vejo na talevisão um bailado cujo título AS PALAVRAS e o ESPAÇO se aplicam tão perfeitamente à substância do que leio:
As palavras são o tempo do poeta, do poema, o espaço é o corpo da amada, entregue e disponível para que nele se refaçam vezes sem conta o desejo e a vida.
A reflexão sobre o desejo será melhor aprofundada com a obra do filósofo António de Castro Caeiro, SOBRE OS SENTIMENTOS, que já vai em segunda edição, na ed. Tinta da China que publica livros de grande requinte que vou acompanhando.
Um Osso
Depois de um grande silêncio
tive notícias no e-mail.
Mandava-me um poema
mais um difícil
para eu decifrar.
Assim tão de repente
como quem atira um osso
a um cão perdido na rua
sem dono que lhe desse atenção.
Mordi o poema
igual aos outros entre o sério
e uma desbragada imaginação.
Que sorte ser assim
ao mesmo tempo sério
e desprendido
andando solto pela rua
sem procurar caminhos
que levam à exaustão.
DEMÉTER
Não somos pó
somos terrra
assim o afirma Deméter
a deusa que guarda a natureza
no seu verdadeiro esplendôr
quer a filha de volta
mas inteira
apesar da treva que a levou
e tanto amor...
Quando eu morrer
não perguntem
de que roupa gostava mais
nunca fui muito de roupas
eu era mais livros, quadros,
e cores musicais
nada que se metesse num caixão.
Quem me lavar
embrulhe-me depois num lençol
branco, limpo
sem arrebiques
que eu nunca fui de arrebicar
e deitem-me no caixão
madeira pobre que descerá à terra
com a tampa bem fechada
para a ocasião.
Sá-Carneiro para Fernando Pessoa
Eu não sou o eu nem sou o outro
nunca soube o que sou
ou o que era
como vim
como vou
que asas são estas que me deram
e agora me levam
já cozi o seu ovo
e já fiz o café
diz Rosário a brasileira cuidadora
é adeus até ao próximo fim de semana
dá-me um beijo na testa
fique bem, sim?
poderá ser o último
um adeus carinhoso
de manhã bem cedinho
quando o que eu quero é dormir
sem pensar, apenas respirando
entre as dores de mais uma onda de calor
começa hoje
quem sabe se entretanto é na onda que morro
com ar condicionado
enterro a cabeça na almofada
respiro
não penso
quem sabe se é assim mesmo
que parto para mais um dia
que não entendo mas ainda assim
enfrento...
O Vento
Para a Minnie e o Manuel do Rosário
que caminham e ajudam os outros a caminhar
Caminhar contra o vento
enquanto o vento sopra
e faz correr
a água transparente
pelas pedras mais lisas do regato
macias de tão lisas
e abrindo os espaços
que a vida lhes pedia
António abriu uma das suas conferências com a frase de Jesus :
Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida.
Cada afirmação um desafio ao nosso pensamento.
O Caminho, não um caminho.
Qual éntão o que Jesus nos lança como desafio para poder seguir em frente, a caminho da Verdade e da Vida? Nascemos e parece fácil, no calor do colo da mãe. Mas crescemos e tudo é caminho, oportunidade, dispersão, divertimento. Em adultos os apelos são muitos, não se descortina um sinal, um sentido, como no trânsito a seta do sentido único. São múltiplos os sinais, os sentidos, é tudo oferecido parecendo solução imediata e fácilmas não ficamos perto da Verdade. E que verdade seria, senão uma distracção, mais uma entre tantas? Desviamos ou somos desviados a cada passo para cada vez mais longe do que poderia ser, ou não, a verdade ansiada. Caminhos de escuridão, como no Hades. Labirintos que assustam, não ajudam. Falta uma Ariadne que nos guie com o seu novelo infinito.
Faz falta maior atenção: Jesus disse EU sou o caminho, a Verdade e a Vida. EU, logo não procuremos mais, Ele é o que devemos seguir, atrás dele devemos continuar, nele se encontram a verdade e a vida desejadas.
Mas a ele, como encontrá-lo? Onde está, o que faz, na sua materialidade que possa ser encontrado? Porque já percebemos, na nossa reflexão, que é mesmo só na sua Espiritualidade que poderemos encontrá-lo.
Uma vez encontrado, está feito o Caminho.
Mais difícil é meditar e entender o que se passa com a Verdade.
Verdade, cada um tem a sua...
Daqui em diante sugiro a leitura da apresentação do António Caeiro, que vou seguir depois.
Podemos falar da Vida sem passar pela Verdade? Cada Verdade sua Vida? Voltamos às escolhas múltiplas ou ficamos num único caminho, o escolhido? E faremos o esforço de procurar entender a razão dessa escolha? E ra ou parecia fácil, estava ali mesmo, oferecida por uma IA mais veloz? E Jesus, no meio destas reflexões, qual era o seu papel de verdeiro Mestr e Guia neste nosso caminho? Teria que ser afastado, ou aceitaríamos, para a longa travessia espiritual tudo o que por ele fosse dito, melhor sentido?
Perplexidades, muitas.
E a dificuldade da escolha.
A decisão e a obediência. Mas sem crença? Sem fé?
SEREIA.
ela canta com as baleias
ela canta com os golfinhos
na sua voz escondidos
todos os cantos marinhos...
Para a Maria João e o Mário Laginha