Saturday, May 22, 2021

Paulo da Costa Domingos, urbe sub rosa, ed. frenesi, 2021

 Paulo da Costa Domingos é um autor já de uma obra vasta, lida, conceituada, e reservada aos "nichos" (palavra que li recentemente aplicada a quem não escreve para tudo e todos) de quem aprecia literatura de maior inovação e de desafio ou de revolta, como é o seu caso. Os seus livros circulam pela mão de quem lê, e não de quem fala, sem ter lido. É uma grande qualidade.

Leio, e quando penso no que neles vai dito, hesito muitas vezes, pois a sua escrita tem de ser abordada com pinças, com delicadeza, e uma atenção especial ao que por vezes esconde, mas está lá contida: uma enorme cultura, atravessada por uma anárquica originalidade e quotidiana provocação, uma liberdade que oscila entre o surrealismo e a revolta assumida contra os ismos que mais prendem do que libertam. Ele não se quer classificado, ele quer-se como é, em cada momento (d)escrito.

Se fosse francês, estaria no grupo dos OULIPO: Imaginação criadora, livre e libertadora. Anti-sistema.

Mas irá falar de que rosas, neste seu novo livro, em tempos de pandemia e de guerras eternas de eternos inimigos? Porque não se pode fugir ao que se vê, se lê, se ouve no estrondoso rebentar das bombas pela calada da noite. Os gritos de desespero de quem nada tinha e nada terá mais ainda.

Procuro rosas: as do culto de Isis, no Burro de Ouro de Apuleio, as de Rilke, no despedir-se da vida que depressa acontece, a grande rosa do mundo da Divina Comédia de Dante, ou a secreta rosa dos alquimistas - 

Dat Rosa Mel Apibus, gravura que ilustra uma obra de Robert Fludd, Summum Bonum, de 1629: a rosa dá o mel às abelhas. O caminho da sabedoria é difícil e lento. O do poeta não o é menos. Paulo cita Rilke: "porque existe algures uma antiga hostilidade / entre a vida quotidiana e a grande obra". Mas neste livro, tal como noutros, anteriores, Paulo deixa-se atravessar pela vida quotidiana, não teme essa narrativa tão alheia a tantos outros, e mesmo assim, ou apesar disso mesmo, constrói a sua obra, que é grande por ser tão universal e genuína. A condição humana está representada como um absoluto necessário em muitos dos poemas. E a ela se sobrepõe um absoluto maior, o da escrita, de que não se desprende nunca, pois isso seria morrer mais cedo.

Que obra é esta que se pretende deixar em herança? A da sublimação alquímica? A da continuidade universal em leitores de permanência?

Paulo sabe que é da escrita que fala. Da vida como escrita, e assim a escreve e a vive. Por vezes doente, mas nunca dolente, nunca adormecida. Pulsa nele a observação impiedosa dos destinos, o seu e o do mundo, destinos que nunca foram escolhidos, mas impostos, por vezes duramente. Rosas de sangue negro, como as de Paul Celan, que ele também leu, e vieram de longe para um enxerto, se possível, com as rosas de Herberto Helder, corpo e sangue de desejo incontido. Rosas que escorrem pelas páginas que vamos lendo, enquanto o poeta se debate, para no fim ceder e exclamar, num ciclo de tercetos (pp. 27-39):

Não consigo desligar-me da escrita.

a cepa torta, notação da música

do sangue. Não consigo, não consigo.

....

Lisboa, tão velha, e nós tão novos

aguardamos o sinal do arvoredo

para o abraço de uma Primavera

.....

Eu, homem breve, conheço a cidade

que me enterrará, não sem de antemão 

responder pelos seu inane crime.


O crime é o que se sabe: o da existência. Nua e crua, livre, e libertária mesmo.

Evoca Cesariny: "há uma estrada real do pensamento e da acção / por onde só passa um de cada vez".

De novo na secreta alquimia do verbo : la Voie Royale.

Um de cada vez. Desta vez é Paulo quem a atravessa. Vai ora crítico ora jubiloso, em direcção a um Nada, como no poema de Celan, Salmo, que vale a pena citar:

Ninguém nos moldará de novo em terra e barro,

ninguém animará pela palavra o nosso pó.

 Ninguém.

Louvado sejas, Ninguém.

Por amor de ti queremos

florir. Em direcção 

a ti.

Um Nada

fomos, somos, continuaremos 

a ser, florescendo:

a rosa do Nada, a

de Ninguém.

( in Sete Rosas Mais Tarde, trad. João Barrento).

Nascer, como nos diz Paulo da Costa Domingos, pode ser algo de violento, brutal:

...e as águas quentes escoaram-se na vulva:

e ficámos deixados no cimo de alta árvore

tudo mirando em redor: o tráfego aéreo: 


e só aqueles que puderam voar iam à terra,

e assim eu desci ainda molhado de placenta

no arrepio vivido de umas correntes de ar


vendo a arca lá no alto como copa arbórea:

e demorava o chão onde pousar todo o mal

que ainda trazia por depurar, soltando-me:


e o útero torna-se o maior desejo: o motor

para o retorno ao eterno país de Nunca,

iludido em arte, desiludido em escrita (p.43) 

Termino, lembrando apenas que o país real é este seu, da escrita, e que para ele nascerá todas as vezes que forem necessárias. Alguém que nos salve, antes que mundo se extinga. 







































 

Thursday, May 20, 2021

O desfazer dos mitos

 Bebem no leite da mãe

um ódio ancestral tão antigo

que faz do outro

o inimigo

sem direito a existir


 oferendas de Cain

a um deus indiferente

nem cordeiros imolados

nem do deserto

as serpentes


 aguarda este deus sentado

na nuvem da eternidade

que este tempo chegue ao fim

 não repetirá o erro

de criar mundos iguais

na água nem mais um peixe

nem na terra os animais

o Éden será despido

nem árvores

nem sementes


nem seres primordiais

 

 

Wednesday, May 05, 2021

Eduardo Pitta, DEVASTAÇÃO, 2021

Uma edição elegante, com ilustração na capa que anuncia que há sangue na narrativa, sangue com uma faca afiada pronta a dilacerar um corpo, uma alma, interromper um destino. São contos, arte em que Eduardo Pitta, já com vasta obra publicada, se tornou Mestre.

Neste conjunto, que é pequeno na escolha, abrem-se vidas grandes. Não grandiosas, perderiam a devastação sofrida, mas grandes na amplitude da escolha: memórias variadas, da infância a um tempo presente que as guardou, sem resguardar, ou mesmo directamente actuais, de modo coloquialmente descrito, nos termos que são os de hoje, (mudou tanto o modo de falar) podia estar-se à mesa do café, simplesmente contando factos da vida real que por um detalhe que pode parecer despiciendo devastam a vida de cada um dos intervenientes. Vidas que decorrem por vezes entre um Moçambique ainda colonial ou a caminho da Revolução e um Portugal post Revolução, a caminho de um progresso rápido e nem sempre bem sucedido. Não é optimista a visão oferecida nestes contos, é mesmo por vezes fria e muito realista.

Narrativa contida, rápida, como se houvesse uma obrigação de tempo e de espaço, ou compromisso de entrega, diria quase jornalística, Eduardo Pitta mesmo quando retoma memórias ou escolhe antes a ficção procurada,  confronta-nos com factos, datas, locais precisos e só então se permite a surpresa da conclusão abrupta do ponto final: no conto, e na vida narrada.

Li estes contos como se pudessem ser experiências de guião, para filme ou novela televisiva. Há personagens definidas, situações bem caracterizadas, que evoluem (não se arrastam, como em tantas que vemos nas produções nacionais) cenários reais onde o possível tem a verosimilhança pedida por Aristóteles, até que surge o desfecho, trágico e anunciado já nos pequenos detalhes que vão compondo o quadro. 

Também não falta, no exercício contido ( que pode ser ampliado, se a decisão fôr essa) para além do facto real, a carga emocional, em cada um dos contos e sua personagem condutora. Porque embora tudo seja anotado com um realismo que descreve e indica (daí o ser ou poder ser guião) a emoção do que é sentido e vivido está presente, e é  transmitida ao leitor, como devastação do ser: o ser profundo, o que se esconde e cala, ou o que leva  ao suicídio - e assim humaniza a condição descrita, a nossa, a condição humana a que nunca se escapa.

Termino com um pormenor: o gosto de Eduardo em descrever os menús que são servidos, o requinte que também ao leitor fará crescer água na boca, e de que já temos o hábito de ver no facebook...

São seis contos que entre a descrição por vezes crua se esconde um certo humor, Eduardo escritor lido e vivido é assim que deixa a sua marca: entre a mancha maldosa do sangue no vestido da debutante e a atracção fatal do suicídio do homem que não luta, não sabe lidar com o tempo presente e o abandono, e a à vida real prefere o suicídio.



Sunday, May 02, 2021

 

Velhice

 Tocaram à porta

era a Velhice

hesitei em abrir

 Foi quando me disse

não finjas

não fujas

não há onde

esconder

 Hesitei mais um pouco:

se eu não abrisse

ela entraria à mesma

à bruta

de sopetão

 Abri a porta

e a Velhice entrou

com um espelho

na mão

 (30 de Abril)

Wednesday, April 14, 2021

Skin Deep, de António Carlos Cortez

 Deste ano de 2021 recebo uma edição de 39 poemas de António Carlos Cortez  pequena e muito bonita, cabe na mão, cabe no bolso, é de verdade portátil, e Esteves Cardoso dirá, como fez numa das suas crónicas, que não gosta, porque não têm arrumação racional nas estantes...pois não, a ideia é mesmo não ter. Assim vemos o livrinho todo o tempo, ele não se deixa esquecer. Não é arrumável, é apenas amável, e isso é tão importante, numa altura em que o papel perde para o digital...

A côr da capa sugere-me que são poemas escritos como um Rimbaud, em êxtase de paixão.

Gosto, ao abrir, da epígrafe de Yves Bonnefoy:

Et poésie, si ce mot est decible,

N'est pas de savoir, là où l'étoile

Parut conduire mais pour rien sinon la mort,


Aimer cette lumière encore?

L'amande de l'absence dans la parole?

A obra de Bonnefoy é a de um alquimista do Verbo, do culto da Palavra, que nele adquire intensidade primordial. A amêndoa da ausência na palavra é o recôndito, o obscuro, pulsando no coração. Como em Celan, no poema Mandorla:

Na amêndoa - o que está na amêndoa?

O nada.

Está o nada na amêndoa.

Aí está e está.

....

E os teus olhos-para onde estão voltados os teus olhos?

Os teus olhos estão voltados para a amêndoa.

 Os teus olhos para o nada estão voltados.

O título do livro, curiosamente, remete-nos para uma ópera de George Benjamim, written on skin, de que ele é compositor, sendo o libretto (designado como texto), da autoria de Martin Crimp e ambos celebrados como os mais interessantes da produção operática do século. Não sei se concordo, mas isso talvez se deva mais às escolhas da encenadora, Katie Mitchell, para o trabalho da cena. Ali se representam ideias obsessivas de um chamado Protetor que tiraniza um jovem que convidou para escrever sobre pele (pergaminho) a saga da família, enquanto a sua jovem e aterrada mulher sofre a sua violência e abuso. Temas da moda: a obsessão compulsiva, a violência sobre as mulheres, num enquadramento com algo de expressionista. Mas isto é um texto operático, não é poesia, embora se tenha falado da qualidade poética da ópera.

Ao contrário destas post-modernidades a que hoje é difícil escapar, na obra que já conheço doutros livros e muitas intervenções de António Carlos Cortez, não há cedências, não há facilitismos. Há a expressão rigorosa, límpida, coerente de uma voz que precisa de se exprimir - aí entra a paixão - por meio de um verbo que é quase palavra sagrada, ou mesmo inacessível, - o nada da Mandorla de Celan. Quando Cortez escreve no poema de abertura "tinhas agora contigo um livro branco / a casa arrumada / a biblioteca organizada...." descreve que livros estão na sua biblioteca e dá assim uma ideia da sua formação cultural, que é grande, mas irá concluir, no último verso, com a imagem que nos deixará perto de uma ferida aberta " o sangue coalhado sobre  a mesa" e bem longe da arrumação do esforço inicial descrito, onde pairava um livro branco e uma casa arrumada, com estantes cheias de livros. Pelo quotidiano do poeta escorre uma ansiedade, feita das contradições da vida, entre o real e o sentido, que pode ser o seu contrário.

Na vida entramos pela porta da infância

O que falamos não diz a nossa essência

e só mais tarde na dôr reencontramos

quem fomos na traição e na demência

....

Há na sua poesia por vezes um ritmo camoniano, e de seguida, noutro poema , uma reflexão que provém de Pessoa, o "ourives" que nos trabalhou a todos, de uma maneira ou outra. Gostei de encontrar Rimbaud, quase por acaso, e nele a meditação de uma melancolia funda: a de um tempo que avança e nos deixa para trás, enquanto da verdadeira vida nada mais saberemos...Também numa espécie de regresso à casa, à memória dos jogos que distraíam do torpor habitual, não sendo para o poeta ainda poesia, o verso com que termina o poema recupera a eterna saudade do infinito: " Numa dessas gavetas há um papel / escrito onde vibra o jogo a vida o infinito".

O livro tem uma segunda parte, com o título A love like blood  . Entramos noutra esfera, a da prosa poética, mas que nunca deixa para trás o caminho da palavra perdida, a que se esconde na folha branca que não deixa dormir, tem ritmo, tem música que alucina e obriga o poeta a escrever, para sobreviver. Aqui é mais o visceral Lautréamont que reencontro, mas pouco importa, porque cada poeta tem a sua marca, que o torna necessário a quem o descobre e lê, como é o caso. 


Monday, April 12, 2021

Samuel F. Pimenta, ASCENÇÃO DA ÁGUA, ed. Labirinto, 2021

 Este livro já estava a olhar para mim há algum tempo. Labirinto como chancela era uma alusão tão tentadora...E fui lendo e pelo caminho fui encontrando um fundo mítico familiar, dos grandes arquétipos universais, com o do Minotauro, relido pelo poeta, e lembrei como na mão dos poetas tudo se transforma e adquire novos sentidos. Primeiro li, procurando o tal fio perdido de uma Ariadne escondida. Mas não tenha tempo, vá ao índice, e leia sem perder tempo, Aviso das Parcas, Os Jardins do Inferno ( que é como quem diz do Hades ) Ophiussa ( a serpente terreal), Enquanto esperava o barqueiro (sim é Caronte aquele que nos faz atravessar o rio a troco de três moedas...), Eurídice para Orfeu, o que me traz à memória o belo poema de Rilke, Esfinges, Alquimia, Sereia, e outros, que já não remetem para a antiguidade clássica, mas para mitos celtas ou pagãos que reencontramos em autores populares ou universais como num Shakespeare, caso de Dragão, Druida, A fala das bruxas, Touro, ou ainda um olhar que do céu nos traz estrelas, como Aldebarán.  

Há muito por onde escolher, muito para ler, no sossego que uma leitura atenta sempre pede. Reparei que é um jovem, nascido em 1990, quem escreve. E que tem obra premiada, em muito do que já publicou. Mas o que me interessa devo dizer, ao lê-lo, é verificar que ele é um poeta com muita leitura feita e assimilada, - daí que possa transformar com a sua voz o que foi lendo:

A FALA DAS BRUXAS

Saber das raízes

foi saber do Lar.

Saber das sementes

foi saber da ascensão.

Saber das nascentes 

foi saber do desejo.

Mas quando soube da palavra e dos dos poemas

aprendi a fala das bruxas.

E nunca mais vivi num mundo sem magia.

(p.38)

Sendo a sua vida a escrita, a sua voz nunca será a mesma. Porque a voz do poeta é transformadora, dá sentido novo aos sentidos antigos, e com essa voz, como se fosse de trabalho alquímico, se ascende aos altos segredos que a magia antiga prometia. Está bem escolhido o título da obra: Ascensão da Água. A água um elemento primordial, em que tudo se dissolve e se refaz: solve et coagula, como se diz nos tratados de que os adeptos do hermetismo nos falaram. 

No poema do Minotauro o poeta  diz que não vê nele "a maldade de que falavam os antigos.Vê apenas "um homem em sofrimento". Humaniza a lendária criatura que virá a ser traída por Ariadne, que se enamorou de Jasão e o conduz pelo labirinto, sendo que mais tarde também Jasão a trairá, e do mito nasceu uma ópera magnífica, Ariadne em Naxos, de Richard Strauss, como também uma série especialíssima de desenhos de Minotauros  por Picasso: O sofrimento que o poeta refere é, em Ariadne o do amor traído, os desenhos de Picasso exprimem a fúria do desejo, fazendo dos seus touros a representação dos seus próprios desejos e paixões insaciáveis. A força do traço consegue captar o que pode ter sido outrora a fúria causada pelo abandono inesperado. De todo o modo o poeta diz bem quando vê nele um homem em sofrimento, uma animalidade (que também é da natureza do homem) contrariada e sofrida, ou no caso de Picasso, poderosa e entregue. Mas na verdade o Minotauro sofre, porque ele próprio não pode fugir ao seu destino, pulsão enclausurada, prisioneiro na jaula de si mesmo. A morte foi uma libertação.

(p.10)

No poema Esfinges é do Paraíso que nos fala o poeta: não sabe onde fica e por isso caminha em sua busca. "Esperei a revelação dos astros / e os segredos dos espíritos. / Tive de atravessar os espelhos / e seguir o vôo dos pássaros. / Mas as charadas das esfinges / ainda estão por responder.

(p.21) 

O caminhar do poeta não tem fim, desses passos são feitos os poemas, como será feita a sua vida.

Como dirá adiante, em Devanceiros, "o caminho nunca cessa / e eu nasci para caminhar" (p. 40)

Também este seu livro, que bebe em tradições antigas um imaginário elementar, " Digo as palavras antigas / terra fogo ar água / e os primeiros nomes do mundo" (p.39 ) é escrito para ser lido, como quem por ele caminha, sem pensar em descansar.






Saturday, April 10, 2021

VELHICES 

Como é possível dizer

deste ou daquela

que a sua velhice é boa

é bela

quando as rugas da vida

se afundaram na pele

agora cinzenta e baça

os olhos perderam

o brilho

e a alegria de ver

a luz de outrora

as mãos

frágeis e trémulas

nada conseguem

agarrar

nem a colher da sopa

nem o copo ao lado

 como é possível dizer

sem querer enganar

 verdade o coração bate

é ainda um relógio

com ponteiros que rodam

por vezes certos

por vezes distraídos

mas haverá um dia

um dia incerto

em que cai um ponteiro

e ficará parado

e o coração perdido

 Lisboa, 10 de Abril, 2021

 


Friday, April 09, 2021

 À Walt Whitman...

Deitar-se na relva

a olhar o céu

e adormecer 

contando

estrelas

Monday, April 05, 2021

ESPANTOS

 

Espantos

(à minha neta Maria, a filósofa)

 Um primeiro espanto é o que se vê nos olhos da criança acabada de nascer. Não sabe de onde veio, não sabe para onde irá...espanto é o que sente, de olhos abertos para o mundo. Tudo lhe é desconhecido, o seu olhar é de estranhamento. É espanto esse estranhamento, que pode ser feliz.

 Em contraste com ele, temos o doloroso grito de espanto de Cristo na Cruz, quando no último apelo ao Pai exclama, Pai, por que me abandonaste.!

A dôr do sofrimento sempre causará espanto, porque inesperada, como vemos em tantos exemplos da  Bíblia, do Antigo e do Novo testamento. Para não falar dos horrores da guerra que se viveram ainda há pouco tempo, no século XX e continuam, no século XX.

 A Bíblia é uma fonte preciosa. A surpresa da dôr, do aparente castigo inesperado são a razão do Espanto.

 Mas há outros episódios em que o Espanto surge como reacção de dúvida e a seguir aceite. O anúncio a Maria, que será Virgem e Mãe do Salvador do mundo. Não chegou ainda esse tempo, mas virá.

 Quando as Mulheres ouvem a Mensagem do Anjo, no túmulo de Jesus, que está vazio, a pedra que o escondia tinha sido retirada, o seu espanto é grande, e aqui surge a palavra espanto, na boca delas. Maria de Magdala, Maria mãe de Tiago e Salomé (sigo a Bíblia de Jerusalém na tradução francesa da Escola Bíblica de Jerusalém, de 1955) chegam ao sepulcro onde Cristo foi depositado, o espanto perante o túmulo aberto e vazio e a presença do Anjo que o guardava e lhes diz: não está aqui, Cristo ressuscitou. Ide e espalhai a notícia. Leio pelo Evangelho de São Marcos: “viram um jovem vestido de branco e foram tomadas de espanto. Mas ele disse-lhes, não vos assusteis.É Jesus o nazareno aquele que procurais, o crucificado; ressuscitou, não está aqui, ide dizer aos seus discípulos, sobretudo a Pedro, que ele vos precede na Galileia, aí o vereis como ele tinha dito” (Mc. 16). Espantadas ainda e a tremer de medo,  fora de si, fogem do túmulo, e não dizem nada a ninguém.

 Incrédulas perante o que é o milagre da Ressurreição, viram-no crucificado e morto, sepultado, e agora é um Redivivo.

 Será Jesus, depois de aparecer a Maria de Magdala, que lhe pede que conte a notícia aos apóstolos, e a reacção deles é novamente de Espanto e negação. Só quando Jesus se dirige então a todos os apóstolos e lhes prova que é um redivivo e os incumbe de ir pelo mundo e espalhar a boa nova, começam a reagir. Até o poder de falar muitas línguas a muito povos diversos lhes é concedido, para serem bem sucedidos na sua nova missão, a de espalhar a Boa Nova. Uns mostram primeiro incredulidade,  que depois será desfeita. Outros crendo, porque lhes tinha sido anunciado pelo Mestre a Ressurreição e a Vida.

Coloquialmente podemos falar de Espanto como surpresa, indignação, ou outro sinónimo que nos dê o dicionário: que "espanto” poderemos dizer sobre um novo estilo, um novo carro, um golo cheio de nota artística, uma bela modelo que derrete corações, a mulher mais velha do mundo, com quase duzentos anos...espanto como algo de inesperado, que desencadeia exclamações, precisamente de espanto, mas sem a transcendência que o conceito aprofundado contém e exige.

Vejamos, no regresso à Bíblia, São João no Apocalipse:

“Ao princípio era o Verbo, e o Verbo se fez Carne e habitou entre nós”. Aqui o Espanto é o de nos parecer impossível um tal acontecimento. O Verbo, energia espiritual pura, materializar-se em criatura humana, adquirindo um corpo (CARNE) e uma espessura que não existia nele. Causa espanto, como causou, pela impossibilidade de crer no que se ouvia.

Mas este é uma forma de Espanto que força o pensamento, o desejo de entendimento aprofundado. Passamos aqui para outro patamar na definição do conceito. A curiosidade de saber e de sentir o que é.

 O impulso da curiosidade, na ciência, ou na arte, perante a descoberta de algo de novo, ou o acabamento da obra inovadora podem causar Espanto (e felicidade pela realização desse sonho, por vezes tão adiado).

 Teremos, para não esquecer pormenores importantes, de parar na Tragédia Grega e na reflexão que se faz sobre o Espanto e o Horror, no momento mais alto da reversão do enredo, da identificação e da catárse, que de outro modo não teriam lugar. A Poética de Aristóteles seria aqui o nosso guia.

Mas se voltarmos  ao Cristianismo que espanto maior se pode encontrar do que na Anunciação que o Anjo Gabriel faz a Maria, a que será Virgem e Mãe do Salvador do mundo? (no Evangelho deLucas,1) lemos que o Anjo Gabriel é enviado por Deus a uma cidade da Galileia, chamada Nazareth, para visitar uma Virgem, noiva de José, pertencente à casa de David. O nome da Virgem era Maria. Entrou na casa dela e disse: Salvé, cheia de graça, o Senhor é contigo. Ela ficou transtornada com esta saudação pensando no que significaria. (primeiro momento de espanto, interrogação); mas o Anjo tranquilizou-a, disse-lhe que tinha obtido Graça junto de Deus. Iria conceber e dar à luz um filho a quem daria o nome de Jesus. Ele será grande e será chamado  Filho do Altíssimo. O Senhor Deus dar-lhe-á o trono de David, seu pai...e o seu reino não terá fim. Maria responde mas como é possível, se não conheço homem? E o Anjo responde que o Espírito Santo descerá sobre ela, o Altíssimo a tomará sob a sua protecção, e é por isso que a criança será santa e chamada Filho de Deus.

Maria então responde, sou a serva do Senhor, que me aconteça o que dizem as tuas palavras. E o Anjo deixou-a.

 Tanto se pode dizer abriu a boca de espanto, perante algo que se nos revela como desconhecido, e nos apanha desprevenidos, surpreendidos, como emudeceu de espanto, pelas mesmas razões, o sermos apanhados de surpresa, e incapazes de reagir, e até de entender.

No caso de Maria, perante o que lhe vem dizer, de surpresa, o Anjo Gabriel é do segundo caso que se trata. Emudece de espanto, fica a ouvir o que lhe diz o Anjo e só no fim reage, aceitando, humilde, o destino que lhe fora traçado.

 Mais modernamente, um poeta como Rilke, que escreve, quase como num jacto as ELEGIAS DE DUÍNO e mais tarde a A Vida de Maria, elabora de forma intensa e poética logo na primeira Elegia o Espanto que um Anjo nos causaria, se ao chamarmos ele surgisse diante de nós, de repente. Um tal Espanto e de tal dimensão que certamente morreríamos ao vê-lo.

O que quer o poeta significar? Que o transcendente não é para o humano? Vejamos a primeira estrofe:

Quem se eu gritasse me ouviria entre as hierarquias dos Anjos?E mesmo que um me apertasse

De repente contra o coração: eu morreria da sua

Existência mais forte. Pois o belo não é senão

O começo do terrível, que nós mal podemos ainda suportar,

E admiramo-lo tanto porque, impassível, desdenha

Destruir-nos. Todo o Anjo é terrível.

E assim eu me reprimo e engulo o chamamento

Dum soluçar escuro.

(Trad. Paulo Quintela)

Em Rilke o espanto manifesta-se sob a forma de interrogação e temor, a interrogação permanente sobre o divino, e sua manifestação tão poderosa, tão aterradora, que pode matar. No fundo estas Elegias exprimem a sua curiosidade, ou angústia sobre o que é a condição humana, o seu sentido e a sua relação com o divino. O que é a nossa existência para a existência do divino? E os Anjos, que percorrem cada verso, ou quase, como intermedeiam a nossa ignorância e o nosso receio? Um espanto que se pode também dizer perplexidade.

 Em conclusão: podem espantar-nos o Horror, e o seu contrário, o Sublime (como é definido por Longinus no seu tratado). Ou uma interrogação que interpela, mas não obtém resposta e ao longo da vida e da criação poética, como em Rilke, permanece imutável. Será sempre em todo o caso uma reacção de forte carga emocional perante um acontecimento inesperado,  excepcional, como o aparecimento de um Anjo que outrora profetizava, e agora, nos tempos modernos não anuncia, não revela o mistério, nem da sua presença (se surgisse) nem da sua existência.

P.S. Seria injusto esquecer aqui o Espantalho, não o insulto, mas a figura de trapos que espetada num pau, com o seu chapéu enfiado na cabeça, serve no campo para espantar os pássaros que roubam as colheitas...


 

 

Thursday, April 01, 2021

90 POEMAS DE GUENTER KUNERT


Com seis desenhos de Mário Botas e um ensaio de João Barrento, foi publicado em 1983 na colecção de Poesia da editora fundada por ele, apáginastantas este volume de Kunert, poeta da RDA ainda não conhecido em Portugal, e que um grupo de colegas da FCSH, da Universidade Nova, traduziu, nas suas reuniões regulares de divulgação de autores contemporâneos. Reencontro a edição num acaso  de estantes desarrumadas, e que já nem arrumo: vou descobrindo, ao acaso, algo de um antigamente feliz: éramos todos jovens, ninguém tinha morrido. Morreu, porque partiu cedo demais, o jovem Mário Botas, de cujo lirismo onírico tenho saudades.

O que mais me chamou a atenção, foi ver como os poemas deste autor não perderam actualidade. Viveu na RDA até 1979, e depois fixou-se na Alemanha Federal. Viveu um pós-guerra doloroso,  de memória e sofrimento, e tem na sua escrita poética ora uma esperança, nunca completamente assumida, ora uma visão objectiva, por vezes de quase narrativa, da vivência de uma morte adiada, mas presente. No poema CLÁSSICOS II, em conversa ficcionada com MARX, termina deste modo:

tropeçamos

guiados pela tua palavra

de escuridão em escuridão

barbeados e empregados

e sem salvação.

(trad. R.F.)

Este é um poema em que já se perdeu o sonho da utopia que transformaria o mundo e os homens.

Mas logo no primeiro, da abertura do livro, se vê como desconfia dela, e do seu futuro:

SOBRE ALGUNS QUE ESCAPARAM

Quando o homem

foi retirado

Dos escombros

Da sua casa

Bombardeada, 

Sacudiu-se

 E disse:

Nunca mais.

Pelo menos não já.

(trad. Y.C.)

Ora estamos, depois da Guerra Fria, em várias espécies de guerras, em que o horror nos é mostrado pela televisão, todos os dias, e já. Não são na Europa, que sofre atentados de guerrilheiros, de que se defende como pode, mas são em África, no Oriente e se calhar um dia destes na Ásia.

Em O SOL BRILHA de novo a memória regressa e apaga o riso das crianças que brincam:

O sol brilha. Das janelas

Do prédio novo as mulheres olham

As crianças que brincam. No céu

Passa um avião, nos

Rostos perpassa uma sombra.

Elas Lembram-se.

(trad.Y.C.)

Contudo o amor é possível, se não sempre, em momentos especiais e raros. Disso nos fala Kunert em NASCE O DIA: sai de um encontro amoroso, percorre as ruas vazias "ao amanhecer do dia claro", vai caminhando ao longo de " longas muralhas de casas, junto às fachadas de pedra", saído dos braços da mulher com quem esteve, do "seu quarto, da porta e da casa". Um homem só, que não tem casa, nem quarto, nem, por pequeno que seja, um raio de sol na vida. A morte não lhe sai da alma, embora a última estrofe aluda a um sonho possível:

Sair assim um dia do mundo,

Ao encontro do frio,

 Serenamente sentindo o sangue quente,

Bem ciente de ter vivido bem.

(trad. Y.C.)

Adiante falará, em APONTAMENTOS A GIZ, daqueles para quem 6 milhões de mortos é um número e não esconde a consciência que tem de que continuam "bem vivos os zelosos assassinos /ainda e sempre".(trad. J.B.)

É neste momento, como foi outrora, uma leitura necessária, a deste poeta, falecido em 2019 aos 90 anos. Fechou-se um século, abriu-se uma nova era, mas não se deve perder a memória do que foi o horror, que estará ainda e sempre à espreita, vestido de outras roupagens, insidioso, oportunista, sem escrúpulos e sem medo.