Foi com João Borges que descobri o blog dos livros pela capa, e o trabalho de pesquisa e atenção contínua que se exige.
Pelas capas ele vai fazendo uma verdadeira história do design e do livro em Portugal. É magnífico ir encontrando preciosidades que marcam pelo estilo, pela inovação, (mesmo em tempos de adormecimento, só aparente...). Presto-lhe a minha homenagem, e desejo que continue sempre.
Vem isto a propósito de um livro, em breve a ser lançado, de Hugo Mezena, AS VELHAS. A seguir a Gente Séria, não me espanta que tenha abordado, como se Beckett e os seus irónicos Dias Felizes se nos impusessem de novo, em tempos cruéis, de doença, distracção ou abandono, aos jovens que escrevem agora, e nos dão a ler o que nos espantará sempre: a vida, no seu particular e no seu universal. Não será por acaso que uma actriz merecedora de todas as atenções e distinções, como Cucha Carvalheiro, nos apresenta Dias Felizes, pela mão de Sandra Faleiro, numa representação que dói de tão certeira e actual.
Mas se em Beckett encontramos esta permanente universalidade, eis que em HUGO MEZENA, fixemos também o seu nome, e nestas suas VELHAS, narrativas curtas (short stories) iremos descobrir, num olhar mais jovem e por isso mais distante, quase cruel na distância, um mesmo submundo de um particular oculto, encafuado em quartos, em lares envergonhados, que põe a nú a universalidade da condição humana: com a velhice, abandono e solidão.
Raro, e marca sua de originalidade, é o estilo que adopta, sem grande preocupação de colocar um chapéu de definição de género: são narrativas curtas. Ou seja: de grande concentração, numa página ou duas, mete um mundo. E isso, sendo o mais difícil, é o mais notável. Porque a pincelada aqui, feita de poucos retoques e poucas palavras apresenta um quadro que é um painel inteiro, de memórias perdidas ou recuperadas de vida que se estendem, como roupa a secar, até que chegue a elas a maré negra que tudo submergirá. Roubei esta imagem, arcaica, verdadeira, profunda, a uma escritora que como eu é velha e declara que este será (eu diria apenas talvez, porque nunca se sabe...) o seu último romance: Margaret Drabble, The Dark Flood Rises, 20017, já com tradução portuguesa. No Sunday Independent o crítico escreve: Heartbreaking and hilarious, comovente e hilariante.
Esta associação que faço não é futilidade minha. Porque do livro do Hugo Mezena se pode dizer o mesmo, no seu tratamento das Velhas, muitas e variadas, mas com um ponto comum: o seu abandono à velhice é ao mesmo tempo comovente, ou mesmo mais, doloroso e hilariante (como em Beckett). Esta argúcia em alguém tão jovem como Mezena, faz com que me esqueça que ele é jovem, e a sua maturidade, quando o leio, me surpreende e encanta. Há no seu olhar, que fixa o detalhe como quem esboça num caderno o quadro que vai pintar, uma interrogação severa e que julga, ao mesmo tempo que ironiza. Rara e notável qualidade...
Impossível também não falar da capa, das suas criadoras, a Mariana Viana (Ilustração) e a Patrícia Proença (Design) porque a capa e a contracapa merecem toda uma atenção que ainda agora, enquanto escrevo, me faz pegar no livro, contemplar tanta beleza e elegância num jogo de transparências de que surgem, como num sonho do longe, figuras de meninas de outrora, com bonecas de outrora, subtis, mas marcando presença, em contraste com a dureza do título. Aquelas Velhas foram crianças, brincaram, foram felizes, antes das mantas do frio vestiram rendas, bordados ...tudo ali se evoca dum passado outro, com um desenho de tão fina renda, tão fino bordado, que só não dá vontade de chorar porque ali está agora, evocado num presente que a mão das artistas recriou.
Que mais posso dizer, antes que a maré a mim também me leve?
Que ler é viver, e que a beleza e cuidado com que se trata um livro nos prolonga a vida.
Tuesday, February 12, 2019
Wednesday, January 16, 2019
Paulo da Costa Domingos, NARRATIVA
Da carta de Vitor Silva Tavares ao autor:
"Caro Paulo,
Disseste-me que o teu livro não é aquilo a que se pode chamar 'um livro de memórias'. Em rigor em rigor, acho que é e não é. Não é, por certo, um livro 'jornalístico'(o autor vai ali ao calendário da sua vida e dá notícia) mas é sim senhor, quanto a mim, um mergulho visceral - entenda-se, visceralmente poético, logo interventivo-naquele magma de impressões redivivas, experiências e encontros determinantes, obsessões e tramas que musculam mais que uma vocação - aliás afirmada - um sentido de e para a vida (plena). Encaixa o que tem de encaixar, rejeita o que afinal não passou de acidentes de percurso, necessários embora".
A Narrativa, de Paulo da Costa Domingos, publicada em 2016 com a chancela das edições ALAMBIQUE, chega-me agora às mãos e fico em estado de choque.
Desde que li, outrora, Lautréamont, que nada me surpreendeu tanto, pelo ímpeto, pela intensidade do que Vítor Silva Tavares chamou de vida redivivida, frenética na evocação recuperada que interpela mas não atropela, prosa de mão corrida a acumular o que foram autores, o que foram leituras, o que foram no tempo do seu crescimento e afirmação intelectual os marcos mais importantes. Cortados pela vida? Claro, só quem não vive e convive com a poesia ignora que a vida está sempre ali, a vida nos corta ao meio, os poetas são os sobreviventes de inúmeras fugas e percursos ínvios, mas digeridos e aceites como aquilo que são e fazem de nós o que somos.
Li, pois, de um fôlego, e espantei-me: pela originalidade de uma narrativa que expõe, e se impõe. Regressei ao tempo que era de Vítor, que era de Paulo, e que foi o meu. Um tempo que, se por um lado se dava ao ambiente usual deste país, dele se afastava, em segredo, profundamente.
Até ao citar Asger Jorn, o pintor da Internacional Situacionista, de quem falo em AMORES SECRETOS, fundador do movimento Cobra, o figurativo expressionista, como ele se auto-intitulava, tropeço, pela mão de Paulo Costa Domingos, no meu próprio passado. E contudo não nos conhecíamos ainda, ele já no oculto meio editorial dos poetas preferidos, eu longe, em França, a minha pátria primeira, na cultura que me formou.
De longe, como descubro agora, íamos coincidindo.
A Narrativa tem, como no Ulisses de Joyce, um vocabulário muito próprio, de marca surrealista no seu deslizar só aparentemente automático, onírico, mas ao mesmo tempo muito trabalhado, carregando leituras e culturas oriundas de outras esferas, ainda não divulgadas em Portugal, o país dos esconsos caminhos, dos muitos sonhos perdidos.
Viajamos com Paulo por outros países, outras linguagens, vamos com ele à descoberta do que ele decide só agora contar. Talvez porque a morte de AL BERTO nos tenha ferido a todos e ao evocar a sua presença feita de tanta ausência (quem o lê, hoje em dia? ) sintamos o desejo de falar, de dizer, de afirmar que há um avesso na vida, e dele, sem saber, todos nos fomos alimentando, enquanto à vista parecia que se morria à fome. Alguns morriam mesmo. Outros resistiam.
Esta Narrativa é um gesto de resistência.
Nascido em 1953, Paulo, mais novo do que eu tantos anos, pela sua mão me faz agora recuperar algumas das minhas memórias antigas.
Espanta-me, como Henri Michaux me espantava, em Paris, tinha eu 15 anos. Ou mais tarde Jean Genet, com Notre Dame des Fleurs resguardado por Prévert. Ou Violette Leduc - a prosa do maior sofrimento, na maior entrega.
Narrativa é uma obra que se impõe ler, pelo menos aos que ainda estão vivos, da minha geração. Lá dentro navegamos, chegamos ao bom porto que nos ajudou a viver, dentro e fora de nós.
E quanto aos mais novos - esses, ao ler, aprenderão tudo o que lhes falta:
a dimensão da vida, da cultura, da expressão numa linguagem directa, limpa de inúteis excrecências, que vai à raiz das coisas, das situações evocadas, ao núcleo duro onde se forma a palavra poética. Poesia não é lamechice nem sentimento pingão, a palavra poética é dura, é resiliência, é discurso veloz despido de fingimentos. Tudo é verdade, na palavra poética, mesmo a pura invenção.
Paulo da Costa Domingos não desiste.
Conhece o livro de há muito: no chumbo das antigas tipografias, na arte da concepção e do design inspirado, no bom papel com boa letra, legível até para os olhos mais cansados.
Que mais posso dizer?
Que vou reler a sua Narrativa, uma e outra vez, que ele dividiu em anos, estando agora em 1996 e segs. E anunciando uma continuação.
Não sabe, pois nunca falei disso, que eu também escolhi como forma de resistência o continuar a escrever. E a ler, por isso aguardo a sua continuação:
"Ah, sem o magnetismo da Arte todo o real ficaria mudo, e somente passado...A clareza procurou-me e quis habitar comigo. O propósito alçava--se à palavra. Evoluí...Aqui cheguei; sou. E vós, que mais novos sois do que eu, constituís o meu passado. Espero, não demoreis demasiado a chegar até mim". (p.113).
Eu cheguei, no termo da minha idade.
Outros, os jovens, deverão fazer o mesmo.
Friday, January 11, 2019
Mariana Viana e o Físico Prodigioso de Jorge de Sena
Mariana Viana e o Físico Prodigioso de Jorge de Sena
Pego no que chamo o LIVRO DE
OURO.
É preciso rasgar o papel (que
pena...) e abrir uma caixa, desdobrar um livro que é tanto para ver como para
ler, pois estamos perante uma original concepção que envolve texto e
ilustração, fazendo deste objecto algo surpreendente um livro de Arte, um livro
de Artista, no pleno sentido da palavra.
Um ilustrador não é alguém que se limita a
reproduzir com desenhos, melhor ou pior, o texto que lhe foi dado a ler.
É alguém que o interpreta
dando-nos a ver uma outra realidade, filtrada não apenas pelo sentido da
narrativa, mas sobretudo pelo seu próprio imaginário, que se abre e nos abre a
outras sugestões, novas e inovadoras imagens que a leitura normal, só por si, não
permitiria.
É certo que também a leitura
não deve, nem pode ser, de sentido único. Porque a escrita não o foi. O
imaginário do escritor, e em especial referindo-me a esta obra de Jorge de
Sena, é aberto, é variado e múltiplo e exige um olhar igualmente aberto e
variado. Não terá sido fácil trabalhar sobre uma narrativa tão apoiada em tanta
erudição, prosa arcaizante, ambiente medieval, personagens que são
intermediadas pela lírica de Amor, por trovas da tradição popular, (sublinhando
Sena que são recuperações, mas de sua autoria) e ainda por referências
implícitas que nos é impossível ignorar, ao Fausto
de um Goethe que Jorge de Sena bem conhecia, e do qual recupera o grande tema
central da paixão e entrega ao amor e à vida, embora o enquadre em ambiente
cavalheiresco de aventuras que não serão já lidas no nosso tempo, que perdeu
memória e cultura.
E estará na hora de reler...
O leitor segue aquilo que o
autor propõe. Mas não se diz que uma imagem vale mais que mil palavras? E assim
é. A imagem vai directa à emoção que provoca, de repulsa ou maravilhamento, faz
apelo a outras estruturas do nosso cérebro, Jung falaria de sub- ou de in-consciente, individual ou colectivo.
Explicando melhor, sem querer
impôr a minha opinião, neste caso da obra de Jorge de Sena, ilustrada por
Mariana Viana:
O texto é do domínio da
razão, da consciência racionalizante daquele que escreve, enquanto escreve. A
pintura (neste caso a que agora me refiro) ilustra o sentido emocional da
reacção que o texto provoca, e eleva-o para um outro patamar, de um Belo
não-racional, mas apesar disso fiel à
matéria ali posta por escrito. E recupera mitos e arquétipos que traz à luz do
dia, arrancando-os da sombra em que estavam enterrados.
Lidamos, sem dar por isso, se
calhar, com duas esferas que se completam –mesmo quando aparentemente se
antagonizam: um texto realista, com ilustrações abstractas, modernistas, por
exemplo. Ou desenhos realistas para um texto surrealista. Nada é impossível, a
questão é que se encontre o fio desta
meada que nos conduz de um a outro momento da inspiração de um e outro artista.
A imaginação criadora do escritor é livre, mas livre é igualmente a imaginação
do ilustrador.
A palavra abre a imagem, e a
imagem devolve-nos à palavra. A palavra conduz-nos pelo mundo das ideias, a
imagem conduz-nos por outras formas que mais do que ideias (racionais) serão
puras emoções e quase não precisam de sentido, apenas de empatia, o Belo não
pede respostas, mas adesão emocional.
Jorge de Sena não facilita a
vida ao seu ilustrador. A sua cultura, a sua erudição, enorme, aprisiona, em
vez de libertar.
E a mão de quem pinta, nestas páginas de O Físico Prodigioso, serviu-se
igualmente da sua cultura e do seu imaginário, sem peias, variando de esboços
só aparentemente simplificados, no claro escuro que evoca um Munch e as suas
figuras esquálidas, até à côr forte, de pincelada intensa, evocando Kokoschka,
de um expressionismo que se afirmou quase violento para a sensualidade pedida.
Deparamos com um par
Andrógino que não tem a riqueza esplendorosa do Beijo de Klimt (mas revela o seu conhecimento), nem tem a ternura
do Casal Vieria-Arpad (mas revela
igualmente o seu conhecimento). E o que demonstra é que no pintor, o
Ilustrador, neste caso, tanto como no Escritor o que temos presente é a
Cultura: será preciso aludir ao mito do Andrógino, de Platão?
Voltemos às Ilustrações, ao
conjunto de pinturas escolhidas:
São pinturas que sublinham,
pelo excesso, por vezes com um toque
surrealista (sim o imaginário à solta, como desejaria Breton) a abordagem feita
por Sena de múltiplos estilos, prosa, canções (uma erudição não contida), de um
realismo arcaizante e belo, ao mesmo tempo. Surpreende, não aborrece. E ajuda a
ampliar a narrativa.
Jorge de Sena escreve, na
Nota Introdutória ao livro, de que retiro extractos:
“Este O Físico Prodigioso teve a sua primeira edição, quando foi incluído
em Novas Andanças do Demónio,
colectânea de contos meus publicada em 1966. Descoberto como “conto fantástico”
poe E.M.de Melo e Castro, foi incluído na reedição, por ele preparada, da Antologia do Conto Fantástico Português,
de 1974. Aquele físico, (ou médico, ou mágico, no sentido medieval e ainda
ulterior ) que eu criei, como símbolo da liberdade e do amor, quando escrevi
dele em 1964, no Brasil, retoma enfim a sua independência, e sai sozinho pelos
caminhos do mundo, tal como aprece na narrativa que é sua. Ocorre-me que lhe
cumpre andar sozinho nas mãos dos leitores, como sucedeu com o ilustre Malhadinhas de Aquilio Ribeiro, saído
também das páginas do livro de contos em que primeiro aparecera”.
O autor compraz-se na
independência que o seu conto adquiriu, em nova edição, porque este físico é,
como ele diz, “ meu muito bem-amado filho entre outros, e que sempre tive por
como que um ‘alter ego’ ”.
Segue defendendo, ao
contrário da elogiosa definição de Melo e Castro de “modelo” para o seu conto,
abrindo o conceito a uma “fusão de invenção própria com o mais profundo da
natureza humana, parte do que é o inconsciente colectivo e comum a várias
civilizações, muito do que é ‘popular’, ou o foi e ainda significa” (p.9). Refere depois uma das suas fontes, o Orto do Esposo, texto anónimo do século XV que, como erudito honesto que é,
nunca deixaria de citar. Mas fá-lo para desde logo para o demonizar e fazer divergir do original, actualizando-o, a seu modo,
e tornando-o universal e arquetípico. Alude ao que já verificámos, mas explica
melhor: “experiemntalismo narrativo, jogando com o espaço, o tempo, repetição
variada do texto, etc.
é uma das bases essenciais
desta novela, como o é a Idade Média ou algo de semelhante, fantástica, em que
a situei. Esta “época” permitia-me uma liberdade de imaginação em que o
fantástico, com todas as implicações eróticas e revolucionárias como eu sentia
ferver em mim na pessoa do físico,
podia ser usado para tudo” (p-11).
E assim temos a mão livre de
Mariana, que aborda a narrativa com as cores e projecções do seu imaginário,
livre também, mas igualmente impregnado de uma cultura visual que faz parte do
século XX , a sua primeira metade, em que imperam liberdade, por vezes
libertária, mas sempre de grande inovação criadora.
Yvette Centeno
Saturday, December 22, 2018
A HORA
Chegou a hora?
Então fechemos.
Fechemos
primeiro as portas
e depois as janelas.
Fechemos.
Que os dias sejam mais longos
e as noites mais breves,
pouco importa:
as noites serão os dias,
os dias serão as noites,
e no intervalo
das horas
o silêncio da espera.
Tuesday, November 27, 2018
Clara Andermatt, a Arte Inconfundível

Clara Andermatt, a arte Inconfundível
Perante o que sinto diante de
uma obra de arte, a minha primeira reacção é o silêncio. Um silêncio feito de
espanto que me obriga com tempo a encontrar, porque as procuro, as palavras com
que o dizer. Porque desse silêncio nasce algo de mais profundo, um espaço ou um
tempo que têm a marca dos primórdios da criação, do seu mistério, da sua
interpelação.
Parece imperativa , a
necessidade de dizer, e não é fácil: com o corpo, com a música, com palavras
que são igualmente corpo, e música.
Já é longo o percurso de
criação de Clara Andermatt: viagens, travessias e atravessamentos, de que
trazia consigo o gosto da surpresa e da inovação.
Para mim a primeira e maior novidade, na altura, –estava eu há anos a ler e traduzir o poeta Celan – foi a
coreografia ao mesmo tempo tão simples e complexa CIO AZUL (1993).
Assim mesmo, indicação aos
que acham que sem ter tudo não podem fazer nada, quando no nada já tudo está
contido, como no QUADRADO BRANCO de Malévich (1918) que José Gil tão bem
estudou. Ele pinta logo a seguir à Revolução Russa, como Celan escreve logo a
seguir ao Holocausto, explicando que “ tudo é menos do que é, / tudo é mais”,
em ENTRADA DE VIOLONCELOS, e afirmando que a poesia a partir daquele momento já não se impunha,
mas se expunha (1969). E assim mesmo,
nua, despojada, cadáver que se lavava um cadáver-palavra ( como no poema
dedicado aos amigos Hannah e Hermann Lenz, arrepanhados de noite):
Uma palavra- bem sabes:
Um cadáver.
Vamos lavá-lo,
vamos penteá-lo,
vamos voltar-lhe os olhos
para o céu.
Estamos neste poema como no
mais singelo dos discursos de Clara, nesta coreografia carregada de sentido. É
o OLHO DO TEMPO (de novo Celan) que olha de través “sob um sobrolho de sete
cores”. Assim “ o mundo aquece / e os mortos / brotam e florescem”.
Por outras palavras, da
simplicidade do Nada exposto o mundo volta a nascer. O mundo que é a Obra, só
em singeleza concebida.
Parece e é bem verdade, que
neste início de século, o mundo nos preocupa a todos, criadores e cientistas e
que de repente (quase como nos séculos de antigamente, do Humanismo e do
Renascimento) nos sentimos mais próximos uns dos outros, nas nossas
interpelações.
Assim chego à grande
Revelação deste ano que Clara Andermatt com João Lucas, seu compositor de
excelência - quase alma gémea – nos apresentaram no Teatro São Luiz: PARECE QUE
O MUNDO (a 22, 23, 25 de Novembro, tão pouco tempo, infelizmente). Inspirada,
dizem, esta obra, numa de Italo Calvino, Palomar,
salientam os autores:
“Na construção da peça
propusemo-nos , em total paridade criativa, uma renovada ambição no nosso
percurso em comum: não dissociar, em nenhum momento, a invenção coreográfica
da invenção musical”. E adiante: “ Esta peça oscila entre três planos
distintos: o da observação, o da narrativa e o da meditação....A escrita de
Calvino deu também origem, em múltiplos desdobramentos de leitura e de
interpretação, aos enunciados da invenção do gesto e do som...colocando cada
espectador num observatório da sua própria experiência.”
E aqui me sinto eu um pouco
mais à vontade, porque eu senti sobretudo uma grande consciência e reflexão sobre o que o mundo parece (ou
chega a ser, no caso de cada um), uma grande intuição ou um grande conhecimento
já em parte adquirido, por estes criadores. Referem a relação mais ampla com o
cosmos, ora seria impossível essa relação não estar ali presente, vivida e
sentida, materializada em cada movimento de energia mais intensa, que irrompe
como forma de maravilhamento que a todos surpreende. Referem o infinito, que
naturalmente a relação com o cosmos não pode deixar de arrastar consigo. É
discussão permanente do tempo em que vivemos: é finito este cosmos, do pouco
que ainda sabemos dele? Ou infinito? E que sentido adquirem então nele o SER e
o TEMPO de que Heidegger falou, deixando-nos sem resposta? O ser é a matéria, é
o espaço em que os corpos se movem, o tempo a energia que os sustenta, os transposta, os
transforma? Porque Einstein veio trazer esse novo conceito, de um tempo-espaço
que abriu o nosso imaginário, de criadores e de cientistas, a novos e
insuspeitos horizontes. Temos de navegar neles.
E o que fazem este nosso
criadores de que agora me ocupo? Sem temor, embarcam, e deixam no ar, para nós,
espectadores ainda impreparados, mas maravilhados, todas as interpelações.
A cada um sua busca, sua
resposta...atravessada ou não pela sua vivência de um quotidiano que é seu.
Assim, perplexos, assistimos
num palco que se complexificou no seu
conjunto muito elaborado de propostas, já não é o singelo do passado (nem
poderia ser, em pleno post-modernismo do século XXI) é algo que é mais do que
uma proposta artística, uma elaboração
de um conceito complexo, aprofundado, ampliado nas suas várias vertentes, artísticas,
filosóficas e até científicas que vão para além do inspirado Calvino.
Lidamos aqui com a matéria,
os corpos, e com a energia, os sons, a música. E uma matemática de raiz
simbólica, pitagórica (séc.VI A.C. ) estruturada nesta coreografia
surpreendente que eu definiria como variante do seu número de ouro ( pois bem sabemos, pelo alinhar dos versos
de ouro, que se trata ali de conceitos relacionados com o Belo, com o Bom, com
o prodígio
do imaginário humano).
Impossível, na meditação que
a peça impõe, não recuar aos tempos míticos da fusão andrógina do ser, na sua
primordial completude: a existência
nasce da fusão do verbo com a matéria, nomeada, para poder existir. Como ali no
palco música e bailarinos se fundem, se confundem, a ponto de haver até uníssonos
nas vozes que suavemente se sobrepõem e erguem, dizendo que estão ali, fazem
parte de uma estranha união que, como na física quântica, ora são ondas ora são
partículas, consoante a atenção do nosso olhar virado para o palco. Na música
sentiremos a energia da ondas, nos corpos a materialização das partículas.
Mas eis que os criadores,
perversos, para nosso espanto tudo invertem: os músicos, com a sua música vão
como pura matéria pelo chão fora, e os bailarinos, misteriosamente
transmutam-se em puro som, pura energia, transparente quase e invisível.
Tudo ali de repente é
matéria, e por vezes explode, tudo ali é espírito (energia) e como o gato de
Schroedinger nos deixa sem saber : está ali ou não está. E nunca esteve? E se
está estará vivo ainda ou estará morto? Ou ambas as coisas, em simultâneo,
conforme?
Por isso amamos tanto estes
dois criadores, que nos abrem num palco este princípio só aparentemente fácil,
da INCERTEZA.
Eles próprios dizem:
PARECE QUE O
MUNDO pode ser “uma daquelas felizes coincidências em que o mundo quer olhar e
ser olhado no mesmíssimo instante”.
Ou por outras palavras: o
impossível.
Só de impossível pode ser
feita a arte...
Y.K.Centeno
2018
Monday, November 12, 2018
Sete Degraus Sempre a Descer
Já tinha escrito no blog de literatura sobre o
anterior, mas este tem talvez mais matéria para reflexão, não apenas literária,
quem sabe. Só lendo com cuidado.. Marco Luchesi que escreve na contracapa,
designa-o logo como “livro de alta poesia”.
Não será coincidência, este ano tem sido para mim uma
sucessão de sincronias, como prefere Jung que se chame. E esta, de novo, com o sete. Pois em Janeiro as edições sem nome – sempre amigos do
Norte – a tomar conta de mim, vão publicar as minhas traduções dos SETE CANTOS
DE THOTH, de Étienne Perrot, hinos inspirados nas gravuras de Michael Maier
(que ele próprio traduziu). São as meditações de um alquimista junguiano com
quem durante quase 20 anos aprendi em Paris o que sei, de leituras feitas,
análises tentadas, “aberturas” de portas como as secretas dos sonhos mais
arcaicos.
Pois aqui está à minha frente um 7 para decifrar. Luchesi
chama-lhe rito de passagem, a este livro. Não vou discordar aqui das suas
afirmações, que atribuem à obra uma dimensão mais religiosa quase, do que
mítica.
A descida pode ser uma ausência sofrida, um adeus que
se aceita ou rejeita, a busca no escuro da uma cave na montanha altíssima de
uma meditação que transforme (como na alquimia). Ou tão simplesmente uma descida
à noite escura do silêncio da alma, como em São João da Cruz, enquanto a luz de
uma nova Aurora não se faz anunciar.
Prosaicamente, fiquemos no singelo, como diria a Clara
Andermatt, conhecedora do íntimo valor do simples, que Paul Celan já glosara e
eu não me canso de repetir ( e praticar...):
Tudo é menos do
que é
tudo é mais.
(Entrada de
Violoncelos)
O sete é um número que descobrimos no Génesis, - o dia
em que Jeová repousa, feliz com a sua criação do mundo e da espécie a quem
entrega a guarda do Jardim do Éden. Nas correspondências tradicionais temos os
sete dias da semana, os sete planetas, os sete graus de perfeição, as sete
esferas celestes, as setes pétalas das rosas, os sete ramos da árvore cósmica
dos vários chamanismos, e sem esquecer muito mais, da simbologia que lhe é
atribuída: as setes hierarquias dos Anjos, por exemplo para figurar a
totalidade da perfeição dos mundos celestiais.
Assim descobrimos que no sete ( e voltemos ao Génesis)
se encerra o todo da perfeição, divina, cósmica, e por lhe pertencer, também a
material: o primeiro par humano feito
de lama...
O sete indicaria um ciclo completado numa enumeração
positiva.
Passo adiante toda a enumeração de cultos, do ocidente e do oriente em que o sete intervém, como energia condutora. Até na lira de Orfeu...
Passo adiante toda a enumeração de cultos, do ocidente e do oriente em que o sete intervém, como energia condutora. Até na lira de Orfeu...
Em resumo, podemos dizer que o sete simboliza a
totalidade do espaço e a totalidade do
tempo.
Passo adiante
Heidegger, na discussão do Ser e do Tempo.
Mas pressinto, ao ler, que nestes poemas é o Ser que
se expõe, e à margem do tempo que imobilizou algures no íntimo da alma, que é
forma secreta do ser.
Eugénia, neste seu livro, deixa uma porta aberta para
uma transcendência que pode escapar aos incautos. Como Dante, que andou pelos
seus versos, a viajar num caminho que também foi de descida, - inferno,
purgatório – até chegar ao deslumbramento da cósmica visão do Centro -
Clemente de
Alexandria ( 150 AD) podia ser outro a entrar por essa porta: àcerca de Deus, Coração do universo, escreve o santo que
Dele emanam os seis espaços e as seis fases do tempo, e que esse é o segredo do
número 7: regresso ao centro, ao
Princípio, pois a seguir à sequência do seis surge o sete que o fecha.
Podia ficar eu agora a pensar, por isso Jeová deus,
descansa....mas não há descanso, na verdade, há movimento perpétuo. O sete
contém o movimento, não o repouso, na sua totalidade. É um número de dinamismo
total, como podemos ler em tantos tratados, das várias religiões, Surge no
Apocalipse de João, surge em Avicena, nas sete aberturas do corpo e do coração que os chineses figuram nas sua
práticas médicas, filosóficas, secretas e e alquímicas.
Passemos do sete das míticas religiões ao sete de
Dante, que a autora conhece bem, e à descida de uma escada de sete degraus, –
os degraus sempre a descer. Por que razão? Que impulso negro se adivinha por
aqui?
O desejo de chegar à libertação da rua ? ou de chegar
às profundezas da cave em que toda a matéria do inconsciente arcaico se revela
e nos abre ao conhecimento de nós próprios, limitações, qualidades,
defeitos...necessidade de continuar no caminho, ainda que no tropeço de muitas
banalidades. Sem esquecer que afinal toda a escada é de ouro, liga o céu à
terra, um corpo a outro corpo.
Dante ( no Paraíso)
Vi uma escada côr de ouro
iluminada por um raio de sol, e que se
erguia
tão alto que o meu olhar não conseguia
segui-la.
Vi ainda descer pelos degraus tanto
esplendor
que pensei que todas as luzes que se vêem no céu
se tinham espalhado por ali. (cap.21, 28-34)
Falei do coração, no imaginário chinês.
E é no coração,
num ciclo de trigramas, que vou permanecer, na escolha dos poemas que formam os
Sete Degraus Sempre a Descer, como
miolo do livro...
Perguntar o que é a poesia, ou o que é o amor : não
tem resposta, ainda que numa língua de outro.
Era Jung quem nos recordava que a língua do
inconsciente – essa sim, era a língua de outro, do outro em nós, ainda
desconhecido, e ansioso por comunicar. Eugénia reserva para o meio do seu livro
a tal imagem do coração para onde se desce, e onde o centro se pode finalmente
revelar.
Vamos pois com ela, descer os sete degraus (pp.15-21):
1
O coração, rico em fogo, arde
de amor até que o beijo termina
numa
boca de cinzas.
2
É tão funda a travessia da tua ausência...
Estrelas perdem-se para encontrar
o meu coração no escuro.
3
Companhia intensa e íntima,
melhor amigo, meu riso, meu confidente,
meu Amor.
Ao teu lado, contigo, sempre, dentro
de ti me levavas, e habitava-te, meu Amor,
minha casa.
Excessivos pronomes possessivos: meu, tua.
Já nenhuma morada, só um endereço.
4
Apenas as horas sucedem às horas,
nenhum intervalo de milagres e
é quase noite: a luz desce
e a vida. Não há respostas, só
as janelas agora cegas e este
ponto de interrogação de frente para
o ponto final.
5
Esperei a palavra que salva,
a boca que, beijasse ou mordesse,
fosse sopro e nome de vida.
Não chegou.
6
Sinto. Penso. Sei:
o Amor, porque não tem princípio,
não tem fim.
E é da sua condição iniciar-se na dôr,
e vencê-la,
sem que a chama se apague.
O outro nome de um coração é liberdade
e só por isso nos deixamos prender.
O outro nome do Amor é tu
e só por isso nos deixamos matar.
Há outra eternidade?
7
O Amor é um canto
de riso e de lágrimas,
um canto concreto e fremente,
uma existência.
Uma oração.
A pequenina chama sempre acesa que
serve à adoração.
Quebrando, porque a actual narrativa poética
pós-moderna impele à desconstrução, temos nas páginas seguintes a esta
meditação em sete passos ( carregada de interpelações existenciais, para não
dizer místicas e sofridas) um capítulo III de Corações No Escuro (como que evocando uma Clarice Lispector, não
citada, mas certamente conhecida, pelo célebre Perto do coração Selvagem, obra que atravessa o inesperado da vida cortando-o
com a velocidade da prosa) – quebrando, dizia eu, o ritmo dos versos
anteriores, Eugénia traz agora à nossa leitura situações de um quotidiano
familiar, a laranja na mão, a cozinha onde a corta, a evocação de alguém que
ali não está. De um real ou possível passeio nos jardins da Gulbenkian, para um
beijo real ou imaginário, resume a poeta o que é a existência, como agora a
descreve: “ uma existência de papel”. Fugiu-lhe algo da vida, na descida dos
degraus, agora vive se escreve. Em A
Carne Suspira Melhor (p.27) poema que descreve um sonho acordado, porque
sonhar já não é possível, a consciência tomou conta da vida, o que se deseja
agora é o dia a dia, “os passos concretos” (nos outros de que abdica, da escada
invisível, o caminho era incerto...) e devagar se chega do espaço da cozinha ao
espaço de um corpo que se deseja, é bem real, tem cheiro, tem pele com sabor, e
já é só memória “ o céu aberto de
estrelas” de um Dante ultrapassado.
Contudo, um pouco do maravilhoso que todo o Amor
guarda em si, veremos adiante como brilha o seu trono:
O amor de um homem é um trono
adornado de céu e estrelas e,
toda a gente sabe,
a mulher gosta de jóias
(p.30).
Não fosse o leitor embalar-se de novo nalguma visão
etérea, Eugénia com o seu subtil (ou nem tanto) sarcasmo volta a pôr os pés no
chão de quem iria com ela descer novas escadas...O amor acaba, afirma
continuando noutro poema, que repete o que ficou dito. Evoca um Ulisses que
perdeu a sua força mítica, evoca Pedro e Paulo, santidades esquecidas, para
fechar com um verso que apesar de tudo interpela, não é afirmação categórica:
“ Talvez o coração nada tenha para aprender” (p. 38).
Eugénia de Vasconcellos é tão jovem ainda, a vida lhe
trará outras experiências, literárias e não só, viajará por dentro de corações
mais inquietos ainda, quem sabe, do que o seu, e o túnel de que fala, erguido
entre dois sonhos, seja afinal menos negro do que as negras asas dos Anjos com que julga saudar a morte (p.36).
Reset
Respira.
Não há plano.
Não há sonho.
Não há futuro.
Só há agora:
de hora a hora
até o passado se desfaz.
Não vais morrer:
respira.
(p. 40).
Respiremos, vai ser preciso reler...
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