Thursday, March 16, 2023

Reflexão para um Amigo, Vítor Gameiro Pais, Lucília e Cecília, um conto.

 Trata-se de uma pergunta sobre um Conto, o que é,  afinal.

Foster definia o género Conto pelo limite de número de páginas, narrativa curta não mais de 30 a 50 páginas. A partir daí seria novela, ou romance, se ainda maior. Mas na verdade há narrativas curtas, short stories ou mesmo curtíssimas, a partir do momento em que os Modernistas alteram ou mesmo destroem os conceitos de género.

Mas a pergunta que me faz um amigo é outra, se pode ser conto uma prosa que escreveu e me pediu para ler. Leio. Não é a dimensão que interessa, mas o modo de escrita. Vê-se que escreveu  um texto quase neo-realista pela atenção ao pormenor, ao detalhe, desde o cheiro do autocarro à irritação que lhe causa uma velha que lhe passa à frente. Ele, que chegou primeiro ao lugar, não se dispõe a levantar-se e a dizer-lhe sente-se aqui. Mas alguém que o irrita ainda mais ofereceu o lugar. Chama-lhe idiota. Está a adjectivar quem o aborrece, nesse dia que parece de todos os aborrecimento, numa curta viagem de regresso a casa.

O regresso a casa, eis um bom motivo literário para desenvolver, mesmo não tendo lido a obra dos vários psicólogos que se ocuparam dele.  O mesmo do autocarro, que é mais caixote onde se empilham humanos, ou mesmo caixão, de gente que ainda não morreu e ali fechada se revolta e enche de pontapés a tampa  que desceram.   

O tom é de alguém que está vivo e contrariado, a quem tudo aborrece, e é desse aborrecimento que dá conta. 

Se pode ser um conto? Pode, mas espera-se que tenha uma continuidade de outros que se lhe sigam e formem um volume, que diremos de contos. E quanto a este em concreto é mais quem sabe um começo, a que o conjunto de outros definirá a questão (que muitos desejam) de "género".

Assim sozinho leio o conto como uma narrativa que poderá ser, ou não, um "arranque" para o autor continuar a sua escrita, de que sente falta.

O que ele deseja é escrever, continuar a escrever, o que não lhe tem acontecido. Sente a falta desse exercício da palavra, a que exprima os seus sentimentos, seja em prosa ou em verso (ele também escreve poemas). A pulsão da escrita surge, não pode ser imposta, apenas desejada, mas quem sabe se esta narrativa de autocarro, ainda que de zanga com o mundo à volta, será já um princípio? O que vier a seguir dirá. Em vez de conto pode vir a ser uma página de diário.

Os modos amargos,  de tom coloquial ou mesmo com algum termo mais grosseiro pelo meio, estão na moda. Cultiva-se a inquietação, a impaciência, a infelicidade da auto-comiseração. E tudo de modo apressado, não vá a palavra fugir. Mas o que fica, além da ideia de ser conto? Ser breve não é só por si uma qualidade literária. E um olhar desabrido sobre o mundo real também não. O que falta, na escrita, é a surpresa que nos deve trazer, a originalidade, a inovação de algum acontecimento numa banal viagem de autocarro com a vontade expressa  de chamar nomes e embirrar com tudo e todos à partida.

Nomear as gotas de chuva que bateram no vidro, com nomes femininos, normais, nem ao autor / narrador, pareceu suficiente. Uma gota de chuva pode ser tanta coisa, há tanto simbolismo na água que embate nos vidros, cai no chão, na rua, nos regatos, no mar...Claro há também o feminino na Água, de cuja espuma surge a Vénus tão aclamada. Daí que as nomeie. Mas estão longe de ser a mítica figura...Podiam ser reflexo, espelho, diamante inclusive se limpas e brilhantes.

Já temos aqui matéria a explorar, a casa, o regresso, ( o que é um regresso tão contrariado? O que diria Freud?) a água, de simbolismo insofismável é só procurar (em Pessoa falei da água e da morte, mas não quero impôr o meu exemplo, procurei no seus poemas e encontrei).

O autor precisa de continuação, de mais contos, sejam curtos ou longos, mais subjectivos ou objectivos, realistas ou surrealistas, mas apontando para um outro nível, que me leve a dizer, isto é literatura. Este conto não surpreende, apenas confirma um determinado estado de alma. O desejo da escrita. 

E agora caio na minha própria esparrela, o que define afinal o que é  ou não literário?

Como em Heidegger, o que é Pensar?

O filósofo socorre-se de Hoelderlin, o célebre verso de sermos um Sinal que perdeu o Sentido, no Hino à Memória. Pensar é procurar o Sentido perdido. Pensar o Tempo ? Como no enorme O SER E O TEMPO? Como pensar um e outro? Viver um e outro?

Poderemos aplicar este verso à literatura, à criação poética?

É o Sentido, tal como no Pensamento, que confere outro estatuto ao que escrevemos? Cada autor é um só, e deve ser lido como tal. Voz única em cada único momento. 



 


Monday, March 13, 2023

Se pudesse dormia. 

Tão breve a noite,

tão longo o dia...





 

Capuçon e Wang

(Franck e Chopin)

Chora o violoncelo

o piano responde

neste cair de tarde 

em que ressoa a morte

os corpos caídos arrefecem

abandonados não ouvem

 a dôr destes acordes

Friday, March 10, 2023

Oníricas, de Ana Marques Gastão

 Quem já conhece a obra de Ana Marques Gastão não estranhará que o título contenha um duplo sentido, que nos faz pensar (tudo o que ela escreve nos obriga a pensar, não deixa que fiquemos pela rama).

Oníricas, um conjunto de sonhos que transformam as sensações, as memórias que ficam, em poemas? Ou poemas que aspiram a ser sonhos e permitam aos sonhos essas revelações contidas neles?

Ana dá  no Prefácio um fio condutor de leitura a quem não entenda por completo a subliminal cultura, o desejo do risco na página do poema, para mostrar que na arte tudo é expressão, mas também que tal como nas crianças riscar é exprimir um movimento, um impulso carregado para o próprio (e quem sabe para quem está ao lado) de algum sentimento inesperado? 

A arte é o inesperado. Sem surpresa não há arte, e o poeta bem sabe que muitas vezes, sem ele pedir nada, o verso o toma e surpreende, e ele então não faz mais do que obedecer, empresta a sua mão, a sua imaginação, e deixa fluir ideias, imagens, pensamentos. 

Heidegger reflecte sobre o que é PENSAR. Ana reflecte sobre o que é CRIAR. Em ambos uma raiz comum,  um Sinal que adquiriu um sentido, e na inovação do pensamento, ou do poema criado se manifesta. Aqui se relembra Hoelderlin, o seu hino à memória.

Dou a palavra à autora:

"Os poemas de Oníricas nasceram, na grande maioria, da transcrição de sonhos ocorridos durante décadas. Partem, por isso, da leitura sistemática de uma colecção de cadernos que fui reunindo. Apesar de o convívio próximo com o mundo além-consciência e a leitura e a escrita terem funcionado como instrumentos de um método experimental, só o processo de transfiguração poética me permitiu reflectir, do modo mais livre possível, sobre o universo da palavra por meio da qual nem a mão sabe por onde vai".

Escreve, mas não partilha do culto da escrita automática de um Breton, pois a sua escrita é cuidada e revista, talvez porque emana de um fundo que ela conhece bem, o mundo dos arquétipos que se revelam nos sonhos que se apontam. Outros não se apontam, não pertencem ao outro mas apenas a este mundo banal, mais quotidiano. 

Curiosamente, como em Nuno Félix, ou Rosário Pedreira, que neste ano falaram sobre o corpo (humano, como se houvesse outro, que fosse apenas onda e não matéria) também Ana tem um conjunto que tem por título CORPOS. 

Interessou-me especialmente, pela relação com os anteriores e as suas publicações. Os corpos sofrem e em tempos de guerra o despedaçar torna-se tão visível que nos dói a sua dôr. Mas também dançam, no seu balançar, estes corpos de cuja morte, sem a citar, se fala: "dança de pé com os pés /  e agora larga o chão, / a prisão, a terra / o falso balanço da vida."

Pensamento de que se é salvo pela palavra poética.

Adiante, em TRONCO, é descrito o processo de salvação, os olhos fechando sobre um apelo : " torna-me informe, / diz o meu nome / pede-me o que nem sei imaginar. / rouba-me o poema...." culminando numa série de fragmentos que levam ao verso final " até o coração rebentar".

É isso, não uma implosão no onírico, mas uma explosão na palavra.

Só a palavra salva. Ao princípio era o Verbo...e o Verbo se fez Carne, não pode haver Deus sem Corpo,  Espírito sem Matéria, Poesia que não nasça de um profundo Silêncio onde o sonho se esconde e o coração bate.


 


O DIA E A NOITE

 

Ao fim da manhã

se pudesse dormia.

Quero a noite

de dia

já que de noite

tenho o dia...


Tuesday, March 07, 2023

A pergunta

A pergunta foi esta: 

como é o seu dia?

Fiquei a pensar

como é de verdade

o meu dia?

Acordo cedo

e não queria acordar

foi um empurrão

da madrugada

que me tirou do sono

quando eu estava a sonhar.

O resto é um rito banal

café quente

notícias da guerra 

que leio no jornal.

Ao país prefiro não ligar.

Saturday, March 04, 2023

Rotinas

(Porque hoje é Sábado, lembrando Vinicius de Morais

Velhas rotinas

não se recuperam mais.

Vamos criar as novas

sem abdicar do café

logo de manhã 

para ajudar melhor

a sacudir o sono

que ainda sobra da noite

e um pouco da madrugada.

O que fazer do dia

que aparentemente 

não oferece nada? 

Medir a tensão

está bem

e não esquecer de tomar

os eternos remédios

que sustentam a vida.

 A guerra continua

e ninguém quer a paz

não há melhor negócio

o dinheiro que traz

para todos os lados

eterno é o negócio

e penso nesta rotina

esta é a que eu não queria

mas é o que o tempo dá

as imagens de horror

de velhos e crianças

que em breve morrerão

quem podia fugiu

e quem ficou

vai varrendo as ruínas

é a sua rotina.

E eu que faço da minha

em cada novo dia? 

Acordar é bastante

dirão alguns amigos

tão grande a desolação

tão grande a monotonia...

Não sei se afinal é bom 

viver tempo demais.

 











Thursday, February 23, 2023

ELE

 ELE

Não, não esperou por mim.

Quis ir à frente, como sempre fazia.

 E depressa

que a minha lentidão

sempre o aborrecia.

Eu ia mais devagar

ainda a meio da rua

parada no meio da vida.

Lisboa, 22 de Fevereiro 2023



Wednesday, February 22, 2023

W.B. Yeats por Cristina Carvalho

 A capa da edição, com a foto do poeta, faz-me pensar que a moda vai e volta, e é o caso da franja, ou da melena que lhe cai na testa, como hoje em dia se vê em muitos jovens. Dá um ar sedutor, que evoca bem a sedução deste poeta aqui apresentado, muito na primeira pessoa, o que nos ajuda a entender melhor a vida e os percursos que se transformam em sentimentos. O sentimento da natureza, o amor do mar, ou da montanha, essa identificação mágica é muito bem transmitida nesta quase biografia, em que se salienta a matriz céltica de uma Irlanda sempre presente, por vezes só na memória.

Quando o livro foi anunciado, lembrei-me logo do volume que tinha visto na biblioteca do armário pequeno de Fernando Pessoa, em casa da sua meia-irmã, Dona Henriqueta Rosa Dias. Os livros desse armário seriam para mim tão interessantes, pelo conteúdo, como os papéis da Arca. Ali Pessoa tinha Yeats, Whitman, Joyce, testemunho da sua curiosidade pelo mundo moderno, a par dos volumes sobre matéria oculta, matéria que também foram objecto, como lemos em Cristina Carvalho, do poeta que biografou assimilando-o como um quase alter-ego que se tivesse apossado dela, como nos diz na Introdução. É esse um dos poderes dos poetas, tomar conta das almas dos outros e rasgar nelas horizontes novos, inesperados até.

Coerente com o que se conhece desta autora, a epígrafe que escolhe, de Stefan Zweig:"sempre que o espaço se alarga, a alma abre-se"(da obra sobre Montaigne). E na verdade, eu que a leio há bastante tempo, como li outrora o pai, Professor e Poeta, é isso que verifico: ela viaja, ela busca horizontes, ela escolhe obras e autores, ou cria as suas, e em tudo o que faz lemos e vivemos com ela espaços que se alargam, e desse modo vão abrindo as nossas almas. E eis-me então aqui com um poeta que por coincidência (ou seria algum momento  de magia celta? ) nasce a 13 de Junho, como Pessoa, embora uns anos mais cedo, 1865.

O imaginário celta que a autora nos descreve, "feito de seres inacreditáveis" dos que vivem nas grutas e nas florestas, que são fantasmas, gnomos, fadas, bruxas, o estudo da astrologia (Pessoa, estarás também aí, mais tarde, fascinado com ele? ), a alusão ao falar com vivos e com mortos (ser medium) mais uma aproximação?

 Yeats começa com o estilo romântico e simbolista dos tempos, e depois evolui para uma modernidade avançada, que lhe dará o direito a um Nobel em 1923. Na verdade, por toda a Europa os anos 20 faziam o seu caminho de revolução nas artes, poesia, música, pintura, e um criador seguia esse caminho, Yeats sendo um deles.

Cristina realça o seu permanente amor da natureza, mas não esquece algo que também foi moda dos tempos, - e se descobre em Pessoa - "a paixão pelo ocultismo, pelo espiritualismo, a mística e a astrologia. Estudei a fundo todos estes assuntos e complementei sempre a minha vida com as ciências ocultas" (pag.29)

Talvez aqui nos seja lançada a ideia de uma tese que aproxime estes dois grandes criadores, apesar das suas diferenças. Também as diferenças são merecedoras de estudo...

À medida que avançamos na nossa leitura torna-se mais clara a intenção que a autora já dera a entender na Introdução: não faria uma narrativa densa e complexa, mas escolheria momentos em que o poeta melhor se revelasse ( como quando alude à  sua melena, que lhe cai sobre uma parte da testa e o torna mais bonito, vaidade que não o perturba, é vaidoso, e que mal tem? ). A nossa leitura prossegue pelas páginas em que já se situou a importância da relação com a família, o amor dos estranhos livros que estuda e da consciência que esse mundo alargado lhe confere e nem todos ou mesmo ninguém à sua volta entende, e sem dar por isso, porque é leve, directo e agradável o modo escolhido pela narradora, estamos a meio. É uma das grandes qualidades de Cristina Carvalho, da sua escrita, não tem, não precisa, de arrebiques que compliquem para dar um colorido de falsa erudição. Gosto de ler quem escreve assim, e quando acaba, acaba. Sem complexos.

Não cabe num post tudo o que se pode dizer sobre um livro que deve ser objecto à parte de estudo mais aprofundado.

 Mas de novo, porque leio em regra até ao fim, antes de escrever, aprendo com Cristina Carvalho (com ela podemos sempre ter essa surpresa de aprender) que o poeta foi um iniciado da Ordem da Golden Dawn, fundada por Israel Regardie, MacGregor Mathers, Aleister Crowley (iniciado em Paris em 1900) que Pessoa conheceu bem, e alcançou o Grau de Grão-Mestre, o que o leva a sentir-se muito feliz, como afirma (pag.83).

Tal como em Pessoa, que estudei bem, Yeats mereceria agora que sobre ele fosse feito um estudo cuidado dos reflexos no seu pensamento e na sua obra, no meio de uma Inglaterra onde a teosofia, pela mão de Madame Blavatsky, que Pessoa traduziu, imperava. O ocultismo, lá como aqui, seduzia os espíritos, havia aquele impulso de saber mais, abrir o desconhecido, alargar a alma e os sentidos. Sabemos que Oscar Wilde não apreciava nem a poesia nem os estados de alma do meio que frequentava e não terá apreciado Yeats. Mas esse fica para outro momento.

Cristina alude ainda à paixão não correspondida que o poeta viveu durante longos anos, à actividade ligada ao teatro, e a pormenores da sua vida e casamento tardio, com Ezra Pound como Padrinho. 

Mas na verdade a sua vida foi a sua poesia e é para ela que o livro de Cristina nos empurra, num conselho final. Sigamos o conselho... 





Wednesday, January 11, 2023


 morno o corpo

 que de noite

 nos resgata

não são precisas palavras

não é preciso mais nada



Friday, December 30, 2022

FIM DE ANO

 À medida que o tempo passa

enquanto os dias se alongam

não é o tempo que passa

somos nós.




Tuesday, December 13, 2022

 Embrulho a alma

em cobertores de lã

e mesmo assim não aquece. 

Ao fim do dia revivo

aquele momento

em que a vida fugia

e eu ainda insistia

e era tarde demais

o frio já instalado

a alma já de partida


Saturday, December 10, 2022

 A Grande Mãe

 surgiu das águas fundas

abriu os braços 

abraçou o planeta

devia ser a terra

mas não era

nada ali tinha vida

era um planeta morto

feito de terra seca

um coração de pedra

que nem sequer batia

no céu brilhava a lua

o astro dos enganos

fingia ser a Mãe

reflexo dos oceanos

canto da luz eterna



 

Wednesday, November 30, 2022

 Invernos 

Coração amachucado

 folha de papel num charco

onde já não cresce nada


Saturday, October 08, 2022

Tempos

 Não só dos copos

também dos dias

se pode dizer

que se esvaziam

e onde está o tempo

o garrafão que os enche?

Friday, September 30, 2022

REVOLUÇÃO

 Ainda que fosse bordado a ouro e diamantes

esse pano que vos cobre a cabeça

para tapar os longos cabelos

que chegam à cintura

ainda assim esse pano seria sempre 

sinal de escravatura. 

Ó jovens do Irão

rasgai os panos 

cortai os longos cabelos

 quebrai as varas com que

vos martirizam

esses falsos profetas 

de um deus que nada disse


Chamai os Anjos do Céu

que desçam

com as suas espadas de fogo

e que degolem

os homens que foram filhos

e agora torturam mães.

Wednesday, September 28, 2022

Estranhamentos, ainda os poemas

 Quando o livro me chegou, pelo correio, não estranhei a beleza da edição, há anos que a editora Quetzal da Piedade Ferreira e do Rogério Petinga me habituaram ao bom papel, à letra cuidada, escolhida para que se leia, aos autores que depois arrumo na estante que chamo dos amigos. Só bons autores, bem editados, um prazer. Prosa ou poesia, sempre a colheita é genuína.

Por que me ocorre então esta palavra, estranhamento, com este livro de agora, O MEU CORPO HUMANO de Maria do Rosário Pedreira?Poderia ser outra coisa, o seu corpo, a não ser humano? Podiam os poemas ser de animais, uma espécie de bestiário moderno, ao gosto dos textos de metáforas medievais? Que humanidade especial deseja a poeta sublinhar, neste livro, com estes poemas? O tu a quem se dirigem não perceberia o sentido se ela não o sublinhasse? Que é corpo, (tanto como será de alma) e cada parcela do seu corpo adquire vida própria, como se fosse de vida renovada, pelos sentidos despertos, que abrem  em epígrafe o início da escrita e da nossa leitura:

É o meu corpo

humano, vê, ouve,

toca, pensa e

dói-lhe.

Volto porque

preciso muito

que me amem.

 

O livro fala do que sente um corpo que ama, mas deseja mais, que sofre e evoca o sofrimento, ainda que passado, desarticula, como se fosse livro de estudo de anatomia, as várias partes de um corpo que no poema se disseca. Tem a noção da efemeridade do que é humano no corpo, sem se sentir obrigada, no exercício poético a exprimir estados românticos de alma: "daqui até à morte é um instante". Pede contudo que aquele a quem se dirige - esse outro sempre presente - lhe ensine no intervalo da vida " as horas do amor". O amor, dado e pedido, faz a materialidade do seu corpo mais presente, ou mesmo sempre presente, quando é expresso. Basta um gesto, uma presença, uma comunhão, mesmo ao envelhecer pensando em como foi o sexo que fizeram e o que vão fazer. O mesmo com os poemas, pois também os versos terão o seu tempo, ou já o tiveram, e não se sabe se voltarão a ter. Esta não é uma poética de interrogação, é uma poética de evocação (bem humana) ou de afirmação convicta do que diz. Torna-se um quase diário que se não estivesse ordenado em estrofes, poderíamos chamar de prosa poética como a de Comte Lautréamont: prosa pela narrativa nua, realista por vezes de tão directa (passo a mão pelo veludo das tuas calças velhas / e aperto as nádegas / firmes do passado. Não sou /  só eu: as tuas roupas também / têm saudades".

Oscilamos, ao ler, entre passado e presente outrora um tempo feliz, agora um tempo que se suspende entre ser e não ser um tempo (um corpo) desejado. Ou como no poema de Sexo, um envelhecer ainda assim cuidado: " Os poemas, tal como nós, já vão / murchando. Há uma espécie de / bolor que se instala nas pregas da / nossa vida e deixa as mãos mais / trôpegas sobre o papel. / Ao fim da tarde / eu fico triste sem razão e / tu adormeces diante de um bom / livro. Temos medo do que aí vem, / mas não o confessamos (...) mas juntos e abraçados até ao fim. " O sexo, o acto de o praticar, com desejo e amor, é referido no poema, em suspenso porque como nos poemas tudo pode ter um fim: são corpo e são humanos os poemas, como a carne de quem escreve e também tem o seu tempo. 

O tempo, de sofrer, de ser feliz, de amar e ser amada, recordar e esquecer,  atravessa esta obra de Rosário Pedreira. É o tempo que torna humano esse seu corpo que ela detalha materializando, como Heidegger, o Ser. 

E já percebo porque me ocorreu a palavra estranhamento ao pegar neste seu livro. Quem já tanto fez, já tanto disse e escreveu, sente esta necessidade imperiosa de voltar a dizer, por que razão? Devolve a quem lhe deu outra vida, um seu relato, cheio de amor e gratidão que se adivinha entre linhas? Diz da sua existência, quem sabe outrora apagada, agora feliz num corpo que sente amado e por isso mesmo humano? Mais humano, como em Nietzche? Humano, demasiado humano, e precisando de mais e mais consciência de que é amado esse corpo, que é o seu. Não esquecer nunca que esta poeta é culta, lida, vivida, e não estranhemos o que nos pode a nós parecer estranho.

Estranha mesmo só a vida...

 



Tuesday, September 20, 2022

Maria do Rosário Pedreira, Os Poemas

 

Entrámos em Agosto, já Setembro, um Outono quente e húmido.

Ando há muito tempo com a ideia de falar daquele encontro no Parque Eduardo VII onde se iam fechar as festas de Lisboa. Nós tínhamos convite para as filas da frente, porque iam tocar os nossos filhos, acompanhando um grande músico brasileiro, que eles conheciam bem, e era o convidado de honra.

O Bernardo tinha sido operado há muito pouco tempo, e íamos os dois, sem empurrões, caminhando na fila para os nosso lugares.

Foi então que me cruzei com um dos meus antigos editores, que não via há tempos, a saudação foi rápida, era hora do concerto, mas o que vi então me deixou até hoje com o que descobri ser da parte dele a revelação – por um breve gesto que fez – de um amor grande e terno. Ia à nossa frente com uma jovem mulher, de aspecto frágil, cujo rosto não vi, mas que ele carinhosamente, com muito cuidado, aconhegou da humidade da noite, puxando-lhe sobre os ombros um casaquinho de malha. Ou seria um xailinho?

Ele visivelmente cuidando do seu amor. Ela visivelemente deixando-se ser cuidada.

Seguiram para os seus lugares, no fim do concerto já não nos voltámos a encontrar.

Ainda hoje, já passaram mais de dez anos, revejo a cena tão comovente e tão reveladora.

Como num gesto tão simples se pode esconder tanto amor.

Hoje são um casal, andam juntos por todo o lado, põem as suas fotos no facebook, a ele conheci muito bem, porque foi meu editor, a ela não conheço pessoalmente, conheço os seus poemas, alguns deles carregados da sombra que é a marca do fado, e muitos deles têm sido cantados por isso mesmo.

Hoje colocou no facebook, que se tem transformado em espelho de alma de alguns, um poema em que ao falar de antigo sofrimento, de todas as maneiras – termina dizendo, pode não parecer, mas é um poema de amor. Eu sei a quem, vi-os, naquela noite, ali começou ternamente a química que os salvava, a ele da solidão e a ela, quem sabe, da morte ao mesmo tempo temida e desejada.

Há um Anjo que protege os amantes na hora do amor. Rilke sabia.

Ocorre-me que tudo no amor é química, e por isso de repente surge uma fusão tão intensa, que se torna irrecusável. Durará para sempre ? Não podemos saber, mas não importa, a força está na magia do instante. Essa é a magia irrecusável, a suave atracção que unirá dois seres. Quantas vezes na vida poderá acontecer? Também não saberemos. Importante é o momento, a entrega subtil, feita em silêncio e tão alquímica que de dois faz um só, num tempo que se tornou perfeito. O que se perdeu regressa, transformado. Os poemas são os anéis da alma, ouro fundido em que todos os nomes se renovam: outrora cinzas, agora estrelas.

 

Friday, September 02, 2022

Félix com Hegel e Lacan (relendo Slavoj Zizec)

 Na edição da puf, de 2011, Zizec é definido como "o mais sublime dos histéricos". Uma adjectivação que atrai, porque o define como anti- seja o que fôr, neste caso contra Platão, o que Aristóteles já fora e continuando a distinção entre o que é possível ou desejável num filósofo Zizec vai fazendo um rápido mas brilhante historial dos filósofos que distinguiu, Fichte, o dos Discursos à Nação Alemã a ser derrotada por Napoleão, a Hegel, que ele define, como se diz no prefácio a este volume, como "monstro do panlogicismo, a mediação dialéctica total da realidade,  da dissolução total da realidade no automovimento da IDEIA. Face a este monstro afirmou-se, pelo contrário, o elemento que era suposto escapar à mediação do conceito" (p.11). Assim evoluíram os sistemas ditos post-hegelianos que se opuseram ao absolutismo da da Ideia em nome do abismo irracional da Vontade, cita-se Schelling, eu lembraria também Schopenhauer ( o mundo como Vontade e Representação), cita-se Kierkegaard evocando o "paradoxo da existência do indivíduo" e ainda Marx "em nome do processo produtivo da vida". A questão que permanece, em relação a Hegel, é que não se ultrapasse o limite que é constituído pelo Saber Absoluto. Zizec interroga-se sobre a origem deste conceito, e que causa horror, do Saber Absoluto. Donde vem? O que se esconde por trás de uma ideia fantasmagórica como esta e da sua presença "fascinante" ? (p.13) Um buraco, um vazio, que só pode ser preenchido se lermos Hegel com Lacan, é a tese defendida por Zizec, ou seja, sobre o fundo da problemática lacaniana da ausência no Outro, o vazio traumático à volta do qual se articula o processo significante. Podemos, por limitação de espaço, saltar para as três étapas do Simbólico em Lacan, a partir do seu hegelianismo : a primeira é a da função e do campo da palavra e da linguagem na psicanálise, que coloca o acento sobre a dimensão intersubjectiva da palavra: a palavra como meio do reconhecimento intersubjectivo do desejo. O que aí predomina são os temas da simbolisação como historiarização, realização simbólica: os sintomas, os traumatismos são "brancas", são espaços vazios, não historiados, do universo simbólico do sujeito; a análise realiza no simbólico esses traços traumáticos, inclui-os no universo simbólico conferindo-lhes a-posteriori, retroactivamente um significado. No fundo estamos ainda numa concepção fenomenológica da linguagem, tendo a análise como objectivo produzir o reconhecimento do desejo numa palavra  "total", de a integrar no universo da significação, identificando a ordem da palavra à da significação. Citando Lacan: " Toda a experiência analítica é uma experiência de significação" (Lacan, 1978, p.374). Será preciso recordar agora que Hegel estudou nos seminários de Hoelderlin e Schelling ambos tido influencia nos seus conceitos idealistas, o que nos levaria até Platão, o Pai das Ideias fundadoras do Bem, do Belo e do Verdadeiro. Uma herança que foi chegando aos nossos dias, incluindo como Zizec refere a utopia do marxismo (tal como em Platão também já tínhamos tido  A República e a sua ideia da sociedade perfeita, gerida por sábios filósofos (com a expulsão dos poetas, perturbadores das almas). Mas retomando Lacan:  eis que da filosofia, pela análise se busca agora o sentido, aquele que se oculta e reprime nos sinais de que falara Hoelderlin, nos seus Hinos. Ser um sinal que perdeu o sentido...E chegou o momento de falar de Nuno Félix, que conhece bem este filósofo, Lacan, e para quem a citação de que toda a análise é uma experiência de significação nos remete também para o célebre verso do poeta alemão: somos um sinal que perdeu o sentido. Filósofos, que constroem os seus sistemas buscando uma racionalidade que se torne explícita e clara, são diferenciados em relação aos poetas que. embora filosofando não é da racionalidade que se ocupam, mas sim de todas as outras formas possíveis, as irracionais também e acima de tudo. Porque há uma razão oculta no irracional, a circunstância, o acontecimento, a vivência (  o desejo ou a repulsa reprimidos). O interessante em Lacan é o modo como ele transita para os domínios da palavra, da linguagem, no dizer de não-sistemas que se aproximam mais da poesia do que da filosofia, manipulam símbolos como se fossem coisas palpáveis no mundo impalpável do que já foi e não é recuperável, engana-se quem julga que o tempo devolve ao outro tempo, do imaginário, o que nele se dissolveu. O que lhe devolve é já outra coisa, que a análise digeriu.

Podemos não ter herdeiros, mas temos antepassados. Nesta leitura que o estudo de Nuno Félix desencadeou há um Freud, fundador e que a todos guiou nos seus vários caminhos, mas há, como em Lacan, as árvores do pensamento dos caminhos de floresta de um Heidegger, por sua vez abrindo a questão do ser e do tempo - tudo o que é, é no tempo - e adiante a questão da linguagem, o sinal e o sentido, deriva que fez os linguistas de Paris dizer que Lacan tinha dado cabo dos estudos de Linguística na Universidade, ao formatar conceitos oriundos da filosofia e da psicanálise, traduzidos do alemão e por aí inovando e confundindo o que era normalmente ensinado.

Félix teve todos estes antepassados e foi ele próprio inovador: bebeu no surrealismo metáforas e símbolos arcaicos, mas a que deu novo sopro e nova actualidade. Toda a imagem, todo o objecto, e nas várias escolas também as da abjeccção, com em Bataille, se forem úteis serão utilizadas. A liberdade é total, Freud pode lá estar mas sem autoritarismo. Termino como ele faz, citando Wittgenstein: calar aquilo de que não se pode (por não conseguir) falar.

Mas deixo Valère Novarina, pintor e poeta, que afirma o contrário: ce dont on ne peut parler c'est cela qu'il faut dire!

Não tem fim o caminho...



   

Thursday, September 01, 2022

Nuno Félix da Costa, breve manual para ser humano, Cepe editora, 2022

Por coincidência, Rosário Pedreira publica sobre o seu corpo humano, e Nuno Félix da Costa um outro livro, em que também é do humano que se ocupa. O meu corpo humano, poemas de tristeza passada a ferro como ela diz. Alisar o sofrimento de que padece o corpo? Ou exorcizar, dizendo o que tem a dizer, e é sempre tão humana a sua voz, feita de canto e lágrimas, por vezes. Mas leio o Nuno Félix: prosa poética, ou poemas em prosa, conceptuais, em que a cultura é transversal à imagem poética, por vezes surpreendente, como já disse a propósito de outras obras. Um pensador que escreve poesia, ou que fala de como ela surge, ainda que de modo insólito (não esquecer que estamos perante um psiquiatra): "O corpo é uma noção acimentada num conjunto / O que o cérebro leva do corpo qualquer máquina de reanimar / supre"(p.9). Assim começa a nossa leitura.Com um texto em que se declara que se vive do pouco que a máquina dá, concluindo com ácida ironia que "confia na pátria e nas soluções mecânicas para a vida". Estão lançados os dados para uma aprendisagem (é um manual...) que se torna por vezes desconcertante, mas essa é precisamente aqui a intenção do poeta. Não facilita, obriga. O dia que começa será vagaroso, e nesse vagar ou desse vagar nascerá o brilho das estrela, e o resto do cosmos. Do corpo que esteve adormecido, sonhando, nascerão outros corpos, as órbitas dos astros. Faz parte do imaginário do humano o sobrehumano, para logo num poema seguinte recuperar uma fisiologia anatómica que conduzirá no fim à ideia, higiénica, de ir tomar banho. Álvaro de Campos não faria melhor. Mas também penso em Lautréamont, é difícil, ao ler, não evocar outras leituras: sem palavras para uma teoria da simplicidade, eis o título de um poema em que o mais é menos, e o menos é mais, ao gosto de Celan. Pois nada é simples, em Nuno Félix, tudo é complexo e obriga a revisitar o que se leu: "A visão da palavra antecede-a. É assim o fundo do mar onde a luz que cada uma emite encontra o alvo - sinos que mantêm silencioso o pensamento A mentira não existe entre os peixes do inconsciente" (p.16). A visão da palavra antecede-a: no primeiro verso já se revela o último, que é feito do silêncio dos peixes do inconsciente, nos sonhos. Fica no ar: o pensamento é mentiroso? Porque na oposição racional versus irracional, é esta última ideia a vencedora? Porque no inconsciente não há filtros ambíguos, a imagem é simples e directa e diz o que diz, sem mais? Como Freud via o mar - as ondas revoltosas, os perigos de naufrágio sem bóia de salvação, Nuno Félix em "conhece-te a ti mesmo" poema do impossível, reflecte também sobre o que vê no mar: "O mar limpa a necessidade de ordem, interrompe-a e afoga / a luz de uma obscura consciência num mim aquiescente / a personagem, uma massa de anjos habituados a mim" (p.18). Aqui poderia entrar uma nova imagem, uma nova palavra, o sublime, dos anjos, ou então a sublimação de um "ego" que se metaforizou num "mim" (a margem de diferença entre o Ich e o Selbst de um Jung, sobrevoando a massa de anjos descrita). A reflexão sobre o eu e o mim é talvez a pulsão mais funda deste livro no poeta que se sentiu impelido a escrever sobre o que sente e o que sabe que sente. Não é fácil, nem isso lhe interessa. Deixa fluir, para ficar mais livre: "liberto do lastro do eu tento ver sem mim...." ou adiante: "conheço como ninguém o que desconheço..."(p.19). Gostaria neste momento de utilizar a definição de Jung para Selbst, que ele distingue do conceito de Ich como sendo mais abrangente, englobando o todo da consciência (domínio do eu, do Ich) até à esfera do sub- e do inconsciente. Com os perigos de inflação de um eu que se funde, mas não se sublima de facto. Já disse atrás que este é um livro desconcertante, que alia ciência e conhecimento da psique à uma exposição do corpo - é o corpo que nos faz humanos, com as particularidades que Nuno Félix não hesita em referir, é no corpo e pelo corpo que na verdade sentimos, a dôr ou as alegrias, ainda que passageiras, da vida que é dada, e é por aí que o autor nos leva, quando fala de manual para ser humano. Alguns leitores terão dificuldade em segui-lo, outros gostarão do pensamento que desafia, nas suas contradições. Não vale a pena querer unificar o que não é uno, pois sabemos que não há unidade, há oposições, contraposições, associações livres e únicas, como muito bem expressaram os surrealistas, e das múltiplas imagens e símbolos que ocorrem, nos sonhos mais fundos ou nos meio-acordados (a rêverie). De todas estas manifestações que se dão na escrita, como na arte em geral - Nuno Félix não exclui a Fotografia como ARTE ÚLTIMA, numa das suas obras mais belas de fotografias encenadas - a discussão (não chega a ser discussão mas reflexão cuidada) entre o eu e o mim não fica fechada, continua em aberto, entre um que pensa o que é, e se o que é o define, o completa, ou inquieta. Inquieta, por isso, embora proclame que "conhece como ninguém o que desconhece" é imparável a sua necessidade de fazer ou refazer com outro olhar o que foi feito. Nunca se vê da mesma maneira o que já foi visto. Basta a deslocação subtil do tempo, do espaço, isto é da circunstância própria que os define. Marie-Louise von Franz, colaboradora privilegiada de Jung, ela mesma grande erudita, explica num das suas obras, Zahl und Zeit como se aproximam a Psicologia das profundidades e a Física (ed. Surkamp,1980) numa obra que ao tempo foi pioneira, mas que hoje em dia, como se vê pelas obras de Félix se tornou objecto normal de estudo e reflexão. Aproveito, porque a ela, colega e amiga devo a gentileza, para agradecer a Anabela Mendes a oferta deste livro, que ela me deu em 1984, estávamos ambas interessadas nestes domínios que os freudianos caseiros ainda abominavam. O cap. 1 afirma desde logo que é o número que ordena a psique e a matéria. Podemos regressar à narrativa bíblica, para entender melhor como a fundação primordial começou com uma criação ordenada em números, os seis primeiros e finalmente o 7º que deveria ser de um eterno descanso, que nunca chegou a ser... Psique e Matéria dificilmente se entredefinem, a não ser, como Nuno explica, se se traçar, com cuidado, com tempo (um outro conceito muito caro a Marie-Louise) um caminho que vá abrindo esferas num todo que permanece fechado, até que se lhe dê atenção e cuidado. Como a rosa de Rilke, tão múltipla e tão rara cujo centro é o centro do cosmos por onde vagueia ainda em ignorância o nosso pequeno planeta, como Dante nos círculos do Inferno. Contudo é este planeta uma das partes do corpo do universo, e a humanidade a sua materialização. Jung refere que sem o Homem, ser que Deus ele mesmo criou, não teria tido consciência de si mesmo e é assim que Jung lê os tormento de Job: a dôr injusta faz parte desta aposta na vida, nascida no Éden e envenenada à partida. Deus - Jeová - precisou de se materializar em corpo humano, para adquirir consciência de si mesmo. E assim aconteceu com Jesus, nascido de uma virgem inocente, e se transformou em Cristo, alter ego da Trindade da religião ocidental. Com a Ascenção de Maria o trio divino se tornará em todo mágico, com o Eterno Feminino conduzindo, como em Goethe, o Espírito Santo da futura Utopia num sonho que se viveu como real, durante séculos. Resumindo, sem corpo não há consciência, nem da divindade criadora nem da humanidade que foi por ela criada. Na obra de Marie-Louise von Franz, ainda no capítulo 1, iremos encontrar as suas reflexões sobre o que são as descobertas de Jung sobre as matérias da consciência e do inconsciente, em Freud ainda aceite como individual, em Jung já acumulando as investigações sobre o que o levariam ao tão discutido, na altura entre ambos, de inconsciente colectivo, acumulação universal de símbolos e mitos que ele estudara em muitas e variadas memórias de antigas civilizações.
Marie-Louise traz à nossa leitura uma comparação que faz todo o sentido para entender melhor esta obra de Nuno Félix de que nos ocupamos: o conceito de onda e de partícula que o estudo da física quântica, praticamente no início ainda do século XX apresentou aos cientistas, para melhor entender o comportamento da matéria. E como nos é útil agora, para seguir a nossa leitura de uma obra ao mesmo tempo conceptual e poética, atravessada por imagens e símbolos que nascem do inconsciente e não de uma racionalidade expectável, esta nova aproximação ao entendimento do humano, que em si mesmo contém o espiritual e o material, no somatório de um eu e de um mim que ora são onda ora são partícula, do todo do ser, definido por Jung e pela sua discípula pelo número 4, nos capítulos em que analisam a simbólica dos quatro primeiros números. 
Termino, um post não pode ser exaustivo, com a citação do nº12 de Arte Última, publicado em 1998:
" A mente é o altar
entre o abismo da ordem 
e o caos da exactidão".