Showing posts with label modern Portuguese poetry. Show all posts
Showing posts with label modern Portuguese poetry. Show all posts

Wednesday, October 15, 2008

Herberto Helder


Ao Herberto Helder, sempre

(depois de ler A FACA NÃO CORTA O FOGO, capa de Ilda David, ed.Assírio e Alvim, Lisboa, 2008; um conselho amigo: comprem, roubem, peçam emprestado e não devolvam nunca)

Ah, essa faca
não corta o fogo
mas corta
o coração da pedra
florescendo
em palavras-pétalas 
de ouro

 e corta a veia
no fio
do horizonte

deixa escorrer 
um delicado
 sangue

voz abafada

grito nascendo

dessa faca
no corpo
desse fogo


Friday, April 04, 2008

Ana Marques Gastão, Lápis Mínimo



Em edição cuidada, como todas aquelas de que Piedade Ferreira e Rogério Petinga se ocupam, saiu na colecção Oceanos mais um livro de Ana Marques Gastão, 
LÁPIS MÍNIMO.
Já a côr escolhida para a capa indica a suave melancolia que encontraremos nos seus versos, muito próximos de uma sensibilidade oriental, mística por vezes e igualmente  discreta, ainda que directa.
Há uma grande contenção e elegância de alma na escrita de Ana, que me faz lembrar a Princesa Shikishi , filha do Imperador Goshirakawa, que serviu como vestal do templo e deixou um legado de escritos melancólicos de grande luminosidade e beleza. Foi no seu tempo considerada  uma das glórias da criação poética, e ainda hoje quem a  lê não pode deixar de se encantar :é a alma que fala, na sua simplicidade e nudez. 
Deste século XII japonês passamos, com o mesmo encantamento fluido, para os aforismos de Ana Marques Gastão.
São feitos de prosa poética, e um Michaux, por exemplo, se fosse vivo nunca lhes negaria o título de poemas. 
Poemas escritos, como ela diz, com lápis mínimo: sentimentos-sugestões-imagens-reflexões em tom menor, usando agora uma linguagem musical.
Há música nos seus textos, no ritmo da sua escrita.
Não é formal, é balançada, mesmo quando alguma suspeição ou amargura a atravessa. 
O olhar sapiente (consciente) distancia-se, de si e dos outros, no acto de (se) escrever.Basta evocar Pessoa, Michaux, Celan (que muito admirava Michaux, considerava-se seu discípulo) para percebermos que não há ingenuidade no acto de criação, por muito que a busca da palavra no tempo nos absorva e não cesse. Os poetas perdem, muito cedo, o olhar da infância, a relação entregue e disponível com o mundo. E é no esforço da Ponte que vai surgindo a Obra. As palavras são o seu caminhar.
Quando Ana escreve:
"Roubo-te à linguagem, só assim serás real" (P.43) diz menos e diz mais (Celan) do que aquilo que diz e ficou dito. 
Nunca nada fica dito, as palavras levantam vôo, seguem o seu caminho oculto, irão perder-se ou encontrar-se mais longe, noutro espaço, do "Interior Longínquo" de que falava Michaux.
Com Lápis Mínimo desenha-se um espaço-tempo ideal, de apelo e rejeição, de meditação-aceitação do que em si mesmo, pela vida e pela Obra, o autor vai descobrindo: " Que na memória fiquem não só os lugares, mas também as horas"(p.42).
Escrever é descobrir, mais do que inventar: o segredo está lá, no interior dos mandalas. 
Ana pode dizer "Sou uma caçadora de emoções"(p.84). Mas sabe que é transformadora, é esse o seu segredo. Esse o fio que nos leva, de página em página, à procura de mais: sabemos  de onde partiu ? Pois queremos saber onde irá chegar: rasgada a pele, onde o Outono, o osso do Inverno, a Primavera do coração que bate.
Bem pode dizer, como nos diz no fim:
"A palavra é o meu nome. A palavra quer ser outra de mim, está além".