Tuesday, April 30, 2024

Paula Rego, a Luz e a Sombra, por Cristina Carvalho, ed. Relógio d'Água, 2023

 Já referi muitas vezes a vocação, herdada do pai, o Prof. Rómulo de Carvalho - sem esquecer a grandeza do seu grande pseudónimo António Gedeão - que encontro nas obras de Cristina Carvalho quando ela escreve as suas biografias romanceadas sobre os autores que prefere e o público recebe com agrado porque nelas vai muita informação genuína e útil, para lá do prazer da leitura de bom, para não dizer excepcional, domínio da língua portuguesa.

 Divulgar, para lá da informação que se transmite, é também, ou acima de tudo, despertar no leitor um desejo de ampliar os seus conhecimentos sobre a obra, o autor ou autora em questão. Este volume sobre Paula Rego é, deste ponto de vista, extremamente interessante. Por ser quem é, uma das melhores e raras criadoras do século XX, que a Inglaterra adoptou como sua, na antiga Tate Gallery, que antes era visitada acima de tudo por causa dos óleos de Turner. Este sim, um pintor com o domínio pleno do jogo que se esfuma entre luz e sombra nos seus quadros.

Paula surge com uma narrativa em que predomina não o jogo mas a encenação de uma vida exposta ao que lhe é próprio, de bom e de mau, de luminoso ou perversamente assustador, em cada quadro. A realidade é dura, e atravessa a luz e a sombra que sobre ela incidem, como a espada do Anjo a que já fiz referência noutro post deste blog.

Há uma dose grande de sedução e mistério, no título que Cristina Carvalho escolhe para uma criadora tão vista, tão admirada, tão estudada ao longo dos anos, desde aquele momento especial em que se revela na Galeria 111, nos anos sessenta. Eram figuras inspiradas nos contos tradicionais, a que me ficou na memória é a de um Príncipe, dentro de uma espécie de caixa transparente que deixava ver a sua fragilidade enquanto o protegia dos males do mundo. Uma figura algo tosca, e era nessa imperfeição, pouco adequada a um Príncipe, que residia o interesse e a originalidade daquela criação. Em Paula Rego veremos sempre, no palco das suas encenações, o algo de imperfeito, para não dizer incompleto, com que nos deixa, não desejando mostrar mais.   

 Cada quadro sua história. E nem uma pincelada a mais. Ela esconde, não revela, expõe, dirão, mas não impõe.  E Cristina pressentiu isso mesmo, daí o título de luz e sombra,  pois há sombra naquelas obras, mesmo que em plena luz.

Agustina Bessa-Luís, no volume que publicou nas ed. Guerra&Paz, AS MENINAS, salienta a importância do desenho na sua obra. 

Cito: " O desenho de Paula é uma escrita. Paciente, determinada, barroca e condescendente ao mesmo tempo.É uma escrita que se aprende na solidão, que pede a aprovação desse mago interior que se chama a arte. Onde nasce a arte? Que caminhos percorreu até chegar a essa hábil construção sobre os abismos do nada, colhendo de passagem as formas, as variações, as presenças? Já estava pronta e acabada nas grutas de Lascaux e nas abóbadas de Altamira. Não era uma tribu quem pintou aqueles bisontes e gazelas. Era alguém dotado, que se escondia no negror da caverna para pintar (...) A realidade era a sua obra e não aquilo que acontecia à luz da manhã (p.16-17).

Impossível explicar melhor o que é o desenho e a sua função na obra de Paula Rego, podendo dizer-se o mesmo da sua arte na pintura, em que a tela é o palco de uma vida, a sua. 

Agustina ainda acrescenta, e melhor não se poderia dizer sobre o que é a arte, mesmo para lá do desenho: " o desenho é uma uma pronúncia, como a da fala. Onde nascemos, que influência tiveram em nós as primeiras vozes que ouvimos, as corruptelas, o som e a intenção que ele transmite, se de agressão ou carinho, tudo aparece no desenho da escrita".

Por outras palavras, o artista transporta consigo as experiências acumuladas ainda dentro do ventre da mãe e que se continuam no seguimento da sua vida, seja ela mais feliz ou mais atribulada, e que virá a surgir, ou ressurgir, do seu mais arcaico e profundo ser, o do tempo da alma manifestado em momentos de magia na sua  criação. 

Quando Cristina Carvalho escolhe salientar no título do seu estudo a sombra, retoma o que nos diz Agustina e que eu própria sempre senti, perante o abalo que a contemplação de cada quadro me causava: " as trevas estão sempre presentes na obra de Paula Rego"(p.24). 

Agustina descreve com o seu olhar frio e enxuto, no quadro das Meninas com o Cão, como em cada momento aquele carinho que o envolve é para melhor no fim se abrir sobre o melhor meio de o matar. Não é só a treva que está sempre presente nas obras de Paula, é a morte anunciada, ainda que perversamente adiada, a morte e não a vida embora em cada quadro, e não apenas nestes das Meninas, se exponha uma rotina que podia ser feliz, na casa, com as criadas pelo meio, e uma animação feita da desorganização dos dias, como em qualquer vida, em qualquer casa. Mas Paula escolheu sair dessas rotinas, na sua vida real, e transpô-las - porque a memória é poderosa, no nosso imaginário - para as encenações de cada quadro. 

Podemos tentar encontrar, na sua biografia, a razão desse negrume escondido: o casamento de amor a que foi sempre fiel, com um marido cuja doença degenerativa depois acompanhou e foi representando, com sinais que mesmo discretos nos recordavam de como é frágil ( e cruel) a nossa existência de humanos. 

Agustina, em cujos comentários, confesso, me revejo, acrescenta ao que já dissera, que a obra de Paula é autobiográfica, mas sobretudo assustadora. Eu não poderia ter em minha casa um quadro dela, que todos os dias me feriria com a sua crueldade, embora contemplar cada um, seja no museu ou mais facilmente num livro ou num catálogo me prenda a atenção até ao mais pequeno pormenor. Porque em tudo o que ali está contido é sinal com sentido (retomo um verso de Hoelderlin...). O sinal é de grande força e beleza, que seduz, mas o sentido é aterrador. Paula sofre, certamente, com o peso do seu quotidiano. Mas liberta-se impondo uma narrrativa do que é a vida na sua nudez e que nos obriga a descobrir: é sujeição a algo de maior, é dôr oculta que nasce de uma profundeza contemporânea do momento da Criação, quando o Verbo se manifesta e se materializa. Viver é sofrimento. Só pela Arte se abre uma via salvífica, quando surge o mago de que fala Agustina, e Clarice Lispector chamaria de Hora da Estrela. Ou, para continuar com momentos de excepção, uma Terceira Margem como a do rio de Guimarães Rosa num dos seus contos.

Paula Rego vive, na sua arte, nessa terceira margem onde só ela manda, é livre, voga na água de um rio profundo, mais fundo do que o Aqueronte, chamado rio da dôr.

Há várias semelhanças na abordagem que Agustina e Cristina Carvalho fazem de uma criadora cuja obra, ainda que conhecida e reconhecida, estudada já por muitos, amantes ou eruditos, cada qual escolhendo o perfil que mais os atraiu, o que na verdade não me admirou, pois ambas têm na sua aproximação uma vertente sociológica, antropológica mesmo daquele tão extraordinário imaginário, muitas vezes indecifrável por muito que se contemple e se tente encontrar a chave para os seus múltiplos fios misteriosos. Porque é tecida de mistério, a obra de Paula Rego, e temos de demorar para poder entende-lo. Essa é uma das grandes qualidades do estudo de Cristina Carvalho. Apresenta-o com a simplicidade e a modéstia de quem tem a noção de que vai abordar  algo de maior. O título também se explica, entre e luz e a sombra. Já Agustina afirmara :

"O que se pode dizer de um pintor, de um escritor, é infinito.É como um risco de luz feito no espaço e que vai iluminando espaços que não pertencem às trevas. Têm uma luz própria mesmo antes de serem iluminados" (p.93).

Cristina Carvalho é dessa luz própria que se vai ocupar, escolhendo como abordagem o princípio de tudo: o nascimento, o crescimento, a infância, a juventude num país que o pai não considera digno dela, a ida para Londres, a maturidade e o resto de uma vida repleta de descobertas na pesquisa dos vários caminhos da Arte. A Arte será o ponto central do círculo da sua vida, com o que terá de memória recuperada, e de um presente mais feliz ou mais amargo conforme os seus quadros nos revelam. É uma contadora de histórias, as da sua vida com a luz e a sombra de que fala Cristina. 

Cristina afirma, a propósito da Arte de Paula Rego, tomando a sua voz, que " está lá tudo" (p.11). Representa nas sua telas a vida tal qual é, grotesca e brutal, tantas vezes e que só o regresso à infância na Ericeira a devolve a si mesma, embora também nessa infância houvesse medos, a criada má, a professora que bate, a mãe que não a entende, e - aí sim memória grata e feliz - o pai que a salva. É ele que a leva para Londres, onde na famosa Slade School terá uma vida livre, nova, sem peias, onde aprenderá tudo da Arte e da vida. 

Se formos antes de o ler, ao Índice do livro, percebemos como foi acertada a escolha de Cristina. Não seria interessante o que os eruditos já tinham dito e escrito sobre a obra de uma pintora genial, mas seria quem sabe mais útil descobrir ou tentar revelar (por íntima empatia, sem explicação) sentimentos, revoltas, momentos de uma infância que não sai da cabeça nem dos quadros que Paula pinta e constituem quase metade da abordagem da obra de Cristina Carvalho. Esta tem o cuidado de explicar (de se explicar) na escolha feita, de episódios da vida, e não da obra,  A Ericeira, terra de pescadores, onde cresceu numa casa de gente bem, mas de onde só lhe apetecia fugir. A mãe metia-lhe medo. O pai desejava libertá-la, como veio a acontecer. Desenhava-se desde cedo um horizonte, longínquo, mas ao qual o pai ajudou a chegar.

Disse que Cristina Carvalho escolheu falar (ficcionar) uma vida, longa, frutuosa na abundância do que produzia e demorou a ser descoberta, e sobretudo amada pelo que de si mesma oferecia. Na obra, a vida exposta. Cristina, na fusão com essa realidade de que se sabiam fragmentos e sobre os quais se sentiu à vontade para trabalhar reconstituindo, a seu modo, tomando conta da voz (técnica que lhe é habitual) de Paula, a protagonista oculta, devolve-nos a mulher, mais do que a pintora, a criança que foi, a mãe prematura e a amante de sempre. Discorda aqui de Agustina, para quem em Paula é o sexo, o ímpeto da relação que se consome rapidamente e não o amor que ela devotará para sempre ao marido, pai dos filhos,  até à sua morte que o destino antecipou.

A grande fonte é o filme que Paula, já de alguma idade se dispôs a deixar fazer pelo filho, e onde sem reservas conta tudo, responde a tudo, nada esconde da sua vida difícil, do que pinta nos seus quadros, da permanente ameaça que em todos se pressente, do medo a que  Cristina, sendo também ela criadora, tão claramente explica e entende. Partimos sempre com medo no início da primeira frase, da primeira pincelada, do primeiro esboço no desenho. A qualidade que se descobre no estudo de Cristina Carvalho é que ela mostra como esse medo, nas mãos duras e no olhar inflexível de Paula, entra na narrativa das encenações que prepara e nos deixa sem mais para serem contempladas.

Como frisa Cristina, nem todos gostarão, outros ficarão como que hipnotizados por uma vida que foi pintada como uma história de vida que se conta por imagens nem todas fáceis, inseridas num contexto em que algo se adivinha de perverso, embora disfarçado em roupagem tranquila. Será real, pergunta o leitor, o amor declarado à Virgem Maria, a devoção que ajuda em momentos difíceis? 

Aqueles quartos não são a amável sala da corte de um Velazquez, com as Meninas, os pais, as amas, um cão deitado numa rotina normal e tranquila que o quadro revelará enquanto o artista pinta.

Os quartos de Paula Rego são espaços em que uma ameaça está presente, mas não se sabe qual, o que é pior. Esta é a Sombra de que nos fala Cristina, que não deixa esquecer que é de uma vida real que nos está a falar, compondo nos intervalos a matéria que lhe falta. Fala da mulher, da sua vida feita como as outras de rotinas diárias, tantas vezes penosas, porque o desejo na artista é de fugir de tudo e de todos, e pintar, dar expressão, livremente, à sua Arte. Quando se fecha sobre si mesma é a verdade da sombra que se materializa, e quando acabao que tinha começado, aí sim, podemos falar de luz: a luz da Vida, que sobreposta à Arte lhe permite continuar na sua luta. A Criação é uma luta permanente: contra o mundo e contra si. Cristina salienta bem esse facto. A Arte é o que a faz viver Paula, mesmo nas maiores dificuldades, com o seu marido, Victor Willing, que é também o grande artista que ela amou e admirou desde sempre, quando o conheceu na Slade.

Não cabe tudo num post que pretende apenas chamar a atenção, que é no fundo o que Cristina Carvalho também faz no seu livro. Evocar uma mulher que foi genial, dentro e fora do seu tempo de criatividade, agora reconhecida na sua Arte, tanto como temida outrora. Desafiava normas, comportamentos, estilos, em cada narrativa encenada com o seus amigos modelos. Já o facto de gostar de pintar com modelos era estranho. Porque o modelo é  realidade viva inserida num imaginário solto, com uma lição que nem sempre se entende. E não temos a velha professora da memória a ralhar connosco, os imprudentes que se deixam fascinar por uma obra que rompe com o chamado Sistema, o que não permite desvarios de espécie nenhuma, nem na arte nem na vida.

Termino pois com uma citação de Cristina Carvalho, adequada ao final do seu livro, todo ele fora do sistema:

"Este curto livro não pretende revelar a intimidade da artista, nem isso seria possível. Também não pretende analisar a estrutura, o ideal ou a imaginação que esteve presente em toda a sua obra, tudo o que se conhece e tudo o que se não conhece. É, precisamente, o deixar à vontade a imaginação de quem observa, tendo por base algumas circunstâncias vivenciais, relacionais, em suma existênciais. Imaginemos esta vida a partir destas linhas, poucas. Não queiramos conhecer tudo. Esse conhecimento aprofundado - que se poderá julgar aprofundado - poderia conduzir-nos a uma realidade totalmente falsa. E tudo o que aqui é dito, todo este pouco que se revela, deixa-me, deixa-nos, imaginar o certo. Não é difícil. Claramente, esse certo está ao nosso alcance. Sendo assim, depois de muito ter pensado, decidi avançar, prosseguir com a escrita deste livro mantendo sempre a melhor relação possível - a da verdade - com todos os protagonistas, e comigo própria". (p.153)

Está dito, mas, como acontece com todos os Grandes criadores, fica muito por dizer. O que é o melhor incentivo para que se continue a procurar a luz e a sombra na vida e na obra de Paula Rego. Perguntarão, talvez, porquê Agustina e Cristina? Porque sendo grandes escritoras ambas escolheram Paula Rego para conversar connosco sobre ela.

Agustina uma escrita a seu modo, de pormenor, severa, descritiva. Cristina uma escrita de sentimento e paixão. Que nos leva de novo à infância que em todos nós se encontra, de algum modo perdida... 





 



  

   



 




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