Saturday, June 20, 2020

Dois livros no mesmo dia

Chegaram no mesmo dia, pelo nosso carteiro de sempre, antigo e já de há anos amigo. Deve saber mais do que leio do que eu própria.
São dois livros pequenos mas tão grandes, que nos deixam tanto espaço na cabeça, para ler e pensar...
Comecei pelo do Paulo da Costa Domingos: ILÍCITO. Contra o escuro da capa um mandala rasgado. E rasgada é a exclamação ora de desafio, ora de espanto, ora de afirmação contundente no discutir com um Mestre - quem será ele? um Deus que se escondeu? um Deus distraído do mundo e sempre ausente? - Abro ao acaso e leio:
Mau grado o Diabo
ainda não ter tocado
a carne da sabedoria
no pomar sedento,

os ares do negrume, 
a ignorância, em absoluto
cobrem a face da Terra, 

que no escuro encost'a 
a boca ao espelho, ao cardo:
no escuro a víbora toca.
(p.12)
Aqui se poderia evocar o mal, já presente no Éden criado para uma aprazível eternidade, que nunca chegou a existir. Uma víbora, com o seu veneno, chamemos incitamento ao proibido, já ali estava para desafiar o par primordial.
E aquele Deus que pairava, escondido por ali, surge e castiga. Volta o Ser criado às águas perigosas:
É um ribeiro, puro disfarce, uma harpa a música que a víbora tocava, e eis que o poeta confessa então o que o aflige:
Um mar gigante com arca,
uma metrópole flutuante,
quarentena de aventura.

Eu sozinho, mestre, perplexo
ante a ciência que me deste
do compassso, pétala e agulha.
(p.13)

A dimensão bíblica de um Génesis que criou e logo castigou, um mestre de letra pequena - porque na verdade desvia, não conduz, e esse desvio é um rasgão na plenitude da alma, no Todo que dividiu, esse é o pecado da Ilicítude anunciada no título de um livro que a partir de um conceito que a razão consegue definir, se torna tão largo, tão grande e tão indefinível. Não bastará buscar no dicionário. Só no livro da Vida, onde o que é lícito e o que é ilícito se contrapõem, mas não se completam, pois, diz o poeta: "nunca mais à infância regressaremos" (p.14)
Quase que evocando um Hoelderlin que se tornou cada vez mais perdido na Memória que tinha celebrado, Paulo afunda o seu pensamento, ilícito, pois é de poesia que se trata e esta é uma área que não convoca o lícito,  o regulado e autorizado, mas sempre o marginal - eis então o que continua a dar-nos para que o seu (nosso) fio não se perca (atrás já tinha dado uma agulha...):
Troquemos de lendas, mitos, ideais,.
Troquemos de tormento, de pulsação
felina, de borzeguim e gravata. Perdemos

a memória e sinapses na separação
do conhecimento em luz que
decompusemos, mestre, entre teu jardim e os demais.

Nunca mais à infância regressaremos.

Troquemos de pontas de fogo,
 troquemos de contas de vidro, 
troquemos de contas de vidro...
(p.15)

E já mais adiante, na leitura, a afirmação da sua vontade ilícita, da negação necessária: quem não renega o mestre não encontra o seu caminho:
Consegues imaginar
a muita incerteza
do teu servo? 
erguendo a cabeça
para te negar.

Na aridez da multidão
houve uma arquitectura,
ora casa que se mura 
ora verbo da libertação,
com um fundo poço 
para o coração da culpa.
(p.16)

Cabe ao leitor, agora acabar a leitura. Fiquemos com a pergunta:
"consegues imaginar /a muita clareza / do teu aluno?"
O que aconteceu entretanto é que a infância, recuperada por meio da negação de um todo já dividido, - crescer não é dividir? não andam por aqui pecado e salvação? -
"a infância lança, então, suas contas de vidro / na boa cova, por um nome novo".
E conclui:
E aqui eu pude, por fim, descalçar-me:
nem idolatria nem religião.
Na fresca escuridão, uno.
(p.20)
Leu Hesse, de certeza, pois o Paulo foi sempre grande leitor, em meio ao  grande amor à poesia. As contas de vidro podem ser berlindes, mas podem ser as do rosário do Jogo das Pérolas (outros traduzem contas) de Vidro, que Hesse publicou, também na ilicitude do seu pensamento heterodoxo, guiado por um Músico, mestre de doutrina e mística taoísta.

II
Last, but not least,
Pequena Lua Cheia de Sol , como já disse noutro lugar, uma Renga ao gosto japonês, escrita a 4 mãos por dois poetas da EUFEME, Francisco Duarte Mangas e Paulo Moreira Lopes. Qual deles comeu uma ou outra, não é para distinguir é para saborear gomo a gomo deixando nas mãos aquele perfume especial, ao mesmo tempo tão fresco e doce.
Perfume que permanece, não lavemos as mãos...Os autores explicam, numa nota prévia: "talvez por ser inverno, a nossa palavra preferida é tangerina. Harmoniosa (traz o tanger dentro de si), juvenil, pequeno sol feito fruto a espreitar a manhã. Também gostamos muito de tangerineira, mãe abundante de tantas meninas de sereníssima doçura"...
Abrem o livro com um poema da infância:
Quando as mãos
cheiravam a tangerina
o inverno começava
 a despir o capote
Os haikai obedecem a normas, que podemos, é certo, não respeitar. Mas aqui foi respeitada a indicação da estação das tangerinas: o inverno.
Passar, como estou a fazer, de um livro conceptual, de conceitos que terei de entender, como o de Paulo Domingos, para um livro de imagens e sensações, o perfume, a côr, o sabor, é extremamente repousante. 
Este acaso que me trouxe os dois livros foi um acaso feliz: preciso de pensar, para existir (e a culpa não será do Descartes), mas preciso de sentir, sem por isso me sentir presa a nenhum sensacionismo teorizado pelos Modernistas. É mais simples, é mesmo quase banal e corriqueiro, o do prazer de descascar uma tangerina, ao ar livre, colhida da sua árvore, a meio da manhã ou da tarde, num das muitas fugas que fazem as crianças, fartas de estar em casa.
Uma tangerina
vale por mil metáforas
Sim, em certa medida. Mas nada me impediria, com Magritte, de escrever "isto não é uma tangerina". Porque na verdade o que ali está, no Haiku, é uma representação da realidade, uma imagem, e não um fruto real que eu possa saborear. Posso imaginar, não mais.
o gomo da tangerina
 desenha um sorriso
 na mão do poeta
Fruto e imagem (representação) dele, o desenho e o som das sílabas que o dizem, no seu todo, transformam a tangerina em momento único de felicidade. Esse é o poder da imagem, na ausência do fruto real que a provocou. 
Há uma toada real, de vez em quando, de canto tradicional popular, nos versos que vamos lendo. Mas a mim interessou-me mais, e mais uma vez, a questão da imagem, neste caso redonda e solar, e trazendo à memória inúmeros prazeres que na vida se perdem, ou de novo se recuperam, com a faculdade de evocar. Revejo na tangerina o redondo da infância, um todo que não se perdeu ainda do todo do seu ser, a árvore maternal que a folhagem protege enquanto o fruto e a criança crescem. A seu tempo irão amadurecer.
tomo a liberdade de retomar aqui uma reflexão de outrora, sobre imagem e representação. Podemos ler ou não ler, ficando apenas pela apetecível tangerina que não nos dão a comer...
Michel Foucault discute no seu estudo de 1973, Ceci N’est Pas Une Pipe, o aparente paradoxo com que o quadro nos confronta.
Falando de imagem/representação podemos discutir se a representação o é de um objecto real (como neste quadro) ou de um objecto imaginário: com este conceito de representação do imaginário, trazendo-o até nós, tornando-o por sua vez real deste modo, alcançamos, ou propomos, um novo patamar de discussão.
Neste patamar teriam lugar de destaque os Surrealistas e as suas criações, vivendo do imprevisível, do surpreendente, do que poderíamos chamar a lógica do inconsciente.
E neste caso já o real em si mesmo pouco nos preocuparia, dado que um outro real – o imaginário – se tinha tornado visível e apetecível.
Este é um patamar onde para além da questão da imagem se coloca uma outra: a do dizer, e em que linguagem: pictórica, literária, musical, etc. (deixando de fora um imaginário não menos interessante, o científico, com as novas capacidades de elaboração tecnológica hoje tornadas possíveis).
O prefixo in, remete desde logo “para dentro”, ou seja para uma íntima visão (representação) emanada / construída a partir das esferas da nossa psique (consciente, sub- e in- consciente). Sendo assim, a Imagem, neste contexto, mais restrito ou mais amplo, terá sempre uma forte marca de subjectividade.

A imagem, tomada no sentido da Psicologia das Profundidades (Jung) é uma forma que se constrói nos sonhos, nas imaginações e  fantasias a partir de um núcleo de relacionamento entre o Sujeito consciente e a esfera profunda do Inconsciente. A alma (die Seele, Jung) projecta nas imagens a psicodinâmica do inconsciente na consciência. A alma cria imagens e símbolos e é ela mesma Imagem (itálico meu).
Imagens e símbolos, diz  ainda Jung, são de origem mais primitiva e mais variada do que a linguagem, e por isso um importante fundamento da comunicação humana.
Podemos avançar um pouco mais pelos conceitos : imagem, representação, projecção de conteúdos do inconsciente. Nos casos de que nos fala Jung, os sonhos, as fantasias, o conceito de Alma- sendo que a Alma é Imagem, é representação de uma Essência que de outro modo não seria inteligível – fomos sendo guiados para a tal visão íntima, subjectiva, da representação.
Mas fomos avançando um pouco mais.
Da Imagem /Representação à Imagem/Comunicação:
- em primeiro lugar do eu consigo mesmo (imagem /representação, do inconsciente à consciência)
- e em segundo lugar do eu com o outro, com o mundo (por via da representação / comunicação)
 E fica uma pergunta: não poderá haver um centro próprio, específico, demarcado no cérebro de forma mais objectiva que seja o criador da imagem, e da representação?
Ao “mapear” um cérebro o que descobre, ou o que poderá vir a descobrir um dia, o neurobiólogo do século XXI? Guardo a ideia de que a imagem é talvez a sinapse de dois neurónios felizes que se entendem, como na definição de Eternidade que Rimbaud nos oferece no seu poema  L’ÉTERNITÉ, de 1872:
“Elle est retrouvée. / Quoi? – L’Éternité. / C’est la mer allée avec le soleil”
Ou, neste caso, a lua fugida com o sol.












Monday, June 01, 2020

TELEPATIA, de João Paulo Esteves da Silva


E se tudo fosse, mesmo, água,
como queria Tales, e como
tantas línguas parecem querer dizer
em seus pronomes aquáticos, os quais
evocam, quase sempre, a relação
com aquele modo de ser primordial?
Se fosse assim, o meu e o teu rio
que levam cursos tão diferentes,
por serras e países afastados, seriam
no fundo, e sem se ver, um mesmo rio.
E os versos que aqui ponho a flutuar
poderiam chegar à tua margem,
claro que já apagados pelas águas, mas
com uma música corrente que ainda ouvisses.

Chegou pelo facebook este poema, oferta generosa do autor aos seus seguidores, que são muitos. 
Prendeu-me a relação com o "modo de ser primordial", se tudo fosse mesmo água. Aqui se revela uma das imagens essenciais para a compreensão do poema. A água, no seu modo de ser primordial, é de súbito a água inicial da criação do mundo,  onde todo o ser é indistinto e Deus devagar, ao longo de vários dias, irá diferenciar. Com a separação que introduz se modifica o mundo e o seu desejo de ser e de criar.
Não há poesia inocente, não há imagem, ideia, movimento, que no caso deste poeta não transporte algo mais, de muito longínquo no pensamento, na cultura de que é herdeiro e nos aponta a herança. Aqui teremos de deixar Tales de Mileto, o pré-socrático e tentar beber no Génesis a lição mais escondida da criação do mundo e do primeiro homem:
“Ao princípio, Deus criou o céu e a terra. A terra era vaga e vazia, as trevas cobriam o abismo, o espírito de Deus planava sobre as águas”.
Estas as primeiras referências: já existiam “as águas”, o Todo que cobria céu e terra criados por Deus, que tal como as águas era também ele antigo e primordial. O seu Espírito, no momento da criação, planava sobre esse Todo. Talvez daqui tenha retirado o filósofo a sua ideia de que tudo era água, ideia que João Paulo desenvolve no correr do poema. Mas na verdade há outra, subjacente, e é sobre essa que temos de meditar, e que surge no dia dois da criação, depois de já separadas luz e trevas, no primeiro:
“ Deus disse: que haja um firmamento no meio das águas e que separe as águas das águas e assim se fez. Deus fez o firmamento que separou as águas que estão sob o firmamento das águas que estão sobre o firmamento, e Deus chamou céu ao firmamento”.
Foi o segundo dia.
As águas estão ainda presentes no início do dia 3, em que a diferenciação continua, com a descrição no fim da verdura que cobrirá a terra. Mas falemos das águas:
“Deus disse: Que as águas que estão sob o céu se reúnam numa só massa e que apareça o continente; e assim foi. Deus chamou ‘terra’ ao continente e à massa das águas ‘mares’, e Deus viu que isso era bom.
 A criação foi um acto ordenador de um universo caótico na sua origem, e que culminará com a criação do homem, Adão, feito à imagem e semelhança de Deus, ao sexto dia. No sétimo dia Deus repousará.
 Mas não há repouso no mundo.
Será por via do par Adão/Eva que a história do mundo seguirá afinal outro curso.

 Deus verifica que uma centelha de si mesmo permanece em Adão, feito à sua imagem, ele que entretanto também já se   dividira de si mesmo e se chama agora Jeová, continuando o seu diálogo, a sua interferência num mundo que até hoje tem parecido escapar-lhe. Jeová assume a forma de uma divindade poderosa, arcaica, a quem é necessário prestar tributo, sacrificar vidas para o honrar.
A interrogação de João Paulo, no poema, é feita de uma líquida nostalgia de um outrora em que o absoluto do universo era reconhecido e ao qual o homem (o poeta) e o seu Verbo se podiam entregar, vogando, confiantes.
A música das esferas, que o todo da água primordial envolvia, sempre haveria de chegar ao seu destino.
O destino era o “outro”, o outro de si mesmo e do deus implacável a quem a interrogação, como se cada poeta fosse um Job expectante, se dirigia: “e se tudo fosse, mesmo, água”...
Não haveria sofrimento, não haveria divisão (a ruptura que os causava) e então sim, o verso poderia recuperar a inocência que a consciência de si, e a satisfação com a sua Obra, no velho Jeová, tinha transtornado para sempre.
O Verso único, o do Som puro, perdido.





Thursday, May 21, 2020

Paulo da Costa Domingos, Paisagem durante a Batalha.

Volto à poesia de Paulo da Costa Domingos, e a esta paisagem, que é de trovoada, pairam nuvens escuras no ar. Mas lemos, e logo a seguir à epígrafe, de Gil Vicente na Exhortação da Guerra, irrompe a interpelação da palavra. E lendo ficaremos a saber que o importante são esses jardins luminosos onde a palavra, o Verbo primordial, ou acende o seu fogo, ou se desfaz na cinza desta batalha que parece invencível: a da espécie humana frente à natureza impiedosa: a segunda epígrafe, de Tennyson, em Despair:
O we orphans of nothing- alone on that lonely shore- 
Born of the brainless Nature...
E assim, entre duas reflexões que amparam o pensamento e a reacção possível a uma paisagem presente, difícil de viver, e mais ainda de entender ( terá sido o infame pecado original? ) começa o poema: 

Aí vêem os assuntos, a jardinagem. Quando foi que tudo isto
aconteceu?...as palavras - cada qual
para seu lado; a separação
(p.7)

A referência à Jardinagem, num jardim de árvores de seda, com maçãs de especial sabor, ( o "estrume do êxtase") e adiante, noutro poema, ao jardim das delícias (p.9) - culminando na "fresca ribeiro do sexo" indicam que a imperfeição, que é, no jardim, a curiosidade e a avidez de um conhecimento proibido, esse estrume que sustenta, ao fim e ao cabo a existência da árvore de seda e suas maçãs proibidas, atira-nos para uma meditação que é bíblica e mítica sobre  a existência do homem
  
A verdade do homem
 que entra duas vezes no mesmo rio
  e desce 
ao fundo de si, cai (p.10)

Esta é uma série atravessada pela cultura mais antiga, e sendo actual leva, tem de ser, à desconstrução dos mitos mais sagrados, judaicos e egípcios das grande divindades que são as devedoras das nossas memórias guardadas, sangrentas ou felizes, sendo que neste momento de batalha sofrida a felicidade é impossível. Lembra Tennyson...a natureza descerebrada. Outrora jardim, agora campo de batalha.

mas o terror habita fora do Nada,
mas o terror fez da Terra sua casa.
(p.25)

Cada verso que o poeta nos lança tem um fim: parar para pensar. Pensar para deleite, de palavra e pensamento. Gosto de relembrar Heidegger, sobre quem escrevi no blog, O Que é Pensar? Está no seu fim da vida, dá o seu último seminário, e faz a história desde os pre-socráticos até ao seu poeta preferido, Hoelderlin, no seu Hino à Memória, Mnemosyne, em que afirma
que somos um sinal, sem sentido, 
...e quase perdemos a língua na distância.  
Eis os versos escolhidos para este início do filosofar sobre o pensamento:
Ein Zeichen sind wir, deutungslos,
Schmerzlos sind wir und haben fast
Die Sprache in der Fremde verloren.
(Somos um sinal, sem sentido,
Somos indolores e quase
Perdemos a língua na distância).
Esta primeira estrofe termina com uma conclusão, que embora logo questionada na estrofe seguinte, merece que a ponderemos:
...Lang ist
 die Zeit, es ereignet sich aber
Das Wahre.
(É longo
O tempo, mas alcança-se
A verdade).

O Sentido e a Verdade, eis o que procura Paulo Domingos: o sentido da existência, a verdade do horror que a acompanha.
O seu livro está dividido em três versões, como ele lhes chama. Podiam ser três partes, três capítulos de um mesmo meditar sobre o Sentido que perdemos, no dizer do poeta alemão que Heidegger escolhe para epígrafe...ele assistiu ao horror, ao sangue derramado, numa Terra que tinha perdido a capacidade de distinguir o justo do injusto, a mentira da verdade, o verdadeiro sentido da Língua Primordial. 
Na segunda versão, também Paulo nos diz: 

A Terra se tornou estranha 
e espessa.
(p.49)

Num mais longo poema, aborda então a batalha que temos de travar, mas sem saber como, contra um inimigo inesperado que destrói a consciência do Ser, porque nos mata, e do Tempo, o que devora, como Cronos, os seus filhos. Que fizemos, naqueles jardins de seda? Ou tudo foi um logro? E as delícias de um amoroso sexo a raiz deste mal? Não era iniciação, como Enkidu julgava, era já condenação à pior das infâmias, pela mão de uma deusa da Terra, destronada. A deusa explode de raiva, a espécie morrerá com ela.
É à metáfora da morcego que Paulo vai recorrer para sublinhar a morte que transporta, a meio do seu percurso que poderia ser, na tradição alquímica, o da perfeição sublimada. Gaston Bachelard sublinha a dimensão andrógina desta ave da noite, que vive de cabeça virada para baixo, e evitando a luz. Um ser que não chega ao fim do seu caminho, tem asas, poderia voar, mas pára na evolução ascendente e assim se irá degradar.
Vejamos o poema:

Morcêgos mor cègos
é o que somos, focinho
dependurado no bolor:
humidad' inversa da gruta
na humilhante impotência
perante a morte.

Que alimentos nos satisfarão
neste estado de culpa
e prodigiosa ignorância?

Não soubemos conter
a maldição do corpo,
o absurdo tributo
pago a Cronos.

Que triste não haver
retorno. Nem
Universo inverso.
(p.51)

Podemos, na chamada última versão, ir descobrindo o núcleo duro, o centro incandescente desta descida ao sentido do nomear, na série com que o poeta fechará o seu livro, e aqui começa:

Agora podemos nomear e saber
a diferença de pulsão e potência,
o descuido e o erro da Terra
no saborear a boa semente.
(p.87) 

Assim festeja Paulo o novo século, em 2020, entre o sabor do erro e a pulsão da luz que nos persegue.