Thursday, November 28, 2019

Castanheira - Pessoa, um vôo pelo espaço
Fui ver a exposição sobre o Fausto de Pessoa, do José Manuel Castanheira, à Galeria da Graça.
Iniciativa de Junta da Freguesia, que só posso louvar.
 A galeria é na rua da Graça, luminosa, e os quadros são belos, intensos e perturbadores, deixando-nos entregues ao sentido da vida, da eterna disputa das forças do Bem e Mal, um Diabo-Mefisto que tem na mão o nosso globo azul – agora cada vez menos – e o envolve num abraço carregado de maldade, de posse, de certeza ( ou haverá ainda dúvida) de que Pessoa, relidos Marlowe e Goethe, perderá, junto com eles a grande aposta sobre a salvação da espécie humana?
Não sabemos, e nunca saberemos, porque não foi Pessoa que publicou a obra, mas Castanheira que deixou, na sua pintura, o que havia de possível, na visão cósmica da eterna batalha: “aquele que sempre luta será salvo.”
Ou as forças do universo, negras e poderosas, já arrebataram para longe, para esferas a nós inacessíveis, naquelas asas espessas, poderosas, a essência que Goethe e os seus Anjos chamaram de “crisálida”, e cujos laços foram chamados a desfazer, permitindo que ascendesse ao sublime e Eterno Feminino.
Mas Pessoa não é Goethe, poeta solar, choca em parte com o Pessoa lunar, o que vê e não vê, crê e não crê e no último quadro de José Manuel, que desceu tão fundo naquela interpelação de um deus que se retira e cala, o que nos é dado a contemplar é o cais das colunas, escadarias que no meio de um nevoeiro mítico se abrem para o mar: o mar, o das águas profundas, delas sairá talvez um Dom Sebastião  que ainda hoje nos faz sonhar.


Wednesday, November 20, 2019




Notas de um diário
(para o Sérgio Ninguém)

Escrevi no blog de simbologia e alquimia sobre o último livro do Sérgio Ninguém, da Eufeme, uma cuidada e belíssima edição, livro pequeno, como gosto tanto de os ler, O PESCOÇO NA NAVALHA, poemas de 2016 a 2019.
É o livro que o salvou, ou o fez atravessar, pela palavra poética, uma funda depressão. Todo o imaginário é negro, e o seu dizer, puro e seco não se esconde em formas mais elaboradas e suaves ( o que seria um desastre) tentando envolver o seu discurso numa elegância fictícia.
Aqui não há fingimento. Não esconde, não disfarça, não facilita leituras.
Sérgio Ninguém pertence a esta nova geração de poetas libertos que agora vou descobrindo, com um prazer enorme. Não se pode ser todo o tempo um repetidor de Pessoa, ou de outros dos nossos grandes, dos vários movimentos, do Modernismo ao Surrealismo e ao post-Modernismo que inovou, provocou e também se esgotou na devoração que se fez de um Herberto Helder, por exemplo.
Não, com esta geração a que Sérgio pertence, descubro novas linguagens, não estão presas, nem querem, ismos de qualquer espécie. E por trás da linguagem o que ela significa: uma nova e por vezes brutal relação com o mundo, os outros, sejam eles quais forem, e acima de tudo consigo mesmo. O poeta já não se esconde, expõe-se, como diria Celan ( aquele que a seguir a Pessoa mais me tem interessado e influenciado : traduzi-lo foi uma aventura que me ensinou a chegar ao osso da palavra, a lavar o cadáver do corpo poético com que nos confrontamos de cada vez que escrevemos. Uma a uma ir despindo as palavras que cobrem o cadáver.
E expô-lo assim, na sua nudez tão afrontosa. Que não haja piedade, pois não há homem nem  deus que nos ensine a ter piedade.
Sérgio coloca o pescoço na navalha. Imagem cruel, a que não poupa o leitor: a cada momento poderá dar-se a morte, esse corte suicida, e o sangue por ali se escorrerá, fazendo poça no chão, o mar da vida assim interrompida. Este conceito, ou este sentimento – afinal a poesia também é sentimento – da interrupção é importante no discurso poético. Não fomos feitos para uma edénica eternidade bem-aventurada? Que crime, que traição, que pecado tremendo nos deu um castigo de que o próprio deus, depois se arrependeu, dando o seu próprio filho em oferenda?
Vem logo à memória o célebre poema de Blake nas Songs of innocence and experience, tão terrível, de garras que se cravam tão fundo, e o tornam quase intraduzível, TIGER:

Tigre, tigre, fogo ardendo
na escuridão da floresta,
que olhar eterno ou que mão
tão temível simetria desenhou?

Em que céus ou profundezas
arde o fogo dos teus olhos?
E ele, que asas deseja ter?
Que mão ao fogo se atreve?

Qual o ombro, qual a arte,
Que o teu coração torceu?
Ao começar a bater,
mão terrível, pés de horror,

que martelo e que corrente?
O teu cérebro, em que forno?
Que bigorna e que tormento
te prenderam ao temor?

Quando as estrelas suas lanças depuseram
e o céu com as suas lágrimas molharam,
sorriu Ele perante a obra?
Ele, que fez o Cordeiro, também a ti concebeu?

Tigre, tigre, fogo ardendo
na escuridão da floresta
que olhar eterno ou que mão
tão temível simetria em ti ousou?

A interrupção tinha sido fatal. O Tigre, mais do que a Serpente, tornou-se dono e senhor da criação, e agora Sérgio, que está atento, socorre-se do Apocalipse de São João, que no seu delírio visionário descreve a Besta e o seu número sagrado, 666, ironizando pelo meio dos números da criação (os seis dias que durou, descritos no Génesis) com uma canção popular inglesa, a dos ratinhos cegos, que me dispenso de citar aqui. Porque a imagem com que o poeta nos deixa é para levar a sério, são ratos, e não ratinhos, e são manifestação dos mortos que os Mestres deixaram para trás (“ Já não sei se os mestres ouviram os mortos....”) são ratos cegos “que procuram o tiro na cabeça”. Brutal esta imagem com que termina o poema.
Não hesita em gritar que não há salvação, talvez nunca tenha havido.
A interrupção causada pelo drama que teve lugar no Génesis foi ferida sem cura. A serpente apontou o caminho de um Conhecimento que estava proibido. E na verdade, hoje como ontem, continua fora do nosso alcance.
Termino com um último poema, que pertence já ao ciclo do Epitáfio:
Sou um interior sem vida -
uma pedra sofrida
num poço sem cobras encantadas.




Saturday, November 09, 2019

IMPROVISANDO, para ouvir melhor e sempre, A NOVA GERAÇÃO DO JAZZ


Hoje foi um dia feliz: recebi o livro da Cristina Carvalho, sobre Ingmar Bergman, e o livro do Jazz da nova geração, de Nuno Catarino e Márcia Lessa, IMPROVISANDO. Capa e design gráfico de Cláudia Rodo, terceira mão de artista, que por aqui também entra, com o seu swing de cores alegres. A mão protectora foi de Inês Cunha, Presidente do Hot Clube de Portugal.
Vivi muitas noites de grande música de jazz, nos anos 60, quando pela mão de Luís Villasboas vinham a Portugal, e ao Hot, os maiores músicos do mundo, e era a ouvi-los que as gerações aprendiam, ou melhor, sentiam, o que eram as linguagens musicais variadas, originais, diferentes. A ouvir se evoluía, e a participar, o que por vezes acontecia (os grandes eram generosos, e as noites eram longas) se crescia musicalmente.
Neste livro temos o testemunho da mais recente geração de jazzistas que Filipe Melo, na contracapa, define como a mais livre criativa e dinâmica da actualidade. O que move estes criadores? O que moveu todos os outros, de antes, e moverá os seguintes: o prazer de tocar, o trabalho e a curiosidade. Penso como é importante, em todos os domínios, este factor da curiosidade: querer mais, sempre mais, para depois a voz de cada um se tornar firme, e original, com um som que é assinatura própria, e logo se reconhece mal se sentem ao piano ou levem à boca o seu sax, o trompete, ou o que fôr.
Filipe Melo, o pianista que nos veio de longe, dos EUA onde tudo acontecia, é um grande exemplo da importância de saber e querer sempre mais, no domínio da Arte, musical ou outra: é ainda realizador de cinema e autor de banda desenhada.
Como ele diz, "o futuro, a partir de agora, não tem limites". E porquê este agora? Porque tudo evolui, tudo se tornou global e convivial, e com mais conhecimento (aqui entram trabalho e curiosidade) o jazz das novas gerações improvisa sem medo, arrisca, corrige, se fôr preciso, retoma o que tinha perdido...e segue em frente.
Que venham a seguir mais entrevistas, mais jovens como estes (fotos lindas...) mais um livro.



Sunday, October 27, 2019

Fausto, de José Manuel Castanheira, um livro de artista




José Manuel Castanheira: Fausto revisitado em Mefisto...
O mito de Fausto, que no século XVI pela mão de Marlowe adquiriu dimensão universal foi ampliado com Goethe muito para lá da tentação do poder da Magia e da perseguição do Belo, oferecendo à nossa reflexão um poder maior: o da Livre Escolha entre o Bem e o Mal, e o da transformação do mundo pela crença no valor do Trabalho, no Serviço dos outros, já na segunda parte da tragédia, onde está cego e Mefisto espera vir a roubar-lhe a alma.
Se nas primeiras formas, nos primeiros momentos, tudo se centra no egoísmo do desejo (Fausto irá, ainda que sem se dar logo conta, sacrificar Margarida ao seu desejo) já na segunda parte da tragédia Goethe, bebendo nos ideais do século XVIII de Liberdade, Igualdade e Fraternidade que adoptou como maçon, orienta o seu pensamento para uma esfera em que Mefisto, o demónio tentador, não poderá penetrar. E assim se salva o herói, e é Deus, que no seu alto trono ganha afinal a aposta, feita no homem e nessa qualidade só dele de querer sempre mais, numa luta incessante pelo Conhecimento.
É por aqui que seguirá Fernando Pessoa, o poeta da interrogação e busca permanentes. Evoco os versos que já em 1913 traduziam um pendor filosófico marcante, em Além-Deus:
Olho o Tejo, e de tal arte
Que me esquece olhar olhando,
E súbito isto me bate
De encontro ao devaneando –
O que é ser-rio, e correr?
O que é está-lo eu a ver?
( I, Abismo)
 A interrogação sobre o Eu, esse eu que se perde num devaneio que súbito permite uma iluminação (o encontro com Deus) é muito semelhante às interrogações de Fausto, em quem Pessoa concentra perplexidades e interpelações, negação e busca permanente, nos fragmentos que nos deixa. Se tivemos em Marlowe, ao gosto renascentista, a perda da alma em troca de uma beleza antiga, a da Helena clássica por quem tantos deram a vida, e em Goethe a aquisição de um saber alquímico, hermético e profundo, figurado no Eterno Feminino, e no valor do Símbolo como portão do Uno e do Todo, Pessoa, que leu Goethe (está na sua biblioteca pessoal) não consegue elaborar um verdadeiro sistema que contenha uma lição paralela à dos outros, ainda que de pendor modernista, logo mais céptico e de leitura mais aberta. O que nos deixa, e só podia mesmo ser  desafio incompleto, fragmentário, é um conjunto de interpelações, de interrogação sobre a essência do ser e do eu, a que os seus versos não darão nunca resposta.
Podemos aqui louvar a arte do fragmento, como fez Novalis, o grande romântico, contemporâneo de Goethe, ou a utópica busca da flôr azul, também ela, como Deus, mistério inacessível. Mas na inquietação de Pessoa há mais do que isso. Um Fausto que é seu alter-ego, e cuja busca assumirá outras formas, outros nomes (os múltiplos heterónimos) dos quais terá sempre consciência, enquanto a de si próprio se esvai. O que é ser ele, e estar ali diante do rio, a vê-lo? Ou seja, o que é ver o rio (ter consciência de outro, de outra coisa) enquanto em simultâneo desperta a consciência de si?
Consciência é a palavra-chave, a porta que se  abre para o conhecimento.
Entre os papéis que se encontravam na famosa arca, e que tanto trabalho deram a alguns estudiosos que organizaram e decifraram uma letra por vezes muito difícil, há um conjunto que nos interessa especialmente, para este caso do Fausto :
” O conjunto do drama representa a luta entre a Inteligência e a Vida em que a inteligência é sempre vencida. A Inteligência é representada por Fausto e a Vida diversamente...” ( Teresa Sobral Cunha, Fausto, ed. Relógio d’Água, p. 11).
Falemos da Vida, como faz Mefisto, numa conversa com o estudante que procura a sabedoria junto de Fausto: “ Pálida, amigo, é toda a teoria / mas a árvore da vida é verdejante” (Paulo Quintela, ed. Universidade de Coimbra, p.89).
Já Fausto se declarara, de ínício, cansado e farto de tudo o que tinha estudado ao longo dos anos, e o tornara sábio em matérias várias, como a filosofia, a teologia, a medicina, o direito, para concluir que não passava de um tolo: “ Eis-me aqui agora, pobre tolo, / tão sábio como dantes! “ (p.29).
Reconhece afinal, como Pessoa, que nada conhece, e que é chegada a hora de outra coisa:
“ Teu mundo é isto? Chama-se a isto um mundo? “ (p.30).
Espera, da contemplação do signo do Macrocosmos, uma revelação que o ilumine. Mas não há ali ajuda. Segue-se o sinal do Espírito da Terra:
“ Tu, ó Génio da Terra estás-me próximo!” (p.32). E por fim, a invocação do signo do Espírito, que lhe surge numa chama avermelhada, mas a que Fausto, aterrado, não resiste:
 “Sinto / que o teu aspecto suportar não posso!” (p.34).
E Goethe deixa-nos então com o enorme desalento do seu herói, tão ambicioso de início, tão desapontado agora:
Fausto- Tu, que o mundo vastíssimo circundas,
Quão perto sou de ti, potente Espírito !
Espírito- És igual ao espírito que entendes,
A mim não!
 Com este imenso anseio de alcançar algo mais, muito mais, do que um saber cinzento, se expôs Goethe a Pessoa, que o leu , entrou em diálogo com ele, por assim dizer, e tentou ir seguindo o seu caminho. O da Inteligência, como diz, que a Vida iria derrotar. Iria, mas não foi. Em Goethe ganhou a vida, no final da tragédia, luminosa e simbólica na sua integração. Em Pessoa não se chegou a uma conclusão final, os fragmentos deixam indícios do possível, mas permanece sempre a interrupção de uma inteligência que interfere, reflecte e obriga a reflectir, mas não ilumina nem resolve. No poeta a consciência é disruptiva, não é unificadora. A sua dedicação ao esoterismo, a sua curiosidade imensa, que nem a magia de um Crowley satisfaz, leva-o a ler, a ler tudo o que encontra nestes domínios, mas ao contrário do herói de Goethe o Fausto de Pessoa não se entrega, e quem não se entrega não recebe nada de volta, a não ser inquietação, dúvida, e por vezes revolta. Mas até para a revolta é preciso convicção...
 Retomo, porque me agrada uma versão um pouco mais fiel, a minha tradução da afirmação de Mefisto ao estudante que pretende ser orientado pela sabedoria de Fausto, e que o diabo ali finge ser, ocupando o seu lugar:
“ Cinzenta, caro amigo, é toda a teoria, / ...e verde a árvore de ouro da Vida. É importante a afirmação de que é de ouro a árvore da Vida, e que se contrapõe ao cinzento de toda a teoria. Em Goethe o ouro é o ouro alquímico dos filósofos herméticos, o verdadeiro símbolo da alma sublimada, que também Pessoa tinha lido, nos volumes de A. E.Waite ( The Hermetic Museum, Londres,1893, reed. 1994).
Falemos agora de José Manuel Castanheira e das sua pinturas sobre os fragmentos do Fausto de Pessoa que melhor apontavam os segredos e os anseios da obra do nosso poeta maior.
1
Logo na primeira,  a escolha da côr com mistura de treva, para um diabo que sob asas imensas abraça um mundo que é seu, como que define José Manuel o tema central de toda a obra: a aposta de Deus no céu e do seu apesar de tudo fiel companheiro, pois conversam à vontade sobre a espécie humana, e o mundo que ela habita. Será este globo azul o da purificação? Ou o da morte negra, da ilusão esvaída, do Nada em que tudo cai e se desfaz?
Esta é uma primeira imagem–resumo de um sentido simbólico, profundo, que será necessário ir descodificando, com a ajuda dos outros. Deus permitiu que o Diabo tomasse conta do mundo e da espécie que o habita e Fausto-Pessoa-Mefisto vai interpelar?
É uma figura ambígua, hermafrodita, ainda presa ao céu por umas cordas, que a consciência de si que o poeta–adepto adquire poderá romper. Ou com ela afundar-se, aniquilado pela sua impotência, proclamada (como naquele fragmento em que contrasta Inteligência e Vida).
Esta primeira imagem com que o pintor nos inicia à sua leitura da obra do poeta, merece um comentário mais aprofundado, do ponto de vista simbólico. Este demónio vindo do céu, ou preso ainda a ele, remete para arquétipos primordiais, da criação do mundo, da criação de um Adão ainda hermafrodita, de cujo corpo feito de lama, e a seu pedido, Deus irá moldar, esculpir, várias mulheres, imperfeitas e que o primitivo homem recusa.
Terrível é aquela que é remetida para um longe que assemelhamos às treva do inferno, um espaço de castigo, de afastamento que a levará a congeminar as piores vinganças contra quem a afastou. Com esta imagem quase brutal, na força que as asas segurando o mundo nos revelam, teremos de contar. É o aviso, é o que diz Castanheira, que tratará a narrativa pessoana de forma aberta e livre (nem de outro modo poderia ser) mas deixando sempre em fundo a pulsão de uma consciência que se procura e se esgota em perpétua interrogação. A relação de Goethe com o Feminino, é a de um desejo que se vai sublimando. A relação de Pessoa com o Feminino é complexa, de difícil aceitação, como a do homem primitivo na discussão com Deus. Teria de trazer para este nosso diálogo uma nota escrita há algum tempo, no meu blog de simbologia e alquimia, citando um belo estudo de Robert Graves, Les Mythes Hébreux (1987) sobre como os arquétipos do Feminino se constituíram há milhares de anos, no imaginário da espécie. E se para alguns o Feminino conduz e ilumina, até hoje pode ser para outros objecto de pavor e recusa.  Não é integrável, é antes disruptivo de uma consciência, como a de Pessoa, que se interroga em dúvida permanente. Outra leitura aconselhável seria, de Siegmund Hurwitz, LILITH, the First Eve, sobre o Feminino negro (ed. Daimon Verlag, 2009).
 2
O reflexo no espelho traz, como em Oscar Wilde, no Retrato de Dorian Gray, o negro escondido da alma, o horror recusado.
Mas não por muito tempo.
3
Fausto aspira ser mais do que é, na contemplação do Cosmos, na evocação do Espírito com o qual se sente identificado, algo que a voz do Espírito brutalmente lhe nega: ele é só o que é, e não mais. Falta-lhe centelha divina. Essa luz poderá vir mais tarde, pelo sacrifício de Margarida, pela revelação do Eterno Feminino desejado e alcançado, definido como o canto estelar do Símbolo.
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Dormir abraçando o mundo...
Entregue a uma vida maior, feita de busca  e quem sabe talvez um pouco de amor, que não seja o cavalgar de uma noite de Walpurgis, de uma Mefisto enganador...
Leiamos o texto DORME, pois no sono, mais do que no sonho, se escondem os mistérios, os arquétipos da Vida, que derrete o gelo da Inteligência...
 5
E sigamos com a divisão que o sonho introduz no sono...ou não fosse o poeta a súmula de tudo e dos seus contrários, tentando na divisão o Uno e o Todo que Hermes já definira na Tábua de Esmeralda: “o que está em cima é como o que está em baixo” fazendo deste mundo, que o Diabo não abandona, o reverso espelhado do mundo celestial, de onde afinal desceu, e do mundo infernal, a que a Barca da Vida o pode conduzir.
 6
Há nos textos que também vamos seguindo, uma alusão às Tecedeiras, que em Goethe são as Mães, e que todas tecem a Vida. No escuro dobam, enrolam, cortam os fios que serão do Destino: Inteligência (Conhecimento) ou Vida? Negro chumbo ou ouro puro?
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A consciência de ser ( “o que é eu estar a ver o Tejo a correr?” ) não impede o naufrágio da Vida, são demasiados os escolhos, poucas ou nenhumas as escolhas, que afinal se oferecem. A Água, elemento salvífico, dilui, mas não sublima.
A sublimação virá da última magia das pétalas das rosas com que os Anjos, dispostos a salvar a alma de Fausto, vão seduzir o Diabo. Mas em Goethe, não em Pessoa, o do desassossego sem fim. Retomando a linguagem da simbologia alquímica, Goethe era solar, Pessoa era lunar, e nesses opostos se uniam...





Sunday, July 28, 2019

Tchiangui Cruz, guardados numa gaveta imaginária...

É um livro de poemas. Como sempre, nestas edições da Guerra e Paz, uma edição elegante, cuidada, que dá gosto segurar na mão, antes de abrir. Durante a Feira do Livro, alguém entrevistado dizia, sim, compro muitas vezes um livro só pela capa. Não é proibido, e sempre compra o livro. Espera-se que depois, quem sabe, o leia. Eu compro de forma diferente (embora goste de bonitas capas, faz parte de uma edição bonita): Vejo o título, que já é em si mesmo um indício que pode ser sedutor, leio um pouco na contracapa (quando não conheço o autor), abro as primeiras páginas, é tão importante o modo como se começa... e ou compro ou ponho de parte. Neste caso, dos poemas de Tchiangui Cruz, guardados numa gaveta imaginária, edição de 2019, foi o nome da autora que me atraiu: um nome musical, quando o dizemos em voz alta, que quase nos dança na boca. Não conhecia o nome, não conhecia a autora, li um pouco nas badanas o que se dizia sobre ela, e comecei então a ler os poemas guardados numa gaveta que ela decidiu abrir, quando escolheu antes ser poeta do que pintora. Sublinha bem que não segue o AO! Simpatizei logo com esta manifestação de bom sentido da língua. Formada na Faculdade de Letras de Lisboa, é actualmente Prof. Universitária em Luanda. Leu com certeza Fernando Pessoa, mas a mim agradou-me especialmente que se tenha inspirado, para a epígrafe, em Clarice Lispector, que eu descobri em Coimbra, aos dezasseis anos, ao ler Perto do Coração Selvagem, uma prosa tremenda, arrebatadora e cujo ritmo faria de mim, poeta incipiente, alguém que sempre deu muita atenção ao ritmo, ao deslizar das palavras, na ideia e na boca. Mas vamos ao que interessa: o que são os poemas, (o que é a criação poética) para Tchiangui que os confessa numa gaveta, numa zona mais escura da imaginação "um não lugar em que me continuo a procurar / incessantemente" (p.12) Como em Coral, de Sophia, que celebramos este ano: "Ia e vinha / e a cada coisa perguntava / que nome tinha". Sublinhemos, na origem, a procura, esse impulso que leva à busca do nome oculto, o que define o eu, e o seu sentido no ser e no tempo. O sentido transformará a existência, como diria Heidegger, que por sua vez gostou sempre de citar Hoelderlin, o Hino intitulado Mnemosyne (Memória), nos seus ensaios sobre O Que é Pensar: "Somos um sinal, sem sentido (...) e quase perdemos a língua na distância". Depois o poeta alude ainda ao tempo, e à demora, mas no fim ao que se alcança, A Verdade. Esta é a mesma verdade que na vida, como na palavra poética, a procura e a demora nos permitem alcançar. Retira-se da zona obscura da memória recôndita o dizer que ela continha, e ali estava, a aguardar. Falamos connosco, com o nosso eu mais profundo, mais arcaico, quando buscamos essa palavra mágica, definidora do nome. Para Clarice um livro em cada um, para Sophia um nome. E para Tchiangui, no primeiro poema, um não-lugar que será ocupado pelo que retém na memória de que fala no segundo poema: "Recorro à memória e retenho a imagem do dia..." (p.13). Evoca a imagem do pai, de quando chegava a casa, e ela corria pelas escadas abaixo. E aqui temos a sua primeira marca de estilo: com naturalidade, um episódio que guardou na memória, a chegada do pai a casa, a descida pelas escadas abaixo para ir ter com ele, um reencontro, anunciado pelo toque da campainha. Motivos de um quotidiano que surgem e a memória guardada recupera. Com naturalidade. Só a palavra reencontro levanta uma suspeição: foi longa a espera? Terá sido dolorosa? Mas sobre isso não se demora, não há sombra de piedosa pseudo-poética emoção. A sua expressão é de agora, tem a distância devida, a reflexão necessária, na busca em aberto do sentido. Hoelderlin não faria melhor. Tchiangui em muitos dos poemas envolve o leitor na suavidade cálida da sua Angola nativa, as vozes, os cheiros, os sabores, e na distância o mar que também nos une, mais do que separa. Memórias e caminhos, assim se vai definindo a sua criação, que lhe permite afirmar que é dupla a sua personalidade, em Falsa Tímida (p. 34). Dialoga com Clarice, que lançou o dilema inicial, e conclui: " Clarice dizia: sou tímida e ousada ao mesmo tempo". Ideia que desenvolve a seguir em Mulher (p. 35): "Toda a mulher tem pelo menos duas faces ... / se ontem caiu, amanhã ela se levanta/ e, sem dar conta, se ergue/ por toda a mulher. / suas faces se duplicam em espelhos /esféricos, uma interna e outra externa, / um jeito de menina, uma vontade de mulher... (p.36). Dentro de cada mulher um pouco de todas as outras, força da natureza primordial, arquétipo do eterno feminino que é todo e uno, mesmo quando esfericamente dividido, na descrição do andrógino de Platão. 

No conjunto intitulado Transatlântico passamos por Lisboa, Luanda, Cabo, Bahía, esta é a epopeia de Tchiangui, na poética mistura de "raças, culturas, crenças" (p.42). Logo me ocorrem dois grandes da mesma estirpe, Jorge Amado, Vinícius e a geração de Chico, que o acompanhou. Na mesma linha de pensamento em que mistura é liberdade surge adiante o lamento por um marido preso político, a  realidade que o tempo parecia ter ultrapassado. 

O livro fecha com Três Continhos Tristes, uma minibiografia que a autora nos apresenta como se fosse um último mimo que nos concede, a nós leitores menos preparados para entender o que ela entende e ainda sente tão bem, porque é mesmo a sua origem, a sua vida vivida até este momento em que a evoca:
"Meus avós eram filhos de pai transmontano e de mãe preta de panos. Falavam um português perfeito, mas se o assunto fosse, digamos assim, íntimo, linguajavam em quimbundo para eu e os meus irmãos não entendermos "(p.54).
Haverá imagem mais linda para evocar a mãe antiga, dos avós, do que esta de "mãe preta de panos"? Panos da côr da vida, panos que esses sim conheço, porque um amigo nosso os trouxe de Cabo Verde, um  dia.
Mãe preta de panos: tanta ternura, tanto amor, tanto respeito também. E como é importante um começo tão simples e tão directo. Reparo muito nos começos dos livros, nas frases com que abrem. Como meditei longamente na frase de Proust: Longtemps je me suis couché de bonne heure. De como teria de a traduzir, para não deixar de ser fiel. Acabei por escolher "Durante muito tempo fui cedo para a cama". Talvez pela imagem, talvez pelo ritmo, em português. Como agora, nesta apresentação da avó : "mãe preta de panos". Mãe antiga, mulher trazida e amada, nesta frase tão simples uma imagem tão rica e tão cheia de sentido, condensado em tão poucas palavras. Como em Proust. O meu leitor aqui já terá percebido que dou atenção ao impulso da escrita, que cria o seu próprio e original modelo, e que para mim o escritor do "pouco" é maior do que o escritor redundante do "muito". Frase límpida, de pensamento límpido, que a mim me pode intrigar e deixar a reflectir um pouco mais, para meu benefício. Ler para mim é pensar, e esse movimento é o da criação, da evocação, do afundamento na memória. Como em Tchiangui, neste livro.
O livro tem um excelente pósfacio de José Luís Mendonça, que completará tudo o que eu não saberia dizer.
Mas de Tchiangui Cruz seguirei as obras, sejam de poesia ou de prosa, neste tom muito seu, natural, nascido do que ela é, uma mulher pós-moderna, que fala sem reticências do presente e do passado, enquanto espera o futuro. Sabendo de onde vem, saberá para onde ir, pois até nos sonhos alguém lhe faz companhia.

Thursday, July 04, 2019

Isabel Allegro de Magalhães, Transversal Mente, Literatura e Música

I
Nesta edição da Caleidoscópio, de Maio 2019, apresenta Isabel Allegro uma recolha de ensaios transversais à palavra e à música, que a palavra também já contém, quando se forma. A palavra é aqui literatura, palavra trabalhada, como a música é composição, onda sonora trabalhada também, e ambas na emoção do Sopro, do Verbo que se manifesta de repente.
Iremos falar de arte, não há arte sem emoção, e esta a que me refiro, com a ajuda de Isabel é, como ela a define, especialmente sedutora, a desenvolver-
-se no tempo: um tempo especial, que segundo alguns se espacializa na palavra escrita, na pauta elaborada (que se fixarão para memória futura) mas que não existiria se não tivesse nascido primeiro de um impulso semi ou totalmente inconsciente, vindo de dentro, do Ser profundo, em que ser e tempo se fundem, antes de tudo o mais.
A autora, cuja erudição é notória, e cuidadosa nos fundamentos que escolhe, não ignora que "a gramática de um texto verbal nunca é totalmente sobreponível à de outro texto musical" (p. 11). Mas vai lidar com um mundo que é o das várias possibilidades, e nesse exercício ampliar o nosso conhecimento, abrindo-o pelo caminho à nossa sensibilidade.
E explica:
"...em comum, literatura e música têm a dimensão da temporalidade : o tempo, o ritmo, eventualmente ausente ou apenas simbolicamente presente nas artes plásticas. E, mais que outras artes, palavra e música fazem apelo ao ouvido, com sons articulados ou puros, requerendo, como o cinema, e mais que a pintura ou a fotografia, sempre diante de quem as olha, um particular exercício da memória. Além disso, seguramente a música precisa de alguém para tocá-la, depende desse alguém, portanto. E a sua duração é passageira e a experiência da escuta fugaz - apesar de permanecerem na memória e na imaginação para além desse momento de presença: o que será, em termos de Gérard Genette, o aspecto de 'transcendência' de qualquer obra de arte?" (p.12)
Genette discute o problema em l'Oeuvre d'art. Immanence et transcendence, 1994. Sem ir buscar argumentos ao pensador francês, Isabel segue o seu caminho, que nos deve conduzir não ao contraste, mas às afinidades possíveis, ao "novo lugar" que irá amplificar os sentidos já prefigurados em novas articulações, ao gosto dos comparatistas. Aqui comparar não é buscar o igual, mas o diferente, o que inspira o criador, poeta ou músico,  levando a sua arte para uma esfera outra, do domínio do intercâmbio simbólico profundo.
Isabel evoca Jorge Luís Borges: " Cada acto ( y cada pensamiento es el eco de otros que en el pasado lo antecedieron, sin principio visible (...) no hay cosa que no esté como perdida entre infatigables espejos" (p.13. 
E segue alertando para a variedade das modalidades de relação entre um texto musical e outro verbal. São infinitas, do Lied à ópera mais complexa e desafiante, como são múltiplos os escritores em que as referências e reverberações ecoam e permanecem, no seu jogo de espelhos. Partem de sons e sonoridades, mais líricas ou mais agressivas, que os conduzem à expressão do "Descrito ao Vivido", como em Gastão Cruz, num dos poemas que integra a escolha feita.
Falou-se de tempo, e de tempos. Não por acaso, escolhe Heidegger para início de um dos seus seminários sobre o que é Pensar, um célebre verso de um hino de Hoelderlin, Mnemosyne:
Ein Zeichen sind wir, deutungslos,
Schmerzlos sind wir und haben fast
Die Sprache in der Fremde verloren.
(Somos um sinal, sem sentido,
Não sentimos dôr e quase
Perdemos a língua na distância).
e ainda:
Lang ist 
Die Zeit, es ereignet sich aber
Das Wahre.
(É longo
O tempo, mas alcança-se ainda assim
A verdade).
O sentido de uma língua primordial que se perdeu, perdendo-se com ela a Verdade que exprimia. E no exercício do Pensamento a que se é levado por um impulso interior que nos põe a caminho, é aí, nesse tempo que é longo, que o caminho inteiro de poesia e música finalmente se encontram e se fundem. 
A autora propõe um conjunto de leituras que vão de Jorge de Sena a Gastão Cruz, Maria Velho da Costa, Graça Moura, Nuno Júdice e outros, onze ensaios de relação em que os tempos da música, seus ritmos, seus silêncios, se organizam em palavra poética, fundadora, raiz de uma língua perdida e reencontrada em multiplicidade de sentidos, segundo cada poeta e cada poema.
Este não é o lugar de os resumir, apenas de apontar a existência de uma leitura que seduz porque amplia espaços de um imaginário raramente abordado entre nós, ao contrário do que acontece na Alemanha, por exemplo e que recorda como na Arte, musical ou poética, é pela contaminação de imagens e símbolos que se organizam, que se recupera a Verdade a que o poema de Hoelderlin deseja conduzir-nos.
Poderia dar aqui um belo exemplo, o de Helder Macedo, a cuja Viagem de Inverno me referi num dos meus posts antigos deste blog. 
É a Winterreise de Schubert que o leva pelos caminhos da sua imaginação, como já no século XVIII Novalis tinha encontrado nos temas musicais da melancolia do Inverno a matéria que alimentava, nos Hinos e nos Fragmentos a sua própria melancolia, a nigredo da alma.
A relação da escrita poética ou narrativa com a música que a inspira é talvez mais fácil de identificar do que o contrário: como parte de um texto a música que enche a cabeça de sons, num compositor? A Ode à Alegria  de um Schiller para uma Sinfonia, a última, de um Beethoven?  Os grandes mitos germânicos para a Tetralogia de Wagner, sendo ele próprio autor, enquanto libretista, e compositor?
Isabel escolheu para epígrafe dos seus textos, uma frase de Leibniz: 
"A música é um exercício de alma que não sabe que está a musicar" (p.7).
Como se fosse de um inconsciente colectivo ( e não reflexivo, individual) que de súbito todos os sons brotassem, organizando-se na perfeição de uma outra esfera, a da matemática da linguagem da Obra.
Mas estaria a desviar-me reflectindo sobre a música das esferas como Pitágoras a entendeu e deixou em herança, para uns e para outros. 

II
Num outro volume, editado também na mesma casa e neste mesmo ano, escolhe Isabel Allegro de Magalhães abordar os temas da Literatura e Identidades, num outro conjunto variado de ensaios em que sublinha questões de alteridade, de relação com o outro, aceite ou rejeitado (como na eterna questão dos Judeus na narrativa de Mário Cláudio, que escolhe para análise) contraste de nações e culturas, hoje de tanta actualidade, e finalmente um pequeno conjunto de notas de Homenagem a Maria de Lourdes Belchior, a Óscar Lopes, a Luciana Stegagno Picchio e Heitor Gomes Teixeira. Sábios, todos eles, com quem a nossa geração muito aprendeu, e a quem as homenagens, muito justas, surgiram, neste país igual a si mesmo, já demasiado tarde. Isabel corrige a distracção. Conheci bem todos os citados, e em especial, por isso refiro o facto, em Coimbra, o Heitor, já com a paixão do teatro, e fazendo sob a orientação de Paulo Quintela, no TEUC, um magnífico e portentoso Diabo vicentino.
A marca deste livro de Isabel é a de uma certa saudade: do que se foi, quando todos tínhamos a mesma ilusão de mudar e fazer crescer o país dos cravos, e do que se verifica agora, em que várias crises (evitáveis? anunciadas?) nos fazem temer o futuro, já não nosso, mas de filhos,  netos e amigos cujo percurso acompanhamos.
Dir-se -á : faz sentido um livro de saudade? Faz, neste caso, em que a saudade é algo mais do que lamento, é reflexão para memória, para a posteridade.
Um Professor nunca deixará de o ser, e a vida de Isabel Allegro de Magalhães, para além de ser activista de vários domínios, também o da fé que se actualize, tem essa marca de nobreza. Ensinou, e neste momento reflecte e dá a reflectir o que isso numa vida representa. É simples, se se entregou de alma e coração, como nela se vê, representa o melhor de nós mesmos, define o que fomos e o que somos, através do que fizemos e fazemos.
Saudemos pois agora estes livros que a trazem à nossa presença, para nos interpelar, antes que o país nos adormeça de vez.
  


Tuesday, June 25, 2019

Os Tempos de Fernanda Lapa



Foi esta peça, Gertrude Stein e Acompanhante, de Win Wells, que me levou a pensar no trabalho, sempre exemplar, da encenação de Fernanda Lapa, que a entusiasmou, mas por outro a obrigou a um imenso trabalho de depuração e até de algumas correcções de erros de tradução, tudo por amor ao teatro.
Mas Fernanda dedica todo o tempo e atenção que um texto, seja moderno ou clássico, pede e exige. Esse é o seu primeiro tempo: o do trabalho, que com sorte ficará escrito e publicado, da sua dramaturgia, cuidada, inteligente, e por isso tão fiel. É sem dúvida um trabalho de paixão, que envolve também os seus colaboradores: sempre os melhores, que se disponham a partilhar com ela a sua inspiração. Neste primeiro tempo a inspiração, a ideia que surge de momento e resolve alguma dificuldade, é essencial. Cito Agustina Bessa-Luís: "de muito empenho carece a arte..."e é assim mesmo, na arte que se respeita, e no criador que, como estou a ler neste momento, no meu fiel Yi King, que abri ao acaso do dia, como faço às vezes:nº 38, K'ouei /A oposição
A Imagem 
Em cima o fogo, em baixo o lago: imagem da OPOSIÇÃO. 
Assim, em toda e qualquer companhia, o homem nobre conserva a sua individualidade.
O homem culto não se deixará tornar igual aos homens cuja natureza difere da sua, por relações e interesses comuns que possa ter com eles, mas conservará sempre em toda a comunidade a sua individualidade própria.

É precisamente isto que verificamos nos tempos de Fernanda Lapa e da sua coerência no trabalho das artes cénicas ao longo já de tantos anos. De tudo o que tenho visto, dos clássicos aos modernos, nunca perdeu a sua individualidade, a sua marca própria, e mais uma vez nesta encenação claramente manifestada.
A bagagem cultural de Fernanda é enorme, e absorvida por muito conhecimento, mundo, convívio (quem pense que se pode fazer teatro, encenando, ou representando, ou criando espaços cénicos adequados e igualmente inspirados sem cultura nem curiosidade de espécie nenhuma, está bem enganado) - e com ela também a sua equipa tem muito, para não dizer tudo, a aprender. E por ser ela quem é, aprende-se com gosto. Sai-se da sua companhia mais "ilustrado", como se diria nos tempos das Luzes. Aqui precisamos destas luzes, da Razão e da Emoção, que ela contém, mas deixa ainda assim, delicadamente transparecer.
Não me refiro à encenação em que escolhe o delírio orgíaco das Bacantes, de Eurípides, e tanto sucesso teve em 1995. Para a contenção da violência antes evoco as Euménides, de Ésquilo, em que toda a fúria teve de ser contida. Numa das peças a explosão que castiga o orgulho cego,  noutra a mutilação que destrói a exigência de uma vingança justa.
Dirão, Fernanda mantém a sua individualidade, a sua leitura própria destes textos, imortais pela sua carga simbólica e arcaica. É certo, pois não há na sua encenação o que seria tão fácil, de ornamento, sentimentalismo, lição moralista a dar. Fernanda não dá lições, deixa que uma narrativa límpida fale por si e para cada um, quem sabe se de forma diferente.
E como se verifica então nesta peça de duas americanas amigas e amantes, de que se ocupou Wells, numa vida de boémia livre em Paris, a marca própria da individualidade criadora de Fernanda? 
Num primeiro tempo o texto, como já disse, e já em conjunto com a sua equipa o trabalho de enquadramento das personagens e da época - a Paris da boémia dos pintores e poetas vanguardistas,  desafiando os costumes da sociedade e do mundo (um mundo em guerra).
O texto de Wells não estava à altura da depuração desejada. Ornamentos, indicações, floreados, longe do que a encenadora desejaria, e não permitiria que destruísse o seu estilo. Foram meses. Há encenações que são narrativas tão próximas que mais vale ler a biografia em voz alta do que ir ao teatro ver a peça.
Ora aqui entra a minha segunda consideração sobra os Tempos de Fernanda. O texto base é matéria de memória histórica, ficará em arquivo, poderá ser lido e retomado em qualquer momento.
Mas no palco de um teatro, sendo o teatro representado a mais efémera das artes, vive-se ali o momento, é essa a sua eternidade, o tempo é outro. E outras terão de ser as escolhas. Fernanda, nas suas encenações, sublinha a efemeridade, sabemos ao sair que nada mais se repetirá, embora a peça continue o seu tempo em cena, como está agendado. Não haverá dias iguais. Por isso é tão aliciante poder ir uma e outra vez: de cada vez algo de diferente acontecerá, para nosso benefício.
Aquilo que podemos chamar de tempo do palco - sabendo que o palco é a vida - tem de ser apresentado e vivido de modo mais intenso, depurado, subtil. O palco é a vida, mas sublimada numa linguagem outra, numa relação despida, nua como um poema, ainda que de paixão feita. A energia da paixão sente-se, paira no ar, contamina as emoções, de actores e público (é verdade, não deixa de haver catarse, embora haja também distância e de novo podemos referir a individualidade tão especial desta encenadora, que funde Aristóteles e Brecht, num gesto único, como só ela sabe fazer).
Este é o segundo tempo, o mais importante, sem dúvida, mas que não pode dispensar o primeiro, do trabalho muito reflectido sempre e muito intenso.
Do texto ao palco vai por vezes toda uma vida...vivida assim com entrega.
Quem não se entrega  não vive. Adormece e apodrece, mesmo que não dê por isso. Cadáver adiado que procria, como disse Pessoa.
É lição para jovens e velhos prematuros a lição de Fernanda. Num país que precisa muito da máxima energia.