Tuesday, January 06, 2026

O ANJO

 Quem,

a não ser Ele

o Anjo da Anunciação

poderia ter ajudado

àquele parto solitário

 cortando o cordão de um sangue

 de Vida eterna

que a Virgem ainda tinha

fechado no seu ventre?

O Anjo selou essa porta 

à qual se acederia por caminhos

de pedra, corações feitos pedra,

lágrimas feitas pedra

enquanto o sangue contido

 lhe travava o caminho a Ele

o Escolhido

para a sagrada Anunciação...


Maria já não chorava,

essa água bendita

como fora o seu ventre

já perdera o sentido. 

Nos seus braços abertos

o seu Filho morria

e o Anjo emudecido

buscava novas pedras

que fossem  corações

feridos

sangrando ainda

pelo mundo perdido

que o parto não ajudara.

Um enorme cordão

ligado ao ventre do universo

 pendia agora entre as estrelas

que Maria saudara, quando o Anjo

falou. Disse as palavras 

que eram procuradas, mas noutra língua

não era a língua sagrada.


6 de Janeiro, Dia de Reis, 2026

 

Sunday, December 28, 2025

O Capitão Ahab

Entre as profundas ondas da terra e do mar

da infância pequena protegida,

ovelha num rebanho que um pastor com o seu cão

 ia guiando

até aos grandes sonhos que a vida permitia

afinal eram apenas sonhos, ilusões de uma realidade

fingida embora desejada, a pesca da baleia inacessível

apesar de tantas vezes arpoada, sempre a perder  um

 sangue indescritível, que o cosmos reconstituía

se refazia no fulgôr de um vulcão, erguido longe

no mar  e devolvia as forças ao velho capitão

insistente, indomável à proa do seu barco

que um dia só ele afundaria.



  Freud, por outras palavras.

De Teolinda Gersão, Autobiografia não escrita de Martha Freud, ed.Porto Editora, 2024

Numa bela edição, design de Susana Cruz, e letra boa de se ler, sem esforço que cegue. A Imprensa Nacional devia dar atenção a este pormenor, de uma letra boa e cuidada.

Teolinda Gersão, sendo uma Académica experiente, nunca brincaria às biografias ficcionadas. Podemos esperar que este livro, de título que parece querer brincar com o género literário, não ignore o suporte de    leitura prévia e investigação que uma personalidade controversa como a de Freud ainda hoje exigem. Por aí podemos ler em segurança, há um trabalho prévio, de honestidade intelectual, que não desmerece do valor quer de Freud quer da autora.

Escolhe um modo que pode surpreender, de início, mas a que depressa nos habituamos: veste o corpo de Martha, mulher de Freud, assume a sua voz de mulher numa época em mudança e numa altura da sua vida (mais de oitenta anos) em que já não se pode alterar o que se foi. Alguma sensação de alter-ego, numa situação em que se sentiu, por alguma razão, próxima daquela mulher que deu a sua vida a um homem tão influente e que transformou a psicologia da alma em matéria de revolução social, pessoal e por aí em parte política também.

Mas Teolinda tem pressa em chegar à personagem de Martha, a ficcionada e a real, passando por cima de Sigi, o petitnom de Sigmund Freud, prevenindo o leitor que não se ocupará do grande estudioso da mente humana, mas sim da sua mulher, cujo estatuto era ou tinha sido durante anos apagado, até à publicação das cartas em edição completa, onde ela se afirmava de carácter tão forte como o dele e merecia um lugar não igual, mas igualmente importante. 

É depois da sua morte que finalmente vibra, gozando uma liberdade até esse momento raramente sentida. A obra dele e ele era acima de tudo a sua obra, tinha devorado em parte o que podia ter sobrado para Martha. Mas naquele tempo, como em tantos casos ainda hoje, a mulher era acima de tudo o pilar da família, esperando-se dela o ser   boa dona de casa, mulher, mãe, e perfeita na relação com o seu marido - o dono e senhor de que por vezes a mulher, sem nada dizer, se sentia cansada.

Nos romances que agora se escrevem nota-se a evolução dos tempos, a liberdade assumida, mas menos vezes o cansaço da aceitação submetida. Martha, agora que se sente livre e dona de si mesma e do seu destino - mas tem mais de oitenta anos - decide então falar da relação que moldou a sua vida nesta série de relatos que recupera das cartas que escreviam um ao outro, ela e Sigi. 

Teolinda refere, na nota prévia, que leu muito enquanto preparava esta publicação e sobretudo a correspondência de uns e outros. Notei a falta da publicação das cartas que Freud e Jung trocaram entre si, abordando situações (algumas amorosas, no exercício das sessões de psicoterapia) e conceitos que viriam a alterar a sua relação de amizade, entre eles o de inconsciente colectivo que trazia à superfície os casos onde se adivinhavam símbolos e mitos primordiais, que levaram Jung  a uma visão da psique diferenciada, que Freud não entendia ou não queria entender porque em parte lhe roubaria espaço no meio médico e social a que ambos pertenciam.

Hoje penso que o pensamento de Jung lhe levou a melhor.

Mas nada disto interessava à viúva, uma Martha  agora leve  e liberta de todas as anteriores restrições sociais e familiares. Não gostava de Anna, a filha continuadora fiel da obra do pai e nunca lhe entregaria o manuscrito que agora preparava, pois ela o rasgaria de imediato. Adiante talvez venhamos a saber porquê. São sempre complexas as relações entre mãe e filha, mais do que entre filha e pai, talvez este tema não seja abordado, porque afinal há mais na vida recuperada de Martha.


 


  

   



Saturday, November 22, 2025

 A Madrugada

 Não morras de madrugada

com a tua Amada ali

passou a noite contigo

para veres um sorriso

no momento de acordar

está de mão dada contigo

não te deixará partir

iriam juntos, dizias

e agora mais do que nunca

é a hora de cumprir

é a hora de ficar

 

22 de Novembro, 2025

Thursday, November 20, 2025

RAVEL

 Oiço Ravel

a eterna Sagração da Vida

os segredos os mistérios

a pulsação secreta

por enquanto escondida.

Cada um leva consigo

a vida que é a sua

a vida que viveu.

As outras

já são vidas entregues,

vidas que os outros vivem

ouve-se Ravel que embala

mas na pulsação dos acordes

nada revela.

 

para a Ana Marques Gastão

Friday, November 07, 2025

Miguel Serras Pereira, DE SÚBITO NO AVESSO DA MEMÓRIA

Como sempre encontro logo a música subtil que envolve os seus poemas, escondendo alguma imagem secreta, por entre versos de sabor oriental. Saem livros dizendo que a poesia é para comer. Esta podia ser gamba doce, a doçura está lá e é tão boa. Falando de sabores, na verdade eu que não sou muito comilona fico presa ao ritmo, há um lirismo cantável, nestes ritmos, como no modo de tocar que nos hipnotiza em Glenn Gould, que estou a ouvir no Mezzo. Canta as notas que toca, e o Concerto adquire outra magia. Não é Bach, é Chopin, que tocado por Gould se torna igualmente incantatório. Vão leves as suas mãos e não sabemos por onde seguem as notas.

Como estes poemas de MIGUEL SERRAS PEREIRA, um grande do nosso universo poético que leio há muito tempo, e de novo agora tenho em mãos, por gentileza sua.

Um leitor de coisas rápidas, dirá são versos em poemas pequenos, e a nossa fome é grande. Gente que engole à pressa, não saboreia, não sente como Celan, cuja poesia nós apreciamos, que o menos é mais.

No avesso da memória tanta coisa se perde, outras vezes se ganha, embora já diluída, sem lamentos, como em Tanto dá. 

É o correr do tempo que por ali está a passar e nos leva para a página seguinte: 

Enquanto vamos:

É só a vida tudo o que não temos

e deixamos para trás enquanto vamos

ou nada já nos falta nem buscamos

porque é a vida só o que não temos

  

 O tempo e a vida, na inversão que se pode fazer, contrariando o Ser e o Tempo de Heidegger : o tempo é o ser que tudo atravessa, também nas pregas da memória, a vida é o tempo, retirado nas pregas, no avesso da memória.

Tão agradável a leitura que podemos repetir, sentindo na emoção o que também a nós corre na alma, não o excesso mas a míngua, mais um levíssimo acorde nos finos dedos de Glenn Gould.

Termino, lembrando ao Miguel, que me entenderá, que a memória não tem avesso, ela própria já é o avesso do que foi e será a vida...

Obrigada por esta bela leitura que me proporcionou para o fim de semana.


Tuesday, October 28, 2025

Origami

Origami

Chegava a Nau Catrineta

miniatura de cartão

pintada de azul celeste

com versos de um  poeta

que só via Portugal 

as suas brancas areias

como lençóis num estendal

estendido pelo mar escuro

 que o país ainda amava

apesar de o conhecer

e repetir os defeitos

mais versos no origami

era um barquinho perfeito

já pousado no destino

dos calhaus bem escolhidos

pedrinhas soltas a eito

para indicar os caminhos 

daquela nau tão esquecida

só ficara nas canções

nos versos do origami

tão pequeno e tão perfeito

num país que era tão pobre

mas que não era feio

tinha luz

tinha comida

e tinha uma luz escondida

para mostrar o barquinho

a quem nele fosse ver

o segredo das pedrinhas

equilibrando o destino

28 de Outubro, 2025

 



 

Saturday, October 25, 2025

Nuno Félix da Costa, Sabedoria

  SABEDORIA

Ainda não acabei de entender

o outro poema, só aparentemente mais fácil

já tenho aqui outro que impõe uma leitura que é 

ainda mais difícil, nada é fácil com a poesia

 de Nuno Félix da Costa

que carrega sempre uma noção científica e ou 

filosófica entre as linhas do poético.

Procuro então entender o poético.

Mas não é fácil o poético, porque também aqui

as linhas dos versos, por não ocultarem mistérios

mas revelarem o normal quotidiano do gesto 

 ou da situação repetida, conhecida, como o riso,

 nos deixa entregues a uma perplexidade inesperada.

 Como pode o banal ser poético? Onde me fixo? No título?

 Sabedoria?

Um mundo tão abrangente que se torna para um leitor comum

impossível mesmo de entender. Pode saber-se tudo e isso

é Sabedoria? Ou não saber nada e isso sim ser Sabedoria?

Com a enorme gargalhada que fez a criação do mundo, quem ria afinal?

Deus ou o diabo?

E porquê querer saber, se se morre na mesma, sabendo ou não sabendo?

Nada sabemos do que é revelado depois, como não sabíamos do que 

 não foi revelado antes.  Quem tinha rido na hora de chorar?

Faz sentido escrever, como busca de explicação?

Ou é mais sensato não fazer nada, deixar o tempo seguir

o grande devorador do passado e do presente

com todas as palavras possíveis que a seca ironia do riso

nos está a sacudir

a grande roda gigante concebida sem intenção de triturar