Tuesday, April 01, 2008

Henri Michaux


De 2005, mas que nunca perderá actualidade, o estudo de Robert Bréchon sobre Henri Michaux:
HENRI MICHAUX, La poésie comme destin, ed. aden.
Proposto como Biografia, é mais do que isso.
Bréchon, já no seu tratamento da obra de Fernando Pessoa nos habituara a uma linguagem erudita, de bom conhecedor (porque amando a obra daquele que nos apresentava) sem contudo perder a elegância, a fluidez do discurso.
O que fazia, no caso de Pessoa, como agora no caso de Michaux, o exercício do estudo e da leitura algo de muito sedutor. 
Os franceses são sedutores e Bréchon, neste seu livro, é sedutor em extremo. Abre-se, lê-se sem mais interrupções, capítulo a capítulo, até chegar ao fim.
Conta, como que em conversa de mesa de café, como descobriu Michaux, como o leu pela primeira vez, como veio depois a conhecê-lo pessoalmente, sem que por isso se tenham tornado de facto amigos íntimos.
Com que facilidade, morto Michaux, celebrado no mundo, editado, reeditado, traduzido, exposto em galerias e museus (era pintor e a sua obra neste campo não era de menor importância) poderia Bréchon fazer desses encontros algo de superiormente marcado e marcante, para ambos:
 Mas não; de honestidade intelectual exemplar, parte dessa elegância de ser de que falei, Bréchon diz simplesmente que Michaux a ele o impressionou e arrebatou pela obra, como pela personalidade, só aparentemente frágil (tinha um sopro cardíaco), mas que nunca chegaram a ser amigos íntimos, no pleno sentido da palavra. E conta o episódio dos convites para tomar chá, que aceitava, acompanhado às vezes pela sua mulher:
"Il la recevait avec une exquise courtoisie, devant une tasse de thé presque incolore.
Elle était fascinée par l'extrême distinction de cet homme, proche de la soixantaine...
d'une présence légère et diaphane, avec pourtant des éclats de voix, des chuchotements, des rires étouffés".
A alegria dos encontros perdia-se à medida que se aproximava a publicação da obra prevista de Michaux. Era, no relacionamento com os editores, um autor difícil:
 "J' étais pris entre les exigences de Mallet (o editor) qui avait conçu pour les volumes de la collection un plan type auquel chaque auteur devait se conformer, et celles de Michaux, dont le mot préféré était non".
E segue a saborosa narrativa, entremeada com referências à obra, marcando de forma sensível os grandes temas que seriam para sempre centrais e vitais no decurso da vida de um criador que, ao contrário do que sempre julgara, viveria até bastante tarde. 
Um dos poemas citados logo de início põe a nú essa preocupação, de hipocondríaco-poeta, com o corpo:

Je suis né troué

Il souffle un vent terrible.
Ce n'est qu'un petit trou dans ma poitrine
Mais il souffle un vent terrible.
(...)
Ah! Comme on est mal dans ma peau!
(...)
Et c'est ma vie, ma vie par le vide.
S'il disparaît, ce vide, je me cherche, je m'affole et c'est encore pis.
....
Nasci furado

Sopra um vento terrível.
É só um buraquinho no meu peito
mas sopra lá dentro um vento terrível.
(...)
Ah, como se está mal na minha pele!
(...)
E é a minha vida, a minha vida pelo vazio.
Se desaparece, este vazio, procuro-me, assusto-me e é ainda pior.

Bréchon refere-se a este poema e a um outro (Nausée, ou C'est la Mort qui Vient), como expressões do "sofrimento ontológico de Michaux", ao fim e ao cabo "o único tema da sua poesia"; e acrescenta: 
"il souffre du manque d'être, qui est l'envers d'un excès d'être" (ele  sofre da falta de ser, que é o reverso de um excesso de ser). 
E não dizia já Paul Celan, que "tudo é menos do que é/ tudo é mais " ?
Em Michaux tudo é mais.
E Bréchon, poeta, além de ensaísta notável, é o guia perfeito para esta leitura-aventura de alma.




Primavera no São Luiz

Monday, March 31, 2008

Ilustrações



Desenho de uma menina de 10 anos para um poema, O MONTE

Anoitecer suave
no topo das colinas

calam-se os pássaros,
as lebres e os coelhos
aninham-se nas tocas

sai um morcego
a debicar romãs

os gatos sorrateiros
saltam entre os telhados
em busca de algum ninho
ou de algum rato

luar de Agosto

lá em baixo
na estrada
conversam os namorados
...

( do livro a publicar, Outonais e outros poemas)

Wednesday, March 26, 2008

A Arte do Actor


Em regra são os encenadores, os dramaturgos, os críticos e teóricos que se dirigem aos actores.
Mas há outros que o fazem e cuja reflexão, neste caso poético-filosófica, não é menos interessante, antes pelo contrário. Refiro-me a HERBERTO HELDER, poeta de eleição, cujo poema merecia ser objecto de monólogo integrado nalgum espectáculo que o desse a conhecer.
O POEMACTO tem na parte III uma evocação do actor como alguém que "subtrai Deus de Deus", dizendo "uma palavra inaudível". Merecia ser lido na íntegra, eu deixo aqui  umas estrofes, celebrando assim o dia mundial do teatro.

III

O actor acende a boca. Depois, os cabelos.
Finge as suas caras nas poças interiores.
O actor põe e tira a cabeça
de búfalo.
De veado.
De rinoceronte.
Põe flores nos cornos.
Ninguém ama tão desalmadamente
como o actor.
O actor acende os pés e as mãos.
Fala devagar.
Parece que se difunde aos bocados.
Bocado estrela.
Bocado janela para fora.
Outro bocado gruta para dentro.
O actor toma as coisas para deitar fogo
ao pequeno talento humano.
O actor estala como sal queimado.
O que rutila, o que arde destacadamente
na noite, é o actor, com
uma voz pura monotonamente batida
pela solidão universal.
O espantoso actor que tira e coloca
e retira
o adjectivo da coisa, a subtileza
da forma,
e precipita a verdade.
De um lado extrai a maçã com sua
divagação de maçã.
Fabrica peixes mergulhados na própria
labareda de peixes.
Porque o actor está como a maçã.
O actor é um peixe.


Sorri assim o actor contra a face de Deus.
Ornamenta Deus com simplicidades silvestres.
O actor que subtrai Deus de Deus,
e dá velocidade aos lugares aéreos.
Porque o actor é uma astronave que atravessa
a distância de Deus.
Embrulha. Desvela.
O actor diz uma palavra inaudível.
Reduz a humidade e o calor da terra
à confusão dessa palavra.
Recita o livro. Amplifica o livro.
O actor acende o livro.
Levita pelos campos como a dura água do dia.
O actor é tremendo.
Ninguém ama tão rebarbativamente
como o actor.
Como a unidade do actor.

O actor é um advérbio que ramificou
de um substantivo.
E o substantivo retorna e gira,
e o actor é um adjectivo.
É um nome que provém ultimamente
do Nome.
Nome que se murmura em si, e agita,
e enlouquece.
O actor é o grande Nome cheio de holofotes.
O nome que cega.
Que sangra.
Que é o sangue
Assim o actor levanta o corpo, 
enche o corpo com melodia.
Ninguém ama tão corporalmente como o actor.
Como o corpo do actor.
........
O actor ama em acção de estrela.
Acção de mímica.
O actor é um tenebroso recolhimento
de onde brota a pantomima.
O actor vê aparecer a amanhã sobre a cama.
Vê a cobra entre as pernas.
O actor vê fulminantemente
como é puro.
Ninguém ama o teatro essencial como o actor.
Como a essência do amor do actor.
O teatro geral.

O actor em estado geral de graça.

(in Poemacto, 1961, dedicado a Luis Pacheco.) 


Monday, March 24, 2008

Poetas na Primavera


( ao Herberto Helder )

É Primavera
frase banal
bastava ter lido 
na agenda

os poetas acordam
nesse dia
são chamados a ler
os seus poemas

contentamento
vão...

melancolia
de quem não é
o que é
(a voz mais pura)
mas apenas  bandeira
propaganda
daquele único dia
em que se finge
que tudo é mais
quando é menos
(eu recordo Celan:
"tudo é menos do que
é,
tudo é mais")
mas de nada me serve 
recordar
ele também diz 
"vai nascendo a verdade"
e não a vejo nascer

os satisfeitos
a dedo
são perfeitos
(re)eleitos
não cantam as outras 
vozes
antes dizem e redizem
as suas palavras (re)ditas
ou benditas ou
malditas
que nada mais acrescentam
às suas vidas 
vividas
(di)vididas

eu busco
na minha estante
aquela voz
mais sumida
que sempre deu
poesia
poema servido em sangue
como o cordeiro
inocente

corro à janela e
grito
para quem possa
entender
aqui está o seu poema,
o poema
que ele escreveu e
já ninguém sabe ler

é o poema-gemido
poema-ofício-do tempo
não cabe nestas agendas
que não lembram o momento

as colunas do seu nome
o travessão
que as suporta

não obrigo ao re-Camões
que também já está
batido
embora ele nos inspire,
mas obrigo a quem o leu
e tudo com ele aprendeu
das duras lições da vida
que a vida deu
e não deu:

Apagaram-se as luzes. É a triste primavera cercada
pelo germe das guitarras.
E enquanto dorme o leite, minha casa
pousa no silêncio, e arde pouco a pouco.
No círculo de pétalas veementes, cai a cabeça -
e as palavras nascem.
- Puras, desgraçadas.

Eis um tempo que começa: este é o tempo.
E se alguém morre num lugar de searas imperfeitas,
é o pensamento que verga de flores actuais e frias.
A confusão espalha sobre a carne o recôndito peso do ouro.
E estrelas algures se aniquilam para um sublevado
campo de seivas.
Para a noite que estremece
fundamente.

Melancolia com sua forma severa e arguta, melancolia
com maçãs dobradas à sombra do rubor.
Aqui está a primavera, e nela um sexo
entre ávidos arbustos, luas excepcionais, pedras
atravessadas pela primeira música.
Contudo, apagaram-se as luzes. E eu sorrio, leve e destruído,
com esta coroa recente de ideias, esta mão
que na treva procura o vinho dos mortos, a mesa
onde o coração se consome devagar.

Eis então o poeta
o seu Ofício Cantante

está deitado no chão
da casa mais antiga 
ao pé do mar
 na ilha
onde não há sereias
nem vozes
que decomponham
o som da sua voz
a música
da primeira 
e última 
Primavera

(ler Herberto Helder, Ofício Cantante )




Friday, March 21, 2008

Nos 60 anos do Hot Club de Portugal


Outras Vias, Outras Vidas


Na cave...

de olhos fechados
pisar
outros caminhos

florestas
lagos
planícies

desertos
precipícios

a música retém
o pensamento
dilata o coração

alarga
afunda
o peito

acelera
trava
suspende

a frágil
emoção

que não sabemos
quando
como
muito menos
ainda
de onde
vem

pairam no ar
nas espirais
do fumo
que não há
as vozes soltas
loucas
de
intensos
instrumentos

um sax branco
lidera
mas não por muito
tempo

o piano intervém
tem coisas a dizer
o baixo
a bateria
algo vão contrapôr
e a guitarra
lírica
também se faz ouvir

já ondulam os corpos
balouçam
as cabeças

alguém pede cerveja
para que não se veja
a lágrima que espreita
o choro
que se contém

o silêncio
é total

uma criança aguarda
no alto
das escadas

sonha
viaja
flutua
naquela bolha
de sons

fez-se a iniciação

mais uma noite longa
outras mais hão-de vir

alguém disse
olhe que não
o blues não é azul
e não tem de ser
melancolia

é saudade perdida
lembrada

de outras vidas

....

Tuesday, March 11, 2008

Erata

O Príncipe no Reino dos Lagartos



Às meninas e meninos de todas as idades...
ler com prazer também é aprender.

Ou, como no lema que as Edições Erata escolheram para a Feira do Livro de Leipzig, neste Março :
besser lesen, besser lieben
Por outras palavras:
quem melhor lê, melhor ama

Friday, March 07, 2008

Teatro Praga


Turbo-Folk, pelo Teatro Praga no São Luiz:
O São Luiz dando sempre o exemplo ( a que já nos habituou ) de generosamente abrir as portas a tudo o que inova e renova, mexe e remexe, com uma alegria e um humor que ultrapassa os limites da cena e atinge, como a seta incerta mas certeira dos jovens turbo-lentos lá de cima, nós todos, os de cá de baixo.
Eu gosto de palcos assim, onde tudo acontece ao mesmo tempo, paciência para quem se distrai e perde um ou outro detalhe. A solução é voltar e voltar a ver...algo que neste caso se fará com gosto.
Num palco onde tudo acontece, tudo pode acontecer: canto, surpreendente, na bela voz de Larissa, intervenções de stand-up (um pouco longas na segunda parte do espectáculo) e cartazes (piadinha brechtiana de distanciamento) e diálogos de delicioso delírio por onde passa tudo o que pode passar:conversa de café, filosofia, metafísica, teologia, psicanálise, numa onda "pseudo"- que desmistifica o intelectualismo que felizmente para nós já foi pior do que é, embora ainda subsista.
A proposta é de diversão em versão colectiva que podemos e devemos aplaudir, não tanto pela coragem, como era costume alguns dizerem (era tão in ser corajoso, quando já não havia perigo nenhum) mas pela inventiva, post-post (outro cliché, mas o que se há de fazer...) pela fluência do ritmo, sem nunca chegar a ser alucinante. Poderia ter sido, o aquecimento fora excelente, estávamos bem preparados !
Sem esquecer que no actual ciclo se inclui o que neste momento há de melhor em Portugal: a presença de emigrantes, de África, Brasil ou como, neste caso, do Leste, trazendo experiências e imaginários que nos abrem espaços de criação a que não estávamos habituados.
Não sabíamos rir ( e será que já sabemos? )
Mas é assim que se começa: infiltrando a melancolia atlântica até que essa espessa substância da alma se transmute em pedras de alegria.
A minha geração cresceu com o Prazer do Texto (Barthes, sim, também sou culta..) as novas gerações podem crescer com O PRAZER DO PALCO.

Monday, January 28, 2008

O Conto de Goethe/ E.Nunes: produção e post-produção



Quem conta um conto...acrescenta-lhe um ponto.
Emmanuel Nunes quis ser fidelíssimo ao espírito e à letra do Conto de Goethe, mas essa fidelidade prejudicou a ópera como espectáculo "total" que deve ser.
Uma ópera é um todo que inclui o libreto e a música, o canto, a encenação, figurinos e acima de tudo um fio dramatúrgico que estruture e sustente a acção, por muito subtil que a desejemos.
Vários destes elementos não estiveram presentes, por excessiva preocupação de ter tudo todo o tempo e em simultâneo, num palco que se tornou confuso e, para a leitura ( entendimento ) do espectador, inoperante. A dada altura esse excesso tornou-se mesmo insuportável, com os actores/cantores e sobretudo com os bailarinos (absolutamente dispensáveis) abandonados no palco, esbracejando (não, não é assim que se improvisa) em vez de obedecer a alguma coreografia que acrescentasse algo mais ao rigor da composição que nos era oferecida. Não sendo possível, ou desejável, acrescentar algo mais o melhor teria sido eliminar os bailados. Ganhava-se em coerencia.
Emmanuel Nunes "leu" o Conto com fidelidade, mas sem prescindir em nada do que entendeu ser a sua liberdade de criador-compositor.Assim, ampliou de tal modo a composição para lá dos sentidos do Conto que estes, sendo vários, se perderam por completo no tal excesso que acima referi.
Emmanuel não se cingiu a uma das linhas centrais dessa obra esotérica quanto baste. Optou por "apresentar" em vez de escolher, mas escolher faz parte do acto de criação, tanto quanto a liberdade de criar.
Na escolha reside a ordenação, sem escolha o que fica é uma soma e nem tudo o que se soma num palco resulta a bem do espectáculo.
O grande defeito de E. Nunes foi não ter ficado apenas com um dos temas mais caros a Goethe (imaginário alquímico, iniciação maçónica, ideal de serviço a uma utopia social transformadora) mas uma tentativa de livremente (arbitrariamente? ) ir compondo o que as imagens literárias lhe sugerissem, deixando aos outros colaboradores a dificuldade de lidar com um palco que poderia ser muito post-moderno mas se tornou de uma monotonia que prejudicou O Conto, Goethe e o desejo de conhecer melhor a obra deste gigante da cultura universal. Faltou aqui um dramaturgista que ajudasse o compositor nesta sua primeira ópera.
A ópera, como teatro que é, não pode viver só de imagens, precisa de uma dinâmica própria que as articule.

O Conto da Serpente Verde desdobra em duas figuras condutoras - o Barqueiro, que virá a ser o sacerdote do templo que surge das águas do rio, e o Velho da lanterna, que será o guia, conduzido pela luz da razão - a verdadeira natureza de Goethe, que em si reúne duas tendencias aparentemente contraditórias:
Sentimento, ou sensibilidade (Empfindsamkeit) e razão iluminista ( Aufklaerung ). A primeira vinha de longe, das correntes místicas e pietistas e, a dado momento da vida de Goethe, revela-se importante, na amizade de Suzanne von Klettenberg e através dela pelo conhecimento de uma série de doutrinas de carácter alquímico e hermético. A segunda é oriunda de França, com o cartesianismo florescente, a corrente dos Enciclopedistas, a doutrina da liberdade, igualdade e freternidade, marcas de uma Revolução que se desejou, a dado momento, importar para a Alemanha. Mas foi em Kant que melhor se definiu o Iluminismo, com o tratado da Razão Pura. E contudo, mesmo ele impôs limites à Razão, fechando o acesso possível ao conhecimento em "categorias", para além das quais nada se poderia conhecer. Entrava-se então noutro domínio, o da "Razão Prática", cuja entendimento recuperava a intuição, a transcendencia, a Moral, outras esferas, outros valores e experiências, para os quais a Razão só por si não podia contribuir.
Voltando ao Conto:
Entre as múltiplas personagens e as múltiplas escolhas de linhas de evolução o compositor podia ter preferido uma ou outra, mais profunda ou menos substancial, mas impunha-se, a meu ver, uma escolha.
Goethe é um gigante do pensamento universal, lança uma grande sombra à qual nos podemos acolher. Mas se assim é, tem de haver respeito por quem lança a sombra e a sua protecção intemporal. Podemos ironizar com os comportamentos, não o devemos fazer com o sentido profundo das suas obras e do seu pensamento, neste caso simbólico e mítico, como se sabe.
Emmanuel Nunes talvez devesse ter ouvido a exclamação do barqueiro aos fogos-fátuos: ouro não, não posso aceitar moedas de ouro como pagamento, só frutos da terra. Leia-se a piadinha alquímica: há os verdadeiros filósofos e os falsários, os "falsos" alquimistas, como se diz nos antigos tratados; só quem reconhece o ouro espiritual, a estrela no homem (segundo Paracelso ) pode seguir bom caminho; e esse caminho é o dos valores mais antigos, primordiais, da Sabedoria Perene. Só ela encontra e distribui os verdadeiros frutos da terra.
Ah! Mas podemos querer ser artistas sem necessariamente querer ser sábios.O exercício post-modernista passa, muitas vezes, precisamente pela negação do estudo mais aprofundado...
Então foi má ideia ter escolhido um Goethe como rampa de lançamento.Esta questão leva-nos, naturalmente, à encenação e sua problemática, dado que não houve uma prévia dramaturgia que desse movimento a um texto todo ele feito de movimentos e transformações condutoras.
O encenador é o segundo autor da obra que encena. Também aqui a questão se coloca: faz o que quer do libreto de Emmanuel Nunes, do Conto de Goethe, de nenhum, de ambos ? O que escolhe fazer como obra própria ( a grelha ) que o público colocará sobre as outras que serviram de base ? Ou faz indistintamente o que lhe apetecer, considerando o palco o seu espaço próprio, ainda que neste caso da ópera sujeito ao rigor de uma partitura, uma prosódia, ou uma simples dicção?
Os encenadores post-modernos terão uma resposta - parecida com a ideia radical da arte pela arte que, desde a década de 50-60, entretanto evoluiu no sentido do "mais" ser melhor do que o "menos". E do muito mais ainda muito melhor: como se o público só entendesse o que lhe fosse repetida e exuberantemente mostrado : amontoa-se, não se ordena, deixando que seja o espectador, também ele livremente, a fazer a sua ordenação.
Há um exibicionismo nas leituras modernas dos textos que em nada contribui para que se ame esses textos. O excesso mata, tanto quanto a penúria. Mas a fome deixa espaço para mais, e a indigestão não deixa espaço para nada.
Há modelos exemplares de tratamento moderno de grandes autores: Boulez/Chéreau para a Tetralogia de Wagner; Peter Stein (encenação) para o Fausto I-II de Goethe; ou, se quisermos, a plena post-modernidade de um Bob Wilson.
Bob Wilson é o melhor exemplo do que se pode fazer numa leitura (interpretação) de grandes clássicos: as óperas de Gluck que já podem ser apreciadas em DVD, ou ainda o emocionante e deslumbrante Black Rider (adaptação do Freischutz de Weber) apresentado em Paris, com uma aplauso de pé que durou mais de meia-hora.
Mas em todas estas produções se poderá encontrar o sentido profundo da obra que esteve na base da sua criação, ainda que "relida" a seu modo, através de um olhar que dá mais substância ao espaço num rigoroso, geométrico, puríssimo desenho de luz.
Enquanto no caso do criador-compositor podemos hesitar entre dois modelos: o de Wittgenstein "Wovon man nicht sprechen kann darueber muss man schweigen" ou o de Valere Novarina " ce dont on ne peut parler c'est cela même qu'il faut dire ", no caso do encenador talvez a questão se ponha de modo diferente e se possa então discutir, com Nicolas BOURRIAUD em Esthétique relationelle ( 1992 )a questão que ele levanta:
"Pourrais-je exister dans l'espace défini par une oeuvre et comment ? ".
Como historiador e crítico de arte a discussão poderia cingir-se apenas à criação actual de pintura, instalação, outra; mas julgo que a sua proposta vai mais longe e se aplica, na dúvida ou na certeza eventual, a todas as formas de criação em geral, na época da velocidade, da simultaneidade que faz do artista um coleccionador "de dados a manipular, reutilizar, reencenar" (Postproduction, 2001).
O encenador deste Conto ofereceu citações retiradas de uma cultura cinematográfica e não só: por exemplo, a Princesa tem as mãos de Eduardo mãos-de tesoura, filme em que Johny Depp brilhou há alguns anos.Mas chegará para salvar uma peça?
Oferecer tudo, todo o tempo, a todos, é uma proposta que se esgota a si mesma, pela usura que daí advém, para o criador e talvez mais ainda para o espectador. E à la longue é o espectador, sempre renovado com o passar do tempo, que mantém viva a obra de arte.
Chegámos onde chegámos - como espécie inteligente- pela selecção.
O criador que não seleccione, na "post-produção" do seu processo criador, ficará talvez visível por um tempo, mas só por um tempo, e quando se afundar tudo se afundará também com ele. Não digo que tenhamos de nos prosternar diante do passado das obras e seus autores.Devemos servir-nos delas e deles, mas com inteligência e sensibilidade.
Concluindo com Bourriaud:
" Cabe-nos a nós, espectadores, julgar as obras de arte em função das relações que produzem dentro do contexto específico em que se movem.Pois a arte, e não vejo outra definição que a todas englobe, é uma actividade que consiste em estabelecer laços com o mundo, materializando de uma forma ou de outra as suas relações com o espaço e o tempo".
Não por acaso Bourriaud anuncia que no seu próximo livro falará do fim do pensamento post-moderno.

Monday, January 14, 2008

PESSOA, PAIS E OUTROS MAIS


Ricardo Pais trouxe a Lisboa a sua nova encenação de Fernando Pessoa, em "Turismo Infinito", não apenas o do poeta, mas igualmente o seu, com a capacidade notável que tem de viajar por inúmeros autores, obras, sensibilidades: de um primeiro, fortemente irónico, expressionista como Sternheim, até à composição de um FAUSTO fragmentado como o próprio Pessoa era e nunca deixou de ser. Nesta sua abordagem de outrora (um clássico que devia ser estudado, dele fazendo-se um dvd, como se fez do Fausto goetheano de Peter Stein ) a fragmentação era acentuada pelo modular do espaço cénico em caixas e recortes que permitiam sentir a tensão dramática sem que, no seu impulso (pois no Fausto de Pessoa não há decurso, ao modo tradicional, há impulso, repetição obssessiva) ela se perdesse, desviando o espectador  da verdadeira linguagem, altamente elaborada, de Pessoa.
É raro, e só um encenador de grande brilho saberia como respeitar, em perfeito enquadramento e sintonia, uma obra literária tão complexa como a do nosso poeta : aconteceu outrora em FAUSTO,FRAGMENTOS, com a colaboração de António Lagarto para a cenografia.

O TURISMO INFINITO agora apresentado torna-se extremamente interessante, por vários motivos, mas destacarei este: Ricardo Pais percorreu um caminho que vai da FRAGMENTAÇÃO À TOTALIDADE, como acontece num dos poemas escolhidos para o espectáculo: CHUVA OBLÍQUA (pertencendo ao exercício interseccionista, mas a meu ver imbuído de alquimia pelo modo como as imagens e os símbolos aí se manifestam ).
Perante a escolha de poemas e a articulação dramatúrgica de António Feijó, Ricardo Pais sentiu a necessidade de ultrapassar a fragmentação de personalidades de um outro infinito turismo, o do fingimento das vozes poéticas em infinito contraponto, e alcançar a esfera mais profunda e mais obscura de um Eu em permanente fuga e dissolução.
Entra aqui a colaboração de Manuel Aires Mateus que trouxe, com a sua concepção de um espaço cénico negro e aberto, a possibilidade de cada texto adquirir, com a sua linguagem-luz própria, o seu mais incantatório e mágico significado.
O palco é um lugar de magia: ali se transmutam emoções, ali o mundo se abre ao espectador que pode, mais consciente ou inconscientemente, ampliar, também ele, o seu espaço de reflexão, a sua visão da Obra como todo.
A escolha de Manuel Mateus tem ampla influência no efeito que os textos escolhidos adquirem no âmbito da encenação, contida, sóbria e por vezes sombria quanto baste, de Ricardo Pais. Houve entre ambos uma sintonia perfeita e é desse modo que podemos dizer que nesta viagem pessoana, empreendida há anos por Ricardo, este chegou à totalidade que uma primeira fragmentação permitiu e aqui e agora se conclui.
A geometrização do universo pessoano é integrada na geometria com que Manuel Mateus redesenhou o palco, na sua escura pureza: o eu estilhaçado do poeta é recolhido, nos seus pedaços, até à visão do círculo, a bola de brincar que pertence a todas as infâncias:


"Todo o teatro é o meu quintal, a minha infancia
Está em todos os lugares, e a bola vem a tocar música
Uma música triste e vaga que passeia no meu quintal"


A batuta do maestro ( a música, linguagem do inconsciente por excelência, prescinde da palavra, é anterior a ela ) e a bola desencadeiam a chuva de imagens da infância que fundindo-se e confundindo-se na alma do poeta o fazem regressar à esfera do "indiferenciamento" do inconsciente, onde todo o processo criador se origina, tomando forma depois, quando a confusão cessa "como um muro que desaba".
No poema, aquilo a que Jung chamaria a Conjunção das imagens fundadoras não chega a levar o poeta  a uma consciência que ultrapassasse a dôr da fragmentação e da perda.
Mas no espectáculo concebido por Ricardo Pais, naquele espaço de sombra de onde as vozes se erguem, ora uma, ora outra, consegue-se a Totalidade ambicionada: o teatro também é isso, um espaço onde a sombra, nossa e dos outros,se ilumina.
Sem entrar em considerações mais vastas, de que me ocupei, faz anos, num artigo intitulado FRAGMENTAÇÃO E TOTALIDADE EM "CHUVA OBLÍQUA", termino, prestando a minha homenagem a Ricardo Pais, Manuel Mateus e todos os da equipa, participantes nesta verdadeira obra-prima de entendimento de um grande autor.
Não esqueço os actores, por vezes tão mal amados no nosso meio artístico, fazendo com que a muitos só ocorra fugir do país ingrato.
Mas eu tenho visto "crescer" as gerações: 
Assim, desde  os Monólogos de Graça Lobo, nas Cartas da Freira Portuguesa, culminando no inesquecível Monólogo de Molly Bloom ( de um Joyce que Pessoa foi dos primeiros a ler ) passando, na última Saison, pelo Monólogo de Beatriz Batarda em Quando o Inverno Chegar, sublinho o Monólogo da Corcundinha nesta peça de Ricardo, entregue ao virtuosismo de Emília Sylvestre.
Tanto no caso de Beatriz como no de Emília detectamos uma genial capacidade de alterar o jogo a que se assistia, dando elas voz a um torvelinho de emoções que desarticulam o excesso de racionalidade que podia estar em causa; o peito rasga-se, a voz sobe e a respiração fica em suspenso até ao limite do possível - tudo prova de soberbo domínio e subtil mas marcado profissionalismo. 
Last but not least, "Eles" : compõem a música do mito pessoano, sendo o mito a constelação das vozes que tentam responder, de forma estruturada, à interrogação do poeta sobre si mesmo, o seu lugar no mundo,  no universo inteiro. 
Não há resposta: e os actores, numa articulação medida e quase neutra ( que muito teria agradado a Sophia de Mello Breyner ) é isso mesmo que nos deixam perceber.
Pode haver diferente, mas  melhor é impossível .

Permito-me, como velha pessoana, sugerir um elemento bibliográfico: 
Ettore Finazzi-Agrò, O Alibi Infinito, o projecto e a prática na poesia de Fernando Pessoa, ed. Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1987

 
 
    


Wednesday, January 09, 2008

teatro e sociedade





São ensaios, não são peças de teatro...
Sobre o prazer de ler e ver !

Thursday, January 03, 2008

Luis tinoco


Ei-lo que volta a atacar, com Terry Jones...
Não haverá melhor maneira de viver o Novo Ano.
Parabéns Luís!

Wednesday, January 02, 2008



Sombras


É a Sombra
das sombras

vagueia
pelos jardins

perde-se
nos labirintos

afoga-se
nos lagos

esconde-se
nos corredores
de bambú

escapa-se
pela ponte
que não une

antes separa

as pedras
do templo
e do palácio


2 de Janeiro de 2008
(agradeço a Gawain a lindíssima fotografia)

Saturday, December 15, 2007

Natal 2007

Natal
Ao sol
de olhos fechados

oriento-me
como as plantas

um canário invisível
gorgeia
a despedir-se,
não tarda a noite
vem aí

fecho as janelas
mas não corro as cortinas
que não tenho

a lua vem a seguir
com o seu brilho

Wednesday, December 12, 2007

Andre Letria


A Ilustração como arte do simples e do belo merece aqui um destaque.
André Letria "abre" OS LUSÍADAS, faz do livro a sua aventura, de memória e de mar, ao sabor das escolhas de Manuel.
Navegamos com ele nessas ondas.

Manuel Alegre


De Manuel Alegre, com ilustrações de André Letria, um primeiro CAMÕES dedicado aos netos, mas que será um prazer para todos.
"Quando eu era criança, lembro-me de ver na minha casa e nas casas de pessoas de família ou amigas, normalmente na sala de visitas, um livro grande, encadernado, que se destacava de todos os outros."

Também eu tive na casa dos meus pais, sempre à mão, um livro que era OS LUSÍADAS : um minilivro, em papel bíblia, editado em Leipzig, e que andava comnosco de bolso em bolso, de casa para casa. Tinha pertencido ao meu avô.
Hoje a primeira página tem uns risquinhos dos meus netos, e já tirei o livrinho da vista de todos. Escondo-o no meu escritório, onde as mãozinhas não se atrevem tanto.
Mas abundam nas estantes muitas outras edições da Obra de Camões, para quando chegar o momento de a estudarem. Essa é a maneira de despertar o gosto e a curiosidade de ler: ter os livros à mão, deixar inclusivé um ou outro risquinho...Pegou-se no livro, perguntou-se o que é ou de quem é, falou-se do que lá vem, do que fez quem escreveu, quando foi, em que tempos.

Ler é sempre uma aventura maravilhosa, e com este primeiro Camões que Manuel Alegre nos oferece o país natalício alarga o seu sentido: que haja mais memória, que haja mais leitura e literatura nas prendas que se dão.

Monday, December 10, 2007

Jorge de Sena



As edições ERATA de Leipzig continuam com a sua linha de literatura portuguesa contemporânea, entregue aos cuidados do tradutor MARKUS SAHR, a quem os desafios difíceis, como este de traduzir Jorge de Sena, não atemorizam, antes pelo contrário.
Depois de Herberto Helder, Manuel Alegre, Jorge de Sena, outros se seguirão...
Bons Votos para 2008 !

Luis Tinoco




A não perder:
a últimas apresentações dos CONTOS FANTÁSTICOS de TERRY JONES, musicados por LUÍS TINOCO, com a ORQUESTRA METROPOLITANA de Lisboa.
Serão ditos por JOÃO REIS, sexta, sábado e domingo.
O mundo poético e humorístico de Jones encontra em Luís Tinoco uma inspiração feita de empatia e alegria: les beaux esprits se rencontrent!
Quem gosta de boa música, de ler e ouvir dizer, aproveite esta ocasião.

Tuesday, December 04, 2007

Tavira Forever

Ah, amigo,
naquele tempo era o mar
com as praias douradas
e mais acima o campo
de árvores debruçadas
sobre as pedras do rio
( amendoeiras rosa,
alfarrobeiras velhas )

naquele tempo o jardim
tinha um lago de peixes
e no coreto a banda
ainda tocava

havia o miradouro
com a serpente enrolada
na branca escadaria

para lá se fugia

ninguém nos descobria
ninguém nos castigava

Wednesday, November 28, 2007

Ilustrarte 2007




Belíssimo catálogo de uma iniciativa que já atingiu dimensão internacional.
Decorreu no Barreiro (afinal não é só em Lisboa que as actividades culturais e artísticas acontecem, e ainda bem) esta bienal internacional dedicada à ilustração para a infância.
O catálogo contém uma mostra muito completa e variada de autores e estilos e é antecedido por uma observação de Paula Rego, pertinente, como tudo o que ela diz:
" Nunca percebi por que é que o termo ilustração é usado depreciativamente no mundo da arte....É uma vez mais o velho e estúpido snobismo das Belas Artes".
Felizmente tudo muda, embora às vezes demore muito tempo, e o esforço confiante dos comissários Ju Godinho e Eduardo Filipe ganhou esta batalha contra o preconceito.
De 1360 concorrentes escolheram-se 50.
E foi uma aposta ganha.
A Ilustração é Arte, como conclui Anthony Browne, um dos membros do júri. E diz mais:
que prevalece a originalidade sobre a técnica, embora saber desenhar seja um pressuposto
que as ilustrações não são descrições do texto mas criações a partir do texto
que são para todos e não só para crianças as ilustrações dos criadores

O Prémio desta edição foi ganho po Susanne Jansen, com Hansel e Gretel, (ténica mixta). Fez a capa do catálogo.
Mas há interessantes Menções honrosas, como a do francês Martin Jarrie, Drôles d'Oiseaux (acrílico) que deixo também no post. É de um lirismo que contrasta com o realismo de traço forte da ganhadora e demonstra como foi variada a mostra dos artistas.

A dimensão da arte- do texto ou da ilustração- é universal, ou não é arte.
Aqui fica esta ideia, para bonita prenda natalícia...

Friday, November 23, 2007

Melancolia de Durer



Para H.C.
A Melancolia de Durer


A minha primeira sugestão, para o entendimento desta obra, seria ler SATURNO E A MELANCOLIA, de Klibansky,Panofsky e Saxl.
Em seguida, não menos importante, de Edgar Wind, MYSTÈRES PAIENS DE LA RENAISSANCE (trad.franc. Gallimard); e ainda, de Edwin Panofsky, STUDIES IN ICONOLOGY, Humanistic Themes in the Art of the Renaissance.
Nestes autores se encontra abundante e rigorosa informação sobre a época, a divulgação de um novo pensamento, neo-platónico, cabalístico, alquímico, através das traduções devidas a Marsilio Ficino, Reuchlin, Pico della Mirandula, os grandes expoentes do Humanismo e Renascimento.
O Anjo de Durer tem a marca da Melancolia, estado de alma atribuído a Saturno, e marca, nos alquimistas, da NIGREDO, anunciadora de uma transformação espiritual (que pode ou não vir a concretizar-se).
Na criação artística essa melancolia tanto pode representar a pausa depressiva, depois de completada uma Obra, como um compasso de espera em que alguma coisa se aguarda, seja a revelação, seja a mudança.
No exercício artístico a espera pela inspiração pode traduzir-se num tédio melancólico, que só um novo impulso virá modificar.
No dicionário Mito-Hermético de Dom Pernety, lemos que a Melancolia significa a putrefacção da matéria. Os adeptos também a designam por calcinação, incineração, matéria "ao negro" (nigredo) por haver algo de triste na côr negra. Mas na Obra alquímica a nigredo anuncia as novas fases: albedo e rubedo, a da perfeição maior.
O Anjo de Durer aguarda, de asas caídas, que a transformação se verifique.
A Melancolia I, de 1514, é geralmente vista pelos historiadores de arte como uma figura de mulher representando a condição humana na sua impossibilidade de atingir a perfeição do conhecimento e da vida, da sabedoria divina e dos segredos da natureza ( depois da expulsão do Paraíso).
Mas há mais a dizer, e o que é de salientar é a influencia dos escritos de Marsilio Ficino, conhecido do pai de Durer que o mantinha informado das recentes obras desse autor.
Willibald Pirckheimer, amigo chegado, levara precisamente o LIBRI DE VITA TRIPLICI de Ficino (Florença,1489 ) e o padrinho de Durer, Anton Koberger publicara em 1497 as cartas de Ficino, onde muita matéria hermética era discutida. A sua visão do "carácter saturnino" é a própria da melancolia do homem de génio, enquadrando-se ainda na definição do místico neo-platónico cristão.
Ficino distingue dosi tipos de melancolia, uma própria do brilhantismo da mente, outra da doença maníaco-depressiva.
Mas mais interesssante, na minha opinião, é a afirmação feita por outros estudiosos, para quem a iconografia da Melancolia I coincide com a definição de Agrippa von Nettersheim em DE OCCULTA PHILOSOPHIA, que circulava em manuscrito já desde 1510. Ainda que influenciado por Ficino, vai mais longe na clarificação dos tipos de melancolia, referindo a "Melancholia Imaginativa", uma condição própria dos artistas, arquitectos e artesãos...Não há dúvida que é nesta categoria que se inclui a obra de Durer e o seu significado. Assim, para lá do Anjo, que não é mulher, é figuração da Anima alada, ainda que de rosto escurecido ( melancolia em grego é bílis negra), a caminho da espiritualização, há elementos simbólicos à sua volta que são importantes para decifrar o negro momento da espera:
O compasso na mão, símbolo da ordem que a medição impõe.
A ampulheta, que mede o tempo, limite último da nossa condição.
A esfera, representação máxima da completude, da perfeição.
A Pedra cúbica, símbolo da Pedra alquímica, aos pés da escada onde parece dormir um "putto"( o puer eternus, mediador da transformação).
A escada, que podemos encontrar em muitas gravuras alquímicas, símbolo do caminho e da ascenção a que conduz (recorde-se o fim do Mutus Liber).
A balança, símbolo do equilíbrio, da harmonia que é preciso cultivar.
O cão enrolado aos pés, animal que é companheiro da obra e do adepto em muitos tratados, como se vê em Mchael Maier, ou até no Fausto de Goethe, quando Mefisto escolha a forma de cão para seguir Fausto até casa (figura a natureza animal a ser purificada).
Last, but not least, O Arco-Íris e o sol no horizonte, símbolos da AURORA CONSURGENS, tratado de enorme influencia (estudado por Marie-Louise von Franz). A luz dissipará o dragão, variante da Besta do Apocalipse que define a melancolia.
Mas, para além de todas as explicações, bom mesmo é contemplar a gravura e deixar que as suas imagens, como ideias-força, tomem conta de nós.

No meu outro blog, de simbologia e alquimia, pode encontrar a indicação de uma obra de M.L.von Franz, Alchimie et Imagination Active onde, a partir de um tratado de Gerhard Dorn, seguidor de Paracelso, se definem as formas de meditação como imagens do Eu profundo a ser assimilado pelo processo da "imaginação activa".

Desenhos de Durer




Caro Henrique,
Veja como no auto-retrato do jovem Durer ( desenho, c.1491 ) já se exprime a preocupação e a concentração de espírito que veremos na Melancolia e noutras gravuras e pinturas posteriores.
Há uma sombra passando neste rosto, bem semelhante ao do Anjo, e o apoio da mão é muito característico.
Acima ficou outro desenho, o de um velho de 93 anos, como ele descreve, "ainda saudável e levando uma boa vida" em Antuérpia.
Supõe-se que serviu de inspiração à pintura de S. Jerónimo que se encontra no Museu de Arte Antiga em Lisboa.

Saturday, November 10, 2007

Mealibra



Mealibra, revista de literatura e arte, celebra Agustina Bessa-Luís e David Mourão-Ferreira, nesta edição de Outono.
De Agustina celebram-se os 85 anos.
De David a memória.
Li Agustina pela primeira vez por sugestão de um amigo: lê OS INCURÁVEIS, lê os TERNOS GUERREIROS (eram os anos 60, eu tinha vinte anos). Na sua prosa excessiva, torrencial, podia-se mergulhar como num mar profundo. A sua obra tinha a marca do génio, a marca da diferença, quase uma maldição (por ser mulher). Atrevia-se, na cidade dos homens, a desarticular sentidos, paixões, percursos e cruzamentos sociais, numa escrita forte, determinada, em que imperava o universo feminino, com as suas sombras, os seus medos, as suas traições.
O mundo de Agustina é um mundo ao mesmo tempo mágico e cruel de tão real. O seu olhar não perdoa, a sua mão é fiel ao seu olhar.

Mais Luis Miguel



Para saber mais sobre Luís Miguel Cintra e a aventura do Teatro da Cornucópia, o livro de Maria Helena Serôdio, editado pela Cotovia.
Através dele acompanharemos a aventura de uma vida inteiramente dedicada ao teatro e ao serviço de uma verdadeira educação pela arte, na mais nobre dimensão ética e estética que a possa definir.

Saturday, November 03, 2007

Sonata de Outono



Mais uma vez o Teatro São Luiz faz brilhar a rentrée.
Com a Sonata de Outono de Ingmar Bergman, que muitos de nós viram a seu tempo no cinema, construiu-se um espectáculo intenso, enquadrado num palco que lhe confere uma dimensão lunar superior.
No limiar da consciência assiste-se ao dizer tumultuoso e cruel de um inconsciente longamente recalcado.
Afrontam-se mãe e filha (s), com as suas memórias, as suas acusações, sofrimentos e remorsos.
A ferida incurável e a degradação dos sentimentos estão claramente simbolizados na filha doente, com uma doença degenerativa que a mantém presa à cama e já incapaz de se exprimir a não ser por sons quase incompreensíveis.
O tema subjacente é o da impossibilidade de dizer, de comunicar, de estabelecer um elo mais verdadeiro entre o sentido, o pensado, o dito. O sucesso da mãe, por excessivo, apaga a tímida luz da filha que finalmente confessa o sofrimento por que passou. Mas como ela própria diz, o sacrifício da mãe ficando em casa por amor em nada melhorou a relação, que continuou difícil.
A dôr de uma será às vezes o remorso de outra, não há mãe que não tenha vivido com o remorso: de ter dito, ou de não ter dito; de ter feito ou de não ter feito, sabendo-se à partida que o dizer e o fazer são quase sempre impossíveis.
O círculo de luz azul que ilumina a esquerda da cena figura bem a solidão mais nocturna da alma, o fechamento a que tudo se reduz no fim.
Lembra também que a perfeição formal é um momento isolado no contexto da vida.
A vida é feita de outras coisas, marcas pequenas da nossa permanente e humana imperfeição.

Assina o cenário e figurinos o António Lagarto, com a sua mão de Mestre. Quem tem arte e métier destaca-se pela qualidade da obra, e ele é exemplo disso: repare-se na solução encontrada com o piano de brinquedo (resolve a questão da música tocada e discutida) a casinha e o comboio, sublinhando o universo da infância que se desmoronou.
A direcção musical é de Nuno Vieira de Ameida, com o bom gosto e rigor que lhe são conhecidos.
A encenação é partilhada: Fernanda Lapa e Cucha Carvalheiro. O trabalho conjunto destaca-se pelo mesmo rigor já referido acima para o António e o Nuno, e por uma sobriedade que deixa respirar o texto e o trabalho dos actores: cada um a seu modo vai ocupando o espaço que lhe cabe, materializando com o corpo e com a voz o Outono da alma em que cairam.
Se muito passa pela relação mãe-filha e pela (in)capacidade ou impossibilidade da abdicação maternal, tudo passa, em surdina, pela discussão da arte e da relação do artista consigo, com a sua arte e com o resto do mundo: para o artista (como é o caso desta mãe) não há resto do mundo, só satisfação e realização pessoal, numa fuga constante à realidade.
Para o artista o real pode tornar-se insuportável.
Uma palavra de admiração excepcional para o trabalho de actriz de Fernanda Lapa, incarnando estes dilemas.
Estão todos de parabéns.

A Peça ficará em cena até 25 de Novembro.
Quem gosta de teatro deve ir ver.

Saturday, October 27, 2007

Luis Miguel Cintra o Construtor


A peça de Ibsen escolhida para um conjunto de representações que fecharão o Outono não podia ser outra.
Luis Miguel Cintra foi por excelência o Construtor do teatro moderno em Portugal : as actividades do grupo da Faculdade de Letras não se esgotaram quando o grupo transitou do espaço estudantil para o espaço mais real e mais duro da vida.
Nesse espaço real, que cresceu com o tempo, se afirmou a escolha decisiva de um TEATRO DO SER, o mais difícil, porque não permite oscilações de carácter, nem acomodações facilitistas.
Poucos no nosso meio cultural terão demonstrado, ao longo dos anos, uma tão grande entrega à paixão do teatro. Servindo-o com uma extensa e sempre actualizada bagagem cultural, feita da leitura profunda dos grandes temas e dos grandes autores.
Luís Miguel Cintra é o Mestre, no sentido mais clássico do termo, que George Steiner entendeu definir.
É aquele que nos pode ensinar, como se diz no Segundo Fausto, porque também ele aprendeu: " ...dieser hat gelernt/ Er wird uns lehren".

A Aprendizagem faz-se na vida, o segundo elemento logo a seguir à cultura que se adquire. A vida é sempre mais rica porque na vida nada está adquirido à partida, a entrega tem de ser confiante e esperançada, e acima de tudo FIEL: a uma ideia, um sentimento, um objectivo, uma paixão. Neste caso a paixão do palco, partilhada com o resto do mundo que a deseje igualmente partilhar.
O teatro é serviço, e Luís Miguel cumpriu e cumpre integralmente esse serviço.

Quem ensina, porque aprendeu, aprendeu o que é próprio da alma humana, e transparece nos grandes temas e nos grandes e pequenos heróis de tragédias e comédias que se conhecem desde o teatro clássico ao mais moderno praticado hoje em dia.E o próprio da alma humana é, como diriam Boehme, ou Goethe, ver o celestial e o infernal e as esferas intermédias em que o ser humano se move : pois ele é o mediador do céu e do inferno, só ele pode desafiar e ser desafiado, ainda que em luta desigual.

À medida que o Construtor Solness, na peça de Ibsen, se entrega à jovem que irrompeu na sua vida como um raio de sol e o seu carácter é aprofundado, muda Luís Miguel muito subtilmente de registo, tão subtilmente que é preciso grande atenção para notar como do realismo inicial, sublinhado pelo tom (o corpo,o gesto e a voz) da representação, se caminhou para um simbolismo onírico, surreal, a que ele e Beatriz Batarda se entregam de modo inspirado para não dizer genial.
A morte do herói não chegará a ser trágica, porque foi uma dupla libertação: a jovem, figuração da alma (da Anima) perdida, reconhece naquela queda o vôo de uma eterna sublimação.

George Steiner escreve, a propósito de Ibsen que ele "estava na posição do escritor que inventa uma nova linguagem e tem de a ensinar aos seus leitores".
O mesmo direi de Luís Miguel: inventou, para o seu modelo teatral, novas linguagens, cénicas e dramatúrgicas, que vai ensinando aos seus espectadores.Todos nós aprendemos com ele.

No fim do espectáculo, disse-me o Luís Miguel que antes de outras peças, incluindo a do Construtor Solness, se devia ler aquela que o próprio Ibsen considerou a mais importante para se perceber o todo da sua obra.
E foi o que fiz. Li ontem à noite, na bela edição da Cotovia, QUANDO NÓS,OS MORTOS, DESPERTARMOS, a peça de 1899, representada pla primeira vez em 1900. Nesta peça discute-se muito claramente a oposição arte/vida, o egoísmo próprio do criador face à generosa entrega que os outros podem esperar dele. Discute-se ainda, ao modo de um futuro Thomas Mann a questão do Tempo: o nosso, o dos outros, o íntimo, o social, e acima de tudo a a revelação brutal de que a entrega oportuna ou tardia à Ilusão de que se perdeu a memória e se recupera o desejo só pode levar a uma trágica, embora consentida, destruição.
É já em 1900 que Ibsen confronta o mundo e a sociedade de que participa, dissecando-a, com os seus piores fantasmas.
Não é por acaso que a mulher de Rubek se chama MAJA e que o seu grito de liberdade nos soa a ILUSÃO:
"Sou livre como um pássaro,
Livre, livre, livre!"

Há ilusão, mas não há liberdade no mundo.

Monday, October 22, 2007

Fables de La Fontaine



Mais uma obra-prima de Bob Wilson, desta vez as Fábulas de La Fontaine, na Comédie Française.
Podemos comprar o dvd, mas podemos também pensar: por que razão os nossos teatros nacionais não escolhem, uma vez por ano, para as crianças, matérias que sejam ao mesmo tempo belas e didácticas? As fábulas de La Fontaine são para crianças e adultos, como toda a boa literatura, que é universal.
E à imaginação do encenador cabe actualizar o seu sentido que, por ser ético, é também de todos os tempos.

Wednesday, October 17, 2007

O Desenho da Vera



O desenho da Vera ( 10 anos ) para o conto da avó, O PRÍNCIPE NO REINO DOS LAGARTOS
(Porto Editora, em breve)

Friday, October 12, 2007

Para a Gabriela


Na mão trazia a romã
vinha de longa distância

e nos olhos que trazia?

na mão trazia a romã
bagos de puro rubi

e nos olhos que trazia?

na mão trazia a romã
com o seu brilho feliz

e nos olhos que trazia?

memórias da sua infância
campos verdes
e jardins

Thursday, October 11, 2007

Nobel de Literatura 2007


Doris Lessing foi a laureada deste ano.
Conheço a obra, parcialmente. O livro de que mais gostei foi o Golden Notebook.
Mas nunca seria a minha escolha.
Em matéria de prosa feminina original, inovadora, pela escrita e pela estrutura romanesca, tive sempre dois amores: Virginia Woolf e Agustina Bessa Luís. Virginia já morreu, mas Agustina, se tivesse quem a traduzisse bem para inglês, teria sido distinguida há muito tempo.
A sua prosa não é local, é universal.
Veja-se como grande parte do mérito de Manuel de Oliveira, nos seus filmes, se deve à inspiração de ambientes, temas e caracteres que Agustina lhe inspira.

Monday, October 08, 2007

Charters de Almeida



Exposição e Colóquio.

A não perder este grande tema das cidades imaginárias, seus labirintos de criação, portas, passagens, fixando memórias míticas do tempo: passado, presente, futuro

Colóquio a 18 de Outubro, no CCB
Exposição no Museu de Arqueologia

Saturday, October 06, 2007

Para a Sofia e o Manuel




( a Árvore e a Casa )

A árvore é antiga:
permanece de pé
olhando o Tejo.

Dentro de casa
vê-se a ramagem cinza
encostada ao vidro
da janela.

Fora de casa
a cabeleira solta
suaviza a brancura
do ângulo das linhas.

Thursday, October 04, 2007

O Budismo na Cultura Portuguesa



Com organização de PAULO BORGES e DUARTE BRAGA publicou-se na Ésquilo editores um volume dedicado ao Budismo na cultura portuguesa.
Colaboraram vários especialistas de renome e entre eles alguns cuja escolha recaiu sobre a obra de Pessoa/Caeiro : é o caso de José Eduardo dos Reis, com o ensaio POR QUE VEIO O ALBERTO CAEIRO DO OCIDENTE? Igualmente interessante se revela Catarina Nunes de Almeida, com o estudo da obra de Casimiro de Brito, escritor de grande sensibilidade, cujo interesse pela contemplação de índole Zen é conhecida, revelando-se sobretudo na sua poesia.
Esteve recentemente entre nós o Dalai Lama, Nobel da Paz, figura insigne da luta pela liberdade e pelos direitos humanos,que incluem, naturalmente, o direito de expressão religiosa: e aqui cumpre felicitar as edições Ésquilo, que publicaram O LIVRO TIBETANO DOS MORTOS com prefácio do Dalai Lama, e ainda SABEDORIA PARA VIVER, DALAI LAMA EM PORTUGAL (os textos da suas conferencias).
Embora julgue que todas as matérias, estas e outras que constam do catálogo, sejam trabalhadas a partir do inglês, é um sinal muito positivo que editores e estudiosos se empenhem em divulgar matérias relativas ao conhecimento e ampliação da nossa consciência espiritual, num momento em que, sobretudo na Europa, se volta a ser atacado pela doença do racionalismo positivista -sempre unificador e nunca inspirador (pois o interessante para o progresso maior é a diferença e não o culto doentio de uma "igualdade" que reduz, em vez de ajudar ao verdadeiro desenvolvimento, intelectual, artístico, religioso, e até social, económico, político; pois não se fala tanto e cada vez mais da necessidade de "oposições" bem preparadas?)
Os ensaios do volume trazem abundantes referências bibliográficas, o que é excelente para quem deseje aprofundar o estudo do Budismo em Portugal.
Uma observação ainda, a propósito do ensaio de Markus Gabriel : o conceito de UNGRUND não foi cunhado por Schelling mas por Jacob BOEHME, o grande teósofo alemão ( 1575-1624) inspirador de muitos autores subsequentes, como Goethe e Novalis, além do próprio Schelling. Sugiro como fonte, além do próprio BOEHME, as obras de Alexandre KOYRÉ, LA PHILOSOPHIE DE JACOB BOEHME, Vrin, Paris 1971, p.321; ou de mais fácil leitura, Jacob Boehme, Cahiers de l'Hermétisme, Albin Michel, Paris,1977, p.189 .
O Ungrund, (Sem-fundo) é um eterno Nada, como Boehme o define no Mysterium Pansophicum, um Vazio onde se gera a Palavra de onde surgirá a criação.Sem-fundo é o nome que poder ser dado a Deus: este é o " Nada eterno", o "Nada eterno que é o Uno eterno", "o Absoluto sem essência que em si mesmo é fundamento eterno", mas o nome que mais lhe convém, diz Boehme, é "Sem-fundo", abismo sem fundo e sem fundamento.E, como observa Koyré, o Ungrund não é a causa última nem primeira do mundo, e nem sequer a sua própria causa, é o Absoluto, sem mais : " É o fundo eternamente fecundo da vida e do Absoluto, o germe absoluto que, enquanto germe, não é ainda, e não é ainda nada, mas que contém dentro de si tudo o que irá ser".

Deixo uma sugestão: que se acrescente ao catálogo da Ésquilo uma tradução do I CHING, com os prefácios de Wilhelm, de Jung, e por que não, de novo o Dalai Lama.
Ou que se reimprima a obra notabilíssima do Padre Joaquim A. de Jesus Guerra : O LIVRO DAS MUTAÇÕES (publicado com o Prof. DR. Aidan Nai-kwong Poon).

Wednesday, October 03, 2007

No rebanho de Caeiro

Sabemos como Fernando Pessoa cresceu à sombra de Shakespeare, Milton, Yeats, Poe, Whitman, - e toda a pléiade de filósofos do hermetismo, com destaque para Waite.
Abrindo ao acaso o Guardador de Rebanhos: o rebanho que ele pastoreia são os seus pensamentos, um pouco à deriva na juventude de Alexander Search, em que o universo interrogado, quando interrogado assusta, omitindo respostas.
Caeiro será o Mestre que tenta consolar:

"Creio no mundo como um malmequer,
Porque o vejo.Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
( Pensar é estar doente dos olhos )
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia:tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar...

Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar..."
( II)

Mas a inocência é mais uma das máscaras, que Pessoa arranca no primeiro momento: pois ao homem moderno o que é dado é a culpa, e a busca da redenção possível, e não a inocência, perdida desde a Queda.
A Queda foi o momento crucial da aquisição da consciência : de si e do outro, também ele mascarado de Deus e de Diabo.
O Sensacionismo é verdadeiro em Rimbaud, que explode nele, com a quilha do seu barco/corpo afundando-se no mar dos sentimentos e das emoções.
Mas é falso em Pessoa/Caeiro, que o esconde sob a capa de um panteísmo místico que não chega a ser, pois não há entrega, nem mansa nem explosiva, há uma permanente reflexão/ discussão/negação, que de poema em poema afirma o pensamento e nunca outra coisa.
A verdade estava dita logo no início: o rebanho era os seus pensamentos, em torno do que deveriam ser as suas sensações.
Pelos poemas passa a interrogação do universo, da natureza e de Deus, como a podemos encontrar nos antigos alquimistas.
Pessoa documentou-se sobre o Yoga, as tradições místicas Hindús, Kabalísticas, e outras, como as da Ordem da Golden Dawn de que o Mago Crowley fez parte. Que na sua mão poética, a mais mística, segundo alguns críticos, estas reflexões perpassem não será de admirar.
Provocou o dizer do pensamento, embora afirmando que procurava a emoção tranquila dos sentidos ( é em Álvaro de Campos que encontraremos a explosão do verdadeiro sensacionista).
Predomina em Caeiro o sentido da vista. Descreve o que diz "ver" e se não acredita em Deus é "porque nunca o vi".
Nunca o viu, mas busca no entanto a visão "interior", aquela que faz com que se parta (na aventura da vida) "munido de olhos": olhos que permitem a visão interior, a do arrebatamento que ele procurava "de todas as maneiras" sem o ter conseguido, ou julgando não o ter conseguido: porque a sua realização suprema estava na obra, não na vida, e a sua obra fala por ele, todo o tempo e a todos, como se vê pelas sucessivas traduções que vão finalmente surgindo.
Ajudará saber que Pessoa tinha na sua biblioteca o volume de Einstein sobre a teoria da relatividade, o primeiro Ulisses publicado por Joyce, e que não é casual a sua meditação sobre o tempo que se "espacializa" como no mítico Graal de Wagner.
Pessoa/Caeiro, ou o homem que vê, face ao cego que por ali passa caminhando e pára na sua caminhada. Ambos vivendo uma realidade diferente, ainda que verdadeira na sua "sincronicidade".
Onde há sincronicidade há um jogo de opostos:
o homem que vê / o homem que é cego
o homem sentado no alto / o cego ali (em baixo ) caminhando na estrada
o homem que mexe (desliga) as mãos /o cego que pára na estrada
o homem que fica quieto / o cego que continua o caminho...

Mudou a realidade com a mudança no espaço; e mudou o tempo, que se tornou "vertical", como o dos místicos.
"O cego continua o seu caminho e eu não faço mais gestos. Já não é a mesma hora, nem a mesma gente, nem nada igual."
Noutro poema, Caeiro parece dar resposta, discordando:
"Tu, Místico, vês uma significação em todas as cousas.
Para ti tudo tem um sentido velado.../ Para mim, graças a ter olhos só para ver,/ Eu vejo ausência de significação em todas as cousas;/
Ser uma cousa é não ser susceptível de interpretação".
Ah, mas não fosse Pessoa a contradição-em-si, não fosse ele, como carne de Deus ( roubando a Viktor Kalinke uma magnífica expressão do seu ensaio GOTTES FLEISCH ) ao mesmo tempo a mais aguda consciência, não teríamos outro poema, de 1930, em que diz da "alma" de todas as coisas: "Há em cada cousa aquilo que ela é que a anima"...
Esta "animação" é, por outras palavras, "energia"; e onde há energia há consciência, e onde há consciência há reflexão, há interpretação...há pelo menos uma pulsação própria de cada coisa, de cada ser, de cada pessoa (ainda que na Second Life da heteronimia).

Monday, October 01, 2007

Na Caza de Aurora


De manhã
soltam-se as pombas
são pombas brancas de leque
bebem antes dos pardais

o tempo fica comprido
o espaço também se alonga
não é o espaço de fora
mas é o espaço vivido
avivam-se muitas memórias

À tarde
falam as gralhas
sob o ácer japonês
em face do outro, inglês,
que é mais alto e sobranceiro

a Fátima serve o chá

À noite joga-se às cartas
ou fazem-se paciências
e contam-se histórias de medo

a Rosa fecha o portão,
voltará de manhã cedo
sacudindo o nevoeiro

Monday, September 17, 2007

Na noite de Borges

I
O jardineiro é feliz.

Cultiva o seu jardim
maior ou menor
oculto ou revelado

O jardineiro é feliz
no espaço que lhe foi
dado

II
A aurora ilude
ao prometer o dia.

Traz consigo o poente
o declinar da luz
a noite
que se esconde

Canta um pássaro
mas é finita
a sua melodia

III
Um homem sozinho na sua noite
sozinho no seu silencio
de mar
ou de montanha

Ao longe as palavras certeiras
que não são para ele

Seguem outro caminho

Wednesday, September 05, 2007

Ler Borges



I

Ler Borges
é caminhar
por sendeiros estreitos
linhas e entrelinhas
que nos atiram para
o precipício de um nome
uma obra
uma ideia
uma imagem
que nos prende e
nos cega não ilumina
perturba
tomemos as rosas
que ele dá a contemplar
e parece
que nunca murcharão
uma é rosa amarela
outra é centro do mundo
mas não do nosso olhar
que se perde
não vemos o infinito
sentimos a dôr aguda
de ler
mas não de ver
outra ainda
é rosa de alquimistas
as abelhas
em busca do seu mel
da rosa de Jean de Meung
disse Borges
que ela não existe
é como a flôr azul
de outro romântico suave
o romance da rosa é um labirinto
de disparates
apesar do sucesso que teve
noutros tempos
os seus
que não os nossos
os de Borges
os nossos tempos são outros
ainda que ele goste de se
contradizer quando fala do outro
que é o mesmo
não há mesmos
só outros
outrar-se é
o que ele faz melhor
como Pessoa
teríamos de ler a sua biblioteca
aí também se escondem rosas
as de Ricardo, o Reis, que se coroa
de rosas
porque são belas e
efémeras e
logo murcharão
lembrando o seu destino
que não concede
ao centro
nenhuma revelação

Dirão alguns
ao ler-me
e o lírio de Saron
a rosa dos vales?

e a rosa de Celan
a de má cinza?


a rosa que é
a rosa
que é
a rosa
que é a rosa?

Borges diz
"ser para sempre;mas nunca ter sido".

II

Também eu
sou os livros que li
(não os que leio
os que li )

as leituras estão feitas
a vida está vivida
nada de novo
nas páginas que folheio
nas pétalas
que desfolho
não busco a interrogação
mas o ponto final

III

O Anjo da Memória:

No pequeno caderno
inscreve o nome

qualquer letra
lhe serve

ele é o dono
do alfabeto inteiro

IV

É a memória
que (me) divide
o tempo

nele me posso
(re)ver

espelho
da água que (es)corre

o tempo define
o espaço
e eu definho
no tempo

nessa onda me afundo
não me salvo

VI

E Rilke ?

Rilke é outro que tal
deixou-se encantar pela rosa
a imagem da rosa
o perfume da rosa
a ideia de rosa
ideia
que mais tarde
o haveria de matar
com o seu espinho
bem real

Thursday, August 30, 2007

De Tavira com Amor



I

De dia
a espera
mais longa

de noite
a lua
mais branca

entre a noite
e o dia
o Anjo
que chora
e canta

quebrada
a flauta de jade
perdeu-se
a magia antiga

chora o Anjo
canta o Anjo

asas da melancolia

II

Entre as rendas da avó
há uma renda que voa
é uma renda-borboleta

voa
mas não à toa
é uma renda discreta

procura uma flôr azul
uma flôr branca
ou de ouro

é uma renda-borboleta
vai sozinha
no seu vôo

III

Sonhos confusos
engolidos
pela onda mais negra

água
do rio que passa

à beira-rio
a sombra-mãe aguarda
esconde os sonhos na caixa