Friday, November 23, 2007

Melancolia de Durer



Para H.C.
A Melancolia de Durer


A minha primeira sugestão, para o entendimento desta obra, seria ler SATURNO E A MELANCOLIA, de Klibansky,Panofsky e Saxl.
Em seguida, não menos importante, de Edgar Wind, MYSTÈRES PAIENS DE LA RENAISSANCE (trad.franc. Gallimard); e ainda, de Edwin Panofsky, STUDIES IN ICONOLOGY, Humanistic Themes in the Art of the Renaissance.
Nestes autores se encontra abundante e rigorosa informação sobre a época, a divulgação de um novo pensamento, neo-platónico, cabalístico, alquímico, através das traduções devidas a Marsilio Ficino, Reuchlin, Pico della Mirandula, os grandes expoentes do Humanismo e Renascimento.
O Anjo de Durer tem a marca da Melancolia, estado de alma atribuído a Saturno, e marca, nos alquimistas, da NIGREDO, anunciadora de uma transformação espiritual (que pode ou não vir a concretizar-se).
Na criação artística essa melancolia tanto pode representar a pausa depressiva, depois de completada uma Obra, como um compasso de espera em que alguma coisa se aguarda, seja a revelação, seja a mudança.
No exercício artístico a espera pela inspiração pode traduzir-se num tédio melancólico, que só um novo impulso virá modificar.
No dicionário Mito-Hermético de Dom Pernety, lemos que a Melancolia significa a putrefacção da matéria. Os adeptos também a designam por calcinação, incineração, matéria "ao negro" (nigredo) por haver algo de triste na côr negra. Mas na Obra alquímica a nigredo anuncia as novas fases: albedo e rubedo, a da perfeição maior.
O Anjo de Durer aguarda, de asas caídas, que a transformação se verifique.
A Melancolia I, de 1514, é geralmente vista pelos historiadores de arte como uma figura de mulher representando a condição humana na sua impossibilidade de atingir a perfeição do conhecimento e da vida, da sabedoria divina e dos segredos da natureza ( depois da expulsão do Paraíso).
Mas há mais a dizer, e o que é de salientar é a influencia dos escritos de Marsilio Ficino, conhecido do pai de Durer que o mantinha informado das recentes obras desse autor.
Willibald Pirckheimer, amigo chegado, levara precisamente o LIBRI DE VITA TRIPLICI de Ficino (Florença,1489 ) e o padrinho de Durer, Anton Koberger publicara em 1497 as cartas de Ficino, onde muita matéria hermética era discutida. A sua visão do "carácter saturnino" é a própria da melancolia do homem de génio, enquadrando-se ainda na definição do místico neo-platónico cristão.
Ficino distingue dosi tipos de melancolia, uma própria do brilhantismo da mente, outra da doença maníaco-depressiva.
Mas mais interesssante, na minha opinião, é a afirmação feita por outros estudiosos, para quem a iconografia da Melancolia I coincide com a definição de Agrippa von Nettersheim em DE OCCULTA PHILOSOPHIA, que circulava em manuscrito já desde 1510. Ainda que influenciado por Ficino, vai mais longe na clarificação dos tipos de melancolia, referindo a "Melancholia Imaginativa", uma condição própria dos artistas, arquitectos e artesãos...Não há dúvida que é nesta categoria que se inclui a obra de Durer e o seu significado. Assim, para lá do Anjo, que não é mulher, é figuração da Anima alada, ainda que de rosto escurecido ( melancolia em grego é bílis negra), a caminho da espiritualização, há elementos simbólicos à sua volta que são importantes para decifrar o negro momento da espera:
O compasso na mão, símbolo da ordem que a medição impõe.
A ampulheta, que mede o tempo, limite último da nossa condição.
A esfera, representação máxima da completude, da perfeição.
A Pedra cúbica, símbolo da Pedra alquímica, aos pés da escada onde parece dormir um "putto"( o puer eternus, mediador da transformação).
A escada, que podemos encontrar em muitas gravuras alquímicas, símbolo do caminho e da ascenção a que conduz (recorde-se o fim do Mutus Liber).
A balança, símbolo do equilíbrio, da harmonia que é preciso cultivar.
O cão enrolado aos pés, animal que é companheiro da obra e do adepto em muitos tratados, como se vê em Mchael Maier, ou até no Fausto de Goethe, quando Mefisto escolha a forma de cão para seguir Fausto até casa (figura a natureza animal a ser purificada).
Last, but not least, O Arco-Íris e o sol no horizonte, símbolos da AURORA CONSURGENS, tratado de enorme influencia (estudado por Marie-Louise von Franz). A luz dissipará o dragão, variante da Besta do Apocalipse que define a melancolia.
Mas, para além de todas as explicações, bom mesmo é contemplar a gravura e deixar que as suas imagens, como ideias-força, tomem conta de nós.

No meu outro blog, de simbologia e alquimia, pode encontrar a indicação de uma obra de M.L.von Franz, Alchimie et Imagination Active onde, a partir de um tratado de Gerhard Dorn, seguidor de Paracelso, se definem as formas de meditação como imagens do Eu profundo a ser assimilado pelo processo da "imaginação activa".

15 comments:

Henrique Chaudon said...

Prezada Profª Yvette:
Muitíssimo grato por sua atenção a meu desejo de conhecer a instigante obra de Dürer, e ainda mais pela gentileza de dedicar-me a postagem em questão.
Vou rastrear os livros indicados. Tenho acessado o blog a respeito de Alquimia e Simbologia.Voltarei a ele com mais atenção.
Grande abraço e saúde!

Sérgio A. Correia said...

Não deixa de ser estranho que Teofrasto, (http://www.eudaemonist.com/biblion/characters) autor do primeiro Tratado de Caracterologia conhecido, não tenha registado o "tipo melancólico"...

Sérgio A. Correia said...

http://www.eudaemonist.com/biblion/characters

Yvette Centeno said...

Caro Sérgio,
a obra de Paracelso é gigantesca, mas poderá encontrar no Corpus Paracelsisticum Band I, ed.por W.Kuhlmann e J.Telle, Max Niemeyer Verlag, 2001 as informações que procura.
A melancolia surge referida nos ns. 19 e 20 dos textos transcritos referentes a doenças:
" Schreyben/von den kranckheyten/so die vernunfftberauben/als da seinSanct Veyts Thantz/ Hinfallender siechtage/Melancholia und Unsinnigkeit/
etc....1567
in Rom. Bibliotheca Apostolica Vaticana.

Há tradução inglesa destes textos sobre doenças em:
Four Treatises of Theophrastus von Hohenheim called Paracelsus, edited with a preface by Henry E. Sigerist, Baltimore 1941, reimpr. 1979, 1996

Yvette Centeno said...

Há ainda uma tradução francesa, de 1968 nas P.U.F.
Paracelse, Oeuvres Médicales, trad. Bernard Gorceix.

Inclui entre outros, os CINQ LIVRES DE AURÉOLE PHILIPPE THÉOPHRASTE DE HOHENHEIM, de causis moroborum invisibilium, i.e., des maladies invisibles et de leurs causes, 1531-1532
Contém igualmente o Livro Paragranum.
Aí recorda Paracelso ao leitor que o seu "edifício se ergue sobre quatro colunas, que são o fundamento da sua obra, a filosofia, a astronomia, a alquimia e a virtude".

Sérgio A. Correia said...

Sra Doutora...Estava-me a referir a Teofrasto (http://en.wikipedia.org/wiki/Theophrastus) autor do sec III AC e discípulo de Aristóteles...

Yvette Centeno said...

Ah, amigo, não percebi logo, e não conheço bem a obra desse autor que cita.
Teria de procurar e de ler ...tudo, o que não posso fazer por agora.
Obrigada pela correcção, fica na memória para algum momento futuro.

Henrique Chaudon said...

Prof. Yvette:
Vejo que o Sr. Sérgio A. Correia é assíduo leitor e comentador de seu blog.E que é homem de profunda cultura. Quero louvar aqui a sua elegância como moderadora do blog.
Abraço.

Yvette Centeno said...

Uma informação interessante:
versão adaptada dos CARACTERES de Teofrasto feita por Frederico Lourenço para a ed.Cotovia. Não li, nem sabia que existia esta versão, mas Frederico Lourenço é um dos nossos grandes especialistas de literatura clássica, traduziu Homero o que é obra...
O que vou procurar é uma edição crítica, se houver.
Com tempo, darei notícias.
Estou a ler o Inca Garcilaso de la Vega, Os Comentários Reais, onde descreve a fundação divina do reino do Perú e da cidade dourada.
Belíssimo texto, talvez faça um post, para comparar com a descrição de Uruk.
Estou a dar um seminário sobre o Imaginário da Cidade e as minhas leituras vão agora bastante neste sentido.

Sérgio A. Correia said...

Sra Doutora

Nem de propósito: estou justmente a ler a tradução que o Frederico Lourenço fez da Odisseia (o meu épico favorito, juntamente com a Epopeia de Gilgamesh) e estou absolutamente maravilhado com a beleza formal da tradução. Quanto à adaptação que o mesmo autor fez dos "Caracteres", li críticas (ou melhor, um ou dois textos sobre, pois em Portugal a crítica literária ou é má ou então não existe...Basta lerem-se as críticas literária do New York Times para darmos pela diferença)e pelo que me pude aperceber trata-se disso mesmo, de uma adaptação aos tempos actuais. Ora, o que me faz espécie é que sendo Teofrasto mais ou menos contemporâneo do grande Sófocles, e um arguto observador de almas, não tenha registado na sua "caracterologia" o tipo melancólico, presente no teatro grego. Voltando ao facto de não haver crítica literária em Portugal, "resolvi" o problema comprando um guia de leitura que me parece excelente e que dá pelo nome de "La Bibliotheque Ideale", Ed Albin Michel, 1997.


Sr. Chaudon

Obrigado pelo elogio, mas não passo de um leitor interessado, de um escriba compulsivo que tem a sorte de conviver com grandes escritores portugueses, e de um antigo aluno e admirador das variadíssimas facetas criativas da prof. Yvette Centeno

Henrique Chaudon said...

Prezado Sr. Sérgio:
Queira relevar as intromissões de um neófito. Estou lucrando muito ao acompanhar a conversação entre o Sr. e a Profª. Ao dispensar atenção especial a uma solicitação minha a respeito de 'Melancolia', a Profª Yvette deu-me novo alento para tentar preencher as imensas lacunas de minha ignorância.Digo isso com franqueza, e sou grato pela existência dos blogs da Profª.

Rodrigo said...

Olá, Yvette Centeno.
Li em seu blog uma resposta a um comentáio em que vc diz que está lenco o Inca Garcilaso de la Vega, Os Comentários Reais. Muito me interessa esse escritor, visto que estou pesquisando os Incas.
Então, por favor, corresponda-se comigo e me diga se posso conseguir uma cópia desse livro, pois só acho-o em espanhol, e não compreendo.
Desde já, muito obrigado.

rrodrigopb@msn.com

Hamilton said...

Prezada professora:
Estou procurando o livro de Michael Mayer Chaudon, Dicionario e Enciclopedia Historica.... em portugues. A senhora poderia informar-me sobre essa obra? Onde encontrar, p. ex.
Desde ja agradeço

Riva said...

A obra é magnífica realmente e se tornou a nova obsessão de Dan Brow, depois da bem sucedida alusão à Última Ceia de DaVinci em o código DaVinci. O símbolo perdido fala insistentemente do quadrado mágico desta obra de Dürer. Teria alguma verdade por trás disso? Seria ele um maçom????

Yvette Centeno said...

A Maçonaria apenas surge no século 18, mas havia movimentos anteriores, como os dos Rosa-cruz, e ainda antes, a simbólica hermética e alquímica, conhecida no Renascimento, por toda a Europa..

Yvette Centeno