Wednesday, January 16, 2019

Paulo da Costa Domingos, NARRATIVA


Da carta de Vitor Silva Tavares ao autor:
"Caro Paulo, 
Disseste-me que o teu livro não é aquilo a que se pode chamar 'um livro de memórias'. Em rigor  em rigor, acho que é e não é. Não é, por certo, um livro 'jornalístico'(o autor vai ali ao calendário da sua vida e dá notícia) mas é sim senhor, quanto a mim, um mergulho visceral - entenda-se, visceralmente poético, logo interventivo-naquele magma de impressões redivivas, experiências e encontros determinantes, obsessões e tramas que musculam mais que uma vocação - aliás afirmada - um sentido de e para a vida (plena). Encaixa o que tem de encaixar, rejeita o que afinal não passou de acidentes de percurso, necessários embora".
A Narrativa, de Paulo da Costa Domingos, publicada em 2016 com a chancela das edições ALAMBIQUE, chega-me agora às mãos e fico em estado de choque.
Desde que li, outrora, Lautréamont, que nada me surpreendeu tanto, pelo ímpeto, pela intensidade do que Vítor Silva Tavares chamou de vida redivivida,  frenética na evocação recuperada que interpela mas não atropela, prosa de mão corrida a acumular o que foram autores, o que foram leituras, o que foram no tempo do seu crescimento e afirmação intelectual os marcos mais importantes. Cortados pela vida? Claro, só quem não vive e convive com a poesia ignora que a vida está sempre ali, a vida nos corta ao meio, os poetas são os sobreviventes de inúmeras fugas e percursos ínvios, mas digeridos e aceites como aquilo que são e fazem de nós o que somos.
Li, pois, de um fôlego, e espantei-me: pela originalidade de uma narrativa que expõe, e se impõe. Regressei ao tempo que era de Vítor, que era de Paulo, e que foi o meu. Um tempo que, se por um lado se dava ao ambiente usual deste país, dele se afastava, em segredo, profundamente.
Até ao citar Asger Jorn, o pintor da Internacional Situacionista, de quem falo em AMORES SECRETOS, fundador do movimento Cobra, o figurativo expressionista, como ele se auto-intitulava, tropeço, pela mão de Paulo Costa Domingos, no meu próprio passado. E contudo não nos conhecíamos ainda, ele já no oculto meio editorial dos poetas preferidos, eu longe, em França, a minha pátria primeira, na cultura que me formou.
De longe, como descubro agora, íamos coincidindo.
A Narrativa tem, como no Ulisses de Joyce, um vocabulário muito próprio, de marca surrealista no seu deslizar só aparentemente automático, onírico, mas ao mesmo tempo muito trabalhado, carregando leituras e culturas oriundas de outras esferas, ainda não divulgadas em Portugal, o país dos esconsos caminhos, dos muitos sonhos perdidos.
Viajamos com Paulo por outros países, outras linguagens, vamos com ele à descoberta do que ele decide só agora contar. Talvez porque a morte de AL BERTO nos tenha ferido a todos e ao evocar a sua presença feita de tanta ausência (quem o lê, hoje em dia? ) sintamos o desejo de falar, de dizer, de afirmar que há um avesso na vida, e dele, sem saber, todos nos fomos alimentando, enquanto à vista parecia que se morria à fome. Alguns morriam mesmo. Outros resistiam.
Esta Narrativa é um gesto de resistência.
Nascido em 1953, Paulo, mais novo do que eu tantos anos, pela sua mão me faz agora recuperar algumas das minhas memórias antigas.
Espanta-me, como Henri Michaux me espantava, em Paris, tinha eu 15 anos. Ou mais tarde Jean Genet, com Notre Dame des Fleurs resguardado por Prévert. Ou Violette Leduc - a prosa do maior sofrimento, na maior entrega. 
Narrativa é uma obra que se impõe ler, pelo menos aos que ainda estão vivos, da minha geração. Lá dentro navegamos, chegamos ao bom porto que nos ajudou a viver, dentro e fora de nós.
E quanto aos mais novos - esses, ao ler, aprenderão tudo o que lhes falta:
a dimensão da vida, da cultura, da expressão numa linguagem directa, limpa de inúteis excrecências, que vai à raiz das coisas, das situações evocadas, ao núcleo duro onde se forma a palavra poética. Poesia não é lamechice nem sentimento pingão,  a palavra poética é dura, é resiliência, é discurso veloz despido de fingimentos. Tudo é verdade, na palavra poética, mesmo a pura invenção.
Paulo da Costa Domingos não desiste.
Conhece o livro de há muito: no chumbo das antigas tipografias, na arte da concepção e do design inspirado, no bom papel com boa letra, legível até para os olhos mais cansados. 
Que mais posso dizer?
Que vou reler a sua Narrativa, uma e outra vez, que ele dividiu em anos, estando agora em 1996 e segs. E anunciando uma continuação.
Não sabe, pois nunca falei disso, que eu também escolhi como forma de resistência o continuar a escrever. E a ler, por isso aguardo a sua continuação:
"Ah, sem o magnetismo da Arte todo o real ficaria mudo, e somente passado...A clareza procurou-me e quis habitar comigo. O propósito alçava--se à palavra. Evoluí...Aqui cheguei; sou. E vós, que mais novos sois do que eu, constituís o meu passado. Espero, não demoreis demasiado a chegar até mim". (p.113). 
Eu cheguei, no termo da minha idade.
Outros, os jovens, deverão fazer o mesmo.








Friday, January 11, 2019

Mariana Viana e o Físico Prodigioso de Jorge de Sena




Mariana Viana e o Físico Prodigioso de Jorge de Sena

 Pego no que chamo o LIVRO DE OURO.
É preciso rasgar o papel (que pena...) e abrir uma caixa, desdobrar um livro que é tanto para ver como para ler, pois estamos perante uma original concepção que envolve texto e ilustração, fazendo deste objecto algo surpreendente um livro de Arte, um livro de Artista, no pleno sentido da palavra.

 

 Um ilustrador não é alguém que se limita a reproduzir com desenhos, melhor ou pior, o texto que lhe foi dado a ler.
É alguém que o interpreta dando-nos a ver uma outra realidade, filtrada não apenas pelo sentido da narrativa, mas sobretudo pelo seu próprio imaginário, que se abre e nos abre a outras sugestões, novas e inovadoras imagens que a leitura normal, só por si, não permitiria.

 

É certo que também a leitura não deve, nem pode ser, de sentido único. Porque a escrita não o foi. O imaginário do escritor, e em especial referindo-me a esta obra de Jorge de Sena, é aberto, é variado e múltiplo e exige um olhar igualmente aberto e variado. Não terá sido fácil trabalhar sobre uma narrativa tão apoiada em tanta erudição, prosa arcaizante, ambiente medieval, personagens que são intermediadas pela lírica de Amor, por trovas da tradição popular, (sublinhando Sena que são recuperações, mas de sua autoria) e ainda por referências implícitas que nos é impossível ignorar, ao Fausto de um Goethe que Jorge de Sena bem conhecia, e do qual recupera o grande tema central da paixão e entrega ao amor e à vida, embora o enquadre em ambiente cavalheiresco de aventuras que não serão já lidas no nosso tempo, que perdeu memória e cultura.
E estará na hora de reler...
O leitor segue aquilo que o autor propõe. Mas não se diz que uma imagem vale mais que mil palavras? E assim é. A imagem vai directa à emoção que provoca, de repulsa ou maravilhamento, faz apelo a outras estruturas do nosso cérebro, Jung falaria de sub- ou de in-consciente, individual ou colectivo.
Explicando melhor, sem querer impôr a minha opinião, neste caso da obra de Jorge de Sena, ilustrada por Mariana Viana:
O texto é do domínio da razão, da consciência racionalizante daquele que escreve, enquanto escreve. A pintura (neste caso a que agora me refiro) ilustra o sentido emocional da reacção que o texto provoca, e eleva-o para um outro patamar, de um Belo não-racional, mas apesar disso fiel à matéria ali posta por escrito. E recupera mitos e arquétipos que traz à luz do dia, arrancando-os da sombra em que estavam enterrados.


Lidamos, sem dar por isso, se calhar, com duas esferas que se completam –mesmo quando aparentemente se antagonizam: um texto realista, com ilustrações abstractas, modernistas, por exemplo. Ou desenhos realistas para um texto surrealista. Nada é impossível, a questão é que se encontre o fio desta meada que nos conduz de um a outro momento da inspiração de um e outro artista. A imaginação criadora do escritor é livre, mas livre é igualmente a imaginação do ilustrador.
A palavra abre a imagem, e a imagem devolve-nos à palavra. A palavra conduz-nos pelo mundo das ideias, a imagem conduz-nos por outras formas que mais do que ideias (racionais) serão puras emoções e quase não precisam de sentido, apenas de empatia, o Belo não pede respostas, mas adesão emocional.
Jorge de Sena não facilita a vida ao seu ilustrador. A sua cultura, a sua erudição, enorme, aprisiona, em vez de libertar.
 E a mão de quem pinta, nestas páginas de O Físico Prodigioso, serviu-se igualmente da sua cultura e do seu imaginário, sem peias, variando de esboços só aparentemente simplificados, no claro escuro que evoca um Munch e as suas figuras esquálidas, até à côr forte, de pincelada intensa, evocando Kokoschka, de um expressionismo que se afirmou quase violento para a sensualidade pedida.
Deparamos com um par Andrógino que não tem a riqueza esplendorosa do Beijo de Klimt (mas revela o seu conhecimento), nem tem a ternura do Casal Vieria-Arpad (mas revela igualmente o seu conhecimento). E o que demonstra é que no pintor, o Ilustrador, neste caso, tanto como no Escritor o que temos presente é a Cultura: será preciso aludir ao mito do Andrógino, de Platão?
Voltemos às Ilustrações, ao conjunto de pinturas escolhidas:
São pinturas que sublinham, pelo excesso, por vezes com um toque surrealista (sim o imaginário à solta, como desejaria Breton) a abordagem feita por Sena de múltiplos estilos, prosa, canções (uma erudição não contida), de um realismo arcaizante e belo, ao mesmo tempo. Surpreende, não aborrece. E ajuda a ampliar a narrativa.
Jorge de Sena escreve, na Nota Introdutória ao livro, de que retiro extractos:
“Este O Físico Prodigioso teve a sua primeira edição, quando foi incluído em Novas Andanças do Demónio, colectânea de contos meus publicada em 1966. Descoberto como “conto fantástico” poe E.M.de Melo e Castro, foi incluído na reedição, por ele preparada, da Antologia do Conto Fantástico Português, de 1974. Aquele físico, (ou médico, ou mágico, no sentido medieval e ainda ulterior ) que eu criei, como símbolo da liberdade e do amor, quando escrevi dele em 1964, no Brasil, retoma enfim a sua independência, e sai sozinho pelos caminhos do mundo, tal como aprece na narrativa que é sua. Ocorre-me que lhe cumpre andar sozinho nas mãos dos leitores, como sucedeu com o ilustre Malhadinhas de Aquilio Ribeiro, saído também das páginas do livro de contos em que primeiro aparecera”.


O autor compraz-se na independência que o seu conto adquiriu, em nova edição, porque este físico é, como ele diz, “ meu muito bem-amado filho entre outros, e que sempre tive por como que um ‘alter ego’ ”.
Segue defendendo, ao contrário da elogiosa definição de Melo e Castro de “modelo” para o seu conto, abrindo o conceito a uma “fusão de invenção própria com o mais profundo da natureza humana, parte do que é o inconsciente colectivo e comum a várias civilizações, muito do que é ‘popular’, ou o foi e ainda significa” (p.9). Refere depois uma das suas fontes, o Orto do Esposo, texto anónimo do século XV que, como erudito honesto que é, nunca deixaria de citar. Mas fá-lo para desde logo para o demonizar e fazer divergir do original, actualizando-o, a seu modo, e tornando-o universal e arquetípico. Alude ao que já verificámos, mas explica melhor: “experiemntalismo narrativo, jogando com o espaço, o tempo, repetição variada do texto, etc.
é uma das bases essenciais desta novela, como o é a Idade Média ou algo de semelhante, fantástica, em que a situei. Esta “época” permitia-me uma liberdade de imaginação em que o fantástico, com todas as implicações eróticas e revolucionárias como eu sentia ferver em mim na pessoa do físico, podia ser usado para tudo” (p-11).


E assim temos a mão livre de Mariana, que aborda a narrativa com as cores e projecções do seu imaginário, livre também, mas igualmente impregnado de uma cultura visual que faz parte do século XX , a sua primeira metade, em que imperam liberdade, por vezes libertária, mas sempre de grande inovação criadora. 

Yvette Centeno

Saturday, December 22, 2018

A HORA




Chegou a hora?

Então fechemos.

Fechemos
primeiro as portas
e depois as janelas.

Fechemos.

Que os dias sejam mais longos
e as noites mais breves,
pouco importa:
as noites serão os dias,
os dias serão as noites,
e no intervalo
das horas
o silêncio da espera.


Tuesday, November 27, 2018

Clara Andermatt, a Arte Inconfundível





Clara Andermatt, a arte Inconfundível

Perante o que sinto diante de uma obra de arte, a minha primeira reacção é o silêncio. Um silêncio feito de espanto que me obriga com tempo a encontrar, porque as procuro, as palavras com que o dizer. Porque desse silêncio nasce algo de mais profundo, um espaço ou um tempo que têm a marca dos primórdios da criação, do seu mistério, da sua interpelação.
Parece imperativa , a necessidade de dizer, e não é fácil: com o corpo, com a música, com palavras que são igualmente corpo, e música.
Já é longo o percurso de criação de Clara Andermatt: viagens, travessias e atravessamentos, de que trazia consigo o gosto da surpresa e da inovação.
Para mim a primeira e maior novidade, na altura,  –estava eu há anos a ler e traduzir o poeta Celan – foi a coreografia ao mesmo tempo tão simples e complexa CIO AZUL (1993).
Assim mesmo, indicação aos que acham que sem ter tudo não podem fazer nada, quando no nada já tudo está contido, como no QUADRADO BRANCO de Malévich (1918) que José Gil tão bem estudou. Ele pinta logo a seguir à Revolução Russa, como Celan escreve logo a seguir ao Holocausto, explicando que “ tudo é menos do que é, / tudo é mais”, em ENTRADA DE VIOLONCELOS, e afirmando que a poesia  a partir daquele momento já não se impunha, mas se expunha (1969). E assim mesmo, nua, despojada, cadáver que se lavava um cadáver-palavra ( como no poema dedicado aos amigos Hannah e Hermann Lenz, arrepanhados de noite):

Uma palavra- bem sabes:
Um cadáver.

Vamos lavá-lo,
vamos penteá-lo,
vamos voltar-lhe os olhos
para o céu.

Estamos neste poema como no mais singelo dos discursos de Clara, nesta coreografia carregada de sentido. É o OLHO DO TEMPO (de novo Celan) que olha de través “sob um sobrolho de sete cores”. Assim “ o mundo aquece / e os mortos / brotam e florescem”.
Por outras palavras, da simplicidade do Nada exposto o mundo volta a nascer. O mundo que é a Obra, só em singeleza concebida.

Parece e é bem verdade, que neste início de século, o mundo nos preocupa a todos, criadores e cientistas e que de repente (quase como nos séculos de antigamente, do Humanismo e do Renascimento) nos sentimos mais próximos uns dos outros, nas nossas interpelações.
Assim chego à grande Revelação deste ano que Clara Andermatt com João Lucas, seu compositor de excelência - quase alma gémea – nos apresentaram no Teatro São Luiz: PARECE QUE O MUNDO (a 22, 23, 25 de Novembro, tão pouco tempo, infelizmente). Inspirada, dizem, esta obra, numa de Italo Calvino, Palomar, salientam os autores:
“Na construção da peça propusemo-nos , em total paridade criativa, uma renovada ambição no nosso percurso em comum: não dissociar, em nenhum momento, a invenção coreográfica da invenção musical”. E adiante: “ Esta peça oscila entre três planos distintos: o da observação, o da narrativa e o da meditação....A escrita de Calvino deu também origem, em múltiplos desdobramentos de leitura e de interpretação, aos enunciados da invenção do gesto e do som...colocando cada espectador num observatório da sua própria experiência.”
E aqui me sinto eu um pouco mais à vontade, porque eu senti sobretudo uma grande consciência  e reflexão sobre o que o mundo parece (ou chega a ser, no caso de cada um), uma grande intuição ou um grande conhecimento já em parte adquirido, por estes criadores. Referem a relação mais ampla com o cosmos, ora seria impossível essa relação não estar ali presente, vivida e sentida, materializada em cada movimento de energia mais intensa, que irrompe como forma de maravilhamento que a todos surpreende. Referem o infinito, que naturalmente a relação com o cosmos não pode deixar de arrastar consigo. É discussão permanente do tempo em que vivemos: é finito este cosmos, do pouco que ainda sabemos dele? Ou infinito? E que sentido adquirem então nele o SER e o TEMPO de que Heidegger falou, deixando-nos sem resposta? O ser é a matéria, é o espaço em que os corpos se movem, o tempo a energia  que os sustenta, os transposta, os transforma? Porque Einstein veio trazer esse novo conceito, de um tempo-espaço que abriu o nosso imaginário, de criadores e de cientistas, a novos e insuspeitos horizontes. Temos de navegar neles.
E o que fazem este nosso criadores de que agora me ocupo? Sem temor, embarcam, e deixam no ar, para nós, espectadores ainda impreparados, mas maravilhados, todas as interpelações.
A cada um sua busca, sua resposta...atravessada ou não pela sua vivência de um quotidiano que é seu.
Assim, perplexos, assistimos num palco que se complexificou  no seu conjunto muito elaborado de propostas, já não é o singelo do passado (nem poderia ser, em pleno post-modernismo do século XXI) é algo que é mais do que uma proposta artística,  uma elaboração de um conceito complexo, aprofundado, ampliado nas suas várias vertentes, artísticas, filosóficas e até científicas que vão para além do inspirado Calvino.
Lidamos aqui com a matéria, os corpos, e com a energia, os sons, a música. E uma matemática de raiz simbólica, pitagórica (séc.VI A.C. ) estruturada nesta coreografia surpreendente que eu definiria como variante do seu número de ouro  ( pois bem sabemos, pelo alinhar dos versos de ouro, que se trata ali de conceitos relacionados com o Belo, com o Bom, com o prodígio
do imaginário humano).
Impossível, na meditação que a peça impõe, não recuar aos tempos míticos da fusão andrógina do ser, na sua primordial completude: a existência nasce da fusão do verbo com a matéria, nomeada, para poder existir. Como ali no palco música e bailarinos se fundem, se confundem, a ponto de haver até uníssonos nas vozes que suavemente se sobrepõem e erguem, dizendo que estão ali, fazem parte de uma estranha união que, como na física quântica, ora são ondas ora são partículas, consoante a atenção do nosso olhar virado para o palco. Na música sentiremos a energia da ondas, nos corpos a materialização das partículas.
Mas eis que os criadores, perversos, para nosso espanto tudo invertem: os músicos, com a sua música vão como pura matéria pelo chão fora, e os bailarinos, misteriosamente transmutam-se em puro som, pura energia, transparente quase e invisível.
Tudo ali de repente é matéria, e por vezes explode, tudo ali é espírito (energia) e como o gato de Schroedinger nos deixa sem saber : está ali ou não está. E nunca esteve? E se está estará vivo ainda ou estará morto? Ou ambas as coisas, em simultâneo, conforme?
Por isso amamos tanto estes dois criadores, que nos abrem num palco este princípio só aparentemente fácil, da INCERTEZA.
Eles próprios dizem:
 PARECE QUE O MUNDO pode ser “uma daquelas felizes coincidências em que o mundo quer olhar e ser olhado no mesmíssimo instante”.
Ou por outras palavras: o impossível.
Só de impossível pode ser feita a arte...

Y.K.Centeno
2018




Monday, November 12, 2018

Sete Degraus Sempre a Descer






Eugénia de Vasconcellos, Sete Degraus Sempre a Descer, ed. Guerra&Paz, 2018.
Já tinha escrito no blog de literatura sobre o anterior, mas este tem talvez mais matéria para reflexão, não apenas literária, quem sabe. Só lendo com cuidado.. Marco Luchesi que escreve na contracapa, designa-o logo como “livro de alta poesia”.
Não será coincidência, este ano tem sido para mim uma sucessão de sincronias, como prefere Jung que se chame. E esta, de novo, com o sete. Pois em Janeiro as edições sem nome – sempre amigos do Norte – a tomar conta de mim, vão publicar as minhas traduções dos SETE CANTOS DE THOTH, de Étienne Perrot, hinos inspirados nas gravuras de Michael Maier (que ele próprio traduziu). São as meditações de um alquimista junguiano com quem durante quase 20 anos aprendi em Paris o que sei, de leituras feitas, análises tentadas, “aberturas” de portas como as secretas dos sonhos mais arcaicos.
Pois aqui está à minha frente um 7 para decifrar. Luchesi chama-lhe rito de passagem, a este livro. Não vou discordar aqui das suas afirmações, que atribuem à obra uma dimensão mais religiosa quase, do que mítica.
A descida pode ser uma ausência sofrida, um adeus que se aceita ou rejeita, a busca no escuro da uma cave na montanha altíssima de uma meditação que transforme (como na alquimia). Ou tão simplemsnte uma descida à noite escura do silêncio da alma, como em São João da Cruz, enquanto a luz de uma nova Aurora não se faz anunciar.
Prosaicamente, fiquemos no singelo, como diria a Clara Andermatt, conhecedora do íntimo valor do simples, que Paul Celan já glosara e eu não me canso de repetir ( e praticar...):
Tudo é menos do
 que é
tudo é mais.
(Entrada de Violoncelos)
O sete é um número que descobrimos no Génesis, - o dia em que Jeová repousa, feliz com a sua criação do mundo e da espécie a quem entrega a guarda do Jardim do Éden. Nas correspondências tradicionais temos os sete dias da semana, os sete planetas, os sete graus de perfeição, as sete esferas celestes, as setes pétalas das rosas, os sete ramos da árvore cósmica dos vários chamanismos, e sem esquecer muito mais, da simbologia que lhe é atribuída: as setes hierarquias dos Anjos, por exemplo para figurar a totalidade da perfeição dos mundos celestiais.
Assim descobrimo que no sete ( e voltemos ao Génesis) se encerra o todo da perfeição, divina, cósmica, e por lhe pertencer, também a material: o primeiro par humano feito de lama...
O sete indicaria um ciclo completado numa enumeração positiva.
Passo adiante toda a enumeração de cultos, do ocidente e do oriente em que o sete intervém, como energia condutora. Até na lira de Orfeu...
Em resumo, podemos dizer que o sete simboliza a totalidade do espaço e  a totalidade do tempo.
 Passo adiante Heidegger, na discussão do Ser e do Tempo.
Mas pressinto, ao ler, que nestes poemas é o Ser que se expõe, e à margem do tempo que imobilizou algures no íntimo da alma, que é forma secreta do ser.
Eugénia, neste seu livro, deixa uma porta aberta para uma transcendência que pode escapar aos incautos. Como Dante, que andou pelos seus versos, a viajar numa caminho que também foi de descida, - inferno, purgatório – até chegar ao deslumbarmento da cósmica visão do Centro -
 Clemente de Alexandria ( 150 AD) podia ser outro a entrar por essa porta: àcerca de Deus, Coração do universo, escreve o santo que Dele emanam os seis espaços e as seis fases do tempo, e que esse é o segredo do número 7: regresso ao centro, ao Princípio, pois a seguir à sequência do seis surge o sete que o fecha.
Podia ficar eu agora a pensar, por isso Jeová deus, descansa....mas não há descanso, na verdade, há movimento perpétuo. O sete contém o movimento, não o repouso, na sua totalidade. É um número de dinamismo total, como podemos ler em tantos tratados, das várias religiões, Surge no Apocalipse de João, surge em Avicena, nas sete aberturas do corpo e do coração que os chineses figuram nas sua práticas médicas, filosóficas, secretas e e alquímicas.
Passemos do sete das míticas religiões ao sete de Dante, que a autora conhece bem, e à descida de uma escada de sete degraus, – os degraus sempre a descer. Por que razão? Que impulso negro se adivinha por aqui?
O desejo de chegar à libertação da rua ? ou de chegar às profundezas da cave em que toda a matéria do inconsciente arcaico se revela e nos abre ao conhecimento de nós próprios, limitações, qualidades, defeitos...necessidade de continuar no caminho, ainda que no tropeço de muitas banalidades. Sem esquecer que afinal toda a escada é de ouro, liga o céu à terra, um corpo a outro corpo.
Dante ( no Paraíso)
Vi uma escada côr de ouro
iluminada por um raio de sol, e que se erguia
tão alto que o meu olhar não conseguia segui-la.
Vi ainda descer pelos degraus tanto esplendor
que pensei que todas as luzes  que se vêem no céu
se tinham espalhado por ali. (cap.21, 28-34)
Falei do coração, no imaginário chinês.
E é no coração, num ciclo de trigramas, que vou permanecer, na escolha dos poemas que formam os Sete Degraus Sempre a Descer, como miolo do livro...
Perguntar o que é a poesia, ou o que é o amor : não tem resposta, ainda que numa língua de outro.
Era Jung quem nos recordava que a língua do inconsciente – essa sim, era a língua de outro, do outro em nós, ainda desconhecido, e ansioso por comunicar. Eugénia reserva para o meio do seu livro a tal imagem do coração para onde se desce, e onde o centro se pode finalmente revelar.
Vamos pois com ela, descer os sete degraus (pp.15-21):
1
O coração, rico em fogo, arde
de amor até que o beijo termina
 numa boca de cinzas.
2
É tão funda a travessia da tua ausência...
Estrelas perdem-se para encontrar
o meu coração no escuro.
3
Companhia intensa e íntima,
melhor amigo, meu riso, meu confidente,
meu Amor.
Ao teu lado, contigo, sempre, dentro
de ti me levavas, e habitava-te, meu Amor,
minha casa.
Excessivos pronomes possessivos: meu, tua.
Já nenhuma morada, só um endereço.
4
Apenas as horas sucedem às horas,
nenhum intervalo de milagres e
é quase noite: a luz desce
e a vida. Não há respostas, só
as janelas agora cegas e este
ponto de interrogação de frente para
o ponto final.
5
Esperei a palavra que salva,
a boca que, beijasse ou mordesse,
fosse sopro e nome de vida.
Não chegou.
6
Sinto. Penso. Sei:
o Amor, porque não tem princípio,
não tem fim.
E é da sua condição iniciar-se na dôr,
e vencê-la,
sem que a chama se apague.
O outro nome de um coração é liberdade
e só por isso nos deixamos prender.
O outro nome do Amor é tu
e só por isso nos deixamos matar.
Há outra eternidade?
7
O Amor é um canto
de riso e de lágrimas,
um canto concreto e fremente,
uma existência.
Uma oração.
A pequenina chama sempre acesa que
serve à adoração.

 Quebrando, porque a actual narrativa poética pós-moderna impele à desconstrução, temos nas páginas seguintes a esta meditação em sete passos ( carregada de interpelações existenciais, para não dizer místicas e sofridas) um capítulo III de Corações No Escuro (como que evocando uma Clarice Lispector, não citada, mas certamente conhecida, pelo célebre Perto do coração Selvagem, obra que atravessa o inesperado da vida cortando-o com a velocidade da prosa) – quebrando, dizia eu, o ritmo dos versos anteriores, Eugénia traz agora à nossa leitura situações de um quotidiano familiar, a laranja na mão, a cozinha onde a corta, a evocação de alguém que ali não está. De um real ou possível passeio nos jardins da Gulbenkian, para um beijo real ou imaginário, resume a poeta o que é a existência, como agora a descreve: “ uma existência de papel”. Fugiu-lhe algo da vida, na descida dos degraus, agora vive se escreve. Em A Carne Suspira Melhor (p.27) poema que descreve um sonho acordado, porque sonhar já não é posssível, a consciência tomou conta da vida, o que se deseja agora é o dia a dia, “os passos concretos” (nos outros de que abdica, da escada invisível, o caminho era incerto...) e devagar se chega do espaço da cozinha ao espaço de um corpo que se deseja, é bem real, tem cheiro, tem pele com sabor, e já  é só memória “ o céu aberto de estrelas” de um Dante ultrapassado.
Contudo, um pouco do maravilhoso que todo o Amor guarda em si, veremos adiante como brilha o seu trono:
O amor de um homem é um trono
adornado de céu e estrelas e,
toda a gente sabe,
a mulher gosta de jóias
(p.30).
Não fosse o leitor embalar-se de novo nalguma visão etérea, Eugénia com o seu subtil (ou nem tanto) sarcasmo volta a pôr os pés no chão de quem iria com ela descer novas escadas...O amor acaba, afirma continuando noutro poema, que repete o que ficou dito. Evoca um Ulisses que perdeu a sua força mítica, evoca Pedro e Paulo, santidades esquecidas, para fechar com um verso que apesar de tudo interpela, não é afirmação categórica:
“ Talvez o coração nada tenha para aprender” (p. 38).
Eugénia de Vasconcellos é tão jovem ainda, a vida lhe trará outras experiências, literárias e não só, viajará por dentro de corações mais inquietos ainda, quem sabe, do que o seu, e o túnel de que fala, erguido entre dois sonhos, seja afinal menos negro do que as negras asas  dos Anjos com que julga saudar a morte (p.36).
Reset  
 Respira.
Não há plano.
Não há sonho.
Não há futuro.
Só há agora:
de hora a hora
até o passado se desfaz.
Não vais morrer:
respira.
(p. 40).
Respiremos, vai ser preciso reler...