Saturday, February 11, 2012

Perejaume:Os Lugares da Pintura

Nasceu em 1957 na Catalunha, cresceu numa quinta, e talvez por isso o amor à terra, terra-mãe, generosa e dura, nunca o tenha deixado por completo. 
A sua obra distingue-se, na poesia, prosa poética ou reflexiva, tanto como na pintura e na escultura, por uma atenção peculiar à natureza, ao mundo que o rodeia, à intervenção que a própria arte exige.
É marcante a influência que sofre de Joan Brossa, o grande modernista, também no seu duplo interesse por pintura e poesia, como se o impulso existisse quase que em simultâneo e logo desse modo se manifestasse.
Ganhou em 2005 o Prémio Nacional de Artes Visuais da Catalunha, em 2006 o Prémio Nacional de Espanha para as Artes Plásticas e em 2007 o Prémio Nacional de Espanha para as Artes Gráficas.
Revela-se um artista de múltiplos interesses e criatividade, algo que já nos encontros de 1996, em Lisboa, se podia descobrir nos textos que deixou e aqui apresento em versão livre.
No título de um dos seus livros de 1989, já se vê que entendimento tem da produção artística; o título reza: “O que é a collage senão reunir solidões?” E na realidade ultrapassa solidões ao interessar-se por pintura mas também por fotografia, video, e não desdenhar o fazer instalações, por precários que se entendam esses momentos.
Perejaume entende a precariedade da arte, como da vida.
Relativiza, com ironia ácida por vezes, mas severa na exigência do fazer que oferece ao olhar e ao pensamento dos outros.
O mundo natural nunca está longe, e sobre o natural e o artificial no conceito de criação reside a sua diferença e como por vezes diz, a sua” dissenção”.
 Ele difere, não segue, não imita, não concede.
Criou um ciclo interessante, deste ponto de vista: Formas da Dissenção (Formes de la dissenció) em 1990-91, e neste mesmo espírito expôs variadas obras na galeria mais célebre de Barcelona, a Galeria Joan Prats ( de que Brossa era também um dos artistas).
É talvez mais conhecido pelas performances, workshops, instalações feitas ao longo dos anos, mas os textos que aqui ficam explicam muito do sentido, da originalidade e actualidade do seu pensamento criador.
Veremos nestes poemas a espessura (a matéria na imagem), a reflexão e a ironia de  um permanente desafio, lançado a si próprio e a nós todos.
Em muitos dos poemas que ele mesmo escolheu podemos ler uma teorização da pintura moderna, sua e alheia, à qual de vez em quando recorda que não há imagem que suplante a emoção da própria natureza: ele contempla-a no alto das suas montanhas pirenaicas!
Tal como fiz com Arnau Pons, apresentarei aqui algumas versões dos seus poemas, esperando a benévola reacção dos meus leitores. 
Traduzir é como se sabe, parcialmente trair, mas a quem ama a poesia tudo deve ser perdoado! 




A GRANDE COLHEITA
Na casa, o fogo faz arder portas falsas.

É deus Polar, vertical como os merididanos,

e com os cimos em cruz na flor da azinheira, ergue-se

diante do Cruzeiro com o Hissope nas maõs.



Brota na torrente a cauda de um cometa,
pela encosta abaixo, saltando sem barulho, 
enquanto os palheiros, em branco ou em maquette
enchem a Carroça grande ou a mais Pequena


Fundem-se pouco a pouco na dôr,
a água é um bosque ainda não consumido,
com flocos de casa no ar puro.


Sobre a folhagem luz a serrania,
arde nas rochas a água prateada,
suspenso no céu o fundo obscuro.




MOLDURA
A serrania e a tarde são uma
única moldura de ouro velho e sombras:

não há barrancos pirenaicos nem círculos de lua

descritos no cinzelado fantasioso



da talha, o acanto luminoso que faz ondular

as águas, a concha de turvo nevoeiro fundida
no alto com a espessura de algum antigo
arvoredo no lugar mais distante

onde se cruzam as brisas do museu
e a pintura, com a marca indivisa
que fecha a tarde sobre um Pirinéu
dourado, completamente vago, impreciso…

O PESO
O peso dos quadros é bom de sentir quando é real, porque os levamos às costas, subindo sempre, e ainda mais se é para algum lugar onde raramente se deslocam os pintores. O peso dos quadros é, pelo contrário, aborrecido, se de termos já visto tantos o quadro se torna como que um peso morto, tão igual que nos cansa e nos afasta, desejando fugir para mais longe, mas sem que haja maneira de o fazer, tudo o que vemos se parte em quadros, e cada quadro em dúzias de quadros iguais.

POSTNATURALISMO  1
Alongar um Giacometti, endireitar um
Soutine, encher os Fauves de cinzentos,
encurvar um Mondrian.


POSTNATURALISMO 2
Obter com tranformações 
genéticas, realmente, numa
rosa, o vermelho com que 
pintava Emil Nolde uma rosa.

O MONTE
Num extremo da língua, num extremo
inclemente da língua, distante e sem empatia,
dar um concerto. Levar os instrumentos e as
cadeiras, mas depois não interpretar nada…
Que os instrumentos também ouçam, lá cima,
o volume extremo da língua. 


DESDESENHEM TUDO



Desdesenhem tudo e ponham na tela os desdesenhos! Procurem

com afã novas dilações! Nunca saberemos se os quadros nos
estorvam ou nos ajudam. Levamos na cabeça um lugar vingador,
e é com esse irreprimível desejo de pintar que exortamos os 
brancos luteranos, a erosão dos narizes, os formatos abertos…
e com fixadores por cima do apagar de borrachas quase  
descobrimos uma vontade forte no deixar de fazer.






























Thursday, February 02, 2012

Arnau Pons : a palavra que ofusca

JUNTO À LUZ


que fracturada vem do alto

com débil ferocidade:


a neve que entre- dois-

crepúsculos trocava blafésmias,


bem nossa

é a palavra que ali se acrescenta,

e sem chama, os alvos,

quando lembranças não desejadas trazem dor,

os tão calados,

de súbito

caem

aqui.


Então será preciso suspender o cansaço

por horas, solidão.


( neige-en-dedans blancheur

occultée

où tourne le témoin

JEAN DAIVE)


ARNAU PONS : a palavra que ofusca

NOITES QUE FABRICAS, rigorosas;

as mãos na

clara-sementeira das centáureas

o sangue derramado exposto

ao vento,


Tantas estrelas quantas podes abarcar,

tanto negrume de nuvens, tantos

desastres de chuva, as imagens do mundo

destituídas,


tudo isto se abre,

decresce

extingue-se apenas


dentro da cesura, um corte

de miséria com

os tenros anos no cardal,

de novembro a novembro,

dentro das gaiolas,

como os tão vãos

ofiúros da videira, com a dormideira,

junto aos duplos reinos:


entre os dedos toda

aquela escuridão que estagna, eterna;

mais nada.


ARNAU PONS : a palavra que ofusca

O NOME DO ARCO és tu;

a sua flecha,

uma foice negra.


Lança-a para o alto:

leva consigo, cravado no coração,

um fruto por morder –

-ceifado.


ARNAU PONS : a palavra que ofusca

CHEGAS, acreditas, ao fim,

que a água obtura

com a sua espectral maneira

do não dizer,

e lanças-te aí

para respirar a falta de ar,

fendida pelos vivos

tremores da emanação concêntrica

formada dentro de ti. Então voltas ao barro;

sobre os seixos crescem

os flocos de ninguém que lês e fazes teus.

Atravessas a hora,

a cicatriz gasta daquele olho;

persistes: dele extrais,

a pouco e pouco, a luz viscosa

da adormecida estrela que abandonas,

sonhando,

num ramo incertamente escrito.


Um peixe morto, desolhado,

rasteja pelo abismo, seguindo a invertida

Via Régia

rumo à promessa que quebraste.


Dois reis giram à tua volta;

és posto


fora

de todos os lugares,


e a ti mesmo te investes como rei.







Arnau Pons : a palavra que ofusca

AGARRAS-TE à voz, luz de destempo

que faz encaminhar a vida;

ninguém

se cala, todos querem escrever as trevas;


em direcção a ti, aquilo: empalidece

com lepra e neve a mão coberta,

as unhas com arcos de promessa;


rastos: que esboçam?

portas: que abraçam?

real uma só paisagem: os mudos,

arteriais, dragões alados de Medeia;

cosidas letras

estrias do céu;


sob a pele,

ficam os cadáveres das palavras;


uma poça de sangue abafa no escuro

um grito;

subitamente ergues os olhos

para a escória.


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ARNAU PONS : a palavra que ofusca

Nascido em Majorca, em 1965, vive am Barcelona onde alia a criatividade poética ao ensaio e à tradução literária.

Entre os poetas de sua preferência encontramos Luiza Neto Jorge, Herberto Helder, Jacques Dupin, Paul Celan, entre outros. Este veio a marcar profundamente o seu imaginário e o seu meticuloso exercício da palavra.

Desde 2001 integra o grupo de investigação da obra de Celan, criado em Paris por Jean Bollack.

Apresento aqui uma pequena selecção dos poemas que em 1996 foram lidos em Lisboa, num encontro organizado pela Fundação Gulbenkian, agora revistos por mim, em

versão livre de homenagem à sua obra.

Ele, com a sua paixão por Paul Celan, e outros, de voz tão inspirada quanto a dele, merecem entre nós o destaque devido a esta nova geração de poetas da Catalunha.

Sempre tão perto e tão longeHá nesta poesia de Arnau Pons, por um lado tão íntima e ao mesmo tempo tão universal, um apelo que é de sempre: o de buscar (encontrar) na palavra aquela réstea de luz que seja redentora, aquele fragmento de ser que não se negue aos outros, aquele buraco negro da memória onde o nosso tempo não se deve esconder, não deve esquecer nunca que houve outrora um olhar desviado, transviado, e que o negro da História está sempre ali à espreita.

Poesia que relê o sofrimento de um desamparado e desesperado Paul Celan enquanto figura emblemática da própria condição humana: o que viu e não se desviou, viveu para contar e morreu por isso, como tantos no mundo, ainda hoje ( nós somos todos esse judeu errante, perseguido, em busca de si mesmo e do seu deus ausente).

Poesia que busca para lá dessa nigredo o seu própro sentido do dizer.

Encontro em Arnau um olhar discreto, mas severo: de exigência ética e estética.

Ele não pratica, na sua arte, a elegância fácil, a limpidez e o brilho da sua escrita nascem de outras águas, as da consciência moral que busca para lá do Belo o Bom e o Verdadeiro da tríade platónica.

Filosofia que ofusca: a Ética como raiz do Ser, a Estética como fundamento da existência.


RISCAS AS ÁGUAS,
sob o umbigo, encerrado,
puxa-te a mão para um céu que chora,
e sais
entre dedos sedentos do teu negrume,
lodo fétido,
festa louca e de viver tão farto;
passas à beira das árvores, gritas
o monte de visco, a feia besta
que nasceu contigo;
estremece a água, dentro da casca
que te afogou retorces-te
qual morte dentro do olho que te criou.
De um mau sonho, de uma escuridão,
agora cospes fogo e escuridão, escuridão;
amendrontas-te, procuras
como uma serpente aquele mamilo de rocha:
até secá-lo.
Tens amargura no amargo da boca.
Tens o cheiro do pai.

DIMANADA

colhias

o veneno com o corpo; a flor

fechada, tão adormecida do teu sexo,

apenas lábio

cavado na mudez;

cega de amêndoa,

raça de olhos fechados…

Cabelos errantes, provavas

(dente cravado na morte: uma oração desfeita

a fim de ser criada)

o sangue a chorar dos ramos



Do norte

veio o sangue,

e havia de invadir as águas;

do norte desatou-se aquele vento

que agora te inclina,

aninhada nele, entardecida de febre

- a mão amputada que se estende

para ciosamente se saciar

de ti.


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Saturday, December 17, 2011

Eduardo Lourenço, Prémio Pessoa 2011

Veio mesmo a tempo, este prémio, mais do que merecido, para fechar um 2011 no geral desolador.
Alguém disse de Eduardo Lourenço: ele ama Portugal.
Não duvido; mas duvido que ame os portugueses...os portugueses de hoje desencantam, não podem ser amados no sentido amplo e generoso da palavra. Só algumas excepções: as crianças doentes e de olhar perdido, os velhos, os desamparados, humilhados e recolhidos a si e a um silêncio que pesa, agora e sempre. Esses merecem ser amados, merecem mais, que se lhes peça perdão pelo mal que se tem feito e continua a fazer.
O olhar de E.Lourenço sobre Portugal é de interrogação: e quem sabe se de perplexidade? Um Portugal que se diz ou se quer europeu sem saber o que isso significa?
Pois há muitas Europas, tantas quantas as diversas línguas e culturas nacionais...no meio delas Portugal parece uma barco à deriva (não, não uma caravela, um botezito!).
Quando Eduardo Lourenço chega a Portugal em 1975 para um Seminário sobre Fernando Pessoa e o Modernismo a esperança era outra, era grande.
Contudo, logo nas primeiras aulas (sim, havia aulas, e nós, na altura já a caminho de doutoramentos, cada qual o seu, íamos com imenso prazer assistir a essas aulas, ávidos de outros conhecimentos, outras ideias e outros pensamentos) - logo nessas primeiras aulas o exemplo que Lourenço nos deu, lendo um poema de Pessoa, foi o da consciência que se interroga a si mesma interrogando o mundo
do ciclo Além-Deus, começou a ler:
I/Abismo
Olho o Tejo, e de tal arte
Que me esquece olhar olhando,
E súbito isto me me bate
De encontro ao devaneando-
O que é ser-rio, e correr?
O que é está-lo eu a ver?

Ficámos com esta reflexão, que haveria de ser a marca de todas as sessões desses seminários, tão diferentes do ensino tradicional a que se estava habituado.
Eduardo Lourenço não definia sentidos, sublinhava as interrogações.
Deslocou desse modo o nosso olhar: não era o ímpeto moderno-futurista de Álvaro de Campos, não era o filosofar aristocrático e distante de Ricardo Reis, nem sequer era, ao fim e ao cabo, o místico panteísmo de Alberto Caeiro (o Mestre) a grande lição pessoana.
Era sim, como na Aurora dos tempos, como no despertar do Homem primitivo, a surpresa de dar consigo a ver - isto é, a tomar consciência de si enquanto tomava consciência do mundo à sua volta, neste caso do poema o rio, um Tejo de águas mansas correndo como corre o pensamento.
Os restantes poemas do ciclo não foram ali abordados.
Mas eu continuei a ler, pois a minha curiosidade fora despertada e não sendo eu "pessoana", como outros, queria ir um pouco mais longe, se possível.
Assim eram dadas as lições dos Mestres: despertando em nós o desejo de ir um pouco mais longe!
O Além-Deus do título do ciclo iria levar-me a cogitações de ordem iniciática e alquímica, neste como noutros textos de que mais tarde me viria a ocupar.
Eu já estudava nessa altura (para a minha tese sobre o Fausto I e II de Goethe) a simbólica alquímica e esse imaginário era-me familiar.
Pouco a pouco fui encontrando as similitudes que na obra de Pessoa - poética e de prosa ensaística - tinham deixado marca, ora mais ora menos visível.
O estudo da ciência (ou da arte?) dos símbolos e do imaginário criador não estavam ainda na moda, como hoje em dia (hoje é quase doença, nem ciência nem arte!).
Era difícil citar Gaston Bachelard ou Gilbert Durand (pior ainda Jung) sem que algum esgar desdenhoso aflorasse ao rosto de bons colegas !
Mas as reflexões sempre de inspiração aberta de Eduardo Lourenço foram um incentivo.
Primeiro lendo Heterodoxia, depois lendo Pessoa Revisitado, o Labirinto da Saudade e por aí fora, acompanhando a sua actividade e a sua bibliografia.
Agora Eduardo Lourenço recebe um justo prémio, que tem o nome que melhor lhe convém: Pessoa.
E na Fundação Gulbenkian procede-se à edição da sua Obra Completa.
Só posso saudar estas iniciativas, recordando como, pela sua mão, fui entrando no labirinto de uma eterna saudade: de Pessoa? deste país? de nós mesmos perdidos nele?



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Thursday, December 15, 2011

Rui Zink


De Rui Zink, mesmo a tempo do Natal:
O Amante é sempre o último a saber,ed.Planeta,2011, já em segunda edição.
Abri o livro e logo comecei a ler: encontro na prosa do Rui aquela energia que nos agarra pelo estilo, pela imaginação, sempre fértil na criação de enredos, atravessados por um humor subtil, não o da gargalhada mas o do sorriso que devolve curiosidade à leitura, e tudo isto, como se não bastasse, atravessado por diálogos simples,directos, que empurram a acção, abrem as peripécias de capítulo em capítulo, sem que se deixem adivinhar os desfechos (im)possíveis.
Espera-se de tudo nesta inconcebível viagem a um Japão também ele difícil de (re)conhecer....
Admiro a criatividade de Rui Zink que abarca o imaginário infantil (filhos e netos pedem sempre os seus livros, mal chegam aqui a casa, o preferido agora é o do Menino que não gostava de televisão, é o meu neto de um ano e meio que agora mais gosta dele) tanto quanto brilha na prosa de ficção, ou no ensaio erudito.
Consegue algo raro entre nós: ser escritor de talento e investigador inspirado.
Deixo esta rápida chamada de atenção ao seu recente romance, enquanto acabo de ler, para que aproveitem a época e ofereçam bons livros e boa leitura em vez de prendas banais, que logo ficam esquecidas.

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Friday, November 25, 2011

Outonais

Está no blurb, pela mão adorável da minha nora Sara, o meu novo livro de poemas, que de brincadeira digo que será o último! Espero que leiam e vos faça passar um tempo agradável, como é próprio da poesia!Tem alguns poemas dedicados a pessoas muito especiais...

Tuesday, September 27, 2011

Helder Macedo, A Poesia é de Sempre

Foi lançado o novo livro de Helder Macedo, com poemas novos e velhos, segundo o título e a indicação das datas: mas não há tempo certo na palavra poética, só infinita e universal duração..
O livro abre com um poema recente, do ciclo intitulado
COLAGENS:

O rio corre
da fonte seca
como se rio
de fonte morta
chegasse ao mar
quebrada a ponte
das águas turvas
na torva treva
que o ramo quebra
onde pousassem
aves que houvesse
se ali cantassem
vindas do monte
que o rio leva
de engano em dano
por terra seca
ao mar sem praias
que corre e morre
sem vale ou serra
do mar à fonte

Apercebi-me numa primeira leitura de que havia aqui um eco pessoano, do seu melhor Ricardo Reis, na consciência plena e dolorosa de que no correr do rio seco da alma o próprio tempo se esvai e a vida perde o sentido.
Veja-se como os versos insistem no tempo condicional, o que adia para um talvez improvável ou um nunca mais o que poderia acontecer se alguma vez o rio, pleno, chegasse ao mar, ou mesmo o contrário, se o ímpeto do mar (aquele em que Freud via a pulsar do inconsciente) levasse a sua onda à fonte.
Estamos, nesta poesia de alma, de balanço de vida (sua e alheia) reflexão e distanciamento, perante a terre gaste dos cavaleiros do Graal, ou de uma Waste Land de um T.S.Eliot que Helder Macedo, como todos os da sua geração, conheceram bem.
Neste poema de abertura de um ciclo emblemático as imagens da água (fonte, mar) da terra (também ela seca) e das aves que não cantam (ar) não permitem a ampliação para algo de mais completo e feliz, pois água, terra, ar são neste caso elementos que "regridem", são o reverso de um imaginário alquímico de possível sublimação. Helder Macedo, contudo, não omite a referência a um outro elemento, o poderoso fogo - neste caso a chama que já ardia em Camões, do invisível amor.
O poema 3 deixa a pergunta: como dizer, como exprimir, o que mal se conhece:

Na verdade não sei

O ar é o mesmo
as águas iguais
na terra sem solo
quando o sol é grande
e as aves caídas
voaram do chão

Mas o que eu sei tão mal
como o direi?

Na verdade já está dizendo: não é do exterior que se trata, é da consciência desse Ungrund onde se formam as ideias-força, as imagens arquetípicas, as poeiras do universo da alma, que se trata. O sol (finalmente o fogo) é grande.
Relembrando Valère Novarina, é precisamente "o que não se pode dizer que se deve dizer". Mas um poeta lúcido, como neste caso de Helder, será que se deixa seduzir por este desafio?
A resposta é positiva, e vem no último poema do ciclo, que anuncia um recomeço:
...
sendo assim
recomecemos

havia aqui uma fonte
e árvores
e sombras
as aves todas cantavam de amor

porque tudo é só como parece
e é sem cura

O canto de amor das aves é finalmente redentor, só porque existe. O olhar e o dizer, como em Alberto Caeiro, bastam-se na simplicidade do existir: ser e não o saber...
E assim se descobre e se aceita neste ciclo um devir-eu, um devir-outro, um devir-só que Pessoa tão profundamente (re)conheceu.

Friday, September 23, 2011

Um Adeus para José Niza

José Niza faleceu, aos 73 anos. Vivia em Santarém mas vinha frequentemente a Lisboa onde tinha muitos dos seus amigos.
Deixará muitas saudades a todos os que o conheceram de perto.
Eu recordo o seu trato amável, o seu sorriso discreto, o seu humor.
Outrora, como nos contou um dia, fazendo a tropa no mato, sendo psiquiatra e tendo de lidar com os traumas dos seus soldados, teve a ideia, que todos saudaram, de encenar uma pequena peça de teatro, que ele já tinha acompanhado em Coimbra quando estudante e para a qual compusera um tema: era a minha tradução de Brecht, de A Excepção e a Regra!
Assim foi: com o texto de um Brecht que a Censura da época não pudera proibir e a música, à viola, de José Niza, o sofrimento da guerra ficou por momentos em suspenso e a lição ficou gravada na memória de quem partilhou o texto: a excepção ivia em Santarém mas tinha em Lisboa muitos dos seus amigos de sempre.(que naquele caso era a guerra) não poderia nunca ser a regra.
Devemos a José Niza, entre outras coisas, o poema E Depois do Adeus que a voz de Paulo de Carvalho num Festival da Canção tornou conhecido do grande público e que a Revolução de Abril adoptou como uma das suas Senhas.
Mas o que fica é acima de tudo a dimensão humana deste músico amigo dos seus amigos, numa tranquilidade generosa que nada parecia abalar.
Guardo a sua memória.

Lá no alto
no seu Olimpo
de treva
os deuses procuram
com inveja
algum brilho maior
entre os humanos

Cai Orfeu
pela mão da Bacante
cujo nome é cruel

Mas a sua memória
permanece:
o som da sua voz
ecoa docemente
por entre as sombras
do vale mais distante

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