Saturday, July 04, 2009

Para Inez Wijnhorst, MULHERES


Mulheres (para Inez Wijnhorst)

Aquela mulher cresce
vai no caminho
de sempre
podia chamar-se
 Alice

Aquela sombra hesita
espreita uma luz
que assusta
podia chamar-se
Eurídice

Nascem palavras
difíceis
(palavras
 de caminhar)

Umas sobem
outras descem
todas aguçam
o olhar

O olhar é só pensamento

Orfeu perdido
nas trevas
pede aos deuses
um momento

o direito a hesitar

Há dois fios
delicados
que lhe prendem
o andar

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Sunday, June 28, 2009

Manuel Aurora, O Menino o Homem e o Rio


Perto das férias de Verão, com mais tempo para ler, a minha proposta é que se escolham livros de História, Biografias ou Autobiografias, Memórias - algo que tenha a ver com uma transmissão que ajude a recordar o que foram determinados tempos, as pessoas e as suas circunstâncias, na aventura sempre apaixonante da vida.
Escolhi desta vez uma autobiografia, a de Manuel Aurora, por várias razões: fala de si com muita simplicidade, descrevendo como nasceu e onde, como cresceu, que educação recebeu, e de que modo a sua vida primeiro se integrou e depois, por assim dizer se desintegrou nos tumultos variados do PREC (Processo Revolucionário Em Curso, como foi designada a tentativa de conquista do poder pelos comunistas a seguir à Revolução de Abril).
Manuel escreveu como quem fala, à noite, à roda de uma mesa de família ou de amigos, contando como faziam os antigos contadores de estórias. 
Diz dessa autobiografia que foi "romanceada": mas o artifício serviu apenas para encobrir os nomes verdadeiros das pessoas com que se cruza, ao longo dos anos de outrora e de agora; de resto podemos considerar o seu relato o relato fiel de um homem que precisou de fazer um balanço de vida, o seu, para nessa espécie de espelho ver reflectido um país e os seus naturais, a evolução-revolução-degradação ( ele assim entende o estado do país neste momento) as boas e más decisões tomadas por uns e por outros, as questões de lealdade, amizade e carácter - tudo o que ainda hoje se discute com paixão justificada, porque algumas desilusões, para quem teve esperança, foram demais.
Este é um livro cuja oralidade de estilo logo atrai.
O Menino, o Homem e o Rio.
Um livro escrito para os seus filhos, família, amigos e para aqueles leitores que tenham a curiosidade de saber como viveu quem de repente, nos piores momentos da Revolução de Abril, viu cerceados e perseguidos os seus direitos a um pensamento livre, ao exercício honesto da sua profissão, tendo de fugir para o Brasil com a família. Do Brasil, que ficou a conhecer como ninguém, temporária pátria  de que nos fala ora com algum sentimentalismo ora com distanciado humor, são muitos os momentos que poderíamos escolher para dar a ideia do que ali o autor viveu: desde a marmita que leva para o almoço, num primeiro trabalho, até à quase orgíaca degustação de vinhos com um outro patrão que gostava de partilhar com ele as aparentes subtis apreciações que ia fazendo pela noite fora. E Manuel sem se coibir: se sabia o que dizer dizia, se não sabia inventava, e tudo para mais uma noitada de boa disposição (ou saudade adiada):
" A minha defesa era dissertar sobre o pouco que sabia de vinhos, misturando a conversa com a criação de cavalos lusitanos, passando pelo porco preto alentejano, e ao de leve sobre os rojões e as diversas formas de fazer bacalhau. Mais uma taça, e eu agora dissertava sobre a indústria têxtil do Norte ou sobre os vidros da Marinha Grande, e entretanto já havíamos pasado pelos uísques, depois eram os champanhes e eu, quanto mais falasse menos conseguia beber. Pela meia-noite já estávamos nas despedidas à porta de casa, cada um com o seu copo na mão, a discutir , filosoficamnete, se a Alice no País das Maravilhas era virgem ou atrasada mental..." (p.255).
Entre momentos dolorosos e momentos jocosos se vai estruturando uma narrativa que nunca deixa o leitor aborrecer-se, nem perder-se no caminho: o caminho de uma vida.
De regresso a Portugal, ainda que sem fazer acusações nem guardar ressentimentos, decidiu falar desses como de outros assuntos, sendo  muito especialmente interessantes as descrições da cidade do Porto dos seus anos de menino, a cidade de Lisboa já dos anos 60, e a sua eterna pátria do coração, Ponte de Lima, com o seu rio e as muitas aventuras que as suas águas foram presenciando.
Rio que ele mantém vivo, a embalar-lhe o destino.
 

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Friday, June 19, 2009

O Milionário de Lisboa



Com este título editou agora José Norton a biografia ficcionada do Conde de Farrobo, figura ilustre do nosso século XIX, injustamente votada ao esquecimento: a capital, como escreve o autor, não tem sequer uma rua com o seu nome. 
Há já alguns anos que entre nós as ficções de inspiração histórica se tornaram frequentes: mas nem todas possuem a alta qualidade de um trabalho prévio de investigação, feita em arquivos, nem sempre de fácil acesso, como é agora o caso.
A extensa e útil bibliografia revela que a documentação estudada ajudou a dar corpo e substância a esta obra, em que José Norton não cedeu à facilidade de, a coberto do género ficção, ignorar a realidade histórica e social que a suporta. Fez assim uma verdadeira biografia, ainda que ficcionada, desta personagem singular cujo nome conhecemos talvez por causa dos jardins do Conde Farrobo, do Jardim Zoológico, mas pouco mais.
Cito a nota da capa:
" A vida luxuosa do homem mais rico de Portugal.Uma existência repleta de histórias de amor, beleza, ostentação, pequenos luxos, prazeres e traição. Um final inesperadamente dramático, ao estilo das melhores óperas do século XIX".
Deixo de imediato uma sugestão: que o José Norton escreva o guião para uma série televisiva, ou o libretto para uma ópera...neste momento em que à cultura e à arte tudo parece faltar .
Referi o cuidado da investigação, mas sublinho agora a qualidade da escrita: fluente, elegante, misteriosa quanto baste no desenho e desenrolar da intriga, e acima de tudo amiga do seu leitor. 
(ed. Dom Quixote/Leya, Lisboa, 2009)

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Friday, June 05, 2009

Hein Semke (1899-1995) por Teresa Balté


Em terceira reedição ampliada, Teresa Balté apresenta agora a vida e obra do pintor Hein Semke  que, desde a chegada a Portugal vindo da Alemanha, fez do nosso país a sua pátria, o seu permanente espaço de criação. Uma criação que abrange pintura, escultura, desenho,  cerâmica, gravura - já para não falar da sua escrita filosófica e poética, num natural complemento do seu longo e multifacetado percurso artístico. 
Como escreveu José Augusto França impunha-se conhecer esta documentação, "para a história": mas impõe-se mais, conhecer a sua obra, para a verdadeira história da criação artística europeia e portuguesa.
Semke chega a Portugal com a herança e a marca de um expressionismo feito da revolta e do idealismo místico que encontrávamos, nas primeiras décadas do século XX, na poesia e na produção dramática mais marcantes da Alemanha do tempo. Penso em Kokoschka, por exemplo: e vejo ecos da sua intensidade na côr e no dramatismo de alguma pintura de Semke. Mas há outros, como Barlach, muito de sua preferência, e esta linhagem tem de ser apreendida pelos críticos para fazerem jus à sua obra, no que tem de herança e de ampliação original.
A sua cultura era imensa e abarcava a filosofia, a literatura, o pensamento religioso de muitas e diversas tradições, que o levarão a fazer grandes livros de arte de que destaco o da Índia, entre outros.
A sua curiosidade pela tradição popular leva-o também a estudar as formas da criação dita primitiva - interessou-se aqui pela obra de Rosa Ramalho, a criadora de Barcelos que se tornou célebre com os seus Cristos, os seus animais, os seus Presépios e Ceias, hoje peças de colecção. Picasso fazia o mesmo em Paris, estudando as formas da estatuária africana.
Interessante é ver como a um artista todas as manifestações interessam - não há arrogância no olhar de um criador, há curiosidade e interrogação: ele interroga o mundo, que lhe responde, e das muitas respostas será feita a sua obra.
Como escreve Teresa Balté no prefácio, esta reedição foi pensada para 2005, por ocasião dos dez anos passados sobre a morte de Hein. Mas o tempo não conta, para a divulgação da arte e de um artista.Encontramos aqui muita matéria para ler e meditar: " trata-se de uma cronologia - de factos, textos e imagens " como diz a autora, contibuindo para o essencial do levantamento da obra.
Trata-se, na minha opinião, de um valioso documento histórico  e sociológico, pois o Portugal do meio artístico é aqui dado a conhecer, através dos artigos e críticas do tempo, no que têm de melhor e de pior.
Pois não nos iludamos: se nunca é fácil o caminho do artista, mais difícil se torna ao enfrentar, num país pequeno, à época fechado ainda sobre si mesmo, a mesquinhez de uma sociedade inculta, pouco viajada (não podendo por isso "comparar"  e conhecer é comparar), não podendo e por vezes não tendo mesmo querido, reconhecer a importância da originalidade da criação e das múltiplas formas e técnicas de abordagem que Hein Semke, o Wanderer tranquilo, à época foi expondo e propondo ao nosso meio cultural e artístico.
 Agora temos o livro, num gesto de evocação merecida.
Termino com um fragmento de um seu poema de 1949:
...
Não sou artista
Nem sou poeta:
Sou sonhador
E tudo o mais também.

É isto que nos faz falta, no século agora XXI: a coragem do sonho.

(colecção arte e artistas, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Lisboa 2009)

Saturday, May 23, 2009

Ana Hatherly

Nesta obra de Ana Hatherly, agora publicada, achei especialmente interessante o último dos sonhos que descreve, não só por ser o último, mas especialmente pela sua forte carga simbólica, fazendo como que um contraponto ao primeiro, datado de 1959; entre esse e o último descrito passaram quase cinquenta anos. Uma vida.
Vamos ao primeiro:
" 5/3/59
É a aparição duma estranha criatura, de dimensões ciclópicas, mas de que só vejo a cabeça. É a cabeça dum velho, de grande cabeleira e barbas, uma espécie de Adamastor, que no meio de nuvens me fala dizendo: a vida que vives agora é apenas uma das tuas muitas encarnações; numa outra vida foste outra coisa e na tua primeira encarnação o teu nome foi Tahelda Nimbo.(Ele pronunciou o H aspirado)".
E agora o último, de Julho de 2008:
"Sonhei com Platão. Sonhei que tinha estado em casa dele.Eu andava à procura de casa, uma casa grande com grandes vistas. Visitei algumas mas nenhuma me servia, até que me levaram à casa de Platão. Ele então aparece, com suas grandes barbas brancas. Mas a casa não tinha grandes vistas, tinha só um quintal grande onde, em vez de plantas, havia grandes lápides de mármore. Mas não eram lápides funerárias, eram só enormes lascas de pedra, todas rabiscadas. Então eu exclamei: Ah! Que sítio mais desolado!" 

Numa primeira leitura, quer do primeiro quer do último sonho, o que sobressai é a imagem de um sábio, um Animus forte (o Adamastor) que de início transmite uma doutrina, da encarnação, mas acompanhada de um epíteto ininteligível, o do seu primeiro nome. Podemos locubrar sobe Nimbo, mas não é esse o essencial da mensagem. O essencial é que é dito à sonhadora que a sua vida é complexa, mais do que ela julga, e que o seu caminho se encontra em aberto. Se fossemos recorrer a uma leitura alquímica este velho, de cabeça enorme, de barbas brancas, poderia ser considerado o Pai da Obra; uma obra incipiente ainda, em curso, mas já de forte marca espiritual: o velho, além das barbas da sabedoria, fala do meio das nuvens.
Um longo ciclo parece fechar-se (mas nada se fecha nunca, tudo evolui e se transforma) com o último sonho: Adamastor é Platão, o filósofo das Ideias, um dos pais que os alquimistas consideram, a seguir a Hermes, havendo como se sabe ligação estreita entre o imaginário neo-platónico e alquímico, desde os primeiros séculos da nossa era.
A sonhadora procura uma casa grande e de grandes vistas: a que o caminho da platónica erudição lhe oferece não lhe serve: tem um quintal onde não há plantas mas "grandes lápides de mármore".
Contudo é afastada a ideia de que possam ser lápides funerárias: são enormes lascas de pedra, rabiscadas.
Torna-se claro que no percurso de vida, de procura, tendo adquirido conhecimentos, experiência, erudição, a sonhadora busca algo mais (o uso repetido do adjectivo grande ): as plantas, que deviam ter crescido no quintal; em vez delas há pedras, grandes lascas rabiscadas com sinais que não são decifrados, como no primeiro sonho não tinha sido decifrado o sentido do nome da primeira encarnação.
A Pedra, descrita como lascada (por polir) e a exclamação desolada da sonhadora, revelam que  não está concluído o caminho, que a Pedra tem de ser trabalhada, e que só depois disso a Casa, o Centro, se revelará como seu perfeito local de acolhimento.
O Animus condutor continua presente e forte: primeiro de energia, depois de sabedoria. Alguma coisa me diz que o devíamos relacionar com o Abraxas dos gnósticos, o daimon de que Jung se ocupou nos Sete Sermões aos Mortos.
Mas falta, e ainda bem! continuar o caminho. Que só pode ser o da criatividade: a tal planta que ornamentará o quintal, transformando-o em jardim.

Friday, April 10, 2009

Pessoa Hermético


É hoje mais fácil do que outrora, no meu tempo, quando no início da década de setenta me interessei pela influência hermética na produção poética de Fernando Pessoa, aprofundar tais estudos. 
A marca era visível, explícita, em certos poemas, mas até ser possível estudar os livros da sua biblioteca particular, na casa da meia-irmã Dona Henriqueta Rosa Dias e passar a pente fino os milhares de documentos preservados na célebre arca, eram mal aceites as argumentações a que, dizia-se, "faltava suporte". 
Com estudo e paciência, e devido à amável disponibilidade de Dona Henriqueta, que sempre recebeu com grande gentileza quem a procurava, chegou então o momento de provar que Fernando Pessoa fora um bom conhecedor da chamada filosofia hermética, tanto quanto do Rosicrucismo e da Maçonaria, mais do Rito Escossez Rectificado (de estrutura simbólica alquímica) até do que do Grande Oriente propriamente dito.
Os livros da sua biblioteca eram prova disso, sobretudo os dos Mestres Arthur Edward Waite e Oswald Wirth.
E acima de tudo os célebres papéis da Arca, dispersos, que era preciso ir lendo um a um e reunir para que fizessem um todo, ainda que parcial, fragmentário, mas com sentido próprio e inteligível. 
Comecei por publicar um pequeno ensaio sobre o poema CHUVA OBLÍQUA: nele, para além do experimentalismo modernista, que é marca pessoana, se pode descobrir uma estrutura de cariz alquímico e simbólico, que lhe confere uma singularidade especial. Aí se encontram, em pares de opostos, os elementos terra-água, sombra-luz,consciência-inconsciente (presente-passado) a par de um exercício mental de recuperação de uma infância perdida e de imagens de sublimação como o círculo da bola redonda que escorrega pela costas abaixo da criança que brinca.
Haverá que ler o poema todo, é óbvio, e integrá-lo no contexto adequado.
Eu deixo apenas a citação de uma carta que o poeta escreve a Adolfo Casais Monteiro, em 14 de Janeiro de 1935:
"Há três caminhos para o oculto: o caminho mágico (incluindo práticas como as do espiritismo, intelectualmente ao nível da bruxaria, que é magia também), caminho esse extremamente perigoso, em todos os sentidos; o caminho místico, que não tem propriamente perigos, mas é incerto e lento; e o que se chama caminho alquímico, o mais difícil e o mais perfeito de todos, porque envolve uma transmutação da própria personalidade que a prepara, sem grandes riscos, antes com defesas que os outros caminhos não têm".
Sobre o caminho alquímico muito haveria a dizer, havendo em Portugal, como nos outros países da Europa, desde a Idade Média, conhecimento dos principais tratados, árabes e latinos, que circulavam de mão em mão.
No caso de Pessoa as leituras certas foram as que indiquei acima e  sobretudo a seguinte obra, de extrema importância: 
G.R.S.Mead, THRICE-GREATEST HERMES, Studies in Hellenistic Theosophy and Gnosis, London and Benares, The Theosophical Publishing Society, 1906
Aqui fica a indicação, para quem deseje iniciar-se. Não haverá outra forma, além do estudo, em bibliotecas, onde se escondem as fontes...

 

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Tuesday, April 07, 2009

I Ching


The wind
in its cloud
The tree
in its root