Wednesday, March 22, 2017

Rui Zink,Frederico Lourenço,Patricia Reis

Rui Zink, como sempre, me agrada e surpreende. Nenhum dos seus livros, até hoje, me desiludiu. Factologia, o seu livro sagrado (e já verão como isso me leva a Frederico Lourenço, e ao 2º volume da tradução dos Evangelhos Gregos), é o seu olhar agudo, crítico da nova era em que se entrou no mundo, depois da eleição de um Presidente dos EUA para quem factos bem podiam ser, como são, os fatos do nosso AO amaldiçoado!
Reencontro nos temas, mas sobretudo na ironia das situações, no humor repentino do jogo com as palavras, nos diálogos, tudo aquilo de que sempre gostei: a sua capacidade de intervenção ( que nos faz pensar, no meio da ironia jocosa) e de inovação.
Este seu livro sagrado tem no ritmo das páginas que vamos lendo, um encenação possível, permanente.
Está feito para ser adaptado, com sucesso, ao teatro. Não sei se algum encenador já pensou nele. Devia.
De igual força narrativa e cénica recordo-me agora  de A Instalação do Medo, kafkiano quanto baste, e que se lê de uma ponta a outra com a sensação de que é nesse espaço mesmo que estamos a viver, sem dar por isso.
Rui, atento, chama a atenção: é aí que estamos, cuidado.
E agora, o alerta é bem pior: tudo se banalizou, o medo também ao deixarmos que se finja que não factos concretos, há uma ciência dos factos, que - ironia das ironias supremas - mal se instalou como ideia-força e sistema anulou tudo o que exista ou possa vir a existir à sua volta. A contracapa diz tudo, de forma irónica e concisa:
"Este romance responde à mais crucial questão do século XXI. A saber: o futuro vai ser bem ou mal passado? "
E ainda, noutras linhas abaixo: a fraqueza do protagonista vítima de tudo o que (não) acontece é estar curioso. Antes era a curiosidade que matava o gato. Agora mata a pessoa, com um atropelo de factos que o enredam, lhe suspendem reacções e pensamentos. Pensar é o maior perigo, esta nova ciência fará isso: suspender a força de pensar, o desejo de pensar, o prazer, ainda que mortal, de exercer o génio do pensamento. Se uma palavra (um facto) mata, uma palavra faz viver.
Ainda bem que soltaram as palavras, os novos factos de Rui Zink. Gosto de ler até ao fim, porque se nos livros de iniciação é muitas vezes logo de início que a verdade oculta é revelada, nos livros de provocação acontece muitas vezes que é no fim.
Cito Rui Zink, que avisa em Nota final do Autor:
" A Factologia é o ioga mental do novo século, quiçá do novo milénio.Porque nos ensina a postura certa. Aprender a gostar disto é o segredo para gostar disto. E isto pode ser qualquer coisa: os mosquitos, a peste, o lodo, os escombros, o horror. Como transformar o inferno em paraíso? Há o método errado - tentar mudar o estado das coisas. E há o método certo: aprender a gostar do estado das coisas. Se gostarmos do inferno, ele, com um estalar de dedos, vira paraíso (...) Paraíso e inferno são exactamente o mesmo local, o que muda é a perspectiva"(p.328).
Pois bem, ficarei por aqui, e de perspectivas falarei noutro post, já com Frederico Lourenço.



Monday, February 27, 2017

Ícaros

27 de Fevereiro
Voltou o frio.
Ontem preguicei, mas hoje farei algo de mais útil.
Aqui, no blog de literatura, para escrever sobre os Ícaros das traduções do João Rodrigues, na sua preciosa edição-bibelot, de A lebre que lê...
Começo pelo poema juvenil  de Goethe, Ganymed, porque nele há uma diferença: a morte é imersão na luz, não é queda, é ascensão, respondendo a um apelo do deus apaixonado. Mas essa é uma paixão que queima, que absorve e mata, como acontece nos poemas, na alma dos poetas...
Ganymed é e não é o jovem Goethe, surgirá depois transformado no seu Fausto II de velhice amadurecida, sob a forma de um outro mito mais elaborado, o de Ícaro por sua vez também ele elaborado sob a forma de Euphorion, filho de Helena, a majestosa rainha cuja beleza seduziu Fausto,  que de novo por ela ( a Beleza suprema)  cedeu a Mefistófeles, como já fizera antes na paixão infeliz por Margarida. Paixões que queimam e a que poetas e deuses sucumbem. 
Temos de ler estas  figuras míticas com o que o simbolismo das asas pode representar.
Asas que voam permitem, pelo menos, o sonho de uma acção, uma intervenção, ainda que mal sucedida.
Mas a mera aspiração a ter asas representa um desejo de entrega, uma sublimação que funde, anula, não individualiza, o ser de Ganymed é o da explosão panteísta que recorda um outro jovem, Rimbaud, a dissolver-se, com a sua quilha rebentada, nas ondas de um mar profundo.
 Céu e mar: dois opostos que permitem, ou provocam, o grande desafio de Ser. 
Lendo então, depois deste desvio, o ciclo de traduções dos Ícaros, no livro de João Rodrigues, J'Écris ton Nom... o célebre verso de Éuard, J'écris Ton Nom, Liberté, datado do tempo da guerra. Está na hora de recuperar e gritar bem alto, estes versos.
No livro de traduções, parei especialmente nos Ícaros, e no quadro de Bruegel que os inspira.
No poema de Auden, escrito depois de contemplar  A queda de Ícaro, sobressai a indiferença perante o sofrimento alheio, seja de que natureza fôr, pois a vida rotineira segue o seu curso, calmamente:
....
No Ícaro de Bruegel, por exemplo: como tudo ignora
De forma repousada o desastre; o lavrador talvez
Tenha ouvido o barulho na água, o grito ao longe,
Mas para ele isso não era um acidente marcante; o sol
iluminava
Como devia as pernas brancas que desapareciam no verde
Da água, e a rica e delicada galé que deve ter visto
Qualquer coisa estranha, um rapaz caindo do céu,
Tinha um destino e continuou a navegar calmamente.
(p.58)

Da sabedoria dos "Velhos Mestres" retira Auden o que a experiência de vida a todos ensina: que a vida é maior do que todos eles, do que todos nós...
Do mesmo nos fala W. C. William, em Paisagem com a Queda de Ícaro, escrito também a partir de Bruegel:
Segundo Bruegel
quando Ícaro caiu
era Primavera

Um lavrador arava
o seu campo
e toda a paisagem

desse ano estava
desperta e entusiasmada 
consigo própria
....
um ruído na água que ninguém notou
e era Ícaro que se afogava
(p.59)
A natureza primaveril, a alegria dos campos, sobrepõe-se ao que não passa de mais um acidente, um incidente, que não chega a quebrar o labor da rotina...
Onde fica a atenção ao mito, a compaixão que poderia suscitar se o entendessemos melhor? Figurando a condição humana... Mas em Bruegel o pragmatismo do génio que é o seu não se compadece com desvios do olhar: a cada Estação sua tarefa, a cada passada um outro caminhar.
Já Michael Hamburger, em Linhas sobre o Ícaro de Bruegel (p.61)
amplia de modo quase barroco o que o seu olhar descortina no quadro: cada um na sua tarefa, é certo, lavrador lavrando, pescador pescando, mas a seguir exploram-se os sonhos do marinheiro, sonhos perdidos, nota-se a lentidão do pastor que não entende o bater das asas, até que Ícaro, nomeado como Anjo, falha a sua intenção para sempre. Permanece connosco a imagem do Anjo Derrotado: um Anjo que poderia ser o de Wim Wenders?
Um Anjo feito homem - como poderia ambicionar ser quase-deus?
O cientifismo do Ícaro de Ronald Botrall leva também à mesma conclusão: a presunção de ser parte da "mortal energia", "capturando o segredo da luz e do calor" ainda não é para todos...e Ícaro "não deixará traço nas águas que passam" (p.64).
As águas que passam, as águas do rio Lethes, que tudo apagam, não apagaram contudo o impulso de voar, que mesmo Bruegel fixou, deixando na quase sombra desse rasto a interrogação que permanece, ao contemplar mais uma vez o quadro. 
Bruegel fez-me pensar: em como o grande destaque é dado ao lavrar da terra, ao pastorear o rebanho, ao esperar pelo peixe que será a refeição...ao largo haverá uma queda, um afogamento inesperado, a ousadia desfeita de um Ousado...como quem diz, pouco importa ao mundo o que não é deste mundo.
Como nas gravuras de alguns alquimistas, em primeiro lugar está o labor (labora et invenies...).A humilde e rotineira devoção.
Terei,também eu, de rever este quadro, enigmático, na suspensão em que nos deixa.



Wednesday, February 01, 2017

A.C.Caeiro, II
(do meu diário)
30 de Janeiro
Acabei o post do livro do António Caeiro.
Deixei em aberto a última parte, em que a reflexão incide sobre "Férias" e naturalmente a infância.
Esta ideia de infância deu-me outra, que  ficará aqui.
Lembrei-me de Proust, de Rilke, da infância evocada nos seus livros, e do poema de Mignon, no Wilhelm Meister de Goethe (Os Anos de Aprendizagem).
Jung e Kérényi, ao escreverem sobre o Puer Eternus não é apenas sobre o deus Hermes que escrevem, é sobre a criança em nós, a nossa pulsão não domada ainda por uma Razão mais forte, um Senex sublimado. Essa pulsão, inconsciente, arquetípica, cria um sentimento de ânsia e de saudade por algo que nos está longe, foi quem sabe outrora vivido, ou conhecido e a que desejaríamos voltar. O país da infância é um desses lugares, mas sendo o tempo um rio que corre, inexorável, para um fim que nos aguarda, embora desconhecido, nada se pode fazer. Fica o apelo, o lamento, o canto da alma exposta a si mesma e aos outros.
É o que lemos no mais célebre dos poemas do ciclo de Mignon:

Conheces o país onde os limões florescem, 
E brilha na folhagem escura o ouro das laranjas,
Do céu azul sopra um vento suave,
A murta silenciosa e o altivo loureiro,
Conheces?
Partir! Partir,
O meu desejo é ir para lá contigo, meu Amado.

Conheces a casa?  Sobre colunas está pousado o tecto,
A sala brilha, refulge o aposento,
As estátuas de mármore fixam-me com o seu olhar :
Pobre criança, que fizeram contigo?
Conheces isso ?
Partir! Partir,
É o que desejo, contigo partir, meu Protector.

Conheces o monte, o carreiro entre as nuvens?
A mula procura o caminho na névoa;
Nas grutas vive a antiga raça dos dragões;
Despenham-se os rochedos e em torrente  as águas,
Conheces?
Partir ! Partir,
Seguir nosso caminho! Ó Pai, vamos embora!

Outros, além de Goethe, exprimiram uma mesma nostalgia. Penso em Baudelaire, penso em Rimbaud e Verlaine.
De Baudelaire o conhecido poema L'Invitation au Voyage (O Convite à Viagem) tem o mesmo apelo de ir viver para longe ( o além, o mais ali, no longe), onde seria possível viver juntos, felizes, num país que é feito à sua imagem: "Aí tudo é ordem e beleza / luxo,  calma, volúpia".
Objectos requintados, suaves perfumes, esplendôr oriental "tudo falaria / à alma em segredo / na doce língua natal".
A língua natal é-o também por ser a língua da infância - o tempo perdido, lá longe, sonhando que é possível voltar atrás para o recuperar. Poeta feliz é o que não cresceu, é o que não precisará de se lembrar. Mas há poetas felizes?
Fernando Pessoa evoca a sua ama, sonha com ser princesa, para poder ser feliz.
Mas falemos de Proust, na sua Busca do Tempo Perdido. Começa por contar como em criança se deitava muito cedo, era uma criança doente, que a mãe protegia do frio e da humidade do cair da noite: Pendant longtemps je me suis couché de bonheur.
Sofria de asma, e mesmo já em adulto continuou, quando se sentia pior, a ficar de cama, recostado, a ler ou a escrever este seu passado, de uma infância de mimo, de uma juventude e maturidade em que um certo isolamento, um olhar mais distanciado e quem sabe por isso mesmo mais curioso e atento, ajudaram a fazer dele o melhor cronista do seu tempo.
Pensando noutra infância, a de Rilke, nos Cadernos de Malte Laurids Brigge, a luz e os jardins felizes de um Proust transformam-se em corredores sombrios de mansão antiga, povoada de fantasmas, de vozes e lamentos, da morte poderosa do Camareiro Brigge , morte única, inenarrável, arrepiante, que punha os seus dogues a uivar. Uma infância que Rilke evoca, mas não é um Longe de que se tenha saudades.É antes um Aqui e Agora que mete medo, pois quem sabe se volta a repetir-se?
Tento às vezes recordar a minha infância: em Lisboa, em Tavira ou em Lagos, antes e depois da Argentina. Ficam-me poucas coisas. Já da adolescência e da juventude - grande parte em Paris - teria muito a dizer. Foi por lá que cresci, lendo autores que me eram totalmente novos, e inovadores, como Henri Michaux, amando a pintura que a Guenia expunha na sua Galeria de Arte, ou simplesmente passeando a pé nas ruas até parar numa livraria, ou numa esplanada onde tudo à volta chamava por mim. Foi desde aí que comecei a gostar de esplanadas. Sentar-me, ficar a perder-me do tempo, o que me parecia o mundo inteiro desfilando diante dos meus olhos.
Paris foi o meu "là-bas".
Se estava doente, como aconteceu por vezes, chegava a Paris e já ia curada.
Mas também eu, como Proust, durante muito tempo me deitava bem cedo: Buenos Aires, para onde fomos com o exílio do meu pai, em 1946, tinha um clima húmido, e eu sofria de anginas. Chegava do colégio e o ritual foi sempre o mesmo: lanche leve, porque ia jantar cedo, banho, cama, ler um pouco (lia uma enciclopédia infantil)jantar na cama e dormir. Às vezes, antes de adormecer, o meu pai contava-me a história da Princesa Magalona.
Rilke também fala da sua infância e da questão da leitura:
"Quando era criança, considerava a leitura como profissão que se deveria assumir, mais tarde, um dia, quando chegasse a hora das profissões. Para dizer a verdade não tinha ideia de quando isso aconteceria ao certo. Pensava que haveria uma época em que a vida se fecharia, de algum modo, e não chegaria a não ser de fora, como antes fora chegando a partir de dentro. Imaginava que então se tornaria inteligível, fácil de interpretar, e não deixando margem para equívocos (...). Este ilimitado tão singular da infância, este não-relativo, que nunca o olhar dominara, seria então pelo menos ultrapassado (...) Mas na verdade quanto mais se olhasse para fora mais se remexia em coisas dentro de nós: quem sabe de onde viriam! " E continua:
" É na época destas transformações que também situava a leitura.  Então os livros seriam tratados como amigos, haveria um tempo para lhes ser dedicado, um certo tempo que passaria de modo regular, dòcilmente, tão demorado quanto nos apetecesse consagrar-lhe".
Claro, observa ainda, haveria livros que prenderiam a atenção a ponto de se adiar um passeio, um encontro, a resposta a uma carta urgente.
Todos nos podemos reconhecer nesta experiência, de criança e até mesmo de adulto.
Rilke refere então que foi em Ulsgaard, nas férias que "entrou subitamente em leitura" - como quem entra numa outra fase da vida. Um salto na passagem da infância ao estado de adulto. Conclui que  "não temos o direito de abrir um livro se não nos comprometemos a ler todos. Em cada linha se abria o mundo".
Antes de se abrirem os livros o mundo estava intacto, afirmação que muito nos interpela: pois antes das leituras de descoberta, deste ou daquele autor, diante de nós oferecidos, o mundo não existia? Não existia para nós, mas onde estava, aberto e disponível, para todos os outros que já tinham lido? Era o fantasma de Abelone que acompanhava as leituras nocturnas de Rilke. A jovem que o desafiava, brincava e fazia troça, parecendo nunca o levar a sério.
Mas lá o ia levando pela leitura dentro...desenhando-lhe, sem que ele se apercebesse logo, a sua alma de sombra, a de uma Amada sonhada e logo a seguir perdida.
Mas este é Rilke.
Há tantas outras infâncias, repletas de memórias, chamamentos, hesitações, zangas, escapadelas, que só esse tempo permite. Eu já adolescente, em Tavira, ia fazer vela com um amigo. Barco pequeno, da Associação Naval, apontávamos à Barra para chegar à ilha. Era difícil, e o inevitável aconteceu: ficámos encalhados na lama da Armação do antigo arraial Ferreira Neto, onde o Rogério trabalhava na pesca do atum (era um amigo do meu pai, que ajudara a criar, porque também trabalhava às vezes para a minha avó Rosa na herdade do Roxo). Enfim: foi um escândalo na cidade: a neta da Dona Rosa com um amigo, naufragados, deixando o barco na Armação e voltando a pé pelo rio acima.
Pensando em leituras de Verão: foi nesse Verão, já sem licença para velejar, fosse com quem fosse, que li os primeiros romances de Agustina Bessa Luís: Os Incuráveis, e Ternos Guerreiros. A prosa intensa, densa, de que nunca mais me curei, até hoje. Li tudo.
Hoje leio de outros autores, outras praias.
Como é o caso do livro de António de Castro Caeiro, de que me ocupei de início, e me levou até aqui, na onda dos seus tempos recuperados, alguns, de modo minucioso, como os de Proust, ou deixando antever um lá longe que permaneceu inatingível, apesar de evocado. Eis um momento das suas praias:
"A praia ao entardecer tem a luz mortiça. Na infância, as tardes de praia são estranhas. Na juventude, é a hora de normal de ir dar um mergulho à praia depois de pequenos-almoços.
Sagres, de véspera, continua ao sol escaldante.
Há tempo para se perder. Perder-se competentemente. Corpos e corpos e corpos sem nunca nos determos no tempo daquela noite com vésperas de corpos e antecipação de corpos. E romances sem romance.
Ao longe, ficamos sempre ao longe. É para mais tarde.
(...) Mas adora-se o regresso, quando se está de novo a sós consigo."
Na solidão do regresso, da recuperação de rotinas - as rotinas são afinal mais repousantes do que pareciam, antes das férias - o autor recupera-se, reencontra-se, redefine-se de novo, e apesar de tudo renovado: sente que afinal é ele mesmo, em si mesmo, apesar de dizer, como Rilke, " tudo acontece no espaço exterior".
Foi o mundo que se abriu, nesse tempo de férias, e no regresso delas: "Começo a ver do lado de lá das lentes e não atrás delas. Aos ouvidos. ouço através das paredes. No lado de lá do pé. Só toco na areia com a sola do pé e digo que a areia (toda daquela praia) está a ferver. No lado de fora da pele. (...) Nem de olhos fechados há um interior. Fecho os olhos. Vejo montanhas cobertas de neve, o fundo do mar em mergulho. Acompanho-me no colégio, menino. Eu, adulto, a ver-me. Ressuscito mortos.Visito quem vive à distância.Todo o interior ficção é também sempre fora.(...) Durmo espaços vastos e estreitos, com cima e baixo, direita e esquerda, longe e perto, fundo e forma. Entre mim de olhos abertos e o que eu "vejo" não está a realidade da percepção". 
Fomos deslizando por várias esferas, de evocação e Iluminação, ao modo de Rimbaud, culminado na contraposição de opostos: vasto e estreito, cima e baixo, longe e perto, fundo e forma. Antecedidos por uma imagem de fusão, um dos arquétipos mais interessantes,  de que Musil também se serviu e com ele Hesse, ao afirmarem que a montanha e o mar são as grandes provações da alma.
(Já Goethe nos falara também de montes, de mares, de lagos, nas suas poesias).
Do olhar exterior, na sua quase vidência, levou-nos o autor  à sublimação da Alma contemplada em união. Dir-se-á, não passa de um momento. Pois talvez não, mas esses são os momentos que nos interpelam, e ao mundo e aos outros. Não escreveu Fernando Pessoa, o nosso eterno Mentor, no poema Além-Deus I /Abismo:


" Olho o Tejo , e de tal arte
Que me esquece olhar olhando,
E súbito isto me bate
De encontro ao devaneando -
O que é ser-rio, e correr?
O que é está-lo eu a ver?

Sinto de repente pouco,
Vácuo, o momento, o lugar.
Tudo de repente é oco -
Mesmo o eu estar a pensar.
Tudo - eu e o mundo em redor -
Fica mais que exterior.

....

É um poema longo, que continua.
Mas por alguma razão, Eduardo Lourenço, num dos seus primeiros Seminários sobre Fernando Pessoa, que nos deu na Universidade Nova, em 1976, gostava de ficar a reler e a fazer-nos pensar sobre a interpelação dos versos iniciais, em que o poeta se interroga sobre o significado de estar ali a ver correr um rio: o que é ser rio, e correr; e o que é ele estar ali a vê-lo. No Tempo, que corre, e na imagem do rio que ajuda a fixar a temporalidade do ser humano que o contempla.
Pode não parecer, mas desde o início que a obra de António Castro Caeiro é para uma interrogação da temporalidade no Tempo que nos deseja levar. No todo da sua escrita, por vezes com laivos de mão corrida, da escrita automática dos surrealistas, ou da corrente de consciência de William James, e por vezes, não menos importante, com uma recuperação da infância perdida, o país onde as laranjas brilham e com o qual vamos sonhando.
Porque há sem dúvida, para cada poeta, chegado o seu momento, um país semelhante...












Monday, January 30, 2017

António de Castro Caeiro, UM DIA NÃO SÃO DIAS

Um Dia Não São Dias, uma discreta e ao mesmo tempo belíssima edição, daquelas a que a abysmo já  nos habituou. Pensamento embalado em arte, em objecto que nos apetece guardar, deixando-o bem à vista para os outros. Como quem acha também, segundo  o autor,  que um livro não são livros...Os dias serão os da semana, de segunda a domingo. E um final de férias...
Oferece antes um café (podia ser um aperitivo), que para mim é bom: desperto com o café, e prepara-nos para a meditação (leitura) da segunda-feira, deixando já no ar algumas considerações.
O autor é filósofo, e não  renega essa formação, entre várias outras, que tornam o seu filosofar mais dinâmico...
Desta leitura que antecede o enumerar dos dias da semana retiro a importância que desde logo atribui aos nomes. Nomear não é um acaso: é um começo, e leva consigo o peso do Verbo, a Voz que nomeou. Assim irá abordar os sete dias da semana, cada qual com a sua especificidade, ultrapassando a questão das diferentes línguas em que são nomeados, e as raízes de onde provenham, indo-europeias ou ugro-fínicas, ou outras, da grande árvore das línguas, porque não é com a raiz que António se vai preocupar, é com a substância do tempo que em cada dia da semana é dado viver a cada um.
Não há dias iguais, a segunda-feira com que o livro abre (depois do pequeno prólogo oferecido a prévio enquadramento)  não será igual para todos, a dele não será a minha, a nossa não será a de tantos outros, pelo mundo fora. Esta ordenação dos dias da semana é um esforço temporal, cronológico, mas de tão grande diversidade que podemos interrogar-nos: será que por esse esforço chegaremos à substância do que se possa dizer, ou melhor, viver?
Estamos na verdade, a reflectir sobre o Tempo: o da vida, da infância à maturidade e à velhice, o seu fluir, um rio que tem no seu percurso, nunca igual, em cada hora vivida, uma pedra bem diferente para cada um, em cada momento. António fala da infância, o seu vibrar próprio, quase autónomo - não há ainda aqui uma consciência verdadeira do tempo - e que depois se recorda, porque recuperar é impossível, na velhice.
A criança que está no seu fim de semana, vamos imaginar que feito de brincadeiras felizes, não vive esse tempo contado como o velho que sozinho no lar já nem aguarda visitas de ninguém.
A segunda-feira da criança terá obrigações, horários, bancos de escola, atenção às lições, algo de antecipado ao que será (e já são os seus pais ) no futuro. Um tempo condicionado. Contará os dias para chegar de novo ao tal fim de semana de liberdade, ainda que relativa.
Pois a questão do Tempo, e do tempo, dos dias da semana, é uma questão relativa. A verdade, na relação do Ser e do Tempo - que puxa o filosofar imediato, é esta: o ser da criatura que somos materializa-se no tempo e no modo como o vivemos. Mais ricos ou mais pobres, nessa vivência, não haverá nunca um dia, uma semana, um mês, um ano que se possa universalizar, a não ser nas celebrações desta ou daquela memória. Algo que distrai, que interrompe, que pode até alegrar, mas em nada muda a essência da coisa : que para cada um haverá um tempo, o seu, e nada mais.
Assim, quando pela mão de António, no decurso dos seus dias, chegamos à quarta-feira, que ele define como meio da semana, eu, ou alguém que tenha quartas-feiras que não são vividas (sentidas) como  metade dos oito dias subentendidos,- na realidade são sete, os dias da criação mais o do descanso dominical - alguém, dizia eu, para quem o ritmo seguido das horas condicione a liberdade dos dias, não haverá o sentimento de chegar ao meio de coisa nenhuma, pois nem fim de semana terá se calhar no seu trabalho.
Os dias contados, como as semanas do autor, foram, ao longo dos séculos, nas sociedades em geral, uma conquista difícil. O que houve foi sempre um fluir contínuo, que só noite e dia podiam dividir. Ou as estações, que condicionavam também a caça e a pesca dos primitivos, na sua luta pela sobrevivência.
Para os meus filhos, a quarta-feira era, de facto uma espécie de meio da semana: não tinham aulas de tarde. Mas isso foi naquele tempo...e cá estou eu a referir-me ao tempo, e não aos dias...
António Caeiro, no seu cronómetro interior, por alguma razão sentiu que quarta-feira era um corte (por analogia fonética? associação livre?quarta de corte? ) e assim desenvolve as suas razões, por uma travessia de espaços, -não de tempos - que se demora especialmente em Lisboa, a Lisboa, de muitos, a Lisboa de todos, colorida ou tristonha (lá está, conforme os dias) para não dizer mesmo as Lisboas de Pessoa.
Para o nosso autor, que procura nos detalhes as razões dos seus dias, a quarta-feira é "um marco":"o dia em que a semana atinge o seu apogeu. Quando o fim-de-semana passado começa a ser esquecido". Eu ia antes de dizer que seria talvez quando o fim-de-semana seguinte se aproxima, veloz. Mas não foi preciso, o autor afinal diz isso por mim:
"É o tempo intermédio entre o fim-de-semana passado e o fim-de-semana que se aproxima".
É do tempo que passa que ele deseja falar, e de como se passa o tempo...e de como se irá passar o resto do tempo que aí vem...
Depressa se chega a quinta-feira ( com a idade, não quando se é jovem): a idade comprime a vivência do tempo.
Mas António é jovem e lá está, a sua quinta-feira não poderia ser igual à minha, e ainda bem, porque a minha já eu conheço bem...a dele irei agora descobrir, na sua prosa corrida, na escrita que desliza de um dia para o outro, como vai acontecer:
"A quinta-feira isola-se de todos os dias da semana. Às quintas de  manhã, a 'janela' de sexta-feira parece já abrir-se. É como se a quinta-feira e sexta-feira fizessem parte de uma mesma unidade de sentido temporal".
E entramos na descrição  de uma "luz da tarde" e de uma série de situações do quotidiano, em pormenor demorado, que permite que se chegue a seguir a um poente em que tudo se dilui. Eis que se descreve então o dia e a noite, a luz de um, que define contornos, objectos e pessoas, o escuro de outra, que apaga, anula, confunde o que antes estava tão iluminado. Na verdade o que aconteceu foi uma alteração de como se percepciona o tempo dos dias (cada dia) para uma outra sensação, a do tempo dentro dos dia, que se divide na aurora, o  amanhecer, que os inicia, depois o meio-dia, depois o entardecer, que precipita o poente e a noite. Não por acaso temos, desde São Tomás de Aquino, seguido por Boehme, uma Aurora Consurgens, tão carregada de simbolismo.
 Os momentos do dia são apontados pelo autor como "fases que passam continuamente de umas para as outras (...) Mas podia ser sempre noite escura ou dia claro, como sucede em algumas zonas do globo. Cada dia, porém, decorre entre o nascer do sol e o pôr do sol."
Eis que a natureza, o seu ritmo, se sobrepõe às nossas divisões, às nossas nomenclaturas, às nossas cronologias...Natal e Novo Ano não se celebram nos mesmo dias entre cristãos, judeus, chineses. Neste momento em que escrevo, lendo António Caeiro, celebra-se o Novo Ano Chinês, que será do Galo, supostamente de abundância de grão...
Mas o interessante é este desvio, esta mudança, que se verifica na reflexão proposta: de novo interpelamos com ele o Tempo, a inscrição dos dias (dos seres) no Tempo, na Unidade Maior da Criação. É o próprio autor que nos conduz  nas interrogações:
" Será a vida um único grande dia, e os dias do quotidiano as suas fases? "
E esta sua quinta-feira, " que alonga e estreita o tempo de modo radicalmente diferente " - direi que em mim , no meu caso, que não pode ser o dele, estreita, mais do que alonga, - esta quinta-feira onde chegámos na leitura não altera o tempo, como julga o autor, "se é de manhã, se é de tarde ou se é de noite". Antes voltaria à questão das idades, se se é criança, jovem, adulto ou velho, e para cada idade o viver das Estações, da Primavera ao Verão, ao Outono, ao Inverno...
E demoro então na reflexão que mais se aproxima de mim (na verdade, toda a leitura é subjectiva, e a minha é tão só isso, não pretende ser mais do que a reacção, numa proposta que se me tornou sedutora):
" O que encurta o tempo? O que o alonga? Como é o ser do tempo para poder ser curto e longo? Não é o tempo o mesmo?Não podemos passar as mesmas horas sem darmos por elas, quando para outras pessoas parecem custar a passar?(...) Quer dizer que o tempo é determinado subjectivamente? (...) Sou eu o tempo? Como? Ninguém percorre o meu tempo, como ninguém é eu. Só eu sou eu."Mas da abstracção que se adivinhava, se materializa a concretização - também ela sendo o que é, para cada um - dos momentos do dia, até que chegada a noite se abre o portão ante-previsto, desejado, de uma sexta-feira. A sexta-feira, também ela única, a seu modo, e abrindo já o espaço aparentemente tão maior do fim-de-semana.
Para o autor, a sexta-feira, que a quinta já antecipou, é o dia em que se "abre o possível", com a sensação "de tempo a haver" ( e não a perder, como quem perde a vida, a cada dia que passa).
Diz ainda:
" O horizonte do tempo semanal expande-se, do mesmo modo que às segundas se contrai".
E mais:
" A raiz do tempo revela-se às sextas-feiras como em nenhum
 outro dia da semana. A sexta-feira radica no futuro (...) à sexta-feira tudo é antecipação".
Na verdade está a definir este dia como um tempo que dá já a saborear "um simulacro de férias". Óbvio que não o será para todos, e quem lê estas afirmações poderá contrapôr, da sua experiência, se calhar o contrário, não tendo tido nunca nenhum momento de férias...
Mas há de facto, culturalmente enraizada, esta ideia de que ao poente de uma sexta-feira se inicia um "tempo de suspensão", no  ritmos da vida quotidiana, seus afazeres, suas obrigações. Para viver um Tempo Maior, de liberdade, mesmo que para cumprir alguma outra obrigação, moral ou religiosa, ou pura e simplesmente, sem mais, para não fazer nada, só o que a cada um apeteça.
Será que a meditação do tempo, da partilha dos dias e das horas, no grande ciclo da vida, nos empurra para questões maiores? E haverá questão maior do que a da vivência, no tempo, da própria vida? Que outra coisa lhe daria mais sentido?
Fomos criados para ser inscritos: a nossa lápide é essa mesma, do tempo, seja qual fôr o dia.
No fim do livro somos conduzidos para o tempo das férias, os dias da infância...mas de infâncias falarei num outro post.











Friday, January 27, 2017


As Almas e as Flores
(memória do Holocausto) 

são coroas de flores


alguém as deposita
evocando o passado

são flores
mas não são almas

as almas pairam no éter
nas cinzas
que as libertaram

um grito na garganta
um grito sufocado...

(27 de Janeiro, 2017)

Saturday, January 21, 2017

Tâmaras trazidas pela mão de um músico-poeta, João Paulo Esteves da Silva...

Conheci primeiro o músico, João Paulo Esteves da Silva. Um músico dobrado e concentrado sobre um piano em que totalmente se fundia, e nós em silêncio atento, para o poder acompanhar nos labirintos mais secretos do que nos ia dizendo. A sua música fala, mas exige de quem ouve idêntica concentração.
É assim que eu gosto de ouvir, em silêncio. Seguir, quando possível, um tema ou um motivo que se estrutura, desestrutura, se amplia para respirar e volta a centrar-se numa esfera que sendo a mesma é outra - lembrando-me-me a música das esferas que Shakespeare em muitas das suas peças mais inspiradas descreve. Esferas que são da noite, são do abismo da alma, que a música, subtil, ilumina e revela.
Não fiquei admirada quando descobri que João Paulo era poeta, fazia todo o sentido que ele se exprimisse também numa outra linguagem, igualmente musical, da imagem na palavra, do pulsar do ritmo na palavra, como quem diz é assim que bate o coração do homem, quando fala. Um tal dom é precioso, não é distribuído a todos por Orfeu, o que se perde na noite, e perdido muitas vezes se encontra, daí que seja eterno o mito, eterno o seu fascínio, o seu canto de encanto.
Falemos então de tâmaras, o fruto do deserto, nascido na sombra dos oásis que protegem palmeiras, como se protege a Árvore da Vida. Um frito que sacia, que alimenta, que concede, por breve tempo, repouso.
Aí me encontro com ele, fugindo a um sol que queima, reduz a alma a cinzas.Na Nota final com que encerra o livro, João Paulo explica um pouco do método que seguiu na escrita: mão livre, sem programa prédefinido, "gota a gota, aqui e ali, situações, contemplações, memórias e acasos que, por alguma razão, quiseram deixar rasto escrito".
Deixaram. O resto é arrumação, escolha, com ou sem ajuda amiga e uma decisão: dar a ler, para que os outros vibrem com ele, também na sua poesia.
Abre com um Prólogo, para que não restem dúvidas:
Ninguém consegue
secar esta terra

Uma luz maravilhosa ilumina os pântanos
eterniza amores e pensamentos húmidos

Dentro dos sons 
ouve-se sempre um chapinhar


Estamos ou iremos estar na plena eternidade de um Rimbaud que se esconde, mas está vivo e atento, à Eternidade:
Q'est-ce l'Éternité? 
C'est la mer allée avec le soleil

Alquimia, íntimo sentido do que é a fusão do elementos: a terra (matéria), a luz ( o sol), a água (mercurial, com o sal da vida que retém e transforma). Em tão pouco, ao espírito oriental do que poderia ser um Haiku, se consegue dizer tanto.
A palavra faz falta, mesmo que transborde, quantas vezes, para os sons dos maiores momentos musicais.E aqui a reencontro, páginas adiante, Segundo o Talmud:
As letras e a escrita fizeram-se entre dois sóis,
no tempo duvidoso dos milagres,
 nem na noite, nem no dia, in extremis,
a caminho do descanso.
....
nós misturamos as iniciais dos nomes,
seguramos nestas ferramentas
que quase não existem
e fazemos coisas do outro mundo.

Não é a primeira vez que me acontece, ao ler estes poetas que amo e acompanho, rever ou melhor reencontrar o que escrevi outrora, jovem, ou com uma idade próxima da que eles t~em agora, no seu meio de vida: algum sentimentalismo, mas mais racionalizado por eles, faz parte da sua geração, algum olhar que descreve e se distancia ( encontro por aqui alguns dos meus poemas de Opus 1, quando lia Prévert, Vian, Sophia, Pessoa, ou do Barco na Cidade, que escrevi em Paris ) esta afinidade que sinto, para mim é um sentimento feliz, de que o poeta, evidentemente nada sabe. Mas eu neste momento em que leio, fico grata. Algo de eterno perdura na palavra, flui no tempo, na sua energia sonora, também ela. JoãoPaulo tem o seu poema da Sagração do Verão, eu tive o da Sagração da Primavera: anos sessenta, Stravinsky, Béjart com o seu bailado no cinema Tivoli e o meu amigo de juventude, seu primeiro bailarino na altura, o Patrick Belda, que morreu a caminho de Bruxelas, onde Béjart se tinha instalado com a sua Companhia, numa noite tão trágica que chorei, ao saber, de joelhos no chão. Quando um poeta de agora me traz de volta o meu próprio passado, fico-lhe grata:a poesia vive. É que, como ele escreve no fim da orgia "sagrada" está-se "perto do fim de qualquer coisa / que passou, e ninguém soube, e houve festa". 
As lágrimas fazem parte da festa...o lamento, como a evocação, inscritos na partitura.Não demoro muito mais, há que deixar espaço ao leitor, para que folheie  e descubra por si próprio, mais momentos, reflexões em que não falta um Descartes, nem um Jorge de Sena, olhando para um Van Gogh...o real está presente, no grande imaginário até mesmo por vezes musical.
Escolho as Tâmaras do título:
São tâmaras vinda de Israel: "o sabor leva-me / divago, mastigo".
Entretanto,
olho a colina da Graça, logo abaixo do céu
e vêm-me umas imagens de ermitas a fugir para o deserto,
campeões do ascetismo,alimentados só a tâmaras.
....
Campeões do ascetismo, o tanas,
isto é uma refeição completa, fruta altamente nutritiva,
e requintado acepipe, seus gulosos,
assim, também eu. 
....
Esta facilidade de regressar à razão, à informação curial, não menos saborosa no humor que interrompe algum misticismo (que se calhar com o esplendor da colina da Graça  não faria sentido) - é também uma das irreverentes qualidades que iremos encontrar ao longo das outras páginas. Escrever, ou tocar, para surpreender, faz parte da aventura...E já que no início João Paulo citou o Talmud, digo, como se diz na Bíblia:
" Que o Justo floresça, como a Palmeira..."


















Wednesday, January 18, 2017

Poesia e patafísica de hoje...

Ao acabar de ler um conjunto de poemas de um poeta desta nova geração (que me confiou o seu ms. original) ocorreu-me logo um nome: Ambrose Bierce, cujos contos eu tinha, há muitos anos, comprado em França na tradução de Jacques Papy: Contes Noirs.
De Ambrose Bierce basta hoje em dia fazer um google e ficamos a saber tudo: do jornalismo à escrita de ficção, a sua obra, de sátira ou mais subtil humor negro, por vezes equiparada aos contos de terror de Edgar Allan Poe, marcou os tempos.
Em França, nos anos cinquenta-sessenta, lia-se (descobria-se) Boris Vian, Prévert, os exercícios surrealistas, os cadavres-exquis, os autores do célebre OULIPO (quem sabe hoje quem eram, estes poetas e cientistas que se compraziam na reversão e invenção  de regras? )- enfim toda uma produção em que o humor era rei, a crítica e o absurdo punham a nú a sociedade da época (aqui entraria Ionesco).
Tenho ainda algures, perdido nos meus papéis, um exemplar de um dos documentos que teorizava a doutrina dos Pataphysiciens...
Entre escritores e sábios de origens várias, o que se propõe não é muito diferente do que propunha André Breton, nos escritos surrealistas: ir para além de... rompendo normas (de doutrina política, social, cultural, artística) atingir algum outro objectivo, que fosse pertinente para a intervenção de cada um, e de todos, no seu conjunto. Tinham uma revista (de novo, vale a pena ir ver ao google) que durou desde 1950 a 1957. Nela foram escrevendo, para puro gáudio, os maiores daqueles anos, e a sua influência perdurou por uns anos. Era o imaginário à solta, mesmo na produção de pseudo-ensaios de humor sem peias, que não vou citar aqui, mas que permitiam rir à gargalhada sem perder a capacidade, verdadeira, de nos fazer pensar.
Ocorrem-me estas reflexões porque encontro na produção poética de hoje, em alguns casos que me chegaram às mãos, uma mesma capacidade de reinventar situações, vocabulário poético, estruturas que não estruturam, deixam espaços abertos.
Mas falta a capacidade de rir, ou fazer rir, ou ao menos sorrir. Tudo o que não se quer dito, de forma convencional, torna-se convencional, de tão sério.
É bem verdade que a forma mais subtil, a mais difícil, por exigir muita cultura  suportando muita inteligência ( Oscar Wilde poderia estar comigo, nesta conclusão) é a forma humorística de expressão. Qualquer um não pode ser o Ricardo Araújo Pereira, como outrora (já o coloco nas páginas da História) não podia ser o Hermann José.
Mas voltando à escrita e aos pataphysiciens: são tantos os jovens de hoje, criativos e originais no que propõem: por que razão, atávica não são capazes de rir? Almada Negreiros ria, e nem por isso foi menos futurista, pelo contrário.
Num dos números dos cadernos de patafísica (n.19) Ionesco escreve: L'Avenir est dans les oeufs. O futuro está nos ovos.
Neste mesmo número colaboram Boris Vian, Raymond Queneau, e há divertimentos como o da escrita em conjunto de Patholorimes, etc, etc. Muito mais, até ao fim - tudo tem um fim, das publicações, já em 1957, como disse, e de continuações sob a forma de volumes de homenagem, como o de Boris Vian, ou sob a forma de revista, até ao fim dos anos sessenta. Há números à venda na amazon, para curiosos, coleccionadores.
E agora devolvo a quem me fez lembrar todo um passado literário - (convivi, imaginem, quando jovem, em Paris, com um ou outro destes génios do humor-livre) a alegria que ele me fez redescobrir:
foi HUGO MEZENA, com o seu Alfabetário, que espero ver publicado em breve. São micro-narrativas, de A a Z, percorrendo o alfabeto da primeira à última letra, em situações imprevistas, que deixam em aberto, para o leitor que as lê, a hipótese de algum desfecho que possa , de tão absurdo, contribuir ainda mais para o tom já de si irónico quanto baste.
Uma ou outra vez, como por exemplo quando define o Intelectual H como "gordo e reconhecido na praça pública" sinto que o adjectivo "gordo", a menos que ele tenha, no momento de escrever, alguém especial em mente (sim, também conheci alguns gordos, muito reconhecidos...) não faz falta, para a descrição que se lhe segue. Definir como gordo limita a dimensão da crítica que pretende. E toda a crítica humorística deve ser universal, e transversal a gordos e a magros (que os há muitos) para ser mais pertinente. Mas é só um detalhe, não retira qualidade à prosa escorreita, pela qual vamos deslizando, com  agrado.
Ter  uma prosa escorreita é uma grande qualidade, quando se verifica hoje em dia uma abundância de elaborações confusas, trapalhonas, barrocas de tanto enfeite, tanto em políticos como em comentadores e escritores que não conseguem desfiar a meada de um único pensamento sem se enrodilharem nele, a ponto de não sabermos se ali existe mesmo pensamento!
Este ALFABETÁRIO, contido no alfabeto que é o nosso, ultrapassa a ordenação das letras, e faz de cada micro-narrativa uma narrativa maior: de substância condensada, como nos HAIKAI, conduz-nos a outras paragens, paisagens de um imaginário muito mais alargado...