Friday, January 06, 2017

Ler os Clássicos pela mão de Fernanda Lapa

Fernanda Lapa, fundadora e encenadora da Escola de Mulheres, no Clube Estefânia, abre o ano 2017 no seu palco habitual, mas transformado para a representação de As Fúrias (ou de como o Pai venceu a Mãe) a partir de As Euménides, de Ésquilo.
Uma encenação despojada, acção decorrendo entre o palco  ao fundo da sala (a esfera dos deuses, Apolo e Atena) e o centro da sala propriamente dito, preparado para as Fúrias ( as Erínias) com os lugares do público distribuídos à roda.
O gosto pelos clássicos surge de há anos, com As Bacantes, de Eurípides, e nunca se perdeu pela dimensão que Fernanda encontra na universalidade e actualidade dos temas.
Se em As Bacantes se opunham dois modelos civilizacionais, o da Razão, ou da Racionalidade grega na cidade ordenada, e o da memória de um culto primitivo, fundador, da natureza-mãe pela intervenção de Diónisos, agora nesta produção, o grande tema é o da justiça: podem os deuses perdoar o crime do matricídio, cometido por Orestes e deixá-lo sem castigo, fazendo dele não um exemplo (pelo castigo) mas um modelo de herói a quem o crime (ordenado por Apolo) sendo vingança pelo outro crime de Clitmenestra (que mata Agamémnon no seu banho) tem de ser perdoado?
Surge Atena, a deusa da Justiça, a quem são apresentados argumentos (uma Grécia democrática, antiga, sublinhe-se a ironia de Fernanda) a favor e contra o perdão do crime. Subtil, e ainda mais irónica é a ideia da encenadora: distribui pelo público dois cartões, um azul e outro vermelho-rosa: na altura de se fazer uma votação (viva a Democracia) as Erínias colocam no chão, diante das filas de cadeiras, dois enormes vasos de latão, as urnas para os votos,  onde cada um irá depositar o seu voto, para contagem final: o cartão azul absolve, o rosado condena. Os votos serão contados.
Quando as Erínias viram as urnas ao contrário, reparei que embora do lado da nossa fila houvesse maioria de condenações, havia, ainda assim alguns perdões azuis, para o crime de matricídio (na Grécia antiga o mais execrado de todos). O mesmo do lado oposto das filas. De qualquer modo a decisão estava tomada , não caberia ao voto democrático...Apolo e Atena absolvem Orestes do seu crime, as Erínias, estranhas figuras nascidas das entranhas do mundo subterrâneo das pulsões primitivas mais selvagens, serão finalmente domadas pelo poder de uma justiça masculina, que abastardou o Feminino Eterno, pela mão de Atena. Deusa que ao dizer que não nasceu de ventre feminino, mas da cabeça de Zeus-pai, não tem lugar, no seu posto, para qualquer emoção que a leve a condenar Orestes pelo seu matricídio. Justiça que não é cega, mas  fria (a cabeça, não o coração...).
Além de nos fazer pensar num tema que aprofunda, o espectáculo merece ainda ser louvado pela capacidade que tem a encenadora de fazer muito com pouco: o despojamento leva a que reinvente o espaço, as luzes, os figurinos e as máscaras por trás das quais o discurso é vigoroso, articulado, enquanto uns corpos se arrastam na impotência da revolta e da fúria, e outros, na arrogância vencedora, esboçam os gestos mais cautelosos e perfeitos.
Perfeitos a concepção da encenadora (com o artifício das cadeiras de rodas, libertação violenta de início, humilhação fatal no fim) e o trabalho dos actores.
Imperfeita a Justiça que governa o mundo em que vivemos...outrora como agora.
Agradeçamos o gesto final do copo de tinto oferecido, saudação a Diónisos-Baco, feita por nós - o público - com todos eles, os criadores, como quem diz: esperem, estamos aqui, vamos voltar de certeza...

















Wednesday, December 14, 2016

Eugénio de Andrade por João de Mancelos

I
Eugénio de Andrade é um dos grandes poetas que podemos ler e reler, descobrindo de cada vez mais alguma emoção, mais uma imagem carregada de reflexos que nos levam para outras paragens, outras leituras, outros imaginários sedutores.
Estou a ler o ensaio de João de Mancelos, O MARULHAR DE VERSOS ANTIGOS (ed. Colibri, 2009) precisamente sobre a intertextualidade em Eugénio de Andrade. Obra de investigação em que o autor nos vai conduzindo para os vários caminho que Eugénio de Andrade também foi percorrendo (e tal como acontecia com Fernando Pessoa) eram fonte e matriz de inspiração.
Deste modo descobrimos uma espécie de geografia da alma: Walt Whitman, (oh Álvaro de Campos! ), John Keats, Wallace Stevens, Yeats, entre outros; o estudo de Mancelos é orientado sobretudo para os estudiosos da palavra literária, "em contexto", como acontece, não por acaso, com a escolha de "erva" na transição de Whitman para os poemas de Eugénio, ou da imagem antiga (celta) do "corpo verde", ou do "deus verde", do poema GREEN GOD. Um deus que é Pan, ou Orfeu, um deus da celebração do corpo , da natureza eterna, que surge na escolha de "fonte" ou "flauta" como palavras de referência, preferidas, na poesia de Eugénio.
Mas não vou fazer aqui um assomo de recensão crítica, tomo apenas nota do interesse deste conjunto de ensaios sobre um grande poeta, remetendo o leitor para a edição da Obra Completa de Eugénio de Andrade, de 2005.
Passam anos, e a obra aí está, para ser lida e estudada...
Green God
Trazia consigo a graça
das fontes quando anoitece.
Era o corpo como um rio
em sereno desafio
com as margens quando desce.

Andava como quem passa
sem ter tempo de parar.
Ervas nasciam dos passos,
cresciam troncos dos braços
quando os erguia no ar.

Sorria como quem dança.
E desfolhava ao dançar
o corpo, que lhe tremia
num ritmo que ele sabia
que os deuses devem usar.

E seguia o seu caminho,
porque era um deus que passava.
Alheio a tudo o que via,
enleado na melodia
duma flauta que tocava.
(Andrade, 2005, 23)

Aqui temos Orfeu, deus verde, com sua dança, renascendo a cada passo, na melodia perfeita.
Mancelos salienta este aspecto arquetípico em muita da poesia de Eugénio de Andrade. Mas não é toda a obra poética, por mais simples, despida, ou cuidadosamente elaborada, produto de uma vivência de algum arquétipo que, súbito, se apossa da nossa alma?
Num seu livro de poesia, O TEU NOME INCENDIADO DE AZUL (ed. Colibri), João de Mancelos evoca a memória do pai, citando Khalil Gibran (1883-1931) na epígrafe:
"A simplicidade é o último degrau da sabedoria".
 O seu verso é despido, caminha para o silêncio, que dirá mais do que quaisquer palavras, no caminho que percorre.
Gosto muito de relembrar Paul Celan, sobretudo aos poetas: "menos é mais".
A sua poesia é quase sempre discursiva, se assim a posso chamar, atravessada por alguma imagem mais forte que, tal como acontece nos Haikai, nos prende então deixando-nos a meditar, como em "a dispersa esperança":

vem, adormece junto a mim, vela este sono manso,
e escuta a dispersa esperança sobrevoando meu peito
como um bando de gaivotas já sem rumo.
(p.13)

Ou ainda em "uma tenda neste deserto":

façamos uma tenda neste deserto de incerteza:
as estacas serão meus ossos quebrados,
a cobertura, a pele polida pela noite do amor.
(p.15)

"génese"
de escuridão em escuridão,
procuro o sobressalto luminoso
de um verso.
(p.34)

Este gosto por uma forma quase linear, sintética, torna a leitura do livro especialmente agradável: demoramos aqui e ali, ora entre poemas mais longos, ora simplesmente, sabiamente,  entre a condensação de versos.
Termino com o "epitáfio para um poeta":

semeaste estrelas e ceifaste a noite,
enganaste a morte e beijaste a eternidade,
uma sílaba azul de cada vez.
(p.65)

II

Já aqui tenho dito, a propósito de outros poetas que chamo da nova geração - nascidos em fins dos anos sessenta/setenta - escrevendo já com a cultura e os percursos pessoais que a Revolução de Abril lhes permitiu, e a circulação pela Europa ainda mais, que é esta nova geração que inova e renova o discurso poético que parecia fixado em Pessoa, ou liberto, mas não assimilado, por Herberto Helder. Sem que o prazer de ler outros, como o inspirado Eugénio de Andrade, lhes fosse alheio.
É o caso do percurso de João de Mancelos, cujo c.v. permite ver como se formou, como continuou, o que foi lendo e divulgando, nas matérias a que se dedica nas Universidades onde permanece, da Beira Interior e de Aveiro. Vejo que  Escrita Criativa assumiu para ele uma importância grande. É bom que assim seja, e que ele próprio não abandone o prazer de escrever, que estará a ensinar a outros.
Vem isto a propósito de outros seus livros, sempre em edição da Colibri:
UMA CANÇÃO NO VENTO (a poesia de Eugénio de Andrade, ensaio); e de O PÓ DA SOMBRA, poemas.
Anuncia o "como" da sua escrita : "poema a poema, passo a alma a ferro", mas não ilude que parte de um olhar atento: "os pequenos incidentes dos dias" (ars poetica, p.11).
Eis uma boa lição, para o começo : quem não olha não vê, e quem não vê como poderia escrever? Este olhar não é superficial, nem distraído, é um olhar atento às convulsões da alma.
Poemas longos, atravessados por alguma nostalgia, como a que se descobre nas referências de Rilke às emoções complexas do amor, dos amantes, suas razões e suas perdas.
Rilke aconselhava, nas cartas a um poeta, que de início não se escrevessem poemas de amor. Não teriam dimensão universal...mas o modo que Mancelos tem de "passar a ferro" essas primeiras pulsões retira-lhes o sentimentalismo fácil em que poderia cair, e despe o verso de ornamentos inúteis, deixando apenas as imagens mais fortes, condutoras. No seu caso a narrativa poética, pois muitas vezes é dela que se trata, já é em si, um bom exemplo a seguir:
"navegando de mastros amputados"
somos navios distantes,
a bordo
do desejo,

as memórias,
gaivotas de passagem
pelo mapa,

e a paixão,
o vento que restou
das suas asas.

assim os amantes:
navegando de mastros amputados
pela noite.
(p.23)

Este mar, que apenas se adivinha , pois nele vão os desejos dos navios distantes, é o mar de um inconsciente onde se guardam os pequenos (ou grandes) incidentes do dias...
E é por este mar que se descobrem pessoas, cidades, reflexos de mitos fundadores, no seguimento do livro. 
Em cada poema, uma viagem.
Neste caso deste poeta, com um retorno ao dizer que se tornou vital.





Tuesday, December 06, 2016

Eduardo Quina, Labirintos e Sombras

De Eduardo Quina, dois livros de poesia:
CORPO:LABIRINTOS (2009-2012) ed. Licorne
e SOMBRAS MORTAS ENTRE OS DEDOS (Apuro edições, 2015)
Chegaram-me do Funchal, por estes dias, em que houve um encontro sobre a Obra de Herberto Helder, que tem deixado marca em muitos dos poetas contemporâneos.
Como Pessoa, não se pode fugir à marca de Herberto Helder, que quando releio me apetece situar entre Lautréamont e Rimbaud, ou resultando de uma fusão intensa de ambos.
O autor apresenta-se como um professor de filosofia que às vezes escreve. E é quanto basta, diz, o resto pouco importa.
Na verdade importa, porque publica o que escreve, adivinhando que cada livro ajuda a uma viagem, que é de muitos caminhos, os dele e os dos seus leitores.
Como também me aconteceu a mim, quando publiquei num site on line os meus poemas de OUTONAIS  (ed. blurb, 2011) falta no livro de Eduardo o Índice...e um índice ajuda muito a quem deseja escolher, e escrever sobre este ou aquele poema...
Reparei nas epígrafes, que são sempre um subtil "indicador" de leitura e vou começar por aí: A iniciar o ciclo de "corpo a corpo" podemos ler de Raúl Brandão (vem à memória o Húmus de Herberto Helder, que também o leu) este pensamento:
" Afigura-se-me que estes seres estão encerrados / num invólucro de pedra: talvez queiram falar, / talvez não possam falar".
Sem ir agora reler Brandão, transito para os seres - todos eles seres de pensamento e palavra buscada - que são os poemas. Os poemas, encerrados nas palavras-pedra, que o poeta tem de abrir, para que possam voar, essas palavras que ele busca no intervalo do "querer e  poder ou não poder".
As referências à materialidade do corpo, o encontro, o sofrimento, a ausência e a memória, sublinham ambiguamente ora o desejo ora o apagamento. O ciclo tem 29 poemas e ao percorrê-los, devagar, adivinhamos a ideia do terreal em oposição ao celestial, muito ao gosto do que seria o imaginário da Pedra alquímica, que também Helder muito bem conheceu. A terra é a alma do poeta feita poema, por palavras pedras que se abriram, como os alquimistas abriam o "ovo alquímico" : húmus que se alimenta e alimenta a Vida.

Adiante, a abrir novo ciclo, "corpo e floração" temos Vergílio Ferreira em epígrafe:
"Regresso a mim, ao meu corpo distinto e classificável, onde todo o milagre aconteceu. E pergunto-me, suspenso, como foi possível..."
(V.F.,Invocação ao meu corpo)
Continua presente a reflexão sobre o corpo, o seu mistério, num ciclo de 18 poemas.
O primeiro dá o tom, uma chave parcial para o que se vai seguir:
1.
um rosto de pedra
onde se escreve a cinzel
a sua forma quase humana.
medimos o ritmo dos batimentos
para assegurar a necessidade da espécie:
animal bicho
que se pensa e reflecte.
(p.38)

A chave reside nesta imagem final de um animal bicho que se pensa (tem consciência de si, ou procura ter ) e reflecte. Vergílio, o nosso grande escritor existencialista, é o que faz, pela permanente revisitação da consciência, de si e dos outros, na esfera de um mundo que é real e ficcionado, ao mesmo tempo. Mas em que o real, na sua crueza, permanece. O mesmo leio nos pemas deste ciclo: uma realidade em que o imaginário é mais despido, se torna mais crú, o corpo é ferida e sangra, atravessando o leito das palavras ( nos poemas finais, 17 e 18). Herberto Helder, e não apenas Vergílio, passou também por aqui: a ferida, a nomeação evidente,  que banaliza o discurso, o sangue que talvez redima, ou não, mas que entretanto liberta.

No último ciclo, "labirintos", escolhe-se Gonçalo M. Tavares e uma citação com o seu quê de Kafka, perdido nos caminhos para o célebre Castelo:
"Não se vai a nenhum lado por muitos lados, ou:
há muitos caminho para não se ir a lado nenhum: 
eis o labirinto".
Eis a lição: um só caminho, uma coerência feita (quem sabe se de pedra, novamente, da sabedoria de matéria sublimada) que conduzirá não à encruzilhada de Borges, mas à intimidade resguardada. Sendo filósofo, como diz, o nosso poeta há de ter lido Wittgenstein, e o célebre aforismo: " wovon man nicht sprechen kann, darueber muss man schweigen". Devemos calar aquilo de que não podemos de falar.
Ou então, quem sabe, o dramaturgo Valère Novarina, que o contradiz, afirmando: " ce dont on ne peut parler, c'est cela qu'il faut dire". É preciso dizer aquilo de que não se pode falar...
Entre uma reflexão e outra, o caminho de cada poeta, na sua busca, na sua perplexidade e interrogação.
São 26 os poemas, alguns próximos da condensação dos Haikai, outros mais ampliados, na mesma afirmação do corpo que se interpela, o do outro, ora feito matéria ora quase rosa mística de Dante.
Por todos sopra um vento de delírio, precisamente o que perturbava Platão, na sua cidade perfeita: daí que expulsasse os poetas...
O lugar do poeta é o lugar da palavra. Daqui não pode fugir.

Não falarei muito mais, agora de Sombras Mortas entre os Dedos (2015).
São como balanço, estas sombras, uma continuação de caminhos sem adeus, a busca será de um só caminho, como já se anunciara.
A escrita teve o seu tempo, e continua a ter: um tempo de regresso, de releitura de alguns, os mais amados, como é H.H. e de tentativa de diálogo sempre em aberto.  Porque a voz dos poetas nos interpela e obriga a resposta que nos saia da alma, e não da moda.
A palavra em aberto atravessa as insónias felizes: nessa falha de sono falarão os mitos, os arquétipos, as pulsões mais ocultas do nosso inconsciente.
Sublinho especialmente a evocação feita a H.H. nos poemas 26 e 27  (pps. 36, 37).

A Casa de H.H.
fico a olhar a tua infância.
nas têmporas a violência discreta das flores
e as leis da tua sina: 
uma morte simples.

uma cosmogonia,
palavras para a transformação do ouro.
música dionisíaca
ou
a possível construção do mundo
na beleza dionisíaca das mães.

Serão as sombras, escapando entre os dedos, aflorando à eterna consciência de ser, de ter sido, em algum momento mais perfeito, ainda que inacabado, e de continuar a ser para todo o sempre. Um sempre que se projecta no Tempo, o que me faria  trazer à baila o célebre tratado de Heidegger, sobre O Ser e o Tempo...
No poema 27,
"o peixe de H.H."descobrimos a releitura atenta:
um peixe emerge
no frágil líquido das palavras.
e espero 
impacientemente
a sua natural transmutação de côr.

criatura extinta
que nasce do excesso demiúrgico
das tuas mãos.

A imagem da transmutação da côr é alquímica, como a propósito dos dois peixes, o da alma e o do espírito, podemos descobrir lendo o tratado de Lambsprinck  (século XIV ), La Pierre Philosophale, na sua Primeira figura. A transmutação terá lugar quando espírito (princípio masculino) e alma (princípio feminino) se fundirem: " O mar é o Corpo, e os dois peixes, o Espírito e a Alma".
Dir-se-á que o excesso, e a impaciência, não são atributos naturais de um alquimista: mas são os dos poetas, buscando, como Rimbaud ou Lautréamont, a perfeição invasiva, a "Iluminação" do corpo entregue ao ouro dos místicos  que em cada poeta se pode recuperar.













Sunday, November 27, 2016

Rui Rocha A ORIENTE DO SILÊNCIO

De Rui Rocha, de ascendência luso-chinesa, vive em Macau há 33  anos, e é actualmente Director do Dpt. de Língua Portuguesa e Cultura dos Países de Língua Portuguesa da Universidade da Cidade de Macau.
Já estive também eu em Macau, já tinha lido a inspirada, fluente, lírica de Camilo Pessanha, mas levava comigo, desde os anos sessenta, a poesia de Lao Tsé, nascido, julga-se em 570 A.C. ( e cuja influência perdura até hoje), muita leitura Zen, e antes mesmo dessa os segredos da mística tibetana, em variadas obras e sobretudo no Livro Tibetano dos Mortos, que me marcou profundamente. Tenho várias estantes cheias de obras que todas são o suporte de uma cultura, de uma civilização e de um pensamento que só não pude aprofundar porque saber a língua, desenhar os caracteres é algo que se aprende logo a partir da pequena idade e eu nessa altura já tinha vinte anos, a caminho de ser Germanista, outras via bem diferente. Tudo o que li, foi em tradução, inglesa ou francesa, ou alemã. O mesmo me aconteceu com a literatura japonesa. Em Rui Rocha, neste seu livro de poemas encontro ambas as tradições, da meditação chinesa, ou dos Haikai do Japão. Ele escolhe Bashô, como mentor, eu lia Issa e outros. Meditava sobre a beleza dos caracteres, em livros de arte, em que também o poeta Henri Michaux se inspirou, em muitas das suas obras. O fascínio era o da imagem, pictórica, e da ideia ou conceito que em si mesma encerrava. O grande prazer (e a grande lição) que se retira da espiritualidade chinesa, neste caso, é o da relação com um cosmos que nos inclui, a partir de uma entrega feita de simplicidade e despojamento, perante os factos da vida: pessoal, social ou até mesmo política. Em todos eles a relação com o cosmos está presente. E o mistério, que é o caminho do TAO, reside apenas e só nesse entendimento, interior, profundo. Como frequentemente acontece nos textos iniciáticos, é logo ao princípio que a revelação é dada. Assim vemos no poema 1 do Tao Te King (trad. francesa, Wilhelm-Perrot), que recupero:

Uma via que pode ser traçada, não é a Via eterna, o Tao. Um nome que pode ser pronunciado, não é o Nome eterno. Sem nome, está na origem do céu e da terra. Com um nome, é a Mãe dos dez mil seres ( a totalidade das criaturas). Assim, um Não-desejo eterno representa a sua essência, e por meio de um Desejo eterno manifesta um limite. Estes dois estados coexistem inseparáveis, e apenas diferem no nome. Pensamentos conjuntos: mistério! o Mistério dos mistérios! é a Porta de todas as essências.

Por que me ocorre esta evocação ao ler Rui Rocha? Precisamente porque um livro que carrega um sentido nos conduz a outros sentidos, de outros livros. Em cada verso um arquétipo, uma imagem simbólica que atrai e nos faz meditar. Também no ciclo que Rui dedica a Wang Wei ( 699-759) o primeiro poema é feito da memória de uma China ancestral:

reclinada no teu ouvido
murmura uma china antiga
com um mandato do céu por cumprir
nas dinásticas sucessões amantes.
os impérios dos tons e da escrita
governam os súbditos afectos
em éditos gravados a tinta
pelos escribas sentidos da alma.
(p.11)


Já aqui se encontram reunidos os estados que se definem, um sem nome, ilimitado, o da China ancestral com um mandato do céu, e um outro nomeado, desenhando o limite (da criatura humana) que grava a tinta os sentido da alma. Será adiante, em "a noite dos dias" que a pulsão amorosa e saudosa, ao mesmo tempo, transmitida na condensação frequente da forma do Haiku, nos leva depois aos "contos da lua vaga" (p.49 e segs.). Aqui, de novo uma evocação do que li, outrora, por sugestão de um amigo escritor, muito conhecido em Madrid, Julián Ríos: Os Contos de Genji, de Lady Murasaki (trad. ingl. Arthur Waley). Não sabia - quando é que alguma vez alguém poderá saber tudo?- enfronhada como estava à época nos escritos herméticos da Arca de Pessoa, que tinha havido esta mulher, talvez a primeira mulher romancista do mundo, nascida em 998 da nossa era, mantendo regularmente um diário, a rotina dos dias, desde os anos 1007 até 1010. O Conto de Genji, um dos contos da série, foi lido em voz alta ao Imperador do Japão, em 1008, e Lady Murasaki permaneceu na corte até 1025, pelo menos. Marcante, mesmo na trdução que leio, é esta asserção: conto apenas o que me foi dito, como me foi dito. Numa narrativa ao mesmo tempo delicada, e directa, sem os floreados que estão em voga hoje em dia... No capítulo dos "contos da lua vaga", de Rui Rocha, logo na epígrafe de Myoe (1173-1232) assoma a melancolia da referência ao Inverno (como é norma dos Hakai, alusão imagética às estações do ano, à divisão do dia e da noite, sublimando estados de alma): "passeando no inverno pelo bosque / faz-me companhia a lua. / que importa o vento cortante/ e a neve gelada?" Dado o tom, podemos continuar a leitura, que já sabemos terá de ser feita de meditação, e não apenas de folhear rápido das páginas. Retomam-se imagens como a da lua, e a noite írá encher-se de presenças, de ausências, de perfumes de criaturas amadas. Por aqui também passam silêncios, como neste Haiku, um entre tantos outros que poderia citar):

escuto o teu silêncio
a entardecer o dia.
apenas a luz da lua
me dá conta de ti.
(p.53)

Ou, mais condensado:

na sombra do vento
despe-se a lua
na noite tardia e branda
(p.63)


Não farei a fácil identificação da lua ou da noite, o elemento Yin, com a mulher, que tantas vezes surge atrás como presença/ausência desejada, ou evocada. O leitor fará, tranquilo, a leitura da obra. Há, para além da dimensão pessoal, própria de toda a poesia - o que é o poeta senão um amontoado expresso mais ou menos subtilmente de saudade de si mesmo, através do encontro e da descoberta do outro? - uma dimensão mística, oriental (dando o título à obra) que agora me levaria para outros estudos, da alquimia chinesa, em que a relação homem-mundo-universo de contemplação perpétua, me afogaria no capítulo que o autor chamou de "o canto do mar" (p.73). Para epígrafe escolheu, a meu ver muito adequadamente, pois só no ocidente nos afogamos de vez, A.E. Housman (1859-1936), poeta inglês:

Aqui no chão de areia
Entre o mar e a terra
Que ireis construir ou escrever
Contra a queda da noite?


Pragmático sabe o inglês que quer se ergam as vozes, quer permaneçam em silêncio, nada se pode fazer contra a queda da noite: nigredo, noite da alma, de onde só por meio de alguma palavra mágica se poderá erguer um novo sol num novo dia. Mas a palavra, como escreveu Pessoa, no seu poema Rosa-Cruz, é chave que não se dá e o Mestre esconde e cala. Mantendo sempre o seu estilo, fiel ao gosto de um oriente subtil, muda para o elemento "mar", a "água" a deriva que antes tinha sido dos opostos noite e dia, ou da mudança das estações, no ciclo natural. Esta água é a de um Rimbaud, nela se afogam turbulentas pulsões, ou de um Álvaro de Campos, em que todo o mar é, também ele, sítio de perdição. As epígrafes seguintes são de Alberto Caeiro, e a fechar, de Herberto Helder. Nada de mais oposto. A falsa placidez meditativa de um e o alvoroço do outro: Herberto ao afirmar que deseja dizer como tudo é outra coisa remete-nos para a sabedoria antiga, que nos lembra que tudo é, sempre foi e será...a mesma coisa.

Monday, November 14, 2016

O Evangelho de Tomás

Continuo a ler a belíssima tradução dos Evangelhos, na BÍBLIA de Frederico Lourenço.
É uma leitura que tem de ser vagarosa, para inspirar novas reflexões. É grande e útil a erudição das notas, em que também gosto de me demorar. E há ainda a sua generosidade, de ir apresentando em posts do Facebook, mais reflexões, mais comparações, que entusiasmem os seus leitores.
Por razões que têm mais a ver com o significado alquímico da mulher, nos textos que estudei ao longo de vários anos, desde logo o de Maria Profetiza, que Jung também valorizou devido ao seu célebre axioma, que parecia ser ampliação da Tábua de Esmeralda de Hermes Trismegisto, achei muito significativo no Evangelho de Tomás que Jesus, entre os apóstolos, quando lhes aparece ressuscitado responde a Pedro  (que não queria mulheres a ser evangelistas) que havia para Maria Madalena um papel importante, e que em breve" faria dela um homem," como eles.
Dá que pensar.

No início dos anos setenta, em Paris, começava eu as primeiras leituras indicadas por um dos meus orientadores, psicólogo junguiano e "alquimista". Eram, na Bibliothèque Nationale, as traduções do Antigos Alquimistas Gregos, de Marcelin Berthelot, de 1888.
Na terceira parte da edição, dedicada a Zosimo, é descrito um sonho emq ue o oficiante está de pé junto a um altar em forma de taça. Descreve um caminho de descida à escuridão e de ascensão à luz. "Assim era rejeitada a natureza espessa do corpo" e assim o oficiante se transformava em Espírito.
Adiante, depois de um verdadeiro sacrifício em que todas as partes do corpo são decepadas e queimadas. A explicaçção foi sucinta: "o espectáculo que vês é a entrada, a saída e a mutação".
Seguem-se depois, ao longo de várias explicações, as funções dos elementos, em que o fogo é especialmente importante, pois ao queimar sublima e transforma, a água elemento feminino, a terra, o ar; e os três princípios, do enxofre, do mercúrio e do sal. Tudo para o bom trabalho que levará à materialização da Pedra Filosofal. Pedra que é objectivo supremo, Perfeição do Um e do Todo, que encontramos na Tábua de Esmeralda.
Os textos dos alquimistas gregos são dos séc. II e III, transmitidos em Alexandria, segunda consta. Próximos, portanto dos nossos Evangelistas e comungando muitas vezes da mesma forma dialogada, para as explicações.
O que haverá a mais é a importância atribuída aos sonhos como forma de iniciação.
Já na Idade Média, em textos como o Rosarium Philosophorum, ou mais tarde, no Mutus Liber, ou na Atalanta Fugiens, a figura Feminina é sempre companheira e obreira do trabalho de perfeição.


Nas gravuras alquímicas a Mulher é ao mesmo tempo Marta e Maria (para recuperar um post de Frederico Lourenço) trabalha e é iniciada, participante da Obra de perfeição.
Sem me perder agora nas referências eruditas do Evangelho de Tomás, cuidadosamente descritas pelo autor da Introdução, Helmut Koester, e pelo seu tradutor, Thomas Lambdin, (in The Nag Hammadi Library in English, ed. Brill, 1996) - vou directa ao meu propósito, o da participação activa da Mulher, neste caso Maria Madalena, na divulgação dos Evangelhos, como discípula eleita, também ela, com os doze.
Na primeira frase com que o Evangelho abre é definido o programa: a interpretação do que é dito conduzirá à descoberta da vida eterna. Jesus fala em parábolas, em ditos que é preciso entender e decifrar: como na descrição dos sonhos de Zosimo.
Maria intervém uma vez nos diálogos, fazendo esta pergunta
"Com quem se parecem os teus discípulos?" (p.129)
É no final dos diálogos com o grupo que o rodeia que se afirma então o papel da mulher:
(113)- Os seus discípulos disseram-lhe: "Quando chegará o reino?
(Jesus disse)- Não chegará esperando por ele. Não será uma questão de dizer aqui está ele, ou ali está ele. Mas antes o reino do pai está espalhado pela terra, e os homens não o vêem."
(114)- Simão Pedro disse-lhes: "Que  Maria nos deixe, pois as mulheres não são dignas da vida".
Jesus disse: " Eu mesmo a guiarei de modo a fazê-la homem, para que também ela se transforme num espírito vivo semelhante a vós, machos. Pois cada mulher que se transforme em macho entrará no reino do céu" (p138).
Daqui para a frente teríamos de ampliar o raciocínio para o mito do andrógino, ou para o primeiro Adão, no Génesis 1, sendo ele macho e fêmea, e tentar compreender o mistério da essência de um Criador que o fez, ao primeiro homem, à sua imagem e semelhança.
(cont.)

Monday, October 24, 2016

Cristina Rodo



Em dia que parece meio chuvoso, uma chuvada de alegria e felicidade risonha.
De Cristina Rodo, o seu livro FELICIDADE não é para quem pode, É PARA QUEM QUER!
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Lançado agora, tem uma capa quase marítima, um lettering que também foi desenhado pela sua mão, tamanho ideal para pegarmos nele e abrirmos ao acaso, lendo as matérias sobre as quais ela filosofa, como se faz num blogue, em prosa curta e enxuta - a maior qualidade que se pode desejar nos nossos dias, de tanto palavreado fútil, que servirá para vender, mas certamente não para pensar, ou ajudar a pensar. Cristina, como se vê logo na foto da badana em que se apresenta, informalmente, tem o à vontade de quem já andou um pouco pelos caminhos da vida, com o sorriso e olhar malicioso de quem não faz tenção de parar, e ainda bem: espero que sejam os caminhos da escrita, e da felicidade que um livro dá a quem o QUIS escrever e editar.
Recupero uma citação de Walt Whitman, que Cristina colocou em epígrafe antes do texto de CARPE DIEM:
" Felicidade, não noutro lugar mas neste lugar...
não noutra hora mas a esta hora."
Porque ela tem um blogue, aqui deixo a indicação:
sopadeideias-cr.blogspot.pt
Read and be happy!
Leiam para viver melhor...
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Ainda no livro da Cristina Rodo, aqui à minha frente.
Não se enganem com a palavra felicidade, só porque estará na moda: quem é que não deseja ser feliz? Mas quem saberá ao certo o que é a felicidade, ou o sentimento de ser feliz?
Mais uma comprinha foleira? Não, embora eu concorde que uma comprinha ainda que foleira pode alegrar a alma, e alegra, quantas vezes... Como em tudo, trata-se-se da pessoa e da sua circunstância. Daí aquela velha piada de que o dinheiro não dá felicidade, mas também não tira...ajuda....
Ou não.
Cristina, deste ponto de vista, dá ao seu leitor um exemplo feliz: recolhe o que sentiu, o que pensou, o que escreveu, e sem mais considerações que não esta, avisa que falará de si - que é o que fazemos todos nós, os que escrevemos. Escrevemos antes de tudo para nós próprios, para nos entendermos, e quem sabe se, a partir do que escrevemos, alguém que nos leia venha a entender-se também.
E então terá sido útil o nosso esforço de divulgar. Porque é um esforço, entregar-se aos outros, assim abertamente.Vou concluir, porque vou continuar a ler.
Há aqui uma lição: chegados ao meio da vida (que já ultrapassei há muito) de que modo vamos continuar? Eu que já passei por muitas fases, de grandes, pequenas e médias alegrias, de pequenos e grandes e médios sofrimentos, entendo o que Cristina nos diz, na sua prosa directa e despojada (como eu gosto).
A felicidade, isto é, viver e saber-se que se está vivo e a vida segue em frente, não é uma questão de poder, é uma questão de querer. Sentir a força interior, que todos temos, e fazer em cada momento a escolha do momento. Viver o presente. Haverá melhor sentido para uma vida que se quer bem vivida ?
Para então, finalmente, ser feliz, por poder e querer.
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Num livro de momentos soltos, bom é também reencontrar alguma coisa do nosso próprio passado, no passado do outro. Por aí se estabelece um dos laços que importa: saber que afinal somos todos de uma mesma espécie, esta, das criaturas humanas, crescendo em perplexidades, medos, certezas ou interrogações.
Quando éramos pequenas eu e a minha prima Eduarda em Tavira, em casa da minha avó Rosa - um casarão enorme, era na cozinha que nos sentíamos melhor protegidas - só íamos para a cama, bem longe da sala dos "grandes" quase à força. A cozinheira era quem nos levava pela mão. Ao atravessar um corredor, também imenso, sussurrava: hoje é lua cheia, e anda um espírito à solta, as meninas não saiam da cama. É um Fleco, cuidado. E pode haver outros... Eu tentava sacudir os arrepios de medo e já muito didáctica explicava : são reflexos, são reflexos da lua nos vidros, não há flecos...mas de verdade metia-me na cama, olhos bem fechados, não fosse aparecer alguma coisa estranha e tivesse de chamar pela Eduarda, na cama ao lado. Eu acredito no mistério, logo a começar pelo próprio mistério da existência...Não ando eu por aqui? Não andamos nós todos?
A sensação do mistério habita as memórias da infância, e Cristina, com humor, evoca num dos textos uma dessas: a do vaso voador que ora caía sem se partir, ora mudava de lugar, durante a noite, como se algum elfo andasse por ali a pregar partidas à família. Mas de verdade era ela que reparava e dava mais atenção. Precisarei de lembrar que toda a escrita nasce da capacidade de dar atenção?
No meio-dia da vida o querer impõe um olhar tão íntimo e ao mesmo tempo tão despojado, memória de balanço, de permanente recomeço...... só simples numa primeira abordagem.
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Ocorre-me de repente um dos meus autores favoritos: Rainer Maria Rilke, Os Cadernos de Malte Laurids Brigge.
Narra a sua estadia em Paris, secretariando o desagradável Rodin, escultor genial (mas o artista é uma coisa e o homem pode bem ser outra), uma cidade que descreve com as suas ruas de miséria, rostos envelhecidos que se desfazem perante o seu olhar, cidade em que há hospitais mas não há hospitalidade, e ao longo das páginas vemos que vai cruzando, na sua narrativa, as suas memórias de infância, e entre elas o mistério e o espanto do que na casa do Coronel Brigge acontecia.
Este livro, editado em 1910, escrito ao longo de 1908, é, junto com outros, por exemplo os de Joyce ou de Virginia Woolf, a marca fundadora do chamado Modernismo na Europa. A escrita, depois deles, nunca mais voltou a ser a mesma.
Por que razão vou buscar a minha memória de Rilke? Porque nesta obra aparentemente de leitura directa, tudo se cruza, na memória e nos fios que ligam passado (o da infância e juventude, na casa do Coronel) e o presente. Paris é o presente, sofrido, excepto quando  visita no Museu de Cluny as tapeçarias da Dama da Licorna, e se detém perante tanto mistério e tanta beleza contida. Passo adiante as reflexões sobre o que é o amor, a propósito das célebres Cartas da Portuguesa, que ainda hoje se discute se serão mesmo dela ou do cavaleiro francês que terá amado e as terá escrito.  Mas do passado lhe virá a força, que só a memória concede, para ajudar a viver.
Cito Rilke, pelo puro prazer de repetir:
"Aprendo a ver. Não sei porquê, tudo penetra em mim mais profundamente, e não permanece onde, outrora, tudo acabava. Tenho um interior que ignorava. É para aí que tudo vai, agora. Não sei o que lá acontece".
Pois bem, aprendamos a lição, dada tão ao de leve, pela Cristina Rodo: todos temos um interior que ignoramos. É para aí que tudo vai e tudo pode acontecer, quando queremos.





Saturday, October 22, 2016

Maria Teresa Horta, Anunciações

Maria Teresa Horta, Anunciações, um romance

Estando eu entre Bíblias, lendo uns Evangelhos e outros, na tradução de Frederico Lourenço, eis que recebo o último livro de poemas de Maria Teresa Horta, Anunciações, um romance.
É um romance feito de poemas, como diríamos de romanza, canções, poemas cantados ou para cantar e encantar.
Na verdade este livro ocupa-se da Vida de Maria, e da sua surpreendente relação de enfrentamento com o Anjo Gabriel.
Enfrentamento, confrontamento, aceitação? Os poemas, de ritmo contado, embalam-nos primeiro, depois deixam a reflexão.
Não se aborda um Mistério como o da Virgem Maria e da sua aceitação da Nova que o Anjo lhe traz sem tomar cautela. Já pelos poemas de Rilke sabíamos que ali se abria facilmente um precipício, o do abismo do corpo, o do abismo da alma.
Porque na mensagem do Anjo corpo e alma se fundem, e é o que acontecerá a Maria, a jovem desprevenida, a Virgem impreparada para tão grande missão de entrega e comunhão.
Teresa Horta conhece a tradição da simbologia de Maria, e do Anjo da Anunciação. Não deseja evocar por completo a tradição, embora o faça às vezes, pois é impossível fugir a uma realidade histórica, religiosa e mítica ( a da mulher que foi mãe e que enquanto mãe de Jesus ascende aos céus, também ela ficando sentada junto ao Pai...). Fascinante, para Teresa Horta, é o mistério que a envolve, desde que o Anjo lhe aparece e lhe fala. Tradição é raiz, mas meditação é liberdade de entrega.
Aqui a autora deixa de parte o mais que se possa avançar, pelos relatos canónicos, e fixa a sua meditação no mágico encontro da Mulher com o Anjo. Na súbita aparição, no mútuo encantamento. Teresa Horta ( o que nela seria já de esperar, devido à fisicalidade de tudo o que escreve) corporiza o mistério, não o quer sublimar. Ou melhor, sublima-o, precisamente porque o materializa.
Humaniza o Encontro e a Revelação. Impõe uma narrativa poética de romance, daí o subtítulo, tão bem achado. É o romance que estrutura os poemas, o romance que se desenha no encontro e leva a uma paixão que bem podia ter sido real.
Há algo aqui, na subtileza de um ou outro detalhe, que nos remete para uma obra anterior, Da Dama e Da Licorna.
 O afago deste Anjo (insubmisso, como se depreende, pela releitura de Teresa) é puro, como o da Licorna que se reclina no colo da sedutora Dama?
 E Maria, nunca chamada de Virgem pela autora, será ela o modelo daquele ícone medieval tão belo?Nas tapeçarias de Cluny a dama é um emblema alquímico, de sabedoria e pureza, perante as quais a licorna se inclina, domada e com devoção.
Já neste poemas da Anunciação a Maria o que se pretende é retratar um mútuo desejo de aproximação, um deslumbramento que envolverá, ainda que sem ser claramente assumido, Mulher e Anjo: o Anjo que há na Mulher e a Mulher que há no Anjo.
Um só, como se voltassem a poder estar unidos pelo Verbo da Criação, no paraíso de outrora. Por aí não admira que Maria venha a ser, na tradição, a companheira do Deus primeiro e a mãe do seu Filho. O que para os alquimistas ( e alguns místicos teólogos) obriga a um primeiro esforço: o de entender, ou explicar, como pode ela ser mãe de um filho que sendo deus é ele mesmo seu pai e criador?
Mas descubramos Maria pelo olhar de Teresa e continuemos um pouco pelo " romance" oferecido:
MARIA
Debruçada em si mesma
no início do seu dia
Maria estava tão longe

que em si mesma se perdia

Cabelos de côr sombria
o olhar arrebatado
onde o azul tomava

o tumulto do cobalto

Inquieta e arredia
de estranheza sem saudade
de si mesma nada sabe
(p.19)

ÉS POETA?
Chegas com a aura
de um anjo
E és poeta?

Asas de perdimento
olhar de água

e tudo à tua volta
se inquieta
(p.52)

A linguagem é propositadamente arcaizante, por vezes, neste como noutros poemas, recordando que de uma romanza se trata, e não tanto de um verdadeiro romance.
Tudo canta, tudo por aqui se embala, num leve sopro de asas, num leve esfumar de espanto.
É assim a poesia de Teresa, e encontramos aqui a coerência de sempre, do seu ritmo. Um respirar tão natural e físico como o do seu próprio corpo, sublimado. O título recorda que estamos diante da palavra poética que é, em si mesma, a inesperada presença de um Anjo.
Em OLHEIRO DO SENHOR (p.54-55) surge um anjo vigilante, Uriel, apontando-se já no verso algum pecado iminente. Mas não seria preciso, pois todo o livro levanta essa suspeita de amor, à medida que o verso corre, do sagrado para o profano.
Em EMISSÁRIO OU REFLEXO (p.72) e em ESPELHO(p.73), coloca Teresa, pela boca de Maria , criatura  perturbada quanto mais abençoada, o problema do Ser, na íntima aparição do Anjo.
Afinal o que é? Como se diz em cada último verso, de cada estrofe: reflexo? excesso? reverso?
Assim, devagarinho, a autora desconstruirá o mito: o mito da virgindade e da pureza. O "abismo perverso" a que alude no poema seguinte, o do "nada absoluto/onde a luz /é o excesso" já faz descer a sombra de um corpo material, na interrogação de amar e ser amado. Não fala Teresa de um corpo todo ele de energia subtil, mas de um corpo onde se esconde, mal, a violência do desejo.
PRESSENTIMENTO (p.79) já é tão só confirmação do que foi dizendo atrás: pode Maria pecar contra o Senhor seu Deus?(p.78).
Voltamos ao "perdimento" arcaizante, porque de arcaico mito se trata, ou de arcaico e desde sempre existente, latente, sentimento:
Que pressentimento
é este
de queda e de vulcão?

Que ambíguo perdimento
devastado
entre amante e amado?

Entre vida e sagrado?

Não posso deixar de citar mais um dos poemas em que a entrega é dita, num claro dizer de poesia "imperdoada" pois desflora um espaço que era segredo, antes mesmo de ser sagrado:
ELEGIA
Sempre te esfumavas
nos meus braços

mais bruma, mais ávido
mais lívido
mais pálido

meu brevíssimo amor
imperdoado
(p.260)

O livro está dividido em 14 Estações, cada qual um caminho, e em que a última já contém o destino de mãe, que será também o de Maria. Amada, Mulher e Mãe - e de poema em poema a Condição Feminina, pois que é essa mesma que Teresa interpela, desde que pela primeira vez a li, nos seus poemas, na década de sessenta.
Fecha-se o ciclo com um POST-SCRIPTUM, uma CARTA A MARIA que resume de algum modo o que não coube na poesia, embora verso a verso tudo ficasse dito: que Maria não aceitou a "vontade do Senhor".
Teresa marca distância, ao contrário de Rilke, que em tudo aspira à proximidade, e cada vez maior, em fusão plena, seja do mistério de Maria, seja do mistério da rosa (como em Dante) com que nos deixa nos últimos poemas.
Cabem agora ao leitor outras interpretações, que as haverá, e certamente muitas.
Este livro merece...