Monday, July 22, 2024

A JUVENTUDE

 

A JUVENTUDE

(para a Joana, nos seus 25 anos)

Seduz a Juventude porque é bela

seduz porque ilumina a nossa vida

a nossa estrela

Sunday, July 21, 2024

O que sou eu

 

Fosse eu a Oliveira de Creta 

e onde enterraria a minha raíz

para que não fosse cortada

e eu nunca mais crescesse

de copa elevada para os céus?

Nem toda a terra é fecunda

nem toda é venerada

como aquela que ali ficou

regada por sangue oculto

e cada vez mais se aprofunda...

Friday, July 19, 2024

 A OLIVEIRA de CRETA

Não foi certamente por acaso

que alguém me colocou no Facebook

a imagem da oliveira de Creta

com mais de dois mil anos

e que ainda está viva, pois dá fruto.

Foi para me mostrar neste dia

em que estou abatida

uma imagem especial de força

e resistência.

É essa força da natureza

 a força que nos dá o exemplo

do que deve ser sempre a nossa vida.

Não é perfeita a vida que vivemos

mas tem de ser plenamente vivida

terá de dar sempre fruto

estejamos ou não ainda vivos,

alegres ou abatidos.

A vida é na natureza vida eterna

é de terra de água e de raízes

tão fortes e penetrando tão fundo

que do lado de lá tocam o céu

negro e em chamas

que algum fogo alimenta

no seu ninho de estrelas

onde se formam os corpos

que ao partir

renovam as suas vidas

e lhes dão permanência

18 de Julho, 2024

 

A VIDA

 

 A VIDA

Nascemos sem saber.

Não pedimos a vida

foi-nos dada por um deus

que em nós quis ver-se

 ao espelho

onde não via nada.

Depressa se cansou

da sua imagem

quebrou o espelho

que perdera o encanto

e de novo tenta refazer-se

noutra imagem.


19 de Julho, 2024

Wednesday, July 10, 2024

Rui Couceiro: A morte, os medos, os fantasmas e as formas


 

A nomeação de alguns intervenientes surge, e dá substância ao discurso que estava, na continuação da narrativa, a tornar-se muito abstracto, numa prosa tão figurativa e realista.

Assim Luísa é a amiga a quem a narradora se dirige, Elisabete é o seu nome, abreviado em Beta pela avó, surge um amigo que orienta com bons conselhos, o Dr.Belarmino e a inefável e sempre presente já a conhecemos bem, desde o início, D. Lisete. Define-se como uma alcoviteira de Gil Vicente, mulher que leva e traz, ou a vizinha que no Fausto de Goethe propicia o encontro fatal entre o herói amaldiçoado e  Margarida que se tomará de encanto por ele e por isso, no Fausto I, será condenada pelos humanos ( cometeu o crime de infanticídio) mas redimida por Deus. Com Goethe, onde há amor há perdão.

Mais corriqueiro nos vai parecer o caso de Beta. Amava e era amada pela sua avó, e para uma criança, e mesmo para um filho, uma avó prefigura uma espécie de eternidade, poderá adoecer, envelhecer, mas morta nunca se imagina. E contudo morrem...

Beta perdeu a sua avó e agora é acometida de visões, ao fim do dia, quando vai para casa, e de súbito lhe aparece uma forma que evoca essa presença ausente.

A forma é de susto, é feia como uma bruxa, maltrapilha de roupagem, deitando um cheiro nauseabundo que Beta não suporta, e na narrativa surge assim: " Diante de mim estava uma figura baixa, curvada e toda vestida com uns andrajos pretos. (Não preciso de trazer de novo para esta figuração a fase dita de nigredo, e que faz parte do processo de evolução, na psique do adepto, da sua Anima). Continuando: " Parecia ter-se besuntado com um unguento fétido, porque o cheiro que emanava, não sei se do corpo, se da boca, era insuportável, e o rosto, ou o que parecia ser um rosto, era brilhante e pastoso. Não se lhe distinguiam feições, nem expressões, nem a boca se abria para falar, apesar de dizer muito mais do que eu queria entender. A princípio não percebi quem era, mas depressa me lembrei de que só poderia ser ela, não poderia ser outra, certamente seria ela. E se fosse?(...) E se ela estivesse ali para me levar, uma vez que já tinha levado a minha entrevada avó? Aquela monstruosidade bexigosa e pestilenta só poderia ser a morte. A morte estava à minha frente, ainda que não totalmente nítida, mas estava. Só poderia ser ela. Só poderia ser a morte, eu já estava certa disso quando, aproveitando um raro abrir e fechar de olhos a que me permiti, deixei de a ver, desapareceu" (p.252).

A figura assustadora voltará de novo, Beta estava a sofrer alucinações que a gelavam de pavor.

Também aqui o autor escreve pela narradora uma memória antiga a da tremenda peste negra que assolou a Europa durante o séculos XIV e XV, e deixou no nosso imaginário (dos que leram ou ouviram contar) o terror de que algo assim pudesse voltar a acontecer.  Descobrimos sempre, ao longo desta leitura aparentemente simples e directa, o suporte antigo de uma cultura que é a nossa, por muito arcaica e esquecida. Surge com a sua presença forte nos momentos mais inesperados, mas tem de estar lá...a cultura é o suporte da Arte.

A narradora relaciona então esta aparição com uma mulher, a D. Aldina, cujo marido, o Fernando, morrera nas obras da Expo 98, soterrado sob uma camada de cimento despejada para uma sapata que estava a ser betonada, e dado o trágico acontecimento ninguém se atreveu a falar dele,  para retirar o corpo, o que atrasaria a obra, algo impensável. 

Talvez fosse o imponderável deste trágico acidente que estivesse a causar a Beta as sua assustadoras alucinações, como a da figura dançante que ao regressar a casa, já no fim do dia parecia fazer troça dela e dos seus medos. Agora a heroína da história já tem uma terapeuta a quem vai contando o que lhe acontece, o medo, por um lado e o desejo de não acreditar, por outro.

Mas já entretanto o autor nos apresentou fundamentos de um imaginário que na espécie humana permanece desde que existe, ainda que sofrendo sensíveis transformações: a Morte. Dos tempo modernos iríamos buscar o célebre Grito, de Munch, que teve várias versões, todas possíveis para a primeira alucinação, de formas vagas, mal definidas ainda, até a esta dança macabra, de tantas origens arcaicas e todas relacionadas com a visão e o temor da morte. 

O temor da morte está presente desde que nascemos, desde que há consciência da vida na nossa espécie. É o que nos diferencia dos animais de que descendemos, que não o têm.

Recomendo a entrevista de Hariri, que está no youtube, para quem deseje conhecer a sua opinião. 

Mas cito antes, por magnífica descrição, que inicia, com outros, o chamado Modernismo na literatura, que se inicia em 1910, mais ano menos ano e se manterá, segundo os especialistas, até 1935 ( morte de Pessoa, no nosso caso). Rilke, com os seus célebres Cadernos de Malte Laurids Brigge (existe a tradução de Paulo Quintela) oferece na sua narrativa da vida e descoberta de uma cidade dolorosa, Paris, mulheres com quem se cruza na rua e cujo rosto prefigura o da Morte, assustadora, mulheres cujo rosto se desfaz nas mãos tornando-se ferida (a ferida da miséria da vida) e acima de tudo na memória que traz consigo do seu antepassado, o Conde Brahe, cuja morte é descrita como algo de atroador que quando se manifesta invade o castelo inteiro com o seu sofrimento, a que nem os cães resistem, embora sejam tão próximos e já habituados

Rilke escreve esta sua obra-prima em 1910 e marca a diferença na narrativa do seu tempo, inaugurando o que chamamos de Modernismo no século XX. 

Vive pobre, ele que é aristocrata, numa cidade que descreve ao pormenor, como Rui Couceiro faz com o seu Porto e o seu Morro, só que não tem morro, tem um quartinho para onde se retira depois de ter secretariado o irascível Rodin, e toma as notas que formarão o Caderno tal como o conhecemos. Tudo, quando se encontra sozinho, o remete para a busca de uma identidade que ficou no castelo da sua família, e por onde ele vê passarem o pai e a mãe, tias, primas, fantasmas, criadagem que acorre quando o Senhor do castelo está presente.

Assim, pela recuperação de uma vida outra, revive o jovem Rilke, perdido na Paris implacável, o que procura na mudança, na diferença, no choque de dois mundos, o de outrora, em extinção, apenas vivo nas evocações ou alucinações da memória, e o do seu agora, em que ele tenta encontrar o seu lugar e destino de criação artística, justificação da sua alma, isto é da sua verdadeira e real existência. Lemos em Rilke um Baudelaire que também Rui Couceiro pode ter lido, La Charogne, a podridão do cadáver, mas lemos sobretudo magníficas páginas sobra o medo, os vários medos que de todo lado o acometem e ele não chega a entender. Percorre-se uma memória longa de um passado recente, onde perpassam jovens mulheres que poderiam ser amadas mas não o chegam a ser, e para total surpresa do leitor desprevenido, eis que o final dos Cadernos é precisamente com amor que termina, o amor que Beta também descobre. Mas ela, ao contrário do que acontece com Rilke será amada de volta, ao passo que ele não tem a certeza de nada. Ainda não. 

 

  



Monday, July 08, 2024

Ainda o Morro do Rui Couceiro

 Acordei a pensar que outro livro, de que me lembre, tem uma densidade tão grande sendo ao mesmo tempo forjado na actualidade do nosso quotidiano, com personagens que nos dizem muito do que somos e vivemos (do pequeno e do grande mundo) e do que partilhamos com vizinhanças primeiro desagradáveis, invasivas do nosso sossego, e depois gradualmente  trazendo do bairro tudo o que pode ser mais interessante e ela dá a conhecer, a grandes e pequenos.

Falo da Dona Lisete, que é quem mais fala na obra com a Beta (Elisabete de seu nome verdadeiro) tornando-se conselheira, condutora, amiga de verdade e de que a narradora se ocupa quase até às últimas páginas do que escreve. Personagem que é tratada com cuidado, mas também com uma ironia escondida a que o autor não consegue resistir, a ironia que alimenta o que vemos e nos faz não digo rir, mas reagir. Puxa pela acção, e na verdade ( se eu voltasse a falar das figuras centrais da alquimia) seria definida como Mãe da Obra (que vemos no Conto da Serpente Verde de Goethe, hoje já disponível em português pela tradução do João Barrento. Eu escrevi sobre o Conto um pequeno ensaio, dedicado a Paulo Quintela, o Prof. e amigo que ia comentar a minha tese de doutoramento e me disse explica lá isso que eu de alquimia não percebo nada, e fiz esse ensaio para ele. 

No cap.105, p.284,  a Dona Lisete tem direito ao seu momento de explosão popular, que não direi que é bipolar, porque conheço como aqueles vulgares desabafos de zanga momentânea são normais no Porto, não chegam a ser considerados palavrões, saem de bocas finas, como a da aristocracia que ali ainda predomina, e eu aprendi no âmbito da minha família de Ponte de Lima: a fúria da Dona Lisete até assustou por momentos a narradora, mas como ela própria diz, depressa se acalmou, e eu deixo ao leitor a curiosidade de aprender com ela...

A verdade é que todas as explosões a que se assistiu eram desabafos de impotência perante algo de desagradável sucedido, como a falta de água nas torneiras por exemplo. Não mais do que isso. Não havia maldade, havia revolta justa, pela incompetência, ou pela apetência e abuso de alguns que podiam, sobre os outros, que não podiam. O palavrão libertava.  

Ao contrário de alguns comentadores, que no seu entusiasmo quase paroxístico me deixam entender (é da idade...) que se atiraram ao Morro de cabeça, não a partiram mas não voltarão lá, outros interesses logo se apresentarão, eu acho e é o que vou pelo menos tentar, que se deve  voltar a esse Morro, ou melhor, a esse livro, até perceber que fio nele se esconde e nos conduz até ao momento em que a heroína, com o convívio do Dr. Belarmino, a sempre presente Dona Lisete, que a aconselha a ir pedir leitura de tarot a uma cartomante para adivinhar o que o futuro lhe reserva, chegar a conhecer e conviver com o Professor, que é colocado ali, onde ela vive e se apaixona por ele e ele por ela. Depois de tanto negro atravessado na sua vida , o peso da avó nos seus dias e nas suas noites, fica a saber que essa avó a protege, lá do céu onde se encontra e propicia um final amoroso e feliz com o seu Professor, que é delicado, não força a relação sexual quando ainda não desejada, mas antes a acaricia docemente e lhe envolve e aquece o corpo, como uma segunda pele. 

Da infância por vezes sofrida até à maturação de um corpo feito para amar e ser amado, assim vai o relato encaminhando a nossa leitura,  lembrando que em toda a vida, pobre ou menos pobre, de alguém como Beta, para lá da aparição assustadora da imagem da Morte, a vida afirma-se como vida mais plena ali oferecida para  viver, e pelo amor entregue a ser vivida plenamente. 

Chegou o momento mais difícil, o de entender o Morro como símbolo de uma cidade envolvente, feita de sobreposições variáveis, permanentes, inquietantes por vezes, quando a Morte, a grande, era de súbito avistada.

E de entender a Cidade como um grande coração que batia, desde que na Bíblia, ainda no Antigo Testamento, se descreve como Cain, depois de matar Abel é expulso do Paraíso, já amaldiçoado também pelo pecado de Adão e Eva. Cain, o "construtor de cidades".  Por que razão estariam as cidades ligadas ao pecado de Cain, ao  assassinato brutal de um irmão inocente? Queria Jeová, no tempo em que todos ainda falavam, castigar uma humanidade com um Mal permanente? Pois os alicerces que Cain erguia estavam viciados desde a origem.

Pode a cidade viciada tornar-se o verdadeiro símbolo do mal? Acontece com a Torre de Babel, e deus a castigará a seu modo, o mesmo com Sodoma e Gomorra, que não serão perdoadas pelos seus vícios, e será que o mal nunca erradicado se infiltra ainda hoje nas guerras, nas grandes catástrofes climatéricas, num planeta cuja zanga com os humanos é cada vez maior e parece não ter perdão nem ter fim?

Não chegou o momento ainda, para a narradora feliz, de assistir ao fim de um mundo que é o nosso, como diz Hariri, que vê na I.A. um mal ainda pior. Se no antigo Éden o primeiro par não tinha senão um arremeço de liberdade, pois duas árvores lhes estavam proibidas, que liberdade teriam os modernos pares em que o verdadeiro e o real podiam a todo instante ser modificados, e induzir em perigosos erros ? E Deus e a sua criação, no meio disto? Também a sua identidade poderia ser modificada? Hariri abre a discussão, mas deixa-a em aberto. Aconselha a que não se perca tempo a pensar o que é o significado da vida, pois isso apenas conduzirá a uma história e uma história não nos dará esse significado. Pensemos antes no que é o Sofrimento, o significado do Sofrimento (que vemos por todo o lado).

Por que razão existe e o que significa o Sofrimento, na vida? E sabemos como cada ser humano o que busca é a certeza, não a dúvida metódica da filosofia de outrora...

Tudo mudou no mundo.

Mas no Morro, por via de um amor simples e partilhado poderá haver salvação, sonhar com um futuro distante mas aguardando no fio do horizonte que o Criador acorde do seu sono zangado e nos perdoe. 

 

  

Thursday, July 04, 2024

Um Último Pedido

 

Um Último Pedido

Desçam devagar pelo caminho

que não cheguei a subir

e agora vou descer

pela vossa mão

sem medo de tropeçar

nas pedras que ficaram.

Chorar não faz sentido,

deitem as cinzas ao rio

e a água que as leve para o mar...


4 de Julho, 2024

 

Monday, June 24, 2024

Morrer

É claro que penso muitas vezes
em como vou morrer.
Não adivinho
não há um deus que diga
um anjo que previna
entretidos no céu
a desenhar nas nuvens
os destinos
os nossos ou dos outros.
Penso que não gostaria de saber
nem de sentir antes de tempo
um tempo que chegará
como já vi
e pode ser tão estranho
e tão inesperado
sem um queixume
sem um lamento sequer
apenas uma entrega
num enorme silêncio
a caminho da treva
quando teve de ser.