Sunday, July 24, 2016

Rilke, A Vida de Maria

Rainer Maria Rilke (1875- 1926)

Das Marien-Leben
A Vida de Maria


O Nascimento de Maria

Ah, como deve ter sido difícil, aos Anjos,
não irromper em cânticos, como quem desata a chorar,
pois sabiam: era a noite em que o menino teria a sua mãe,
ele, o Único, que em breve nasceria.

Esvoaçando, em silêncio, mostraram o caminho,
indicando a morada solitária de Joaquim,
sentindo, em si mesmos e à sua volta, o puro condensar
mas sem que nenhum pudesse ir descendo até ele.

Pois o casal estava já numa tal comoção que
veio uma vizinha e avisou mas sem bem entender
e o velho, cauteloso, saiu, perturbando o obscuro
mugido de uma  vaca. Pois nunca tal coisa acontecera.



A Apresentação de Maria no Templo

Para entender como ela era outrora
tens primeiro de imaginar um espaço
em que se ergam colunas e os degraus
se sintam sob os pés; em que arcos
de ogiva perigosos se unam sobre o espaço
que ainda em ti ficou, pois foi feito
de tais matérias que não mais poderás
retirá-las de ti, a menos que te despedaces
igualmente. Se já atingiste o ponto em que
tudo em ti se transformou em pedra, muro,
escada, visão, abóbada, - tenta afastar um pouco
a espessa cortina que tens diante de ti:
aí estarão brilhando os gloriosos objectos,
que te suspendem a respiração, e paralisam os gestos.
Por todo o lado palácios e mais palácios
terras que se estendem por mais terras
e ressurgem mais longe em tantas margens
que tu sentes vertigens só de vê-las.
Uma nuvem de incenso turva o ar que respiras;
mas sobre ti incidem os raios, vindos de longe,
e se agora o fulgor que emana das taças chamejantes
se projectar sobre as vestes que de ti se aproximam:
como poderás resistir?

Mas ela veio e ergueu
os olhos para tudo contemplar.
(Uma criança, uma menina pequena entre mulheres).
Depois subiu, em silêncio e cheia de compostura,
perante um fausto que já em destroços se curvava,
tão grande era o louvor ultrapassando o que ali
por mão de homem se tinha construído

no seu coracão. Pelo prazer
de se entregar aos íntimos sinais.
Os pais tinham pensado erguê-la
até ao assustador peito coberto de jóias
que a receberia; mas ela foi passando por todos 
de mão em mão, pequena como era,
entregue ao seu destino, mais alto que as abóbadas
já pronto à sua espera e mais pesado que o templo.



Anunciação a Maria

Não foi a aparição de um Anjo (reconhece)
que a assustou. Nem de outros, quando
um raio de sol ou de luar à noite
os reflectem no quarto desfilando,
se inquieta ela com a forma que um Anjo
possa ter assumido; mal suspeitando que
esta presença pudesse para o Anjo ser incómoda.
(ah se soubessemos como ela era pura. Certa vez,
avistando uma gazela a repousar na floresta,
de tal modo a penetrou com o seu olhar que
mesmo sem acasalamento nela se gerou  o unicórnio,
a criatura de luz, a pura criatura - ).
Que ele entrasse, o Anjo, e com um rosto de adolescente
se debruçasse e a fixasse de tal modo que o olhar dela
e o seu se confundissem, como se de repente lá fora
tudo se esvaziasse, e o que era visto, procurado, levado
por milhões de homens nela se concentrasse: só ela e ele.
Contemplação e contemplado, olhar e prazer de ver,
em nenhum outro lugar a não ser neste - : repara,
é assustador! E ambos se assustaram.

Foi então que o Anjo cantou a sua melodia.



Visitação de Maria

Ao princípio tudo lhe foi fácil,
embora nas subidas já sentisse
o milagre operado no seu corpo
e parasse para respirar no alto

das colinas da Judeia. Mas não era a terra,
era a sua plenitude que enchia a paisagem.
Sabia, ao caminhar, que nada ultrapassaria
a grandeza sentida naquele momento.

Já se apressava para pousar a mão
no outro corpo, de tempo mais avançado.
E as mulheres foram ao encontro uma da outra
cambaleando, acariciando as vestes e o cabelo.

Cada qual, carregando o fruto precioso,
encontrava na outra o seu abrigo.
Ah, o Salvador era nela ainda flôr
mas o Baptista, no seio da comadre,
já desatara aos saltos de alegria.



A Desconfiança de José

E o Anjo falou e esforçou-se
por explicar ao homem de punhos cerrados:
então não vês em cada linha do seu rosto
que ela é tão fresca como a aurora de Deus?

Mas o outro fixava-o de semblante sombrio
e apenas murmurava: o que a transformou assim?
Então exclamou o Anjo: carpinteiro, não percebes
ainda que esta é a obra do Senhor Deus?

Só porque talhas as tábuas, com orgulho,
queres obrigar a que fale contigo aquele
que em segredo, dessa mesma madeira,
faz crescer as folhas e rebentar os botões?

Compreendeu. E ao erguer os olhos
de verdade assustados para o Anjo,
viu que ele tinha ido embora.
Tirou então da cabeça, lentamente,
o espesso gorro. E entoou o louvor.






Anúncio aos Pastores

Levantai-vos, homens! Homens ali em torno da fogueira,
que conheceis os infindáveis céus,
que sabeis ler as estrelas, vinde ! Olhai, eu sou
uma nova estrela que se ergue! Todo o meu ser arde
e irradia com uma tal intensidade a plenitude tremenda
de uma luz que o firmamento profundo não chega
para a conter. Deixai que o meu fulgor penetre
a vossa existência: a escuridão do olhar, a escuridão
dos corações, dos destinos nocturnos, 
que são os vossos. Pastores, como estou só
entre vós todos. De repente se me abre um espaço.
Não estáveis admirados?A grande árvore de pão
lançava uma sombra. Sim, era a minha sombra.
E vós, os sem temor, se soubésseis como
agora brilha o futuro nos vossos rostos
erguidos. Nesta luz forte muita coisa
virá a acontecer. É a vós que o confio,
pois sabeis guardar bem um segredo; a vós,
crentes fiéis, aqui ao redor tudo vos fala.
Falam o calor e a chuva, o vôo dos pássaros,
o vento e o que sois, nenhuma coisa
prevalece sobre a outra, enchendo-se de orgulho
e arrogância. Não guardais as coisas dentro do peito
para as poder torturar. Assim como de um Anjo
escorre o seu prazer, assim se concentra em vós
o que é Terreno. Mesmo que de repente
um arbusto de espinhos se inflamasse,
e que o Eterno  através dele vos chamasse,
o Querubim, e se aproximasse,
estando vós em repouso junto aos  rebanhos,
nem assim o espanto vos tocaria:
de joelhos e rosto colado ao chão,
rezando, a isto chamaríeis Terra.


Assim foi. Agora um Novo deve ser,
Que alargará mais ainda a órbita da terra.
Que nos importa um espinheiro? Deus
compraz-se no seio de uma Virgem.Eu sou
o brilho da sua intimidade, que servirá de guia.



Nascimento de Cristo

Não fosse a tua simplicidade, como poderia
acontecer o que agora ilumina a noite?
Vê: o Deus que trovejava sobre as nuvens
Faz-se benigno e vem ao mundo em ti.

Imaginavas que ele fosse maior?

O que é a grandeza? Através de toda a matéria
que atravessa, segue o seu destino.
Nem uma estrela tem igual caminho.
Vês, estes reis são grandes,

mas rastejam diante de ti

os tesouros, que se julgavam os maiores,
-e tu talvez te espantes com este dom-
vê agora nas pregas do teu vestido
como ele já ultrapasou tudo o que existe.

Todo o âmbar, embarcado ao longe,

cada jóia de ouro e o perfume das especiarias,
que se espalham e perturbam os sentidos:
foi tudo de pouca duração
 que depois se lamentou.

Mas Ele (como verás) alegra os corações.


Repouso
Na Fuga para o Egipto

Aqueles que exaustos e mal podendo andar  
Iam fugindo da matança das crianças
eram cada vez mais numerosos
nesta sua peregrinação.

Bastava um tímido olhar para trás
com o seu receio a abrandar um pouco
e logo eram postas em perigo cidades
inteiras que a sua mula cinzenta atravessava.

Pois embora tão pequenos na vastidão das terras,
um quase-nada, quando se aproximavam dos templos
os deuses se quebravam, como que traídos
e por completo perdiam o sentido.

É concebível que ao longo do caminho
tudo se consumisse com tal irritação?
E até de si mesmos ficavam com receio,
consolando apenas a criança, que não tinha nome.


 Mesmo assim, como era grande o cansaço
tiveram de parar por um momento.Foi então...
que a árvore, sob a qual se acolhiam,
se inclinou como que a servi-los:

Inclinou-se. A mesma árvore, da qual
se faziam as grinaldas que ornavam
para a eternidade as frontes dos faraós
falecidos, inclinou-se. Sentia que novas coroas
iriam florescer. E eles ali sentados, como num sonho.

Nas Bodas de Canaan

Como seria possível não ter orgulho nele
que para ela embelezava as coisas mais banais?
pois se até mesmo a noite grandiosa parecera
exceder-se quando ele apareceu?

 E daquela vez, quando se tinha perdido,
não se transformou tudo em incrível motivo de glória?
Os ouvidos dos mais Sábios não foram trocados pela boca?
E a casa

não se renovou  ao som da sua voz? Ah,
certamente que ela já por mais de cem vezes
se impedira de lhe mostrar a sua alegria radiosa.
Seguia atrás dele, com o seu espanto.

Mas ali, naquelas bodas festivas,
quando de repente o vinho começou a faltar,
olhou para ele, pedindo-lhe um gesto, sem
compreender que ele não a atendesse.

E ele então acedeu. Só mais tarde compreendeu ela
que o tinha empurrado para o seu destino:
porque agora sim se transformara em fazedor de milagres,
e todo o Sacrifício já estava a ser imposto,

inexoravelmente. Sim, estava escrito.
Mas naquele momento estaria já decidido?
Ela: fora ela a precipitar a hora,
na cegueira da sua vaidade.

À mesa, cheia de frutas e legumes
festejou com os outros, sem compreender
que a água das suas lágrimas profundas
se tinha transformado em sangue, com este vinho.  

Antes da Paixão

Ah, se assim o desejasses, não terias
de nascer num corpo de mulher:
os Salvadores forjam-se nos montes
onde o que é duro se extrai da rocha dura.

Não sentes pena, ao ver assim devastado
o teu vale amoroso? Repara na minha fraqueza:
tenho apenas rios de lágrimas e leite,
e tu estiveste sempre acima de qualquer medida.

Com um tal fausto me foste prometido
antes saísses logo de mim, como animal selvagem...
Se afinal só precisas de tigres que te despedacem
por que fui eu criada em casa, entre mulheres

que me ensinaram a tecer-te um pano tão puro
e tão macio, sem ter sequer um ponto de costura
que à noite pudesse magoar – tal foi a minha vida
inteira, e agora de repente invertes a natureza.


Pietà

Agora é total a minha dôr, e indizível
enche-me o peito por completo.Fixo-te,
com a fixidez do interior da pedra.
Dura como sou, sei apenas isto:
cresceste –
... e cada vez mais foste crescendo
até que em dôr ainda maior
ultrapassaste a medida
do meu coração.
Agora jazes, atravessado no meu colo,
mas eu não posso dar-te à luz
 outra vez.
Consolação de Maria
junto do Ressuscitado

O que outrora sentiram: não foi
mais doce que qualquer mistério
e ao mesmo tempo tão terreno?
Quando ele, um pouco pálido ainda 
do seu túmulo, aliviado se aproximou,
ressuscitado plenamente.
Perante ela, em primeiro lugar. Ei-los
ali, sem palavras, em plena santificação.
Sim, estavam a curar-se, era isso. Não
precisavam de se tocar um ao outro.
Ele mal pousou, durante um segundo apenas,
a sua mão eterna no ombro feminino.
E começaram,
em silêncio como as árvores na Primavera,
ao mesmo tempo e para sempre
esta Idade
da sua suprema união.



Da Morte de Maria

I

O mesmo Anjo enorme, que outrora
lhe tinha feito o anúncio do parto,
estava ali, aguardando que ela desse por ele
e disse: chegou agora o momento da tua Aparição.
E ela assustou-se, como outrora, revelando-se
de novo como Virgem que plenamente aceitava
servir. Ele irradiava, numa proximidade sem fim,
e diante dela desapareceu chamando os Apóstolos,
que estavam longe, para que se juntassem na casa
da colina, a casa da Última Ceia.Vieram angustiados
e entraram receosos: ali estava, deitada
em estreita cama, aquela que misteriosamente
tinha sido a eleita e agora declinava, num corpo
virginal e intocado, ouvindo os Anjos cantar.
Mas quando os viu, fixando-a por trás das velas,
aguardando, interrompeu o êxtase em que as vozes
a tinham mergulhado e ofereceu, num gesto amigo,
os dois vestidos que ainda possuía, erguendo o rosto
ora para um, ora para outro...
( Oh fonte de infinitos rios de lágrimas!).

Mas cada vez mais cedia à sua fraqueza,
fazendo descer até Jerusalém os céus que,
de tão próximos, à alma que partia exigiriam
apenas um ligeiro esforço, e já aquele
que dela tudo sabia a levava consigo
recebendo-a na sua divina natureza.


II

Quem pensaria que até à sua chegada
o céu imenso estaria incompleto?
O Ressuscitado tinha ocupado o seu lugar,
mas a seu lado, durante vinte e quatro anos,
um trono tinha ficado vazio. E já estavam
a acostumar-se a essa falha pura, que parecia
fechar-se com a jubilosa  glória do seu filho.

Assim que também ela, ao entrar no céu,
não se dirigiu a ele, por muito que o desejasse.
A seu lado não havia lugar, só Ele permanecia ali
brilhando com um tal fulgor que a magoava.
Mas no momento em que esta criatura comovente
se ia reunir a todos os outros eleitos, e discreta
de luz em luz, buscava o seu lugar, ergueu-se
do seu ser, nas suas costas, um tal fulgôr que,
o Anjo que iluminava exclamou, quase cegando:
quem é ela? Foi grande o espanto.E então todos viram
como Deus-Pai, lá em cima, retinha o Senhor,
de modo a que, envolto num crepúsculo suave,
o lugar vazio fosse visto, como ligeiro sofrimento,
réstea de solidão, como algo que ele ainda tivesse
transportado, resto de tempo terrestre, de cicatriz
secando...viraram-se a olhar para ela, que fixara ao longe
o seu olhar, inquieta, inclinada para a frente, como se sentisse:
eu sou a sua dôr maior, perdendo os sentidos, de repente.
Mas os Anjos pegaram nela
e levaram-na cantando, abençoados,
e ergueram-na até ao seu mais alto grau.


III

Mas antes do Apóstolo Tomás, que veio
tarde demais, chegou o Anjo veloz,
já se preparara com antecedência,
e que ordenou, junto ao ao túmulo:

Afasta a pedra para o lado. Queres saber
onde ela está, a que te comoveu o coracão,
então olha: como um ramo de lavanda ali foi
depositada por instantes,

para que na terra ficasse depois entranhado
o seu perfume, como um tecido precioso.
Toda a morte ( pressentes isso) todo o sofrimento
é envolvido pelo seu perfume.

Vê a mortalha:que aclarador haveria
que a branqueasse sem a fazer encolher?
Esta luz que emana do cadáver puríssimo
foi o que a tornou mais clara do que a luz do sol.

Não te espanta que ela a tenha deixado com tamanha doçura?Tudo na mesma, como se ainda aqui estivesse.
Mas lá no alto os céus estremeceram:
Homem, ajoelha-te, contempla e canta um louvor comigo!


Trad. Yvette K.Centeno
(para os Amantes de Rilke...)











Tuesday, June 21, 2016

Dizer o Mal: A Serpente e o Tigre

Esta reflexão será em tempo útil publicada na revista on-line do CEIL (Centro de Estudos do Imaginário Literário) da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.
 Tentarei colocar aqui a versão possível, que um dia alargarei talvez até ao silêncio e à ausência de Deus em  Pessoa e Celan.
O silêncio é cada vez mais - até na Europa de hoje - outra raiz do Mal...
Por definição, enquanto absolutos , o Mal, como o Bem, são indicíveis.

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Podemos encontrar nos dicionários definições que surgem no âmbito de uma determinada prática, religiosa, ou determinada definição do que seja o "comportamento" correcto, dito moral, em função de critérios e valores que foram definidos, - e de algum modo evoluindo - ao longo dos tempos.
Caímos assim num certo relativismo , histórico e filosófico, que torna impossível uma definição objectiva.
Dentro de um conjunto de regras que se aceitam, pode ser entendido como mal o que noutras simplesmente se recusam ou consideram despiciendas.
Haveria que ir buscar exemplos à consciência do corpo, e da alma: o que dói no corpo é o mal de que se padece, para quem sofre; e o que dói na alma também é o mal de quem o sofre na alma,  dôr menos visível mas não menos real.
Este é um mal relativo, individualizado, restrito, em função de algo que é outra coisa, que não o mal absoluto.
Estaria mais próximo do sentido de dôr.

Deixando corpo e alma, de que modo se inscreve na nossa consciência e na consciência universal, dita arquetípica, esta noção de mal?
Parece antiga, e de tão antiga, se tornou inata? Ou será mesmo cósmica, emanando da treva intrínseca ao nascimento e formação do mundo dos primórdios, de quando Deus , com o seu Verbo, separa a luz das trevas , onde reside o mal, como nos faz crer Jacob Boehme?
Boehme (1575-1624) de educação luterana, tem no entanto uma visão desviante (a sua própria Igreja o critica e proibe os seus livros) da leitura tradicional da Bíblia. É um pensador que se inspira em tratados alquímicos, cabalísticos, gnósticos de inspiração teosófica (naõ confundir com o gnosticismo dos primitivos cristãos) e cuja influência foi enorme em Goethe, por exemplo, ou Novalis e Hegel, chegando também a ser criada em Inglaterra uma corrente de seguidores, ainda no final do século XVII, e no século XVIII (in Serge Hutin, Les Disciples Anglais de Jacob Boehme, ed. Denoel, 1960) que foi inspiradora de poetas e visionários, como William Blake, entre outros.
A sua concepção de Deus, e do Bem e do Mal primordiais, está próxima do que se pode considerar uma revelação mística, mais do que de uma sistematização de um pensamento doutrinal ordenado.
Alguns dos seus tratados, como o Da Tripla Vida do Homem, que Louis-Claude de Saint Martin traduziu, é alquímico na utilização frequente dos três princípios do enxofre, mercúrio e sal para explicar a natureza da materialidade real do homem, a criatura que Boehme considera degenerada e a necessitar de sublimação.   Noutro tratado , da Aurora, concebe Deus como uma roda que roda incessantemente tendo consigo outras que lhe estão ligadas por cima, por baixo e dos lados (Cap.21, 61) apresentando assim a visão de um Deus que é um Todo uno e nessa promordial e eterna quaternidade representação da perfeição absoluta. Mas a sua realidadeé inacessível ao homem, ser corrompido, numa natureza também ela corrompida pela materialidade do real.
E sendo assim, como explicar a existência do Mal?
Alexandre Koyré, um dos grandes estudiosos da obra de Boehme,(La Philosophie de Jacob Boehme, ed. Vrin, 1971) nota que fica por resolver a questão do mal real, o mal no mundo, com o sofrimento e a morte que são destino do homem.
Boehme separa a existência do mal da realidade de pura luz e amor que são essência da divindade, na sua manifestação, o Verbo, ao criar o mundo.
Para o teósofo alemão, o mundo do primeiro princípio, que era ainda caos e trevas, não continha a perfeição de Deus, enquanto Deus, mas era um mundo à parte, luciferino, de que a luz divina estava ausente ( não tinha ainda sido separada). De modo que só na "segunda" fase da criação, no mundo real, terreal, se pode considerar o mal presente e actuante.
Koyré observa que Boehme não acreditava na eternidade do nosso mundo, degenerado, pois não era a expressão "legítima" da perfeição do Deus Criador como ele o concebia, não integrava a sua essência , tendo surgido apenas na sua posterior manifestação.( De Signatura Rerum,cap.II, 2 ).
O Deus de Boehme era Luz e Amor e só nessa concepção podia ser entendido ( A.Koyré, p.426). A não ser que aceitemos estas visões sem as interpelar na sua lógica ou coerência, explicar o mal continua, para o comum dos mortais, a ser difícil...para não dizer impossível.

No Génesis 1, quando Deus cria o homem à sua imagem, criando-o homem e mulher, e insistindo no facto de que foi criado à sua imagem e semelhança - não passa por aqui a ideia de que, sendo Deus o criador perfeito, o homem não seja igualmente dotado da sua perfeição.Evocando de passagem o andrógino do Banquete de Platão, ser completo e redondo, e por essa razão perfeito, como as rodas de Boehme...

Entregando ao homem todo o poder sobre todos os seres vivos, de todas as espécies, animais e vegetais, concluiu Deus então, nesta primeira narrativa, ao terminar o sexto dia, que tudo o que tinha feito era bom: "Deus viu tudo o  que tinha feito, era tudo muito bom".
Ao sétimo dia descansou, estava completa a Obra.
Há contudo um pormenor, no fundamento para a criação, que nos interpela logo de início: " Ao princípio, Deus criou o céu e a terra. (...) as trevas cobriam  o abismo, o espírito de Deus pairava sobre as águas". Desde o início, a presença das trevas.
A seguir Deus ordena que surja a luz, e separou a luz (que Deus viu que era boa) das trevas; chamou dia à luz e noite às trevas.
Fica então já um prenúncio de que na sua origem, nas trevas que cobriam o abismo, o mal, como procuramos agora entendê-lo, estaria já ali presente, na origem da criação.

Na segunda narrativa do Génesis, a referência é mais directa e o tom tem um ar mais pessoal, quase mais íntimo...intimista.
Deus tem nome: Yahvé. Yahvé-Deus.
Molda o homem a partir da argila do solo, sopra-lhe nas narinas um sopro de vida e o homem transforma-se num ser vivo. Até aí seria apenas massa informe.
Esta segunda narrativa  - sabe-se que os textos da Bíblia têm sucessivos autores, ao longo do tempo - faz lembrar uma das lendas judaicas, cabalísticas, do sábio do século XVI, Rabbi Loew, que tinha criado um ser que se transformou num perigoso monstro, destruidor, o Golem, que significa "ser informe", e que o seu criador teve por fim  de aniquilar inscrevendo na sua fronte a palavra met que em hebraico por alteração de uma letra passa de vida, emet , a morte . Este mito do Golem é recuperado por Gustav Meyrinck escritor do século XX, num romance do mesmo nome. E um dos filmes que anuncia a chegada  do cinema expressionista é também, em 1915, de Paul Wegener, O Golem.

Mas há mais: Yahvé-Deus plantou um jardim, neste Éden criado para fruição do homem, e no meio do jardim plantou duas árvores: a da vida, e a do conhecimento do bem e do mal. O homem recebeu então uma ordem:
" Podes comer de todas as árvores do jardim.Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás, pois no dia em que o fizeres morrerás de certeza".
Só depois desta indicação é que Yahvé-Deus entende que não era bom para o homem estar sozinho, e cria a mulher a partir de uma das costelas do homem (que fez cair num sono profundo, para tal efeito). A mulher, nesta segunda narrativa, só vem a ser criada depois de Yahvé-Deus ter primeiro criado todos os seres vivos, da terra e do céu, dos quais o homem seria senhor e aos quais teria de dar um nome. Nomear já era, desde o início, o acto da suprema criação. E que Deus, a propósito da árvore do jardim tenha nomeado o bem e o mal, fê-los, de algum modo acontecer, não logo em acto, mas já em potência.
Adão sai do seu sono profundo, e do mesmo modo, ao acordar e ver a mulher a seu lado exclama "esta é carne da minha carne e será chamada mulher" (Eva). Deu-lhe existência, ao dar-lhe o nome.
Contudo bem se compreende que esta mulher é já um ser à parte, não é o homem-mulher da primeira narrativa, que apontava para um ser andrógino , perfeito na sua totalidade, como à imagem de Deus.
No capítulo seguinte, A Queda, conta-se como de todos os animais do jardim a serpente é o mais esperto, e é ela que se dirige à mulher, perguntando:
"Então Deus disse que não poderíeis comer de todas as árvores do jardim?A mulher respondeu à serpente:
Podemos comer os frutos das árvores do jardim.Mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus disse: Não comereis esse fruto, não tocareis nele, sob pena de morte".
E aqui começa o episódio em que a serpente diz que é mentira, não morrerão, mas que os seus olhos se  abrirão e ficarão a conhecer, como os deuses, o bem e o mal.
Está feita de novo a distinção entre o bem e o mal, e como o seu conhecimento é apanágio dos deuses, e proibido às outras criaturas, no caso, Adão e Eva, o par humano.
 Para os homens que adquiram um tal conhecimento - proibido - o castigo será eterno, com a expulsão do Éden, e os consequentes malefícios que daí decorrerão: em vez da vida eterna, a morte, associada ao pecado da desobediência, por um lado, mas à nova consciência do bem e do mal que antes não se possuía.
O castigo será feito de Vida, mas de vida sofrida.

Forma-se a seguir um outro mito (se entendermos que as narrativas do Velho Testamento são estruturas míticas, de fundação da história e da memória humana) o mito de Abel e Cain: este, só por ciúme mata o seu irmão, cujas oferendas a Deus eram de um maior agrado.
Uma variante do mal - já em acto, o assassinato, e não apenas em potência ( em possibilidade ainda não efectivada). O crime já como consequência do castigo que Adão e Eva sofreram, com a expulsão do paraíso. A imperfeição vivida na própria carne da sua descendência.
Está na hora de perguntar: por que razão terá o mal a ver com o conhecimento? E vamos encontrar na treva primordial a sua raiz, o seu fundamento absoluto?
Do absoluto, apenas potencial, passamos na narrativa do Génesis 2 ao conceito já prático de moral, como Kant o entendeu na Critica da Razão Prática. A saber, um acto praticado contra um outro levando ao seu aniquilamento (físico ou psíquico, se avançarmos já para mais perto do nosso tempo, de Freud ou Jung....).
O mal como prática de um ilícito, face a normas que a Ética ou a Religião condenem.
Um desrespeito da Ordem - recebida e não acatada.
E de seguida o crime, que visa destruir a existência de um outro, como se o desejo de existir sozinho perante a divindade fosse algo de incontrolável, impulso irracional que só mais tarde se assimila e entende.
Cain será expulso da presença dos pais, mas virá a ser um construtor de cidades, ao vaguear pelo mundo...
Eis que outra visão se forma, por aqui: a cidade que se ergue por mão criminosa, estará já, também ela, à partida, contaminada pelo mal?
As cidades, que são a forma em que as comunidades das criaturas vivas se foram conseguindo organizar?

Deus criador diz - disse - o mal.
Nomeou, e dizer o nome é dar existência ao que não existia anteriormente. Nomear é um gesto de criação.
O homem, ser criado, não diz, pratica, ou o bem ou o mal, na obediência ou no desrespeito de algo que lhe foi ordenado.
Mas como chegou o homem ao conhecimento do bem e do mal?
E gradualmente, para lá da prática do pecado ou do crime de desobediência, a que Conhecimento (foi) é conduzido?
De Deus, que o criou e castiga?
Nesse sentido é muito interessante ler o Livro de Job, como fez Frederico Lourenço, no Livro Aberto, Leituras da Bíblia ou como fez, antes dele, Carl Gustav Jung, em Reponse a Job(trad. francesa,1977); Job o puro, o virtuoso, o inocente de todo e qualquer mal e sobre quem todos os males concebíveis são descarregados perante o desafio do demónio (a serpente do Éden) e a evidente indiferença de Deus.
Conhecimento dos outros?
De si mesmo?É praticamente no Apêndice (p.243) que Jung,explica o que o levou a escrever esta reflexão em que se aprofunda a questão do mal, não enquanto privatio boni, quelhe parece limitada, e que o conhecimento psicológico não pode explicar, mas como algo de mais substancial. E cito: " A experiência psicológica demonstra que a  tudo aquilo a que chamamos "bem" se encontra  em oposição um "mal" igualmente substancial.
 Se o "mal" não existisse, tudo o que existe seria obrigatoriamente "bom". Segundo o dogma cristão nem o "bom" nem o "mal" podem ter a sua origem no homem, pois que o "mal" enquanto um dos filhos de Deus, preexistia ao homem" .
 São Clemente de Roma, antes da heresia de Manès, dualista, ensinava que Deus governava o mundo com uma mão direita e uma mão esquerda. A mão direita significava Cristo, e a esquerda Satã.
E ainda com Jung: " A concepção de Clemente é manifestamnete monoteísta , pois reúne num Deus único os princípios opostos" (p.244).
Não estamos pois nesta ideia, longe do que a narrativa do Génesis 2 nos apresentou: o conhecimento que Deus tem e anuncia, do bem e do mal na mesma árvore proibida!..
Voltando ao Livro de Job, o que pensam deste episódio os antigos filósofos e comentadores em que a crueldade divina se torna tão explícita, como substância integrante da sua natureza?Job espera assistência e ajuda de Deus contra Deus em  Si mesmo.E isto supõe uma concepção próxima da que JUng expôs atrás e segundo a qual os contrários, os opostos, bem e mal, estão contidos em Deus.
Só nestes termos se pode então conceber a existência de um Mal absoluto, preexistente, contaminando toda a criação.
Terá Deus, pela via de um Cristo redentor, a necessidade de ser salvo de Si mesmo?
Matérias para reflexão...

Na verdade, depois de comer do fruto probido, a primeira descoberta que Adão e Eva fazem é a dos seus corpos, nús.
E diferenciados: na nudez, o do homem não é igual ao da mulher.
Estamos perante um primeiro momento de revelação, de si mesmo e do outro, e do que daí decorre.
Desenha-se posteriormente a ideia de que o mal ( a tentação, o pecado original, a sedução da serpente) tem origem na mulher, e no sexo. E por oposição que o bem será negar, ou pelo menos criticar e evitar tudo isto.
Jean Dutourd, no seu ensaio Le Septième Jour, récit des temps bibliques, de escrita directa e agradável de ler, termina o capítulo relativo a Cain, com a seguinte observação:
" Absurdo é a palavra moderna que veio substituir a expressão pecado original."
Será, para o mundo moderno, o conceito de absurdo ( algo que surpreende, por inesperado, contraditório, risível ou mesmo errado ) uma das possíveis aproximações ao conceito assim exposto de mal?
Penso que não, o conceito de mal é mais profundo e inexplicável, o seu radicalismo é total, não tem contraditório a não ser na luz primordial do bem, enquanto absurdo pode ser algo até de divertido, como acontece no Teatro do Absurdo, de um Ionesco, ou outros que como ele nos surpreenderam.

O mal existe, manifesta-se no homem e no mundo criado, a ponto de Deus, o Criador, exclamar a certo momento, como se diz nas Escrituras, que se arrependia de ter criado " o homem, os animais, e até mesmo os pássaros do céu " Havia apenas um justo ( um homem bom) Noé!
Com Noé, e a sua arca, Deus "refaz" por assim dizer a criação. Corrige o erro inicial.Mas na verdade nada muda...
O erro, o mal, estava inscrito nos primórdios da treva primeira, aquela de que Deus separou a luz, e fez a divisão dos dias e das noites, a divisão do tempo.
Dividiu o tempo, mas não dividiu o erro da existência, essência mesma do Ser: seu e do outro, os outros que foram, a partir daí, desde Adão e Eva, na multiplicidade e na multiplicação segundo a ordem que foi dada.

E afinal que substância era essa que o fruto da árvore proibida continha?
Para Dutourd era a Razão. Era o conhecimento, e a sua utilização, por força da Razão adquirida.
Mas se dermos agora um salto até o século XVIII, dos Enciclopedistas, dos Iluministas, dos cultores da Razão a todo o custo, poderemos destacar um outro pensamento.
Se com um certo racionalismo materialista se tenta erguer uma utopia que sirva os tempos modernos, logo e em simultâneo se pressente um vazio que a utopia não preenche, e que tem mais a ver com a morte da alma, o feminino no homem, a Eva, que Yahvé-Deus percebeu que tinha de ser criada para que a sua obra, no homem, ficasse de facto completa.
O par homem-mulher seria, na ordem natural, aquela complementaridade dos opostos que desde o início, luz e trevas, dia e noite, e mesmo nas múltiplas espécies do céu e da terra se tinha verificado.
Esta é a Árvore da criação, a Árvore verdadeira da Via que Deus já abriagva em Si mesmo.

Proclamar o império da Razão, opondo-o em absoluto à Emoção, veio criar um desequilíbrio insustentável, como se verificou em vários momentos da história da humanidade.
Encontramos um dos mais belos exemplos no Fausto de Goethe, quando precisamente ele se refere às suas duas almas, numa resposta a Wagner, seu discípulo:
" Não conheces mais que uma aspiração,
Da outra melhor é nada saber!
Duas almas tenho em meu coração,
Uma da outra a querer separar-se:
Uma apega-se, em paixão rasteira,
Com todos os seus órgãos à matéria;
A outra quer erguer-se da poeira
E subir ao reino da sua origem etérea.
Oh, se existem espíritos do ar
Que entre a Terra e o Céu têm assento
Que se dignem da nuvem de ouro descer
Para me dar nova vida e novo alento!"
(trad. João Barrento,vvs.1110-1121)

Duas almas batem em contradição no peito do herói.
O apego à matéria, paixão rasteira, será esse o mal que Mefisto decide aproveitar, como é dito no Prólogo no Céu, no diálogo tão desafiante de uma aposta com Deus?
Ou estará já o mal perversamente implícito na segunda paixão, dita de origem etérea?
Não são Deus e Diabo tão fraternalmente aproximados, neste Prólogo, cheio de indicações para um leitor atento?
A aventura de Fausto com Mefisto resulta de uma aposta, feita no mundo da perfeição etérea, entre Deus e o Diabo.
Que na verdade, no fim, o Diabo perderá, mas por razões que não se prendem de facto com escolhas religiosas, e sim com um novo conceito de serviço ao outro, e de consciência moral.
Nesta obra de Goethe discute-se, sem o dizer claramente, o que é ou não é o mal, o que é ou não é concedido ao ser humano, enquanto tal, enquanto criatura de Deus, que tem o seu limite, e o deve reconhecer, e aceitar plenamente.
É-lhe concedida uma vida, que terá de viver, para si e para os outros: é no fim da vida, na segunda parte da tragédia, e só quando já velho e cego se entrega à ideia de transformar um pântano numa terra fértil para o livre aproveitamento dos outros, por via do trabalho honesto e não da magia enganadora, que Fausto justifica a sua salvação, escapando às garras do demónio.
Pelo caminho pecou? Sim. Mas do seu mal se redimiu - ideia muito cara a Goethe, no seu entendimento do que é a natureza humana: imperfeita, mas como Deus explicou no Prólogo no Céu, e os Anjos repetem no fecho da tragédia, levando a substância da alma de Fausto para as mais altas esferas,  "aquele que sempre se esforça merece a salvação".
Não se anula o pecado mas sublima-se, como na Obra alquímica.
A ideia de serviço do outro, nascida de uma Ética que no século XVIII estará muito presente ( no ideário maçónico) e mais ainda no século XIX, com Kant e Nietzsche, sobrepõe-se à ideia de pecado original, de pecado mortal, de condenação perpétua no sentido em que o cristianismo inicial o definiu.
A eternidade é redimida, por assim dizer, de si própria, ao ser redimida a ideia de um mal originário, (como a serpente do jardim do Éden) criado e perpetuado no seu seio.
Podemos ver, no Prólogo no Céu, a bonomia com que Deus permite que os seus Anjos deixem Mefistófeles vir conversar com ele, criando-se como que uma dupla realidade de contacto perfeito entre o superior e o inferior, ou melhor ainda, como se naquele momento da aposta sobre o homem (o Adão primordial) Deus e Diabo fossem afinal dois ramos da mesma árvore, a do conhecimento do Bem e do Mal. E como recorda São Clemente, a vida humana está na realidade a ser regida pelas duas mãos de um Deus que ora se serve de uma ora de outra, sendo que ambas formam o seu Todo...
Para conclusão do que se tem vindo a dizer, ficam as exclamações justificativas dos Anjos, no final da tragédia:
" Anjos (voando na atmosfera mais elevada e transportando a alma de Fausto)
Das garras do mal elevamos
Est'alma a nobre esfera,
Pois só àquele redenção damos
Que em esforço persevera."
(trad.João Barrento,vvs.11934-11937)

Não será por acaso que Nietzsche escreve Para Além do Bem e do Mal (1886) e a seguir A Genealogia da Moral (1887) e finalmente O Anticristo (1888), entre outros ensaios de grande alcance na negação de uma religião e de uma cultura cristãs. O olhar sobre o mundo tinha mudado, nos grandes pensadores. Os conceitos de Bem e de Mal estavam a relativizar-se, e em breve se veriam as suas consequências.
Morto Deus, que o filósofo matara em Assim falou Zarathoustra (1883-1885) o que é pedido ao homem, expulso de um Éden que deixou de existir, é que seja o primeiro e último responsável pelos seus  actos. O homem que fala do alto da montanha é um superhomem, um criador de si mesmo, capaz de recriar o mundo à sua volta, à sua imagem, como o antigo Deus, agora destronado.
Outros deuses viriam, dos bárbaros do Norte, mais duros e cruéis.
Voltaria a ser urgente discutir a Origem do Mal,
( como Nietzsche fez para a Origem da Tragédia, em verdade, para traduzir à letra O Nascimento da Tragédia,1872 ) desde logo nas óperas de Wagner, que Hitler tanto apreciou...

No Génesis é a curiosidade de saber o que havia no fruto da árvore, o que seria conhecer o bem e o mal, revelando alguma inocência ( que se perde) nos nossos primeiros pais.
A curiosidade de saber é o primeiro motivo.
Mas fica uma interrogação: saberia, o próprio Criador, naquele momento, o que o acto de criar provocaria? Não se arrependeu Ele tantas vezes a seguir dos seus actos? E sempre com um ímpeto feroz de castigar o que dele mesmo teria de facto emanado?
Já com Nietzsche o problema é muito diferente: descortina na alma humana, por via do seu estudo dos mitos e da tragédia grega, (que na história da Patrística vemos, no século III, um Tertuliano condenar firmemente) as pulsões dionisíacas, violentas e irracionais, que conduzem o homem, ser criado, a violar as normas, dos deuses e dos próprios seres que os rodeiam, tão humanos quanto eles.

Contudo o mistério permanece, na esfera de uma cristandade mística, como a dos seguidores de Boehme, e seus discípulos ingleses, para não falar de toda a sequência dos movimentos pietistas, alquímicos, rosa-cruz, na Alemanha, a par do ideário maçónico em pleno desenvolvimento, e de que Lessing será um dos grandes promotores.

Deixando agora de lado o pensamento filosófico inerente a estas matéria tão sensíveis, penso que será igualmente inspirador procurar na poesia, num grande poeta como Blake, não a chave, mas o espanto, perante a existência do mal num mundo que devia ter sido criado perfeito...
Blake, já antes, no célebre poema The Tyger, de 1794, (Songs of Innocence and of Experience) encontrara na imagem do tigre uma figuração perfeita do mistério do mal.
Refere a temível simetria, interrogando-se sobre a mão imortal, ou o olhar, que o possa ter criado assim, com os seus olhos de fogo ardendo em que trevas ou em que céus, ou quem, se interroga ainda o poeta, lhe torceu os nervos do coração, lhe acorrentou o cérebro forjando nele o terror?
Tão inspirado e misterioso é o poema, que no fim interpela o Criador: pois como foi possível que da mesma mão tenham saído o tigre, essência da malvadez e o cordeiro, figuração da pureza absoluta?
O poeta não dá resposta, deixa o mistério em aberto, deixa o leitor em suspenso.
E da dificuldade do dizer este mal, o mal absoluto forjado numa treva onde arde assustadoramente, dão testemunho as traduções, já numerosas, que se podem encontrar e em que a dificuldade de fazer corresponder ritmo e imagem estão sempre presentes, das mais fiéis à literalidade às mais compostas e recompostas nos ritmos e nas rimas.
Escolho, para nossa leitura final, a de Ivo Barroso, que está on line, com uma ou outra discreta alteração minha, que coloco em itálico:

 Tigre! Tigre! tocha ardente
Na selva da noite acesa,
Que mão ou olho imortal
Traçou tua simetria?

Em que abismos ou que céus
O fogo ardeu dos olhos teus?
Em que asa se inspira a trama
Da mão que te deu tal chama?

Que artes ou forças tamanhas
Torceram tuas entranhas?
E ao bater teu coração,
Que pés de horror, de horror a mão?

Que malho foi? Que corrente
De teu cérebro o tormento?
Que bigorna? Que tenazes
No terror mortal que trazes?

Quando os astros dispararam
Seus raios e os céus choraram,
Riu-se ao ver a sua obra quem
Fez o cordeiro e a ti também?

Tigre! Tigre! tocha ardente
Na selva da noite acesa,
Que mão ou olho imortal
Se atreveu à temível simetria?

(in Barroso, Ivo "O Tigre", digital 2010,
in: http://gavetadoivo.wordpress.com)

 O Tigre de Blake será sempre um desafio para o nosso entendimento, como em muitas passagens do Antigo Testamento será desafiante o comportamento de um Deus-Supremo Criador para com as suas criaturas que, dizendo amar, muito persegue, muito condena e castiga, ora com aparente razão, ora sem razão nenhuma.
Pois não foi a Serpente, a tentadora do Éden, também sua criatura? Saída da sua mão?


Referências bibliográficas:

La Bible de Jerusalem
(trad francesa, Éditions du Cerf, 1955)

Jean Dutourd, Le Septième Jour,récits des temps bibliques, (ed. Flammarion, 1995)

Frederico Lourenço, O Livro Aberto, leituras da Bíblia (ed. Cotovia, 2015)

Jacob Boehme, De signatura rerum, oder von der Geburt und Bezeichnung aller Wesen, 1622 (in J.B.Saemtliche Schriften, Frommanns Verlag Stuttgart, 1957 )

Johann Wolfgang Goethe, Fausto (ed. Círculo de Leitores, 1999)

Carl Gustav Jung, Reponse a Job ( ed. Buchet-Castel, 1977)

William Blake, Songs of Innocence and of Experience, ( in the William Blake Archive)

Immanuel Kant, Crítica da Razão Prática, (ed.70, 2008)

Friederich Nietzsche, (in Saemtliche Werke, ed. Kroener, 1964 e segs.)

Gustav Meyrink, Der Golem, (ed. Kurt Wolff, 1916)

Alexandre Koyré, La Philosophie de Jacob Boehme, (ed. Vrin, 1971)

Y. K. Centeno,
 A Alquimia e o Fausto de Goethe (ed. Arcádia, 1983)
 Lessing, Nathan o Sábio, (ed. Fundação Gulbenkian, 2016)