Sunday, February 02, 2020

O coração do Adão, João Paulo Esteves da Silva


O coração do Adão, sobre este livro terei de escrever.
Não era verdadeiro o coração: era maçã, que logo apeteceu. E à primeira dentada Jeová, o culpado de tanta proibição ali perdeu a vida. Não era vida, eraVerbo, e ele poderia voltar. Mas não Adão, mordido o seu coração. Eva já tinha fugido, levada pela serpente. Lilith, na treva do seu inferno, queria tão só ser amada. Mas como? Tinha sido condenada, e afastada, da treva não sairia. Que coração era este, afinal, que já niguém desejava e fazia tanto mal? Um coração dividido, não encontrava lugar...No fundo do mar Tiamat, nos altos céus a Shekina, sem saber para onde olhar...Então surge este poeta, com versos de poetar. Diz o que tem a dizer, não o que tem a viver, o que seria banal.
E aqui entra o coração, que deixo para que leiam. De Israel não quero o sonho, que é uma cruz e uma taça; só o rolo de papel com a palavra sagrada que é colocada no peito, e aí nos salva ou nos mata.


O CORAÇÃO DO ADÃO

Ainda não é a vida nem a morte, por enquanto,
mas, ainda assim, pressinto a turba que se apinha, lenta,
nas praças, nas ruas, nos cafés cibernéticos,  sinto
a sede de sangue nas confissões amorosas
e na defesa das causas mais belas e justas.

Homo homini lupus não é uma história a dois,
como queremos imaginar, não se trata, aqui,
do mal que um indivíduo  faz a um outro ;
Este  ‘ homo’ da sentença é uma alcateia, só o ‘homini’ está sozinho.

Ele está sozinho e os lobisomens aumentam em redor;
Já só com asas poderá escapar, dá-lhe asas, meu deus.
Ou,  então, transforma-o nalguma planta sombria.

Ou num penedo sobre o mar, uma rocha viva.
Recrutaram todas as boas almas, temo por ti.
Um rato pendente da boca dum gato terá melhor destino

Um coração universal, num Adão primordial de destino marcado
por um deus desatento. Por isso ele é O ADÃO, e o seu coração um CORAÇÃO especial, que pulsa já antes da criação do tempo. O tempo virá depois, com a contagem dos dias, até àquele sétimo dia do descanso. Erro: nunca haverá descanso...a menos que deus lhe dê as tais asas perdidas e que o poeta sábio, na sua compaixão, implora que lhas dê.

Friday, January 17, 2020

Mariana Viana, na Colóquio Letras




Mariana Viana: as esculturas do Tempo.
Numa primeira abordagem nota-se a intensidade, expressiva, mas não figurativa, embora paire sobre alguns momentos, em pequenos pontos pequenos (formas que vão nascer, ou já nasceram e se foram reduzindo?) e algumas  convulsões que Boehme definiria como buracos negros, sendo o vermelho a marca da combustão espacial que tudo absorve e tudo depois, em milhões de formas ora explodindo ora se ordenando a partir desse caos inicial ( o seu célebre Ungrund) devolverá à materialização de uma vida outra? São ondas gravitacionais ou serão, de marca feminina, os novelos que foram tecidos no tear imenso de uma vida?
A meditação de um cosmos original está ali sempre presente, como na poesia de André Verdet, o poeta que exprimiu , em L’Obscur et l’Ouvert, verso a verso, como se formou a ordem de um cosmos, para nós obscuro, mas para a criação eterna, ainda e sempre aberto. Infinito é esse universo sobre o qual poetas e artistas se debruçam, dando forma ao informe (que é ainda a ideia, o sentimento indefinido do que existe e ali, no informe, está contido.) Um alquimista diria que é preciso, com cuidado e paciência, extrair a Pedra, preciosa, do mineral que a esconde na gruta pimitiva. Recolhimento, meditação solitária, conduzem a mão do artista.
Mariana Viana, já nas pinturas que ilustram o livro que chamo de ouro, de Jorge de Sena, revelava essa capacidade de pintar o intenso, ora mais figurativo ou mais abstracto. Tem pincelada forte sobre um imaginário que pode às vezes ser mais leve. Mas só de pasagem. A leveza não é condição da criação artística, embora possa dar um momento agradável de sossego, a quem produz ou quem vê.
A condição de um criador – e o mesmo se alarga a outras formas de arte, não é sosegar, é inquietar, e o que não inquieta, não desafia o entendimento, o pensamento, não é arte e não chega a ser nada.
O desafio de Mariana, neste conjunto, nascido, como ela diz de um só impulso, leva-me à reflexão de Heidegger no seu último Seminário, sobre O QUE É PENSAR.
Todo o pensamento surge de um primeiro impulso, que terá ou não continuação. Mas o pensamento, como Heidegger o entende, impõe continuação. Socorre-se de um poeta, que o inspirou sempre, Hoelderlin, nos seus hinos. Eis como ele inicia a primeira abordagem ao tema dos seminários:
Da poesia à filosofia vai um salto, vai um passo, aquele que Heidegger define como o impulso que motiva a busca do que é pensar. Começa a primeira aula com uma bela citação de Hoelderlin, do poema Mnemosyne, na segunda versão. O poeta escreveu uma terceira versão, bem diferente, que não serviria o propósito do filósofo.
Eis os versos escolhidos para este início do filosofar sobre o pensamento:
Ein Zeichen sind wir, deutungslos,
Schmerzlos sind wir und haben fast
Die Sprache in der Fremde verloren.
Na Segunda Aula, o filósofo desenvolve a relação entre pensamento e poesia, reconhecendo que está ainda longe de saber o que é Pensar e o que apela, ou atrai o Pensamento. 
Somos um sinal, sem sentido,
Não sentimos a dôr e quase
Perdemos a língua na distância.

Esta primeira estrofe termina com uma conclusão, que embora logo questionada na estrofe seguinte merece que a ponderemos:
...Lang ist
 die Zeit, es ereignet sich aber
Das Wahre.
É longo
O tempo, mas alcança-se
A verdade.
Permitindo-me uma ligeira alteração por causa do ritmo,  que se tornaria menos duro, eu poderia traduzir: É longo / O tempo, mas consegue-se alcançar / A verdade.
Relendo o primeiro verso, sublinhemos o que somos: um sinal, sem sentido e sem sensibilidade (indolor) e que perdeu a língua na distância: perdeu a capacidade de se exprimir e de comunicar ( a língua perdida na distância).
Esta será então a primeira de todas as necessidades para começar a aprender o que é pensar. Reconhecer o que somos, o que perdemos, o que temos de recuperar.
A indicação vem nos versos finais da estrofe: o caminho do pensamento será longo, mas alcança-se a Verdade.
Hoelderlin ajuda Heidegger na sua exposição, ligando, no seu dizer, a busca do que se é, (SEIN, SER ) o tempo (DIE ZEIT, o TEMPO ) e a verdade DAS WAHRE).
Aprender a pensar é chegar à verdade (do Ser, que tudo envolve e abrange).  E quanto ao título do hino, Mnemosyne, MEMÓRIA, também haverá algo a dizer.
Recuando até aos gregos e seus mitos, a Memória é uma titã, filha do Céu e da Terra. Une os opostos. Como mãe das Musas, segundo Heidegger, a memória é o pensar que retroactivamente reúne e faz convergir aquilo que nos atrai como sendo e tendo sido no ser.
É a fonte da poesia. Por isso vemos a poesia como água que por vezes flui em direcção à nascente, em direcção ao pensamento, um pensar que é recordação. É o que leva Hoelderlin a dizer que somos um sinal que não é lido...pois tem de ser pensado retroactivamente, buscando a origem num tempo anterior.
Heidegger escolhe Sócrates como o Mestre perfeito: não deixou nada escrito, e se o tivesse feito, teria ficado prisioneiro do escrito e não do pensado. Uma prisão de que veio a sofrer, posteriormente, a filosofia ocidental no seu todo. Daí a escolha de Heidegger:  a palavra poética, um verso de sentido amplo, aberto, como em toda a poesia mo pensar no que é a Poesia?
E explica por que razão escolheu o hino de Hoelderlin, não por mera citação de conveniência, mas porque aquele verso repousa na sua própria verdade. E esta verdade tem por nome Beleza.
Cito Heidegger:
“ A Beleza é um dom da essência da Verdade, e aqui verdade significa a revelação do que permanece oculto” (Lição 2 , p.19).
“ O Belo não é o que agrada, mas o que pertence ao dom da verdade, que se manifesta quando aquilo que é eternamente não-aparente, e portanto invisível, atinge a sua mais radiosa aparente aparência. Somos obrigados a deixar a palavra poética permanecer na sua verdade, na beleza.
Na verdade, pensar é responder a um desafio, neste caso o verso do poeta citado, que interpela o pensamento, no sentido de entender o que foi dito.
O dizer resulta também de um pensamento aprofundado.

Mas vamos então transpôr para outra esfera, neste caso o da arte da pintura, este mesmo modelo, que nos ajudará a procurar o que se esconde, mais do que o que se revela, nesta formas esculpidas do tempo, da arte de Mariana. A que sinais foi por aqui dar, ou encontrar Sentido?
Para os antigos alquimistas, a obra da mulher está bem representada numa gravura de Michael Maier, o Emblema III:
“Procura a mulher que lava a roupa;
e tu faz o mesmo que ela.
...A água lava a sujidade do corpo negro”.

Há outro lema destes filósofos herméticos que também se manteve no tempo: “É preciso ter as mãos pretas para comer o pão branco”. Como quem diz, é preciso trabalhar, para merecer o que se come.
 E naturalmente a metáfora do negro e do branco, a meditação dos opostos, que está sempre presente no caminho da espiritualidade.
A imagem da água, da purificação que o lavar significa, função do Feminino aconselhada igualmente ao homem, o Masculino, remete-nos para o imaginário simbólico do mito do Andrógino, de Platão. E um novo conceito nos surge, primordial, antigo, de que Freud e Jung muito se ocuparam: o das lições dos sonhos, e do inconsciente, seja individual ou colectivo.
Não será por acaso, mas por impulso do seu inconsciente, a sua pulsão mais funda, libertadora enquanto materializa, retirando-a do Tempo, cada uma das suas esculturas pintadas, que surgem a dada altura, e repetidas vezes trabalhadas, os novelos de matéria tecida, esticada, penteada, e quem sabe até ( lavada...antes da transformação que sofrem, em novelos, em nós que atam (e tudo o que atamos mais longe se desata). Difícil e muito paciente o trabalho da mulher no tear da sua alma, o que a leva, pelo trabalho, ao sucesso do Branco, o alimento supremo. No tear se organizam os fios, se desfaz o caos, se atinge uma Ordem que ultrapassa inclusivé o impulso inicial (iniciático) do artista.
Arte é iniciação. E é também muita repetição. Volto aos alquimistas, filósofos da alma, e seus lemas: “...Lê, Lê, Lê, Relê, trabalha e descobres “ (Mutus Liber). Meditação e trabalho, para chegar à Obra.
 Escolhendo em especial o conjunto dos fios, tecidos, atados e desatados, entrelaçados, percebemos que ali estão os nós possíveis da vida, a vida de um criador. A minúcia é enorme, cuidada, e depois dada a ver. Ver não é adivinhar, mas é algo da entrega da contemplação que interroga, não aceita sem mais. Oferece uma pergunta, como no belo poema de Tolentino de Mendonça, e não uma resposta, nenhuma segurança, talvez só um pedido, uma oração:
... ouve o que diz a mulher vestida de sol
quando caminha no cimo das árvores
a que distância deixaste
o coração?
(BALDIOS, “A presença mais pura”)

Mas já na primeira estrofe do poema, que tenho de citar, se inicia o grande tema da língua e da comunicação: “ a que distância da língua comum / deixaste o teu coração?” O poema segue com outra ideia central, também ela próxima de um Hoelderlin, “deixamos de saber dos outros / coisas tão elementares / o próprio nome “.
E aqui surge então o nó central, o nó que recolhe e abraça todos os nomes num só, o nó primordial que a vida irá desatando. Por cima a imagem da mulher vestida de sol  ( a lua negra sublimada), a caminhar sobre as árvores. Tanta reflexão aqui contida...
Wagner, que será sempre eterno, põe na boca de Gurnemanz, o iniciador do jovem Parsifal, a melhor definição de todas para este conjunto de Mariana Viana, também ela a caminho do seu reino:
Du siehst, mein Sohn,
Zum Raum wird hier die Zeit.
Vês, meu filho,
em espaço se transforma aqui o tempo
 (Acto I).
 Resumindo, e evocando Heidegger pela última vez, o tempo materializa-se no espaço, para adquirir existência, e no caso de uma obra, a consistência única que lhe confere a Verdade (o Sentido) e o Belo, o nome que se tinha perdido e se buscava.

(Lisboa, 2019)








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