Saturday, May 17, 2008

Os poemas de Jayro


Chega-me às mãos, enviado por Henrique Chaudon, poeta amigo, o livro de poemas de Jayro José Xavier:
POEMAS, 2007.
Abre com duas Epístolas, cuja elegância clássica nos conduz, pelo embalar do verso, até aos nossos mitos culturais de raiz mais profunda. Evoca Ovídio, um dos  grandes Mestres, mas é de Orfeu que recolhemos o lamento:
" Este é um tempo sem mitos
onde Orfeu sufoca.
Inútil pretender
a primavera, o brando 
rumor dos remos nas 
águas. E aqueles deuses
claros, aqueles deuses
de uma era sem orvalho".

No Brasil como em Portugal, sem nenhuma necessidade de acordo ortográfico (que parece imposto por razões que nada têm a ver com nossa mútua cultura) a poesia cresce nos seus lugares naturais, onde é amada e lida, cá e lá. Sempre li os autores brasileiros de que me ia informando e cuja leitura me apaixonava. Recordo Clarisse Lispector, era eu muito jovem ainda. E tantos outros. Penso: o que fará o acordo a um autor como Guimarães Rosa ? E se agora, por um acaso feliz, de mão de amigo, leio Jayro, direi com ele, no seu poema :
Eu Me Defendo com Sintaxe e Rosas

"Eu me defendo com sintaxe rosas
de teorias e teocracias,
quais, por aéreas brisas, fugidias
e quais, por duros ventos, desditosas.
Com soprarem as duas, enganosas,
de trevas são as trilhas destes dias,
daí a minha espada- de- utopias
ferindo o mundo (e mote) em novas glosas.
Fará meu verso a fábula fecundo
e, um dia, um trovador de Sagitário
o reino que habitemos mais jucundo.
Terçar armas com reis é temerário;
pior, porém, é repensar o mundo
sem alma de poeta visionário".

Como não sentir o eco camoniano, doloroso, neste soneto que os tempos e o tempo tornam tão actual ? 
O livro de Jayro lê-se de um fôlego, e depois torna-se a ele para recuperar o gosto das nossas próprias emoções perdidas. 
Ele diz, como Pessoa diria: "Sou um bicho que pensa.E a quem oprime/ a solidão de ser, sem nenhum crime" (in Dois Sonetos do Último Verão).

Deseja-se um Acordo? Publiquem-se em Portugal estes poetas das novas gerações.O seu sopro é moderno, nem podia ser de outro modo, e a sua cultura é universal.
 

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Thursday, May 15, 2008







Está de saída O MARINHEIRO de Fernando Pessoa, na belíssima encenação de Alain Ollivier. O bom gosto da encenação define-se pela simplicidade elegante, contida, do design de luz, dos tons de cena, cortina inicial e final como que tecida na própria névoa do texto, máscaras que unem a diversidade, ainda que só aparente, das três irmãs veladoras, mas acima de tudo e isso tem de ser sublinhado e aplaudido, a indicação do modo de dizer o texto pessoano (difícil quanto baste): as vozes correm leves e fluidas, como um sopro, adquirindo só a dado momento a intensidade que permite delimitar o sonho, o medo, a comoção, ela própria como que retirada de si mesma e contida, como tudo o mais.
Uma encenação centrada na essência e na respiração do que o texto diz e desdiz, ou simplesmente deixa adivinhar, e apoiada na capacidade exemplar das intérpretes, que nunca sobrepõem ao dizer o exercício do seu virtuosismo, que é notável. 
Está de parabéns, o Teatro de Almada. Assim estivessem de parabéns os nossos leitores-espectadores,os nossos professores, os nossos estudantes.
Como lemos e estudamos hoje a obra de um grande autor? Por pequenos resumos, simplificados ?
Nada é simples na obra de uma grande autor, mas cabe ao seus intérpretes, neste caso o encenador e os seus actores, tornar mais acessível, mais inteligível, mais legível, a obra que apresentam.  
Assim, logo nas máscaras, de penteado quase aterrador, de tão carregado de noite, somos levados a compreender que estamos ali diante de algo mais do que meras veladoras de um cadáver.
Houve mão de Mestre, nos penteados que ornamentam as cabeças e que numa primeira impressão poderiam evocar as antigas Erínias. Estamos de facto perante formas antigas, mas não as vingadoras.Ali não houve crime, não houve abuso nem excesso: houve apenas ausência, regresso, sem que se saiba logo a que outra esfera.  Estamos perante as Mães, na imobilidade só aparente do seu Reino, o que fez tremer Fauso e Mefisto, só à menção do nome. Já o nome é sagrado, é divino, é princípio e fim de um outro mundo: ali onde a própria Urform,  origem primordial, terá lugar, se forma, se tece, e por fim se desvanece regresssando à poeira de que veio.
Poeira cósmica, abissal, nuvem galáctica que o sonho de alguma vela inexistente  atravessou, sem chegar ao possível espaço desejado. 
A obra é feita de espera, mais do que de desejo: algo definidor das marcas de Pessoa, no que escreve. Vive-se (espera-se) no intervalo de ser. A grande marca (o grande marco ) é o tempo, em suspenso. O Ser e o Tempo podiam ser balizas nesta peça, antecipando a magna obra de um Heidegger. O Tempo eterno flui: contém o passado, o presente e o futuro, ainda que ignorado. Mas o Ser, ou melhor, a consciência de Ser, petrificou: é o cadáver velado, é o quarto elemento que faltaria para completar o Todo da existência. 
Esse cadáver que nos interpela, como interpela as veladoras, é o que, por associação de imagens e ideias (no fundo o verdadeiro modelo estruturante da peça, a associação deslizante de imagens e ideias) confere às figuras hieráticas que vão quebrando o silêncio dessa noite espectral em que tudo podia acontecer e nada acontece a não ser o já acontecido- é o que confere, dizia eu, uma forte carga simbólica a um texto que ficará para sempre como texto emblemático da criação pessoana. 
Definido como drama estático, podíamos defini-lo, como faz Teresa Rita Lopes, como extático. Só que a experiência aqui não é a do divino a que a alma em êxtase se une, fundida numa mesma luz primordial. Deus é o nome da ausência, nunca se presentifica, ou se  actualiza, em movimento que leve da potência ao acto. O acto não existe, nem sequer o sonho dele. E se a palavra se constitui, nesta peça, em desejo algo impossível de dizer é porque sem palavra, sem Verbo, não há vida. 
E apesar de tudo é feita da Palavra, do permanente desejo e busca da Palavra, a vida de Pessoa. Goethe falou na Ur-Form, Pessoa responderia com a Ur-Wort.
Ele teve só uma pátria: a da língua portuguesa. 
   
 

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Monday, May 12, 2008

Brecht, As Canções de Teatro


Aceitei o comvite de um bom amigo para fazer versões livres das canções que B.Brecht escreveu para teatro e foram musicadas por compositores como Weill,Bruinier, Hindemith, Eisler, Dessau, Britten, Adorno,entre vários outros, e cantadas por Brecht ele mesmo, Lotte Lenya, Helene Weigel, Gisela May, Milva, David Bowie, etc.
Tratou-se de uma proposta irrecusável, que me deu o maior prazer.
Em breve, e isto é só o anúncio, começarei a blogar, poema a poema, ou canção a canção, as versões que serão cantadas por Luís Madureira e Teresa Gafeira, acompanhados por um Mestre: Jeff Cohen.
A promessa está feita, o trabalho quase acabado.
Para quem possa ler alemão, deixo uma indicação bibliográfica preciosa, cuja tradução ao menos para inglês deveria existir e ainda não existe: 
de ALBRECHT DUMLING, LASST EUCH NICHT VERFUEHREN.Brecht und die Musik, ed. Kindler, 1985.
Magnífico guia para a aventura musical de Brecht através da sua vida e da sua obra, num verdadeiro percurso de gigante, comparável ao de um Shakespeare ou de um Goethe.
Ah, e como são actuais as suas propostas de revolução numa sociedade dolorosamente adormecida como está a nossa!

Monday, May 05, 2008

Pina Bausch


CCB e SÃO LUIZ oferecem ao público português um Festival Pina Bausch.José Sasportes diz tudo sobre a sua obra, ao defini-la como " acções para bailarinos".
São de facto acções, pois todo o movimento implica uma intenção que é acção. 
Mas não são acções ao acaso, arbitrárias; são acções com sentido, um sentido que se apura na extrema exigência e no extremo rigor do desenho no espaço de trabalho.
Por trás de cada gesto, excessivo ou contido, a reflexão cuidada, a justificação, ainda que sub-liminal, da escolha feita.
Quanto menos se revela, mais se diz.
Há algo da mística oriental (até mesmo na ironia que irrompe e rompe algum acontecimento) na meditação e na prática bauschiana.
Corre-se muito ? mas o importante é mesmo estar parado.
Fala-se? Mas o importante é mesmo estar calado.
É-se feliz, por momentos?
Mas a dôr não deixa de estar presente, com o seu rasgão, com o seu grito.
A natureza é fértil, resistente, é a Mãe abundante?
Mas o choro das crianças faz-se ouvir para sempre.
Numa realidade fragmentada, de múltipla leitura, fica a imagem que se guarda melhor,  e o Todo poderá ser lido nela : o do cego correr da vida, do quotidiano onde por vezes uma louca ânsia de Perfeição e Beleza deixará a sua marca. 

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Pequeno Poema das Crianças de Lodz

Em Lodz
o guarda chamou as mães:
peguem nas crianças 
levem-nas para o jardim
sentem-nas viradas 
de costas para mim.
Ensinem-lhes o jogo 
do 1, 2, 3 !
À contagem do três
não olhem para trás:
ficarão a dormir 
numa cama de folhas
quem sabe sem sofrer.

Wednesday, April 23, 2008

Henrique Chaudon


Há fantásticas coincidências: no dia em que vou ao Teatro São Luiz ouvir as Valsas Brasileiras de Francisco Mignone, recebo o livro de poemas de Henrique Chaudon, meu amigo transatlântico.
Nas valsas encontro o som dos chorinhos, atravessado por Chopin, entre outros mais modernos europeus. Mas o que fica na alma é essa mistura da tradição e do lamento brasileiro com o exercício ora romântico ora modernista das composições de Mignone.
Da pianista Alexandra Mascolo-David escreveu o crítico do Washington Post:
" a splendid pianist, refined, searching and expressive, and her playing is loaded with insight and interpretative detail".
Não poderei dizer melhor.
Quanto ao Henrique, seus poemas são para reler devagar, depois de os ter lido.Também nele encontro o fundo cruzar de linguagens: da paisagem e dos dias brasileiros de sua morada, suas pessoas, seus lugares preferidos, com o trabalho de sublimação que opera na palavra poética. Seu dizer é directo, despido, ainda que emocionado.

Poema do mais Profundo

" Meu coração é campo extenso
onde dormem flores, trigo, ervas.
Meu coração é lago tranquilo
onde passam nuvens, o sol, a lua.
Meu coração é fonte
regato
rio.

Meu coração é poço.

Lá 
do profundo silêncio
posso mirar as estrelas ".

A terra, a água, o ar (céu ) - os elementos da vida natural caminham para uma simbiose na meditação que propõe o último verso: o poço do profundo silêncio onde pode mirar as estrelas.
Walt Whitman está na epígrafe, apontando essa sensualidade terreal, mas os poetas são transformadores, alteram tudo o que tocam, e poderemos encontrar também aqui  a marca de uma  sabedoria oriental, que a imagem do poço condensa, como no Yi King:
n. 48 Tsing, o Poço:
O poço significa união.
O poço não aumenta nem diminui, pode mudar-se a cidade, mas não pode mudar-se o poço... a acção de beber a água fresca do poço repousa na sua posição central e correcta. 
Aqui a noção de centro imóvel é o mais importante, e é esse sentimento que os versos finais do poema de Henrique nos transmitem. 
Noutro poema escreve:
"...
É hora de ficar parado
sentado imovelmente na cadeira.
Vejo a noite em me redor:
desgasta a pedra, os campos,
meus cabelos, tudo quanto toco.
Não me esforçarei agora.
Sentado aqui nesta cadeira
ouvirei seu falar mudo e convincente:
ensina mais que os longes todos, mais que os alfarrábios.

Mais,
muito mais".

Do panteísmo latente à observação realista de um Erich Fried ou ainda, no fecho que é súmula, o mais e o menos de um Celan quando escreve :
"tudo é menos do que/ é/ tudo é mais" ( in Cello-Einsatz)
Celan do fundo da sua noite da alma, Chaudon do fundo da sua melancolia e abandono ao real ( o real é o destino). Um pouco como nas valsas brasileiras. 


 
 

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Monday, April 21, 2008

Corpus Jan Fabre



Obra magnífica, sobre o percurso artístico de um grande artista, Jan Fabre.
Como nos diz  Luk van den Dries, no prefácio,a obra de Fabre incarna uma das formas exemplares do teatro do nosso tempo.
Teatro radical, implantado em profundidade: guarda o eco da grande tradição, os primeiros rituais, o teatro grego, os dramas da Idade-Média, Renascimento e Barroco.
Um teatro feito de memória, actualizada.
O livro é uma compilação de ideias, antes de mais. Mas ainda de palavras e imagens. Contempla os segredos do trabalho do palco, à medida que  vai sendo preenchido com os seus corpos próprios: dos actores, e do guia que é Fabre, mesmo no improviso, ou sobretudo no improviso. O melhor improviso é o que foi mais profundamente reflectido, preparado. Não há arbitrariedade na grande arte, quem não perceber esta lógica da criação original, está longe de poder vir a ser um criador. 
Diz Luk que o seu livro tenta penetrar " na alquimia da criação". Fabre é o grande alquimista, o grande transformador que sublima a imperfeição da existência no corpo. Mas esse é o desafio: a imperfeição do corpo, que o seu trabalho alquímico em todos os sentidos ajudará a ultrapassar. 
Ao abordar a imagem do corpo na obra de Fabre, Luk aborda de igual modo uma concepção moderna da estética do teatro.Passo a citar, lembrando que muito do que é dito se pode igualmente aplicar à dança, como arte suprema do corpo no espaço.
" O teatro é uma arte contaminada.Uma arte contaminada pela vida.E trazida por actores que não podem subtrair-se à sua forma humana, seu peso, a envergadura dos seus membros, seu sexo.Aparece um corpo, aparece   sempre um corpo, e nós olhamos para ele.Este corpo fala, sua, liberta uma aura, atrai ou repele. O teatro é um media carnívoro. Alimenta-se de corporalidade, de corpos que não se podem controlar, que são ignorantes das leis e excerbam ingenuamente as suas próprias paixões. Corpos que querem tudo e cada vez mais. Namorando perigosamente as fronteiras do impossível, desafiando as interdições da moral....O teatro é um cadafalso a partir do qual os corpos se lançam no abismo". 

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Monday, April 14, 2008

Armando Silva Carvalho



O seu último livro O Amante Japonês, na editora Assírio e Alvim.
Lido o poeta, ler os livros que ele lê:
Camilo Pessanha
Pessoa-Campos (mas quem lê este, lê todos...)
Herberto Helder
Novalis
William Blake
Luiz Pacheco
Carlos de Oliveira (sim Finisterra, sempre...)
Manuel de Freitas
Sá de Miranda
...

De um roteiro mais íntimo e selvagem, a um roteiro não menos íntimo e selvagem (Wagner também lá está, com a sua vertigem musical, ambição desmedida que só em Veneza terá fim) Armando oferece neste seu livro os poemas que só ele sabe erguer, como

"Altos ciprestes, esses poemas
Que se perfilam ao longe na planície escrita dos meus dias.
Negras presenças do mundo, dos homens, da rosa
Incendiada nas palavras. 
...
Versos do começo e do fim
Fábulas de nervos ao redor do cérebro
Quem vos traz aqui ao sabor do vento imoderado
De encontro ao vidro sujo do meu rosto e do carro ?"

Viaja-se, neste livro.
Num carro que tem asas e que voa, por vezes desamparado, de lugar em lugar. Mas o poeta sabe qual é o seu ofício, qual é o seu lugar.
Uma palavra acesa na fímbria do tecido, na pétala da rosa ou na espuma do mar. Nem sempre se dirá a luz, mas sempre sempre esse bater convulso do sangue no coração do mundo.