Sunday, September 30, 2018

Ainda João Paulo Esteves da Silva, Casca de Noz


Casca de noz

Não acabei o que estive a comentar deste livro, e este poema, quase a fechar, dá continuação à linha de pensamento que eu seguia, guiada pelo autor.
Que ele, em aparente relato quotidiano, como em poema anterior, quando "vai comendo um bife para se acalmar" nos transpõe para uma outra dimensão, do pensar, do criar, do escrever (como Pamuk refere no romance da rapariga dos cabelos vermelhos). Eis o poema:
antes do começo, relembro
os passos apagados
os mundos desfeitos

antes de qualquer gesto
vejo um campo de narcisos
num areal sem margens

fico onde a maré revira
no mais tácito dos lugares 
entre o seco e o molhado

entre o liso e o encrespado
tenho ali o ouvido e a boca
de lá falo, e agradeço

O espaço intermédio em que diz permanecer é o espaço mesmo de onde pode, depois de tanta dissolução verificada reconstruir um mundo, o seu, que nos oferece e que nós devemos agradecer, como ele faz, meditando. Ele agradece, como já fizera em poema anterior. O seu agradecimento está neste Verbo expresso, na vida aceite, pequena casca de noz, vogando como navio.
Este é um poema que podemos, ou devemos, ler para o ampliar, com o que está em TÂMARAS, de 2016:
Fui ao jardim das nogueiras, 
dei uns passos, poucos, além do portão,
enchi os bolsos com as nozes que havia,
mordi, numa euforia suspeita
(um ar alucinado, disseram),
alegria enorme, sem razão,
uma felicidade prematura.
Adeus, não posso ficar, pertenço
ao país de areia e muros onde o mar rebenta
onde as línguas todas do mundo
se misturam, balbucio suavíssimo.
Voei sobre o mediterrâneo
atravessei a Espanha numa correria
cheguei a Lisboa ao romper da manhã
já não sabia se tinha sonhado
aquela nozes todas nos meus bolsos.

De um velho país mítico, antigo, trouxe as nozes que ainda guarda nos bolsos, o espaço da memória. E num país actual, numa esfera não menos mítica, espécie de terra do meio, recupera da noz primordial, de casca aberta (como as romãs de outros poemas) o seu navio da alma, o que lhe permite o canto, a voz, a fala.




Friday, September 28, 2018

João Paulo Esteves da Silva

DOIS BOIS E Uma Arma Na Mão, 
o livro de João Paulo Esteves da Silva que tenho estado a ler. Quando leio, oiço música, ele está algures a compôr, dentro dos seus poemas. Ou a contar, demorando-se na mística dos números. 
Criador complexo e completo: erudito com a paixão da mística hebraica, poeta e compositor que nos leva por tempos e espaços de desvio onde nos podemos perder, que sempre haveremos de nos voltar a encontrar com ele e o seu riso de criador que gargalha, dobrado sobre a obra que criou. Como o riso de Deus dos Kabalistas.
Abro ao acaso, como gosto de fazer:
A ILHA
O tempo apressa-se na cabeça
agora, os anos parecem dias
a vida há-de caber em meio segundo
e a história do universo passará por nada.
Podia entristecer de pensar nisto
mas oiço o nada a rebentar de riso;
instável, carregado de universos
e rio com ele, como uma romã.

Dividido em 4 partes, da primeira, Matéria Inquieta, à última, Casca de Noz, seguimos com o poeta por um tempo e um espaço que a vida sempre atravessa, com o seu ritmo próprio, um quotidiano que o perturba mas o deixa continuar mesmo assim e ele continua, não se nega à aventura, ao imprevisto tanto quanto ao previsível já adivinhado. Um poeta músico, de alma aberta, oferecida:

MATÉRIA INQUIETA
O ruído da televisão
apaga a história da literatura
cobre a música imaginada
e quero voar daqui
mas esqueço-me de existir
ainda não posso ser pássaro
e não sei continuar à espera
na margem, no café
o estrondo tapa-me o céu
rajadas de metralhadora
avisos filtrados nos megafones
criam nada, tanto nada
que já se conseguem ouvir
premonições de novo
ouve-se estalar a casca do ovo

Em cada poema pode surgir uma imagem mais forte, mais carregada de sentido, que nos faz meditar. Aqui encontramos duas, a do pássaro que o poeta ainda não consegue ser, e a do ovo, arquétipo da criação primordial, em tantos imaginários, religiosos e alquímicos.
A imagem deste ovo cuja casca se ouve estalar remeteu-me para a simbólica da alquimia, e em especial de uma obra, ATALANTA FUGIENS (1617), de Michael Maier, alquimista do século XVII, da corte de Rudolfo II, a quem serviu igualmente de médico e astrólogo.
Na gravura VIII desta obra que inspirou seguidores ao longo dos tempos, vamos encontrar, diante de uma lareira onde arde o fogo, um adepto em pleno trabalho, de espada erguida sobre um ovo, colocado no centro de uma pequena mesa. Percebe-se pelo gesto que ele irá cortar ao meio esse ovo, e que essa divisão terá um significado importante para a Obra.
Sob a gravura lemos, no Epigrama:
" O céu tem um pássaro, de todos o mais bravo,
Do qual procurarás o ovo, sem que mais nada te ocupe.
Uma albumina branca rodeia a gema. Com prudência
Dá-lhe um toque com uma espada flamejante (é a norma).
Marte terá de vir em auxílio de Vulcano; nascerá
Um passarinho vencedor do ferro e do fogo".



Maier, também ele compositor, escreveu para esta gravura uma Fuga, de que não poderei ocupar-me, pois sou leiga na matéria, com o seguinte apontamento ao alto:" Pega no ovo e parte-o com um glaivo de fogo".
Matéria inquieta é esta, que o adepto, poeta, sublima como alquimista no poema. Ovo e pássaro são as figurações da norma.
Termino com o poema DIZIA RABI NACHMAN porque nele se explica e se agradece com humildade que o desespero não é permitido, o caminho será de redenção. A redenção que um poeta como Celan não teve, ele que falava dos corpos lavados, das palavras nuas, e escolheu a água como lugar de apagamento, a água do rio Sena, num certo dia de abandono especial. Mas João Paulo, pelo contrário, estudioso embora das matérias hebraicas, escolhe entregar-se ao "calor do coração". Fiquemos com o poema:

É proibido desesperar.
Está bem. Não desespero.
Respiro, suspiro, e canto.
Tenho riscado tantos versos
alguns deixam-se ler através da rasura
parecem melhorar com a cobertura
espreitam por entre caracóis de tinta.
Alegra-te na hora má! diz a canção
e eu vejo os olhos do rabi, já louco,
a dançar vivo em pleno fogo
não sigo, não posso, só agradeço
as chispas, o calor no coração.

Direi, com Celan: "Afundam-se os longes aqui,
e tu, estrela de cabelos em flocos, cais aqui feita neve
e tocas na boca térrea".
Sublimando deste modo os vários elementos, do canto aqui cantado, do fogo, do ar, da terra e do branco da neve, transmutado.




  




Sunday, September 23, 2018

Monstruosidades, de José Viale Moutinho

O Titulo tem de ser lido na indicação completa (mais discreta)  de que os contos serão todos do tempo do infortúnio.
Reencontro aqui, com o José Viale Moutinho e as ilustrações /Separadores, ferozes, de pinceladas de cunho expressionista, de Alberto Péssimo ( para que não fiquem dúvidas) de  uma prosa directa, sem ambiguidades mas trazendo a sua parte de sombra, de memória, evocação cruel das traições e hipocrisias de um mundo que vem de longe, mas afinal continua a existir, sob outras formas.
Portugal não mudará nunca? São 139 contos, que não poderei ler aqui, o blog tem os seus limites. Mas fica a chamada de atenção  para uma prosa curta, exímia na descrição de ambientes que não são citadinos, e nascem do ruralismo primitivo que ainda é o nosso, feito de muita sombra e pouca luz, muita violência e pouco amor, ainda que por todo o lado se veja, se oiça, se chore, a necessidade de um amor que nunca existiu, e muito menos no tempo, que foi longo, do infortúnio.
O infortúnio, nesta prosa de fronteira, entre fuga e esperança traída, era simplesmente o de estar vivo, e desejar mais um tempo concedido...
Comecei pelo primeiro conto,
A ALDEIA DAS POBRES COBRAS.
Aldeia em que havia uma ribeira "triste" onde apareciam cobras, que as crianças apedrejavam, para neutralizar os seu perigo. Também eu sou desse tempo, em que se dizia, no campo, que as cobras vinham de noite, ou comer as crianças, ou chupar o leite das mães que tinham dado à luz. Um clima carregado de feitiços e armadilhas, mas que neste conto serve bem a causa de um Patriarca, que embora vigiado tinha conseguido por trás da sua taberna manter fechada a todos uma arrecadação misteriosa: ouviam-se estranhos ruídos, mas ali ninguém entrava. Dizia-se que reparava uma lambretta,  ou que queria construir uma máquina para fazer frio no verão e calor no inverno, espécie de frigorífico-lareira...tudo imaginação. Aos guardas da patrulha que por ali o iam visitando explicava: é uma obstinação no encontrar de uma embocadura...
A natureza está sempre presente na narrativa que o autor desenvolve, como quem anuncia que morte e vida ali se encontrariam sempre, mas esperando mais pela vida do que pelo seu contrário.
Não quero estragar o prazer de ir descobrindo o que ali foi acontecendo, mas a evocação do possível é cruel: ou fugir, ou morrer, enforcando-se na oliveira onde já pais e avós se tinham enforcado.
Prosas curtas, cada qual um episódio que nos arrasta para tempos difíceis, covas comuns, resquícios de corpos ofendidos na sua humana dignidade, e o confronto com um passado afinal ainda tão próximo, de que se devia ter fugido, pois nunca devia ter acontecido.
Ler um conto por dia, na Escola, ou em casa, seria ao mesmo tempo uma lição de História, abarcando Portugal e Espanha, a vizinha difícil, mas sobretudo de um exercício de escrita exemplar, seco e imaginativo e doloroso ao mesmo tempo, para quem como nós pode ainda recordar, mas sobretudo transportando o que é lição de vida, para todos, e tem muito a ver com a absoluta necessidade de uma saída, a tal embocadura do seu conto inicial.
Chegando ao fim, impossível não falar do conto do Demónio: "Negócios com o Demónio". Porque em menos de uma página e meia, num exercício de ainda mais inesperada contenção, o autor expõe o trato que fez, a aposta tradicional da venda da alma ao demónio em troca de algum favor, neste caso ajudá-lo a fugir a uma perseguição feroz, feita de armas e cães, por todas as razões e mais algumas, políticas, crimes comuns e coisas que tais. A paisagem é de novo rural, fronteiriça, e desembocando num abismo. Aqui a simbologia é clara, um homem que é perseguido não vê outra salvação. Estamos perante um exercício de cultura goetheana: Deus e Mefisto, no Prólogo no Céu, apostando um contra o outro qual deles ganhará a alma de Fausto, o herói destemido, que sempre avança e procura...Goethe salvará o seu herói das garras do demónio, figura popular já no seu tempo um pouco gasta, por ser mais valorizada a Ética, a Moral, do que a crença religiosa. E de facto no final da tragédia Fausto redime-se com um exercício de entrega generosa ao trabalho da terra, à ideia de que a dignidade humana do serviço ao bem comum e da partilha a tudo se sobrepõem. A sua alma será levada aos céus, onde contemplará a Mãe sublime. Até aqui tudo respeita o conceito de que existe uma alma, em que se crê, homem, deus e demónio e como tal pode ser negociada.
Mas eis que o nosso autor de súbito esvazia o conceito, e desse modo nos surpreende com o negócio que faz...Sim, ele aceita a ajuda que lhe vai sendo dada pelo demónio. Está já perto do abismo onde podem os guardas e os cães agarrá-lo brutalmente...e eis que exclama: o que ele (demónio) me pede é a minha alma? e gargalha com a ideia, peregrina, pois não acredita na alma..." Apenas queria algo em que eu não acreditava que existisse: A minha alma. Ora, estão a perceber: a minha alma, Ah Ah Ah. Pois que se quedasse com ela..." (p.139). Os perseguidores não serão bem sucedidos, o narrador vê o Demónio sentado numa pedra, mão erguida a fazer parar a turbamulta, e fica a pensar no valor que o Senhor do Enxofre atribuía à sua alma.
"-E o que é a alma? Interrogava-me eu, olhando de soslaio o Demónio" (p.140).
Pode haver forma mais extraordinária de abrir de novo a discussão, que se julga ultrapassada, pura crendice popular, do que é a alma? Existe? E se existe o que é ? E se não existe porque tem tanta força ainda no nosso imaginário, a ponto de puxar mais uma vez a discussão?
Nas últimas quatro linhas do seu conto, José Viale Moutinho, com a sua arte ímpar, lança o grande desafio do Ser que é afinal uma questão de ter ou não ter a consciência (nunca segura) de que se pode ter alma e na alma não acreditar...



Wednesday, September 19, 2018

Luis Tinoco THE BLUE VOICE OF THE WATER

Um disco em tons de azul, o da luminosa água que também inspirou Manuel de Barros, o poeta  brasileiro a quem Luís Tinoco foi buscar o título desta sua recente peça musical, leva-nos por caminhos poéticos inesperados, sem que ao mesmo tempo se perca o sempre presente  envolvimento musical, com promessa de uma água que por ali ondula, se agita ou se acalma, conforme a inclinação no esboço da partitura.
Vemos o compositor, como um Pessoa moderno, fixando a água: ( a interpelação de um Tejo que lhe lança a eterna dúvida do que ele pode ou não ser...) água secreta e ao mesmo tempo manifesta, de onde a vida nasce, e com ela a primeira das vozes, a dos regatos, que será por vezes de um  azul mais leve, deslizante, lírico, mas mas muito mais vezes, formando-se em cascata, ou correndo, apressada, para o mar . O mar não chega a ser violento, mas não perde o som ameaçador de alguma súbita onda, que vem de longe (de que fundos obscuros) e demora um tempo - o tempo incerto - até que no painel que quase vemos pintado, o compositor nos tranquiliza retomando o suave deslizar da água (esta sim, azul) entre pedras tão lisas como  calmaria de há muito desejada. O disco tem mais três peças, Cello Concerto; Frisland; e Before Spring, a Tribute to the "Rite".
Esperando que o Luís Tinoco perdoe o meu atrevimento, em breve falarei desta última.
 Stravinsky ficaria feliz, Béjart, que o coreografou numa alucinante celebração dos corpos e do nascer da vida também encontraria na vertigem desta peça de Tinoco matéria de inspiração.

Sunday, July 15, 2018

A CASA




A CASA
 Distraídos não víamos
a casa a envelhecer connosco
e no entanto a casa envelhecia:
tinha dores
achaques
tropeções
incómodos pequenos
lâmpada que falhava
e uma ou outra coisa,
vertigem passageira.

Assim corria o tempo
em pequenos derrames
que a todos por dentro
corroía: a casa e com ela
as portas que rangiam
e umas résteas de luz
já quase a apagar-se.

A casa não andava
a casa já não via,
e nós ainda achávamos
que era coisa ligeira.

Não tem mal, dizíamos,
quando chegasse a hora
umas velas acesas,
candieiros de avó
sem perigo de incêndio:
a casa envelhecida
sempre estaria ali,
sempre resistiria.

Sem dar por isso 
o nosso envelhecer
ali juntos, fechados,
embora já morrendo
seria a última prova
de um grande amor
vivido
o dessa casa antiga
às vezes ainda rindo,
outras vezes zangada,
mas dividindo connosco
o tempo que faltava.

Lisboa, 2018




Monday, July 09, 2018

O Pomar das Romãzeiras do José Manuel Castanheira



Ler, pintar, trazer um brilho azul evocador de Yves Klein para um Jardim especial: eis o que fez o pintor José Manuel Castanheira numa instalação de segredos e sussurros, ligando pelo fio da memória, em folha branca, o que a vida traz consigo, bago a bago de romã, que foi suspendendo no ar. A vida atravessada por uma luz azul, que é luz do Verbo, que é luz de palavra confirmada. O seu segredo: o do tempo, que ali se tornou espaço, como no Parsifal de Wagner.

É-me difícil falar, porque a sua obra, de concepção tão lírica e subtil, me foi imerecidamente dedicada. São as longas amizades, as de sempre, que ali são evocadas, em traços que mal se adivinham no branco que as acolhe.

Deixo então o meu gesto, gesto grato, de passeio por entrega a tão belo Jardim, a descobrir no Festival de Almada deste ano de 2018.

O Jardim

Para o José Manuel Castanheira


O Jardim estava ali,
atrás do brilho azul
de uma cortina
que o Anjo segurava.

Ao pôr-do-sol
o Anjo abria a cortina,
via-se então esse Jardim secreto
e a árvore desse pomar
só de romãs fechadas.

O Anjo, paciente,
aguardava tranquilo
as chuvadas do Outono
e os bagos de rubi
que as romãs ao abrir-se
deixariam cair.

Apanharia os bagos,
devagar, um a um,
como quem conta os dias
contra o tempo.

Pois o Anjo sabia:
contado o tempo
o brilho azul do Jardim
logo se apagaria.


Y.K.Centeno

Lisboa, 2018,
celebrando os 35 anos do Festival de Almada







Wednesday, July 04, 2018

Para o António de Castro Caeiro, que ama a poesia.


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De Novalis ( 1772-1801) a Schubert (1797- 1828)
 I
Novalis (pseudónimo de Georg Philipp Friedrich Freiherr von Hardenberg) figura maior do Romantimo alemão, teve a sua obra editada primeiro em 2 vols. pelos amigos Ludwig Tieck e Friedrich Schlegel, em 1802.
As obras de Novalis, bem como as dos irmãos Schlegel, tiveram marcada influência em Franz Schubert.
Vemos que na Bela Moleira/ Die Schoene Muellerin ( 1823) se recupera um imaginário de cariz popular, nacionalista ou melhor tradicionalista,  eivado de uma reflexão melancólica resultante da empatia profunda com a natureza,os seus ciclos, de que o Tempo e a Temporalidade são parte integrante e que o fluir da água do regato, na última canção (n.20, Des Baches Wiegenlied / Canção de Embalar do Regato)  evoca e representa.
Esta canção funde os vários motives da temática romântica por excelência:
1.    a contemplação da natureza e a elevação de alma que suscita
2.    o desejo de um repouso que se aproxima do sono, depois do sonho que foi a Viagem (evocadora da busca da Flôr Azul, no célebre romance inacabado Heinrich von Ofterdingen e que são referidas na estrofe em que cita “ as pequenas flores azuis” pedindo que não olhem para ele)
3.    apelo à noite, com a lua cheia a erguer-se no céu imenso, noite que. tal como o sono que pode ser antecipação da morte, dissolverá para sempre alegrias e desgostos.
Este Moleiro-Poeta  é uma recuperação do Viandante de Goethe.
Quando na primeira canção Das Wandern/ Viajar (que eu gostaria mais de traduzir por algo como Vaguear, pois é mais de vaguear que se trata, caminhando solto na paisagem,  de floresta, de ribeiro ou de mar, deixando corer o pensamento) se alude a esse ímpeto de correr mundo, já se adivinha, pela imagem escolhida da água cujo curso é imparável, da roda, que não cessa o seu rodar (como a roda da vida, que é a roda do Tempo) da pedra da mó, também ela redonda e girando cada vez mais depressa- já se adivinha, dizia que esta não sera uma viagem qualquer, mas um percurso que é decurso simbolizado da vida.
Pelo meio um atravessamento de amor, sem consequência a não ser a de despertar saudade, saudade do regresso a uma casa que é muito mais do que o lar que se deixou para trás, é morada de repouso, quem sabe se definitivo, uma paz de alma reconciliada que só a morte concede.
Os poemas de Wilhelm Mueller (1794 -1827), um dos grandes amigos do compositor, constituem um verdadeiro ciclo, em que o fio narrativo não se perde, ampliando a temática central da viagem pela vida e do horizonte da morte. Dos vinte e cinco textos da edição original do poeta (1821) Schubert escolhe 20, que organiza numa “introdução” e fecha com um “epílogo”, o que sublinha a dramaticidade lírica e musical da obra.
O tema fulcral é o da Viagem, como já se disse.
O Wandern alemão não significa o mesmo que Reise, mas seria difícil traduzir por vaguear, viajar ao acaso, pois o Moleiro não parte ao acaso. Caminha em direcção ao moínho onde estará a sua amada. Daí que se tenha escolhido o termo Viagem, e não o Vaguear, embora este ficasse melhor no caso do Viandante, que não temos traduzido por Viajante.
Mas deixemos a questão, respeitando o que tradicionalmente está aceite.
Na canção n.1 começa a descrição da caminhada do Moleiro, junto ao riacho, e aí se glorifica a água, elemento primordial, através do que a água simboliza se glorifica o movimento perpétuo, o caminhar ( a roda) da vida:
Das Wandern / Viajar
 Viajar é a alegria do moleiro,
Viajar!
Só pode ser mau moleiro
Aquele a quem viajar não agrade,
Viajar!

Aprendemos com a água,
Com a água!
Que não pára dia e noite,
Pensando só na viagem,
A água.

O mesmo fazem as rodas,
As rodas!
Que nunca ficam quietas,
Não se cansam de rodar,
As rodas.

E até as mós,tão pesadas que elas são,
As mós!
     Giram numa dança alegre,
     E querem ir mais depressa,
     As mós.

     Oh viajar, viajar, minha alegria,
     Oh viajar!
     Meu senhor, minha senhora,
     Deixai-me partir em paz,
     Vou viajar.

Se o tema central é o da Viagem, o símbolo vital será a Água.
Mas é uma água complexa, que tanto corre para a vida como esconde já alguma pulsão sombria: é o que se adivinha na canção seguinte, n.2.
 Wohin/ Para Onde:
 Ouvi murmurar um regato,
Corria da fonte do rochedo
Em direcção ao vale
Fresco e maravilhado.

Não sei o que me aconteceu,
Nem quem me deu o conselho,
Também tive de o seguir,
Com o bordão de caminheiro

A descer e sempre em frente,
e sempre atrás do regato,
A correr com o seu murmúrio,
De uma alegre limpidez.

É este então o caminho?
Diz-me, regato, onde vou?
O teu murmúrio suave
Perturbou os meus sentidos.

Que digo do teu murmúrio?
Não pode ser murmurar
São Ondinas a cantar
Nas profundezas do Reno

Deixa cantar, companheiro,e
murmurando segue o teu caminho!
Rodam as rodas do moinho,
Em todos os regatos de água clara.

Repare-se como nesta alusão a uma água feliz já está contida, pela alusão às Ondinas do Reno, a pulsão da morte que um Heine descreverá como ninguém na sua Lorelei.
Outras imagens simbólicas poderão surgir, como a floresta, ou o bosque (que seria a Terra) ou o Céu (que seria o Ar) ou mesmo o Fogo (quando se arde de paixão ou de paixão se morre). Vemo-las também noutros poetas, que Schubert muito amou, como Goethe ou Heine em quem uma consciência alquímica da vida se torna muito patente.
Mas fiquemos nesta meditação do Wandern.
Impossível não evocar aqui o poema de Goethe que melhor reflecte este estado de espírito:
 Canto Nocturno do Viandante / Wanderers Nachtlied (1776 )
 Tu que és do céu,
E todo o o sofrimento e dôr acalmas,
Que ao duplamente infeliz
Duplamente consolas,
Ah, estou cansado de tanta agitação,
De que servem a dôr e o prazer? –
Doce paz,
Vem, ah vem desce ao meu coração!

E ainda este, que completa o anterior e lhe amplia o sentido da brevidade da vida ou do desejo de morrer:
Outro Igual /Ein Gleiches ( 1780 )
No alto dos montes
Reina a paz,
Nas árvores
Não se pressente
nem um sopro.
Os  passarinhos calam-se no bosque.
Espera, que em breve
Também tu repousarás.

Com este mesmo estado de espírito, de abandono à noite do desgosto e da melancolia, e de ânsia pelo repouso eterno (da morte) é concluída a última canção, n. 20:
 Des Baches Wiegenlied / Canção de Embalar do Regato
Descansa em paz, descansa em paz! Fecha os teus olhos!
Viajante, que estás cansado, chegaste a casa.
Aqui reside a fidelidade,junto a mim repousarás,
Até que o mar engula todos os regatos.

Lavada de fresco será a tua cama
Com largo travesseiro no quarto azul de cristal,
Vinde, vinde agora, vós que sabeis embalar,
Embalai nas ondas o rapaz até que ele adormeça.

Se uma trompa soar no bosque verdejante
Farei um barulhão à sua volta.
Não olheis para mim, florzinhas azuis!
Estais a dar pesadelos ao meu adormecido.

Afasta, afasta, o trilho do moinho!
Fora, fora, rapariguinha má,
Que a tua sombra não o venha acordar.
Mas dá-me o teu lencinho fino
Para os seus olhos tapar.

Boa noite! Boa noite!Até que tudo desperte.
Que o sono te consuma as alegrias e as dores!
Ergue-se a lua cheia, dissipa-se o nevoeiro
E o céu lá em cima tão vasto que ele é.

Na Viagem de Inverno / Winterreise (1825) adensa-se o tom da melancolia, pressente-se em cada momento um fim de ciclo, com a última das Estações do ano, antes que renasça a vida com o retorno dos Maios da Primavera, novos amores,  cantos de pássaros felizes.
O Viandante é de facto um Estrangeiro e não mais um Caminheiro da vida. O seu estranhamento, em relação a tudo o que o rodeia é agora total. O ciclo é igualmente composto sobre os poemas de Wilhelm Mueller, e o primeiro é um de Boa Noite:
Gute Nacht
Cheguei como estrangeiro
e como estrangeiro vou embora.
não posso escolher
a data da partida
vou-me sozinho
em plena escuridão
de que servia esperar
até ser posto fora?

Parte, então, depois de um amor frustrado, concluindo que o Wandern, o vaguear pelo mundo, é o que o amor impõe, é o que Deus concede ao ser humano.
O seu caminhar pela vida terá paisagem de neve, terá lágrimas que lhe escorrem geladas pela face, terá esperança de algum repouso ( em vão ) sob a tília sonhada, que já lhe ficou longe.
Ecoando a Bela Moleira, na canção Junto ao Ribeiro / Auf dem Flusse (n.7), Schubert retoma a imagem da água, mas que não corre, pois tem sobre si uma capa de frio gelo que lhe impede o movimento.
Sendo que o movimento é vida, esta capa de gelo alude aqui a um antigo amor que terminou, um coração que arrefeceu e corre o risco de deixar de bater.
A sequência é de saudade, por vezes evocando um passado mais feliz, como em Sonho de Primavera / Fruelingstraum (n.11) e de desalento sempre, pois nenhum dos sonhos que o poeta sonhara chegou a ser realidade.
A canção n. 12 é explícita a este respeito: Solidão / Einsamkeit)
Encontro nesta canção o eco directo do poema de Goethe ( Ein Gleiches), citado acima, e por isso a transcrevo na íntegra:
Solidão
Igual à nuvem sombria
que no ar leve se move
quando na copa dos pinheiros
sopra uma brisa ligeira
assim vou eu caminhando
arrastando os pés cansados
vendo os outros tão alegres
e eu tão só a vida inteira

Ah, como o ar está tranquilo!
Ah, quão luminoso o mundo!
No meio das trovoadas
não estava eu tão no fundo!

A ausência de um Deus mais generoso, que a todos distribua alguma felicidade, é o sentimento geral com que se fica, chegados que somos ao fim de um ciclo em que apenas um velho, (Der Leierman n.24) tiritando de frio, que não é só do Inverno, mas também de um coração abandonado, insiste em tocar o seu realejo: variante empobrecida da roda do moleiro, da roda do universo, que esse sim, e só ele, insiste em continuar. E o poeta ironiza: e se nos juntássemos, tocavas no realejo as minhas canções?
Mas talvez a canção dos três sóis, Die Nebensonnen (n.23), nos ajude a situar melhor o estado de espírito de poeta e compositor. A tradução literal seria Os Sóis Juntos, mas está estabelecido traduzir por Os Três Sóis,nas versões em francês; mantenho então o costume:
Os Três Sóis
Vi três sóis ao alto no céu
mirei-os fixamente durante muito tempo;
e eles permaneceram quietos
como se não quisessem afastar-se de mim.

Ah, não me pertencem estes sóis!
Brilham para rostos que não são o meu!
Sim, também eu tive três sóis, outrora,
mas os dois melhores já não estão mais aqui!

Que se afunde o terceiro também no seu poente,
na escuridão estarei muito melhor.

II
Sabendo-se que Novalis e os Hymnen an die Nacht (Hinos à Noite) foram lidos por Schubert na sua juventude, bem como os Cânticos Espirituais(Geistliche Lieder), inspirando as suas composições de idêntico título, vale a pena evocar esses textos que glosam a Noite como emblema de Morte, de tanta ou mais intensidade do que os célebres ciclos de Rainer Maria Rilke,  quase um século depois, nas Elegias de Duíno (1922) ou nos Sonetos a Orfeu (1922). O culto da noite e da morte, em Novalis, depois do falecimento da sua jovem noiva Sophie von Kuhn, atravessa como uma espécie de Missa Negra, a obra toda.
O seu desejo é morrer, e encontramos nos seus Diários entradas permanentes em que considera a hipótese de suicídio de forma muito directa.
Nota-se a dada altura uma evolução de pensamento, quando se converte ao Cristianismo, ainda que de forma não completamente ortodoxa, pois é bebida, como também podemos ler nos Diários, na obra de Jacob Boehme. Intuída a noção de que todo o Universo é um Corpo, como diz Boehme, um Corpo Único, ultrapassada a convicção de que com a morte tudo se perdia, Novalis irá encontrar a sua consolação num amor universal e transcendente, de que Cristo é o Emblema maior. O mesmo acontece com a figuração do Eterno Feminino, a outra face de Deus ( a Shekinah dos místicos Kabalistas) que Novalis celebra na Mãe Universal que é a Virgem Maria.
São ideias salvíficas, que ajudam a moderar o tom negro da sua poesia.
Quanto aos outros vários escritos, que ficaram incompletos, alguns em forma de fragmento mais ou menos desenvolvido, outros apenas em notas e apontamentos – permitem ainda assim acompanhar as suas preocupações filosóficas, poéticas e artísticas.
Há uma teologia da Natureza que defende, ao modo panteísta de um Schelling, uma sociologia da Ordem, na visão de uma Monarquia Universal (A Cristandade ou a Europa) suporte de um Utopia que deveria ter sido ampliada em Heinrich von Ofterdingen, como resposta paralela ao Wilhelm Meister de Goethe. Mas deste romance-fragmento o que nos fica é um Maerchen, um Conto ( talvez também em paralelo com o Maerchen de Goethe) em si mesmo completo no interior do romance, e uma metáfora, a da Flôr Azul, que fará caminho pelas canções de Shubert.
Interessante é verificar como  de uns autores para outros , as ideias e os sentimentos se vão “contaminando”, as imagens mais fortes ( por serem arquétipos universais, simbólicos) atravessam as variadas obras, os variados tempos, e chegam até nós ainda carregadas de significação.
Os criadores “falam” uns com os outros.
É assim que descubro, na poesia de Helder Macedo, uma Viagem de Inverno, publicada em 1994, onde se estabelece um belíssimo diálogo aberto com os poemas de Wilhelm Mueller que Shubert musicou. Uma Viagem que faz de um poeta contemporâneo nosso um Viandante como os de outrora, que na obra de outros encontrou o eco do seu caminhar pela vida e lhe permitiu acrescentar a sua própria experiência (na vida como na poesia, não há vivências iguais) de original contributo para algo que será eterno: a consciência do menos que é mais, como diria Paul Celan.
Vemos pelas epígrafes escolhidas, abrindo com W.Mueller, as preferências literárias que foram objecto do estudo e da investigação do erudito que Helder Macedo também é: assim nos surgem os cancioneiros medievais, Camões, Cesário Verde (Mestre também de Fernando Pessoa), Camilo Pessanha.
E eu acrescento, por Helder Macedo ter dado um contributo tão importante, à época, (para o seu enquadramento místico e simbólico) A Menina e Moça de  Bernardim Ribeiro: nesta obra se bebem a Saudade e a Melancolia, como um atravessamento permanente.
O estudo de Helder Macedo, pioneiro, recebe o Prémio da Academia das Ciências de Lisboa em 1977, depois da publicação em 1990:
Do Significado Oculto da Menina e Moça, uma obra, na minha opinião, para ler e reler.
São igualmente 24, como em Schubert, os poemas da Viagem de Inverno de Helder Macedo.
Em alguns responde directamente às metáforas da canção original.
Noutros amplia o seu sentido, noutros ainda trabalha uma intimidade que ao ser transposta se torna universal.
Se no primeiro poema se coloca já no seu meio de vida, com uma reflexão à guisa de balanço,
 A meio do caminho
a mais de meia vida já vivida
reencontrei-me só na selva escura
da vida indecifrada
e não sei de que lado está a morte
e não sei se é o amor quem a sustenta
no tempo
que chegou
de destruir
…. (p.11)
No ultimo retoma com energia (talvez irónica, ou amarga) um cantar de dança de roda que tem algo das danças da morte medievais, ou melhor ainda de uma balada como a Lenore, de Burger, ou a Dança da Vida de um Munch expressionista:
Bailemos amigas
que a dança acabou
os rios correram
a fonte secou

bailemos na noite
libertas do amor
sem nada querer
sem qualquer temor

bailemos irmãs
nos corpos sumidos
das jovens que fomos
 nos tempo perdidos
bailemos que é tarde
para resistir
quando a madrugada
já não pode vir

bailemos meninas
de seios mirrados
com olhos vazios
e sem namorados

bailemos a dança
que a todos nivela
o filho o amante
a feia e a bela

e quem não quiser
connosco bailar
saiba que esta roda
terá de dançar

com velhos e moços
com monstros e mansos
com mancos e destros
com loucos e castos

terá de bailar
saiba que esta roda
pela noite toda
não há-de acabar
                (p.35)
 Dos Lieder, já em Schubert uma metáfora ou duas impressionam pela força que transportam, a par do seu mistério: a dos Três Sóis, e a do Velho do Realejo, que Helder Macedo também recupera. No caso dos três sóis, o artifício poético de Helder é muito interessante, pois actualiza a metáfora: serão os faróis de um carro onde os amantes se encontram, sendo que a lua, por cima, iluminará tal amor. Quanto ao velho do realejo, o seu rodar infinito evoca a Roda da Vida que na mística hindú desde sempre foi consagrada. Restam, para nossa perplexidade, os sóis de Mueller/Schubert. São três como e porquê ? Os eruditos afirmam que já muito doente, à data em que Schubert trabalha a selecção  de Mueller, teria, no seu delírio, visto uma tripla imagem do sol reflectida no gelo.
Pode ser. Mas também existe a ideia de que os sóis poderiam referir-se a amores vividos e passados, fazendo o poeta agora, no Inverno da sua alma, apelo a uma escuridão tranquila, definitiva. Helder Macedo recorda, em nota a propósito, que este sol negro poderia também ser uma evocação de Nerval (1808-1855) do poema El Desdichado, e do “Sol negro da Melancolia ”:
Je suis le Ténébreux,-le Veuf,- l’Inconsolé,
Le Prince d’Aquitaine à la Tour abolie:
Ma seule Étoile est morte, - et mon luth constellé
Porte le Soleil noir de la Mélancolie.
….
Nerval, o grande tradutor do Fausto de Goethe e de alguns dos mais belos poemas de Heine. E uma última possível interpretação:
que o terceiro sol seja o do poente, aquele que se deseja e supõe abismal,  variante do sol niger dos alquimistas, o negro de alma que não é mais do que a marca de uma profunda depressão, que em certos casos pode levar ao suicídio, ficcionado ou real.
Numa obra muito interessante,
FR: SCHUBERT, SA VIE, SES OEUVRES, SON TEMPS…de Hippolyte Barbedette, Franz Schubert (Musicien), Paris, 1865 – é referida uma carta do poeta Johann Mayrhofer (1787-1836) escrita em 1829, um ano depois da morte do compositor, em que se descreve a vida que levavam em conjunto, partilhando um apartamento que era “uma pobre mansarda” um sótão de tecto inclinado:
“ Só tínhamos um péssimo piano, uma pobre biblioteca, mobília miserável, pouca luz do dia! E no entanto passei lá as horas mais felizes da minha vida! Assim como a Primavera alegra a terra e lhe fornece a verdura e o sangue, também a força criadora do meu amigo alegrava e consolava os homens (…) O acaso, o amor da música e da poesia foram a nossa íntima ligação. Eu escrevia e ele cantava” (p. 29).
Mayrhofer, que morreu oito anos depois de Schubert, atirando-se da janela do seu escritório em Viena, foi com Mueller um dos seus poetas favoritos. Conheceram-se em1814, e datam de 1824 as primeiras composições líricas editadas.
Existem dele 47 Canções, bem como os librettos de duas óperas: Die Freunde von Salamanca (1815), e Adrast (1819).
Era Goethe quem comentava que o Romantismo era uma doença. E de  facto, tanto o amor doentio de Novalis pela jovem Sofie, como o de Mayrhofer por outra jovem, filha do seu senhorio ( um amor não correspondido) dão o tom da melancolia e da pulsão de suicídio destes artistas que Goethe admirava, mas de longe, do alto da sua Sabedoria, tendo já ultrapassado o momento das paixões convulsivas.
Só a título de exemplo, traduzo um dos poemas de Mayrhofer de que Schubert se ocupou:
Abschied / Despedida
Para lá dos montes caminhais
passando por verdes bosques;
mas voltais sem companhia,
Então adeus! assim mesmo tem de ser!

Separações, um adeus ao que se ama,
destroçam o coração!
Espelhos de água, bosques, montes, tudo desaparece;
oiço as vozes ecoando em todo o lado.

Adeus! Oiço o lamento,
parte-se o coração,
no adeus ao que se ama;
Adeus! Fico a ouvir o lamento!