Tuesday, May 09, 2006

G.KUNERT


Em 1983, um grupo de amigos germanistas decidiu dar a conhecer ao público português, com alguma regularidade, a poesia alemã do século XX.
GUNTER KUNERT foi um dos escolhidos, e na ed. Apáginas tantas, com ilustrações de Mário Botas, fez-se a 1. edição de 90 poemas.
O poeta nasceu em Berlin em 1929, e pode dizer-se que toda a sua vida foi dedicada à poesia.É considerado um dos autores da ex-RDA, mas a partir de 1979 é na Alemanha Federal que o encontramos a viver e a escrever.
No primeiro bloco de poemas, intitulado Recordação dum Planeta,escreve ele "Sobre alguns que escaparam" (referindo-se ao outro lado do sofrimento, o daqueles que também foram vítimas da destruição causada por uma guerra insana).

" Quando o homem
Foi retirado
Dos escombros
Da sua casa
Bombardeada,
Sacudiu-se
E disse: Nunca mais.

Pelo menos não já."

É bom ver que há sempre dois lados na moeda terrível dos confrontos sangrentos, antes de se fazerem juízos de valor que serão injustos se forem alargados e radicais.Com estes poetas da geração que fala, em vez de calar uma culpa secreta que não têm, se desenha de novo um caminho que é, no dizer de Kunert, para mais do que nós todos, um caminho que ambiciona erguer já um futuro.

"Para Mais do que Eu"

Sou aquele que busca
Um caminho.
Para tudo o que é mais
Do que
Metabolismo
Circulação sanguínea
Alimentação
Decomposição das células.

Sou aquele que busca
Um caminho
Que é mais largo
Do que eu.

Não demasiado estreito.
Não a via-de-um-homem-só.
Mas tampouco
A poeirenta estrada
Mil vezes percorrida.

Sou aquele que busca
Um caminho.
Um caminho para mais
Do que eu.

4 comments:

Rui Manuel Amaral said...

Eu tenho esse livro. É um poeta excelente.

Yvette Centeno said...

Que bom, Rui Manuel, que a poesia circule, seja lida e relida, é só o que os poetas pedem.

Musas Esqueleticas said...

Aproveito esta entrada para, partilhando da opinião de Rui Manuel Amaral sobre G. Kunert,lembrar um poeta também da ex-RDA, Johannes Bobrowsky, tão pouco falado e hoje dos meus afectos escolhidos da poesia do séc. XX. Está traduzido por João Barrento na colectânea Como um Respirar, Ed. Cotovia, 1990. É uma pena eu pouco mais saber de alemão que contar até vinte, ia à procura
da poesia toda de Bobrowsky (a tradução de J. Barrento parece-me bastante boa, sente-se).

Yvette Centeno said...
This comment has been removed by a blog administrator.