Wednesday, June 14, 2006

Pimenta, read & mad


De novo na &ETC.
Em 1984, a aventura continua.
Em READ & MAD Alberto Pimenta lança mais um desafio: à nossa cultura (discutindo as teorias e práticas de Marcel Duchamp), à nossa inteligência, à nossa sensibilidade.
Revela-se poeta anarquista e alquimista ao mesmo tempo, algo que só os espíritos tacanhos não serão capazes de entender.
Melhor do que Rimbaud, nesta obra que gosto de considerar um "study-case" de alquimia do Verbo, Pimenta une, funde, em gloriosa CONJUNÇÃO, o Verbo de Camões e de Pessoa, transformando em 14 novos poemas a sublimação inspirada dos poemas de que partiu, sem que deles nada se perdesse, mas tudo se transmutasse:
."..e nada mais há a acrescentar além dos exemplos.além dos exemplos mais nada, a não ser o sorriso silencioso em que se anuncia o gozo de finalmente ter chegado a compreender."

E aqui fica um exemplo, deixando-se à sabedoria do leitor o prazer de adivinhar de que poemas, de Pessoa e de Camões, nasceu a Pedra Filosofal oferecida:

" Que poderei do mundo, já querer?
Montes, e a paz que há neles, pois são longe?
Paisagens, isto é, ninguém ?

Tenho a alma feita para ser de um monge
Mas não me sinto bem,
Que naquilo em que pus tamanho amor
Não vi senão desgosto e desamor
E morte, enfim, que mais não pode ser.

Se eu fosse outro, fora outro. Assim
Aceito o que me dão
Como quem espreita para um jardim.

Pois vida me não farta de viver,
Pois já sei que não mata grande dor,
Se cousa há que magoa de maior
Eu a verei: que tudo posso ver...
Onde os outros estão.

Que outros?. Não sei.

Há no sossego incerto
Uma paz que não há,
E eu fito sem o ler o livro aberto
Que nunca mo dirá...

A morte, a meu pesar, me assegurou
De quanto mal me vinha; já perdi
O que a perder o medo me ensinou.
Na vida, somente desamor vi.
Na morte, a grande dor que me ficou.

Parece que para isto só nasci ! "

( Poema XI )

1 comment:

Cuga said...

Ter um mestre a falar-nos de outro é algo raro. Para quando o encontro prometido entre os dois?
Carla Castro