Sunday, March 31, 2019

Ainda e sempre, Lobo Antunes...




Longo texto de António Lobo Antunes, no Público, sobre a família. Descendem de gente pobre de outrora, uma ruralidade que depressa se transformou em nobreza, e alta e distinguida sociedade, com distinções, títulos, pergaminhos...talvez devesse ter começado logo por aí, pois quem o conhece sabe que ele tem clara consciência do que é, e de quem é, bem nascido, bem criado, bem sucedido na profissão, médico, e na sua arte da escrita, a que se dedicou depressa a tempo inteiro. Aludo a uma sua entrevista, em que para falar do livro, fala de si.
Sabemos que está ou esteve doente, terá vencido três cancros, como diz na entrevista à revista Sábado, mas antes dele morreu o seu irmão João, médico também, e ele sente a sua falta, pois eram mais do que irmãos, amigos.
O texto que leio hoje é como um longo apelo a ser amado pelos que partiram, e ali evoca: a avó querida, era assim que lhe chamavam, na casa de Benfica, muitas vezes referida, a família e talvez acima dos outros ainda o pai. Seria ele o preferido do pai? No meio de muitos irmãos? Deseja que o pai espere por ele, ali onde se encontre, algures numa esfera ou numa poeira do céu? Ou talvez o irmão, João?
Texto de apelo, de saudade de um amor que terá sido partilhado? Ele foi amado, mas terá amado de volta?E é dum imenso amor que agora tem saudade? Um amor a que deseja entregar-se, agora, sendo o seu corpo doente uma última dádiva?
O que somos afinal todos nós, nessa hora da partida, que tem de ser bem aceite, com dignidade discreta, mesmo quando a vida foi cheia de alguns tropeções indiscretos?
Morrer, mas com saudade já de ter morrido. Melancolia outonal.
Não é Meia Noite quem quer.
Até na morte de cada um haverá diferenças.
Lobo Antunes não diz o que sente.
Escreve sobre o que diz que sente...
 Encontro finalmente a sua citação de René Char, em La flute et le billot, de 1926:
“Muette est la pluie fine / Dans un sentier étroit / J’écris ma confidence / N’est pas minuit qui veut / L’écho est mon voisin / La brume est ma suivante”.
(Muda é a chuva fina / Num estreito caminho / Escrevo a minha confidência / Não é Meia-Noite quem quer / O eco é meu vizinho / A bruma a minha serva).
 Enquanto não leio aqui esse seu romance – mas a promessa está feita, e aqui virei “escrever a minha confidência”, não falto ao prometido, interrogo o olhar melancólico do autor sobre a sua escolha da imagem, que é poderosa, da meia-noite batendo as horas apenas para alguns, as horas da vida vivida, ou recusada, da escrita nocturna, em confidência, atravessando caminhos estreitos entre montanhas feitas de bruma mas onde permanece uma voz, um eco de uma voz que interpela o próprio dizer difícil.
Porque tudo é difícil, quando se julga que já tudo foi dito, e o impulso leva a que se diga mais, e muito mais ainda. Mas como, se na garganta apertada já escorrem tantas lágrimas, dos que partiram e dos que ficaram. A escrita é então um lamento que permanece, que se fecha em si mesmo, até que a palavra escorre, muda, no meio da “chuva fina”.
René Char adere ao movimento surrealista e participa em inúmeras actividades, que são apontadas na cronologia da edição definitiva da sua obra pela Pléiade, onde Lobo Antunes também está já editado, depois de Fernando Pessoa.
Com Breton, Éluard, Max Ernst, Aragon, outros (também André Verdet, pintor poeta debruçado nas estrelas e no pulsar do cosmos) René Char lê os grandes: “lecture des présocratiques, Rimbaud, Lautréamont, et des grands alchimistes” ( em 1930).
 Em 1959 é traduzido  para alemão, por Celan, com prefácio de Albert Camus. E a sua obra continua, com marcas que por vezes a tornam mais difícil de entender, pois temos que descobrir o movimento que a levou até lá, esse espaço de poesia que se pulveriza pelo caminho, formando no fim o Grande, o Eterno poema de que se fala sempre (Le Poème pulvérisé):
“La poésie est de toutes les eaux claires celle qui s’attarde le moins aux reflets de ses ponts.
Poésie, la vie future à l’intérieur de l’homme requalifié” (XXVI).
Ou ainda:
“Une rose pour qu’il pleuve. Au terme d’innombrables annés, c’est ton souhait” (XXVII).
Rosa alquímica, na chuva desejada. Tantas rosas mais tarde, em Char, como em Celan, tanto corpo lavado nas trincheiras da guerra, nos campos do holocausto, até que o poeta escreve L’ÂGE DE ROSEAU, A Idade de Bambú, e a noite surge, treva de um mundo que ele interpela:
Monde las de mes mystères, dans la chambre d’un visage, ma nuit est-
-elle prévue?
Cette terre pour navire, dominée par le cancer, démembrée par la torture, cette offense va céder.
Monde enfant des genoux d’homme, chapelet de cicatrices, avec tant d’êtres probables, je n’ai pas été capable de faire ce monde impossible. Que puis-je réclamer ! “

Falemos então do romance de Lobo Antunes, Não é Meia-Noite Quem Quer.
 É de 2012, podia, já que se tinha inspirado num verso de René Char, ser talvez mais cuidadoso com a narrativa fragmentada, exclamativa, interrompida por atravessamentos entre o modo surrealista (tentado)  e o realista (em excesso, demasiado descritivo nos espaços, por vezes )... com sonhos que vai buscar ou aos que teve, ou aos que anotou, dos seus pacientes. Recordo que o autor é médico psiquiatra, com uma longa carreira, mas sobretudo com grande preparação. Tem olhar meticuloso, como se impõe, ouvido atento às sonoridades. Tanto do que se diz, se reflecte no som, no tom, e mesmo nas formas de respiração e de silêncio. Ritmos, enfim. É melindroso lidar com sonhos, nossos ou alheios. Em cada sonho um pulsar que lhe é próprio.
Se é só para aumentar uma densidade de escrita que não torna a leitura nem mais fácil (mas não tem de ser fácil, é verdade) nem mais atractiva (isso teria de ser, por causa de quem lhe comprou o livro, e ainda quem para a edição o reviu, lhe fez um editing tão cuidadoso que a indicação do desejo do autor é um ne varietur...tal como para todos os outros da edição de Obra Completa), se foi só para isso é pena, pelo que se espera de um autor com Obra já tão vasta. Imagino como seria difícil,em inglês, ou mesmo em alemão, a língua do rigor e da profundidade, seguir esta Meia Noite em qualquer dos seus parágrafos, repletos de frases soltas, chamamentos sem consequência, repetição de letreiros de algum espaço de infância... alusões a irmãos (perdidos ou achados, mas sem o cuidado de lhes devolver uma genuína existência substanciada), começando, de modo quase provocatório, com uma primeira voz, a da Menina.
Menina. Evoca talvez Bernardim Ribeiro, a sua Menina e Moça? Num antiga entrevista, a propósito do que um livro é ou não é, comenta para o entrevistador: gosto muito de ler Dom Francisco Manuel de Melo, é ele que diz que um livro há-de ser do que vai escrito nele. E assim é, mas foi Bernardim Ribeiro quem escreveu.
Logo abaixo então um  parágrafo que deveria de facto introduzir a narrativa. Temos curiosidade, o que se vai seguir? Quem é ou o que é esta Menina com que se abre a leitura?
Uma menina montada num quadro de bicicleta que a magoa, adivinha-se que é de rapaz, mas o que deseja o autor dar a entender, com a repetição de que magoa? Insinuação sexual? (Ah Freud, que mal ainda fazes, por vezes! ) e para onde foram eles, com o autor, pedalando, pela vida fora?
A  propositadamente acelerada prosa, (marca de estilo? mas pelo esforço que exige o leitor sofre com isso, o seu leitor normal ) tampouco veio contribuir para que os fiéis seguidores, ou estudiosos, desta Meia Noite que ele quis ser, pudessem encontrar nela, algures, ainda que semi-oculto, um ponto fulcral, um centro luminoso, na sua imensa criação...um livro por ano, fielmente, sem parar...até este que nos é lançado agora, por via de um René Char, esse genial criador, desafiante, a que nem a perseguição nazi veio calar. A sua voz era ampla, por isso o amamos tanto.
Podemos, de um poema ou um verso, fazer um longo romance? De extraviado pensamento? Podemos, mas não sei se será este o caso. Outros dirão. Aqui o belo, o inspirado e aberto pensamento que nos faz voar, ficou-se em parte pelo título. Eu pelo menos queria mais. Quem sabe se é exagero meu? Queria mais...
A escrita de torrente, de surrealismo iniciático (quase) e sempre interrompida não atrai como se espera, para um melhor desejo de leitura. Não nos prende logo de início ( e todos os inícios são tão importantes...) pelo esforço a que obriga, sem resultado que intrigue, para continuação. E quanto a inovar, numa última página de brincadeira com uma frase roubada a um jogo de infância, já atrás repetida...”a tia atou”, fecha o livro, na intenção do autor, mas se lá não estivesse, como seria a reacção do leitor ?  Sentiria a sua falta?  Não há ironia bastante nesta obra, e é pena, pois os grandes abordam com ironia qualquer assunto, especialmente os mais sérios (penso em Boris Vian, L Écume des Jours, enquanto a sua mulher na vida vai morrendo de cancro...) Os grandes conhecem-se a si mesmos e aos outros, distanciam-se, guardam de reserva a enorme gargalhada de Deus sobre a sua criação, a pobre espécie humana, mesmo na figuração de um narrador (não digo escritor, não confundo as espécies), ou de uma narradora, apenas semi-biografada. Mas já lá vou, o assunto apesar de tudo é mais complexo. Porque nele o que sinto, e peço desculpa de antemão por esta opinião tão subjectiva, é que se tratou aqui de um permanente exercício (não desafio, mas exercício) de interrupção que interrogava, mas a que não queria, ainda que pudesse, responder. O autor pode dizer-me não tenho que responder, leiam, outros responderão por mim, se quiserem. Tem razão o post-modernismo tudo permite. Mas não é post moderno este seu romance, feito de tanta evocação, associação livre, por onde as palavras correm.
Na penúltima página lemos um sonho em que estão presentes pai, mãe, manos, ele, ela, o que se sonhou – ou de todos eles por ali, a ser sonhados. Pois como Lobo Antunes diz, a ficção não é o real é um jogo de espelhos.
Não somos todos nós o sonho( ou pesadelo) de algum alguém que nos sonha e nos deixa em suspenso, entregues a um destino fatal? Porque esse é o nosso destino, ser fatal, por ser mortal.
O fim na última página, fazendo o cap. 10, com a tia que atou, poderia ter servido para devolver à imaginação a possibilidade de atar reunindo por fim as vozes soltas. Contudo pouco importa, pois mais preciso teria sido desatar, abrir, em vez de fechar, soltar a torrente oculta da voz de uma Menina que finalmente iria surpreender, irromper, como em Joyce, no Monólogo de Molly Bloom, gritando o todo que lhe ia na alma, e mais ainda no corpo, até aí submerso num fundo de treva negra, o da voz  silenciada. Até pelo facto de ser feminina a voz da narradora, ser mulher, mas uma mulher de voz enfraquecendo.
Não é fácil ser poeta, e a prova está à vista: poetar na prosa pode tornar-se diminuição de algum prazer de leitura). Se nem todos são René Char, tampouco são Henri Michaux, aquele que faz remuer la nuit...(sugiro que se leia Darkness Moves, grande antologia de poemas de 1927-1984, em escolha e tradução magnífica de David Ball).
Esperava-se talvez que eu fizesse um resumo, mais do que comentário à opção da escrita, ou da narrativa, oscilando como barcaça no mar. Mas não faço resumos, deixo o que me ocorre, também a mim, em certos momentos da leitura. Leio para pensar.
Mas aqui (ah, a maldita cultura, sempre a maldita cultura) como não me lembrar da obra-prima, fundadora do Modernismo, que foi no século XX, Virginia Woolf, com WAVES, de 1931? Aqui sim nos embalam, num ondular de permanente inovação, as  6 Vozes dos que falam e nós seguimos, também por vezes com dificuldade. Ou não lembrar um ORLANDO, de 1928, desdobrando-se andrógino, de forma genial. Um clássico, de sempre.
Voltando ao nosso Meia–Noite que reconheço, ao tornar-se misterioso,  que merece mais atenção: como sempre são importantes, num romance, o princípio e o fim. Ocupei-me de Proust, num dos meus livros, a propósito de como ele inicia a sua longa busca do Tempo Perdido. Longtemps je me suis couché de bonheur. Durante muito tempo fui cedo para a cama. E procurei variantes que pudessem ser melhores para a tradução.
Aqui neste caso, de Lobo Antunes, é a Menina que me faz parar:
Menina.
E ainda  a Meia-Noite, com um jogo de sombras implícito, ou explícito, conforme. Lobo Antunes não se importa com o seguimento lógico dos acontecimentos, das referências, das personagens com que nos vai confrontando. Ou com o rasgão que abre nalguma paisagem do seu antigamente.
Das imagens saliento o mar ( Quand Freud voit la mer...), a noite em que o mar interpelava a narradora, a Menina, e aguardo, com a continuação da leitura, a menina a ser levada por alguém (um irmão) de bicicleta, e logo de seguida o pai, a mãe, uma avó e o anúncio de que haveria um casamento, o da narradora (Menina).
Volto a esta Menina, e ocorre-me, do LIVRO VERMELHO de Jung,o diálogo com a sua Anima, a Sombra, e de como ela adquire corpo, forma, voz. Interpela-o, desafia-o, obriga-o a olhar para o que fora a sua vida, a relação com o sucesso profissional, a relação com o corpo e alma dos outros, seus colaboradores, amigos, pacientes. Há um tom de censura, e Jung, humilde, reconhece a sua imperfeição, como ser humano que é, sujeito aos condicionamentos da vida. Dá ao sonho o lugar que é devido. Deixa que o inconsciente fale, através destas interpelações. Aqui se reconhece o Feminino nele, e o que me faz falta é que não se reconheça em Lobo Antunes o Feminino nele, apesar da narradora que escolhe para este seu problemático romance.
O que significa que é forte nele a consciência de si, como autor, como homem, e que é racionalizada toda a expressão que se fragmenta como se de alguma esfera onírica nascesse, sem que no entanto seja o caso. Ou não pareça que é.
Neste romance tudo é exercício, mais do que voluntário, voluntarista, nada deixado ao acaso do que poderia ser uma entrega à verdadeira noite, à verdadeira Sombra, ao mergulho no mar de um inconsciente que afunda.
Dito isto: ler é bom, ler faz bem, desafia, mesmo quando contraria, pois só quem nos contraria nos empurra para um pouco mais longe.
 Lobo Antunes fala e escreve como se fosse o centro do mundo e ninguém é, na minha opinião, o centro do mundo. Julgar-se isso é aberrante? Meu defeito.
Como lembra Nicolau de Cusa, só Deus é o ponto que está em toda a circunferência sendo em simultâneo o seu centro. Lobo Antunes terá lido Nicolau de Cusa ? Leu de certeza, porque é culto.





Wednesday, March 06, 2019

André Verdet, L'OBSCUR ET L'OUVERT

André Verdet (1913-2004)



Pego neste seu livro, que tem uma dedicatória muito especial, e vem-me à memória como foi importante, desde os anos 40, o seu percurso, como poeta, pintor, escultor e ceramista.
Resistente, durante a guerra que ia engolindo a França e a Europa, numa utopia de horror, recebeu a distinção de OFICIAL DA LEGIÃO DE HONRA, entre outras, como a Medalha da Resistência e da Deportação.
É pela poesia das estrelas e do universo que nos encontramos, embora as suas primeiras edições, em 1945 e 1947, com Jaques Prévert se devam à minha tia Guenia Richez, fundadora das Éditions du Pré aux Clercs. Conheci-o primeiro em casa dela, junto com Pierrot Prévert, nos anos sessenta. À sua mesa se reuniam poetas, pintores, criadores de todo o género. Este poeta, que admiro, foi mais um deles, e teve como mentores Prévert (que também conheci) e Cocteau cuja obra marca a vanguarda europeia de modo definitivo.
 Na sua biografia encontramos o episódio da resistência (no grupo"Combate", e a seguir no grupo"Acção Imediata") que leva à prisão pela Gestapo, em 1944 e à deportação, junto com Robert Desnos, para Auschwitz. Passado um tempo é transferido para Buchenwald. Num romance autobiográfico escrito na terceira pessoa, La nuit n'est pas la nuit , A noite não é a noite, dá testemunho do horror e da esperança que é preciso manter para lutar contra ele. Depois da libertação divorcia-se de Camille Parèze, que tinha desposado pouco antes de ser preso.
E aqui entra de novo uma evocação de família: Camille, pintora, foi amiga da minha mãe e da minha tia, e mãe de um grande bailarino, Patrick Belda, estrela da companhia de Maurice Béjart e meu grande amigo também. Morreu cedo, num desastre de automóvel, quando de madrugada se dirigia para Bruxelas, onde Béjart tinha sediado a companhia. Foi em 1965, e a mãe nunca recuperou do seu desgosto.
Em 1978 este poeta que ama todas as artes, funda um grupo de free Jazz, Betelgeuse, com o compositor Gilbert Trem, o dizeur Frédéric Altmann (que é também fotógrafo e crítico de arte) : diversão e liberdade total, dando concertos um pouco por toda a região de Nice e da Côte d'Azur. Terminam a carreira em Paris, com um concerto no Palais de la Découverte, em 1985.
A poesia de André Verdet, na sua vertente menos politizada, consagrou-se às estrelas, que já na infância tinham sido suas amigas e o foram novamente, consolando-o no céu nocturno de Buchenwald, num conjunto de publicações: 
Le ciel et son fantôme ( O céu e o seu fantasma), L'obscur et l'ouvert (O obscuro e o aberto, de que me irei ocupar), Détours (Desvios), Seul l'espace s'éternise (Só o espaço se eterniza).
É talvez em Edgar Morin que podemos encontrar a melhor abordagem da sua poesia:
" É a primeira vez que um poeta conhece e reconhece este novo universo; nomeia-o com termos forjados pelas ciências físicas, a saber palavras como partícula, átomo, molécula, gravitação, buraco negro. Mas ao usar estas palavras transforma-as em mitos, e no mesmo impulso converte os mitos mais arcaicos em astros, átomos, moléculas, partículas...mitifica a ciência e "cientifica" os mitos..estabelece um intercâmbio entre a rêverie poética e a descoberta científica, entre o imaginário antropológico e as coisas físicas. Uma viagem entre dois pensamentos fundamentais que funcionam em conjunto no nosso pensamento: o empírico-racional, das ciências, e o simbólico-mítico, que encontrou o seu refúgio na poesia (Edgar Morin, Verdeto-cosmologie, ed. Galilée, p.193).
Para além da poesia, Verdet trouxe ainda às Artes Plásticas uma grande parte da sua paixão. Conviveu, no seu tempo ora de Paris ora de Saint-Paul de Vence, ou Nice, com grandes criadores que o entusiasmavam a lançar-se na pintura, na escultura ou na cerâmica (como Picasso fez, em Vallauris ). Era amigo de Fernand Léger, de Braque, de Picasso, de Chagall, de Giacometti, a quem dedicou um poema. Nos anos 60 inventa uma técnica com uso de resinas de polyester, que dará o nome de Vitrificações aos quadros então produzidos, gouaches, pastéis, aguarelas ou óleos. Uma forma, dizia, que ajudava a reflectir a luz, melhor captada nesse processo. Os materiais também eram inovadores: fibras, fios, folhas, tecidos de  plástico - dando aos materiais da banalidade quotidiana uma dignidade estética que nem sempre os seus amigos procuravam, preferindo antes a aventura do objecto-pintura em si mesmo. 
Mais surpreendentes serão as suas COSMOGONIAS, quadros de grande formato, em acrílico, com versos de poemas inscritos pelo meio, que já antecipam o imaginário que vamos descobrir em L'OBSCUR ET L'OUVERT, a obra em que se exprime de modo algo hermético um cosmos nascente, uma terra oscilante procurando harmonia e equilíbrio que o homem não lhe dará.
A estes quadro Verdet chama os seus Quadros-teoremas. Para o crítico Pierre Restany esta poesia visual vai ao encontro da intuição sensível e da pesquisa científica "dando às equações da astrofísica, ou às formulações da energia, a carne e o sopro dos nossos sentidos, o ritmo alternado das nossas alegrias e das nossas dúvidas, a dialética fundamental da esperança" (Pierre Restany "André Verdet, peintre-proférateur"in Pierres de Vie, p.339 ).
A dimensão cósmica da poesia de Verdet é sublinhada por um astrofísico, Jean-Claude Pecker, que elogia a sua coerência e pertinência, escrevendo: " Nada no céu de Verdet que possa ser contestado por físicos ou matemáticos...Enriquece as nossas cosmogonias, ilumina os caminhos do céu, e o astrónomo retoma o seu caminho com um olhar renovado pelo olhar azul de André Verdet fixando o céu sombrio da Provence..." (Pecker, "Approche du Ciel et son fantôme", in Pierres de Vie, p.183 ).
Termino com uma citação, da escolha de Pecker:

Nous sommes sur le pont
Figurants d'une énigme
Oublieux du péril et faisant
Parfois des gestes dangereux
Nous regardons les étoiles
Elles nous rassurent
Et nous repartons
Tranquilles
Entre les deux parenthèses
D'un Cataclysme

Estamos na ponte
Figurantes dum enigma
Esquecidos do perigo e fazendo
Por vezes gestos perigosos
Olhamos para as estrelas
Que nos dão segurança
E vamos embora
Tranquilos
Entre os dois parênteses
Dum Cataclismo 

(Le ciel et son fantôme, p133)





Friday, March 01, 2019

UM DIA, diz a Mulher



Um dia
também eu sairei porta fora

caminharei nas ruas 
ausente de sentido
atravessando esplanadas
e jardins
bairros que não conheço

irei em frente
sem parar nas lojas elegantes
da Avenida
que pouca Liberdade tem

irei assim
perdida e sem destino
descendo
à beira-rio

quando me virem na água
darão então por mim














Tuesday, February 12, 2019

Hugo Mezena, AS VELHAS

Foi com João Borges que descobri o blog dos livros pela capa, e o trabalho de pesquisa e atenção contínua que se exige.
Pelas capas ele vai fazendo uma verdadeira história do design e do livro em Portugal. É magnífico ir encontrando preciosidades que marcam pelo estilo, pela inovação, (mesmo em tempos de adormecimento, só aparente...). Presto-lhe a minha homenagem, e desejo que continue sempre.
Vem isto a propósito de um livro, em breve a ser lançado, de Hugo Mezena, AS VELHAS.  A seguir a Gente Séria, não me espanta que tenha abordado, como se Beckett e os seus irónicos Dias Felizes se nos impusessem de novo, em tempos cruéis, de doença, distracção ou abandono, aos jovens que escrevem agora, e nos dão a ler o que nos espantará sempre: a vida, no seu particular e no seu universal. Não será por acaso que uma actriz merecedora de todas as atenções e distinções, como Cucha Carvalheiro, nos apresenta Dias Felizes, pela mão de Sandra Faleiro, numa representação que dói de tão certeira e actual.
Mas se em Beckett encontramos esta permanente universalidade, eis que em HUGO MEZENA, fixemos também o seu nome, e nestas suas VELHAS, narrativas curtas (short stories) iremos descobrir,  num olhar mais jovem e por isso mais distante, quase cruel na distância, um mesmo submundo de um particular oculto, encafuado em quartos, em lares envergonhados, que põe a nú a universalidade da condição humana: com a velhice, abandono e solidão. 
Raro, e marca sua de originalidade, é o estilo que adopta, sem grande preocupação de colocar um chapéu de definição de género: são narrativas curtas. Ou seja: de grande concentração, numa página ou duas, mete um mundo. E isso, sendo o mais difícil, é o mais notável. Porque a pincelada aqui, feita de poucos retoques e poucas palavras apresenta um quadro que é um painel inteiro, de memórias perdidas ou recuperadas de vida que se estendem, como roupa a secar, até que chegue a elas a maré negra que tudo submergirá. Roubei esta imagem, arcaica, verdadeira, profunda, a uma escritora que como eu é velha e declara que este será (eu diria apenas talvez, porque nunca se sabe...) o seu último romance: Margaret Drabble, The Dark Flood Rises, 20017, já com tradução  portuguesa. No Sunday Independent o crítico escreveHeartbreaking and hilarious, comovente e hilariante.
Esta associação que faço não é futilidade minha. Porque do livro do Hugo Mezena se pode dizer o mesmo, no seu tratamento das Velhas, muitas e variadas, mas com um ponto comum: o seu abandono à velhice é ao mesmo tempo comovente, ou mesmo mais, doloroso e hilariante (como em Beckett). Esta argúcia em alguém tão jovem como Mezena, faz com que me esqueça que ele é jovem, e a sua maturidade, quando o leio, me surpreende e encanta. Há no seu olhar, que fixa o detalhe como quem esboça num caderno o quadro que vai pintar, uma interrogação severa e que julga, ao mesmo tempo que ironiza. Rara e notável qualidade...


Impossível também não falar da capa, das suas criadoras, a Mariana Viana (Ilustração)  e a Patrícia Proença (Design) porque a capa e a contracapa merecem toda uma atenção que ainda agora, enquanto escrevo, me faz pegar no livro, contemplar tanta beleza e elegância num jogo de transparências de que surgem, como num sonho do longe, figuras de meninas de outrora, com bonecas de outrora, subtis, mas marcando presença, em contraste com a dureza do título. Aquelas Velhas foram crianças, brincaram, foram felizes, antes das mantas do frio vestiram rendas, bordados ...tudo ali se evoca dum passado outro, com um desenho de tão fina renda, tão fino bordado, que só não  dá vontade de chorar porque ali está agora, evocado num  presente que a mão das artistas recriou.
Que mais posso dizer, antes que a maré a mim também me leve?
Que ler é viver, e que a beleza e cuidado com que se trata um livro nos prolonga a vida.


Wednesday, January 16, 2019

Paulo da Costa Domingos, NARRATIVA


Da carta de Vitor Silva Tavares ao autor:
"Caro Paulo, 
Disseste-me que o teu livro não é aquilo a que se pode chamar 'um livro de memórias'. Em rigor  em rigor, acho que é e não é. Não é, por certo, um livro 'jornalístico'(o autor vai ali ao calendário da sua vida e dá notícia) mas é sim senhor, quanto a mim, um mergulho visceral - entenda-se, visceralmente poético, logo interventivo-naquele magma de impressões redivivas, experiências e encontros determinantes, obsessões e tramas que musculam mais que uma vocação - aliás afirmada - um sentido de e para a vida (plena). Encaixa o que tem de encaixar, rejeita o que afinal não passou de acidentes de percurso, necessários embora".
A Narrativa, de Paulo da Costa Domingos, publicada em 2016 com a chancela das edições ALAMBIQUE, chega-me agora às mãos e fico em estado de choque.
Desde que li, outrora, Lautréamont, que nada me surpreendeu tanto, pelo ímpeto, pela intensidade do que Vítor Silva Tavares chamou de vida redivivida,  frenética na evocação recuperada que interpela mas não atropela, prosa de mão corrida a acumular o que foram autores, o que foram leituras, o que foram no tempo do seu crescimento e afirmação intelectual os marcos mais importantes. Cortados pela vida? Claro, só quem não vive e convive com a poesia ignora que a vida está sempre ali, a vida nos corta ao meio, os poetas são os sobreviventes de inúmeras fugas e percursos ínvios, mas digeridos e aceites como aquilo que são e fazem de nós o que somos.
Li, pois, de um fôlego, e espantei-me: pela originalidade de uma narrativa que expõe, e se impõe. Regressei ao tempo que era de Vítor, que era de Paulo, e que foi o meu. Um tempo que, se por um lado se dava ao ambiente usual deste país, dele se afastava, em segredo, profundamente.
Até ao citar Asger Jorn, o pintor da Internacional Situacionista, de quem falo em AMORES SECRETOS, fundador do movimento Cobra, o figurativo expressionista, como ele se auto-intitulava, tropeço, pela mão de Paulo Costa Domingos, no meu próprio passado. E contudo não nos conhecíamos ainda, ele já no oculto meio editorial dos poetas preferidos, eu longe, em França, a minha pátria primeira, na cultura que me formou.
De longe, como descubro agora, íamos coincidindo.
A Narrativa tem, como no Ulisses de Joyce, um vocabulário muito próprio, de marca surrealista no seu deslizar só aparentemente automático, onírico, mas ao mesmo tempo muito trabalhado, carregando leituras e culturas oriundas de outras esferas, ainda não divulgadas em Portugal, o país dos esconsos caminhos, dos muitos sonhos perdidos.
Viajamos com Paulo por outros países, outras linguagens, vamos com ele à descoberta do que ele decide só agora contar. Talvez porque a morte de AL BERTO nos tenha ferido a todos e ao evocar a sua presença feita de tanta ausência (quem o lê, hoje em dia? ) sintamos o desejo de falar, de dizer, de afirmar que há um avesso na vida, e dele, sem saber, todos nos fomos alimentando, enquanto à vista parecia que se morria à fome. Alguns morriam mesmo. Outros resistiam.
Esta Narrativa é um gesto de resistência.
Nascido em 1953, Paulo, mais novo do que eu tantos anos, pela sua mão me faz agora recuperar algumas das minhas memórias antigas.
Espanta-me, como Henri Michaux me espantava, em Paris, tinha eu 15 anos. Ou mais tarde Jean Genet, com Notre Dame des Fleurs resguardado por Prévert. Ou Violette Leduc - a prosa do maior sofrimento, na maior entrega. 
Narrativa é uma obra que se impõe ler, pelo menos aos que ainda estão vivos, da minha geração. Lá dentro navegamos, chegamos ao bom porto que nos ajudou a viver, dentro e fora de nós.
E quanto aos mais novos - esses, ao ler, aprenderão tudo o que lhes falta:
a dimensão da vida, da cultura, da expressão numa linguagem directa, limpa de inúteis excrecências, que vai à raiz das coisas, das situações evocadas, ao núcleo duro onde se forma a palavra poética. Poesia não é lamechice nem sentimento pingão,  a palavra poética é dura, é resiliência, é discurso veloz despido de fingimentos. Tudo é verdade, na palavra poética, mesmo a pura invenção.
Paulo da Costa Domingos não desiste.
Conhece o livro de há muito: no chumbo das antigas tipografias, na arte da concepção e do design inspirado, no bom papel com boa letra, legível até para os olhos mais cansados. 
Que mais posso dizer?
Que vou reler a sua Narrativa, uma e outra vez, que ele dividiu em anos, estando agora em 1996 e segs. E anunciando uma continuação.
Não sabe, pois nunca falei disso, que eu também escolhi como forma de resistência o continuar a escrever. E a ler, por isso aguardo a sua continuação:
"Ah, sem o magnetismo da Arte todo o real ficaria mudo, e somente passado...A clareza procurou-me e quis habitar comigo. O propósito alçava--se à palavra. Evoluí...Aqui cheguei; sou. E vós, que mais novos sois do que eu, constituís o meu passado. Espero, não demoreis demasiado a chegar até mim". (p.113). 
Eu cheguei, no termo da minha idade.
Outros, os jovens, deverão fazer o mesmo.








Friday, January 11, 2019

Mariana Viana e o Físico Prodigioso de Jorge de Sena




Mariana Viana e o Físico Prodigioso de Jorge de Sena

 Pego no que chamo o LIVRO DE OURO.
É preciso rasgar o papel (que pena...) e abrir uma caixa, desdobrar um livro que é tanto para ver como para ler, pois estamos perante uma original concepção que envolve texto e ilustração, fazendo deste objecto algo surpreendente um livro de Arte, um livro de Artista, no pleno sentido da palavra.

 

 Um ilustrador não é alguém que se limita a reproduzir com desenhos, melhor ou pior, o texto que lhe foi dado a ler.
É alguém que o interpreta dando-nos a ver uma outra realidade, filtrada não apenas pelo sentido da narrativa, mas sobretudo pelo seu próprio imaginário, que se abre e nos abre a outras sugestões, novas e inovadoras imagens que a leitura normal, só por si, não permitiria.

 

É certo que também a leitura não deve, nem pode ser, de sentido único. Porque a escrita não o foi. O imaginário do escritor, e em especial referindo-me a esta obra de Jorge de Sena, é aberto, é variado e múltiplo e exige um olhar igualmente aberto e variado. Não terá sido fácil trabalhar sobre uma narrativa tão apoiada em tanta erudição, prosa arcaizante, ambiente medieval, personagens que são intermediadas pela lírica de Amor, por trovas da tradição popular, (sublinhando Sena que são recuperações, mas de sua autoria) e ainda por referências implícitas que nos é impossível ignorar, ao Fausto de um Goethe que Jorge de Sena bem conhecia, e do qual recupera o grande tema central da paixão e entrega ao amor e à vida, embora o enquadre em ambiente cavalheiresco de aventuras que não serão já lidas no nosso tempo, que perdeu memória e cultura.
E estará na hora de reler...
O leitor segue aquilo que o autor propõe. Mas não se diz que uma imagem vale mais que mil palavras? E assim é. A imagem vai directa à emoção que provoca, de repulsa ou maravilhamento, faz apelo a outras estruturas do nosso cérebro, Jung falaria de sub- ou de in-consciente, individual ou colectivo.
Explicando melhor, sem querer impôr a minha opinião, neste caso da obra de Jorge de Sena, ilustrada por Mariana Viana:
O texto é do domínio da razão, da consciência racionalizante daquele que escreve, enquanto escreve. A pintura (neste caso a que agora me refiro) ilustra o sentido emocional da reacção que o texto provoca, e eleva-o para um outro patamar, de um Belo não-racional, mas apesar disso fiel à matéria ali posta por escrito. E recupera mitos e arquétipos que traz à luz do dia, arrancando-os da sombra em que estavam enterrados.


Lidamos, sem dar por isso, se calhar, com duas esferas que se completam –mesmo quando aparentemente se antagonizam: um texto realista, com ilustrações abstractas, modernistas, por exemplo. Ou desenhos realistas para um texto surrealista. Nada é impossível, a questão é que se encontre o fio desta meada que nos conduz de um a outro momento da inspiração de um e outro artista. A imaginação criadora do escritor é livre, mas livre é igualmente a imaginação do ilustrador.
A palavra abre a imagem, e a imagem devolve-nos à palavra. A palavra conduz-nos pelo mundo das ideias, a imagem conduz-nos por outras formas que mais do que ideias (racionais) serão puras emoções e quase não precisam de sentido, apenas de empatia, o Belo não pede respostas, mas adesão emocional.
Jorge de Sena não facilita a vida ao seu ilustrador. A sua cultura, a sua erudição, enorme, aprisiona, em vez de libertar.
 E a mão de quem pinta, nestas páginas de O Físico Prodigioso, serviu-se igualmente da sua cultura e do seu imaginário, sem peias, variando de esboços só aparentemente simplificados, no claro escuro que evoca um Munch e as suas figuras esquálidas, até à côr forte, de pincelada intensa, evocando Kokoschka, de um expressionismo que se afirmou quase violento para a sensualidade pedida.
Deparamos com um par Andrógino que não tem a riqueza esplendorosa do Beijo de Klimt (mas revela o seu conhecimento), nem tem a ternura do Casal Vieria-Arpad (mas revela igualmente o seu conhecimento). E o que demonstra é que no pintor, o Ilustrador, neste caso, tanto como no Escritor o que temos presente é a Cultura: será preciso aludir ao mito do Andrógino, de Platão?
Voltemos às Ilustrações, ao conjunto de pinturas escolhidas:
São pinturas que sublinham, pelo excesso, por vezes com um toque surrealista (sim o imaginário à solta, como desejaria Breton) a abordagem feita por Sena de múltiplos estilos, prosa, canções (uma erudição não contida), de um realismo arcaizante e belo, ao mesmo tempo. Surpreende, não aborrece. E ajuda a ampliar a narrativa.
Jorge de Sena escreve, na Nota Introdutória ao livro, de que retiro extractos:
“Este O Físico Prodigioso teve a sua primeira edição, quando foi incluído em Novas Andanças do Demónio, colectânea de contos meus publicada em 1966. Descoberto como “conto fantástico” poe E.M.de Melo e Castro, foi incluído na reedição, por ele preparada, da Antologia do Conto Fantástico Português, de 1974. Aquele físico, (ou médico, ou mágico, no sentido medieval e ainda ulterior ) que eu criei, como símbolo da liberdade e do amor, quando escrevi dele em 1964, no Brasil, retoma enfim a sua independência, e sai sozinho pelos caminhos do mundo, tal como aprece na narrativa que é sua. Ocorre-me que lhe cumpre andar sozinho nas mãos dos leitores, como sucedeu com o ilustre Malhadinhas de Aquilio Ribeiro, saído também das páginas do livro de contos em que primeiro aparecera”.


O autor compraz-se na independência que o seu conto adquiriu, em nova edição, porque este físico é, como ele diz, “ meu muito bem-amado filho entre outros, e que sempre tive por como que um ‘alter ego’ ”.
Segue defendendo, ao contrário da elogiosa definição de Melo e Castro de “modelo” para o seu conto, abrindo o conceito a uma “fusão de invenção própria com o mais profundo da natureza humana, parte do que é o inconsciente colectivo e comum a várias civilizações, muito do que é ‘popular’, ou o foi e ainda significa” (p.9). Refere depois uma das suas fontes, o Orto do Esposo, texto anónimo do século XV que, como erudito honesto que é, nunca deixaria de citar. Mas fá-lo para desde logo para o demonizar e fazer divergir do original, actualizando-o, a seu modo, e tornando-o universal e arquetípico. Alude ao que já verificámos, mas explica melhor: “experiemntalismo narrativo, jogando com o espaço, o tempo, repetição variada do texto, etc.
é uma das bases essenciais desta novela, como o é a Idade Média ou algo de semelhante, fantástica, em que a situei. Esta “época” permitia-me uma liberdade de imaginação em que o fantástico, com todas as implicações eróticas e revolucionárias como eu sentia ferver em mim na pessoa do físico, podia ser usado para tudo” (p-11).


E assim temos a mão livre de Mariana, que aborda a narrativa com as cores e projecções do seu imaginário, livre também, mas igualmente impregnado de uma cultura visual que faz parte do século XX , a sua primeira metade, em que imperam liberdade, por vezes libertária, mas sempre de grande inovação criadora. 

Yvette Centeno