Wednesday, November 20, 2019




Notas de um diário
(para o Sérgio Ninguém)

Escrevi no blog de simbologia e alquimia sobre o último livro do Sérgio Ninguém, da Eufeme, uma cuidada e belíssima edição, livro pequeno, como gosto tanto de os ler, O PESCOÇO NA NAVALHA, poemas de 2016 a 2019.
É o livro que o salvou, ou o fez atravessar, pela palavra poética, uma funda depressão. Todo o imaginário é negro, e o seu dizer, puro e seco não se esconde em formas mais elaboradas e suaves ( o que seria um desastre) tentando envolver o seu discurso numa elegância fictícia.
Aqui não há fingimento. Não esconde, não disfarça, não facilita leituras.
Sérgio Ninguém pertence a esta nova geração de poetas libertos que agora vou descobrindo, com um prazer enorme. Não se pode ser todo o tempo um repetidor de Pessoa, ou de outros dos nossos grandes, dos vários movimentos, do Modernismo ao Surrealismo e ao post-Modernismo que inovou, provocou e também se esgotou na devoração que se fez de um Herberto Helder, por exemplo.
Não, com esta geração a que Sérgio pertence, descubro novas linguagens, não estão presas, nem querem, ismos de qualquer espécie. E por trás da linguagem o que ela significa: uma nova e por vezes brutal relação com o mundo, os outros, sejam eles quais forem, e acima de tudo consigo mesmo. O poeta já não se esconde, expõe-se, como diria Celan ( aquele que a seguir a Pessoa mais me tem interessado e influenciado : traduzi-lo foi uma aventura que me ensinou a chegar ao osso da palavra, a lavar o cadáver do corpo poético com que nos confrontamos de cada vez que escrevemos. Uma a uma ir despindo as palavras que cobrem o cadáver.
E expô-lo assim, na sua nudez tão afrontosa. Que não haja piedade, pois não há homem nem  deus que nos ensine a ter piedade.
Sérgio coloca o pescoço na navalha. Imagem cruel, a que não poupa o leitor: a cada momento poderá dar-se a morte, esse corte suicida, e o sangue por ali se escorrerá, fazendo poça no chão, o mar da vida assim interrompida. Este conceito, ou este sentimento – afinal a poesia também é sentimento – da interrupção é importante no discurso poético. Não fomos feitos para uma edénica eternidade bem-aventurada? Que crime, que traição, que pecado tremendo nos deu um castigo de que o próprio deus, depois se arrependeu, dando o seu próprio filho em oferenda?
Vem logo à memória o célebre poema de Blake nas Songs of innocence and experience, tão terrível, de garras que se cravam tão fundo, e o tornam quase intraduzível, TIGER:

Tigre, tigre, fogo ardendo
na escuridão da floresta,
que olhar eterno ou que mão
tão temível simetria desenhou?

Em que céus ou profundezas
arde o fogo dos teus olhos?
E ele, que asas deseja ter?
Que mão ao fogo se atreve?

Qual o ombro, qual a arte,
Que o teu coração torceu?
Ao começar a bater,
mão terrível, pés de horror,

que martelo e que corrente?
O teu cérebro, em que forno?
Que bigorna e que tormento
te prenderam ao temor?

Quando as estrelas suas lanças depuseram
e o céu com as suas lágrimas molharam,
sorriu Ele perante a obra?
Ele, que fez o Cordeiro, também a ti concebeu?

Tigre, tigre, fogo ardendo
na escuridão da floresta
que olhar eterno ou que mão
tão temível simetria em ti ousou?

A interrupção tinha sido fatal. O Tigre, mais do que a Serpente, tornou-se dono e senhor da criação, e agora Sérgio, que está atento, socorre-se do Apocalipse de São João, que no seu delírio visionário descreve a Besta e o seu número sagrado, 666, ironizando pelo meio dos números da criação (os seis dias que durou, descritos no Génesis) com uma canção popular inglesa, a dos ratinhos cegos, que me dispenso de citar aqui. Porque a imagem com que o poeta nos deixa é para levar a sério, são ratos, e não ratinhos, e são manifestação dos mortos que os Mestres deixaram para trás (“ Já não sei se os mestres ouviram os mortos....”) são ratos cegos “que procuram o tiro na cabeça”. Brutal esta imagem com que termina o poema.
Não hesita em gritar que não há salvação, talvez nunca tenha havido.
A interrupção causada pelo drama que teve lugar no Génesis foi ferida sem cura. A serpente apontou o caminho de um Conhecimento que estava proibido. E na verdade, hoje como ontem, continua fora do nosso alcance.
Termino com um último poema, que pertence já ao ciclo do Epitáfio:
Sou um interior sem vida -
uma pedra sofrida
num poço sem cobras encantadas.




Saturday, November 09, 2019

IMPROVISANDO, para ouvir melhor e sempre, A NOVA GERAÇÃO DO JAZZ


Hoje foi um dia feliz: recebi o livro da Cristina Carvalho, sobre Ingmar Bergman, e o livro do Jazz da nova geração, de Nuno Catarino e Márcia Lessa, IMPROVISANDO. Capa e design gráfico de Cláudia Rodo, terceira mão de artista, que por aqui também entra, com o seu swing de cores alegres. A mão protectora foi de Inês Cunha, Presidente do Hot Clube de Portugal.
Vivi muitas noites de grande música de jazz, nos anos 60, quando pela mão de Luís Villasboas vinham a Portugal, e ao Hot, os maiores músicos do mundo, e era a ouvi-los que as gerações aprendiam, ou melhor, sentiam, o que eram as linguagens musicais variadas, originais, diferentes. A ouvir se evoluía, e a participar, o que por vezes acontecia (os grandes eram generosos, e as noites eram longas) se crescia musicalmente.
Neste livro temos o testemunho da mais recente geração de jazzistas que Filipe Melo, na contracapa, define como a mais livre criativa e dinâmica da actualidade. O que move estes criadores? O que moveu todos os outros, de antes, e moverá os seguintes: o prazer de tocar, o trabalho e a curiosidade. Penso como é importante, em todos os domínios, este factor da curiosidade: querer mais, sempre mais, para depois a voz de cada um se tornar firme, e original, com um som que é assinatura própria, e logo se reconhece mal se sentem ao piano ou levem à boca o seu sax, o trompete, ou o que fôr.
Filipe Melo, o pianista que nos veio de longe, dos EUA onde tudo acontecia, é um grande exemplo da importância de saber e querer sempre mais, no domínio da Arte, musical ou outra: é ainda realizador de cinema e autor de banda desenhada.
Como ele diz, "o futuro, a partir de agora, não tem limites". E porquê este agora? Porque tudo evolui, tudo se tornou global e convivial, e com mais conhecimento (aqui entram trabalho e curiosidade) o jazz das novas gerações improvisa sem medo, arrisca, corrige, se fôr preciso, retoma o que tinha perdido...e segue em frente.
Que venham a seguir mais entrevistas, mais jovens como estes (fotos lindas...) mais um livro.



Sunday, October 27, 2019

Fausto, de José Manuel Castanheira, um livro de artista




José Manuel Castanheira: Fausto revisitado em Mefisto...
O mito de Fausto, que no século XVI pela mão de Marlowe adquiriu dimensão universal foi ampliado com Goethe muito para lá da tentação do poder da Magia e da perseguição do Belo, oferecendo à nossa reflexão um poder maior: o da Livre Escolha entre o Bem e o Mal, e o da transformação do mundo pela crença no valor do Trabalho, no Serviço dos outros, já na segunda parte da tragédia, onde está cego e Mefisto espera vir a roubar-lhe a alma.
Se nas primeiras formas, nos primeiros momentos, tudo se centra no egoísmo do desejo (Fausto irá, ainda que sem se dar logo conta, sacrificar Margarida ao seu desejo) já na segunda parte da tragédia Goethe, bebendo nos ideais do século XVIII de Liberdade, Igualdade e Fraternidade que adoptou como maçon, orienta o seu pensamento para uma esfera em que Mefisto, o demónio tentador, não poderá penetrar. E assim se salva o herói, e é Deus, que no seu alto trono ganha afinal a aposta, feita no homem e nessa qualidade só dele de querer sempre mais, numa luta incessante pelo Conhecimento.
É por aqui que seguirá Fernando Pessoa, o poeta da interrogação e busca permanentes. Evoco os versos que já em 1913 traduziam um pendor filosófico marcante, em Além-Deus:
Olho o Tejo, e de tal arte
Que me esquece olhar olhando,
E súbito isto me bate
De encontro ao devaneando –
O que é ser-rio, e correr?
O que é está-lo eu a ver?
( I, Abismo)
 A interrogação sobre o Eu, esse eu que se perde num devaneio que súbito permite uma iluminação (o encontro com Deus) é muito semelhante às interrogações de Fausto, em quem Pessoa concentra perplexidades e interpelações, negação e busca permanente, nos fragmentos que nos deixa. Se tivemos em Marlowe, ao gosto renascentista, a perda da alma em troca de uma beleza antiga, a da Helena clássica por quem tantos deram a vida, e em Goethe a aquisição de um saber alquímico, hermético e profundo, figurado no Eterno Feminino, e no valor do Símbolo como portão do Uno e do Todo, Pessoa, que leu Goethe (está na sua biblioteca pessoal) não consegue elaborar um verdadeiro sistema que contenha uma lição paralela à dos outros, ainda que de pendor modernista, logo mais céptico e de leitura mais aberta. O que nos deixa, e só podia mesmo ser  desafio incompleto, fragmentário, é um conjunto de interpelações, de interrogação sobre a essência do ser e do eu, a que os seus versos não darão nunca resposta.
Podemos aqui louvar a arte do fragmento, como fez Novalis, o grande romântico, contemporâneo de Goethe, ou a utópica busca da flôr azul, também ela, como Deus, mistério inacessível. Mas na inquietação de Pessoa há mais do que isso. Um Fausto que é seu alter-ego, e cuja busca assumirá outras formas, outros nomes (os múltiplos heterónimos) dos quais terá sempre consciência, enquanto a de si próprio se esvai. O que é ser ele, e estar ali diante do rio, a vê-lo? Ou seja, o que é ver o rio (ter consciência de outro, de outra coisa) enquanto em simultâneo desperta a consciência de si?
Consciência é a palavra-chave, a porta que se  abre para o conhecimento.
Entre os papéis que se encontravam na famosa arca, e que tanto trabalho deram a alguns estudiosos que organizaram e decifraram uma letra por vezes muito difícil, há um conjunto que nos interessa especialmente, para este caso do Fausto :
” O conjunto do drama representa a luta entre a Inteligência e a Vida em que a inteligência é sempre vencida. A Inteligência é representada por Fausto e a Vida diversamente...” ( Teresa Sobral Cunha, Fausto, ed. Relógio d’Água, p. 11).
Falemos da Vida, como faz Mefisto, numa conversa com o estudante que procura a sabedoria junto de Fausto: “ Pálida, amigo, é toda a teoria / mas a árvore da vida é verdejante” (Paulo Quintela, ed. Universidade de Coimbra, p.89).
Já Fausto se declarara, de ínício, cansado e farto de tudo o que tinha estudado ao longo dos anos, e o tornara sábio em matérias várias, como a filosofia, a teologia, a medicina, o direito, para concluir que não passava de um tolo: “ Eis-me aqui agora, pobre tolo, / tão sábio como dantes! “ (p.29).
Reconhece afinal, como Pessoa, que nada conhece, e que é chegada a hora de outra coisa:
“ Teu mundo é isto? Chama-se a isto um mundo? “ (p.30).
Espera, da contemplação do signo do Macrocosmos, uma revelação que o ilumine. Mas não há ali ajuda. Segue-se o sinal do Espírito da Terra:
“ Tu, ó Génio da Terra estás-me próximo!” (p.32). E por fim, a invocação do signo do Espírito, que lhe surge numa chama avermelhada, mas a que Fausto, aterrado, não resiste:
 “Sinto / que o teu aspecto suportar não posso!” (p.34).
E Goethe deixa-nos então com o enorme desalento do seu herói, tão ambicioso de início, tão desapontado agora:
Fausto- Tu, que o mundo vastíssimo circundas,
Quão perto sou de ti, potente Espírito !
Espírito- És igual ao espírito que entendes,
A mim não!
 Com este imenso anseio de alcançar algo mais, muito mais, do que um saber cinzento, se expôs Goethe a Pessoa, que o leu , entrou em diálogo com ele, por assim dizer, e tentou ir seguindo o seu caminho. O da Inteligência, como diz, que a Vida iria derrotar. Iria, mas não foi. Em Goethe ganhou a vida, no final da tragédia, luminosa e simbólica na sua integração. Em Pessoa não se chegou a uma conclusão final, os fragmentos deixam indícios do possível, mas permanece sempre a interrupção de uma inteligência que interfere, reflecte e obriga a reflectir, mas não ilumina nem resolve. No poeta a consciência é disruptiva, não é unificadora. A sua dedicação ao esoterismo, a sua curiosidade imensa, que nem a magia de um Crowley satisfaz, leva-o a ler, a ler tudo o que encontra nestes domínios, mas ao contrário do herói de Goethe o Fausto de Pessoa não se entrega, e quem não se entrega não recebe nada de volta, a não ser inquietação, dúvida, e por vezes revolta. Mas até para a revolta é preciso convicção...
 Retomo, porque me agrada uma versão um pouco mais fiel, a minha tradução da afirmação de Mefisto ao estudante que pretende ser orientado pela sabedoria de Fausto, e que o diabo ali finge ser, ocupando o seu lugar:
“ Cinzenta, caro amigo, é toda a teoria, / ...e verde a árvore de ouro da Vida. É importante a afirmação de que é de ouro a árvore da Vida, e que se contrapõe ao cinzento de toda a teoria. Em Goethe o ouro é o ouro alquímico dos filósofos herméticos, o verdadeiro símbolo da alma sublimada, que também Pessoa tinha lido, nos volumes de A. E.Waite ( The Hermetic Museum, Londres,1893, reed. 1994).
Falemos agora de José Manuel Castanheira e das sua pinturas sobre os fragmentos do Fausto de Pessoa que melhor apontavam os segredos e os anseios da obra do nosso poeta maior.
1
Logo na primeira,  a escolha da côr com mistura de treva, para um diabo que sob asas imensas abraça um mundo que é seu, como que define José Manuel o tema central de toda a obra: a aposta de Deus no céu e do seu apesar de tudo fiel companheiro, pois conversam à vontade sobre a espécie humana, e o mundo que ela habita. Será este globo azul o da purificação? Ou o da morte negra, da ilusão esvaída, do Nada em que tudo cai e se desfaz?
Esta é uma primeira imagem–resumo de um sentido simbólico, profundo, que será necessário ir descodificando, com a ajuda dos outros. Deus permitiu que o Diabo tomasse conta do mundo e da espécie que o habita e Fausto-Pessoa-Mefisto vai interpelar?
É uma figura ambígua, hermafrodita, ainda presa ao céu por umas cordas, que a consciência de si que o poeta–adepto adquire poderá romper. Ou com ela afundar-se, aniquilado pela sua impotência, proclamada (como naquele fragmento em que contrasta Inteligência e Vida).
Esta primeira imagem com que o pintor nos inicia à sua leitura da obra do poeta, merece um comentário mais aprofundado, do ponto de vista simbólico. Este demónio vindo do céu, ou preso ainda a ele, remete para arquétipos primordiais, da criação do mundo, da criação de um Adão ainda hermafrodita, de cujo corpo feito de lama, e a seu pedido, Deus irá moldar, esculpir, várias mulheres, imperfeitas e que o primitivo homem recusa.
Terrível é aquela que é remetida para um longe que assemelhamos às treva do inferno, um espaço de castigo, de afastamento que a levará a congeminar as piores vinganças contra quem a afastou. Com esta imagem quase brutal, na força que as asas segurando o mundo nos revelam, teremos de contar. É o aviso, é o que diz Castanheira, que tratará a narrativa pessoana de forma aberta e livre (nem de outro modo poderia ser) mas deixando sempre em fundo a pulsão de uma consciência que se procura e se esgota em perpétua interrogação. A relação de Goethe com o Feminino, é a de um desejo que se vai sublimando. A relação de Pessoa com o Feminino é complexa, de difícil aceitação, como a do homem primitivo na discussão com Deus. Teria de trazer para este nosso diálogo uma nota escrita há algum tempo, no meu blog de simbologia e alquimia, citando um belo estudo de Robert Graves, Les Mythes Hébreux (1987) sobre como os arquétipos do Feminino se constituíram há milhares de anos, no imaginário da espécie. E se para alguns o Feminino conduz e ilumina, até hoje pode ser para outros objecto de pavor e recusa.  Não é integrável, é antes disruptivo de uma consciência, como a de Pessoa, que se interroga em dúvida permanente. Outra leitura aconselhável seria, de Siegmund Hurwitz, LILITH, the First Eve, sobre o Feminino negro (ed. Daimon Verlag, 2009).
 2
O reflexo no espelho traz, como em Oscar Wilde, no Retrato de Dorian Gray, o negro escondido da alma, o horror recusado.
Mas não por muito tempo.
3
Fausto aspira ser mais do que é, na contemplação do Cosmos, na evocação do Espírito com o qual se sente identificado, algo que a voz do Espírito brutalmente lhe nega: ele é só o que é, e não mais. Falta-lhe centelha divina. Essa luz poderá vir mais tarde, pelo sacrifício de Margarida, pela revelação do Eterno Feminino desejado e alcançado, definido como o canto estelar do Símbolo.
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Dormir abraçando o mundo...
Entregue a uma vida maior, feita de busca  e quem sabe talvez um pouco de amor, que não seja o cavalgar de uma noite de Walpurgis, de uma Mefisto enganador...
Leiamos o texto DORME, pois no sono, mais do que no sonho, se escondem os mistérios, os arquétipos da Vida, que derrete o gelo da Inteligência...
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E sigamos com a divisão que o sonho introduz no sono...ou não fosse o poeta a súmula de tudo e dos seus contrários, tentando na divisão o Uno e o Todo que Hermes já definira na Tábua de Esmeralda: “o que está em cima é como o que está em baixo” fazendo deste mundo, que o Diabo não abandona, o reverso espelhado do mundo celestial, de onde afinal desceu, e do mundo infernal, a que a Barca da Vida o pode conduzir.
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Há nos textos que também vamos seguindo, uma alusão às Tecedeiras, que em Goethe são as Mães, e que todas tecem a Vida. No escuro dobam, enrolam, cortam os fios que serão do Destino: Inteligência (Conhecimento) ou Vida? Negro chumbo ou ouro puro?
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A consciência de ser ( “o que é eu estar a ver o Tejo a correr?” ) não impede o naufrágio da Vida, são demasiados os escolhos, poucas ou nenhumas as escolhas, que afinal se oferecem. A Água, elemento salvífico, dilui, mas não sublima.
A sublimação virá da última magia das pétalas das rosas com que os Anjos, dispostos a salvar a alma de Fausto, vão seduzir o Diabo. Mas em Goethe, não em Pessoa, o do desassossego sem fim. Retomando a linguagem da simbologia alquímica, Goethe era solar, Pessoa era lunar, e nesses opostos se uniam...





Sunday, July 28, 2019

Tchiangui Cruz, guardados numa gaveta imaginária...

É um livro de poemas. Como sempre, nestas edições da Guerra e Paz, uma edição elegante, cuidada, que dá gosto segurar na mão, antes de abrir. Durante a Feira do Livro, alguém entrevistado dizia, sim, compro muitas vezes um livro só pela capa. Não é proibido, e sempre compra o livro. Espera-se que depois, quem sabe, o leia. Eu compro de forma diferente (embora goste de bonitas capas, faz parte de uma edição bonita): Vejo o título, que já é em si mesmo um indício que pode ser sedutor, leio um pouco na contracapa (quando não conheço o autor), abro as primeiras páginas, é tão importante o modo como se começa... e ou compro ou ponho de parte. Neste caso, dos poemas de Tchiangui Cruz, guardados numa gaveta imaginária, edição de 2019, foi o nome da autora que me atraiu: um nome musical, quando o dizemos em voz alta, que quase nos dança na boca. Não conhecia o nome, não conhecia a autora, li um pouco nas badanas o que se dizia sobre ela, e comecei então a ler os poemas guardados numa gaveta que ela decidiu abrir, quando escolheu antes ser poeta do que pintora. Sublinha bem que não segue o AO! Simpatizei logo com esta manifestação de bom sentido da língua. Formada na Faculdade de Letras de Lisboa, é actualmente Prof. Universitária em Luanda. Leu com certeza Fernando Pessoa, mas a mim agradou-me especialmente que se tenha inspirado, para a epígrafe, em Clarice Lispector, que eu descobri em Coimbra, aos dezasseis anos, ao ler Perto do Coração Selvagem, uma prosa tremenda, arrebatadora e cujo ritmo faria de mim, poeta incipiente, alguém que sempre deu muita atenção ao ritmo, ao deslizar das palavras, na ideia e na boca. Mas vamos ao que interessa: o que são os poemas, (o que é a criação poética) para Tchiangui que os confessa numa gaveta, numa zona mais escura da imaginação "um não lugar em que me continuo a procurar / incessantemente" (p.12) Como em Coral, de Sophia, que celebramos este ano: "Ia e vinha / e a cada coisa perguntava / que nome tinha". Sublinhemos, na origem, a procura, esse impulso que leva à busca do nome oculto, o que define o eu, e o seu sentido no ser e no tempo. O sentido transformará a existência, como diria Heidegger, que por sua vez gostou sempre de citar Hoelderlin, o Hino intitulado Mnemosyne (Memória), nos seus ensaios sobre O Que é Pensar"Somos um sinal, sem sentido (...) e quase perdemos a língua na distância". Depois o poeta alude ainda ao tempo, e à demora, mas no fim ao que se alcança, A VerdadeEsta é a mesma verdade que na vida, como na palavra poética, a procura e a demora nos permitem alcançar. Retira-se da zona obscura da memória recôndita o dizer que ela continha, e ali estava, a aguardar. Falamos connosco, com o nosso eu mais profundo, mais arcaico, quando buscamos essa palavra mágica, definidora do nome. Para Clarice um livro em cada um, para Sophia um nome. E para Tchiangui, no primeiro poema, um não-lugar que será ocupado pelo que retém na memória de que fala no segundo poema: "Recorro à memória e retenho a imagem do dia..." (p.13). Evoca a imagem do pai, de quando chegava a casa, e ela corria pelas escadas abaixo. E aqui temos a sua primeira marca de estilo: com naturalidade, um episódio que guardou na memória, a chegada do pai a casa, a descida pelas escadas abaixo para ir ter com ele, um reencontro, anunciado pelo toque da campainha. Motivos de um quotidiano que surgem e a memória guardada recupera. Com naturalidade. Só a palavra reencontro levanta uma suspeição: foi longa a espera? Terá sido dolorosa? Mas sobre isso não se demora, não há sombra de piedosa pseudo-poética emoção. A sua expressão é de agora, tem a distância devida, a reflexão necessária, na busca em aberto do sentido. Hoelderlin não faria melhor. Tchiangui em muitos dos poemas envolve o leitor na suavidade cálida da sua Angola nativa, as vozes, os cheiros, os sabores, e na distância o mar que também nos une, mais do que separa. Memórias e caminhos, assim se vai definindo a sua criação, que lhe permite afirmar que é dupla a sua personalidade, em Falsa Tímida (p. 34). Dialoga com Clarice, que lançou o dilema inicial, e conclui: " Clarice dizia: sou tímida e ousada ao mesmo tempo". Ideia que desenvolve a seguir em Mulher (p. 35): "Toda a mulher tem pelo menos duas faces ... / se ontem caiu, amanhã ela se levanta/ e, sem dar conta, se ergue/ por toda a mulher. / suas faces se duplicam em espelhos /esféricos, uma interna e outra externa, / um jeito de menina, uma vontade de mulher... (p.36). Dentro de cada mulher um pouco de todas as outras, força da natureza primordial, arquétipo do eterno feminino que é todo e uno, mesmo quando esfericamente dividido, na descrição do andrógino de Platão. 

No conjunto intitulado Transatlântico passamos por Lisboa, Luanda, Cabo, Bahía, esta é a epopeia de Tchiangui, na poética mistura de "raças, culturas, crenças" (p.42). Logo me ocorrem dois grandes da mesma estirpe, Jorge Amado, Vinícius e a geração de Chico, que o acompanhou. Na mesma linha de pensamento em que mistura é liberdade surge adiante o lamento por um marido preso político, a  realidade que o tempo parecia ter ultrapassado. 

O livro fecha com Três Continhos Tristes, uma minibiografia que a autora nos apresenta como se fosse um último mimo que nos concede, a nós leitores menos preparados para entender o que ela entende e ainda sente tão bem, porque é mesmo a sua origem, a sua vida vivida até este momento em que a evoca:
"Meus avós eram filhos de pai transmontano e de mãe preta de panos. Falavam um português perfeito, mas se o assunto fosse, digamos assim, íntimo, linguajavam em quimbundo para eu e os meus irmãos não entendermos "(p.54).
Haverá imagem mais linda para evocar a mãe antiga, dos avós, do que esta de "mãe preta de panos"? Panos da côr da vida, panos que esses sim conheço, porque um amigo nosso os trouxe de Cabo Verde, um  dia.
Mãe preta de panos: tanta ternura, tanto amor, tanto respeito também. E como é importante um começo tão simples e tão directo. Reparo muito nos começos dos livros, nas frases com que abrem. Como meditei longamente na frase de Proust: Longtemps je me suis couché de bonne heure. De como teria de a traduzir, para não deixar de ser fiel. Acabei por escolher "Durante muito tempo fui cedo para a cama". Talvez pela imagem, talvez pelo ritmo, em português. Como agora, nesta apresentação da avó : "mãe preta de panos". Mãe antiga, mulher trazida e amada, nesta frase tão simples uma imagem tão rica e tão cheia de sentido, condensado em tão poucas palavras. Como em Proust. O meu leitor aqui já terá percebido que dou atenção ao impulso da escrita, que cria o seu próprio e original modelo, e que para mim o escritor do "pouco" é maior do que o escritor redundante do "muito". Frase límpida, de pensamento límpido, que a mim me pode intrigar e deixar a reflectir um pouco mais, para meu benefício. Ler para mim é pensar, e esse movimento é o da criação, da evocação, do afundamento na memória. Como em Tchiangui, neste livro.
O livro tem um excelente pósfacio de José Luís Mendonça, que completará tudo o que eu não saberia dizer.
Mas de Tchiangui Cruz seguirei as obras, sejam de poesia ou de prosa, neste tom muito seu, natural, nascido do que ela é, uma mulher pós-moderna, que fala sem reticências do presente e do passado, enquanto espera o futuro. Sabendo de onde vem, saberá para onde ir, pois até nos sonhos alguém lhe faz companhia.

Thursday, July 04, 2019

Isabel Allegro de Magalhães, Transversal Mente, Literatura e Música

I
Nesta edição da Caleidoscópio, de Maio 2019, apresenta Isabel Allegro uma recolha de ensaios transversais à palavra e à música, que a palavra também já contém, quando se forma. A palavra é aqui literatura, palavra trabalhada, como a música é composição, onda sonora trabalhada também, e ambas na emoção do Sopro, do Verbo que se manifesta de repente.
Iremos falar de arte, não há arte sem emoção, e esta a que me refiro, com a ajuda de Isabel é, como ela a define, especialmente sedutora, a desenvolver-
-se no tempo: um tempo especial, que segundo alguns se espacializa na palavra escrita, na pauta elaborada (que se fixarão para memória futura) mas que não existiria se não tivesse nascido primeiro de um impulso semi ou totalmente inconsciente, vindo de dentro, do Ser profundo, em que ser e tempo se fundem, antes de tudo o mais.
A autora, cuja erudição é notória, e cuidadosa nos fundamentos que escolhe, não ignora que "a gramática de um texto verbal nunca é totalmente sobreponível à de outro texto musical" (p. 11). Mas vai lidar com um mundo que é o das várias possibilidades, e nesse exercício ampliar o nosso conhecimento, abrindo-o pelo caminho à nossa sensibilidade.
E explica:
"...em comum, literatura e música têm a dimensão da temporalidade : o tempo, o ritmo, eventualmente ausente ou apenas simbolicamente presente nas artes plásticas. E, mais que outras artes, palavra e música fazem apelo ao ouvido, com sons articulados ou puros, requerendo, como o cinema, e mais que a pintura ou a fotografia, sempre diante de quem as olha, um particular exercício da memória. Além disso, seguramente a música precisa de alguém para tocá-la, depende desse alguém, portanto. E a sua duração é passageira e a experiência da escuta fugaz - apesar de permanecerem na memória e na imaginação para além desse momento de presença: o que será, em termos de Gérard Genette, o aspecto de 'transcendência' de qualquer obra de arte?" (p.12)
Genette discute o problema em l'Oeuvre d'art. Immanence et transcendence, 1994. Sem ir buscar argumentos ao pensador francês, Isabel segue o seu caminho, que nos deve conduzir não ao contraste, mas às afinidades possíveis, ao "novo lugar" que irá amplificar os sentidos já prefigurados em novas articulações, ao gosto dos comparatistas. Aqui comparar não é buscar o igual, mas o diferente, o que inspira o criador, poeta ou músico,  levando a sua arte para uma esfera outra, do domínio do intercâmbio simbólico profundo.
Isabel evoca Jorge Luís Borges: " Cada acto ( y cada pensamiento es el eco de otros que en el pasado lo antecedieron, sin principio visible (...) no hay cosa que no esté como perdida entre infatigables espejos" (p.13. 
E segue alertando para a variedade das modalidades de relação entre um texto musical e outro verbal. São infinitas, do Lied à ópera mais complexa e desafiante, como são múltiplos os escritores em que as referências e reverberações ecoam e permanecem, no seu jogo de espelhos. Partem de sons e sonoridades, mais líricas ou mais agressivas, que os conduzem à expressão do "Descrito ao Vivido", como em Gastão Cruz, num dos poemas que integra a escolha feita.
Falou-se de tempo, e de tempos. Não por acaso, escolhe Heidegger para início de um dos seus seminários sobre o que é Pensar, um célebre verso de um hino de Hoelderlin, Mnemosyne:
Ein Zeichen sind wir, deutungslos,
Schmerzlos sind wir und haben fast
Die Sprache in der Fremde verloren.
(Somos um sinal, sem sentido,
Não sentimos dôr e quase
Perdemos a língua na distância).
e ainda:
Lang ist 
Die Zeit, es ereignet sich aber
Das Wahre.
(É longo
O tempo, mas alcança-se ainda assim
A verdade).
O sentido de uma língua primordial que se perdeu, perdendo-se com ela a Verdade que exprimia. E no exercício do Pensamento a que se é levado por um impulso interior que nos põe a caminho, é aí, nesse tempo que é longo, que o caminho inteiro de poesia e música finalmente se encontram e se fundem. 
A autora propõe um conjunto de leituras que vão de Jorge de Sena a Gastão Cruz, Maria Velho da Costa, Graça Moura, Nuno Júdice e outros, onze ensaios de relação em que os tempos da música, seus ritmos, seus silêncios, se organizam em palavra poética, fundadora, raiz de uma língua perdida e reencontrada em multiplicidade de sentidos, segundo cada poeta e cada poema.
Este não é o lugar de os resumir, apenas de apontar a existência de uma leitura que seduz porque amplia espaços de um imaginário raramente abordado entre nós, ao contrário do que acontece na Alemanha, por exemplo e que recorda como na Arte, musical ou poética, é pela contaminação de imagens e símbolos que se organizam, que se recupera a Verdade a que o poema de Hoelderlin deseja conduzir-nos.
Poderia dar aqui um belo exemplo, o de Helder Macedo, a cuja Viagem de Inverno me referi num dos meus posts antigos deste blog. 
É a Winterreise de Schubert que o leva pelos caminhos da sua imaginação, como já no século XVIII Novalis tinha encontrado nos temas musicais da melancolia do Inverno a matéria que alimentava, nos Hinos e nos Fragmentos a sua própria melancolia, a nigredo da alma.
A relação da escrita poética ou narrativa com a música que a inspira é talvez mais fácil de identificar do que o contrário: como parte de um texto a música que enche a cabeça de sons, num compositor? A Ode à Alegria  de um Schiller para uma Sinfonia, a última, de um Beethoven?  Os grandes mitos germânicos para a Tetralogia de Wagner, sendo ele próprio autor, enquanto libretista, e compositor?
Isabel escolheu para epígrafe dos seus textos, uma frase de Leibniz: 
"A música é um exercício de alma que não sabe que está a musicar" (p.7).
Como se fosse de um inconsciente colectivo ( e não reflexivo, individual) que de súbito todos os sons brotassem, organizando-se na perfeição de uma outra esfera, a da matemática da linguagem da Obra.
Mas estaria a desviar-me reflectindo sobre a música das esferas como Pitágoras a entendeu e deixou em herança, para uns e para outros. 

II
Num outro volume, editado também na mesma casa e neste mesmo ano, escolhe Isabel Allegro de Magalhães abordar os temas da Literatura e Identidades, num outro conjunto variado de ensaios em que sublinha questões de alteridade, de relação com o outro, aceite ou rejeitado (como na eterna questão dos Judeus na narrativa de Mário Cláudio, que escolhe para análise) contraste de nações e culturas, hoje de tanta actualidade, e finalmente um pequeno conjunto de notas de Homenagem a Maria de Lourdes Belchior, a Óscar Lopes, a Luciana Stegagno Picchio e Heitor Gomes Teixeira. Sábios, todos eles, com quem a nossa geração muito aprendeu, e a quem as homenagens, muito justas, surgiram, neste país igual a si mesmo, já demasiado tarde. Isabel corrige a distracção. Conheci bem todos os citados, e em especial, por isso refiro o facto, em Coimbra, o Heitor, já com a paixão do teatro, e fazendo sob a orientação de Paulo Quintela, no TEUC, um magnífico e portentoso Diabo vicentino.
A marca deste livro de Isabel é a de uma certa saudade: do que se foi, quando todos tínhamos a mesma ilusão de mudar e fazer crescer o país dos cravos, e do que se verifica agora, em que várias crises (evitáveis? anunciadas?) nos fazem temer o futuro, já não nosso, mas de filhos,  netos e amigos cujo percurso acompanhamos.
Dir-se -á : faz sentido um livro de saudade? Faz, neste caso, em que a saudade é algo mais do que lamento, é reflexão para memória, para a posteridade.
Um Professor nunca deixará de o ser, e a vida de Isabel Allegro de Magalhães, para além de ser activista de vários domínios, também o da fé que se actualize, tem essa marca de nobreza. Ensinou, e neste momento reflecte e dá a reflectir o que isso numa vida representa. É simples, se se entregou de alma e coração, como nela se vê, representa o melhor de nós mesmos, define o que fomos e o que somos, através do que fizemos e fazemos.
Saudemos pois agora estes livros que a trazem à nossa presença, para nos interpelar, antes que o país nos adormeça de vez.
  


Tuesday, June 25, 2019

Os Tempos de Fernanda Lapa



Foi esta peça, Gertrude Stein e Acompanhante, de Win Wells, que me levou a pensar no trabalho, sempre exemplar, da encenação de Fernanda Lapa, que a entusiasmou, mas por outro a obrigou a um imenso trabalho de depuração e até de algumas correcções de erros de tradução, tudo por amor ao teatro.
Mas Fernanda dedica todo o tempo e atenção que um texto, seja moderno ou clássico, pede e exige. Esse é o seu primeiro tempo: o do trabalho, que com sorte ficará escrito e publicado, da sua dramaturgia, cuidada, inteligente, e por isso tão fiel. É sem dúvida um trabalho de paixão, que envolve também os seus colaboradores: sempre os melhores, que se disponham a partilhar com ela a sua inspiração. Neste primeiro tempo a inspiração, a ideia que surge de momento e resolve alguma dificuldade, é essencial. Cito Agustina Bessa-Luís: "de muito empenho carece a arte..."e é assim mesmo, na arte que se respeita, e no criador que, como estou a ler neste momento, no meu fiel Yi King, que abri ao acaso do dia, como faço às vezes:nº 38, K'ouei /A oposição
A Imagem 
Em cima o fogo, em baixo o lago: imagem da OPOSIÇÃO. 
Assim, em toda e qualquer companhia, o homem nobre conserva a sua individualidade.
O homem culto não se deixará tornar igual aos homens cuja natureza difere da sua, por relações e interesses comuns que possa ter com eles, mas conservará sempre em toda a comunidade a sua individualidade própria.

É precisamente isto que verificamos nos tempos de Fernanda Lapa e da sua coerência no trabalho das artes cénicas ao longo já de tantos anos. De tudo o que tenho visto, dos clássicos aos modernos, nunca perdeu a sua individualidade, a sua marca própria, e mais uma vez nesta encenação claramente manifestada.
A bagagem cultural de Fernanda é enorme, e absorvida por muito conhecimento, mundo, convívio (quem pense que se pode fazer teatro, encenando, ou representando, ou criando espaços cénicos adequados e igualmente inspirados sem cultura nem curiosidade de espécie nenhuma, está bem enganado) - e com ela também a sua equipa tem muito, para não dizer tudo, a aprender. E por ser ela quem é, aprende-se com gosto. Sai-se da sua companhia mais "ilustrado", como se diria nos tempos das Luzes. Aqui precisamos destas luzes, da Razão e da Emoção, que ela contém, mas deixa ainda assim, delicadamente transparecer.
Não me refiro à encenação em que escolhe o delírio orgíaco das Bacantes, de Eurípides, e tanto sucesso teve em 1995. Para a contenção da violência antes evoco as Euménides, de Ésquilo, em que toda a fúria teve de ser contida. Numa das peças a explosão que castiga o orgulho cego,  noutra a mutilação que destrói a exigência de uma vingança justa.
Dirão, Fernanda mantém a sua individualidade, a sua leitura própria destes textos, imortais pela sua carga simbólica e arcaica. É certo, pois não há na sua encenação o que seria tão fácil, de ornamento, sentimentalismo, lição moralista a dar. Fernanda não dá lições, deixa que uma narrativa límpida fale por si e para cada um, quem sabe se de forma diferente.
E como se verifica então nesta peça de duas americanas amigas e amantes, de que se ocupou Wells, numa vida de boémia livre em Paris, a marca própria da individualidade criadora de Fernanda? 
Num primeiro tempo o texto, como já disse, e já em conjunto com a sua equipa o trabalho de enquadramento das personagens e da época - a Paris da boémia dos pintores e poetas vanguardistas,  desafiando os costumes da sociedade e do mundo (um mundo em guerra).
O texto de Wells não estava à altura da depuração desejada. Ornamentos, indicações, floreados, longe do que a encenadora desejaria, e não permitiria que destruísse o seu estilo. Foram meses. Há encenações que são narrativas tão próximas que mais vale ler a biografia em voz alta do que ir ao teatro ver a peça.
Ora aqui entra a minha segunda consideração sobra os Tempos de Fernanda. O texto base é matéria de memória histórica, ficará em arquivo, poderá ser lido e retomado em qualquer momento.
Mas no palco de um teatro, sendo o teatro representado a mais efémera das artes, vive-se ali o momento, é essa a sua eternidade, o tempo é outro. E outras terão de ser as escolhas. Fernanda, nas suas encenações, sublinha a efemeridade, sabemos ao sair que nada mais se repetirá, embora a peça continue o seu tempo em cena, como está agendado. Não haverá dias iguais. Por isso é tão aliciante poder ir uma e outra vez: de cada vez algo de diferente acontecerá, para nosso benefício.
Aquilo que podemos chamar de tempo do palco - sabendo que o palco é a vida - tem de ser apresentado e vivido de modo mais intenso, depurado, subtil. O palco é a vida, mas sublimada numa linguagem outra, numa relação despida, nua como um poema, ainda que de paixão feita. A energia da paixão sente-se, paira no ar, contamina as emoções, de actores e público (é verdade, não deixa de haver catarse, embora haja também distância e de novo podemos referir a individualidade tão especial desta encenadora, que funde Aristóteles e Brecht, num gesto único, como só ela sabe fazer).
Este é o segundo tempo, o mais importante, sem dúvida, mas que não pode dispensar o primeiro, do trabalho muito reflectido sempre e muito intenso.
Do texto ao palco vai por vezes toda uma vida...vivida assim com entrega.
Quem não se entrega  não vive. Adormece e apodrece, mesmo que não dê por isso. Cadáver adiado que procria, como disse Pessoa.
É lição para jovens e velhos prematuros a lição de Fernanda. Num país que precisa muito da máxima energia.










Tuesday, June 18, 2019

Eduardo Pitta, UM RAPAZ A ARDER, MEMÓRIAS


Comecei a ler Eduardo Pitta na revista Sábado, e nos seus comentários sobre variados temas, no facebook. Será triste, que eu tenha lido assim, mas é a verdade pura. Por outro lado foi assim que me seduziu uma prosa inteligente, informada e fundamentada, quando discursava sobre política, sobre cultura, sobre qualquer acontecimento que estivesse em discussão nos faceianos (palavra feia, mas já que aconteceu, deixo ficar). 
Já tenho dito que é nos meus blogs que gosto de falar do que leio e do que gosto. Abri em 2004-5, um pouco para respirar fora da Universidade, e do amesquinhamento gradual em que foi caindo, se calhar até hoje. A minha área tinha sido desde sempre a Literatura Alemã, e na senda de George Steiner e outros a Literatura Comparada. Da Simbologia Alquímica só podia falar em voz baixa: era zona de linhas vermelhas...criei um Gabinete de Estudos e segui em frente, como sempre faço. Surge então a obra inédita, da Arca de Fernando Pessoa. Escrevi, divulguei, publiquei e quando achei que já tinha oferecido, a quem lesse, suficientes caminhos para prosseguir a sua via, a mais secreta, desconhecida de muitos, do esoterismo, parei. Esgotaram-se os livros, nenhum editor reeditou.
Achei então que um blog era um espaço universal de comunicação, e assim tem sido até agora. Sou livre, não faço aqui a chamada crítica literária (entre nós tão fechada na sua bolha, como no tempo  de Gaspar Simões...) escrevo sobre o que me parece que merece ser lido e divulgado, sem impôr, apenas expondo. E verifico que tenho ganho, com o passar dos anos, não dinheiro, porque o acesso é livre, mas leitores interessados no que por aqui vai sendo escrito: uma leitura feita e uma linha de pensamento que apresento de forma honesta. É um grande prazer. Agora tenho em mãos as Memórias de Eduardo Pitta, escritas de 1975 a 2001,  que ele gentilmente me ofereceu.
Escolheu para epígrafes Marguerite Yourcenar e Jorge de Sena. E para que saibamos que foi feito um relato que pretende ser completo, agradece a todos os que o ajudaram a recordar um ou outro episódio, que ele deseja completo na verdade anunciada. 
Temos de facto uma narrativa muito detalhada de tudo o que foi acontecendo no Portugal da Revolução de Abril, de melhor e de pior, e pelo meio parte da história de uma descolonização de que Eduardo Pitta não esconde o que houve de perseguição, violência e terror. Quem conseguiu prever o que lá vinha, fugiu, para Portugal, para o Brasil, ou mais perto e a tempo para a África do Sul. 
Eduardo nasceu em Moçambique, em 1949, mas está sempre listado como escritor português e embora eu acredite que não esqueça a sua infância e juventude num país onde, como ele diz nestas memórias, "as pessoas tinham um à-vontade" que não encontrou em Lisboa. Reparei nesse sentimento de liberdade em vários casos, de amigos e pessoas de família que estiveram, alguns em Moçambique, outros em Angola, e trouxeram de longe uma saudade especial, uma respiração aberta e feliz, até ao momento da Revolução que os trouxe de volta à Pátria. A quem ainda hoje o possa negar, Eduardo confirma: houve execuções sumárias, houve crianças brancas penduradas em ganchos de talho, houve terror que violentou brancos e negros, democratas e tiranos. Felizmente é passado, mas um bom memorialista, como um bom investigador e jornalista não mente sobre o passado.
Muito do que se lê é sobre os momentos das travessias ( e quase me apetece dizer, porque o país é o que é...das travessuras políticas) que vão do PREC aos falsos endeusamentos de soluções impossíveis, e à estabilização que Mário Soares finalmente trazia. Aristocrata, orgulhoso de o ser, Eduardo não renega amizades, sejam de esquerda ou de direita, marcas que ainda hoje empurram, sem que se tenha culpa de amar a liberdade e a independência assumida, para um lado ou para outro. Pode dizer de si: este sou eu, agora como sou e já antes, como fui.
A sua escrita é empolgante, ou eu não teria parado só uma vez para descansar os olhos, tendo chegado ao fim numa leitura voraz. Porque vivi muito do que  ele conta, se não foi na rua, com Mário Soares (e já quando estudante, em 1962, nas greves, ou a ouvir a Maria Barroso a dizer poesia no Técnico) foi em casa da Natália Correia, foi com a Sophia diante da prisão de Caxias, foi na televisão, sempre ligada, ou a ler nos jornais o que me dava mais informação. Ele ia fazendo o mesmo. E quando as memórias se desviam da política vivida para o meio literário que o acolhe -primeiro com distância, depois com todo o entusiasmo, dá-nos a listagem mais do que completa do quem era quem, naqueles anos, ou ainda não era mas estava quase a ser e continuou, fornecendo abundantes momentos que a sua verve especial recupera ou desconstrói, em texto saboroso. 
Sendo eu tão mais antiga, escuso de dizer que conheci, de perto ou de longe todo o meio mundo cultural que ele cita. E é isso que para mim torna tão viva e interessante esta leitura. Recomendo, aos que são da minha geração e aos mais novos, porque a verdade é que a memória dos mais velhos nos fornece tanta informação que falta, e sem ela pouco somos, ou menos ainda. Ele esteve, como eu, na primeira sede da APE (Associação Portuguesa de Escritores), no nº13 da Rua do Loreto. Não coincidimos porque ele é tão mais novo. Mas ali, como no Centro Nacional de Cultura da Helena Vaz da Silva, se vivia liberdade (ou desejo dela) e cultura moderna em aberta discussão.
Leio este livro de memórias como li Eça e Ramalho, nas suas cartas. A ironia, a qualidade da prosa, a observação pertinente dos vários mundos que entre nós se expunham, o ganho ou perda de qualidade de vida, idas para o Brasil, para sobreviver a maus bocados) e regressos saudosos de novo às tertúlias dos cafés, às amizades fiéis, à entrega voraz da escrita, agora maior que a vida - enfim, tudo neste livro me atrai e me levou a continuar páginas fora, páginas dentro, parando apenas numa ou noutra evocação onde não estando, também estou, porque vivi isso mesmo que ali é referido. E confirmo: o que ele diz está dito e fica dito, para memória presente e futura. No meio de tanta política e tanta politiquice ainda hoje, sobram-nos os poetas, os pintores, os criadores em geral com que ele se cruzou  ou travou amizade, a gente simples e boa, o convívio que existe entre quem ama o mesmo e nem para dizer o que sente precisa de palavras.
 Interessante seria, acompanhando os capítulos em que viagens e estadias nos são descritas também com grande pormenor, desenhar o roteiro dos gostos e preferências. Requintados, ou muito inovadores, em cada momento. Por locais que surgem, como o célebre Frágil do Bairro Alto, ou outros que foram perdendo a sua graça ou deixando de existir. Em todos uma certeza, a de que eram espaços livres, sem repressão nem olhares de ínvia censura. Talvez, de vez em quando, umas pontinhas de inveja...
Espera-se que Eduardo continue a escrever, que não perca a energia e muito menos ainda esta memória que eu quase diria gulosa, de ver, saber e contar.




Sunday, May 12, 2019

Isabel Hub Faria, Os meus primeiros pronomes pessoais

Nem sempre me apercebo de quantos leitores chegam a ler os meus blogs, que escrevo há já tantos anos.
Mas de vez em quando, como aconteceu agora com CARMES, de Paulo da Costa Domingues, verifiquei que só ontem ele foi lido por quase 200 pessoas. A maior parte aparece nos mapas, mas não nos comentários. Não tem mal, leram, isso é que é importante. E que a seguir comprem, esse é o prémio ao autor.
Estou se calhar a repetir-me, com este livro de Isabel Hub Faria, ilustre especialista de  linguística, que agora publica uma obra que chamou de romance, mas que é na verdade uma autobiografia atravessada pela análise brilhante de como ao crescer se adquire uma relação especial ( e que de algum modo vai definindo o destino e a vida ) com os pronomes ditos primeiros ( eu, tu, ele, nós, vós, eles) e através dessa aguda percepção uma nova consciência de si, dos outros, da sociedade e do mundo. Está no livro a explicação de como ela cresceu, e de como nós, ao fazermos idêntico auto-exame, podemos  eventualmente crescer também.
Como sempre faço, pego no livro, sinto que me agrada na mão, vejo a capa, a contracapa, o papel e a letra agradável de ler. Só assim continuo, gosto de livros pequenos, mas grandes de narrativa genuína, subtil, original e com alguma ironia, por vezes até cruel.
Em Isabel descubro tudo isto. E uma reflexão profunda sobre o que é ser-no mundo,  na aquisição difícil dessa mesma consciência. Não digo estar, digo ser.
Sou bastante mais velha, conheço bem a geração que ela ainda descreve, no capítulo do eu da infância, em família tradicional, casa em que convivem mãe e tios e avós, a descoberta da leitura e dos contos para crianças, como o do chapeuzinho vermelho que também eu contava aos meus filhos, à noite, com eles já na cama. Ainda hoje rio quando o Bernardo me conta que durante anos, ao ouvir o conto, julgava que se tratava mesmo de um chapeuzinho de verdade e não de uma menina, e não percebia nada do resto que acontecia. Ele tinha três anos, o Miguel a seu lado noutra cama, tinha dois e adormecia logo. Nas idas à escola, primeiro pública, depois em colégio diz a autora que já se apercebia, aos dez anos, das diferenças entre o eu e os outros, as outras meninas que não tinham, como ela, mimos especiais na merenda que levavam. Primeira nota, de carácter pessoal e social, de alguém que observa com atenção para tentar perceber.
No capítulo dedicado ao tu, já absorvida e ultrapassada em parte a condição familiar,  procura-se a alma gémea, o duplo, o alter ego que complete uma consciência de que um eu, só por si, nos deixa na vida incompletos. E surgem vários tus, que a narradora ( eu ia dizer autora, porque há um tom tão vivido, tão confessional, neste dito romance) marcando cada um deles uma nova apreensão da consciência de si, mais até do que do outro. É o tu que permite uma gradual afirmação de um eu que se deseja cada vez mais livre, na aceitação ou negação das normas que regem, na sociedade autoritária daquele tempo de Ditadura, sentimentos e comportamentos. O terceiro tu, com a jovem narradora já tendo consciência do que na verdade pode ou não esperar duma relação, atravessamos com ela os cafés do tempo, que também conheci bem, era o espaço de encontro de poetas e artistas que não se enquadravam no modelo vigente, e ali podiam estar apenas com um café à frente, e falar de tudo, menos de política( se fossem demasiado ouvidos seriam incomodados): Monte Carlo, Monumental, Brasileira e outros ainda eram pequenos focos de liberdade intelectual.
Mas não é tanto disso que a autora nos quer falar, é antes do seu percurso, no caminho de um eu para um tu que declarou ser afinal como toda a gente, desejando casar, ter filhos, uma família tradicional. Tudo o que a jovem não queria, estando já a desenhar-
-se uma outra forma de desejo, não por eles mas por elas, transitando assim para novos pronomes pessoais, de novas relações.
No capítulo de "ele ou ela, o, a, lhe" a narração amplia a questão do desejo, do impulso que se torna imperioso e a que se cede, primeiro com o prazer da entrega assumida, depois com a repulsa da recusa sentida, porque entretanto o pronome já tinha sido trocado, de um ele para ela, sendo esta a definitiva escolha. A relação será trágica, no fim, mas deixo ao leitor a curiosidade de ir lendo, porque resumir tiraria parte da emoção, e parte de um tempo que era aquele, feito de desafio e dôr e consciência de alguma responsabilidade em relação a um outro (outra) de que se tinha separado como quem corta uma planta pela raiz, num terreno difícil. Apagada (até porque morre entretanto) esta outra da sua vida, a narradora segue o seu caminho, de académica no percurso habitual: bolsas de estudo, congressos, seminários, etc. Companheirismo normal, quando existisse.
E chegamos ao capítulo do nós: na verdade um novo ele, um novo tu redescoberto noutra fase da vida. Mais maturidade emocional, sexual? Mais uma descoberta, a de uma  androginia cuja marca é antiga, arquetípica, bem explicada em Platão.
A mulher, que agora é já mulher, vivida e experiente, descobre-se como bissexual. O amor, o desejo, pode em qualquer momento surpreender e lemos como é detalhado o prazer que a mulher sente na nova relação:
"Sempre que me lembro do nosso primeiro contacto físico, a sequência de imagens desfila em câmara. Ar livre. Dunas. Mata mediterrânica. Movimentos vagarosos, respiração funda, olhos surpreendidos à procura da expressão de outros olhos, o desejo a crescer sem sobressalto, a confiança a procurar lugar, um pequeno esgar, também a timidez, depois a felicidade. Tenho o seu sexo dentro de mim durante todo o tempo de nos pertencermos. A descoberta de nós é mútua. A descoberta de cada um de nós nesta partilha é tão funda e perturbadora que me parece impossível alguma vez ignorá-la. Ele diz, com voz rouca "Obrigado!". E chora. E eu,  reconheço, acabo de descobrir uma parte de mim ainda por decifrar. Somos sorrisos virgens. Surpreendidos. Felizes com a nossa descoberta. Daqui para a frente, penso, vou ter de viver com a minha bissexualidade. Vivo com uma mulher e o meu corpo deseja aquele homem. Não sei como vai ser, mas há-de ser assim" (pp.55-56).
Ocorre-me, talvez porque Isabel deixou Germânicas, que trocou por Românicas, um dos mais belos poemas que Jacques Prévert escreveu, e eu tive o privilégio de ouvir em Paris, cantado por Juliette Gréco: Je suis comme je suis.
Je suis comme je suis
Je suis faite comme ça
Quand j'ai envie de rire
Oui je ris aux éclats
J'aime celui qui m'aime
Est-ce ma faute à moi
Si ce n'est pas le même
Que j'aime à chaque fois
Je suis comme je suis
Je suis faite comme ça
Que voulez-vous de plus
Que voulez-vous de moi

Je suis faite pour plaire
Et n'y puis rien changer
....
Je suis comme je suis
Je plais à qui je plais
Qu'est-ce que ça peut vous faire
Ce qui m'est arrivé 
Oui j'ai aimé quelqu'un
Oui quelqu'un m'a aimée
Comme les enfants qui s'aiment
Simplement savent aimer
Aimer aimer...

A narrativa segue, com "eles ou elas", e uma rápida digressão pela distância e pela diferença entre uns e outros, na vida pessoal, profissional, académica e depois da Revolução de Abril, partidarizada da pior maneira, maçons vs. opus dei. Vale a pena ler a Nota final, que ajudará a entender um pouco mais. Mas foi tão genuíno, tão directo o discurso até aqui, que só podemos elogiar esta prosa de confissão, não negando, antes expondo o assumir de uma consciência de diferenças e desvios, como o da bela capa escolhida, de autoria sua, de quando estava em Berlin,  e que se intitula precisamente O Desvio.
A autora, como muitas das escritoras de hoje em dia, nova geração nascida já liberta, não evita os temas fracturantes: violação, aborto, homossexualidade ou bissexualidade. As xenofobias com que se depara em meio Académico, nos EUA, onde esteve como bolseira, e a deixou surpreendida. A recusa do outro é agora geral, e tem de ser combatida. Isabel Hub Faria aqui está, livre e pronta, como é. Esperemos um seu segundo livro.











Saturday, April 27, 2019

CARMES


Belíssima edição de um belíssimo conjunto que nos oferece a obra poética de Paulo da Costa Domingos, não digo ao longo da vida, é jovem ainda, mais terá para ir publicando até chegar a uma idade venerável.
Desde que o conheci, algures pelos anos oitenta, esteve sempre ligado ao livro, à edição e pelo meio sempre escrevendo.
Nestes Carmes, que evocam as Carmina Burana dos monges medievais, foliões do canto e da música acompanhando o bom vinho que os inspirava também, passa a terra, passa a vida vivida em contraponto com a vida desperdiçada. Nos poemas não se desperdiça nada, tudo é contado ao pormenor, seja a vivência mais realista, seja a emoção mais transfigurada. Não se pode esquecer que a poesia tem a sua própria gramática e que cabe ao leitor atento não cometer erros ao ler. 
Abro o livro e começo com a advertência do autor que nos diz que convém ao lidar com os poemas recuperados na escolha feita (outros poderão ter existido e ficar postos de lado), ter a noção de que aqui se parte não para uma ordem definitiva mas para uma "nova
desordem", que quebra, no entanto, falsas separações que pudessem ter existido. Tudo é Uno, na vivência poética, o antes como o depois, ou o agora, neste momento já de leitura. Convivem, neste percurso de vida o revoltado, o doente terminal, as várias figurações da Mulher, o que é afinal aos olhos de Paulo o Eterno Feminino?, o néscio, o vingativo, o amoroso, e até mesmo o cadáver. Também os Monges Vagantes, como o Paulo, vagante de agora, cantaram tudo, no passear da vida. Não é por acaso que o autor nos deixa entender que afinal é a cidade de Lisboa que ali está, figuração suprema de uma vida e da sua realidade como dizia Pessoa, nas suas "muitas cores", mais claras ou mais obscuras. Lisboa, amante do Tejo, o rio que a corteja e pode ser admirado no Cais eterno das Colunas, como "Voz do Mundo no lugar onde a Terra se refresca".
Paulo conclui a breve nota de introdução afirmando que conquistou, ao longo de 40 anos, "palmo a palmo" a sua vida intelectual. Por isso se revela tão rica de significação esta sua recolha. Matéria de estudo, para os mais novos, que julgam inovar no que já está inovado,  de há muito.
A obra vem dividida em 6 partes:
ORELHA SEM MESTRE
CICATRIZ
ABSIDE
DE REGRESSO AO CAMPO DE HONRA
A ESCRITA

A VAU
 que seguem o seu caminho de descrição ou emoção mais explosiva, numa linguagem sempre, ou quase, experimental, herdeira do grupo dos OULIPOU, dos anos 60 em França, por sua vez marcados pela liberdade da definição surrealista de um Breton, de um Michaux, e entre nós por Cesariny, Cruzeiro Seixas, Ramos Rosa (este na busca sempre transcendental e impossível de marcas heideggerianas do pensar criador) e, continuando, o inultrapassável Herberto Helder, cuja morte recente agora lamentamos. Mas, como se diz, ficou a Obra. Também ficará, do mesmo modo, a Obra de Paulo da Costa Domingos. A sua modernidade é chocante de tão genuína e tão actual e pergunto por onde se escondia ele, que não tem nome regularmente citado na apreciação de críticos e comentadores que estão em todo o lado? Ele não se escondia, lutava, como disse, "palmo a palmo" para fazer vingar o seu território. E aqui o temos: o seu território é o da palavra, escavada, como em Paul Celan, mas sobretudo liberta, em vida escancarada.
Começa, como um Herberto poderia ter começado, em ORELHA SEM MESTRE:

era um homem com um jaguar de cobalto no sangue
uma melodia um homem: lia o seu livro, carmes de cobalto
em fuga / sem fala
era um suicídio roxo / aliança última: anel
falava-se muito de meia dezena de cifras perturbadoras da ordem:
liberdade ou morte - velho preceito de temperatura lisérgica
jaguar vegetal amianto na cabeça, entre as órbitas
pararia - por falta de combustível?aquela máquina propulsora de selva
num suicídio de primeira página?
de avaria?
dor feminina de metrónomo, ovos plenos, primeira grandeza

outro homem vinha à rua à rede acender o cigarro e um disco obsessivo, ler talvez
o seu livro
no império dos reclamos inúteis

Um homem, o sangue, o canto e o livro - eis as linhas de força do momento. Ténue, a alusão feminina, a não ser para sublinhar o tempo (o metrónomo). Contudo o tempo é vital, mesmo para a leitura do livro, ou seja, para entre as palavras erguer uma catedral.
Não se estranhe o contraste entra uma escrita cuidadosa e até rebuscada, na gramática, na semântica, e a mão livre na utilização de imagens, que se fundem, se separam, se atropelam, num processo intuitivo de associação livre que Freud aprovaria, ou o velho Breton, e deixa entrever a espaços o fio condutor,  a linha de alma inteira ou quebrada. Cabe ao leitor preencher esses espaços, ir seguindo esse fio, que Paulo ata, mas nem sempre desata, para nós. Temos de possuir a sua imensa cultura, entender as referências, que são muitas, da pintura à música pop (um Turner, um Bob Dylan, para dar ao acaso estes exemplos, no meio de outros, passando até pela alquimia chinesa de um trigrama) e entender acima de tudo a vida quotidiana, também de amor, ruas escuras, drogas e putas numa Lisboa eterna.
Pessoa foi múltiplo? Paulo em si mesmo é único.