Friday, May 11, 2018

Ramos Rosa, A Imagem

Por um destes acasos que acontecem, depois de colocar o post anterior reencontrei uma antiga plaquette, edição de José da Cruz Santos, dos anos 70, com poemas que o António Ramos Rosa tinha publicado, sobre A Imagem.
Também ele, sobre a página branca, procura encontrar o murmúrio de uma palavra secreta. Uma palavra-imagem, uma forma, um corpo materializado em mais do que leve som.
Este é o poema, em verso livre, com que se inicia o  ciclo de 13, na norma estabelecida pelo editor para a sua colecção O OIRO DO DIA. Outros tempos, em que se podia publicar e ler poesia sob formas variadas de concepção e edição, na certeza de que haveria sempre leitores para ler (e até coleccionar) e livrarias de portas sempre abertas para vender. 

Seja o que fôr Murmúrio muro
Risco no opaco
Sem lâmpada na inércia branca

Os olhos ardem sob o gelo
Em equilíbrio encontrar que folha
sobre folha ou pedra
Nenhuma árvore aqui

Vocábulo nu Palavra nula
no muro

As imagens não dançam
sobre a imagem
Podes dizer pedra vento terra
Podes dizer o suicídio nulo

As imagens não dançam nos terraços
iguais e brancos brancos e iguais
nenhuma mulher se despe ou despenteia
nenhum vento desalinha este rectângulo

Podes dizer agora que a imagem 
é nula
como o corpo

Murmúrio e Palavra, em letras maiúsculas no texto, descrevem, indirectamente, o que o poeta deseja: não o risco casual no papel branco, feito por mão sonâmbula, mas a voz, mas o som, algum dizer primordial que rompa a "inércia branca e sem lâmpada" ( a que falta o ardor da revelação), neste início de busca da Imagem o poeta alude ao que lhe falta: a espessura do corpo que levaria as suas palavras a dançar, nos terraços que vê, iguais e brancos, num rectângulo que nenhum vento ainda desalinha.
Fecha com três versos em forma de resumo:
Podes dizer agora que a imagem
é nula
como o corpo
Exprime assim o seu dizer ausente, e ao mesmo tempo o seu desejo de um corpo inexistente, pois ali, nos terraços que vê, "nenhuma mulher se despe ou despenteia".
Nos poemas seguintes o corpo vai surgindo, descrito em imagens parciais, de um fragmentado e ainda obscuro imaginário: o braço, o pulso, a anca, a face, o rosto, formas que, como o poeta diz, "não atingem ainda a folha clara"; ou, como nos versos finais, de interrogação:
Chegarei a formar um rosto
nesta folha
árida?
A Imagem, a Forma que procura e deseja inscrever no seu poema, é como  "terra negra" que se nega, enquanto o corpo espera, na escuridão da noite.
Caminhando com ele na busca das palavras, as imagens vão tomando forma: a terra agora é corpo, como outrora, terra-mãe, terra-mulher de sexo iniciador. Deste corpo se soltará a Palavra, a Voz primordial, e  a Imagem, ainda envolta em treva (a boca soçobrou no limiar da treva). 
Imagem finalmente de Mulher:
...
Amamos o limiar o pólen dos mortos
na sombra desta palma deste odor de chama
chamamos alta a esta chama nua
E é uma mulher direita imóvel nua

Amamos esta terra esta sombra da mão
amamos esta escrita de água e dança obscura
caminhamos contra o hálito da noite



7 comments:

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