Tuesday, November 27, 2018

Clara Andermatt, a Arte Inconfundível





Clara Andermatt, a arte Inconfundível

Perante o que sinto diante de uma obra de arte, a minha primeira reacção é o silêncio. Um silêncio feito de espanto que me obriga com tempo a encontrar, porque as procuro, as palavras com que o dizer. Porque desse silêncio nasce algo de mais profundo, um espaço ou um tempo que têm a marca dos primórdios da criação, do seu mistério, da sua interpelação.
Parece imperativa , a necessidade de dizer, e não é fácil: com o corpo, com a música, com palavras que são igualmente corpo, e música.
Já é longo o percurso de criação de Clara Andermatt: viagens, travessias e atravessamentos, de que trazia consigo o gosto da surpresa e da inovação.
Para mim a primeira e maior novidade, na altura,  –estava eu há anos a ler e traduzir o poeta Celan – foi a coreografia ao mesmo tempo tão simples e complexa CIO AZUL (1993).
Assim mesmo, indicação aos que acham que sem ter tudo não podem fazer nada, quando no nada já tudo está contido, como no QUADRADO BRANCO de Malévich (1918) que José Gil tão bem estudou. Ele pinta logo a seguir à Revolução Russa, como Celan escreve logo a seguir ao Holocausto, explicando que “ tudo é menos do que é, / tudo é mais”, em ENTRADA DE VIOLONCELOS, e afirmando que a poesia  a partir daquele momento já não se impunha, mas se expunha (1969). E assim mesmo, nua, despojada, cadáver que se lavava um cadáver-palavra ( como no poema dedicado aos amigos Hannah e Hermann Lenz, arrepanhados de noite):

Uma palavra- bem sabes:
Um cadáver.

Vamos lavá-lo,
vamos penteá-lo,
vamos voltar-lhe os olhos
para o céu.

Estamos neste poema como no mais singelo dos discursos de Clara, nesta coreografia carregada de sentido. É o OLHO DO TEMPO (de novo Celan) que olha de través “sob um sobrolho de sete cores”. Assim “ o mundo aquece / e os mortos / brotam e florescem”.
Por outras palavras, da simplicidade do Nada exposto o mundo volta a nascer. O mundo que é a Obra, só em singeleza concebida.

Parece e é bem verdade, que neste início de século, o mundo nos preocupa a todos, criadores e cientistas e que de repente (quase como nos séculos de antigamente, do Humanismo e do Renascimento) nos sentimos mais próximos uns dos outros, nas nossas interpelações.
Assim chego à grande Revelação deste ano que Clara Andermatt com João Lucas, seu compositor de excelência - quase alma gémea – nos apresentaram no Teatro São Luiz: PARECE QUE O MUNDO (a 22, 23, 25 de Novembro, tão pouco tempo, infelizmente). Inspirada, dizem, esta obra, numa de Italo Calvino, Palomar, salientam os autores:
“Na construção da peça propusemo-nos , em total paridade criativa, uma renovada ambição no nosso percurso em comum: não dissociar, em nenhum momento, a invenção coreográfica da invenção musical”. E adiante: “ Esta peça oscila entre três planos distintos: o da observação, o da narrativa e o da meditação....A escrita de Calvino deu também origem, em múltiplos desdobramentos de leitura e de interpretação, aos enunciados da invenção do gesto e do som...colocando cada espectador num observatório da sua própria experiência.”
E aqui me sinto eu um pouco mais à vontade, porque eu senti sobretudo uma grande consciência  e reflexão sobre o que o mundo parece (ou chega a ser, no caso de cada um), uma grande intuição ou um grande conhecimento já em parte adquirido, por estes criadores. Referem a relação mais ampla com o cosmos, ora seria impossível essa relação não estar ali presente, vivida e sentida, materializada em cada movimento de energia mais intensa, que irrompe como forma de maravilhamento que a todos surpreende. Referem o infinito, que naturalmente a relação com o cosmos não pode deixar de arrastar consigo. É discussão permanente do tempo em que vivemos: é finito este cosmos, do pouco que ainda sabemos dele? Ou infinito? E que sentido adquirem então nele o SER e o TEMPO de que Heidegger falou, deixando-nos sem resposta? O ser é a matéria, é o espaço em que os corpos se movem, o tempo a energia  que os sustenta, os transposta, os transforma? Porque Einstein veio trazer esse novo conceito, de um tempo-espaço que abriu o nosso imaginário, de criadores e de cientistas, a novos e insuspeitos horizontes. Temos de navegar neles.
E o que fazem este nosso criadores de que agora me ocupo? Sem temor, embarcam, e deixam no ar, para nós, espectadores ainda impreparados, mas maravilhados, todas as interpelações.
A cada um sua busca, sua resposta...atravessada ou não pela sua vivência de um quotidiano que é seu.
Assim, perplexos, assistimos num palco que se complexificou  no seu conjunto muito elaborado de propostas, já não é o singelo do passado (nem poderia ser, em pleno post-modernismo do século XXI) é algo que é mais do que uma proposta artística,  uma elaboração de um conceito complexo, aprofundado, ampliado nas suas várias vertentes, artísticas, filosóficas e até científicas que vão para além do inspirado Calvino.
Lidamos aqui com a matéria, os corpos, e com a energia, os sons, a música. E uma matemática de raiz simbólica, pitagórica (séc.VI A.C. ) estruturada nesta coreografia surpreendente que eu definiria como variante do seu número de ouro  ( pois bem sabemos, pelo alinhar dos versos de ouro, que se trata ali de conceitos relacionados com o Belo, com o Bom, com o prodígio
do imaginário humano).
Impossível, na meditação que a peça impõe, não recuar aos tempos míticos da fusão andrógina do ser, na sua primordial completude: a existência nasce da fusão do verbo com a matéria, nomeada, para poder existir. Como ali no palco música e bailarinos se fundem, se confundem, a ponto de haver até uníssonos nas vozes que suavemente se sobrepõem e erguem, dizendo que estão ali, fazem parte de uma estranha união que, como na física quântica, ora são ondas ora são partículas, consoante a atenção do nosso olhar virado para o palco. Na música sentiremos a energia da ondas, nos corpos a materialização das partículas.
Mas eis que os criadores, perversos, para nosso espanto tudo invertem: os músicos, com a sua música vão como pura matéria pelo chão fora, e os bailarinos, misteriosamente transmutam-se em puro som, pura energia, transparente quase e invisível.
Tudo ali de repente é matéria, e por vezes explode, tudo ali é espírito (energia) e como o gato de Schroedinger nos deixa sem saber : está ali ou não está. E nunca esteve? E se está estará vivo ainda ou estará morto? Ou ambas as coisas, em simultâneo, conforme?
Por isso amamos tanto estes dois criadores, que nos abrem num palco este princípio só aparentemente fácil, da INCERTEZA.
Eles próprios dizem:
 PARECE QUE O MUNDO pode ser “uma daquelas felizes coincidências em que o mundo quer olhar e ser olhado no mesmíssimo instante”.
Ou por outras palavras: o impossível.
Só de impossível pode ser feita a arte...

Y.K.Centeno
2018




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