Sunday, July 15, 2018

A CASA




A CASA
 Distraídos não víamos
a casa a envelhecer connosco
e no entanto a casa envelhecia:
tinha dores
achaques
tropeções
incómodos pequenos
lâmpada que falhava
e uma ou outra coisa,
vertigem passageira.

Assim corria o tempo
em pequenos derrames
que a todos por dentro
corroía: a casa e com ela
as portas que rangiam
e umas résteas de luz
já quase a apagar-se.

A casa não andava
a casa já não via,
e nós ainda achávamos
que era coisa ligeira.

Não tem mal, dizíamos,
quando chegasse a hora
umas velas acesas,
candieiros de avó
sem perigo de incêndio:
a casa envelhecida
sempre estaria ali,
sempre resistiria.

Sem dar por isso 
o nosso envelhecer
ali juntos, fechados,
embora já morrendo
seria a última prova
de um grande amor
vivido
o dessa casa antiga
às vezes ainda rindo,
outras vezes zangada,
mas dividindo connosco
o tempo que faltava.

Lisboa, 2018




1 comment:

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