Sunday, June 17, 2018

Alberto Pimenta, pensar depois / no caminho

Aqui está à minha frente, um livro "dois em um" como lhe chama o Alberto, até na dedicatória deixando amizade e humor. Saiu nas edições do saguão, fixem o nome, neste ano de 2018, logo a seguir ao filme de Edgar Pêra sobre este criador resistente e insubmisso.
Já li, a espaços, preciso de parar de vez em quando para recuperar o fôlego.
A escrita é torrencial, William James gostaria certamente de o poder ler também, e se do lado esquerdo a página corre ordenada, discursiva, já do lado direito se desarticula em sílabas e sons, em manchas de grafismos próximos dos poetas concretistas, letristas, com quem ombreia (será ele talvez um dos últimos que nos é dado a ler?) e que pelo meio surrealizam o que vão dizendo, obrigando os seus leitores a não sossobrar na onda gigantesca que pode submergir facilmente o seu imaginário.
Porque este poeta não permite descanso: a sua força poética tem pulsão de performance,  mas tem igualmente a subtileza rara de uma erudição discreta, não menos exigente. Poesia de contrastes, como de contrastes é feita a sua personalidade, que assim se manifesta: no dito e no seu oposto, no aceite e no recusado - e sempre com uma veemência que nos apanha em contrapé.
Se num lado (pp.78-79) exprime em versos aparentemente tranquilos o que foi Tróia, com a Bela Helena, a sua perfeição, logo do outro nos atira à cara que Tróia já passou ( o que é verdade, em Alberto não encontramos mentiras ), que a história é isto, a festa acabou e ficou a louça para lavar...Os heróis, avisa ele, não eram ainda accionistas, mas já se adivinhava que viriam a ser / coisa / ah sim...E puxando-nos agora para a realidade que é a nossa e será a de sempre (do lado direito da página, racional, desconstruindo a narrativa fluida do lado do coração, memória mítica - abaixo com os mitos, e todos de uma só vez )
"quem lavou a louça / decerto os mesmos / de ontem e amanhã /
hoje com / outro encargo/ mecanizado / pois os accionistas / maquinaram / máquinas poupam e / fazem eles a festa lá longe /
enquanto aqui / infestam" ...
Não percebiam?
Iam os leitores embalados nalgum sonho mais mítico e mais lírico? Acordem, a torrente que os arrasta é a verdade poética do mundo, deste mundo relido pelo reverso, não pelo verso.
Como seria fácil, a tanta cultura, o verso! A tanto pesadelo, o mirífico sonho, o ledo engano de alma..
Pimenta, o "HOMEM PYCANTE" de Edgar Pêra veio, e falou.
Nunca teve nada a esconder . O que ali se oferece é o que ele é: homem de convulsão que em nada cede, como nunca cedeu a falsas seduções, sendo que por isso mesmo, quem sabe, é ele tão sedutor:
Seduz com o que pensa, seduz com o que diz, seduz até mesmo no que contradiz, num jogo de transformação e mudança que só ele sabe jogar, mas não baralha as cartas, o seu jogo é jogo limpo, sem trapaça.
Leio-o, conheço-, de há tantos e tantos anos - e de cada vez me surpreende. Há fogo na sua energia, mas ele não receia queimar-se.
Fará troça de mim, tenho a certeza, pelo que digo agora: no meio dessa fogueira brilha uma estrela:  Rulandus dizia que a imaginação era a estrela no homem. Em Alberto Pimenta o brilho não se apaga.


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