Friday, September 29, 2017

Europa : la terre gaste

Foi uma estranha associação de ideias.
A partir de uma paisagem desolada, parecendo anunciar um futuro próximo, ou pior, um presente cuja realidade chocava, por deixar à vista tanta miséria, tanta doença, tanto abandono indiferente, surge de súbito a imagem da terre gaste,  no Perceval de Chrétien de Troyes.
Fui reler o conto do Graal, e ao mesmo tempo a obra fundadora do Modernismo europeu The Waste Land, de T.S.Eliot, lida e esquecida há anos na minha velha estante. Também nesta longa e poética exposição encontrei a terre gaste da lenda e uma visão do mundo em que talvez o horror da Primeira Guerra Mundial tivesse deixado as suas marcas perenes. Porque o horror nunca deixou o mundo, e nunca deixou a Europa que discutimos agora, já no século XXI.
Perceval, na Idade-Média, personifica o herói de alma pura, intocada a ponto de nem saber a sua origem (cavalheiresca) e escondido pela mãe na floresta protectora vir a julgar que uns cavaleiros com que se depara um dia são verdadeiros Anjos do céu. A sua aventura começará então, como percurso de vida entregue a uma sede de perfeição de que o Graal, o Vaso em que fora recolhido o sangue de Cristo, é a imagem e a utopia condutora.
A importância do tema do Graal, que Chrétien de Troyes introduz, e a sua função arquetípica, atravessam os séculos, e as obras de uma cultura europeia que vem até aos nosso dias, com Wagner e Eliot, passando por um Eschenbach alemão, contemporâneo do criador francês.
Os heróis, na narrativa, têm o seu encontro decisivo - pois marcará para sempre o seu futuro, e o seu olhar sobre o mundo, (o eu e o outro) ao chegarem ao Reino do Graal.
Deste reino, do qual Gurnemanz, ( o sábio mentor de Parsifal, na ópera de Wagner ) dirá que é um reino onde o Tempo se torna Espaço
Du siehst, mein Sohn,
zum Raum wird hier die Zeit.
o que podemos é fixar que recupera, no grande cortejo do Graal, de distribuição de ricos alimentos e abundantes bebidas, vestígios da memória das descrições de Joaquim de Flora, o monge do século XII que tinha anunciado para breve a chegada do Reino do Espírito Santo (no Liber Figurarum, inspirado no Apocalipse de São João) em que predominaria a igualdade entre todos, sem distinção de nenhuma espécie, e a abundância de alimento, material e espiritual. Memória de uma Idade de fomes, de guerras, de pestes, de grande miséria social e moral.
No livro de Chrétien não se encontra, para lá desta visão da lenda, mais nenhuma indicação de processo místico de iniciação, como acontecerá com Wagner, séculos mais tarde.
Importante é a referência ao olhar que se deve ter sobre o outro ( no caso o Rei Pescador, que é Rei do Graal, sofrendo as dores da sua mutilação, mas sobre esta mutilação falaremos noutra altura) perante uma situação que ninguém explica, e o dever de colocar a pergunta certa, levado por um sentimento de compaixão e piedade.
O jovem Perceval não faz pergunta nenhuma, toma tudo por adquirido, com alguma inocência, e o mesmo acontece com o Parsifal  wagneriano (por essa razão será adiada a sua coroação como futuro e predestinado Rei).
Mas importante, como disse, é que se chame a atenção para um momento especialmente dramático: alguém sofre, e quem podia ajudar, não ajuda, não entende a dimensão do gesto caridoso que se devia impôr, e assim como veio, vai, fechado em si, a sua individuação prevista (diria um junguiano) ficará adiada mais um tempo.
A imagem da terre gaste, como logo de início a da Gaste Forêt solitária, onde o jovem vive com a mãe que deseja protegê-lo do mundo a que pertenceria, é uma imagem forte, e muito actual.
Vivemos hoje em dia numa Europa que alguma Mãe (Viúva, como no Conto) deseja proteger, isolando os heróis possíveis em recantos que são feitos de olhares indiferentes, distanciados, sem noção dos valores que se impõem.: sendo o primeiro de todos o da solidariedade, no amor, na compaixão pelo outro.
De pouco serve a abundância das utopias do Graal, dos seus cortejos sumptuosos, se o espaço à volta, o Espaço em que se transformou o Tempo é afinal um espaço de abandono, de solidão, doença da alma e condenação à  morte.
Chegou a hora de ver a Europa fazer as perguntas certas. Ou não será mais que terre gaste no momento supremo da interrogação e da verdade.

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