Tuesday, July 14, 2015

Rimbaud- Caeiro

O Sensacionismo de que Pessoa/Caeiro, este enquanto suposto Mestre, são os doutrinadores, têm um antepassado: Arthur Rimbaud, que vive até à medula esse conjunto de emoções até ao rebentar da quilha do seu peito contra um mar selvagem, indomável e arrebatador:Ô que ma quille éclate!Ô que j'aille à la mer!
Quem alguma vez leu estes versos de Le Bateau Ivre nunca mais os esquece.
Esse caminhar que é de raiva e afundamento na sensação/excitação da violência mais funda, a da entrega do ser à onda descontrolada, que tudo deseja e tudo quer sentir em fusão e de uma única vez, é algo de irrepetível.
Poderíamos, mas não faria sentido, aproximar a Ode Marítima de Álvaro de Campos deste magnífico poema. A excitação descontrolada, o impulso mais negro e mais profundo estarão presentes em ambos.
Mas não há, nunca houve, por muito que se pretenda o contrário, uma entrega total do nosso Fernando Pessoa, em nenhuma das suas múltiplas vozes, ao descontrolo emotivo, à negra dissolução do ser.
Por cima de uma entrega aparente paira um Eu a que tudo regressa, um Eu que distanciado, racional, mede, ordena, enquanto observa e vive. A sua vivência não é de entrega, e mesmo quando aparenta ser, é mais um exercício de medição e fingimento.
Vai, mas controla o até onde pode ir. Ele conhece o limite....

Já em Rimbaud a entrega é total, seja luminosa, como em Marine, poema alquímico que merece leitura detalhada, e de algum modo reordena o caos de Bateau Ivre, seja mais cruelmente negra, como em tantos outros que se poderia citar.

Mas a minha ideia inicial era ver o que via Cairo, o Mestre, no momento que Pessoa descreve como de rara e súbita iluminação, fazendo dele o Guia que faltava aos praticantes de um Sensacionismo definido como fundador de toda a nova poesia do verdadeiro Modernismo.
Sentir tudo de todas as maneiras....
O sentido que Caeiro mais valoriza é a visão: ele olha para o rebanho que terá à sua frente e vê nessas ovelhas, que não chega a descrever com detalhe, não o animal que são, mas o seu pensamento.
E o que é o seu pensamento, ou o conjunto, reunido na figuração de um rebanho, dos seus pensamentos?
Nenhuma sensação, apenas a esfera do abstracto raciocínio, a despida nudez da razão em si mesma contida e reflectida.
Direi que há mais sensacionismo em Voyelles, de Rimbaud, no colorido grito de cada um dos sons, do que em qualquer outro poema pessoano que se possa citar.Fiquemos com Rimbaud, por um momento, na belíssima tradução de Augusto de Campos.
Entre o Alfa e o Ómega da criação universal, na multiplicidade de imagens que os sons vão propiciando, com uma variedade e um colorido tão vasto, não haveria lugar para o rebanho de Caeiro, o Mestre, o que da flôr não sabe dizer o nome por simples e humilde que seja, nem definir melhor o seu perfume, ou a côr que o seduz.
Caeiro não é Mestre de sensações, mas de pensamentos que contempla, enquanto lhes procura sentido  (não sensações, mas sentido) e fundamento.
Dir-me-ão: para quê comparar poetas e poemas? Cada um é como é, tem, como teve, o seu caminho próprio..e é verdade.
Apenas me apeteceu de repente lembrar a um público - quem sabe jovem - que houve antecedentes, antes dos presentes que se folheiam nos manuais, Baudelaire, Rimbaud, Verlaine, tantos e que o poema ou o poeta actual não nasceu do pó do chão, da humidade das relvas (aqui podia entrar Walt Whitman) mas das sementes de todas as vozes anteriores que culminaram na árvore e no fruto que os de agora felizmente podem colher (comer).







1 comment:

O Grunho said...
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