Thursday, January 25, 2007

Vasos Gregos em Portugal



Mais uma belíssima exposição oferecida pelo Museu Nacional de Arqueologia. Pode ser visitada de 26 de Janeiro a 15 de Julho de 2007.
A exposição constitui ao mesmo tempo uma homenagem a Maria Helena da Rocha Pereira, Professora Catedrática Jubilada da Universidade de Coimbra e Comissária Científica desta exposição, na sua qualidade de grande especialista da Cultura, Literatura e Arte Gregas.
Quando estudante em Coimbra, tive o grande privilégio de ser aluna da ilustre Professora na cadeira de História da Cultura Clássica. Devo-lhe o amor que aprendi a ter à Cultura, à Literatura, à Arte - ao pensamento filosófico e à criação em geral. Quando tenho saudades do tempo de estudante, e são cada vez maiores, pego num dos seus livros e volto a ler. Repetidamente leio as suas traduções dos grandes trágicos gregos. As Bacantes, por exemplo: ainda hoje sinto como actual o conflito entre a ordem civilizacional que Penteu deseja impôr, excluindo as pulsões mais fundas do ser humano, e a entrega à desordem emocional, ainda que ritualizada do culto de Diónisos. Este castigará Penteu pela arrogancia: no ser humano, como no divino, é preciso ver o "outro", reconhecer no outro a parte que ele contém de nós mesmos. A lição é de luz e de sombra...
Outro livro bom comanheiro e que aconselho aos alunos: HÉLADE, Antologia da Cultura Grega. Enquanto não se adquire o gosto de ler as fontes, aqui se encontrará uma selecção traduzida por mão de Mestre, indo desde a Ilíada e da Odisseia de Homero, passando por Hesíodo, Safo, entre muitos outros textos, autores e fragmentos dos pré-socráticos até Platão, Aristóteles e os que se lhes seguiram. O exemplo de um manual perfeito, nesta hora de tanta discussão em torno de novos manuais e novos modelos pedagógicos. Não há pedagogia esvaziada de saber. Vejamos Sófocles, na Antígona:
Coro
Muitos prodígios há; porém nenhum
maior do que o homem.
Esse, co'o sopro invernoso do Noto
passando entre as vagas
fundas como abismos,
o cinzento mar ultrapassou. E a terra
mortal, dos deuses a mais sublime,
trabalha-a sem fim,
volvendo o arado, ano após ano,
com a raça dos cavalos laborando.
....
Da sua arte o engenho subtil
p'ra além do que se espera, ora o leva
ao bem, ora ao mal;
se da terra preza as leis e dos deuses
na justiça faz fé, grande é a cidade;
mas logo a perde
quem por audácia incorre no erro.
....
(trad. Rocha Pereira )

Como bem recorda o Coro, o mérito é o do trabalho, sem ignorar o engenho, e o erro a evitar é o do excesso (da arrogancia ). Só no saber não existe nem nunca existirá excesso, pois o saber é humilde, na ânsia de conhecer mais e melhor, enquanto for possível.
A exposição é um exemplo de amor da beleza e da sabedoria partilhado comnosco.
No fragmento com que ilustro o post ( de um vaso da colecção de Manuel de Lancastre ) Diónisos, seguido por uma Ménade, caminha levando na mão uma taça com oferendas.
Não sendo deuses, aceitemos contudo, nós também, a taça de oferendas. O vinho de Diónisos é o vinho da vida.

1 comment:

Icen said...

Saludos de un Centeno de Venezuela,