Tuesday, June 26, 2018

As Rosas do Destino

Leio um verso de Sérgio Nazar David, como que chave final do seu poema sobre um quadro de Paula Rego,  (ver posts abaixo), um verso que insiste em ficar comigo:
"eu - engulo a rosa do destino".
São muitas e variadas, as rosas do destino.
As rosas do O Burro de Apuleio, com a devoção a Isis, Grande-Mãe, as rosas dos jardins dos alquimistas ( dat rosa mel apibus) as rosas de Dante, as de Rilke e as tão dolorosas de Celan.
Rosas como rosários. 
Perfeição, ou negação.
Fernando Pessoa /Ricardo Reis não desconhece o peso destas rosas:
Coroai-me de rosas,
Coroai-me em verdade
De rosas -
Rosas que se apagam
Em fronte a apagar-se
Tão cedo!
Coroai-me de rosas
E de folhas breves.
E basta.

Ou, noutro dos hinos:

Tão cedo passa tudo quanto passa!

Morre tão jovem ante os deuses quanto
Morre! Tudo é tão pouco!
Nada se sabe, tudo se imagina.
Circunda-te de rosas, ama, bebe
E cala. O mais é nada.

Ou ainda:

As rosas amo dos jardins de Adónis,
Essas volucres amo, Lídia, rosas,
Que em o dia em que nascem,
Em esse dia morrem.
A luz para elas é eterna, porque
Nascem nascido já o sol, e acabam
Antes que Apolo deixe
O seu curso visível.
Assim façamos nossa vida um dia,
Inscientes, Lídia, voluntàriamente,
Que há noite antes e após
O pouco que duramos.

Efémera é a vida e tudo o que os deuses aparentam oferecer. Nada é real, tudo é imaginação imaginada. 

Face a tanto desconhecimento, e tanta sombra, o caminho deve ser de retiro e de silêncio. Anunciando já poemas como o de Christian Rosenkreutz, 
"o que conhece e cala". E tem as rosas, a coroa de rosas sobre a cruz. Sendo a cruz o destino, que se engole...
Há rosas, espirituais, angélicas, no Fausto de Goethe, e é o seu perfume, inebriante, que distrai os diabos que, obedecendo a Mefisto, deveriam transportar a alma do herói para os infernos. Mas seduzidos pelo poder do amor que a rosa traz consigo, distraem-se e Fausto é salvo, neste drama, ao contrário dos anteriores em que a punição lhe estava garantida (no de Marlowe, por exemplo).
Falei dos Rosacruz e da sua doutrina, que Goethe conheceu bem e cito, a propósito, o poema-canção que tudo remete para o amor universal que atravessa mundo e homem (assim perceberemos que se no destino há dôr, há também redenção). Estamos no Quinto dia da aventura de Christian Rosencreuz:
I
Nada nesta terra é preferível
Ao belo e nobre amor,
Que nos torna semelhantes a Deus,
E que tudo esclarece.
Dirijamos ao rei este canto,
Que por todo o mar ele ressoe,
Nós perguntamos e vós respondereis.
II
Quem nos deu a vida?
O amor.
Quem nos devolveu a graça?
O amor.
Qual é a nossa origem?
O amor.
Como podemos perder-nos?
Sem amor.
III
Quem nos gerou?
O amor.
Por que nos alimentaram?
Por amor.
O que devemos aos nossos pais?
O amor.
Como explicar a sua paciência?
Por amor.
IV
Quem permite que nos dominemos?
O amor.
Podemos também encontrar o amor?
Pelo amor.
Onde se revelam as suas boas obras?
No amor.
Quem pode ainda unir dois espíritos?
O amor.
V
Cantemos então todos 
juntos e bem alto
em homenagem ao amor, 
Que ele cresça
nas nossas Altezas reais,
o seu corpo está longe, a sua alma longe está.
VI
Se ainda vivermos,
Deus fará, pela sua graça,
Com que pelo seu amor e grande generosidade
que os separou brutalmente,
Nós tenhamos a felicidade de os reunir
Pelas chamas do amor.
VII
Esta dôr
em alegria profunda
mesmo que tenham de passar milhares de gerações,
Se transformará eternamente.

As estrofes de I-IV concentram-se exclusivamente na força do amor primitivo e criador. São para nós as mais interessantes, neste contexto. As seguintes já se prendem com a narrativa das Bodas, em que primeiro o corpo e espírito dos reis estão separados, e a seguir, pelas chamas do amor, se reúnem de novo, formando o andrógino alquímico, transformando o sofrimento em alegria perfeita.

Goethe copia estas estrofes numa carta a Madame de Stein, (Briefe der Jahre 1764-1786, ed. 1965, p.933) mas sobretudo este conhecimento, que o inspira, é importante para o seu Fausto, e como sublinha K.Kérényi (Das Agaeische Fest, 1949) para a segunda parte da tragédia, a grande festa no Egeu, que recupera a festa marítima das Bodas. Se aqui predomina o elemento Água, noutro episódio serão as chamas do fogo em que o Homunculus, de puro amor se consome.
Camões? : amor é fogo que arde sem se ver...
Mas se nas Bodas Químicas dos Rosacruz, ou em Goethe, toda a transformação sonhada, desejada, conduz a metamorfoses felizes,  de redenção verdadeira, outras há que são a negação sofrida de um tal sonho, de uma tal esperança, eternamente negada.
E voltamos ao destino difícil de uma rosa que se engole, como quem engole a maçã envenenada de uma qualquer Branca de Neve. Brancura violentada, como no quadro de Paula Rego: tudo nesta pintora é dôr e violência, mais ou menos disfarçada.
De Goethe, poeta do amor, ao Pessoa, da distância cautelosa, teremos de passar a um Celan que só aparentemente resistiu à treva do silêncio de Deus.
SILÊNCIO
Silêncio! Enterro o espinho no teu coração,
porque a rosa, a rosa
está com as sombras no espelho e sangra!
Já sangrava, quando nós misturámos o Sim e o Não,
quando os bebemos,
porque um copo, que caiu da mesa, tilintou:
soou numa noite que escureceu durante mais tempo do que nós.
....
Silêncio! O espinho penetra-te mais fundo no coração: está unido com a rosa.

União aqui de morte, não de vida. A vida tinha perdido o sentido.

Num longo poema de Goethe, menos conhecido e menos trabalhado, por ser talvez tão hermético, Die Geheimnisse, Os Segredos  (de que existe uma bela tradução francesa de Roger Ayrault) podemos ler esta interrogação:
Está a Cruz densamente rodeada de Rosas.
Quem envolveu de Rosas esta Cruz?

Quer se aceite ou não a ideia de que Johann Valentin Andreae foi um cultor e não um crítico das sociedades secretas do seu tempo, o certo é que esta imagem forte permitiu alimentar o imaginário europeu, e os núcleos vários de meditação, a que a obra de Jacob Boehme deu também grande impulso nos século XVII e XVIII , na Alemanha como em Inglaterra, onde uma verdadeira escola boehmiana se desenvolveu.
Sem tentar aqui dar resposta improvável, sugiro no entanto que pela via da Rosa se chegue, ou tente chegar, ao que foi na Idade Média o culto Mariano, o simbolismo do Rosário que o acompanha, e a ideia, que a Fé promove, de que para todo o sofrimento ( a Cruz) haverá redenção.





















Sunday, June 17, 2018

Alberto Pimenta, pensar depois / no caminho

Aqui está à minha frente, um livro "dois em um" como lhe chama o Alberto, até na dedicatória deixando amizade e humor. Saiu nas edições do saguão, fixem o nome, neste ano de 2018, logo a seguir ao filme de Edgar Pêra sobre este criador resistente e insubmisso.
Já li, a espaços, preciso de parar de vez em quando para recuperar o fôlego.
A escrita é torrencial, William James gostaria certamente de o poder ler também, e se do lado esquerdo a página corre ordenada, discursiva, já do lado direito se desarticula em sílabas e sons, em manchas de grafismos próximos dos poetas concretistas, letristas, com quem ombreia (será ele talvez um dos últimos que nos é dado a ler?) e que pelo meio surrealizam o que vão dizendo, obrigando os seus leitores a não sossobrar na onda gigantesca que pode submergir facilmente o seu imaginário.
Porque este poeta não permite descanso: a sua força poética tem pulsão de performance,  mas tem igualmente a subtileza rara de uma erudição discreta, não menos exigente. Poesia de contrastes, como de contrastes é feita a sua personalidade, que assim se manifesta: no dito e no seu oposto, no aceite e no recusado - e sempre com uma veemência que nos apanha em contrapé.
Se num lado (pp.78-79) exprime em versos aparentemente tranquilos o que foi Tróia, com a Bela Helena, a sua perfeição, logo do outro nos atira à cara que Tróia já passou ( o que é verdade, em Alberto não encontramos mentiras ), que a história é isto, a festa acabou e ficou a louça para lavar...Os heróis, avisa ele, não eram ainda accionistas, mas já se adivinhava que viriam a ser / coisa / ah sim...E puxando-nos agora para a realidade que é a nossa e será a de sempre (do lado direito da página, racional, desconstruindo a narrativa fluida do lado do coração, memória mítica - abaixo com os mitos, e todos de uma só vez )
"quem lavou a louça / decerto os mesmos / de ontem e amanhã /
hoje com / outro encargo/ mecanizado / pois os accionistas / maquinaram / máquinas poupam e / fazem eles a festa lá longe /
enquanto aqui / infestam" ...
Não percebiam?
Iam os leitores embalados nalgum sonho mais mítico e mais lírico? Acordem, a torrente que os arrasta é a verdade poética do mundo, deste mundo relido pelo reverso, não pelo verso.
Como seria fácil, a tanta cultura, o verso! A tanto pesadelo, o mirífico sonho, o ledo engano de alma..
Pimenta, o "HOMEM PYCANTE" de Edgar Pêra veio, e falou.
Nunca teve nada a esconder . O que ali se oferece é o que ele é: homem de convulsão que em nada cede, como nunca cedeu a falsas seduções, sendo que por isso mesmo, quem sabe, é ele tão sedutor:
Seduz com o que pensa, seduz com o que diz, seduz até mesmo no que contradiz, num jogo de transformação e mudança que só ele sabe jogar, mas não baralha as cartas, o seu jogo é jogo limpo, sem trapaça.
Leio-o, conheço-, de há tantos e tantos anos - e de cada vez me surpreende. Há fogo na sua energia, mas ele não receia queimar-se.
Fará troça de mim, tenho a certeza, pelo que digo agora: no meio dessa fogueira brilha uma estrela:  Rulandus dizia que a imaginação era a estrela no homem. Em Alberto Pimenta o brilho não se apaga.


Saturday, June 09, 2018

O Olho e a Mão, Ana Marques Gastão / Sérgio Nazar David


Terei de acreditar nas sincronicidades a que Jung sempre deu atenção.
Eu andava a pensar em como mais uma vez a Escada de Jacob podia ser abordada, no seu simbolismo mais profundo. 
Uma das minhas netas escreve o sonho que teve há dias, onde existe uma escada que ela não sobe, mas desce, para um poço escuro. Enquanto hesito em pegar na Bíblia para reler o episódio de Jacob com o Anjo, recebo o último livro de Ana Marques Gastão, O Olho e a Mão, em que junto com um seu amigo, poeta brasileiro, Sérgio Nazar David, parte de quadros que escolhem ( o olho) e em conjunto, numa espécie de cadavre-exquis contemporâneo, post-moderno, relativizando as regras de outrora, cada qual se lança na aventura do seu poema, cruzando e descruzando ideias e reacções à imagem escolhida, no Sopro que empurra o seu dizer ( a mão) e resulta por fim na leitura que a nós nos oferece, em gesto duplo. Lemos primeiro um, depois o outro, face aos quadros escolhidos, variados de época e de estilo.
Penso: o que puxa o nosso imaginário, nesta aventura a dois? A Imagem ali disposta na página? Ou o poema do primeiro que escreve e a que o segundo responde, interpela, ou desvia, sendo que logo a seguir o processo se inverte, e o primeiro é depois o segundo, e é ele que terá de co(responder), do mesmo modo. Um como que eco, pelo ritmo, ou talvez antes uma  discreta e subtil, quase não declarada, (re)elaboração de arquétipo, de símbolo, ou de silêncio escavado na terra onde ficam os mortos, se evocados.
Não nos enganemos, trata-se de um livro de poesia, de poesia a que a imagem de um quadro serve de pretexto e suporte. Por ali circula o fascínio e a entrega da palavra ( por secretos meandros ) não ao quadro, à representação, mas à essência mesma da imagem poética, coisa bem diferente. O espaço que encerrou o quadro liberta-se e abre-se no tempo do dizer do poema, dos poemas, pois são dois os que falam entre si, são dois poetas, enquanto aparentam falar apenas em relação a este ou aquele pintor que os terá inspirado. Há uma pulsão que atravessa o  diálogo de Ana e Sérgio com cada quadro mas  os remete também para si mesmos, e de um para o outro, e essa espécie de diálogo, ou confronto, ou atracção mais secreta ( por que não dizê-lo? ) triálogo mais íntimo, é de repente o que o poema desvenda, e nos revela. Também as palavras se buscam, se entregam e se amam...também há nas palavras uma coniunctio que pode ser perfeita.
Não levarão a mal, os amigos leitores, que refira aqui uma leitura minha, recente: de Remo Roth, Holy Wedding, the Inclusion of Synchronicity and Hermetic Principles in the Worldview of the 21st Century (2017).
Na verdade este livro de poesia é em tudo já do século XXI, resulta de uma sincronicidade em que olhar e dizer e entre si comunicar serão novo modelo, para lá do puro experimental já conhecido, desde o Modernismo e as suas várias práticas. Para mim o modelo tem muito a ver com a leitura que Jung fazia do inconsciente colectivo, e das manifestações na arte, como nos sonhos, de forte mensagem mítica, arquetípica ou simbólica. O discurso destes dois poetas em conjunção tem de tudo isto a marca. Será preciso ler mais do que uma vez, sem dúvida. A fruição da palavra pode não revelar desde logo o dizer mais oculto. 
Deixo aqui os poemas que foram inspirados por uma obra especial, de Anselm Kiefer, um dos meus preferidos, em que cada tela nos transporta para um imaginário carregado de uma cultura mística, interiorizada, nem sempre decifrável, como a luta de Jacob com o seu Anjo, numa escada que no quadro ascende de uma terra de cinzas tenebrosas a um céu interpelado pela voz de um poeta (Celan) mas que não se abre nunca, não se ilumina, esconde um deus que é silêncio. Na terra, enrolada num oito, aos pés da escada, vê-se uma cobra, Se houvesse ainda dúvidas sobre a dimensão mítica do quadro, a cobra na ausência do Anjo, a cobra rastejando no pó da terra negra (materia negra) ajudaria a dissipá-las. O título do quadro, de 1984, é SERAPHIM.
Eis os poemas, o primeiro, de longa meditação abrindo com uma epígrafe de Paul Celan, e inspirado ainda noutro poema, de Nazar David ("A Arte da Fuga") é o da Ana:
Havia terra neles, / e cavavam.
(Paul Celan).
Nem de dia era, nem de noite, e não se ouvindo,
tudo se ouvia. ávidos de escutar, não cavavam,
não cavavam e a terra salvavam do musgo que,
atolado, se guarda na boca de tanto morrer;
....
Sobe, sobe, a escada deste Serafim que tantos
arcanjos-anjos oculta, sobe-a como a criança que
se esgueira pelos ramos da árvore, pés descalços
e oh, não ser de nenhum, de ninguém, ser livre;

ouve, ouve, o clarinete na mesma pedra-poço,
a escada é eixo, coluna vertebral;
...
olha o teu dedo, já ele próprio anti-arte da fuga
e favo de mel, movimento sem sangue no chão.
sabes, sempre falta alguma coisa, nem homem
nem mulher, só Tu, impetuosamente Tu.

E o seguinte é o de Sérgio, que deu o título de Sob escombros, e de que deixo uns versos, não podendo nem para ele nem para a Ana transcrever a totalidade dos poemas. O leitor terá o cuidado de ler na íntegra o que apenas aponto:

...Somos esta raça intrépida -
que se diga sem orgulho e sem sofisma -
dos que contemplam o horror,

como Kiefer sobre a escada de argila

e palha, e escavam; ou, como Velázquez,
frente ao cavalete, em Las niñas,
dos que fixam o oculto, e igualmente
escavam. O oculto é o nada, ao redor
do qual o artista pinta (ou escreve).

De si mesmo, noutro poema, "O que ela engole" inspirado num quadro de Paula Rego, Snow White Swallows the Poisoned Apple, 1995, concluirá o poeta:

 Eu- engulo a rosa do destino.

Ah, essa rosa do nada, rosa de ninguém de novo desfolhada em Paul Celan, hoje em dia uma quase bíblia de pintores e poetas, sete rosas mais tarde (tudo era já tarde quando ele começou a escrever...) e a rosa era o nada de ninguém.











  



Friday, May 11, 2018

Ramos Rosa, A Imagem

Por um destes acasos que acontecem, depois de colocar o post anterior reencontrei uma antiga plaquette, edição de José da Cruz Santos, dos anos 70, com poemas que o António Ramos Rosa tinha publicado, sobre A Imagem.
Também ele, sobre a página branca, procura encontrar o murmúrio de uma palavra secreta. Uma palavra-imagem, uma forma, um corpo materializado em mais do que leve som.
Este é o poema, em verso livre, com que se inicia o  ciclo de 13, na norma estabelecida pelo editor para a sua colecção O OIRO DO DIA. Outros tempos, em que se podia publicar e ler poesia sob formas variadas de concepção e edição, na certeza de que haveria sempre leitores para ler (e até coleccionar) e livrarias de portas sempre abertas para vender. 

Seja o que fôr Murmúrio muro
Risco no opaco
Sem lâmpada na inércia branca

Os olhos ardem sob o gelo
Em equilíbrio encontrar que folha
sobre folha ou pedra
Nenhuma árvore aqui

Vocábulo nu Palavra nula
no muro

As imagens não dançam
sobre a imagem
Podes dizer pedra vento terra
Podes dizer o suicídio nulo

As imagens não dançam nos terraços
iguais e brancos brancos e iguais
nenhuma mulher se despe ou despenteia
nenhum vento desalinha este rectângulo

Podes dizer agora que a imagem 
é nula
como o corpo

Murmúrio e Palavra, em letras maiúsculas no texto, descrevem, indirectamente, o que o poeta deseja: não o risco casual no papel branco, feito por mão sonâmbula, mas a voz, mas o som, algum dizer primordial que rompa a "inércia branca e sem lâmpada" ( a que falta o ardor da revelação), neste início de busca da Imagem o poeta alude ao que lhe falta: a espessura do corpo que levaria as suas palavras a dançar, nos terraços que vê, iguais e brancos, num rectângulo que nenhum vento ainda desalinha.
Fecha com três versos em forma de resumo:
Podes dizer agora que a imagem
é nula
como o corpo
Exprime assim o seu dizer ausente, e ao mesmo tempo o seu desejo de um corpo inexistente, pois ali, nos terraços que vê, "nenhuma mulher se despe ou despenteia".
Nos poemas seguintes o corpo vai surgindo, descrito em imagens parciais, de um fragmentado e ainda obscuro imaginário: o braço, o pulso, a anca, a face, o rosto, formas que, como o poeta diz, "não atingem ainda a folha clara"; ou, como nos versos finais, de interrogação:
Chegarei a formar um rosto
nesta folha
árida?
A Imagem, a Forma que procura e deseja inscrever no seu poema, é como  "terra negra" que se nega, enquanto o corpo espera, na escuridão da noite.
Caminhando com ele na busca das palavras, as imagens vão tomando forma: a terra agora é corpo, como outrora, terra-mãe, terra-mulher de sexo iniciador. Deste corpo se soltará a Palavra, a Voz primordial, e  a Imagem, ainda envolta em treva (a boca soçobrou no limiar da treva). 
Imagem finalmente de Mulher:
...
Amamos o limiar o pólen dos mortos
na sombra desta palma deste odor de chama
chamamos alta a esta chama nua
E é uma mulher direita imóvel nua

Amamos esta terra esta sombra da mão
amamos esta escrita de água e dança obscura
caminhamos contra o hálito da noite



Monday, May 07, 2018






A IMAGEM (notas para um ensaio)
Imagem, imaginar, imaginários – uma mesma raiz aberta a múltiplas reflexões.
A Imagem é uma Representação.
Remeto para o célebre quadro de René Magritte, um óleo datado de 1928-1929, um cachimbo, com uma legenda por baixo: ceci n’est pas une pipe.
Estabeleceu-se, com esta legenda, uma primeira reflexão sobre o que é uma imagem: é uma representação (do real) a não confundir com a realidade em si mesma, que seria no caso, um cachimbo que se pudesse fumar!
Aliás o título do quadro já é uma indicação do entendimento que o pintor tem das imagens face ao mundo real: o título é LA TRAHISON DES IMAGES.
E este é o comentário do artista, quando à sua volta se ergueram vozes de escândalo:
“ O famoso cachimbo. Como fui censurado por causa dele! E no entanto, seria possível carregar de tabaco o meu cachimbo? Não, é só uma representação, não é verdade? Por isso, se eu tivesse escrito no meu quadro’isto é um cachimbo’, estaria a mentir! “
Michel Foucault discute no seu estudo de 1973, Ceci N’est Pas Une Pipe, o aparente paradoxo com que o quadro nos confronta.
Falando de imagem/representação podemos discutir se a representação o é de um objecto real (como neste quadro) ou de um objecto imaginário: com este conceito de representação do imaginário, trazendo-o até nós, tornando-o por sua vez real deste modo, alcançamos, ou propomos, um novo patamar de discussão.
Neste patamar teriam lugar de destaque os Surrealistas e as suas criações, vivendo do imprevisível, do surpreendente, do que poderíamos chamar a lógica do inconsciente.
E neste caso já o real em si mesmo pouco nos preocuparia, dado que um outro real – o imaginário – se tinha tornado visível e apetecível.
Este é um patamar onde para além da questão da imagem se coloca uma outra: a do dizer, e em que linguagem: pictórica, literária, musical, etc. (deixando de fora um imaginário não menos interessante, o científico, com as novas capacidades de elaboração tecnológica hoje tornadas possíveis).
O prefixo in, remete desde logo “para dentro”, ou seja para uma íntima visão (representação) emanada / construída a partir das esferas da nossa psique (consciente, sub- e in- consciente). Sendo assim, a Imagem, neste contexto, mais restrito ou mais amplo, terá sempre uma forte marca de subjectividade.
Nada que incomode um criador…ele procura, não o real imediato, acessível, mas a parte de mistério que o transcende. Algo como um para-lá do real  de que o criador resolveu ocupar-se. Podemos perguntar: mas há mistério no real ? Não é o real uma absoluta objectividade em si mesma? Pelos vistos não, para um criador que o interroga e pelo caminho se interroga também a si mesmo.
A imagem, tomada no sentido da Psicologia das Profundidades (Jung) é uma forma que se constrói nos sonhos, nas imaginações e fantasias a partir de um núcleo de relacionamento entre o Sujeito consciente e a esfera profunda do Inconsciente. A alma (die Seele, Jung) projecta nas imagens a psicodinâmica do inconsciente na consciência. A alma cria imagens e símbolos e é ela mesma Imagem (itálico meu).
Imagens e símbolos, diz  ainda Jung, são de origem mais primitiva e mais variada do que a linguagem, e por isso um importante fundamento da comunicação humana.
Podemos avançar um pouco mais pelos conceitos : imagem, representação, projecção de conteúdos do inconsciente. Nos casos de que nos fala Jung, os sonhos, as fantasias, o conceito de Alma- sendo que a Alma é Imagem, é representação de uma Essência que de outro modo não seria inteligível – fomos sendo guiados para a tal visão íntima, subjectiva, da representação.
Mas fomos avançando um pouco mais.
Da Imagem /Representação à Imagem/Comunicação:
- em primeiro lugar do eu consigo mesmo (imagem /representação, do inconsciente à consciência)
- e em segundo lugar do eu com o outro, com o mundo (por via da representação / comunicação)
 E fica uma pergunta: não poderá haver um centro próprio, específico, demarcado no cérebro de forma mais objectiva que seja o criador da imagem, e da representação?
Ao “mapear” um cérebro o que descobre, ou o que poderá vir a descobrir um dia, o neurobiólogo do século XXI? Guardo a ideia de que a imagem é talvez a sinapse de dois neurónios felizes que se entendem, como na definição de Eternidade que Rimbaud nos oferece no seu poema  L’ÉTERNITÉ, de 1872:
“Elle est retrouvée. / Quoi? – L’Éternité. / C’est la mer allée avec le soleil”
ou seja, o mar e o sol, a água e o fogo, numa conjunção ideal de completude: eis a sua imagem /representação da Eternidade:
Rimbaud
L’ÉTERNITÉ
Elle est retrouvée.
Quoi? – L’Éternité.
C’est la mer allée
Avec le soleil.

Âme sentinelle,
Murmurons l’aveu
De la nuit si nulle
Et du jour en feu.

Des humains suffrages,
Des communs élans
Là tu te dégages
Et voles selon.

Puisque de vous seules,
Braises de satin,
Le Devoir s’exhale
Sans qu’on dise: enfin.

Là pas d’espérance,
Nul orietur.
Science avec patience,
Le supplice est sûr.

Elle est retrouvée.
Quoi?- LÉternité.
C’est la mer allée
Avec le soleil.

Água e Fogo nesta junção elementar de opostos que definem, com o seu fulgôr, o Todo da Eternidade.
Encontramos no imaginário alquímico um semelhante entendimento da Eternidade como reunião, conjunção de opostos:
lua / sol ;
água / fogo;
dia / noite;
mercúrio / enxofre
macho / fêmea
etc.
Sendo que a Pedra Filosofal, de muitos nomes, como dizem os alquimistas, os reúne em si numa imagem de perfeição e completude.
A imagem ideal é a do Andrógino, trazida até à Modernidade a partir do Banquete de Platão. Ser esférico, completo, integrando os dois géneros, o masculino e o feminino, mas posteriormente castigado e dividido pelos deuses, permanece como arquétipo de um estado ideal que a Pedra dos alquimistas recupera.
Mas continuemos com a nossa reflexão:
O que será mais propício à nossa elaboração criadora? Um arquétipo, como o referido acima, ou um puro vazio, um espaço branco onde todas as imagens se podem projectar?
Recordemos a célebre série de Kazimir Malevich, nas telas a óleo de 1918: Branco sobre Branco.
A contemplação destes quadros, onde apesar de tudo o vazio não é pleno, pois se podem distinguir com clareza as marcas do pincel, a tensão e a intensidade dos tons de branco aplicados, abriu mais discussão na História e na Crítica da Arte. Os defensores destas formas ditas de suprema abstracção, designados como “Suprematistas”, o que propõem, seja no Branco seja no Negro, como absoluto contraponto ao Branco? Um novo entendimento da criação ou um novo entendimento da nossa relação com a obra criada e o seu criador?
É o criador um alter-ego nosso que faz a mediação entre nós e o mundo, visto pelos seus olhos? E que papel desempenha a imagem de suposto absoluto em relação a nós, ou ao seu criador?
É um suporte livre do nosso imaginário?
José Gil, numa obra que gosto de recordar, A Imagem-Nua e as pequenas percepções (1996), abre com “A visão do invisível”  e dedica um capítulo em especial ao “Caos  e Quadrado Negro” (p. 135).
Interroga-se José Gil: “ Porque é que a percepção estética precisa de ao mesmo tempo conhecer e ignorar a forma como objecto?Se a percepção neutraliza o conhecimento, este último, ainda que neutralizado, permanence: o quadro mais abstracto conserva sempre alguma coisa de ‘figurativo’. Até mesmo no Quadrado Branco sobre Fundo Branco de Malevitch o olhar  reconhece alguma coisa, um ‘quadrado’ pintado sobre um ‘fundo’ falso: adivinham-se aqui formas e fantasmas de formas.O quadro mais informal mostra ainda pontos, manchas, contornos, ou materiais rugosos, pregueados, lisos” (p.136).
É assim que a perturbadora criação do Quadrado Branco e a do Quadrado Negro leva o pintor a considerar a ruptura “total e definitiva com o mundo do objecto” (p.138).
Nasce a arte abstracta, como Suprematismo.
Neste movimento, de descoberta e de anulação, o que acontece à imagem como representação? Permite o anular da imagem dar lugar a novas formas ainda que não o desejem ser? Ou é imperioso que, para existir negação, haja primeiro alguma forma de real que se negue? E como podemos, pintando, anular a pintura? Ou falando anular a palavra? Esvaziando o sentido? Procurando um sentido no Vazio criado, adivinhado?
Encontro numa poema recente de Manuel Alegre uma interrogação semelhante:
Depois do Branco

Quem sabe o que na página se esconde
e se dentro do branco está um muro
e se depois do muro não há onde
e se depois do branco é tudo escuro?

Quem sabe o que pode acontecer
quando ao verso já escrito outro se junta
e tudo está no verso por escrever
e o que se escreve é só uma pergunta?

Quem sabe o que se vê e não se vê
se por dentro do branco apenas cabe
esse nome que nunca ninguém lê
e o verso que se sabe e não se sabe?
( in NADA ESTÁ ESCRITO, 2012 )

Este poema sublinha uma contradição de fundo : a do branco com o escuro ( podia chamar-se negro, como na alquimia e teríamos claramente o jogo de opostos da albedo com a nigredo); a da afirmação (do verso escrito) com a pergunta (a dúvida da interrogação) e finalmente a do visível ( a forma que se vê, o verso que se escreve) com o invisível (o nome que ninguém lê, o verso que não se sabe) e que é precisamente o que o branco contém.
Sendo que este branco de Manuel Alegre, como o do Quadrado de Malevitch, pressupõe uma revelação que o pintor, no seu tempo, também teve. Não a da fusão intemporal de Rimbaud no seu poema, mas a da anulação objectiva, temporal,  que o branco sobre o branco permitiu, abrindo a imaginação dos artistas a novos e revolucionários conceitos de produção artística.
O Suprematismo de uns, abolindo o Simbolismo ou o Realismo de outros, está na base da produção dos Modernistas em geral; e aqui se poderia aludir ao exemplo de Fernando Pessoa e a um dos seus mais antigos e interessantes poemas, ALÉM-DEUS, datado de 1913. Lança uma mesma interrogação, com a mesma carga metafísica, ao olhar o rio Tejo:
“O que é ser-rio e correr?
O que é está-lo eu a ver?”
A descrição do que sente conduz à imagem de “Vácuo”, o vazio que toma o lugar do momento ( o tempo) e do lugar ( o espaço). Desta anulação da consciência nascerá a experiência de Deus. Veja-se através de que passos:
 Tudo de repente é ôco-
Mesmo o meu estar a pensar.
Tudo – eu e o mundo em redor-
Fica mais que exterior.
Perde tudo o ser, ficar,
E do pensar se me some.
Fico sem poder ligar
Ser, idéia, alma de nome
A mim, à terra e aos céus.
E súbito encontro Deus.

Este Deus, secreto, escondido no escuro e no silêncio da alma, Essência que não se revela mas arrebata e absorve, como um buraco negro, levando à dissolução da consciência de si, na dissolução de todo o mundo exterior – não é um Deus que Malevitch ou outros dos seguidores tenham de verdade procurado. O que procuravam, no exercício da sua Arte, era antes como destruir a norma, que lhes pesava, de um Figurativo realista que se tornara obsoleto. E pelo apagamento da Forma recuperar o Sentido: um sentido, qualquer um, desde que aberto a todas as sensações (o que em Portugal seria o projecto do Sensacionismo). E por oposição, seguindo o mesmo modelo, recusando todas as sensações, pois a recusa de tudo é uma forma de inclusão.
Servem estas reflexões para o aprofundamento da definição de Imagem? Imagem como representação ou anulação de um real que na Arte perdeu o sentido?
Haverá sempre um momento em que a energia profunda de uma ideia poderá apropriar-se da mão que pinta, ou que escreve – e então nascerá uma Imagem: mais realista do que outrora ( com os surrealistas, por exemplo) ou mais abstracta, mas representando sempre a pulsão que impele o criador nesse seu gesto, que será sempre vivido como primeiro, primordial e fundador.
O que nos remete de novo para o conceito de Arquétipo, como Jung o definiu.

Wednesday, May 02, 2018

João Pedro George, Mamas e Badanas, ed. Guerra e Paz, 2018

Mérito às edições Guerra e Paz que têm no título a dupla ameaça da guerra, com a não menos perigosa realidade da paz. Eu pendo mais para o lado da guerra, pois a costumeira paz nacional, de moleza, preguiça, pasmaceira ou pior ainda verdadeira indiferença por tudo o que seja um mais arguto olhar sobre literatura, cultura e arte...a mim incomoda-me, sempre me incomodou, e continuo a achar, com Eça de Queiroz, em A Capital, que a dita precisa, para despertar, de um verdadeiro choque eléctrico, ao menos de vez em quando.
A editora já me tinha seduzido com o Dicionário das Palavras Supimpas: supimpa mesmo, e que me justificou a existência de mais uma tarde risonha de leitura...
Depois um risco enorme, edição dourada de O Físico Prodigioso de Jorge de Sena, um livro caixa, que se desdobra e deixa ver as pinturas sensuais de Mariana Viana a ilustrar o texto. Quem ousaria? Manuel Fonseca ousou. A sua guerra é também contra o esquecimento, a que nós, os portugueses, somos tão atreitos...a uma agitação de semi-histeria segue-se em regra uma cortina espessa de silêncio, com aparência de paz. 
João Pedro George, com esta sua investigação bem fundada e de um sarcasmo bem merecido, vem com o seu editor brandir um glaivo que não é submisso e pessoano, é de guerra.
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Guerra ao facilitismo preguiçoso que se auto-elogia e faz copypaste conforme a ocasião, a saber, a rapidez imperiosa de mais um lançamento anunciado, de uma obra que pouco acrescenta mas é preciso mesmo assim louvar e editar...e o que faz o temeroso guerreiro: escolhe a dedo, umas atrás das outras, as badanas, as ditas que se repetem até à exaustão, num fraseado ôco, por vezes até bacôco e que ao leitor mais sério tiram a vontade de comprar. A mim tiram.
É uma guerra útil? perguntará por aqui algum dos meus amigos. Claro que sim. Tudo que uma inteligência mais aguda detecte, aponte, corrija (ou não) e denuncie, é útil. Ajudará o escritor a estar mais atento, o editor a ser menos facilitista e, com sorte, o comprador a deixar de comprar, e a escolher outra coisa: uma t-shirt para os filhos, ou para os netos (se fôr da minha geração). O mau serviço do AO está à vista, e não há meio, com tanta festa das semanas da literatura, de ser emendado. Emendemos ao menos o vício de badanar.
Talvez se emendem os caricatos advérbios e adjectivos das badanas? Vale a pena estar por aqui a criticar, embora com riso largo? Acho que sim, adiro com gosto a esta guerra. 
Se na questão do gosto e da prática das badanas somos levados a uma interpelação do que poderia ser o princípio de uma história da edição em Portugal, os editores são de facto coniventes, já na questão das mamas (pardon my French...não se pretende ofender, o termo é médico, assim mesmo usado) o historial é diferente, e da plena responsabilidade dos autores-escritores.
João Pedro George merece que esta segunda parte do livro seja lida com o cuidado que nos mereceria uma investigação para ensaio de Mestrado ou mesmo de doutoramento. Porque leu muito, não se pode dizer que tenha lido tudo, nunca se lê tudo, mas leu muito, e escolheu, na variedade dos autores e das épocas, do século XVI ao nosso tempo, os exemplos mais significativos em cada poema, ou em cada narrativa em que os seios das mulheres se tornassem objecto de atenção, de tentação e quem sabe de alguma devoração...(psicológica, não quero ninguém perseguido por violência antropofágica). É espantoso o cardápio oferecido, por maiores ou mesmo menores (mas em Portugal não há menores, somos todos enormes) escritores e não resisto à pequena listagem, que vem na Introdução:
"Quem leu Camões, Eça de Queiroz, Mário de Sá-Carneiro, David Mourão-Ferreira, Baptista-Bastos, Maria João Lopo de Carvalho, Nuno Júdice ou Margarida Rebelo Pinto, entre outros, não terá por certo deixado de notar a abundância e variedade de mamas. As personagens dos romances de Miguel Sousa Tavares, por exemplo, são propensas a ver mamas em toda a parte, vivem dominadas pelo desejo de mamas, parecem não ter outra ideia, outro objectivo que não seja  a genuína busca de um par de mamas; nos livros de Domingos Amaral, é sobretudo de mamas descomunais, desmesuradas, de pôr os olhos em bico, que se fala" etc. etc. - pela enumeração, com exemplos detalhados, vê-se que J.P. George leu tudo e leu com atenção pois não omite detalhes, por respeito aos autores em causa, e entre esta Introdução, da página 121 até à Conclusão, na página 214, temos sucessivas variações de peitos femininos, (podiam ser masculinos, também? fica para novo projecto, ou Excurso em futura reedição) bem formados, entenda-se enormes e maternais, quase almofadas, ao gosto popular, neo-realista, que também aprecia como me lembro de ler ( e deixar de ler) no Alves Redol das coxas das moçoilas...) deformados, reformados por plásticas eventuais, redondos, bicudos, quase como armas de arremesso, enfim, não vou tirar ao leitor o prazer de ser ele mesmo a passear pelos títulos (em si mesmos todo um projecto de leitura) e pelas obras citadas.Vale a pena: 
O Império das Mamas Grandes (p.123), sim andam por aqui o Lobo Antunes, e a jovem geração de feministas, com Inês Pedrosa.
Enormes, Descomunais (p.129) sim, até a nossa prezada Agustina Bessa-Luís, mas dela esperam-se todas as ironias. Os outros acreditam mesmo no que dizem, desqualificando a definição de metáfora, que estudámos nos velhos manuais de Teoria da Literatura, desqualificando, ou melhor dito qualificando, mas da pior maneira, a mais medíocre, mais provinciana e parola de exprimir o desejo de um corpo que se reduz a olhares e descrições (digo bem, estamos com um sociólogo) de manejos e não de entregas mais subtis, a corpos que se reduzem a mamas, "gigantescas esferas dos peitos"( no Fado Alexandrino de Lobo Antunes) nem um Botero, no seu maior paroxismo lhe levaria a palma. Na prosa feminina, feminista, as metáforas sofrem, o vocabulário empobrece: "mamas cheias, cú redondo" (Margarida Rebelo Pinto, Vou Contar-te um Segredo). 
Na verdade, cú bicudo (pardon my French, mais uma vez, mas o que hei-de fazer, estou a ler o George) só a célebre pintura de Salvador Dali da nádega de Lenine apoiada num tripé,  que o surrealismo divinizou; tudo o mais é redondo. 
A Questão do Sutiã (p.134), Pequena Nótula Sobre coisas Óbvias (p.137), em que se sublinha que o interesse por esta atributo físico mamal é de todos os géneros, todas as classes sociais, todas as gerações, havendo apenas ligeiras e modestas alterações na designação usada, mais realista (quase ofendendo a vista) ou mais discreta, mas ainda assim quem sabe demasiado presente? Permitindo que se fale em obcecação excessiva, e levando à questão dos porquês? Falta de mais matéria? Por ser moda, ser chocante, e chocar levará a que se leia (venda) mais? (não a que se leia melhor...).
E por aí fora, não vou incluir, não é possível, todo o Índice, embora de tão justo, por um lado, e tão irónico, por outro, me apetecesse fazê-lo. Se quem me seguiu até aqui ainda não viu razão para ir depressa adquirir o livro, antes que esgote a primeira edição, ou que as livrarias fechem todas de uma vez, não considero mesmo assim o meu tempo perdido. Eu aprendi, e diverti-me imenso a aprender. Desejo o mesmo aos outros, que leiam, que aprendam, se divirtam.
Já agora uma última nota, à guisa de conclusão:
o autor, na badana de abertura não se exclui do esperado comentário com que deve apresentar-se. Diz de si mesmo "que nasceu nú, a 13 de Fevereiro de 1972, num domingo de Lourenço Marques (Moçambique) com quase quatro quilos". 
Já pesava no seu corpinho de bébé certamente um cérebro carregado de inteligência e sentido de humor ( o sentido de humor é um dos mais altos graus de cultura e inteligência  que possam definir o ser humano).
Mas a mim o que me reteve, e até este momento, em que volto a escrever, é a afirmação com que arranca o seu texto: nasceu nú. Faz rir, mas na verdade interpela de um modo bem profundo. Todos nascemos nús, por isso todos somos iguais. Mas todos morremos vestidos, e por isso todos somos diferentes.
É a roupa que nos veste que, ao longo do tempo, fará a diferença. Veja-se, cada vez mais, a importância da Moda e das Marcas na sociedade moderna.
Eu cresci educada a cortar as etiquetas que as roupas traziam por dentro, do casaco ou do vestido mais sofisticado ( por vezes de alta costura), ao mais simples de uso quotidiano. Não era correcto exibir o que se tinha. Hoje, pelo contrário, a marca é colocada bem à vista, por fora, na frente ou nas costas, tudo se exibe, tudo se sublinha, o que se veste marcará a diferença.
O que quero dizer? Que com uma simples frase, aparentemente jocosa, João Pedro George  nos devolve ao nosso lugar  de espécie mal acabada, nasce bem, porque igual, estraga-se pelo caminho, na ânsia de envergar a diferença, e é esta imperfeição que está na origem de muito do mal que vai no mundo, também nas letras, desde o modo como se vestem as capas e badanas ao modo como se despem as mamas.
Agora sim, tenho dito.