Sunday, August 14, 2016

Bertolt Brecht ( 1898-1956 )

Em final dos anos 50, Jorge de Sena, com Paulo Quintela, lançam uma colecção das traduções da obra de Brecht na Portugália Editora, onde muitos projectos novos, de jovens criadores, eram apadrinhados, na poesia e no romance, e as traduções de Brecht seriam um grande incentivo para os novos encenadores.
Ilse Losa foi uma das primeiras tradutoras, Fiama Hasse Pais Brandão foi outra e por último fui também eu convidada.
Aceitei com entusiasmo, eu estava em Lisboa a estudar na Faculdade de Letras, mas vinha de Coimbra ons se tinha fundado o CITAC para a vanguarda teatral - sempre que possível: nem tudo passava pelo crivo da censura.

Quando se fala de Brecht pensa-se na dimensão política, revolucionária, da sua obra.
Mas a revolução do ponto de vista das artes de palco, evoluindo de um Expressionismo poético, anarquista, juvenil (como na peça BAAL) para um genuíno teatro de intervenção em que tudo se combina e se expõe é imediata: o texto, a orientação ideológica, já marxista, e o enriquecimento do palco por meio das canções, contribuindo para um entusiasmo que contaminava as almas, como vem a contaminar o seu maior companheiro destas aventuras, Kurt Weill.

Nos Escritos para Teatro, que foi escrevendo de 1933 a 1947, no exílio da Dinamarca, depois da Suécia e finalmente Finlândia devido à ascenção de Hitler ao poder, e que a Suhrkamp Verlag editará em 1963-1964, em seis volumes, defende uma escrita dramatúrgica não-aristotélica, já inspirada no vanguardismo experimental dos primeiros Modernistas da Bauhaus, do Expressionismo, e do teatro chinês que teve ocasião de ver, a dada altura, em Moscovo.
Comecemos no que é definido na POÉTICA de Aristóteles, quanto à tragédia e quanto à comédia:
trabalha-se na tragédia a memória dos grandes mitos, em que as personagens são deuses, são heróis que se reconhecem das obras de Homero (recomendo as traduções da Ilíada e da Odisseia, de Frederico Lourenço) e que um destino trágico por culpa própria ou intervenção divina acabará destruindo. Os autores celebrados são Ésquilo, Sófocles, e Eurípides e é pela análise das suas tragédias que Aristóteles define o seu conceito. A tragédia compõe-se de vários actos em que a acção dos heróis é comentada por um coro que figura a voz do povo, ou a meditação da consciência que a situação dramática, seja justa ou injusta, impõe.
O que se pretende, com a representação, é que o público entenda o que é narrado, se identifique com a narrativa e a situação mítica, e reconheça que podia ser ele mesmo a sofrer o que sofrem os intervenientes: a esta fusão de emoções chama Aristóteles catárse (purificação).
A tragédia grega é, no fundo, um ritual de purificação, sai-se dessa experiência, por vezes tão violenta, de alma limpa, de vida renovada.

Ora Brecht não pretende nada disso, antes pelo contrário: não quer identificação, pois isso é perder a noção do tempo que se vive e do que a sociedade, em mudança, exige dos cidadãos.
Quer provocar reflexão, distanciamento inclusivé da demasiada beleza de um texto, quer que o seu público saia da sala desperto e atento para a mudança social que à época se deseja impôr: a de uma utopia, comunista, de liberdade, fraternidade, igualdade para todos.
Algo que ele mesmo, Brecht, veio a descobrir, em 1955, que nunca poderia existir.
É o ano em que publica um célebre poema em que diz que se o Governo não gosta do seu povo, talvez mudar de povo, já que o povo não consegue (em ditadura) mudar de governo.

Mas voltemos então ao que ele chamou de TEATRO ÉPICO, por recuperar a ideia de uma estrutura narrativa, como a da epopeia, mais do que a que fora definida por Aristóteles para a tragédia, em que a acção, suportada no mito, tinha de ser verosímil, coerente e levar a uma fusão de catárse com o seu público.
Como já disse, a ideia de catárse é a que tem de ser afastada.
Ao público pede-se atenção e distanciamento crítico, como na pequena peça A EXCEPÇÃO E A REGRA, uma das que traduzi. A moral do texto é não sigas como regra (era a corrupção, a desonestidade, a violência sobre os mais fracos) aquilo ue devia ser excepção, num mundo mais avançado.

Para manter o seu público atento, Brecht usou as canções, que interrompiam a acção e o monólogo ou diálogo dos actores na cena, e porque música e palavra foram sempre entregues aos melhores, penso em Kurt Weill, e em Hans Eisler, os mais célebres (este compôs o hino da República Democrática da Alemanha, RDA) - as canções de Brecht seguiram o seu rumo à parte, em concertos maravilhosos, de sucesso mundial.
Mas na realidade eram arte integrante do projecto e da "lição" teatral, sociológica, política, além de artística, pois nas artes de palco revolucionou as metodologias, com uma influência que se mantém até hoje.
Hoje, o palco é um espaço aberto, um espaço livre.
Podia dar muitos exemplos, de actores, cantoras e cantores, pianistas ou conjuntos  que os acompanhavam e o sucesso corria mundo.

Encontramos em Gerd Bornheim, A Estética do Teatro, trad. brasileira de 1992, a tabela que ele retira da edição dos Escritos, da ed. Suhrkamp:

Forma dramática de teatro
Forma épica de teatro
O palco corporifica uma ação
O palco relata a ação
Compromete o espectador na ação
e consome sua atividade
Transforma o espectador em observador
e desperta sua atividade
Possibilita sentimentos
Obriga o espectador a tomar decisões
Proporciona emoções, vivências
Proporciona conhecimentos
O espectador é transportado para dentro da ação
O espectador é contraposto a ela
Trabalha-se com a sugestão
Trabalha-se com argumentos
Se conservam as sensações
As sensações levam a uma tomada de consciência
O homem se apresenta como algo conhecido previamente
O homem é objeto de investigação
O homem é imutável
O homem se transforma e transforma
A tensão em relação ao desenlace da peça
A tensão em relação ao andamento
Uma cena existe em função da seguinte
Cada cena existe por si mesma
Os acontecimentos decorrem linearmente
Decorrem em curvas
Natureza não dá saltos - Natura non facit saltus
Natureza dá saltos - Facit saltus
O mundo tal como é
O mundo tal como se transforma
O homem como deve ser
O que é imperativo que ele faça
Seus impulsos
Seus motivos
O pensamento determina o ser
O ser social determina o pensamento
Sentimento
Razão


Repare-se como é importante a diferença final: não se quer provocar o Sentimento, mas despertar a Razão.
Da primeira peça juvenil, experessionista, BAAL, história de um poeta bêbado, anarquista, cruel, chegaremos às grandes lições de A MÃE, ou de VIDA DE GALILEU, entre tantas outras.

O que acontecia outrora, antes do 25 de Abril de 1974, é que as peças de Brecht estavam proibidas. Por isso as edições, mal saíam, eram apreendidas. Mesmo assim circulavam, e A Excepção e a Regra, por exemplo, chegou a Coimbra, ao CITAC, e o José Niza fez uma música para esse pequeno texto que eu tinha traduzido.

 No seu último ano de vida José Niza, que hesitava em publicar mas tinha muitas notas sobre o que poderia ser uma  Autobiografia, esteve em minha casa e contou-me um episódio do seu tempo de tropa no Ultramar, durante a guerra, de que nunca me tinha falado:
"Eu tinha sido mobilizado para Angola, era médico, psiquiatra, e por isso, embora estando no mato, não estava propriamente envolvido nas primeiras linhas de combate.
Passava muito tempo com os meus soldados, era certo que para os ajudar, física ou mentalmente, mas o tempo, como se imagina era longo...
Um dia pedi ao Capitão que me desse licença para ensaiar com eles um pequeno texto de teatro...e esse texto foi a tua tradução da Excepção e a Regra, que eu a seguir acompanhava à viola...pode parecer impossível, mas foi um momento de descontracção, de discussão, de divertimento, em plena selva, em plena guerra - não podes saber como nos fez bem, a todos nós..."
Com enorme desgosto, recebi, pouco tempo depois, a notícia da morte de José Niza: deixei, no meu livro deste ano, POEMAS COM ENDEREÇO, um poema em sua memória, em que refiro o vale do seu amor, em Santarém...Estes Poemas editados este anos, e passe a publicidade, ainda não se esgotou, mas é de pequena tiragem, na MARIPOSA AZUAL. Aí está Jozé Niza, com outros que o tempo cruel nos levou. Fica a memória.

O teatro tem isso de formidável: transporta-nos para outro espaço mental, e por isso a atracção de um palco nunca se perderá.
Seja pela emoção, seja pela revolução - o racional dos temas e das situações que podem ser abordadas seja no teatro clássico, seja no teatro moderno, ou ainda neste teatro Épico de Brecht, que muito em especial é feito de chamadas de atenção a um novo comportamento, responsável, moralizante, na sociedade civil, de que todos fazemos parte.

É o que precisamos de novo, agora, neste mundo que de tão global e sem fronteiras, foi perdendo de vista os seus limites: e os limites são e deverão ser sempre de Justiça, Moralidade e Razão, a Razão Prática de já Kant falara no seu célebre Tratado.

Aqui, na pedagogia de Brecht, temos de salientar , para além dos efeitos que leva ao palco, as canções, os cartazes, etc. o sublinhar de que um Povo sem educação, iletrado, não pode assumir as rédeas de uma Governação. Entregar o Poder à nova classe de um operariado ou de um campesinato em revolta (desde os levantamentos de 1905 ou da Revolução de 1917) não éra bastante, na óptica de Brecht: faltava o essencial, a preparação que só pela educação se podia obter.

É disso que se fala em A Mãe, a peça escrita em 1931-1932, a partir do romance de Máximo Gorki, do mesmo nome. Existe uma edição actual da ed. Cotovia, na tradução de Lino Marques ( Teatro III de Brecht) que vale muito a pena voltar a ler - e talvez encenar? A lição contida é de sempre, e para sempre. A edição da Ática, da tradução feita a duas mãos com Teresa Balté, está esgotada, só em antiquário se pderá encontrar, com sorte; mas vou servir-me da edição do Teatro de Almada, que existe à venda e retoma a anterior, para vos ler um pouco.
Ora oiçam um excerto das passagens importantes, entregues à voz do coro de aprendizes (tal e qual como no teatro grego).
 Elogio da Aprendizagem:
Aprende o que é mais simples!
É chegada a tua hora, não é tarde!
Não desistas nunca! É preciso saber mais!
Tu terás de saber mandar!
Tu terás de saber mandar!

Aprende, tu, no asilo!
Aprende, tu, na prisão!
Aprende, tu, na cozinha!
Aprende, sexagenário!
Tu terás de saber mandar!
Aprende na escola, sem-abrigo!
Tu, que de frio morres, estuda!
Tu, que tens fome, lê !
Ler é a tua arma!
....
Tu terás de saber mandar!

Haverá incitação mais evidente, mais pungente, à absoluta necessiade de que todos, na sociedade, têm de se preparar para funções mais altas e mais responsáveis de governação? um Poder tomado por ignorantes não é poder, voltará a ser algo de irrisório e de grande fragilidade.
Nesta peça de grande apelo ao combate à ignorância, para vencer a Ditadura e a sua opressão dos povos, Brecht deixa no fim a lição da Esperança.
É a Mãe que fala, mas podiam ser Todos...
" Quem ainda vive não diga nunca.
O que é seguro não está seguro,
tal como está, não vai ficar.
Depois dos opressores falarem,
vão falar os oprimidos.
Quem se atreve a dizer: nunca!
Se a opressão continuar, a quem se deve? A NÓS!
E se fôr esmagada, a quem se deve? A NÓS!
Quem foi atirado ao chão, que se levante,
quem se acha perdido, lute,
quem vai parar no estado em que está,
na situação em que se encontra?
Porque os vencidos de hoje vencerão amanhã
e o nunca tornar-se-á agora!"

Passou o nazismo, passou , em parte, o comunismo soviético, caiu o Muro de Berlin, na Europa quem não se deixou vencer por nenhum dos poderes ajudou a criar um espaço de liberdade democrática de que todos deviam poder beneficiar: mas nunca a obra estará completa, sem a participação de todos nesse ideal comum.

Vida de Galileu foi a última peça que traduzi, e que a dada altura foi apresentada por Carlos Avillez, no teatro de Cascais.
No trabalho com os actores, o encenador gostava de aprofundar, pondo à discussão de todos, a ideia central , a "lição" de um texto que retomava para o actualizar, momentos da vida de um cientista como Galileu, matemático e astrónomo do século XVI que, para escapar ao fogo da Inquisição, teve de renegar a sua doutrina, no entanto bem verdadeira: de que era a terra que girava à volta do sol, com o conjunto dos outros planetas e não contrário, como na doutrina de Ptolomeu (de que Camões em O Lusíadas ainda nos faz eco). Ficou para a história a célebre frase, à saída do seu Julgamento: eppur si muove...e no entanto move-se...
Ora bem, na vida deste génio de todos os tempos, de que Brecht se apropria para escrever a sua peça, há uma dupla dimensão, que ultrapassa de verdade a simples crítica a uma Igreja autoritária, dominando escolas de pensamento e comportamentos autorizados ou não e de imediato punidos, se necessário com as temíveis fogueiras de que temos conhecimento, também em Portugal.
A crítica está na peça.
Mas há algo mais: a dada altura a referência à enorme cultura de um dos cardeais, que desejaria proteger Galileu - se tal fosse possível; por essa personagem se alude à cultura científica e não apenas teológica ou doutrinal, dos ocupantes do Vaticano.
E há algo ainda mais importante, no desenho do carácter do cientista herói, que é Galileu: a questão de decidir, à última hora: vai trair o seu conhecimento, a sua certeza, mentindo, por cobardia? Ou vai entregar-se à defesa dos seus argumentos (que um dos cardeais bem sabia que estavam certos) e acabar ardendo numa fogueira?A mentira, cedendo, acabará por ter justificação: se ele morresse o seu precioso manuscrito se perderia de certeza; ficando vivo, poderia divulgá-lo em segredo, como acabará por fazer, pela mão de um antigo discípulo.
Por outras palavras: os fins justificam os meios ?
E sempre?
É magistral o modo como Brecht, na sua contraposição dialética, nos coloca o problema.
A nós, à nossa consciência, a reflexão sobre um tema que foi tão candente no tempo do dramaturgo: como agir perante a tomada do Poder por Hitler, a guerra que se seguiu, a violência dos SS e a perseguição aos judeus, todo o horror do Holocausto e todas as conivências, nos países invadidos.
Vida de Galileu é escrita entre 1937-38 e apresentada em 1943. Pensei, ao ler esta peça, que Brecht colocou nela a sua própria avaliação moral de escolhas que tinha feito, ao aderir ao partido comunista, na RDA, para onde tinha ido viver, ao escolher Berlin-Este, uma capital que o comunismo dividira. Ele não ignorava o primeiro pacto germano-soviético, celebrado entre Hitler e Stalin...quando se tratava apenas de invadir a Polónia...não ignorava os massacres que também os soviéticos faziam, enquanto os comunistas pactuavam e ficavam calados.
O destino tem coisas estranhas: é durante os ensaios desta peça (que os críticos consideram, o "testamento" de Brecht) no Berliner Ensemble, a sua sala de teatro, que ele se sente mal e vem a falecer, já em 1956.

Segue no texto, e no palco, o modelo da sua pedagogia própria: antes de cada acto um poema ou reflexão em prosa, que funciona de várias maneiras possíveis: voz off, coro, projecção em painel,  as possibilidades são várias; e temos a dada altura, como interlúdio jocoso uma cantoria pelo povo, à base dos panfletos que correram, à época, clamando que Galileu tinha morto a Igreja; mas o que interessa é que por esse meio situa e enquadra, o que se vai seguir, e a atenção que pede ao público, para que não se disperse.
Galileu é por um lado abordado como figura trágica, sábio e cobarde, por se ter assustado tanto diante da Inquisição, quando lhe mostram os instrumentos de tortura. Mas a preciação do seu comportamneo ainda hoje abre a discussão sobre o que ele deverai ter feito: morrer, pois seria certa a sua morte? ou abdicar da doutrina que sabia ser verdadeira?
Curiosamente é o seu antigo discípulo, Andrea, que ao visitá-lo antes de partir para a Holanda, e ao descobrir que Galileu continuou a escrever os seus Discorsi, expondo a nova doutrina, que subitamente justifica a abjuração e lhe perdoa:
 "o senhor escondeu a verdade. Do inimigo. Também no campo da ética tinha séculos de avanço sobre nós" (p.191, Portugália Ed. 1970 ).
Segue-se um diálogo entre ambos em que Brecht, com mestria, nos deixa a nós a questão de saber o que vale mais no nosso comportamento, se a cedência a outros valores, sejam da fé, ou do conhecimento ( ou da política....) vale mais do que a honestidade moral em verdadeira consciência e defesa da verdade em que se acredita.
Ainda hoje é actual esta discussão, FÉ vs. RAZÃO que tendo início no século XVI, com o Humanismo e o Renascimento, ainda continua...
Mas para concluir, com Brecht: na cena 13 (pp.169-175), descreve-se como em 22 de Junho de 1633, perante a Inquisição, Galileu renega a sua doutrina do movimento da terra, enquanto os seus discípulos aguardam notícias. O Papa era uma última esperança, pois tinha sido seu amigo outrora, enquanto Cardeal Barberini. Mas em nova posição, de grande responsabilidade, talvez já não possa defendê-lo. O discípulo que virá a ser, no fim, o mensageiro que leva os Discursos para o resto do mundo, Andrea, exclama para os companheiros:
"...Ele nunca se retractará! Quem não sabe a verdade é só um idiota. Mas quem a sabe e diz que ela é mentira, esse é um criminoso" (p.170).
Ora aqui está, nesta exclamação, tudo o que pode abalar uma consciência...
Adiante vem pela voz do Arauto a proclamação pública da renúncia de Galileu (p.175):
Voz Do Arauto
Eu, Galileu Galilei, professor de matemática e de física em Florença, renego tudo o que ensinei, que o Sol é o centro do mundo, e se mantém imóvel no sue lugar, e que a Terra não é o centro, e move-se. Renego, condeno e amaldiçoo de todo o coração e fé sincera todos estes erros e heresias, bem como quaisquer outros erros e opiniões a que a Santa Igreja se oponha.

Andrea, o discípulo dilecto comenta: " Infeliz a terra que não tem heróis!"

De 1633 a 1642 Galileu viverá perto de Florença, prisioneiro da Inquisição, até morrer.
Na cena 14 Andrea arranjará maneira de perdoar ao sábio, justificando a sua cedência ao Poder com a ideia de que assim continuou o seu trabalho, acabando a exposição da doutrina que agora poderá ser levada a todo o mundo.
Mas Galileu simplesmente lhe diz, não foi um plano, nesse sentido. Foi medo: "Abjurei porque tive medo da dôr física" (p.193). E depois de um longo monólogo de autocrítica:
" Atraiçoei a minha profissão. Um homem que faz o que eu fiz não pode ser tolerado nas fileiras da ciência"(p.197).
Eis então a verdadeira reflexão que o autor, em fim de vida, nos propõe: 
Qual o valor da Ciência e do Conhecimento, face a uma sociedade limitada e oprimida por grande iliteracia, que os Poderes públicos exploram, sejam eles religiosos ou laicos?
E qual o valor da Ética, e do comportamento condizente com ela, entendida como fidelidade aos valores em que se acredita (neste caso o da verdade científica, mas que podíamos alargar ao valor da Liberdade de Pensamento e de Expressão, da Igualdade e da Fraternidade, os ideais de um século XVIII de Lessing e de Goethe, da Razão Iluminada, do desejado entendimento entre as grandes Religiões do Livro, tudo ao mesmo tempo tão distante e tão actual) ?
Qual a Regra, qual a Excepção, - recuperando a primeira das suas peças didácticas, com que começámos?
E por aqui me fico, nesta evocação da sua morte...
Brecht morreu Brecht continua vivo!

Y.K.Centeno
Lisboa 2016

  










Sunday, July 24, 2016

Rilke, A Vida de Maria

Rainer Maria Rilke (1875- 1926)

Das Marien-Leben
A Vida de Maria


O Nascimento de Maria

Ah, como deve ter sido difícil, aos Anjos,
não irromper em cânticos, como quem desata a chorar,
pois sabiam: era a noite em que o menino teria a sua mãe,
ele, o Único, que em breve nasceria.

Esvoaçando, em silêncio, mostraram o caminho,
indicando a morada solitária de Joaquim,
sentindo, em si mesmos e à sua volta, o puro condensar
mas sem que nenhum pudesse ir descendo até ele.

Pois o casal estava já numa tal comoção que
veio uma vizinha e avisou mas sem bem entender
e o velho, cauteloso, saiu, perturbando o obscuro
mugido de uma  vaca. Pois nunca tal coisa acontecera.



A Apresentação de Maria no Templo

Para entender como ela era outrora
tens primeiro de imaginar um espaço
em que se ergam colunas e os degraus
se sintam sob os pés; em que arcos
de ogiva perigosos se unam sobre o espaço
que ainda em ti ficou, pois foi feito
de tais matérias que não mais poderás
retirá-las de ti, a menos que te despedaces
igualmente. Se já atingiste o ponto em que
tudo em ti se transformou em pedra, muro,
escada, visão, abóbada, - tenta afastar um pouco
a espessa cortina que tens diante de ti:
aí estarão brilhando os gloriosos objectos,
que te suspendem a respiração, e paralisam os gestos.
Por todo o lado palácios e mais palácios
terras que se estendem por mais terras
e ressurgem mais longe em tantas margens
que tu sentes vertigens só de vê-las.
Uma nuvem de incenso turva o ar que respiras;
mas sobre ti incidem os raios, vindos de longe,
e se agora o fulgor que emana das taças chamejantes
se projectar sobre as vestes que de ti se aproximam:
como poderás resistir?

Mas ela veio e ergueu
os olhos para tudo contemplar.
(Uma criança, uma menina pequena entre mulheres).
Depois subiu, em silêncio e cheia de compostura,
perante um fausto que já em destroços se curvava,
tão grande era o louvor ultrapassando o que ali
por mão de homem se tinha construído

no seu coracão. Pelo prazer
de se entregar aos íntimos sinais.
Os pais tinham pensado erguê-la
até ao assustador peito coberto de jóias
que a receberia; mas ela foi passando por todos 
de mão em mão, pequena como era,
entregue ao seu destino, mais alto que as abóbadas
já pronto à sua espera e mais pesado que o templo.



Anunciação a Maria

Não foi a aparição de um Anjo (reconhece)
que a assustou. Nem de outros, quando
um raio de sol ou de luar à noite
os reflectem no quarto desfilando,
se inquieta ela com a forma que um Anjo
possa ter assumido; mal suspeitando que
esta presença pudesse para o Anjo ser incómoda.
(ah se soubessemos como ela era pura. Certa vez,
avistando uma gazela a repousar na floresta,
de tal modo a penetrou com o seu olhar que
mesmo sem acasalamento nela se gerou  o unicórnio,
a criatura de luz, a pura criatura - ).
Que ele entrasse, o Anjo, e com um rosto de adolescente
se debruçasse e a fixasse de tal modo que o olhar dela
e o seu se confundissem, como se de repente lá fora
tudo se esvaziasse, e o que era visto, procurado, levado
por milhões de homens nela se concentrasse: só ela e ele.
Contemplação e contemplado, olhar e prazer de ver,
em nenhum outro lugar a não ser neste - : repara,
é assustador! E ambos se assustaram.

Foi então que o Anjo cantou a sua melodia.



Visitação de Maria

Ao princípio tudo lhe foi fácil,
embora nas subidas já sentisse
o milagre operado no seu corpo
e parasse para respirar no alto

das colinas da Judeia. Mas não era a terra,
era a sua plenitude que enchia a paisagem.
Sabia, ao caminhar, que nada ultrapassaria
a grandeza sentida naquele momento.

Já se apressava para pousar a mão
no outro corpo, de tempo mais avançado.
E as mulheres foram ao encontro uma da outra
cambaleando, acariciando as vestes e o cabelo.

Cada qual, carregando o fruto precioso,
encontrava na outra o seu abrigo.
Ah, o Salvador era nela ainda flôr
mas o Baptista, no seio da comadre,
já desatara aos saltos de alegria.



A Desconfiança de José

E o Anjo falou e esforçou-se
por explicar ao homem de punhos cerrados:
então não vês em cada linha do seu rosto
que ela é tão fresca como a aurora de Deus?

Mas o outro fixava-o de semblante sombrio
e apenas murmurava: o que a transformou assim?
Então exclamou o Anjo: carpinteiro, não percebes
ainda que esta é a obra do Senhor Deus?

Só porque talhas as tábuas, com orgulho,
queres obrigar a que fale contigo aquele
que em segredo, dessa mesma madeira,
faz crescer as folhas e rebentar os botões?

Compreendeu. E ao erguer os olhos
de verdade assustados para o Anjo,
viu que ele tinha ido embora.
Tirou então da cabeça, lentamente,
o espesso gorro. E entoou o louvor.






Anúncio aos Pastores

Levantai-vos, homens! Homens ali em torno da fogueira,
que conheceis os infindáveis céus,
que sabeis ler as estrelas, vinde ! Olhai, eu sou
uma nova estrela que se ergue! Todo o meu ser arde
e irradia com uma tal intensidade a plenitude tremenda
de uma luz que o firmamento profundo não chega
para a conter. Deixai que o meu fulgor penetre
a vossa existência: a escuridão do olhar, a escuridão
dos corações, dos destinos nocturnos, 
que são os vossos. Pastores, como estou só
entre vós todos. De repente se me abre um espaço.
Não estáveis admirados?A grande árvore de pão
lançava uma sombra. Sim, era a minha sombra.
E vós, os sem temor, se soubésseis como
agora brilha o futuro nos vossos rostos
erguidos. Nesta luz forte muita coisa
virá a acontecer. É a vós que o confio,
pois sabeis guardar bem um segredo; a vós,
crentes fiéis, aqui ao redor tudo vos fala.
Falam o calor e a chuva, o vôo dos pássaros,
o vento e o que sois, nenhuma coisa
prevalece sobre a outra, enchendo-se de orgulho
e arrogância. Não guardais as coisas dentro do peito
para as poder torturar. Assim como de um Anjo
escorre o seu prazer, assim se concentra em vós
o que é Terreno. Mesmo que de repente
um arbusto de espinhos se inflamasse,
e que o Eterno  através dele vos chamasse,
o Querubim, e se aproximasse,
estando vós em repouso junto aos  rebanhos,
nem assim o espanto vos tocaria:
de joelhos e rosto colado ao chão,
rezando, a isto chamaríeis Terra.


Assim foi. Agora um Novo deve ser,
Que alargará mais ainda a órbita da terra.
Que nos importa um espinheiro? Deus
compraz-se no seio de uma Virgem.Eu sou
o brilho da sua intimidade, que servirá de guia.



Nascimento de Cristo

Não fosse a tua simplicidade, como poderia
acontecer o que agora ilumina a noite?
Vê: o Deus que trovejava sobre as nuvens
Faz-se benigno e vem ao mundo em ti.

Imaginavas que ele fosse maior?

O que é a grandeza? Através de toda a matéria
que atravessa, segue o seu destino.
Nem uma estrela tem igual caminho.
Vês, estes reis são grandes,

mas rastejam diante de ti

os tesouros, que se julgavam os maiores,
-e tu talvez te espantes com este dom-
vê agora nas pregas do teu vestido
como ele já ultrapasou tudo o que existe.

Todo o âmbar, embarcado ao longe,

cada jóia de ouro e o perfume das especiarias,
que se espalham e perturbam os sentidos:
foi tudo de pouca duração
 que depois se lamentou.

Mas Ele (como verás) alegra os corações.


Repouso
Na Fuga para o Egipto

Aqueles que exaustos e mal podendo andar  
Iam fugindo da matança das crianças
eram cada vez mais numerosos
nesta sua peregrinação.

Bastava um tímido olhar para trás
com o seu receio a abrandar um pouco
e logo eram postas em perigo cidades
inteiras que a sua mula cinzenta atravessava.

Pois embora tão pequenos na vastidão das terras,
um quase-nada, quando se aproximavam dos templos
os deuses se quebravam, como que traídos
e por completo perdiam o sentido.

É concebível que ao longo do caminho
tudo se consumisse com tal irritação?
E até de si mesmos ficavam com receio,
consolando apenas a criança, que não tinha nome.


 Mesmo assim, como era grande o cansaço
tiveram de parar por um momento.Foi então...
que a árvore, sob a qual se acolhiam,
se inclinou como que a servi-los:

Inclinou-se. A mesma árvore, da qual
se faziam as grinaldas que ornavam
para a eternidade as frontes dos faraós
falecidos, inclinou-se. Sentia que novas coroas
iriam florescer. E eles ali sentados, como num sonho.

Nas Bodas de Canaan

Como seria possível não ter orgulho nele
que para ela embelezava as coisas mais banais?
pois se até mesmo a noite grandiosa parecera
exceder-se quando ele apareceu?

 E daquela vez, quando se tinha perdido,
não se transformou tudo em incrível motivo de glória?
Os ouvidos dos mais Sábios não foram trocados pela boca?
E a casa

não se renovou  ao som da sua voz? Ah,
certamente que ela já por mais de cem vezes
se impedira de lhe mostrar a sua alegria radiosa.
Seguia atrás dele, com o seu espanto.

Mas ali, naquelas bodas festivas,
quando de repente o vinho começou a faltar,
olhou para ele, pedindo-lhe um gesto, sem
compreender que ele não a atendesse.

E ele então acedeu. Só mais tarde compreendeu ela
que o tinha empurrado para o seu destino:
porque agora sim se transformara em fazedor de milagres,
e todo o Sacrifício já estava a ser imposto,

inexoravelmente. Sim, estava escrito.
Mas naquele momento estaria já decidido?
Ela: fora ela a precipitar a hora,
na cegueira da sua vaidade.

À mesa, cheia de frutas e legumes
festejou com os outros, sem compreender
que a água das suas lágrimas profundas
se tinha transformado em sangue, com este vinho.  

Antes da Paixão

Ah, se assim o desejasses, não terias
de nascer num corpo de mulher:
os Salvadores forjam-se nos montes
onde o que é duro se extrai da rocha dura.

Não sentes pena, ao ver assim devastado
o teu vale amoroso? Repara na minha fraqueza:
tenho apenas rios de lágrimas e leite,
e tu estiveste sempre acima de qualquer medida.

Com um tal fausto me foste prometido
antes saísses logo de mim, como animal selvagem...
Se afinal só precisas de tigres que te despedacem
por que fui eu criada em casa, entre mulheres

que me ensinaram a tecer-te um pano tão puro
e tão macio, sem ter sequer um ponto de costura
que à noite pudesse magoar – tal foi a minha vida
inteira, e agora de repente invertes a natureza.


Pietà

Agora é total a minha dôr, e indizível
enche-me o peito por completo.Fixo-te,
com a fixidez do interior da pedra.
Dura como sou, sei apenas isto:
cresceste –
... e cada vez mais foste crescendo
até que em dôr ainda maior
ultrapassaste a medida
do meu coração.
Agora jazes, atravessado no meu colo,
mas eu não posso dar-te à luz
 outra vez.

Consolação de Maria
junto do Ressuscitado

O que outrora sentiram: não foi
mais doce que qualquer mistério
e ao mesmo tempo tão terreno?
Quando ele, um pouco pálido ainda 
do seu túmulo, aliviado se aproximou,
ressuscitado plenamente.
Perante ela, em primeiro lugar. Ei-los
ali, sem palavras, em plena santificação.
Sim, estavam a curar-se, era isso. Não
precisavam de se tocar um ao outro.
Ele mal pousou, durante um segundo apenas,
a sua mão eterna no ombro feminino.
E começaram,
em silêncio como as árvores na Primavera,
ao mesmo tempo e para sempre
esta Idade
da sua suprema união.



Da Morte de Maria

I

O mesmo Anjo enorme, que outrora
lhe tinha feito o anúncio do parto,
estava ali, aguardando que ela desse por ele
e disse: chegou agora o momento da tua Aparição.
E ela assustou-se, como outrora, revelando-se
de novo como Virgem que plenamente aceitava
servir. Ele irradiava, numa proximidade sem fim,
e diante dela desapareceu chamando os Apóstolos,
que estavam longe, para que se juntassem na casa
da colina, a casa da Última Ceia.Vieram angustiados
e entraram receosos: ali estava, deitada
em estreita cama, aquela que misteriosamente
tinha sido a eleita e agora declinava, num corpo
virginal e intocado, ouvindo os Anjos cantar.
Mas quando os viu, fixando-a por trás das velas,
aguardando, interrompeu o êxtase em que as vozes
a tinham mergulhado e ofereceu, num gesto amigo,
os dois vestidos que ainda possuía, erguendo o rosto
ora para um, ora para outro...
( Oh fonte de infinitos rios de lágrimas!).

Mas cada vez mais cedia à sua fraqueza,
fazendo descer até Jerusalém os céus que,
de tão próximos, à alma que partia exigiriam
apenas um ligeiro esforço, e já aquele
que dela tudo sabia a levava consigo
recebendo-a na sua divina natureza.


II

Quem pensaria que até à sua chegada
o céu imenso estaria incompleto?
O Ressuscitado tinha ocupado o seu lugar,
mas a seu lado, durante vinte e quatro anos,
um trono tinha ficado vazio. E já estavam
a acostumar-se a essa falha pura, que parecia
fechar-se com a jubilosa  glória do seu filho.

Assim que também ela, ao entrar no céu,
não se dirigiu a ele, por muito que o desejasse.
A seu lado não havia lugar, só Ele permanecia ali
brilhando com um tal fulgor que a magoava.
Mas no momento em que esta criatura comovente
se ia reunir a todos os outros eleitos, e discreta
de luz em luz, buscava o seu lugar, ergueu-se
do seu ser, nas suas costas, um tal fulgôr que,
o Anjo que iluminava exclamou, quase cegando:
quem é ela? Foi grande o espanto.E então todos viram
como Deus-Pai, lá em cima, retinha o Senhor,
de modo a que, envolto num crepúsculo suave,
o lugar vazio fosse visto, como ligeiro sofrimento,
réstea de solidão, como algo que ele ainda tivesse
transportado, resto de tempo terrestre, de cicatriz
secando...viraram-se a olhar para ela, que fixara ao longe
o seu olhar, inquieta, inclinada para a frente, como se sentisse:
eu sou a sua dôr maior, perdendo os sentidos, de repente.
Mas os Anjos pegaram nela
e levaram-na cantando, abençoados,
e ergueram-na até ao seu mais alto grau.


III

Mas antes do Apóstolo Tomás, que veio
tarde demais, chegou o Anjo veloz,
já se preparara com antecedência,
e que ordenou, junto ao ao túmulo:

Afasta a pedra para o lado. Queres saber
onde ela está, a que te comoveu o coracão,
então olha: como um ramo de lavanda ali foi
depositada por instantes,

para que na terra ficasse depois entranhado
o seu perfume, como um tecido precioso.
Toda a morte ( pressentes isso) todo o sofrimento
é envolvido pelo seu perfume.

Vê a mortalha: que produto haveria
que a branqueasse sem a fazer encolher?
Esta luz que emana do cadáver puríssimo
foi o que a tornou mais clara do que a luz do sol.

Não te espanta que ela a tenha deixado com tamanha doçura?Tudo na mesma, como se ainda aqui estivesse.
Mas lá no alto os céus estremeceram:
Homem, ajoelha-te, contempla e canta um louvor comigo!


Trad. Yvette K.Centeno
(para os Amantes de Rilke...)