Tuesday, June 21, 2016

Dizer o Mal: A Serpente e o Tigre

Esta reflexão será em tempo útil publicada na revista on-line do CEIL (Centro de Estudos do Imaginário Literário) da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.
 Tentarei colocar aqui a versão possível, que um dia alargarei talvez até ao silêncio e à ausência de Deus em  Pessoa e Celan.
O silêncio é cada vez mais - até na Europa de hoje - outra raiz do Mal...
Por definição, enquanto absolutos , o Mal, como o Bem, são indicíveis.

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Podemos encontrar nos dicionários definições que surgem no âmbito de uma determinada prática, religiosa, ou determinada definição do que seja o "comportamento" correcto, dito moral, em função de critérios e valores que foram definidos, - e de algum modo evoluindo - ao longo dos tempos.
Caímos assim num certo relativismo , histórico e filosófico, que torna impossível uma definição objectiva.
Dentro de um conjunto de regras que se aceitam, pode ser entendido como mal o que noutras simplesmente se recusam ou consideram despiciendas.
Haveria que ir buscar exemplos à consciência do corpo, e da alma: o que dói no corpo é o mal de que se padece, para quem sofre; e o que dói na alma também é o mal de quem o sofre na alma,  dôr menos visível mas não menos real.
Este é um mal relativo, individualizado, restrito, em função de algo que é outra coisa, que não o mal absoluto.
Estaria mais próximo do sentido de dôr.

Deixando corpo e alma, de que modo se inscreve na nossa consciência e na consciência universal, dita arquetípica, esta noção de mal?
Parece antiga, e de tão antiga, se tornou inata? Ou será mesmo cósmica, emanando da treva intrínseca ao nascimento e formação do mundo dos primórdios, de quando Deus , com o seu Verbo, separa a luz das trevas , onde reside o mal, como nos faz crer Jacob Boehme?
Boehme (1575-1624) de educação luterana, tem no entanto uma visão desviante (a sua própria Igreja o critica e proibe os seus livros) da leitura tradicional da Bíblia. É um pensador que se inspira em tratados alquímicos, cabalísticos, gnósticos de inspiração teosófica (naõ confundir com o gnosticismo dos primitivos cristãos) e cuja influência foi enorme em Goethe, por exemplo, ou Novalis e Hegel, chegando também a ser criada em Inglaterra uma corrente de seguidores, ainda no final do século XVII, e no século XVIII (in Serge Hutin, Les Disciples Anglais de Jacob Boehme, ed. Denoel, 1960) que foi inspiradora de poetas e visionários, como William Blake, entre outros.
A sua concepção de Deus, e do Bem e do Mal primordiais, está próxima do que se pode considerar uma revelação mística, mais do que de uma sistematização de um pensamento doutrinal ordenado.
Alguns dos seus tratados, como o Da Tripla Vida do Homem, que Louis-Claude de Saint Martin traduziu, é alquímico na utilização frequente dos três princípios do enxofre, mercúrio e sal para explicar a natureza da materialidade real do homem, a criatura que Boehme considera degenerada e a necessitar de sublimação.   Noutro tratado , da Aurora, concebe Deus como uma roda que roda incessantemente tendo consigo outras que lhe estão ligadas por cima, por baixo e dos lados (Cap.21, 61) apresentando assim a visão de um Deus que é um Todo uno e nessa promordial e eterna quaternidade representação da perfeição absoluta. Mas a sua realidadeé inacessível ao homem, ser corrompido, numa natureza também ela corrompida pela materialidade do real.
E sendo assim, como explicar a existência do Mal?
Alexandre Koyré, um dos grandes estudiosos da obra de Boehme,(La Philosophie de Jacob Boehme, ed. Vrin, 1971) nota que fica por resolver a questão do mal real, o mal no mundo, com o sofrimento e a morte que são destino do homem.
Boehme separa a existência do mal da realidade de pura luz e amor que são essência da divindade, na sua manifestação, o Verbo, ao criar o mundo.
Para o teósofo alemão, o mundo do primeiro princípio, que era ainda caos e trevas, não continha a perfeição de Deus, enquanto Deus, mas era um mundo à parte, luciferino, de que a luz divina estava ausente ( não tinha ainda sido separada). De modo que só na "segunda" fase da criação, no mundo real, terreal, se pode considerar o mal presente e actuante.
Koyré observa que Boehme não acreditava na eternidade do nosso mundo, degenerado, pois não era a expressão "legítima" da perfeição do Deus Criador como ele o concebia, não integrava a sua essência , tendo surgido apenas na sua posterior manifestação.( De Signatura Rerum,cap.II, 2 ).
O Deus de Boehme era Luz e Amor e só nessa concepção podia ser entendido ( A.Koyré, p.426). A não ser que aceitemos estas visões sem as interpelar na sua lógica ou coerência, explicar o mal continua, para o comum dos mortais, a ser difícil...para não dizer impossível.

No Génesis 1, quando Deus cria o homem à sua imagem, criando-o homem e mulher, e insistindo no facto de que foi criado à sua imagem e semelhança - não passa por aqui a ideia de que, sendo Deus o criador perfeito, o homem não seja igualmente dotado da sua perfeição.Evocando de passagem o andrógino do Banquete de Platão, ser completo e redondo, e por essa razão perfeito, como as rodas de Boehme...

Entregando ao homem todo o poder sobre todos os seres vivos, de todas as espécies, animais e vegetais, concluiu Deus então, nesta primeira narrativa, ao terminar o sexto dia, que tudo o que tinha feito era bom: "Deus viu tudo o  que tinha feito, era tudo muito bom".
Ao sétimo dia descansou, estava completa a Obra.
Há contudo um pormenor, no fundamento para a criação, que nos interpela logo de início: " Ao princípio, Deus criou o céu e a terra. (...) as trevas cobriam  o abismo, o espírito de Deus pairava sobre as águas". Desde o início, a presença das trevas.
A seguir Deus ordena que surja a luz, e separou a luz (que Deus viu que era boa) das trevas; chamou dia à luz e noite às trevas.
Fica então já um prenúncio de que na sua origem, nas trevas que cobriam o abismo, o mal, como procuramos agora entendê-lo, estaria já ali presente, na origem da criação.

Na segunda narrativa do Génesis, a referência é mais directa e o tom tem um ar mais pessoal, quase mais íntimo...intimista.
Deus tem nome: Yahvé. Yahvé-Deus.
Molda o homem a partir da argila do solo, sopra-lhe nas narinas um sopro de vida e o homem transforma-se num ser vivo. Até aí seria apenas massa informe.
Esta segunda narrativa  - sabe-se que os textos da Bíblia têm sucessivos autores, ao longo do tempo - faz lembrar uma das lendas judaicas, cabalísticas, do sábio do século XVI, Rabbi Loew, que tinha criado um ser que se transformou num perigoso monstro, destruidor, o Golem, que significa "ser informe", e que o seu criador teve por fim  de aniquilar inscrevendo na sua fronte a palavra met que em hebraico por alteração de uma letra passa de vida, emet , a morte . Este mito do Golem é recuperado por Gustav Meyrinck escritor do século XX, num romance do mesmo nome. E um dos filmes que anuncia a chegada  do cinema expressionista é também, em 1915, de Paul Wegener, O Golem.

Mas há mais: Yahvé-Deus plantou um jardim, neste Éden criado para fruição do homem, e no meio do jardim plantou duas árvores: a da vida, e a do conhecimento do bem e do mal. O homem recebeu então uma ordem:
" Podes comer de todas as árvores do jardim.Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás, pois no dia em que o fizeres morrerás de certeza".
Só depois desta indicação é que Yahvé-Deus entende que não era bom para o homem estar sozinho, e cria a mulher a partir de uma das costelas do homem (que fez cair num sono profundo, para tal efeito). A mulher, nesta segunda narrativa, só vem a ser criada depois de Yahvé-Deus ter primeiro criado todos os seres vivos, da terra e do céu, dos quais o homem seria senhor e aos quais teria de dar um nome. Nomear já era, desde o início, o acto da suprema criação. E que Deus, a propósito da árvore do jardim tenha nomeado o bem e o mal, fê-los, de algum modo acontecer, não logo em acto, mas já em potência.
Adão sai do seu sono profundo, e do mesmo modo, ao acordar e ver a mulher a seu lado exclama "esta é carne da minha carne e será chamada mulher" (Eva). Deu-lhe existência, ao dar-lhe o nome.
Contudo bem se compreende que esta mulher é já um ser à parte, não é o homem-mulher da primeira narrativa, que apontava para um ser andrógino , perfeito na sua totalidade, como à imagem de Deus.
No capítulo seguinte, A Queda, conta-se como de todos os animais do jardim a serpente é o mais esperto, e é ela que se dirige à mulher, perguntando:
"Então Deus disse que não poderíeis comer de todas as árvores do jardim?A mulher respondeu à serpente:
Podemos comer os frutos das árvores do jardim.Mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus disse: Não comereis esse fruto, não tocareis nele, sob pena de morte".
E aqui começa o episódio em que a serpente diz que é mentira, não morrerão, mas que os seus olhos se  abrirão e ficarão a conhecer, como os deuses, o bem e o mal.
Está feita de novo a distinção entre o bem e o mal, e como o seu conhecimento é apanágio dos deuses, e proibido às outras criaturas, no caso, Adão e Eva, o par humano.
 Para os homens que adquiram um tal conhecimento - proibido - o castigo será eterno, com a expulsão do Éden, e os consequentes malefícios que daí decorrerão: em vez da vida eterna, a morte, associada ao pecado da desobediência, por um lado, mas à nova consciência do bem e do mal que antes não se possuía.
O castigo será feito de Vida, mas de vida sofrida.

Forma-se a seguir um outro mito (se entendermos que as narrativas do Velho Testamento são estruturas míticas, de fundação da história e da memória humana) o mito de Abel e Cain: este, só por ciúme mata o seu irmão, cujas oferendas a Deus eram de um maior agrado.
Uma variante do mal - já em acto, o assassinato, e não apenas em potência ( em possibilidade ainda não efectivada). O crime já como consequência do castigo que Adão e Eva sofreram, com a expulsão do paraíso. A imperfeição vivida na própria carne da sua descendência.
Está na hora de perguntar: por que razão terá o mal a ver com o conhecimento? E vamos encontrar na treva primordial a sua raiz, o seu fundamento absoluto?
Do absoluto, apenas potencial, passamos na narrativa do Génesis 2 ao conceito já prático de moral, como Kant o entendeu na Critica da Razão Prática. A saber, um acto praticado contra um outro levando ao seu aniquilamento (físico ou psíquico, se avançarmos já para mais perto do nosso tempo, de Freud ou Jung....).
O mal como prática de um ilícito, face a normas que a Ética ou a Religião condenem.
Um desrespeito da Ordem - recebida e não acatada.
E de seguida o crime, que visa destruir a existência de um outro, como se o desejo de existir sozinho perante a divindade fosse algo de incontrolável, impulso irracional que só mais tarde se assimila e entende.
Cain será expulso da presença dos pais, mas virá a ser um construtor de cidades, ao vaguear pelo mundo...
Eis que outra visão se forma, por aqui: a cidade que se ergue por mão criminosa, estará já, também ela, à partida, contaminada pelo mal?
As cidades, que são a forma em que as comunidades das criaturas vivas se foram conseguindo organizar?

Deus criador diz - disse - o mal.
Nomeou, e dizer o nome é dar existência ao que não existia anteriormente. Nomear é um gesto de criação.
O homem, ser criado, não diz, pratica, ou o bem ou o mal, na obediência ou no desrespeito de algo que lhe foi ordenado.
Mas como chegou o homem ao conhecimento do bem e do mal?
E gradualmente, para lá da prática do pecado ou do crime de desobediência, a que Conhecimento (foi) é conduzido?
De Deus, que o criou e castiga?
Nesse sentido é muito interessante ler o Livro de Job, como fez Frederico Lourenço, no Livro Aberto, Leituras da Bíblia ou como fez, antes dele, Carl Gustav Jung, em Reponse a Job(trad. francesa,1977); Job o puro, o virtuoso, o inocente de todo e qualquer mal e sobre quem todos os males concebíveis são descarregados perante o desafio do demónio (a serpente do Éden) e a evidente indiferença de Deus.
Conhecimento dos outros?
De si mesmo?É praticamente no Apêndice (p.243) que Jung,explica o que o levou a escrever esta reflexão em que se aprofunda a questão do mal, não enquanto privatio boni, quelhe parece limitada, e que o conhecimento psicológico não pode explicar, mas como algo de mais substancial. E cito: " A experiência psicológica demonstra que a  tudo aquilo a que chamamos "bem" se encontra  em oposição um "mal" igualmente substancial.
 Se o "mal" não existisse, tudo o que existe seria obrigatoriamente "bom". Segundo o dogma cristão nem o "bom" nem o "mal" podem ter a sua origem no homem, pois que o "mal" enquanto um dos filhos de Deus, preexistia ao homem" .
 São Clemente de Roma, antes da heresia de Manès, dualista, ensinava que Deus governava o mundo com uma mão direita e uma mão esquerda. A mão direita significava Cristo, e a esquerda Satã.
E ainda com Jung: " A concepção de Clemente é manifestamnete monoteísta , pois reúne num Deus único os princípios opostos" (p.244).
Não estamos pois nesta ideia, longe do que a narrativa do Génesis 2 nos apresentou: o conhecimento que Deus tem e anuncia, do bem e do mal na mesma árvore proibida!..
Voltando ao Livro de Job, o que pensam deste episódio os antigos filósofos e comentadores em que a crueldade divina se torna tão explícita, como substância integrante da sua natureza?Job espera assistência e ajuda de Deus contra Deus em  Si mesmo.E isto supõe uma concepção próxima da que JUng expôs atrás e segundo a qual os contrários, os opostos, bem e mal, estão contidos em Deus.
Só nestes termos se pode então conceber a existência de um Mal absoluto, preexistente, contaminando toda a criação.
Terá Deus, pela via de um Cristo redentor, a necessidade de ser salvo de Si mesmo?
Matérias para reflexão...

Na verdade, depois de comer do fruto probido, a primeira descoberta que Adão e Eva fazem é a dos seus corpos, nús.
E diferenciados: na nudez, o do homem não é igual ao da mulher.
Estamos perante um primeiro momento de revelação, de si mesmo e do outro, e do que daí decorre.
Desenha-se posteriormente a ideia de que o mal ( a tentação, o pecado original, a sedução da serpente) tem origem na mulher, e no sexo. E por oposição que o bem será negar, ou pelo menos criticar e evitar tudo isto.
Jean Dutourd, no seu ensaio Le Septième Jour, récit des temps bibliques, de escrita directa e agradável de ler, termina o capítulo relativo a Cain, com a seguinte observação:
" Absurdo é a palavra moderna que veio substituir a expressão pecado original."
Será, para o mundo moderno, o conceito de absurdo ( algo que surpreende, por inesperado, contraditório, risível ou mesmo errado ) uma das possíveis aproximações ao conceito assim exposto de mal?
Penso que não, o conceito de mal é mais profundo e inexplicável, o seu radicalismo é total, não tem contraditório a não ser na luz primordial do bem, enquanto absurdo pode ser algo até de divertido, como acontece no Teatro do Absurdo, de um Ionesco, ou outros que como ele nos surpreenderam.

O mal existe, manifesta-se no homem e no mundo criado, a ponto de Deus, o Criador, exclamar a certo momento, como se diz nas Escrituras, que se arrependia de ter criado " o homem, os animais, e até mesmo os pássaros do céu " Havia apenas um justo ( um homem bom) Noé!
Com Noé, e a sua arca, Deus "refaz" por assim dizer a criação. Corrige o erro inicial.Mas na verdade nada muda...
O erro, o mal, estava inscrito nos primórdios da treva primeira, aquela de que Deus separou a luz, e fez a divisão dos dias e das noites, a divisão do tempo.
Dividiu o tempo, mas não dividiu o erro da existência, essência mesma do Ser: seu e do outro, os outros que foram, a partir daí, desde Adão e Eva, na multiplicidade e na multiplicação segundo a ordem que foi dada.

E afinal que substância era essa que o fruto da árvore proibida continha?
Para Dutourd era a Razão. Era o conhecimento, e a sua utilização, por força da Razão adquirida.
Mas se dermos agora um salto até o século XVIII, dos Enciclopedistas, dos Iluministas, dos cultores da Razão a todo o custo, poderemos destacar um outro pensamento.
Se com um certo racionalismo materialista se tenta erguer uma utopia que sirva os tempos modernos, logo e em simultâneo se pressente um vazio que a utopia não preenche, e que tem mais a ver com a morte da alma, o feminino no homem, a Eva, que Yahvé-Deus percebeu que tinha de ser criada para que a sua obra, no homem, ficasse de facto completa.
O par homem-mulher seria, na ordem natural, aquela complementaridade dos opostos que desde o início, luz e trevas, dia e noite, e mesmo nas múltiplas espécies do céu e da terra se tinha verificado.
Esta é a Árvore da criação, a Árvore verdadeira da Via que Deus já abriagva em Si mesmo.

Proclamar o império da Razão, opondo-o em absoluto à Emoção, veio criar um desequilíbrio insustentável, como se verificou em vários momentos da história da humanidade.
Encontramos um dos mais belos exemplos no Fausto de Goethe, quando precisamente ele se refere às suas duas almas, numa resposta a Wagner, seu discípulo:
" Não conheces mais que uma aspiração,
Da outra melhor é nada saber!
Duas almas tenho em meu coração,
Uma da outra a querer separar-se:
Uma apega-se, em paixão rasteira,
Com todos os seus órgãos à matéria;
A outra quer erguer-se da poeira
E subir ao reino da sua origem etérea.
Oh, se existem espíritos do ar
Que entre a Terra e o Céu têm assento
Que se dignem da nuvem de ouro descer
Para me dar nova vida e novo alento!"
(trad. João Barrento,vvs.1110-1121)

Duas almas batem em contradição no peito do herói.
O apego à matéria, paixão rasteira, será esse o mal que Mefisto decide aproveitar, como é dito no Prólogo no Céu, no diálogo tão desafiante de uma aposta com Deus?
Ou estará já o mal perversamente implícito na segunda paixão, dita de origem etérea?
Não são Deus e Diabo tão fraternalmente aproximados, neste Prólogo, cheio de indicações para um leitor atento?
A aventura de Fausto com Mefisto resulta de uma aposta, feita no mundo da perfeição etérea, entre Deus e o Diabo.
Que na verdade, no fim, o Diabo perderá, mas por razões que não se prendem de facto com escolhas religiosas, e sim com um novo conceito de serviço ao outro, e de consciência moral.
Nesta obra de Goethe discute-se, sem o dizer claramente, o que é ou não é o mal, o que é ou não é concedido ao ser humano, enquanto tal, enquanto criatura de Deus, que tem o seu limite, e o deve reconhecer, e aceitar plenamente.
É-lhe concedida uma vida, que terá de viver, para si e para os outros: é no fim da vida, na segunda parte da tragédia, e só quando já velho e cego se entrega à ideia de transformar um pântano numa terra fértil para o livre aproveitamento dos outros, por via do trabalho honesto e não da magia enganadora, que Fausto justifica a sua salvação, escapando às garras do demónio.
Pelo caminho pecou? Sim. Mas do seu mal se redimiu - ideia muito cara a Goethe, no seu entendimento do que é a natureza humana: imperfeita, mas como Deus explicou no Prólogo no Céu, e os Anjos repetem no fecho da tragédia, levando a substância da alma de Fausto para as mais altas esferas,  "aquele que sempre se esforça merece a salvação".
Não se anula o pecado mas sublima-se, como na Obra alquímica.
A ideia de serviço do outro, nascida de uma Ética que no século XVIII estará muito presente ( no ideário maçónico) e mais ainda no século XIX, com Kant e Nietzsche, sobrepõe-se à ideia de pecado original, de pecado mortal, de condenação perpétua no sentido em que o cristianismo inicial o definiu.
A eternidade é redimida, por assim dizer, de si própria, ao ser redimida a ideia de um mal originário, (como a serpente do jardim do Éden) criado e perpetuado no seu seio.
Podemos ver, no Prólogo no Céu, a bonomia com que Deus permite que os seus Anjos deixem Mefistófeles vir conversar com ele, criando-se como que uma dupla realidade de contacto perfeito entre o superior e o inferior, ou melhor ainda, como se naquele momento da aposta sobre o homem (o Adão primordial) Deus e Diabo fossem afinal dois ramos da mesma árvore, a do conhecimento do Bem e do Mal. E como recorda São Clemente, a vida humana está na realidade a ser regida pelas duas mãos de um Deus que ora se serve de uma ora de outra, sendo que ambas formam o seu Todo...
Para conclusão do que se tem vindo a dizer, ficam as exclamações justificativas dos Anjos, no final da tragédia:
" Anjos (voando na atmosfera mais elevada e transportando a alma de Fausto)
Das garras do mal elevamos
Est'alma a nobre esfera,
Pois só àquele redenção damos
Que em esforço persevera."
(trad.João Barrento,vvs.11934-11937)

Não será por acaso que Nietzsche escreve Para Além do Bem e do Mal (1886) e a seguir A Genealogia da Moral (1887) e finalmente O Anticristo (1888), entre outros ensaios de grande alcance na negação de uma religião e de uma cultura cristãs. O olhar sobre o mundo tinha mudado, nos grandes pensadores. Os conceitos de Bem e de Mal estavam a relativizar-se, e em breve se veriam as suas consequências.
Morto Deus, que o filósofo matara em Assim falou Zarathoustra (1883-1885) o que é pedido ao homem, expulso de um Éden que deixou de existir, é que seja o primeiro e último responsável pelos seus  actos. O homem que fala do alto da montanha é um superhomem, um criador de si mesmo, capaz de recriar o mundo à sua volta, à sua imagem, como o antigo Deus, agora destronado.
Outros deuses viriam, dos bárbaros do Norte, mais duros e cruéis.
Voltaria a ser urgente discutir a Origem do Mal,
( como Nietzsche fez para a Origem da Tragédia, em verdade, para traduzir à letra O Nascimento da Tragédia,1872 ) desde logo nas óperas de Wagner, que Hitler tanto apreciou...

No Génesis é a curiosidade de saber o que havia no fruto da árvore, o que seria conhecer o bem e o mal, revelando alguma inocência ( que se perde) nos nossos primeiros pais.
A curiosidade de saber é o primeiro motivo.
Mas fica uma interrogação: saberia, o próprio Criador, naquele momento, o que o acto de criar provocaria? Não se arrependeu Ele tantas vezes a seguir dos seus actos? E sempre com um ímpeto feroz de castigar o que dele mesmo teria de facto emanado?
Já com Nietzsche o problema é muito diferente: descortina na alma humana, por via do seu estudo dos mitos e da tragédia grega, (que na história da Patrística vemos, no século III, um Tertuliano condenar firmemente) as pulsões dionisíacas, violentas e irracionais, que conduzem o homem, ser criado, a violar as normas, dos deuses e dos próprios seres que os rodeiam, tão humanos quanto eles.

Contudo o mistério permanece, na esfera de uma cristandade mística, como a dos seguidores de Boehme, e seus discípulos ingleses, para não falar de toda a sequência dos movimentos pietistas, alquímicos, rosa-cruz, na Alemanha, a par do ideário maçónico em pleno desenvolvimento, e de que Lessing será um dos grandes promotores.

Deixando agora de lado o pensamento filosófico inerente a estas matéria tão sensíveis, penso que será igualmente inspirador procurar na poesia, num grande poeta como Blake, não a chave, mas o espanto, perante a existência do mal num mundo que devia ter sido criado perfeito...
Blake, já antes, no célebre poema The Tyger, de 1794, (Songs of Innocence and of Experience) encontrara na imagem do tigre uma figuração perfeita do mistério do mal.
Refere a temível simetria, interrogando-se sobre a mão imortal, ou o olhar, que o possa ter criado assim, com os seus olhos de fogo ardendo em que trevas ou em que céus, ou quem, se interroga ainda o poeta, lhe torceu os nervos do coração, lhe acorrentou o cérebro forjando nele o terror?
Tão inspirado e misterioso é o poema, que no fim interpela o Criador: pois como foi possível que da mesma mão tenham saído o tigre, essência da malvadez e o cordeiro, figuração da pureza absoluta?
O poeta não dá resposta, deixa o mistério em aberto, deixa o leitor em suspenso.
E da dificuldade do dizer este mal, o mal absoluto forjado numa treva onde arde assustadoramente, dão testemunho as traduções, já numerosas, que se podem encontrar e em que a dificuldade de fazer corresponder ritmo e imagem estão sempre presentes, das mais fiéis à literalidade às mais compostas e recompostas nos ritmos e nas rimas.
Escolho, para nossa leitura final, a de Ivo Barroso, que está on line, com uma ou outra discreta alteração minha, que coloco em itálico:

 Tigre! Tigre! tocha ardente
Na selva da noite acesa,
Que mão ou olho imortal
Traçou tua simetria?

Em que abismos ou que céus
O fogo ardeu dos olhos teus?
Em que asa se inspira a trama
Da mão que te deu tal chama?

Que artes ou forças tamanhas
Torceram tuas entranhas?
E ao bater teu coração,
Que pés de horror, de horror a mão?

Que malho foi? Que corrente
De teu cérebro o tormento?
Que bigorna? Que tenazes
No terror mortal que trazes?

Quando os astros dispararam
Seus raios e os céus choraram,
Riu-se ao ver a sua obra quem
Fez o cordeiro e a ti também?

Tigre! Tigre! tocha ardente
Na selva da noite acesa,
Que mão ou olho imortal
Se atreveu à temível simetria?

(in Barroso, Ivo "O Tigre", digital 2010,
in: http://gavetadoivo.wordpress.com)

 O Tigre de Blake será sempre um desafio para o nosso entendimento, como em muitas passagens do Antigo Testamento será desafiante o comportamento de um Deus-Supremo Criador para com as suas criaturas que, dizendo amar, muito persegue, muito condena e castiga, ora com aparente razão, ora sem razão nenhuma.
Pois não foi a Serpente, a tentadora do Éden, também sua criatura? Saída da sua mão?


Referências bibliográficas:

La Bible de Jerusalem
(trad francesa, Éditions du Cerf, 1955)

Jean Dutourd, Le Septième Jour,récits des temps bibliques, (ed. Flammarion, 1995)

Frederico Lourenço, O Livro Aberto, leituras da Bíblia (ed. Cotovia, 2015)

Jacob Boehme, De signatura rerum, oder von der Geburt und Bezeichnung aller Wesen, 1622 (in J.B.Saemtliche Schriften, Frommanns Verlag Stuttgart, 1957 )

Johann Wolfgang Goethe, Fausto (ed. Círculo de Leitores, 1999)

Carl Gustav Jung, Reponse a Job ( ed. Buchet-Castel, 1977)

William Blake, Songs of Innocence and of Experience, ( in the William Blake Archive)

Immanuel Kant, Crítica da Razão Prática, (ed.70, 2008)

Friederich Nietzsche, (in Saemtliche Werke, ed. Kroener, 1964 e segs.)

Gustav Meyrink, Der Golem, (ed. Kurt Wolff, 1916)

Alexandre Koyré, La Philosophie de Jacob Boehme, (ed. Vrin, 1971)

Y. K. Centeno,
 A Alquimia e o Fausto de Goethe (ed. Arcádia, 1983)
 Lessing, Nathan o Sábio, (ed. Fundação Gulbenkian, 2016)







Sunday, May 29, 2016

Frederico e eu, de Maria Luísa Folques

Num dia de chuva, recebo de mão amiga um livro de capa azul, imagem de praia com ondas a rebentar junto a um farol que se ergue num rochedo.
Duas pessoas, uma de pé, frente ao mar, outra, mais jovem, sentada nos calhaus da praia, completam o quadro.
Serão já elas evocações do que vem no título? Frederico a que está de pé, Luísa ou a sua figuração, a que está sentada?
O que se espera dum livro?Eu gosto desde logo de reparar no papel, na letra, no cuidado gráfico, e depois abro ao acaso, antes de começar a ler.
Tem o seu quê de diário, de roteiro de emoções, ainda que ficcionadas.
Temos de início um homem, será Frederico, discutindo com o mar.
É um pescador que andou ao atum, a prosa minuciosa, detalhada, da autora, situa-nos de imediato num Algarve antigo, que ela refere como dos anos 50, e em que reconheço muito do que eu mesma cheguei a conhecer, na Tavira da minha avó Rosa, dos meus tios, do meu pai.
Um Algarve de mar batido quando se saía da barra de Tavira,  a emoção da pesca do atum, as armações, a actividade das fábricas de conservas.
A autora nasceu em Vila-Real de Santo António por onde, quando eu era criança também passei , e tal como ela descreve fiz a viagem que se impunha de ir comer gelados a Ayamonte.
Algarve antigo que revejo na minúcia realista da sua prosa, dos seus personagens atravessados uns nos outros, não se ficando a saber muito  bem o que ficou, para lá da evocação, duma saudade, ou mesmo de alguma perda sofrida, e que nesta evocação se exprime.
O homem que discutia ou não com o mar, também de seguida vai ao pinhal buscar pinhas, e a imagem que eu recupero para mim é a do pinhal de Monte-Gordo, onde íamos procurar camaleões...
Mas se eu devaneio, ao ler, a autora não se perde no fio da sua prosa, de grande pendor poético, sem perder o realismo do detalhe a que nos prende.
Frederico é um homem já velho, ou envelhecido pelas labutas da vida. Vamos segui-lo páginas adiante, depois de uma passagem em que se evoca um amor perdido, e um conjunto de reflexões que se atravessam na narrativa de modo a desconstruir o "género" que poderíamos julgar ser como de novela ou como um conto mais longo.
Mas será sem dúvida de novela, ou melhor, de novelo em que a alma se desfia devagar através das personagens criadas.
Frederico já anda por ali, que outros virão ainda, além da "Lália" já gritada numa voz de grande saudade?
Se a prosa da autora é realista, como já disse, minuciosa, detalhada, e de fôlego poético, a estrutura desta ficção já não pode ser definida em modo de branco e negro. A liberdade da mão fez do livro um livro post-modernista, em que a escrita segue movimentos imprevisíveis, da narração ampliada à reflexão filosofante em que a autora se vai dando a conhecer, por leituras que indica, por respostas que dá a várias interrogações, como notas diarísticas à margem do que foi o projecto aparentemente desenhado.
Em muitas das páginas em que a autora descreveu quotidianos de infância naquele Algarve antigo eu fui parando, e pude com ela rever o meu Algarve antigo - eram o mesmo. Mas só o pude rever porque a qualidade da prosa, tão feita de renda nas evocações escolhidas, se transformava de repente num grande esboço, num quadro vivo e real de uma memória já fantasma.
Afirma por vezes a autora "que vai vestir-se de inocência": mas não é inocente a mão que por ali anda, evocando, desconstruindo, recuperando até falas do quotidiano, de permeio com uma citação de Agustina ou outros pensadores de grande erudição, para que o leitor ora se perca ora se reencontre, porque a autora já deu a entender que não se rala com o que lhe possa acontecer. É ela, a autora, a  absoluta tecelã dos fios da narrativa. Por ela, podemos enredar-nos à vontade. Decidiu cultivar o fragmento, como Novalis, outrora...
Cada um na sua vida, no seu atrapalhamento, ou numa claridade reinventada ali, e que não existiu nunca ou existiu mesmo e perdeu-se, como o Algarve antigo se perdeu de si mesmo.
Vale a pena ler?
Agustina certamente diria que sim.
E eu digo o mesmo.
No dia de chuva em que o recebi, este livro foi o meu companheiro, e gostei de saber que o livro queria ser só isso (o que é imenso) um companheiro, em dado momento da vida.






Tuesday, May 17, 2016

Centenário do nascimento de Vergílio Ferreira.
Releio a Conta-Corrente, revivo aquele passado que também foi meu.
Deixo aqui a memória. Tanto se fala de cidadania, e essa consciência de que fizera falta, nos anos da Ditadura, e depois da Revolução, e ainda agora continua a não existir plenamente, leva-me a colocar aqui, para quem deseje ler, o que escrevi para outros espaços.
Em sua boa memória.
Vergílio Ferreira: 1916-2016
 O progressismo é a grande carreira. E é uma carreira fácil. Cita-se Marx.Assinam-se protestos. Escrevem-se artigos em louvor de escritores "porreiros"...
Uma carreira faz-se não com o que se é, mas com o que se exibe ser-se. Da superfície para baixo todos os lodos são permitidos. Ó país do tamanho de um papel higiénico! O teu lugar não é na História ou na Geografia. O teu lugar é no lugar do papel higiénico. Meu Deus. E eu que não quero lá estar. Mas estou. E essa diferença é que me trama. Porque toda a diferença é um estigma " (in Conta-Corrente 1 ).
 Um dos últimos livros que Helder Godinho, responsável pelo espólio de Vergílio Ferreira, publicou, tem por título ESCREVER.
Devia ser obra de referência nos cursos agora tão à moda, de Escrita Criativa.
Tive o gosto de conhecer pessoalmente este autor, nos antigos jantares do Pen Club, numa ou noutra tasquinha da baixa, ao Chiado, e regra geral éramos dos primeiros a chegar - vício da pontualidae, que ambos partilhávamos.
Chegava um pouco depois Sophia de Mello Breyner, que escolhia uma cadeira à frente dele - isto é para me provocar, dizia-me ele, ela sabe que eu não lhe falo, desde aquela célebre viagem ao Brasil "em que sequei no lóbi do hotel, à sua espera, quase uma hora. Julgava-se mais importante..".Vergílio no melhor, aqui, do seu azedume, que eu na realidade, muito mais nova, não conseguia levar a sério e nem por isso deixei de gostar deste escritor filosofante e austero, de língua afiada nos seus diários.  Fomos ambos publicados, a dada altura, na mesma Portugália Editora por um comum amigo, felizmente ainda activo, o José da Cruz Santos!Aqui fica já um abraço de gratidão.
Quanto aos encontros do Pen, com aquela insistência nos atrasos da Sophia, mas sempre sentados perto um do outro eu achava que serviam de aperitivo para alguma conversa, já a caminho da usual intriga literária, sempre de alguma má língua, ou não fôssemos portugueses...(à roda de uma mesa, com outros, todos os portugueses são linguareiros, ainda que depois se despeçam com grandes abraços de até breves).
 Eu ria. Escolhiam-se os pratos, as sobremesas... Aquela era uma antiga zanga, destas que existem, de estimação, e não mais do isso. Por exemplo a Sophia comentava do então já muito à moda mas ainda jovem estruturalista Eduardo Prado Coelho, que "ele lia mais do que entendia". Gargalhada na mesa, David Mourão-Ferreria esboçava um sorriso, era colega do pai na Faculdade, o Prof. Jacinto Prado Coelho, mas quando ele chegava, com ou sem o pai, já o riso tinha terminado. O pai era um Mestre, na Faculdade de Letras e  eu ainda lhe devo, com gratidão, que fosse publicado na Ática o meu romance As Palavras  Que Pena (1972). E quanto ao Eduardo, ele era quem trazia de França as últimas novidade, leituras, filmes, de tudo um pouco, do muito que faltava em Portugal. E por ele gostar da Marguerite Duras, que eu idolatrava, nunca me juntei às críticas mais ferozes, embora soubesse que ele não era apreciador do que eu pudesse pensar ou escrever. Talvez porque eu vivia grande parte da minha vida em França, na Paris sonhada, em casa da minha tia Guenia Richez, irmã mais velha da minha mãe, mas que fora a primeira a editar Paroles, de Prévert, logo a seguir à guerra, andando com montinhos da edição, de livraria em livraria...
Em sua casa conheci escritores, pintores, realizadores - eu estava a par "ao vivo" do que se fazia, mas de facto era o Eduardo quem nos jantares, ou na Faculdade, discutia as "novidades". Eu era, nessa altura, muito mais discreta do que me sinto hoje...chegado, quem sabe, o tempo da saudade?
 Devo recordar, a propósito dos ditos de Vergílio, ou de Sophia, que se havia riso, no fundo não era maldade, era o olhar dos "Crescidos" sobre os jovens que despontavam e já "mandavam bocas".
Vergílio Ferreira era idolatrado por todos os  que tinham sido seus alunos, no Liceu Camões. Um deles, Ben Almeida Faria, entregara aos olhos de Vergílio o seu primeiro romance, Rumor Branco, e que era na verdade de uma escrita fundadora, ao modo joyceano, e para o qual o amigo professor escreveu o prefácio que muito ajudaria à divulgação e reconhecimento desta primeira obra. Li Rumor Branco, como li de seguida A Paixão, que considerei ainda mais importante no contexto do que seria a inovação literária em Portugal. Eu também tinha conhecido Almeida Faria como aluno, e ainda hoje entendo que um professor é assim: reconhece e apoia o mérito de quem com ele conviveu, muito ou pouco tempo, a vida é mesmo assim -ora une, como aconteceu com Vergílio, ora separa - mas esse laço de admiração e estima ficará para sempre.
Encontramos na Conta-Corrente, a referência a esse momento do encontro de ambos e à reflexão perante o que considerou a marca tão segura da originalidade do novíssimo autor.
Como encontramos muitas referências a Helder Godinho, discípulo e admirador de sempre, e penso que ainda hoje o bom Anjo guardador do seu espólio.
 Vergílio Ferreira viveu para escrever: uma vez por ano, nesses encontros do Pen, era a notícia que me dava, estava a escrever, ou mais um romance, ou sobretudo, o que fazia morrer de curiosidade os intelectuais do tempo, mais um volume do Diário, a tal conta-corrente, ao sabor dos dias, mas com muita regularidade, apesar de tudo. Todos corriam a comprar, a ver se eram citados e de que modo... Além das aulas, a escrita era a sua vida.
Vergílio teria compreendido muito bem a exclamação de Alberto Pimenta no seu mais recente livro de poemas: de novo falo, a meia voz..(2016) quando exclama:
O querer
foi a primeira coisa
a esmorecer em mim
(in Não Chega,p.79)

 Foi este poema, sobretudo com esta estrofe e esta afirmação tão dolorosa, porque o poeta quer é escrever, é essa a razão mais funda do seu viver, e sente que está a perder o desejo, o impulso, a força, o "querer", que me fez retornar à obra de Vergílio Ferreira, ou melhor, a esta sua escrita diarística, ora de alegria, realizada, ao acabar um romance, ora de desalento, quando a ideia para outro não chegava mais rápido, obedecendo ao impulso tão forte do desejo.
Não é querer a toda a força, de forma arbitrária, é obedecer ao impulso profundo que leva o escritor a querer, a pegar na caneta, no lápis ou no papel, a meio da noite, se acorda, ou a qualquer outra hora, para escrever o seu dizer, a voz que mais alto ou a meia voz, se manifesta urgente.
A espaços, ou melhor, a tempos: é no tempo que a escrita se inscreve, bem sabia Heidegger que o Ser não se diz, mas que no Tempo tudo se manifesta, na existência se vai tomando forma...

Escrever é pois um imperativo, da vida, da alma, que presa às circunstâncias se debate, interpela, exprime o que lhe vai por dentro.
Alguém disse que um grande artista (aplica-se a um grande escritor) precisa de ter um ego incomensurável, e a consciência dele.
Ou a Obra não acontece, não será duradoura, (por contínua) pensamentos e sentimentos se dispersarão com coisas várias dos outros, do quotidiano de que o artista, com letra grande, não soube ou não conseguiu afastar-se, reservando para si todos os momentos vividos.
A sua entrega à existência terá de ser total, terá de ser absoluta, para que a sua grandeza se afirme e se confirme. Num Grande nunca o egoísmo será alguma vez censurado.
Ocorre-me o caso de Wagner, mais do que grande, Enorme, - como foi tido no seu tempo, e ainda hoje: ler os Diários da devotadíssima Cosima, mesmo sem se ser feminista, faz doer o coração.
Que entrega tão completa, que abdicação de si mesma perante o outro que, sendo genial, (como Wagner egoistamente se considera) de todos à sua volta absorve tudo o que pode, entende que tudo lhe é naturalmente devido, (incluindo vénias e fortunas, se tal fôr necessário).
A Luís da Baviera, sem nunca se entregar, deixou que o jovem o idolatrasse como a um deus.
Mas será um compositor diferente de um escritor, na entrega à sua obra?
Valem a sua vida e a sua obra, mais do que vidas e obras alheias?

Vergílio Ferreira foi sem dúvida o grande escritor do seu tempo: foi o que ultrapassou um neo-realismo meio serôdio, para pensar e escrever uma outra forma de entender a existência, assumindo, sem o reconhecer claramente o nome com que Jean-Paul Sartre já baptizara o novo movimento: Existencialismo.
Mas havia de facto diferenças entre ele, o seu entendimento do mundo, e o superlativo Ego de Sartre, alimentado pela companheira de uma vida, Simone de Beauvoir.
Há na sua escrita uma definição primeira, que exprime logo a essência e o sentido do desdobramento que exige:
"Escrever é ter a companhia do outro de nós que escreve".
Leu bem, e certamente ensinou outros, a ler Fernando Pessoa, cuja consciência do eu e do outro formatou toda uma geração de escritores.
Não se trata apenas de ter "a companhia do outro de nós", o alter-ego que se apossa da mente e da mão que escreve.
Trata-se, seguindo Pessoa, e não o velho Sartre, de ter a consciência disso, num outro patamar que é já de super-ego, e não apenas de um ego que se diz ser enorme.
No seu tempo, e no meio que frequentava, Vergílio Ferreira foi certamente uma voz original. Desabrida, por vezes, o que é bom, fazia-se ouvir melhor mesmo quando se fechava num mais longo e retirado silêncio. Mas apercebemo-nos de que ele, fechado nesse silêncio, não se sentia feliz. Morria aos poucos por "não conseguir sentir". Tinha a ideia, ou tinha mesmo os projecto meio desenvolvido, mas a escrita não progredia, não chegava ao fim com a rapidez ou a intensidade desejada na descrição das acções, dos sentimentos, das personagens.
 Eis como definiu a originalidade:
" Todo o escritor que é original é diferente. Mas nem todo o que é diferente é original. A originalidade vem de dentro para fora. A diferença é ao contrário. A diferença vê-se, a originalidade sente-se. Assim, uma é fácil, a outra é difícil".
Também ele afirmava que " ser inteligente é ser desgraçado", como se retomasse o poema da Ceifeira, de Pessoa: ela era feliz porque era simples, para não dizer mesmo simplória, na sua ignorância de não saber, não pensar, algo que só os inteligentes fazem, e com isso sofrem pela vida fora...
Nesta Conta-Corrente 1, de 1969 a1976, vemos que Vergílio Ferreira em cada novo aniversário, e em cada Novo Ano, sofria com a questão do envelhecer, e do que a velhice, além da morte, podia trazer consigo. Assim o vemos nos seus cinquenta anos (como seria diferente hoje, a sua reacção) e assim o encontro agora, por exemplo, aos sessenta):
" O romance está em crise. A arte está em crise. A cultura está em crise.Por força dos meus sessenta anos, estou em crise. O meu país está em crise. Como posso pensar ainda em escrever romance?" (p.354)
Mas escrever era sua vida verdadeira, entre as aulas, os exames, e a dada altura as convulsões de um Revolução que tantos tinha desejado, e ele também. A sua casa é centro de rodopio, de um Eduardo Lourenço a um Fernando Namora, a um João Palma-Ferreira, etc.
 Na escrita de Vergílio Ferreira também se encontra a questão do sagrado - algo que Sartre e Simone abominariam - mas que torna a obra do nosso autor mais profunda, mais interpelante, pois crescemos todos, num país católico, com os ensinamentos da Bíblia sagrada.
Mas Vergílio, o escritor-pensador, pressente que é na palavra que reside o mistério. É no dizer:
" O mais profundo duma palavra é o que há nela de sagrado. Deus tê-la-á dessacralizado quando com ela criou o mundo. Mas nós sacralizamo-la de novo quando o recriamos com ela."
E de que modo?
Escrevendo...
"Vive a vida o mais intensamente que puderes. Escreve essa intensidade o mais calmamente que puderes. E ela será ainda mais intensa no absoluto do imaginário de quem te lê".
Entenda-se este "calmamente" como sendo a lentidão, a revisão, toda a demora que se se torne necessária para a depuração do que seja excessivo no texto. O excesso não é alimento, é desperdício de alma...
A pressa sempre foi má conselheira, e o mesmo se aplica à escrita.

Encontramos na Conta-Corrente ( que leio agora desde o ano de 1969 e seguintes ) um pouco de tudo o que acontece no país cultural e literário, e sob a sua capa a manifestação dos que se opunham, mais ou menos visivelmente ao regime salazarista. Havia casas, havia cafés, havia círculos para tais encontros, em que se discutia a mudança desejada, naquele tempo muito vivido ainda no sentido do comunismo soviético.
Os anos que vão de 1973 a 1976 são excepcionalmente interessantes para um leitor que queira de facto, pela leitura, assistir aos desenvolvimentos que marcaram, para sempre (?) este Portugal em que agora vivemos.

Os amigos de que Vergílio fala, muitos eram também nossos amigos, e a agitação dos dias, ou das noites, que lhe levavam a casa eram os mesmos que nos traziam aqui, a nossa casa, pois nós já vivíamos nesta casa de hoje nesse tempo, perto da primeira versão da UNL, na Av. da República, e da própria casa de um desses bons amigos, o João Palma Ferreira. Este é dos mais citados, na Conta-Corrente, em matéria de catástrofes que os tempos escondiam: revolução, povo na rua com os comunistas a tomarem conta de tudo, uns ainda soviéticos, outros já maoístas - todos com a tropa à frente, e Portugal, a pátria sem destino, esperando por um desígnio que Mário Soares, pacatão, ainda não definia opondo-se com maior clareza.
Acabou no entanto por fazê-lo....Explicava a Vergílio, o impaciente: "a Democracia dá trabalho...para sossego existe a Ditadura".
 Por muito que me seduzisse a ideia de contar tudo aquilo que também vi, aquilo em que participei, aquilo que recusei e formou a decisão que até hoje mantive de ficar longe da política de corredores baixinhos ainda que de muitas portas que se abrissem, prefiro caminhar agora com o nosso centenário autor para o mês de Dezembro e mais uma actividade de que ele, apesar de desejar o contrário, não prescindia: por amizade, ou dever de presença, de que depois fazia troça:
" 10-Dezembro (sexta). Ontem lá fui ao lançamento do livro da Natália. Muita gente. E implícito nisso, o aplauso à coragem da Natália no combate ao totalitarismo. Mulher de armas, versão actualizada e intelectual da padeira de Aljubarrota contra o invasor estrangeiro. Li hoje o livro lançado. Rasgo, ardor, firmeza, tudo subtilizado em bela invençãopoética. Estive pouco tempo na reunião, porque tinha um jantar marcado (...)Mas no breve encontro vi muita gente. É ocasião de a gente se ver nesta dispersão citadina: os cocktails e os enterros" (p.383).
 Antes tinha dito de si que não era "um homem público ou seja, aquele que se completa no outro e no outro de si. Completo-me de de mim, tanto quanto isso é possível. Ainda hoje me incomoda ver o meu nome nos jornais.A perda da posse de mim.Como os antigos não gostavam de tirar retratos porque receavam perder a alma. Para outros, a posse de si está em reunirem-se à parte pública de si. Sem essa parte pública é que se sentem divididos. Como no mito platónico  do amor" (p.382).
 Tantos, de que ele fala, são esses da necessidade da existência pública, julgando que estarão mais vivos assim, sempere disponíveis, interferindo, do que escolhendo dedicar-se à sua obra.
Mesmo assim Vergílio não se furta a um ou outro convite, jornal, televisão, nem sequer à publicação de este Diário em conta-corrente, de meditação sobre a sua escrita e a dos outros, alguns apanhando forte, como ele se queixa de ter apanhado sempre de "cliques" como as do Papa Gaspar Simões e alguns cujo nome evitarei citar aqui, porque a adjectivação vergiliana é talvez excessiva. Poupo alguma memórias...
 Com Fernando Namora (que foi amigo do meu pai, ainda em Coimbra) Vergílio Ferreira discorria sobre o sentido da vida, e da arte, e do balanço da geração que era a deles: sem renegar heranças, renovadores, ainda assim, fecundos, nos temas, nas forma de narrativa...
Cito, do ano de 1972:
" Esteve aí o Namora, há dias. Como de costume, e insensivelmente, caímos ambos no balanço da nossa geração como quem dá por encerrada a vida. E é isso no fundo o que nos domina: a enviesada certeza de que isto já não é connosco. Estamos fora do jogo, gastámo-nos. E cálido, um apelo à desistência, um gosto de acabar. Não ler, não escrever, gastar o resto de ideias e estupidificarmo-nos. A parte negativa. Mas a morte há-de ser a negação maior. Se a gozássemos em vida? Ser sem arte, abandonarmo-nos ao abandono, à pura passividade? Namora, em todo o caso, parece tranquilo quanto ao dstino da nossa geração. Que a nossa geração foi "fecunda". Que os jovens, só surriada. O que até talvez seja verdade..." (p. 128).

E termino, porque me parece de grande actualidade, neste momento em que vários Partidos se uniram para mandar, fingindo que não sendo Governo não têm contas a dar a um povo que saiu de uma Ditadura para quase entrar noutra, quase sem saber, de uma Europa sem valores e que muito convém àqueles que agora retomam a palavra perdida em nome já ninguém sabe de quê!

 Vergílio, regressa, a tua voz faz falta!
"Vencer o imediatismo da pressão política. Voltar ao romance. Ser eu" (p.201).
E quanto a nós, ainda herdeiros e vivos: regressemos também ao que desejámos ser, erguendo uma voz mais clara: por outras palavras que são as de Vergílio Ferreira, lucidíssimo:
" Cortar com o berreiro público. Voltar à marginalidade das minhas (nossas...) coisas"(p.192).

Agora, em data de centenário a celebrar, o que diria o escritor que nos liceus não é lido, ou se é, é a partir de páginas extraídas ao acaso, sem antes nem depois, que nem alunos nem professores poderão entender? Seria duro, como nos comentários que fez ao nosso medíocre meio literário, quando em França saiu a tradução de Alegria Breve, pela mão de René Bamdé, cujo pseudónimo liteário, Robert Quemserat, já brincava com a questão do quem será ? E foi escândalo! Quem será este, que se atreve - ainda que por desfastio ( esteve preso no Porto e fez várias traduções de alguns que considerou interessantes e marcantes pela novidade dos temas e da prosa) que vem agora com esta Alegria Breve?
Eis o que nos conta Vergílio Ferreira, e que alguns (ainda vivos, como eu ou o Ben Almeida Faria recordaremos com um sorriso, pois é  pura verdade o que Vergílio conta, e aconteceu connosco, tão mais jovens -  mas agora a idade perdoa tudo! ):
"...A tradução é entre nós uma grande credencial. Eis porque todos afanosamente a procuram. Junto da Gallimard, ao que me dizem, há um comité português de leitura (...) que só deixa passar os elementos credenciados. Daí o frenesim por eu ter escapado às malhas. Bons deuses, lá escapei, aliás por um golpe de sorte. Bamdé, preso, entreteve-se a traduzir-me na cadeia. Deste modo saltei a barreira portuguesa e passei logo à francesa. E aí o livro teve o visto" (p.29).
Eu tivera também a sorte de saltar a barreira, pela mão de Bamdé, com Pas Seulement la Haine, em 1968. Mas já os meus sketches de teatro, que depois da revolução de Abril publiquei com o título de Teatro Aberto, na Ática, não tiveram igual sorte.
Madame Benmussa, que dirigia a colecção de teatro juvenil, comunicou-me, certa vez quando eu estava ainda em Paris, (os originais do teatro estavam em português) que esse tal comité os tinha chumbado. Para eles (quem seriam? ainda hoje não sei) já bastava que tivesse saído um romance sem eles darem por isso...
 Não me engano se disser que agora, em 2016, passado cem anos sobre o nascimento de um grande escritor - se vive em Portugal uma igual, mais pequena (porque em Portugal tudo é sempre mais pequeno, mas não menos nocivo) instituição, ou tentativa de instituição de pequenos comités filtrantes, de tiranetes da ignorância, algo que advém de uma péssima formação literária, filosófica, cultural, que Vergílio Ferreira, se fosse ainda vivo, muito combateria numa sua próxima Conta-Corrente.
Se ele, na verdade, ao sentir-se envelhecer, apenas com os seus sessenta anos ( o que é isso para nós, os de setenta ou mesmo oitenta ou mais anos) sofria quase em cada página por uma secura de alma que o impedia de chegar à ideia ou ao projecto, ainda que incipiente, de um novo romance que o absorvesse por completo - porque o mundo à sua volta mudara, perdera valores, se tinha fragmentado e um mal constante o atormentava, o que diria ele de ainda mais severo do que por exemplo este desabafo, sobre aquilo em que a sua Escola se tornara?
" No liceu, a balbúrdia. Trelaxamento total nos costumes. Fornica-se e defeca-se ao ar livre. Miúdas contratam a fornicação a X a bandeirada. No meu liceu as 'capitoas' andam desorientadas. Mas toda a gente 'progressista' o anda (excepto talvez os comunas) : a vida não vem nos livros de propaganda" (p.223).
Vergílio admirava-se que alguém como um Eduardo Lourenço pudesse afirmar, lá por casa, que o imperialismo soviético podia ser uma solução, como o Império de Roma tinha sido outrora, com a ordem no mundo....e Vergílio perplexo interrogava-se: o comunismo trouxe a fome à Rússia, aos países que dominou, a China fez o mesmo, de que servirá a fome e como se alimentarão estes nossos comunistas da utopia de agora?
Nunca escondeu, nem dos piores nem dos melhores amigos que não era e não seria nunca comunista. Desafiado por vezes para algum cargo, pelo PS, também teve a coragem de recusar, pois escolhera um caminho que não permitia distracção, nem cedências a pequenas ou a grandes vaidades, o da Escrita:
" Por favor. Já disse. Não me chateiem mais com isso. No tempo do fascismo os escritores escreviam, porque tinham sossego e podiam dizer mal. Hoje vivem em alarme com medo do outro totalitarismo e não podem dizer mal nem bem. Tudo isto acabará, se a democracia enfim começar" (p.380).
 Felizmente, com a imensidão de um povo resiliente atrás de Mário Soares, a Democracia começou.
Veremos agora, com a Europa dos grandes e dos pequenos se o sonho não se desfaz!




  

Thursday, May 05, 2016

Alberto Pimenta, NÃO CHEGA

Difícil é parar de ler estes poemas.
Circulam no ondear da capa, que Alberto Pimenta concebeu para o seu ilustrador. Rodam, na roda da vida, do seu falar a meia voz.
Reli este, poderia ser outro, para colocar aqui.
Ele diz não chega, Neste título (p.79) e não chega mesmo, porque todos precisamos de mais, de muito mais, pela sua mão, pelo seu génio, que o transporta e o traz até nós.
Humildes, lemos. Numa altura da vida em que outros se atabalhoam na corrida ao sucesso, eis este poeta aqui perto de nós, falando.
É imperioso escutar.
NÃO CHEGA
Nuvens espessas,
parecem pesadas como chumbo.
O vento empurra-as
para cá.

Haverá
quem ainda saiba
e possa desviá-las?
E queira?

- Mas tu próprio queres?

O querer
foi a primeira coisa
a esmorecer em mim.

-Então
por que escreves?

Não adianta.

-Não adianta o quê?

-Não adianta
 tentar perceber.
....
Pelo meio o poeta fractura o caminho, filosofante, da interrogação, do tentar perceber.
"o querer que esmoreceu" nele é o mesmo antigo impulso, de uma energia tão especial, que tínhamos outrora e com o tempo se foi perdendo, como se foi perdendo de alguma forma no país, no momento que vivemos.
E o poeta então decide brincar connosco: é uma questão de ritmo, melhor dizendo de arritimia, conta os "arithmos" (p.80) o pulsar de tantas inquietações: das que fazem viver e das que fazem morrer...numa mesma paixão, a de ser, viver, intensamente escrever. Escrever é resistir.
Por ser tão longo o meu convívio com os poemas de Alberto Pimenta sem nunca ter a pretensão de os poder analisar, fazer a recensão crítica dos sábios, logo ao primeiro verso, e entre os versos,  me identifico e revivo o que ele esteja vivendo. Serei boa leitora, porque tão fiel, serei sem dúvida uma péssima crítica: não procuro no que escreve o requintado estilo, vou directa ao pulsar de um coração que ali está a bater, vou procurar a voz que fala baixo, e quando fôr preciso também gritará, as dores múltiplas nossas, e do mundo.
O desvio que se segue, ao puxar para o verso o um, a unidade, e o dois, que também pode ser um ou não ser nada - pois o  poema agora já segue a duas vozes, vem confirmar que a matemática só por si não chega, e fica justificado, com ironia, o título dado ao poema.
Poetas não são contabilistas, e os números da alma não se contam somando ou diminuindo, todo o contar restringe, assim esmorece o "querer", o impulso inicial, a alma do poeta exige ampliação...um ar que ainda se respire livremente.



Tuesday, May 03, 2016

Alberto Pimenta, fala de novo a meia-voz....


O que há de tão necessário, de tão vital, nas palavras ditas, para se  entender que, ainda que a meia-voz, o dizer das palavras é sempre  redenção ? E sempre afirmação de resistência em conformidade  ou não com o decurso da vida?
Para quem as articula, diz ou escreve, para quem as ouve, ou lê e pode, ao repetir, sentir que vive  e a sua vida, ainda que breve, é uma vida plena? Entre os poetas há os que morrem cedo, há os que morrem tarde, há os que nunca morrem...
Empobrecemos, se nos faltam as palavras, definhamos até que o mundo à nossa volta perca sentido de vez.
A um poeta, subtrair a palavra é como tirar-lhe o pão, a água, fazê-lo morrer à míngua.
E aqui temos o poeta das palavras, ora gritadas ora ditas a meia-voz, num discurso todo ele de interpelação, de espanto ou interrogação, ALBERTO PIMENTA, o resistente, o que nunca deixou que a voz lhe fosse abafada, com um novo livro: 
NOVE FABULO, o MEA VOX. DE NOVO FALO, A MEIA VOZ.
ed. pianola 12, 2016
E já à venda.
São mais de uma centena de páginas de longos poemas, ao mesmo tempo subtis e tão certeiros, nos motivos que escolhem, e que  à nossa e às novas geração tanto têm a dizer. Em primeiro lugar que a sabedoria cabe toda num verso, como cabe num grito, num tropeção, num último esforço que se faça.
A poesia é esforço e é desforço.
Da vida que passa, num tempo que não cessa, o tempo, esse grande interlocutor (oculto, mas sempre a formar-se e deformar-nos, o tempo que não se cala, e que vemos passar).
ANTELOGIUM
Em ti vejo o tempo
continuamente formar-se
e em mim
vejo-o passar.

Quando me dás do teu tempo 
dás-me um pouco de mim:
o meu detém-se
....
Como forma 
que o tempo ainda forma
e dá forma ao tempo
conheço-te a ti agora
no declínio da minha vida.

Não sei que forças
te trouxeram até mim, 
onde vês
o que em ti continua a nascer
em mim morrer
sem esperança.
....
Segue o poema,  numa tão explícita declaração de amor, um amor feito de tempo, o tempo que se dá ao outro, que dele viverá, enquanto os deuses assim o consentirem... que só resta ao leitor continuar a ler, em voz baixa, com respeito, pois que todos nós passaremos por esse anunciado tempo que chegará :"
Como sempre,
tudo chegará 
na ocasião de chegar.
Sem dúvida
tudo chegará:
o tempo
que em ti há-de continuar
a formar-se,
que em mim
irrevogavelmente,
está a acabar.
(p.10)

A lentidão do discurso, respirando entre uma e outra linha, pode ser de algum cansaço, mas resulta também da reflexão que o tempo fez amadurecer, como acontece ao fruto que na poesia de Goethe  amadurece, essa é a reflexão que a todos nós alimenta: 
do pulsar da vida, que no tempo dado por outros ao poeta lhe é dado e também a nós  é dado, pelo poema, aqui nesta meia voz que tudo desperta, nos sentidos, e no desejo de um corpo e de uma alma de momentos maiores.
Falei em delicada e comovente declaração de amor: a alguém que deu do seu tempo, e é feito de tempo  o amor  aceite e concedido.
Mas há sempre mais do que um primeiro movimento, na poesia de Alberto Pimenta.
Leio desde sempre as suas obras, recordo, das que vi, as suas performances de revolta e humor subtil, tão erudito que por vezes agride, acertando em cheio na nossa silenciosa cobardia, na nossa ignorância também, que vem de longe. 
Nesta obra temos de tudo, como num balanço de vida: foi longa, foi boa nos excessos e nas delicadezas, e assim continuará, pois a voz deste poeta não emudece a menos que o amordacem, e esse tempo passou. Contudo, é do tempo que ele deseja falar. Um tempo que move e se move no universo, como em PERCEBO, onde lemos claramente " digo que o tempo foge, / mas está sempre presente: 
esse é o resumo"(p.11)
O tempo move-se, é por certo ele que curva o universo e a nossa vida, que desejaríamos perene, é ele o tempo da fuga :
"'move-se através do universo,
nenhum mortal o vê, mas ele vê-os a todos.'"
É de um hino órfico." (p.12)
De Alberto Pimenta como não evocar a sua enorme cultura, a sua erudição, parte da sua substância mais secreta, mais íntima, e que nos devolve ao mistério que a ele o alimenta, como eterno estudioso que é do universo, do homem, e do ser eterno no tempo?
Leu Heidegger, como leu os clássicos.
Devorador de sapiências alheias distribui, generoso, a sua, que é feita de carne e osso, a apetência de vida que nunca renegou. Desejo não é pecado...
Em MISTERIOSO o discurso poético vai embalado numa irreverência quase surrealista, Dali não passa neste poema por acaso, de mistura com ovos que estão a ser chocados, e com o livro de Bataille que partilha o mesmo lugar na estante e cuja referência lhe provoca" uma levíssima e gostosa erecção/ como há muito não sentia" (p.21).
O corpo vive, onde vive a palavra, onde vive a memória, do passado e do presente , que são barreiras do tempo.
De cada poema faz Alberto Pimenta matéria de reflexão: olhar o mundo, dialogar pelo meio com o alter-ego de CARTOON, ou com a crise do desemprego, em QUEM? numa voz que se declara irónica, e até mesmo cruel, se lhe surge a suspeita de algum destino imposto.
Em ESPELHO NOSSO? todos, ou pelo menos, muitos de nós, da mesma geração, em fase terminal, ainda que vivos sabemos bem que nos querem de preferência mortos, ou pelo menos mal enterrados - como na conhecida anedota - todos, dizia eu, nos podemos ver ao espelho e não reconhecer o rosto que nos é devolvido:
"olho para o espelho / e sai de lá a cara doutro..."(p.33)
Alberto exprime o que o tempo nos fez: eu vejo de manhã ao espelho, com espanto, a cara da minha mãe, por vezes da minha avó. Não me dá medo,ao contrário do que ele diz, evocando uma cena de Ovídio, nas Metamorfoses, e o espelho de água de Narciso...Porque ele, poeta, transforma no seu verso a realidade crua que na mulher, mais simples, é desgosto de velha a ver-se envelhecer. 
Com uma pacatez de riso quase sardónico, salta no verso do espelho para a polícia: é a polícia que mete medo, não o reflexo do espelho:
"O medo que isso faz
já o conheço portanto:
não vem do espelho,
vem da polícia". (p.34)
E de novo desconstrói  o poema dialogando com um outro que ajuda a aprofundar a questão. 
E a questão é bem simples, como no espelho de Alice, é uma questão de tempo, o tempo dentro do espelho, o tempo da natureza, quando já tudo se fez tarde!
Não cabe neste modesto espaço de um post tudo o que haveria a dizer, e não tenho essa pretensão.
Pelas páginas deste livro passam filósofos, compositores, momentos grandes, momentos de quotidianos só na aparência menores (há que reler mais vezes) mas desejo terminar deixando ao leitor uma outra faceta ( obra-prima) deste poeta bem amado, em FOLIA.
A Canção Ébria, de Nietzsche que ele oferece na sua tradução, como prenda de algum aniversário de que se terá esquecido:
Ó homem! Pensa!
Que diz a meia-noite imensa?
Eu dormia, dormia...
Despertei dum sonho que me tinha suspenso:
O mundo é profundo,
Mais que o dia pensa.
A sua dôr é imensa...
O prazer...mais que a dôr ainda.
Diz a Dôr: desaparece!
Mas o prazer quer eternidade...
...Quer funda, funda, eternidade.
(p.72)
Alberto Pimenta, com Nietzsche, nunca falou tão alto!



  




Tuesday, April 26, 2016

O quotidiano a secar em verso

Ora bem, estava eu a ler ( a continuar) Orhan Pamuk, pois nunca o que se diga dele fica dito para sempre, e eu ainda disse pouco, quando um amigo me envia um livro de uma sua autora e pede uma opinião.
Peguei no livro li, terei de reler, mas logo à partida se foi formando em mim não uma opinião, mas uma reacção àquela escrita, de uma jovem, nascida em 1967, da idade dos meus filhos - o que para mim é jovem, agora que vejo tudo com a distância dos meus 76 anos. Não é o seu primeiro livro, podemos dizer que já tem obra, mas eu nunca tinha lido nada, e este livro de poemas causou-me a impressão de que podia muito bem ser o primeiro.
Ela define-se como poeta, e diz na badana do livro:
" Se tivesse de escolher um poeta, hoje, escolhia três: Camões, Whitman, Herberto Helder". São boas escolhas. Melhor, são excelentes. Significam que lê e gosta de ler, de Camões a H.Helder, do clássico ao que no seu momento (A Colher na Boca) foi o mais subversivo, e de contínuo aprofundamento, ou ampliação, de um imaginário sem igual.
Mas eu descubro outros, americanos, e outros ainda, clássicos do oriente  e contemporâneos, no discurso poético, com ritmo quase de rap, utilização por vezes brusca, ou mesmo rude , da linguagem. E descubro ainda outros, de grande elevação poética e mística, laicizada pela autora. Que não os imita, os interpela.
Esta poesia - preferia quase chamar narrativa poética, por ciclos,
surpreende, porque mesmo na escrita de quotidianos, como os de Adília Lopes, há  uma ironia distanciada, mas não há brusquidão.
E no caso de  Eugénia, se a poesia fosse assinada por um pseudónimo masculino, não me espantaria. A linguagem  é seca, como tantas vezes a dos prosadores ou poetas masculinos. Seca , ou melhor, despida de artifício, mas intensa. Intensa mas algo displicente, o que esconde o melhor do seu sentido de humor: ela pega nas palavras, nos versos, no todo ou em parte da narrativa poética , como quem pega nas roupas que lavou ( cabe à mulher, nas suas funções alquímicas, de transformação, é o que se vê numa das belas gravuras da Atalanta Fugiens, lavar a roupa...matéria a ser sublimada...) e pronto, põe esse quotidiano que é o seu a "secar em verso", na corda da sua (e nossa) imaginação.
Que maneira de lidar com a poesia...dirão alguns? Mas é uma óptima, para não dizer perfeita maneira: é íntima, como toda a poesia que se impõe, ao modo rilkeano (nas cartas a um jovem poeta, a poesia "deve nascer da mais profunda solidão....").
Haverá algo de mais solitário que a função da mulher, lavando roupa? Seja no rio, ainda que possa cantar alegrias ou lamentos, seja fervendo ao lume das secretas cavernas da alma onde se exerce a depuração necessária?
Falo pois de Eugénia de Vasconcellos, e do seu
 O QUOTIDIANO A SECAR EM VERSO, ed. Guerra e Paz, 2016.
"porque é preciso virar a página" diz ela, como epígrafe.
 Na verdade, estão eivados de profundo lirismo religioso - não digo místico, não são êxtases místicos, apesar de algumas referências, não se trata aqui de unificação a um Deus (seja ele qual fôr) que se apossa de um corpo, como no caso das freiras de Loudun, mas de um virar da tal página: falemos do corpo sim, mas da sua natureza já divina de origem, criado à imagem e semelhança..., falemos do Homem, e falemos da Mulher, do re-conhecimento que ela exige.
No capítulo da METAFÍSICA DO AMOR (p.45) logo no início, Amor Fica temos a definição de um amor que seria feito para permanecer, no encontro dos corpos, do desejo, da fusão mais completa.
Seria isso o amor, se tal fosse possível. A narrativa poética é iniciada com a descrição de um velho muito alto e muito velho (Deus? Salomão, o sábio do Cântico dos Cânticos?) que puxando com força a narradora com um nó de limos (podia ainda ser Poseidon, que também amou...) lhe começou a contar:
Dois amantes encontram-se,
a clareza do incêndio acorda
o esplendor dos corpos e os cânticos
antigos que dormem no esplendor dos corpos,
o esplendor dos corpos é
a confusão das coxas, a distracção dos dedos, o sossego dos olhos.
É isso a eternidade:
dois amantes encontram-se.
E o despudor do lirismo até ao rubor de Dionísio.
Assim, pedi ao meu coração que dissesse ao Amor:
Amor, fica,
e se a morte vier, ela que entre pelas portas do mar.
Porque a eternidade é isto.

Paremos um pouco:
Há muito de Herberto Helder, nesta clareza do incêndio - tudo na obra de Helder se incendeia, desde os corpos às palavras que os dizem, mas também a expressão de um puro anseio de eternidade que nunca é concedido aos amantes. A Paixão que o desejo alimenta logo  se extingue.
E o Amor não fica: " Desconhecido de si mesmo o Amor partiu".
Permanece o anseio:
"Se vires o Amor, diz-lhe: Amor fica".

Esta página, que nos parece que se poderia ter virado, foi virada, mas no discurso do Homem velho o fim contraria a definição do início. Os Amantes encontram-se, ardem no fogo que os queima, e com eles a paixão que os uniu.
Ficam as cinzas, é esta a lição do Velho.
Também Rilke dissera, nos CADERNOS DE MALTE LAURIDS BRIGGE, a propósito da Portuguesa, emblema de Amor Eterno, que amar é melhor que ser amado. Não há, na verdade, nenhum Amor eterno.
Em poemas como Vamos dançar, Amor, esta Noite (p.29) do ciclo O QUOTIDIANO A SECAR EM VERSO, a linguagem será bem diferente, a roçar o quotidiano mais prosaico.
Mas não é a vida a prosa do que se vive, a prosa do que se diz, no meio do tanto que ficará por dizer? Não foge ao cliché, se tal fôr necessário, para este longo poema de exclamações vingativas, ao modo bd, como observa, ou de telenovela, digo eu, ou seja : o que está na moda "o que está a dar..." e por aí mais circula. Eugénia é boa observadora...
Este ciclo, que dá o título ao livro, não é contudo, no conjunto do livro, e na minha opinião (vale o que vale) o que mais define os temas da poeta.
É contudo muito desafiante, e embora eu não o transcreva no post que tem limitação de espaço, peço ao leitor que não deixe de ler.
Salta graficamente aos nossos olhos uma outra realidade, de um quotidiano banal, por vezes brutal, e que a autora, magistralmente, ironicamente, exprime numa secura de observação muito sua.
Se adiante reflectirá sobre o Amor que fica, aqui corre à facada, como num fado menor, o Amor que traíu.
Encontro nesta obra tantas referências que são mais do meu tempo, e que a jovem (para mim) autora recupera...
Agora é Mercedes Sosa, com os grandes da bossa nova, que podemos puxar do Youtube vezes sem conta...(p.69 )
E assim vai andando, desde  Dueto com Mercedes Sosa, às Baladas Hebraicas de Else Lasker-Schueller, em NÃO FAZ MEU CORAÇÃO FRONTEIRA COM O TEU?
Toda a leitura feita é transposta nos temas mais reflectidos e dados (postos a secar) a uma nova e actualizada releitura.
Um livro que o Amor atravessa, interpelando.
Vivido, sonhado, desejado, "despejado"...enfim, um livro bom de se ler!







Thursday, April 21, 2016

Orhan Pamuk, sempre ele....

Recebo agora o seu livro, cujo título me atraiu:
A STRANGENESS In MY MIND, ed. de 2015, na tradução inglesa.
Esta é a estranheza que também sinto, será como foi a de qualuer dos meus escritores preferidos, Proust, por exemplo, entre outros, de escrita demorada, fruto de uma atenção ao pormenor que se destaca nos meio de um ambiente mais alargado da família e suas rotinas, ou da sociedade e sua cultura e hábitos, que vão do religioso ao alimentar...Em cada pormenor a identidade ou a diferença, intransponível, quem sabe se talvez mais ainda do que outrora.
A edição da Faber and Faber é sumptuosa, um pouco pesada para mim, mas lerei devagar, e sobre uma cómoda almofada.
Estranheza é o que sentimos, desde logo perante a decisão de escrever, ou continuar a escrever, quando parece que já dissemos tudo, ou outros foram dizendo por nós.
Este impulso que nos leva a olhar de novo à nossa volta e a anotar o que sentimos, ou pensamos, e pode ir da tranquila indiferença a uma revolta mais calada, mais surda, mas a dado momento precisando de ser dita. Quando pelo meio se intercala uma relação de amor quase impossível surge o contraste civilizacional, e a estranheza aumenta: num mundo já tão aberto, tão global, como podem existir, (e existem, ficam mesmo a descoberto) nichos de tão grande fechamento...e podem ser felizes, no sentido mais geral de ficar a viver uma vida agradável, onde pelo menos alguma liberdade e respeito mútuo permitam chegar ao fim da vida no seio de um convívio de espírito mais aberto?
Pamuk vive entre duas culturas, escreve na estranheza ou na admiração de ambas, pois em ambas se encontram valores respeitáveis. A estranheza é contudo grande: por que razão não se encontram, em algum ponto central de conhecimento e reconhecimento? Não somos todos humanos, nascidos do mesmo par primordial? Sentindo as mesmas paixões , quando há paixão pelo meio?
Como já acontecia noutros dos seus romances, ele parte de um episódio, só aparentemente pequeno, insólito, como o de amar a irmã mais nova nascida numa família tradicional de uma pequena localidade turca, ter esperado alguns anos por ela, escrevendo-lhe cartas de amor, e de regresso combinar então que fugiriam juntos, ajudados por um primo, indo viver para Istanbul, para eles o mundo. O estranhamento começa quando o jovem herói, de 25 anos, descobre, ao ver o rosto da amada, que ela não é a irmã mais nova, a quem escrevera tanto o seu amor e saudade, mas a mais velha, com quem teria mesmo de casar agora, por uma questão de honra.
Estão lançados os dados : foi trapaça do pai (as filhas mais velhas tinham de sair de casa antes das mais novas, para casar), ou o destino? E o que sucederá daqui em diante?
Mevlut é o jovem que foi primeiro pastor de ovelhas, na sua terra, e só mais tarde viajou para Istanbul, onde tinha já o pai e o resto da família, e onde agora  vive com a mulher, ganhando a vida como vendedor ambulante.
Ao longo dos vinte e cinco anos que foram passando, Istanbul mudou, e Pamuk, através de pormenores e situações que nos servem de exemplo, por via dos seus heróis, de que Mevlut é o principal, evoca os grandes contrastes que persistem, em pleno século XX: entre uma sociedade ainda provincial e mesmo rural nos costumes e medos, e uma sociedade que se desejou laica e progressista, moldando-se aos costumes alheios e dentro desse desejo tornando-se ainda mais arcaica, e já carregada dos vícios dos outros, da sociedade moderna, bem assimilada e distorcendo o sonho de vida de um simples homem de família, como Mevlut.
Este será o herói da "estranheza no espírito" do próprio Pamuk: de um mundo para o outro, em apenas 25 anos, como ele diz, numa capital que fora para ele, quando jovem, o mundo.
Mas o romance continua, e devemos seguir com ele até ao fim.
Entre o particular e o universal, aí se jogam de novo os destinos da vida.

Thursday, April 07, 2016

Manuel Alegre, do Bairro Ocidental às outras Memórias

Em 2015 Manuel Alegre publicou os seus poemas do Bairro Ocidental, o bairro que na verdade é o nosso país, que ele sempre celebrou nos seus versos, "o poema onde respira o teu país", país de todos nós, a que já nem sabemos se devemos ainda chamar Pátria...
"entre nós e o futuro há arame farpado
levaram o que havia além de nós"
A esta obra aludi já num post anterior.
Passam por este conjunto de textos evocação de poemas, cidades, intervenções políticas, descobertas, e as sempre novas sensações de quando se está a escrever. Ao escrever tudo em nós se renova...
Escrever é a porta aberta de um futuro que se deseja antever, (rever) ainda que criticando.
Isto conduz-me ao seu novo livro, agora lançado noutra bela edição da D.Quixote: UMA OUTRA MEMÓRIA.
Aqui se enumeram toas as leituras fundadoras, todas as memórias que a juventude nos deixa, ao compasso das leituras feitas, dos encontros tidos, das amizades permanentes que ao longo do tempo não se perdem.
Das Canções de Dom Dinis às considerações teóricas de um George Steiner que para mim foi um dos grandes condutores do pensamento mítico-literário do século passado ( é verdade, já estamos noutro século, a relação com o mundo, com a escrita, mudou por vezes tanto que mal se reconhece...) é tão vasta a marca das leituras feitas por Manuel, que nos devia sempre acompanhar como lembrete...não escreve bem quem não leu, quem não lê - a abordagem ligeira de manuais não pode substituir-se ao encontro de um inteiro poema de Camões, de Pessoa, de Sophia...para já não falar de todos os que pelo mundo fora se abriram e abriram os fundos espaços da palavra poética, dita, redita, afirmada ou negada.
"Hoje, como sempre, poesia é liberdade".
Nestas memórias Manuel Alegre responde à pergunta que muitas vezes lhe fazem: como conciliou poesia e luta constante pela liberdade, neste caso política, de pensamento e expressão, num país
fechado numa ditadura de que não se via ainda o fim?
Ele responde remetendo para os poemas de PRAÇA DA CANÇÃO - que foi bandeira de jovens e velhos durante anos e agora de novo reeditado, sem perder nada da sua dimensão universal: as ditaduras continuam, a canção evoca as guerras que ainda hoje se perpetuam, ainda que noutros territórios, e na verdade, por entre mortos e vivos o que sobrou foi isto: o poema "que rima com a vida".
Misturam-se deste modo, nestas memórias, pequenos apontamentos que o momento, a paisagem, o canto de um melro atrevido na colina de Santana, com a evocação de Camões na Canção IX:
Assim vivo; e se alguém te perguntasse
Canção, como não morro
Podes-lhe responder que porque morro.
 Eis a resposta: o poema entre a morte e a vida, o poema que proporciona ao poeta a sua única e perpétua saída.
Assim viveu sempre, desde que eu mesma me lembro, Manuel Alegre, combatente e poeta.
Partilho com ele a admiração por Sophia: li pela primeira vez em Coimbra, o seu livro CORAL, que abriu a enorme lista de todos os outros que fui comprando e lendo.
Conheci-a melhor nos Verões da Granja, de que fugi mal pude, eu que era tão algarvia, acabando por atrair várias famílias granjolas também para o Algarve! O mesmo médico amigo, em Lisboa, nos tratava a ambas de doenças respiratórias....mas ela não parava de fumar, o seu fumo já era a nuvem de poesia que a envolvia com elegância e naturalidade.Manuel, amigo íntimo, esteve sempre presente, como nos conta neste livro, a mim a vida levou-me para outras paragens, e já não a vi no fim de vida.
Leio a obra, evoco os nosso encontros.
Vivi em Coimbra dos 13 aos 18 anos e muitos dos encontros que Manuel Alegre refere, foram em parte meus: Miguel Torga, Paulo Quintela, por via do Teatro Académico, o melhor da minha juventude...entre o TEUC, do clássico grego e o moderno do CITAC.
O palco permite uma liberdade que sentimos como absoluta, embora seja passageira...mas fica a boa memória, e o impulso de sempre...
E assim por diante, não vou repetir as referências a Natália Correia, com quem convivi de perto (apresentei-lhe o poeta e pintor Henri Michaux, por ocasião de uma exposição dos seus quadros na Galeria São Mamede)  e a todos os que se lhe seguem, que Manuel evoca, todos referência do nosso mundo intelectual e que fazem parte do nosso património de cultura e liberdade.
Nestas memórias recupera ainda intervenções de carácter político: reflexões sobre o mundo, a Europa que já não é a que escolhemos, ou sonhámos, mas que é necessário ajudar a que mude, pois se as utopias são difíceis de concretizar não deixam por isso de ser menos importantes como desenho ou desejo de futuro!
Que a voz do poeta não se cale, e que o seu pensamento aberto e livre não ceda, como nunca cedeu, ao que é fácil, pois da facilidade nada nasce que nos amplie e justifique a vida!