Tuesday, May 17, 2016

Centenário do nascimento de Vergílio Ferreira.
Releio a Conta-Corrente, revivo aquele passado que também foi meu.
Deixo aqui a memória. Tanto se fala de cidadania, e essa consciência de que fizera falta, nos anos da Ditadura, e depois da Revolução, e ainda agora continua a não existir plenamente, leva-me a colocar aqui, para quem deseje ler, o que escrevi para outros espaços.
Em sua boa memória.
Vergílio Ferreira: 1916-2016
 O progressismo é a grande carreira. E é uma carreira fácil. Cita-se Marx.Assinam-se protestos. Escrevem-se artigos em louvor de escritores "porreiros"...
Uma carreira faz-se não com o que se é, mas com o que se exibe ser-se. Da superfície para baixo todos os lodos são permitidos. Ó país do tamanho de um papel higiénico! O teu lugar não é na História ou na Geografia. O teu lugar é no lugar do papel higiénico. Meu Deus. E eu que não quero lá estar. Mas estou. E essa diferença é que me trama. Porque toda a diferença é um estigma " (in Conta-Corrente 1 ).
 Um dos últimos livros que Helder Godinho, responsável pelo espólio de Vergílio Ferreira, publicou, tem por título ESCREVER.
Devia ser obra de referência nos cursos agora tão à moda, de Escrita Criativa.
Tive o gosto de conhecer pessoalmente este autor, nos antigos jantares do Pen Club, numa ou noutra tasquinha da baixa, ao Chiado, e regra geral éramos dos primeiros a chegar - vício da pontualidae, que ambos partilhávamos.
Chegava um pouco depois Sophia de Mello Breyner, que escolhia uma cadeira à frente dele - isto é para me provocar, dizia-me ele, ela sabe que eu não lhe falo, desde aquela célebre viagem ao Brasil "em que sequei no lóbi do hotel, à sua espera, quase uma hora. Julgava-se mais importante..".Vergílio no melhor, aqui, do seu azedume, que eu na realidade, muito mais nova, não conseguia levar a sério e nem por isso deixei de gostar deste escritor filosofante e austero, de língua afiada nos seus diários.  Fomos ambos publicados, a dada altura, na mesma Portugália Editora por um comum amigo, felizmente ainda activo, o José da Cruz Santos!Aqui fica já um abraço de gratidão.
Quanto aos encontros do Pen, com aquela insistência nos atrasos da Sophia, mas sempre sentados perto um do outro eu achava que serviam de aperitivo para alguma conversa, já a caminho da usual intriga literária, sempre de alguma má língua, ou não fôssemos portugueses...(à roda de uma mesa, com outros, todos os portugueses são linguareiros, ainda que depois se despeçam com grandes abraços de até breves).
 Eu ria. Escolhiam-se os pratos, as sobremesas... Aquela era uma antiga zanga, destas que existem, de estimação, e não mais do isso. Por exemplo a Sophia comentava do então já muito à moda mas ainda jovem estruturalista Eduardo Prado Coelho, que "ele lia mais do que entendia". Gargalhada na mesa, David Mourão-Ferreria esboçava um sorriso, era colega do pai na Faculdade, o Prof. Jacinto Prado Coelho, mas quando ele chegava, com ou sem o pai, já o riso tinha terminado. O pai era um Mestre, na Faculdade de Letras e  eu ainda lhe devo, com gratidão, que fosse publicado na Ática o meu romance As Palavras  Que Pena (1972). E quanto ao Eduardo, ele era quem trazia de França as últimas novidade, leituras, filmes, de tudo um pouco, do muito que faltava em Portugal. E por ele gostar da Marguerite Duras, que eu idolatrava, nunca me juntei às críticas mais ferozes, embora soubesse que ele não era apreciador do que eu pudesse pensar ou escrever. Talvez porque eu vivia grande parte da minha vida em França, na Paris sonhada, em casa da minha tia Guenia Richez, irmã mais velha da minha mãe, mas que fora a primeira a editar Paroles, de Prévert, logo a seguir à guerra, andando com montinhos da edição, de livraria em livraria...
Em sua casa conheci escritores, pintores, realizadores - eu estava a par "ao vivo" do que se fazia, mas de facto era o Eduardo quem nos jantares, ou na Faculdade, discutia as "novidades". Eu era, nessa altura, muito mais discreta do que me sinto hoje...chegado, quem sabe, o tempo da saudade?
 Devo recordar, a propósito dos ditos de Vergílio, ou de Sophia, que se havia riso, no fundo não era maldade, era o olhar dos "Crescidos" sobre os jovens que despontavam e já "mandavam bocas".
Vergílio Ferreira era idolatrado por todos os  que tinham sido seus alunos, no Liceu Camões. Um deles, Ben Almeida Faria, entregara aos olhos de Vergílio o seu primeiro romance, Rumor Branco, e que era na verdade de uma escrita fundadora, ao modo joyceano, e para o qual o amigo professor escreveu o prefácio que muito ajudaria à divulgação e reconhecimento desta primeira obra. Li Rumor Branco, como li de seguida A Paixão, que considerei ainda mais importante no contexto do que seria a inovação literária em Portugal. Eu também tinha conhecido Almeida Faria como aluno, e ainda hoje entendo que um professor é assim: reconhece e apoia o mérito de quem com ele conviveu, muito ou pouco tempo, a vida é mesmo assim -ora une, como aconteceu com Vergílio, ora separa - mas esse laço de admiração e estima ficará para sempre.
Encontramos na Conta-Corrente, a referência a esse momento do encontro de ambos e à reflexão perante o que considerou a marca tão segura da originalidade do novíssimo autor.
Como encontramos muitas referências a Helder Godinho, discípulo e admirador de sempre, e penso que ainda hoje o bom Anjo guardador do seu espólio.
 Vergílio Ferreira viveu para escrever: uma vez por ano, nesses encontros do Pen, era a notícia que me dava, estava a escrever, ou mais um romance, ou sobretudo, o que fazia morrer de curiosidade os intelectuais do tempo, mais um volume do Diário, a tal conta-corrente, ao sabor dos dias, mas com muita regularidade, apesar de tudo. Todos corriam a comprar, a ver se eram citados e de que modo... Além das aulas, a escrita era a sua vida.
Vergílio teria compreendido muito bem a exclamação de Alberto Pimenta no seu mais recente livro de poemas: de novo falo, a meia voz..(2016) quando exclama:
O querer
foi a primeira coisa
a esmorecer em mim
(in Não Chega,p.79)

 Foi este poema, sobretudo com esta estrofe e esta afirmação tão dolorosa, porque o poeta quer é escrever, é essa a razão mais funda do seu viver, e sente que está a perder o desejo, o impulso, a força, o "querer", que me fez retornar à obra de Vergílio Ferreira, ou melhor, a esta sua escrita diarística, ora de alegria, realizada, ao acabar um romance, ora de desalento, quando a ideia para outro não chegava mais rápido, obedecendo ao impulso tão forte do desejo.
Não é querer a toda a força, de forma arbitrária, é obedecer ao impulso profundo que leva o escritor a querer, a pegar na caneta, no lápis ou no papel, a meio da noite, se acorda, ou a qualquer outra hora, para escrever o seu dizer, a voz que mais alto ou a meia voz, se manifesta urgente.
A espaços, ou melhor, a tempos: é no tempo que a escrita se inscreve, bem sabia Heidegger que o Ser não se diz, mas que no Tempo tudo se manifesta, na existência se vai tomando forma...

Escrever é pois um imperativo, da vida, da alma, que presa às circunstâncias se debate, interpela, exprime o que lhe vai por dentro.
Alguém disse que um grande artista (aplica-se a um grande escritor) precisa de ter um ego incomensurável, e a consciência dele.
Ou a Obra não acontece, não será duradoura, (por contínua) pensamentos e sentimentos se dispersarão com coisas várias dos outros, do quotidiano de que o artista, com letra grande, não soube ou não conseguiu afastar-se, reservando para si todos os momentos vividos.
A sua entrega à existência terá de ser total, terá de ser absoluta, para que a sua grandeza se afirme e se confirme. Num Grande nunca o egoísmo será alguma vez censurado.
Ocorre-me o caso de Wagner, mais do que grande, Enorme, - como foi tido no seu tempo, e ainda hoje: ler os Diários da devotadíssima Cosima, mesmo sem se ser feminista, faz doer o coração.
Que entrega tão completa, que abdicação de si mesma perante o outro que, sendo genial, (como Wagner egoistamente se considera) de todos à sua volta absorve tudo o que pode, entende que tudo lhe é naturalmente devido, (incluindo vénias e fortunas, se tal fôr necessário).
A Luís da Baviera, sem nunca se entregar, deixou que o jovem o idolatrasse como a um deus.
Mas será um compositor diferente de um escritor, na entrega à sua obra?
Valem a sua vida e a sua obra, mais do que vidas e obras alheias?

Vergílio Ferreira foi sem dúvida o grande escritor do seu tempo: foi o que ultrapassou um neo-realismo meio serôdio, para pensar e escrever uma outra forma de entender a existência, assumindo, sem o reconhecer claramente o nome com que Jean-Paul Sartre já baptizara o novo movimento: Existencialismo.
Mas havia de facto diferenças entre ele, o seu entendimento do mundo, e o superlativo Ego de Sartre, alimentado pela companheira de uma vida, Simone de Beauvoir.
Há na sua escrita uma definição primeira, que exprime logo a essência e o sentido do desdobramento que exige:
"Escrever é ter a companhia do outro de nós que escreve".
Leu bem, e certamente ensinou outros, a ler Fernando Pessoa, cuja consciência do eu e do outro formatou toda uma geração de escritores.
Não se trata apenas de ter "a companhia do outro de nós", o alter-ego que se apossa da mente e da mão que escreve.
Trata-se, seguindo Pessoa, e não o velho Sartre, de ter a consciência disso, num outro patamar que é já de super-ego, e não apenas de um ego que se diz ser enorme.
No seu tempo, e no meio que frequentava, Vergílio Ferreira foi certamente uma voz original. Desabrida, por vezes, o que é bom, fazia-se ouvir melhor mesmo quando se fechava num mais longo e retirado silêncio. Mas apercebemo-nos de que ele, fechado nesse silêncio, não se sentia feliz. Morria aos poucos por "não conseguir sentir". Tinha a ideia, ou tinha mesmo os projecto meio desenvolvido, mas a escrita não progredia, não chegava ao fim com a rapidez ou a intensidade desejada na descrição das acções, dos sentimentos, das personagens.
 Eis como definiu a originalidade:
" Todo o escritor que é original é diferente. Mas nem todo o que é diferente é original. A originalidade vem de dentro para fora. A diferença é ao contrário. A diferença vê-se, a originalidade sente-se. Assim, uma é fácil, a outra é difícil".
Também ele afirmava que " ser inteligente é ser desgraçado", como se retomasse o poema da Ceifeira, de Pessoa: ela era feliz porque era simples, para não dizer mesmo simplória, na sua ignorância de não saber, não pensar, algo que só os inteligentes fazem, e com isso sofrem pela vida fora...
Nesta Conta-Corrente 1, de 1969 a1976, vemos que Vergílio Ferreira em cada novo aniversário, e em cada Novo Ano, sofria com a questão do envelhecer, e do que a velhice, além da morte, podia trazer consigo. Assim o vemos nos seus cinquenta anos (como seria diferente hoje, a sua reacção) e assim o encontro agora, por exemplo, aos sessenta):
" O romance está em crise. A arte está em crise. A cultura está em crise.Por força dos meus sessenta anos, estou em crise. O meu país está em crise. Como posso pensar ainda em escrever romance?" (p.354)
Mas escrever era sua vida verdadeira, entre as aulas, os exames, e a dada altura as convulsões de um Revolução que tantos tinha desejado, e ele também. A sua casa é centro de rodopio, de um Eduardo Lourenço a um Fernando Namora, a um João Palma-Ferreira, etc.
 Na escrita de Vergílio Ferreira também se encontra a questão do sagrado - algo que Sartre e Simone abominariam - mas que torna a obra do nosso autor mais profunda, mais interpelante, pois crescemos todos, num país católico, com os ensinamentos da Bíblia sagrada.
Mas Vergílio, o escritor-pensador, pressente que é na palavra que reside o mistério. É no dizer:
" O mais profundo duma palavra é o que há nela de sagrado. Deus tê-la-á dessacralizado quando com ela criou o mundo. Mas nós sacralizamo-la de novo quando o recriamos com ela."
E de que modo?
Escrevendo...
"Vive a vida o mais intensamente que puderes. Escreve essa intensidade o mais calmamente que puderes. E ela será ainda mais intensa no absoluto do imaginário de quem te lê".
Entenda-se este "calmamente" como sendo a lentidão, a revisão, toda a demora que se se torne necessária para a depuração do que seja excessivo no texto. O excesso não é alimento, é desperdício de alma...
A pressa sempre foi má conselheira, e o mesmo se aplica à escrita.

Encontramos na Conta-Corrente ( que leio agora desde o ano de 1969 e seguintes ) um pouco de tudo o que acontece no país cultural e literário, e sob a sua capa a manifestação dos que se opunham, mais ou menos visivelmente ao regime salazarista. Havia casas, havia cafés, havia círculos para tais encontros, em que se discutia a mudança desejada, naquele tempo muito vivido ainda no sentido do comunismo soviético.
Os anos que vão de 1973 a 1976 são excepcionalmente interessantes para um leitor que queira de facto, pela leitura, assistir aos desenvolvimentos que marcaram, para sempre (?) este Portugal em que agora vivemos.

Os amigos de que Vergílio fala, muitos eram também nossos amigos, e a agitação dos dias, ou das noites, que lhe levavam a casa eram os mesmos que nos traziam aqui, a nossa casa, pois nós já vivíamos nesta casa de hoje nesse tempo, perto da primeira versão da UNL, na Av. da República, e da própria casa de um desses bons amigos, o João Palma Ferreira. Este é dos mais citados, na Conta-Corrente, em matéria de catástrofes que os tempos escondiam: revolução, povo na rua com os comunistas a tomarem conta de tudo, uns ainda soviéticos, outros já maoístas - todos com a tropa à frente, e Portugal, a pátria sem destino, esperando por um desígnio que Mário Soares, pacatão, ainda não definia opondo-se com maior clareza.
Acabou no entanto por fazê-lo....Explicava a Vergílio, o impaciente: "a Democracia dá trabalho...para sossego existe a Ditadura".
 Por muito que me seduzisse a ideia de contar tudo aquilo que também vi, aquilo em que participei, aquilo que recusei e formou a decisão que até hoje mantive de ficar longe da política de corredores baixinhos ainda que de muitas portas que se abrissem, prefiro caminhar agora com o nosso centenário autor para o mês de Dezembro e mais uma actividade de que ele, apesar de desejar o contrário, não prescindia: por amizade, ou dever de presença, de que depois fazia troça:
" 10-Dezembro (sexta). Ontem lá fui ao lançamento do livro da Natália. Muita gente. E implícito nisso, o aplauso à coragem da Natália no combate ao totalitarismo. Mulher de armas, versão actualizada e intelectual da padeira de Aljubarrota contra o invasor estrangeiro. Li hoje o livro lançado. Rasgo, ardor, firmeza, tudo subtilizado em bela invençãopoética. Estive pouco tempo na reunião, porque tinha um jantar marcado (...)Mas no breve encontro vi muita gente. É ocasião de a gente se ver nesta dispersão citadina: os cocktails e os enterros" (p.383).
 Antes tinha dito de si que não era "um homem público ou seja, aquele que se completa no outro e no outro de si. Completo-me de de mim, tanto quanto isso é possível. Ainda hoje me incomoda ver o meu nome nos jornais.A perda da posse de mim.Como os antigos não gostavam de tirar retratos porque receavam perder a alma. Para outros, a posse de si está em reunirem-se à parte pública de si. Sem essa parte pública é que se sentem divididos. Como no mito platónico  do amor" (p.382).
 Tantos, de que ele fala, são esses da necessidade da existência pública, julgando que estarão mais vivos assim, sempere disponíveis, interferindo, do que escolhendo dedicar-se à sua obra.
Mesmo assim Vergílio não se furta a um ou outro convite, jornal, televisão, nem sequer à publicação de este Diário em conta-corrente, de meditação sobre a sua escrita e a dos outros, alguns apanhando forte, como ele se queixa de ter apanhado sempre de "cliques" como as do Papa Gaspar Simões e alguns cujo nome evitarei citar aqui, porque a adjectivação vergiliana é talvez excessiva. Poupo alguma memórias...
 Com Fernando Namora (que foi amigo do meu pai, ainda em Coimbra) Vergílio Ferreira discorria sobre o sentido da vida, e da arte, e do balanço da geração que era a deles: sem renegar heranças, renovadores, ainda assim, fecundos, nos temas, nas forma de narrativa...
Cito, do ano de 1972:
" Esteve aí o Namora, há dias. Como de costume, e insensivelmente, caímos ambos no balanço da nossa geração como quem dá por encerrada a vida. E é isso no fundo o que nos domina: a enviesada certeza de que isto já não é connosco. Estamos fora do jogo, gastámo-nos. E cálido, um apelo à desistência, um gosto de acabar. Não ler, não escrever, gastar o resto de ideias e estupidificarmo-nos. A parte negativa. Mas a morte há-de ser a negação maior. Se a gozássemos em vida? Ser sem arte, abandonarmo-nos ao abandono, à pura passividade? Namora, em todo o caso, parece tranquilo quanto ao dstino da nossa geração. Que a nossa geração foi "fecunda". Que os jovens, só surriada. O que até talvez seja verdade..." (p. 128).

E termino, porque me parece de grande actualidade, neste momento em que vários Partidos se uniram para mandar, fingindo que não sendo Governo não têm contas a dar a um povo que saiu de uma Ditadura para quase entrar noutra, quase sem saber, de uma Europa sem valores e que muito convém àqueles que agora retomam a palavra perdida em nome já ninguém sabe de quê!

 Vergílio, regressa, a tua voz faz falta!
"Vencer o imediatismo da pressão política. Voltar ao romance. Ser eu" (p.201).
E quanto a nós, ainda herdeiros e vivos: regressemos também ao que desejámos ser, erguendo uma voz mais clara: por outras palavras que são as de Vergílio Ferreira, lucidíssimo:
" Cortar com o berreiro público. Voltar à marginalidade das minhas (nossas...) coisas"(p.192).

Agora, em data de centenário a celebrar, o que diria o escritor que nos liceus não é lido, ou se é, é a partir de páginas extraídas ao acaso, sem antes nem depois, que nem alunos nem professores poderão entender? Seria duro, como nos comentários que fez ao nosso medíocre meio literário, quando em França saiu a tradução de Alegria Breve, pela mão de René Bamdé, cujo pseudónimo liteário, Robert Quemserat, já brincava com a questão do quem será ? E foi escândalo! Quem será este, que se atreve - ainda que por desfastio ( esteve preso no Porto e fez várias traduções de alguns que considerou interessantes e marcantes pela novidade dos temas e da prosa) que vem agora com esta Alegria Breve?
Eis o que nos conta Vergílio Ferreira, e que alguns (ainda vivos, como eu ou o Ben Almeida Faria recordaremos com um sorriso, pois é  pura verdade o que Vergílio conta, e aconteceu connosco, tão mais jovens -  mas agora a idade perdoa tudo! ):
"...A tradução é entre nós uma grande credencial. Eis porque todos afanosamente a procuram. Junto da Gallimard, ao que me dizem, há um comité português de leitura (...) que só deixa passar os elementos credenciados. Daí o frenesim por eu ter escapado às malhas. Bons deuses, lá escapei, aliás por um golpe de sorte. Bamdé, preso, entreteve-se a traduzir-me na cadeia. Deste modo saltei a barreira portuguesa e passei logo à francesa. E aí o livro teve o visto" (p.29).
Eu tivera também a sorte de saltar a barreira, pela mão de Bamdé, com Pas Seulement la Haine, em 1968. Mas já os meus sketches de teatro, que depois da revolução de Abril publiquei com o título de Teatro Aberto, na Ática, não tiveram igual sorte.
Madame Benmussa, que dirigia a colecção de teatro juvenil, comunicou-me, certa vez quando eu estava ainda em Paris, (os originais do teatro estavam em português) que esse tal comité os tinha chumbado. Para eles (quem seriam? ainda hoje não sei) já bastava que tivesse saído um romance sem eles darem por isso...
 Não me engano se disser que agora, em 2016, passado cem anos sobre o nascimento de um grande escritor - se vive em Portugal uma igual, mais pequena (porque em Portugal tudo é sempre mais pequeno, mas não menos nocivo) instituição, ou tentativa de instituição de pequenos comités filtrantes, de tiranetes da ignorância, algo que advém de uma péssima formação literária, filosófica, cultural, que Vergílio Ferreira, se fosse ainda vivo, muito combateria numa sua próxima Conta-Corrente.
Se ele, na verdade, ao sentir-se envelhecer, apenas com os seus sessenta anos ( o que é isso para nós, os de setenta ou mesmo oitenta ou mais anos) sofria quase em cada página por uma secura de alma que o impedia de chegar à ideia ou ao projecto, ainda que incipiente, de um novo romance que o absorvesse por completo - porque o mundo à sua volta mudara, perdera valores, se tinha fragmentado e um mal constante o atormentava, o que diria ele de ainda mais severo do que por exemplo este desabafo, sobre aquilo em que a sua Escola se tornara?
" No liceu, a balbúrdia. Trelaxamento total nos costumes. Fornica-se e defeca-se ao ar livre. Miúdas contratam a fornicação a X a bandeirada. No meu liceu as 'capitoas' andam desorientadas. Mas toda a gente 'progressista' o anda (excepto talvez os comunas) : a vida não vem nos livros de propaganda" (p.223).
Vergílio admirava-se que alguém como um Eduardo Lourenço pudesse afirmar, lá por casa, que o imperialismo soviético podia ser uma solução, como o Império de Roma tinha sido outrora, com a ordem no mundo....e Vergílio perplexo interrogava-se: o comunismo trouxe a fome à Rússia, aos países que dominou, a China fez o mesmo, de que servirá a fome e como se alimentarão estes nossos comunistas da utopia de agora?
Nunca escondeu, nem dos piores nem dos melhores amigos que não era e não seria nunca comunista. Desafiado por vezes para algum cargo, pelo PS, também teve a coragem de recusar, pois escolhera um caminho que não permitia distracção, nem cedências a pequenas ou a grandes vaidades, o da Escrita:
" Por favor. Já disse. Não me chateiem mais com isso. No tempo do fascismo os escritores escreviam, porque tinham sossego e podiam dizer mal. Hoje vivem em alarme com medo do outro totalitarismo e não podem dizer mal nem bem. Tudo isto acabará, se a democracia enfim começar" (p.380).
 Felizmente, com a imensidão de um povo resiliente atrás de Mário Soares, a Democracia começou.
Veremos agora, com a Europa dos grandes e dos pequenos se o sonho não se desfaz!




  

Thursday, May 05, 2016

Alberto Pimenta, NÃO CHEGA

Difícil é parar de ler estes poemas.
Circulam no ondear da capa, que Alberto Pimenta concebeu para o seu ilustrador. Rodam, na roda da vida, do seu falar a meia voz.
Reli este, poderia ser outro, para colocar aqui.
Ele diz não chega, Neste título (p.79) e não chega mesmo, porque todos precisamos de mais, de muito mais, pela sua mão, pelo seu génio, que o transporta e o traz até nós.
Humildes, lemos. Numa altura da vida em que outros se atabalhoam na corrida ao sucesso, eis este poeta aqui perto de nós, falando.
É imperioso escutar.
NÃO CHEGA
Nuvens espessas,
parecem pesadas como chumbo.
O vento empurra-as
para cá.

Haverá
quem ainda saiba
e possa desviá-las?
E queira?

- Mas tu próprio queres?

O querer
foi a primeira coisa
a esmorecer em mim.

-Então
por que escreves?

Não adianta.

-Não adianta o quê?

-Não adianta
 tentar perceber.
....
Pelo meio o poeta fractura o caminho, filosofante, da interrogação, do tentar perceber.
"o querer que esmoreceu" nele é o mesmo antigo impulso, de uma energia tão especial, que tínhamos outrora e com o tempo se foi perdendo, como se foi perdendo de alguma forma no país, no momento que vivemos.
E o poeta então decide brincar connosco: é uma questão de ritmo, melhor dizendo de arritimia, conta os "arithmos" (p.80) o pulsar de tantas inquietações: das que fazem viver e das que fazem morrer...numa mesma paixão, a de ser, viver, intensamente escrever. Escrever é resistir.
Por ser tão longo o meu convívio com os poemas de Alberto Pimenta sem nunca ter a pretensão de os poder analisar, fazer a recensão crítica dos sábios, logo ao primeiro verso, e entre os versos,  me identifico e revivo o que ele esteja vivendo. Serei boa leitora, porque tão fiel, serei sem dúvida uma péssima crítica: não procuro no que escreve o requintado estilo, vou directa ao pulsar de um coração que ali está a bater, vou procurar a voz que fala baixo, e quando fôr preciso também gritará, as dores múltiplas nossas, e do mundo.
O desvio que se segue, ao puxar para o verso o um, a unidade, e o dois, que também pode ser um ou não ser nada - pois o  poema agora já segue a duas vozes, vem confirmar que a matemática só por si não chega, e fica justificado, com ironia, o título dado ao poema.
Poetas não são contabilistas, e os números da alma não se contam somando ou diminuindo, todo o contar restringe, assim esmorece o "querer", o impulso inicial, a alma do poeta exige ampliação...um ar que ainda se respire livremente.



Tuesday, May 03, 2016

Alberto Pimenta, fala de novo a meia-voz....


O que há de tão necessário, de tão vital, nas palavras ditas, para se  entender que, ainda que a meia-voz, o dizer das palavras é sempre  redenção ? E sempre afirmação de resistência em conformidade  ou não com o decurso da vida?
Para quem as articula, diz ou escreve, para quem as ouve, ou lê e pode, ao repetir, sentir que vive  e a sua vida, ainda que breve, é uma vida plena? Entre os poetas há os que morrem cedo, há os que morrem tarde, há os que nunca morrem...
Empobrecemos, se nos faltam as palavras, definhamos até que o mundo à nossa volta perca sentido de vez.
A um poeta, subtrair a palavra é como tirar-lhe o pão, a água, fazê-lo morrer à míngua.
E aqui temos o poeta das palavras, ora gritadas ora ditas a meia-voz, num discurso todo ele de interpelação, de espanto ou interrogação, ALBERTO PIMENTA, o resistente, o que nunca deixou que a voz lhe fosse abafada, com um novo livro: 
NOVE FABULO, o MEA VOX. DE NOVO FALO, A MEIA VOZ.
ed. pianola 12, 2016
E já à venda.
São mais de uma centena de páginas de longos poemas, ao mesmo tempo subtis e tão certeiros, nos motivos que escolhem, e que  à nossa e às novas geração tanto têm a dizer. Em primeiro lugar que a sabedoria cabe toda num verso, como cabe num grito, num tropeção, num último esforço que se faça.
A poesia é esforço e é desforço.
Da vida que passa, num tempo que não cessa, o tempo, esse grande interlocutor (oculto, mas sempre a formar-se e deformar-nos, o tempo que não se cala, e que vemos passar).
ANTELOGIUM
Em ti vejo o tempo
continuamente formar-se
e em mim
vejo-o passar.

Quando me dás do teu tempo 
dás-me um pouco de mim:
o meu detém-se
....
Como forma 
que o tempo ainda forma
e dá forma ao tempo
conheço-te a ti agora
no declínio da minha vida.

Não sei que forças
te trouxeram até mim, 
onde vês
o que em ti continua a nascer
em mim morrer
sem esperança.
....
Segue o poema,  numa tão explícita declaração de amor, um amor feito de tempo, o tempo que se dá ao outro, que dele viverá, enquanto os deuses assim o consentirem... que só resta ao leitor continuar a ler, em voz baixa, com respeito, pois que todos nós passaremos por esse anunciado tempo que chegará :"
Como sempre,
tudo chegará 
na ocasião de chegar.
Sem dúvida
tudo chegará:
o tempo
que em ti há-de continuar
a formar-se,
que em mim
irrevogavelmente,
está a acabar.
(p.10)

A lentidão do discurso, respirando entre uma e outra linha, pode ser de algum cansaço, mas resulta também da reflexão que o tempo fez amadurecer, como acontece ao fruto que na poesia de Goethe  amadurece, essa é a reflexão que a todos nós alimenta: 
do pulsar da vida, que no tempo dado por outros ao poeta lhe é dado e também a nós  é dado, pelo poema, aqui nesta meia voz que tudo desperta, nos sentidos, e no desejo de um corpo e de uma alma de momentos maiores.
Falei em delicada e comovente declaração de amor: a alguém que deu do seu tempo, e é feito de tempo  o amor  aceite e concedido.
Mas há sempre mais do que um primeiro movimento, na poesia de Alberto Pimenta.
Leio desde sempre as suas obras, recordo, das que vi, as suas performances de revolta e humor subtil, tão erudito que por vezes agride, acertando em cheio na nossa silenciosa cobardia, na nossa ignorância também, que vem de longe. 
Nesta obra temos de tudo, como num balanço de vida: foi longa, foi boa nos excessos e nas delicadezas, e assim continuará, pois a voz deste poeta não emudece a menos que o amordacem, e esse tempo passou. Contudo, é do tempo que ele deseja falar. Um tempo que move e se move no universo, como em PERCEBO, onde lemos claramente " digo que o tempo foge, / mas está sempre presente: 
esse é o resumo"(p.11)
O tempo move-se, é por certo ele que curva o universo e a nossa vida, que desejaríamos perene, é ele o tempo da fuga :
"'move-se através do universo,
nenhum mortal o vê, mas ele vê-os a todos.'"
É de um hino órfico." (p.12)
De Alberto Pimenta como não evocar a sua enorme cultura, a sua erudição, parte da sua substância mais secreta, mais íntima, e que nos devolve ao mistério que a ele o alimenta, como eterno estudioso que é do universo, do homem, e do ser eterno no tempo?
Leu Heidegger, como leu os clássicos.
Devorador de sapiências alheias distribui, generoso, a sua, que é feita de carne e osso, a apetência de vida que nunca renegou. Desejo não é pecado...
Em MISTERIOSO o discurso poético vai embalado numa irreverência quase surrealista, Dali não passa neste poema por acaso, de mistura com ovos que estão a ser chocados, e com o livro de Bataille que partilha o mesmo lugar na estante e cuja referência lhe provoca" uma levíssima e gostosa erecção/ como há muito não sentia" (p.21).
O corpo vive, onde vive a palavra, onde vive a memória, do passado e do presente , que são barreiras do tempo.
De cada poema faz Alberto Pimenta matéria de reflexão: olhar o mundo, dialogar pelo meio com o alter-ego de CARTOON, ou com a crise do desemprego, em QUEM? numa voz que se declara irónica, e até mesmo cruel, se lhe surge a suspeita de algum destino imposto.
Em ESPELHO NOSSO? todos, ou pelo menos, muitos de nós, da mesma geração, em fase terminal, ainda que vivos sabemos bem que nos querem de preferência mortos, ou pelo menos mal enterrados - como na conhecida anedota - todos, dizia eu, nos podemos ver ao espelho e não reconhecer o rosto que nos é devolvido:
"olho para o espelho / e sai de lá a cara doutro..."(p.33)
Alberto exprime o que o tempo nos fez: eu vejo de manhã ao espelho, com espanto, a cara da minha mãe, por vezes da minha avó. Não me dá medo,ao contrário do que ele diz, evocando uma cena de Ovídio, nas Metamorfoses, e o espelho de água de Narciso...Porque ele, poeta, transforma no seu verso a realidade crua que na mulher, mais simples, é desgosto de velha a ver-se envelhecer. 
Com uma pacatez de riso quase sardónico, salta no verso do espelho para a polícia: é a polícia que mete medo, não o reflexo do espelho:
"O medo que isso faz
já o conheço portanto:
não vem do espelho,
vem da polícia". (p.34)
E de novo desconstrói  o poema dialogando com um outro que ajuda a aprofundar a questão. 
E a questão é bem simples, como no espelho de Alice, é uma questão de tempo, o tempo dentro do espelho, o tempo da natureza, quando já tudo se fez tarde!
Não cabe neste modesto espaço de um post tudo o que haveria a dizer, e não tenho essa pretensão.
Pelas páginas deste livro passam filósofos, compositores, momentos grandes, momentos de quotidianos só na aparência menores (há que reler mais vezes) mas desejo terminar deixando ao leitor uma outra faceta ( obra-prima) deste poeta bem amado, em FOLIA.
A Canção Ébria, de Nietzsche que ele oferece na sua tradução, como prenda de algum aniversário de que se terá esquecido:
Ó homem! Pensa!
Que diz a meia-noite imensa?
Eu dormia, dormia...
Despertei dum sonho que me tinha suspenso:
O mundo é profundo,
Mais que o dia pensa.
A sua dôr é imensa...
O prazer...mais que a dôr ainda.
Diz a Dôr: desaparece!
Mas o prazer quer eternidade...
...Quer funda, funda, eternidade.
(p.72)
Alberto Pimenta, com Nietzsche, nunca falou tão alto!



  




Tuesday, April 26, 2016

O quotidiano a secar em verso

Ora bem, estava eu a ler ( a continuar) Orhan Pamuk, pois nunca o que se diga dele fica dito para sempre, e eu ainda disse pouco, quando um amigo me envia um livro de uma sua autora e pede uma opinião.
Peguei no livro li, terei de reler, mas logo à partida se foi formando em mim não uma opinião, mas uma reacção àquela escrita, de uma jovem, nascida em 1967, da idade dos meus filhos - o que para mim é jovem, agora que vejo tudo com a distância dos meus 76 anos. Não é o seu primeiro livro, podemos dizer que já tem obra, mas eu nunca tinha lido nada, e este livro de poemas causou-me a impressão de que podia muito bem ser o primeiro.
Ela define-se como poeta, e diz na badana do livro:
" Se tivesse de escolher um poeta, hoje, escolhia três: Camões, Whitman, Herberto Helder". São boas escolhas. Melhor, são excelentes. Significam que lê e gosta de ler, de Camões a H.Helder, do clássico ao que no seu momento (A Colher na Boca) foi o mais subversivo, e de contínuo aprofundamento, ou ampliação, de um imaginário sem igual.
Mas eu descubro outros, americanos, e outros ainda, clássicos do oriente  e contemporâneos, no discurso poético, com ritmo quase de rap, utilização por vezes brusca, ou mesmo rude , da linguagem. E descubro ainda outros, de grande elevação poética e mística, laicizada pela autora. Que não os imita, os interpela.
Esta poesia - preferia quase chamar narrativa poética, por ciclos,
surpreende, porque mesmo na escrita de quotidianos, como os de Adília Lopes, há  uma ironia distanciada, mas não há brusquidão.
E no caso de  Eugénia, se a poesia fosse assinada por um pseudónimo masculino, não me espantaria. A linguagem  é seca, como tantas vezes a dos prosadores ou poetas masculinos. Seca , ou melhor, despida de artifício, mas intensa. Intensa mas algo displicente, o que esconde o melhor do seu sentido de humor: ela pega nas palavras, nos versos, no todo ou em parte da narrativa poética , como quem pega nas roupas que lavou ( cabe à mulher, nas suas funções alquímicas, de transformação, é o que se vê numa das belas gravuras da Atalanta Fugiens, lavar a roupa...matéria a ser sublimada...) e pronto, põe esse quotidiano que é o seu a "secar em verso", na corda da sua (e nossa) imaginação.
Que maneira de lidar com a poesia...dirão alguns? Mas é uma óptima, para não dizer perfeita maneira: é íntima, como toda a poesia que se impõe, ao modo rilkeano (nas cartas a um jovem poeta, a poesia "deve nascer da mais profunda solidão....").
Haverá algo de mais solitário que a função da mulher, lavando roupa? Seja no rio, ainda que possa cantar alegrias ou lamentos, seja fervendo ao lume das secretas cavernas da alma onde se exerce a depuração necessária?
Falo pois de Eugénia de Vasconcellos, e do seu
 O QUOTIDIANO A SECAR EM VERSO, ed. Guerra e Paz, 2016.
"porque é preciso virar a página" diz ela, como epígrafe.
 Na verdade, estão eivados de profundo lirismo religioso - não digo místico, não são êxtases místicos, apesar de algumas referências, não se trata aqui de unificação a um Deus (seja ele qual fôr) que se apossa de um corpo, como no caso das freiras de Loudun, mas de um virar da tal página: falemos do corpo sim, mas da sua natureza já divina de origem, criado à imagem e semelhança..., falemos do Homem, e falemos da Mulher, do re-conhecimento que ela exige.
No capítulo da METAFÍSICA DO AMOR (p.45) logo no início, Amor Fica temos a definição de um amor que seria feito para permanecer, no encontro dos corpos, do desejo, da fusão mais completa.
Seria isso o amor, se tal fosse possível. A narrativa poética é iniciada com a descrição de um velho muito alto e muito velho (Deus? Salomão, o sábio do Cântico dos Cânticos?) que puxando com força a narradora com um nó de limos (podia ainda ser Poseidon, que também amou...) lhe começou a contar:
Dois amantes encontram-se,
a clareza do incêndio acorda
o esplendor dos corpos e os cânticos
antigos que dormem no esplendor dos corpos,
o esplendor dos corpos é
a confusão das coxas, a distracção dos dedos, o sossego dos olhos.
É isso a eternidade:
dois amantes encontram-se.
E o despudor do lirismo até ao rubor de Dionísio.
Assim, pedi ao meu coração que dissesse ao Amor:
Amor, fica,
e se a morte vier, ela que entre pelas portas do mar.
Porque a eternidade é isto.

Paremos um pouco:
Há muito de Herberto Helder, nesta clareza do incêndio - tudo na obra de Helder se incendeia, desde os corpos às palavras que os dizem, mas também a expressão de um puro anseio de eternidade que nunca é concedido aos amantes. A Paixão que o desejo alimenta logo  se extingue.
E o Amor não fica: " Desconhecido de si mesmo o Amor partiu".
Permanece o anseio:
"Se vires o Amor, diz-lhe: Amor fica".

Esta página, que nos parece que se poderia ter virado, foi virada, mas no discurso do Homem velho o fim contraria a definição do início. Os Amantes encontram-se, ardem no fogo que os queima, e com eles a paixão que os uniu.
Ficam as cinzas, é esta a lição do Velho.
Também Rilke dissera, nos CADERNOS DE MALTE LAURIDS BRIGGE, a propósito da Portuguesa, emblema de Amor Eterno, que amar é melhor que ser amado. Não há, na verdade, nenhum Amor eterno.
Em poemas como Vamos dançar, Amor, esta Noite (p.29) do ciclo O QUOTIDIANO A SECAR EM VERSO, a linguagem será bem diferente, a roçar o quotidiano mais prosaico.
Mas não é a vida a prosa do que se vive, a prosa do que se diz, no meio do tanto que ficará por dizer? Não foge ao cliché, se tal fôr necessário, para este longo poema de exclamações vingativas, ao modo bd, como observa, ou de telenovela, digo eu, ou seja : o que está na moda "o que está a dar..." e por aí mais circula. Eugénia é boa observadora...
Este ciclo, que dá o título ao livro, não é contudo, no conjunto do livro, e na minha opinião (vale o que vale) o que mais define os temas da poeta.
É contudo muito desafiante, e embora eu não o transcreva no post que tem limitação de espaço, peço ao leitor que não deixe de ler.
Salta graficamente aos nossos olhos uma outra realidade, de um quotidiano banal, por vezes brutal, e que a autora, magistralmente, ironicamente, exprime numa secura de observação muito sua.
Se adiante reflectirá sobre o Amor que fica, aqui corre à facada, como num fado menor, o Amor que traíu.
Encontro nesta obra tantas referências que são mais do meu tempo, e que a jovem (para mim) autora recupera...
Agora é Mercedes Sosa, com os grandes da bossa nova, que podemos puxar do Youtube vezes sem conta...(p.69 )
E assim vai andando, desde  Dueto com Mercedes Sosa, às Baladas Hebraicas de Else Lasker-Schueller, em NÃO FAZ MEU CORAÇÃO FRONTEIRA COM O TEU?
Toda a leitura feita é transposta nos temas mais reflectidos e dados (postos a secar) a uma nova e actualizada releitura.
Um livro que o Amor atravessa, interpelando.
Vivido, sonhado, desejado, "despejado"...enfim, um livro bom de se ler!







Thursday, April 21, 2016

Orhan Pamuk, sempre ele....

Recebo agora o seu livro, cujo título me atraiu:
A STRANGENESS In MY MIND, ed. de 2015, na tradução inglesa.
Esta é a estranheza que também sinto, será como foi a de qualuer dos meus escritores preferidos, Proust, por exemplo, entre outros, de escrita demorada, fruto de uma atenção ao pormenor que se destaca nos meio de um ambiente mais alargado da família e suas rotinas, ou da sociedade e sua cultura e hábitos, que vão do religioso ao alimentar...Em cada pormenor a identidade ou a diferença, intransponível, quem sabe se talvez mais ainda do que outrora.
A edição da Faber and Faber é sumptuosa, um pouco pesada para mim, mas lerei devagar, e sobre uma cómoda almofada.
Estranheza é o que sentimos, desde logo perante a decisão de escrever, ou continuar a escrever, quando parece que já dissemos tudo, ou outros foram dizendo por nós.
Este impulso que nos leva a olhar de novo à nossa volta e a anotar o que sentimos, ou pensamos, e pode ir da tranquila indiferença a uma revolta mais calada, mais surda, mas a dado momento precisando de ser dita. Quando pelo meio se intercala uma relação de amor quase impossível surge o contraste civilizacional, e a estranheza aumenta: num mundo já tão aberto, tão global, como podem existir, (e existem, ficam mesmo a descoberto) nichos de tão grande fechamento...e podem ser felizes, no sentido mais geral de ficar a viver uma vida agradável, onde pelo menos alguma liberdade e respeito mútuo permitam chegar ao fim da vida no seio de um convívio de espírito mais aberto?
Pamuk vive entre duas culturas, escreve na estranheza ou na admiração de ambas, pois em ambas se encontram valores respeitáveis. A estranheza é contudo grande: por que razão não se encontram, em algum ponto central de conhecimento e reconhecimento? Não somos todos humanos, nascidos do mesmo par primordial? Sentindo as mesmas paixões , quando há paixão pelo meio?
Como já acontecia noutros dos seus romances, ele parte de um episódio, só aparentemente pequeno, insólito, como o de amar a irmã mais nova nascida numa família tradicional de uma pequena localidade turca, ter esperado alguns anos por ela, escrevendo-lhe cartas de amor, e de regresso combinar então que fugiriam juntos, ajudados por um primo, indo viver para Istanbul, para eles o mundo. O estranhamento começa quando o jovem herói, de 25 anos, descobre, ao ver o rosto da amada, que ela não é a irmã mais nova, a quem escrevera tanto o seu amor e saudade, mas a mais velha, com quem teria mesmo de casar agora, por uma questão de honra.
Estão lançados os dados : foi trapaça do pai (as filhas mais velhas tinham de sair de casa antes das mais novas, para casar), ou o destino? E o que sucederá daqui em diante?
Mevlut é o jovem que foi primeiro pastor de ovelhas, na sua terra, e só mais tarde viajou para Istanbul, onde tinha já o pai e o resto da família, e onde agora  vive com a mulher, ganhando a vida como vendedor ambulante.
Ao longo dos vinte e cinco anos que foram passando, Istanbul mudou, e Pamuk, através de pormenores e situações que nos servem de exemplo, por via dos seus heróis, de que Mevlut é o principal, evoca os grandes contrastes que persistem, em pleno século XX: entre uma sociedade ainda provincial e mesmo rural nos costumes e medos, e uma sociedade que se desejou laica e progressista, moldando-se aos costumes alheios e dentro desse desejo tornando-se ainda mais arcaica, e já carregada dos vícios dos outros, da sociedade moderna, bem assimilada e distorcendo o sonho de vida de um simples homem de família, como Mevlut.
Este será o herói da "estranheza no espírito" do próprio Pamuk: de um mundo para o outro, em apenas 25 anos, como ele diz, numa capital que fora para ele, quando jovem, o mundo.
Mas o romance continua, e devemos seguir com ele até ao fim.
Entre o particular e o universal, aí se jogam de novo os destinos da vida.

Thursday, April 07, 2016

Manuel Alegre, do Bairro Ocidental às outras Memórias

Em 2015 Manuel Alegre publicou os seus poemas do Bairro Ocidental, o bairro que na verdade é o nosso país, que ele sempre celebrou nos seus versos, "o poema onde respira o teu país", país de todos nós, a que já nem sabemos se devemos ainda chamar Pátria...
"entre nós e o futuro há arame farpado
levaram o que havia além de nós"
A esta obra aludi já num post anterior.
Passam por este conjunto de textos evocação de poemas, cidades, intervenções políticas, descobertas, e as sempre novas sensações de quando se está a escrever. Ao escrever tudo em nós se renova...
Escrever é a porta aberta de um futuro que se deseja antever, (rever) ainda que criticando.
Isto conduz-me ao seu novo livro, agora lançado noutra bela edição da D.Quixote: UMA OUTRA MEMÓRIA.
Aqui se enumeram toas as leituras fundadoras, todas as memórias que a juventude nos deixa, ao compasso das leituras feitas, dos encontros tidos, das amizades permanentes que ao longo do tempo não se perdem.
Das Canções de Dom Dinis às considerações teóricas de um George Steiner que para mim foi um dos grandes condutores do pensamento mítico-literário do século passado ( é verdade, já estamos noutro século, a relação com o mundo, com a escrita, mudou por vezes tanto que mal se reconhece...) é tão vasta a marca das leituras feitas por Manuel, que nos devia sempre acompanhar como lembrete...não escreve bem quem não leu, quem não lê - a abordagem ligeira de manuais não pode substituir-se ao encontro de um inteiro poema de Camões, de Pessoa, de Sophia...para já não falar de todos os que pelo mundo fora se abriram e abriram os fundos espaços da palavra poética, dita, redita, afirmada ou negada.
"Hoje, como sempre, poesia é liberdade".
Nestas memórias Manuel Alegre responde à pergunta que muitas vezes lhe fazem: como conciliou poesia e luta constante pela liberdade, neste caso política, de pensamento e expressão, num país
fechado numa ditadura de que não se via ainda o fim?
Ele responde remetendo para os poemas de PRAÇA DA CANÇÃO - que foi bandeira de jovens e velhos durante anos e agora de novo reeditado, sem perder nada da sua dimensão universal: as ditaduras continuam, a canção evoca as guerras que ainda hoje se perpetuam, ainda que noutros territórios, e na verdade, por entre mortos e vivos o que sobrou foi isto: o poema "que rima com a vida".
Misturam-se deste modo, nestas memórias, pequenos apontamentos que o momento, a paisagem, o canto de um melro atrevido na colina de Santana, com a evocação de Camões na Canção IX:
Assim vivo; e se alguém te perguntasse
Canção, como não morro
Podes-lhe responder que porque morro.
 Eis a resposta: o poema entre a morte e a vida, o poema que proporciona ao poeta a sua única e perpétua saída.
Assim viveu sempre, desde que eu mesma me lembro, Manuel Alegre, combatente e poeta.
Partilho com ele a admiração por Sophia: li pela primeira vez em Coimbra, o seu livro CORAL, que abriu a enorme lista de todos os outros que fui comprando e lendo.
Conheci-a melhor nos Verões da Granja, de que fugi mal pude, eu que era tão algarvia, acabando por atrair várias famílias granjolas também para o Algarve! O mesmo médico amigo, em Lisboa, nos tratava a ambas de doenças respiratórias....mas ela não parava de fumar, o seu fumo já era a nuvem de poesia que a envolvia com elegância e naturalidade.Manuel, amigo íntimo, esteve sempre presente, como nos conta neste livro, a mim a vida levou-me para outras paragens, e já não a vi no fim de vida.
Leio a obra, evoco os nosso encontros.
Vivi em Coimbra dos 13 aos 18 anos e muitos dos encontros que Manuel Alegre refere, foram em parte meus: Miguel Torga, Paulo Quintela, por via do Teatro Académico, o melhor da minha juventude...entre o TEUC, do clássico grego e o moderno do CITAC.
O palco permite uma liberdade que sentimos como absoluta, embora seja passageira...mas fica a boa memória, e o impulso de sempre...
E assim por diante, não vou repetir as referências a Natália Correia, com quem convivi de perto (apresentei-lhe o poeta e pintor Henri Michaux, por ocasião de uma exposição dos seus quadros na Galeria São Mamede)  e a todos os que se lhe seguem, que Manuel evoca, todos referência do nosso mundo intelectual e que fazem parte do nosso património de cultura e liberdade.
Nestas memórias recupera ainda intervenções de carácter político: reflexões sobre o mundo, a Europa que já não é a que escolhemos, ou sonhámos, mas que é necessário ajudar a que mude, pois se as utopias são difíceis de concretizar não deixam por isso de ser menos importantes como desenho ou desejo de futuro!
Que a voz do poeta não se cale, e que o seu pensamento aberto e livre não ceda, como nunca cedeu, ao que é fácil, pois da facilidade nada nasce que nos amplie e justifique a vida!





Wednesday, March 30, 2016

Ler mais

Volto a ler o livro de Comte-Sponville sobre a Felicidade:
Le bonheur, désespérément.
Filosofamos, diz ele, porque sofremos.
Não sei se concordo: filosofamos porque pensamos, o pensamento torna-nos exigentes, e não necessariamente sofredores!Gosto do modo como termina o livro, recuperando Spinoza:
" a beatitude (leia-se a felicidade) não é o prémio da virtude, mas sim a virtude ela mesma..."
Caímos, afinal na Ética.
E sobre a Ética, o sentido moral da vida, em cada momento, desafio, tentação, haveria tanto a dizer.
Nunca estaremos à altura dessa exigência rara que nos é colocada ao longo da vida, nunca seremos plenamente merecedores de uma tal beatitude.
Podemos praticar esta ou aquela religião, respeitar este ou aquele ou mesmo todos os dogmas, não é na fé, (um dom que nada explica e por isso é aceite sem mais) mas sim no comportamento, na Ética, no respeito que a Moral exige - amar o outro como a si mesmo - que a felicidade pode ser encontrada.
Felicidade no sentido de que se cumpriu a vida, no que a vida exigiu e permitiu.

Ouvimos, ao crescer, que todo o homem nasce livre e com natural aspiração a ser feliz.
Mas o que vemos, ao envelhecer, é bem tristemente diferente...
Num mundo em convulsão nem todos nascem livres, e quanto a ser felizes...está tudo dito.
Talvez por isso o filósofo tenha sentido a necessidade de lembrar e discutir o conceito de felicidade, desde Platão, (relendo o BANQUETE) até aos nossos dias...
Em Platão encontramos claramente, no seu mito do Andrógino, a pulsão da busca do Outro, que permitirá então o ser feliz, por se ter recuperado a completude primordial perdida.
Comte-Sponville desenvolve as ideias de desejo e de esperança, no caminhar para tal felicidade.
Mas mesmo que não se atinja, são o desejo e a esperança que ajudam no caminhar.


Thursday, March 24, 2016

António Carlos Cortez, Animais Feridos


Animais Feridos

Primeira interrogação: de que nos vai falar este poeta? De um tempo cruel em que nenhum ser vivo está inteiro, completo e feliz no seu corpo e na sua alma?
De que toda a espécie humana se forma e deforma hoje em dia numa ferida rasgada, que ela mesma rasgou e não tem cura?
Falemos de animais, como Lautréamont falava da sua pulsão erótica pelo tubarão fêmea. Mas nessa violência primitiva, selvagem por momentos, o poeta sabia que o desejo o transportaria para um outro nível, o que ele ambicionava, da sua criatividade: a abismal fusão com os elementos fundadores, primordiais, de que Gaston Bachelard nos deu conta em muitos dos seus ensaios.
Estas feridas arquetípicas saram, e salvam, devolvem o ser à sua límpida consciência de existir.
Escrevi noutro post àcerca do mais recente livro de poesia de Gastão Cruz, poeta  que trago aqui por saber que A. Cortez o admira e certamente terá lido Óxido, de que me ocorre agora uma estrofe:
de cada vez se torna mais ardente / até ser casa ou roupa ou outra pele / que fere o corpo e finalmente o veste / do nome que é o dele....
Arrumo sempre mal os meus livros, e acontece que ao lado deste último de Gastão se encontrava um anterior, de 1990, de título já muito sugestivo: As Leis do Caos.
Ao longo de uma vida de permanente entrega à poesia, seus segredos, seus ritmos de bater do coração, descubro de repente (como na obra dos alquimistas) que do Caos se forma a Ordem  como nas Doze Chaves da Filosofia, de Basílio Valentino.
Mas não seria preciso ir tão longe: na epígrafe com que Gastão abre o livro, a citação de Eugene O'Neill, no século XX exprime a mesma ideia:
I see life as a gorgeously-ironical, beautifully- indifferent, splendidly suffering bit of chaos (1923).
O Caos é belo porque da sua indistinção, a seu tempo, a Ordem (poética) surgirá.
Em Noite interpel um poema de Baudelaire, o Mestre de todos nós, ainda hoje: Ah que le monde est grand à la clarté des lampes!
Gastão não quer perder a  lucidez  objectiva ( se tal coisa existe, na Arte) com que se definiram os Poetas da chamada POESIA 61.
Mas de verdade é a luz que torna o mundo grande, é a luz, ainda que apenas das lâmpadas acesas na escuridão do quarto, que amplia até ao estertor do infinito os sentimentos, as emoções, as pulsões mais ocultas do desejo.
Na escuridão, como no caos, a luz, a ordem que permite soltar "os leões do sol".
Há neste poema, Noite, um imaginário animal que não passa desapercebido pela sua dimensão simbólica: os leões do sol (é sabido que são o emblema solar da alquimia, por excelência), e a "grande cobra" que figura o "corpo do mundo" que na verdade só a luz poderá redimir da morte exposta.
Inspirando-se em KEATS, Sobre a Morte, já mesmo a fechar o livro, escreve o poeta:
Como é estranho que o homem, sobre a terra perdido / e levando uma vida de dor, o torvo atalho / não rejeite, nem ouse entender que acordar / é do seu caos futuro o único sentido.
Não insisto, deixo ao futuro leitor o que ele mesmo descubra, neste sentido oculto de um caos revelador.

Mas chegou o momento de voltar às páginas de António Carlos Cortez em Animais Feridos.
Comecemos logo pelo primeiro poema Náufragos, em que já na leitura se descobre um ritmo de soneto (os quatorze versos ao modo shakespeareano), um embalar das águas em que os mortos ainda assim parecem existir. A sua vida é isso: movimento.
A poesia de António, na sua harmonia quase obssessivamente musical, contém e contraria uma dôr (uma ferida) que se anuncia e se expõe como se nunca mais fosse vencida.
 De novo aqui os elementos nos envolvem: as águas em que nada se reflecte já; a pedra do olhar; a luz, ainda que negra, ou negra por maioria de razão; o fogo com que se incendiaram as estradas ( os caminhos possíveis e impossíveis).
Mas quando menos se espera- não estaria tudo dito? O poeta retoma a sua palavra para concluir sobre o que aprendeu, pelo caminho, e através do seu naufrágio previamente anunciado - "a vida é afinal /soma de perdas e o mundo / coração de pedra lançado /ao fogo que se vê de longe".
Na treva que envolve um mundo "só de ferro", mesmo assim se alude num último verso a um "cristal que é chama", não desistindo deste jogo de opostos que serão a substância da escrita que a si mesma se impõe o continuar...
Abre-se ao mundo.
Curiosamente, é neste livro de António Cortez que reencontro em parte a expressa doutrina, nem sempre respeitada, dos poetas do grupo de 61.
O olhar que se quer descritivo, objectivo, desenhando, como num mapa de cuidadosa minúcia, os momentos e os lugares. Não irei desfiar os títulos, já de si indicativos, nem muitos dos versos mais sugestivos deste ponto de vista. O leitor fará isso por mim.
Há uma dimensão abrangente, de cariz social, por vezes talvez mais do que poética: a descrição de um bairro, de um bar, evocação de  um pintor, de cidades que se viveram, de um rio como o nosso, que já deixou de ser o das perplexas interpelações de um Fernando Pessoa, e há também, como já em obras anteriores a explicitação que nada oculta, e mal seria se o fizesse, de um conjunto de leituras que me evocam um T.S.Eliott, o da Waste Land, para mim e para os do meu tempo, poeta tão erudito, tão directo e marcante, não descurando de indicar as leituras que conduzem, tantas vezes, o escondido fio do discurso.
Reconheço em António Cortez, neste como já em obras anteriores, uma cultura estruturada que não é comum nos tempos que correm, uma intensidade e uma voz genuína, na sua força, e uma  originalidade que não desdenha de outras vozes, outros antigos começos e recomeços, como quando escreve, também ele, sobre o caos : "Recomeçar / talvez um outro caos" (p.51).
Esta obra tem um título que remete para memórias antigas, por vezes, ou emoções recentes, mas retidas, por razões que só ao poeta dizem respeito. O que impele a mão do poeta, na sua escrita por vezes inesperadamente veloz, é a necessidade de não se perder nelas (ou delas).
Não deixa de ser interessante, para um estudioso da literatura portuguesa, que autores como Helder Macedo, Manuel Alegre e neste caso também, embora de uma nova geração (de um falar mais directo, mais despido, mas não menos original e sentido) esta necessidade de refazer memórias como quem refaz a vida.
A poesia é isso: escreve-se para viver, mesmo falando de sucessivas mortes!
Um acaso como aqueles de que vivemos, sem dar por isso, e que Jung chamava de sincronicidades, faz com que esteja agora a ler Tolentino de Mendonça, referindo-se no Semanário EXPRESSO a uma nova tradução das Cartas a um Jovem Poeta, de Rilke, da autoria de José Justo.
Não há acasos....eu tenho estado, precisamente, a escrever uma Carta que não enviarei a um Jovem Poeta e que interrompi por enquanto, levada por outras leituras e afazeres.
Vou ler a nova tradução, pois de Rilke leio tudo, também em tradução, e gosto de comparar com o original que Paulo Quintela, há tantos anos me deu a ler, em Coimbra.
O jovem deve sentir que a escrita é para si a vida. Se afinal consegue viver bem, consigo e com o mundo, sem que a busca de uma palavra essencial lhe faça falta, o melhor é poupar os futuros leitores...
Diz Rilke: Es gibt nur ein einziges Mittel. "Há apenas uma única maneira". E continua: "Mergulhe em si. Procure o fundamento do que chama escrever (...) confirme se  morreria se lhe fosse negado poder escrever".
A grande questão que se coloca ao futuro poeta é aparentemente simples: "muss ich schreiben?" Acentuando o verbo ter de, ou dever, num imperativo de vida ou morte, se a resposta fôr ich muss, ou o seu contrário.
Escrever é pois, segundo Rilke, um imperativo, ou não é nada e  nada significa.
Rilke tem o cuidado de avisar de que não é crítico literário, nem dá conselhos sobre o que lhe mostrem, pedindo uma opinião. E está certo, a um poeta não se deve pedir uma opinião, ser-lhe-á um exercício difícil. Mas outra coisa é o aprofundar, em cada um, e esse é o conselho dado, da razão do misterioso impulso da escrita.
Nasce da mais funda raiz do ser? Então a escrita impõe-se, por si mesma, e através dela o poeta, ao longo da vida, deverá dar sinal e testemunho desse impulso.
Ora o que nos deixa este novo livro de António Cortez é que também ele vive intensamente a lição de Rilke, e a pratica, escrevendo.
Que os anos futuros o mantenham assim: escrevendo e vivendo para continuar a escrever...e a viver.
Acabo este post numa Sexta-Feira da Paixão.
Deixo os votos, a todos os meus leitores, de uma Páscoa com leituras felizes.









Sunday, March 06, 2016

ROSAS E MAIS ROSAS

(Herberto Helder)


Li A Colher na Boca, no original que viria a ser publicado pela editora Ática em 1961.
Foi um deslumbramento, para mim que, habituada à literatura francesa, lia Prévert, lia Boris Vian e outros, do movimento OULIPO, não esperava, em Portugal, descobrir nada de tão intenso e tão inovador.
De fiel leitora de Herberto tive o privilégio de passar a amiga. Não direi íntima, as nossas vidas eram muito diferentes, mas sempre presente na leitura, na troca de cartas (raras) e de casuais encontros nos cafés do Saldanha.
Em A COLHER NA BOCA escreve o poeta a inciar o poema:
Falemosde casas, do sagaz exercício de um poder / tão firme e silencioso como só houve / no tempo mais antigo.
Casas, um tempo e um espaço arcaicos, é nessa realidade arquetípica que seguiremos, guiados pela mão do poeta. Será um afundamento, na palavra, no seu duro e impiedoso exercício, minuciosamento estruturado.Por muito que possa parecer escrita de mão livre, entregue aos impulsos da chamada escrita automática dos surrealistas, há um ordenamento estrutural na poesia de Herberto Helder que não é de acaso, mas sempre de cultura fina, de requinte subtil, ainda que por vezes oculto.
O poema segue, e não é logo de rosas que nos falará:
...
Digamos que descobrimos amoras, a corrente oculta / do gosto, o entusiasmo do mundo.
De amoras a amores, dos corpos de gente citados logo a seguir,a dedução seria fácil. Mas não será disso que se trata. Seguem-se elementos primordiais, fontes (água) pedras (ossos que são da terra), alguma coisa celeste (ar), como fogo exemplar (fogo).

Nada mudou, na aparência: estas são sempre as casas.
São centro, e fundamento.
Mas já entretanto vão chegar as rosas...
Referem-se os arquitectos que não viram as torrentes infindáveis / das rosas, ou as águas permanentes / ou um sinal de eternidade espalhado nos corações / rápidos.
Alguma coisa passou ao lado dos virtuais construtores de um universo invisível, montanha e mar fundiram-se entretanto, para que animais e estrelas / homens e mulheres ...ardessem devagar.

Volta-se então de novo, a falar de casas, e do que são: Casas são rosas / para cheirar muito cedo, ou à noite, quando a esperança / nos abandona para sempre.

O poeta convida, no fim, à reflexão sobre a alma e a morte.
As casas, de que desejou falar, abarcam o universo, o pequeno (do homem) e o grande (da matéria divina, toda por conhecer). Enumerados os elementos, que são quatro, na sua tradição, faltaria enumerar os princípios, que seriam três, se fossem convocados.
Não foram.
A rosa permanece fechada, como a de Rilke, na sua rotundidade perfeita, secreta, inominável.
O exercício pedido é o da paciência: como na oração de um alquimista, que tenho citado muito:
ora, lege, lege, lege, relege, labora et invenies (MUTUS LIBER).

Falemos de casas, diz o poeta, como quem fala da sua alma,
 entre um incêndio,
 junto ao modelo das searas,
na aprendizagem da paciência de vê-las erguer
e morrer com um pouco, um pouco
de beleza.

Assim se fecha o ciclo: das casas, centro da vida, às rosas, espelho da alma.
Ocorre-me mais uma citação alquímica, do Rosarium Philosophorum: dat rosa mel apibus, a rosa dá  mel às abelhas...