Já comecei a ler o ensaio, mais se calhar Manifesto de Fé para o tempo moderno, do que apenas ensaio, de Andrés Torres Queiruga:
Alguien así es el Dios en quien yo creo ( editorial Trotta, 2013).
Autor da minha geração (um ano mais novo do que eu, nascido em 1941) teólogo, filósofo, conhecedor das línguas que lhe permitem ler a Bíblia e trazê-la até nós com uma reflexão fundamentada, interessa-lhe sobretudo dar a conhecer o que é Deus, ou Quem é Deus, de modo a que leigos, como é o meu caso, se possam aproximar do seu entendimento, num mundo que em tudo se acelerou, o do nosso tempo. Um dos capítulo tem precisamente em subtítulo " Acreditar em Deus na Cultura Actual" (p.39). Há certamente uma maneira de sentir Deus em si: a da fé concedida. Pois creio que o dom da Fé não é inato, é concedido, e será vivido, conforme os casos, de diversas maneiras.
Andrés, e daí o modo como me seduz a sua leitura, tem procurado enquadrar a Fé numa esfera que é filosófica, tanto quanto teológica, e demora-se na apresentação e discussão do pensamento filosófico o tempo necessário para que o leitor comum o acompanhe.
Escolhe tópicos muito actuais: a ideia da criação por amor, o problema do mal, e a apresentação de um "Deus dos filósofos" para nos explicar o caminho de Deus na consciência religiosa, dos grandes místicos na sua entrega extática, ou nas civilizações, como explica Lessing na sua Educação do Género Humano ou na cultura em que se cresce, como no drama Nathan o Sábio (trad. Fundação Gulbenkian, 2016).
Lessing sublinha a questão da Ética, colocando a escolha livre do homem em cada acção e cada momento da sua vida acima dos dogmas de uma fé que o podem cegar (tantas e tantas vezes, ao longo da História) destroem nele a semente do Amor e do Bem que presidiram à ideia inicial da criação.
Para Andrés Queiruga Deus é o mundo, Deus está no mundo, está em nós, que fomos obra sua (em cada dia refeita?) daí que se torne urgente decidir em que Deus queremos, ou podemos, acreditar - ou sabendo, como ele nos diz tão claramente (el Diós en quien yo creo) já acreditamos e explicamos porquê.
Ele explica porquê.
Deus é a força Anti-mal, e a alegria de Deus suporta o universo, em simultâneo com o seu amor. Cita Spinoza:"o amor intelectual de Deus é uma parte do amor com que Deus se ama a si mesmo", e do mesmo modo a sua alegria sustenta a nossa e coincide com ela. Refere-se o autor não a uma alegria momentânea e superficial, mas ao sentimento profundo suscitado por saber-se envolto , e à sua vida, no mistério salvífico da graça divina.
A escrita de Andrés é a de um místico, crente, e que busca na filosofia razões que justifiquem esta sua relação com um Deus que deseja actual, atento, e que o obriga a falar de um cristianismo reinterpretado (p.19). É por via de Cristo Jesus, como nos diz, que melhor poderemos entender e aceitar o amor de Deus, que nele se tornou humano, como nós.
A terceira parte do livro aborda o caminho da filosofia à mística.
É para ler devagar, para chegarmos sem preconceitos à ideia de que "no infinito coincidem filosofia e teologia" (p.120).
Mas muito tivemos de ler antes, na Bíblia, os Salmos, os Profetas, as narrativas simbólicas e místicas que ao longo das épocas dão testemunho de uma presença (divina) e de uma entrega (humana) permanentes.
Não se concebe que possa haver um deus para os filósofos e outro para os crentes, embora se vejam diferenças de "estilo", resultantes das diversas culturas em que as experiências e o pensamento se enquadram, como se pode verificar pelas várias religiões conhecidas. Mas o autor, para nos demonstrar que num filósofo se pode encontrar uma revelação, mais até um apelo, a uma divindade Una a que nos podemos entregar em oração, deixa o chamado MEMORIAL de Pascal, o célebre filósofo francês, que escreveu num pergaminho, encontrado pelo seu criado poucos dias antes da sua morte em que proclama " Deus de Abraão, Deus de Isaac, Deus de Jacob; não o Deus dos filósofos e dos sábios!".
O Deus dos filósofos e dos sábios como podemos ver, desde a época do Iluminismo, e sobretudo em Lessing, que acompanha os Enciclopedistas franceses, é o deus da Razão Universal, o deus da Moral e do comportamento que o ideal da Revolução Francesa virá a consagrar nos conceitos de liberdade, igualdade, fraternidade, que a própria revolução em muito degradou, como se sabe.
Não, em Pascal, como em São Tomás de Aquino, a revelação de uma verdade outra, lida e vivida na Bíblia de um Deus pai Criador é-nos oferecida para meditação, e é com ela, na transcrição de Andrés Queiruga, que termino este post:
Ano da Graça de 1654,
Segunda-feira, 23 de Novembro, dia de São Clemente, Papa e mártir, e de outros santos (...) por volta das dez e meia da noite até aproximadamente as doze e meia da noite.
FOGO
DEUS de Abraão, DEUS de Isaac, DEUS de Jacob,
não o deus dos filósofos e dos sábios.
Certeza. Certeza. Sentimento. Alegria, Paz.
DEUS de Jesus Cristo.
Deum meum et Deum vestrum.
O teu DEUS será o meu Deus.
Esquecimento do mundo e de tudo, excepto de DEUS.
Só se encontra nos caminhos ensinados no Evangelho.
Grandeza da alma humana.
Pai justo, o mundo não te conheceu, mas eu conheci-te.
Alegría, alegría, alegría, lágrimas de alegría. Dereliquerunt me fontem aquae vivae.
Deus meu, irás abandonar-me?
Que não seja apartado eternamente Dele.
Esta é a vida eterna, que te conheçam a ti, único Deus verdadeiro e àquele que enviaste, Jesus Cristo.
Jesus Cristo. Jesus Cristo.
Eu separei-me Dele; fugi Dele; neguei-o, crucifiquei-o.
Que nunca mais seja separado Dele.
Ele está unicamente nos caminhos ensinados no Evangelho:
Renúncia total e doce.
Submissão total a Jesus Cristo e ao meu director espiritual.
Eternamente em alegria por um dia de exercício na terra.
Non obliviscar sermones tuos. Amen.
Eis a experiência pessoal de Deus, a que Andrés, em capítulos seguintes fará referência, nesta exaltação rara, mística, sentida por um dos grandes pensadores universais. Não têm de ser "descoincidentes" a experiência da busca do saber, do conhecimento de Deus, e a sua vivência prática, na Unidade do ser.
Será um acaso que tenhamos agora nas mãos a Bíblia de Frederico Lourenço, a começar pelos Evangelhos, num convite tão premente à sua leitura?
Não acredito em acasos, acredito mais, como Jung, em coincidências especiais..."sincronicidades".
O leigo, não-crente, poderá não ver em Jesus Cristo a Divindade. Mas poderá, por via de Queiruga, ver melhor, em Jesus Cristo, a Humanidade de Deus.
Monday, September 26, 2016
Thursday, September 15, 2016
Pensar para Existir
Enquanto não abro um novo blog para este efeito, de pensar mais para existir melhor, num mundo em convulsão que todos os dias nos entra pela casa dentro (pela alma dentro) e nos faz pensar no sentido de uma existência limitada, que é a nossa, e grandes interrogações sobre o futuro de filhos, netos, da própria espécie humana, que vejo suicidária, perdida dos seus valores religiosos e morais, aqui deixo a referência a um Teólogo de grande erudição que reflecte sobre a questão do Mal no mundo e pode ser uma espécie de incentivo a que se leia mais, e melhor, não ficando apenas, como eu fiquei, em Dizer o Mal, pela interrogação metafísica de alguns poetas que citei.
O ponto que o autor mais deseja debater é o que chama de Via Larga, no sentido de uma secularização aberta, e possível, no nosso tempo, desta premente discussão do Mal, perversão de uma realidade, a de que o Bem, vivido na nossa modesta e limitada esfera imperasse no mundo que nos rodeia.
Aguardo a reacção dos nosso leitores mais habituais.
Começa A. Torres Queiruga, no ensaio
incluído no volume colectivo, por actualizar o conceito de Teodiceia definindo
uma via que parte da ruptura da tradição para uma "via curta", como
diz, chegando a um conceito alargado, de "via larga" na actualidade.
O ponto que o autor mais deseja debater é o que chama de Via Larga, no sentido de uma secularização aberta, e possível, no nosso tempo, desta premente discussão do Mal, perversão de uma realidade, a de que o Bem, vivido na nossa modesta e limitada esfera imperasse no mundo que nos rodeia.
Aguardo a reacção dos nosso leitores mais habituais.
O Mal, A Secularidade, E O Trabalho Do
Conceito
por A. Heller,
R. Mancini, A. Torres Queiruga,
ed.
L'Altrapagina, Città di Castello, 2013 (pp. 33-90)
Nota de
leitura ( do ensaio de Andrés Torres Queiruga)
Não refarei o percurso, de grande
erudição, que nos propõe àcerca da Teodiceia ( o conhecimento de Deus) porque
desejo chegar ao fundo da questão, que é a do eterno mistério do Mal,
consentido ou não por um Deus Criador, perfeito, de um universo ainda por
conhecer, mas em que vivemos, e no que dele já é conhecido, em plena
imperfeição: violências de todo género, guerras, perseguições, de que o
Holocausto, em todo o seu horror faz com que o Papa Bento XVI exclame, na
visita a Auschwitz: "Porquê, Senhor, te calaste? Porquê pudeste tolerar
tudo isto? "
Encontro em momento especial, no corpo da
poesia de Paul Celan, a mesma interrogação, o mesmo espanto que afunda: como
foi possível tanto horror consentido?
Para o autor reside aqui o estado actual
da discussão da Teodiceia, tal como ele a vai apresentar no seu estudo. Porque
o Papa, este Joseph Ratzinger, é um grande teólogo (cuja obra tenho, nas
diversas traduções que fui encontrando e onde reconheci muitas das leituras que
gostei de fazer, desde os primitivos Evangelhos apócrifos, ao seu entendimento
superior do que significa a Comunhão, numa época em que a astrofísica e a
física das partículas - a ciência pura, do conhecimento do Universo Criado -
nos podem ajudar a viver melhor um momento de Fé, na plenitude do que significa
um Mistério, o da permanência eterna da energia criadora...).
Desta apresentação segue o autor para o problema
que aqui se desenvolve: o da existência, ou da presença do Mal, como tem sido
discutido até agora, e cuja discussão ele deseja reorientar à luz de um novo
entendimento possível. Refere em nota uma obra que tem tradução portuguesa, Repensar o Mal,da ponerologia à teodiceia,
São Paulo, 2011.
A questão do Mal conduz à da relação de
Deus com essa perversão no mundo, e do mundo, nas criaturas (feitas à imagem e
semelhança de Deus, como se lê no Génesis) e o autor evoca o célebre pensamento
de Epicuro, a esse propósito:
" Ou Deus quere tirar o mal do mundo,
mas não pode; ou pode, mas não o quere tirar; ou não pode nem quere; ou pode e
quere. Se quere e não pode, é impotente; se pode e não quere, não nos ama; se
não quere, nem pode, não é o Deus bom e ainda por cima é impotente; se pode e
quere - e isto é mais certo-então, de onde vem o mal real e por que não o
elimina? "
Pergunta sem resposta. Contudo coloca o
Amor no meio da interrogação, e adiante veremos que o Amor será um dos
conceitos trazidos pelo autor à nossa reflexão. Um Deus que permite o Mal, pode
ser um Deus do Amor? E não terá grande limitação, essa relação do seu Amor com
as suas Criaturas (o comportamento delas no mundo? ).
Por
aqui se poderia colocar uma nova questão, a da Liberdade, não menos importante.
Amor sem liberdade será amor em plenitude? Mas o abuso, o mau uso, dessa
liberdade, não será uma das possíveis
raizes do mal, por ser perversão do primordial entendimento do Amor em
plenitude?
As interrogações de Epicuro, no entender
do autor, obviamente levariam ao ateísmo. Ora não é isso que ele pretende, no
seu texto. Nem tampouco uma adesão cega a uma Fé que nada põe em causa. Faz
então, como diz, algumas clarificações: discute a filosofia de Leibniz, pois
não vê que seja útil, para a questão da Teodiceia, falar do melhor dos mundos
possíveis. E discute a questão do Racionalismo, que pode ser apresentada como
não respeitando o Mistério.
O propósito do autor é outro e julgo, sem
ter competência teológica para em verdade o discutir, que ele pretende que
pensemos o Mal não tanto ou de modo absoluto, por via da Teodiceia, mas antes
por via da Filosofia. Aproximando as duas esferas, a que denomina de via curta
( na lógica da fé) e a que chama de via larga (que não recusa o trabalho do
conceito). Pois só esta permitirá uma melhor adequação à nossa era, de
Secularização e pós-Ilustração (no sentido do século XVIII , de Razão
Ilustrada, ou seja culta, liberta de dogmas).
A dificuldade, na discussão do Mal, como
na relação com Deus, é que abordamos aqui algo que é de todos os tempos, o mal
humano é universal, de todas as épocas, em todos os momentos relatados o
podemos verificar, conservados na memória dos povos encontramos sempre
testemunhos dolorosos.
Explica o autor que a Teodiceia cristã se
demarca das respostas ateístas, mas que o problema é humano, e comum, e só as
respostas variam, conforme os pensadores: " a resposta de Schopenhauer não
é igual à de Sartre".
Não se trata, para o autor, de
"justificar" Deus, mas sim de
"justificar a ideia ou as ideias que nos fazemos do seu
mistério: não se justifica o sol quando se refuta o geocentrismo".
Novo conceito, do Mistério de Deus, para
nossa reflexão, a somar ao já atrás referido, do Amor; um Amor que se reporta à
essência do Mistério de Deus, como acontece com o Mal. Mas será do Mal que ele
deseja falar-nos : " Ou seja, fazendo ver que não há contradição entre a ideia cristã de Deus e a terrível realidade do mal.
O "problema "do Mal começou "por ser colocado dentro da
religião", afirma o autor, referindo, desde logo, as memórias mais
antigas, da Mesopotamia (Gilgamesh)
dos hieróglifos egípcios do julgamento e pesagem das almas, Zaratrusta, na
Pérsia antiga, o Livro de Job, na Bíblia de Israel, e mesmo sem esquecer o já
citado Epicuro e as questões dilemáticas.
Surge em Leibniz, recorda o autor, a
palavra Teodiceia, mas com ele estamos ainda na época que ele define como
pré-moderna, e o que procura é um novo olhar "largo" sobre a questão
do mal na criação divina, que dentro da esfera da fé encontra resposta, mas já
não a encontra na época moderna, secular em que vivemos.
A circunstância
em que se pode enquadrar a questão mudou, e com essa mudança, a abordagem que
se espera. O autor não se exime a responder, e é essa honestidade intelectual
que torna o seu desafio, e as suas propostas, tão aliciantes para o leitor
interessado.
Afirma a " Necessidade de uma
teodiceia actualizada" (p.11 do ensaio). Porque a teologia, tal como a
filosofia, deve estar disponível para "dar a razão" das suas
convicções. "Já era dito na Primeira carta de São Pedro (1, Pe 3, 15 ) e
não pode negá-lo o cristianismo actual".
Redescutindo de novo o ditame de Epicuro,
que não traz solução, empurra para uma forma racionalizada de impossíveis, é no
Papa Bento XVI que o autor vai encontrar outra ideia-força, a da Caritas: na encíclica Deus caritas est .
Já se trouxe à reflexão o Amor, enquanto
se discutia o Mal, discute-se agora a Caridade (forma de Amor, tal como a ideia
da Misericórida).
Devagar, vamos descendo, por assim dizer,
à esfera do humano, o puramente humano do nosso ser, crente, ou descrente, mas pensante.
Será na raiz do pensamento que poderemos
encontrar novo caminho. Que não afaste, que leve a compreender.
Reconheçamos a autonomia do mundo, como escreve o autor, a partir do Concílio Vaticano II, porque esse é
o primeiro passo para enfrentar o problema do Mal de forma inédita. Muda-se,
com isso, o sentido da velha pergunta, "de onde vem o Mal? " Havia o
Bem (Deus) e havia o Mal( o Diabo). Afinal o que há é a limitação do mundo
criado, e nós nele, com a nossa liberdade, que deriva da liberdade, ou da
autonomia, que se deu com a Criação.
Chega ssim o autor à conclusão e a uma
nova forma de entendimento do Mal: " a raiz última do mal reside na finitude
do mundo". E não se exime a citar Spinoza, mais um filósofo para a lista
das citações com que tem fundamentado várias vezes o seu discurso, que diz
" toda a determinação é também negação" ( Omnis determinatio est negatio,Opera,
ed. Pléiade,p. 1231 ).
Autonomia e finitude, pois.
Se com a ideia de autonomia já não se pode
supôr que haveria, ou poderia haver, em parte, intervenção, com o acrescento da
ideia fundamental de finitude, a questão fica, aparentemente resolvida. Não
cabe a perfeição sonhada, na finitude, por definição imperfeita (porque finita!
).
Não
cabem, na nova proposta do entendimento de Deus, nem o Bem nem o Mal, cada um
na esfera de comportamento e de escolha humana, própria. A esfera de Deus será
necessariamente outra. A de um primeiro ponto, primordial, de que tudo o mais
emanou (Nicolau de Cusa) em sucessivos momentos de diferenciação, até se
atingir a escala do mundo e dos humanos, na imperfeição da finitude.
Afirma o autor que " todos intuimos que
a finitude exclui necessariamente a
perfeição omnímoda, pela mesma razão que um círculo não pode ser quadrado (...)
um mundo finito-perfeito seria um mundo finito-infinito: um círculo-quadrado,
uma contradição" (p.16).
Deste modo o autor retira da discussão o
Mal, e a sua raiz em Deus: " Porque se a raiz do mal está na finitude,
dado que qualquer mundo possível, não
podendo ser Deus, será necessariamente finito, torna-se impossível pensar ...um
mundo sem mal. Seja qual fôr o mundo possível, seus elementos e modos de
articulação serão distintos; mas sendo limitados (...) estarão sujeitos a
falhas e a sofrimentos".
Em relação directa com este problema da
finitude surge o da liberdade: não é infinita; é limitada ao espaço da nossa
finitude. Kant deveria talvez ser introduzido aqui, pois transitámos para o
domínio da Moral, e da Razão Prática, tão do seu agrado, porque transforma um
problema maior num problema social e moral de cada um. Da mão do homem nasce o
Mal, Deus (o En-Soph da Kabbala) na sua anterioridade, ainda não é o
responsável pela sua existência. (Mas este é um àparte meu).
Seguindo ainda o autor, embora de modo
resumido, chegamos a um outro conceito muito importante para o aclaramento das
suas ideias : o de Bondade.
Falou-se do Amor, fala-se agora de
Bondade.
A bondade infinita de Deus,
manifestando-se em Jesus, ( o Verbo se fez carne e habitou entre nós...) a sua
incarnação, humana e finita enquanto o considerarmos como tal, expoente supremo
de um Anti-Mal (contra o qual lutará até ao sacrifício último na Cruz). Mas
estamos neste momento a sair da filosofia para voltar à religião. Pois teremos
depressa de distinguir, como faz Ratzinger, o Jesus histórico da figura de
Cristo, o Redentor.
A discussão do Mal reenvia-nos,
necessariamente, para uma meditação mais funda, a da nossa relação com Deus, o
seu Mistério supremo. E para a busca do entendimento da Fé: quando alguém como
Maria José Nogueira Pinto, figura pública da nossa política, a poucos dias de
falecer, afirma, num programa de televisão "nada me faltará", para
além da emoção com que deixa o seu público, com que mais o deixa? Com a certeza
da sua fé na Transcendência de um mundo onde será acolhida, por um Deus que a ama, embora não lhe poupasse a dôr
de uma morte prematura (como fez a Jesus seu Filho).
Por
outras palavras: embora filosofemos, será sempre maior o mistério da Fé que sublima
a finitude, o sofrimento, numa entrega tão íntima que só mesmo um Místico ou um
Santo poderão explicar. Ou um Homem Bom.
Sem espaço para a discussão do Mal.
Sunday, September 04, 2016
Fabio Gorodski, VARIEDADES e vários episódios, Chiado ed. 2014
Este é um livro que me chega às mãos de modo algo surpreendente, embora já tenha acontecido algo assim, uma vez ou outra.
Delicadamente, por e-mail, é a mulher do jovem escritor - digo jovem porque tem a idade do meu filho mais novo - e não é ele mesmo quem me pede para enviar o livro.
Gosto de ler, aceito sempre. Recebi o livro, vindo da Alemanha, onde me foi dito que vivem. Berlin, cidade onde estive tantas vezes, escrevi, fiz seminários, fui à ópera, ao teatro, passeei nas ruas, vi em 61 crescer o muro, as casas, de um dia para o outro e aceleradamente serem isoladas com tijolos, cimento, houve quem se atirasse da janela, para morrer no chão , o mundo ali dividiu-se de ume forma súbita e terrível. Anos depois, em viagem de estudo, visitei a RDA, íamos ver escolas e universidades, e nas livrarias comprávamos livros de arte mais baratos. Ouvir, só os discursos oficiais. Conversa normal não havia, havia medo. Voltei, já depois da queda do muro, e assisti à capacidade maravilhosa de renascer, de que a Alemanha fez prova, recuperando edifícios, criando espaços de Arte para bailarinos, pintores, que ocupavam alguns edifícios vazios e neles exibiam as suas actividades. Num desses conheci Sasha Walz, jovem em início de carreira como coreógrafa, hoje genialmente reconhecida e muito premiada. E vi na Akademie der Kuenste (não tenho umlaut, peço desculpa pela forma antiga de ortografar) Cesc Gelabert, a quem dediquei um poema, num dos meus livros. O brilho, a energia da luz de um corpo a solo, num espaço imprevisível. Enfim. Amo esta cidade onde não voltarei, e quem sabe se foi por saber que Fabio vive lá que me interessei pelo seu livro.
Capa bonita, simples, e que nas badanas não diz nada sobre quem é o autor, cidade onde nasceu, idade, etc.
Diz contudo que é músico, compositor, com formação electroacústica (em Colónia) e doutor em estética, ciências e tecnologias das artes (Paris 8), tendo dado inúmeros concertos no Brasil e na Europa, e recebido vários prémios. Fez ainda videos experimentais, apresentados na Suiça, uma Homenagem a Calder (França) e com este livro que tenho aqui à frente ganhou menção honrosa no Concurso de Literatura Cidade de Belo Horizonte em 2014.
Depreendo, embora ele não o diga, que seja brasileiro.
A sua prosa tem essa marca de originalidade, inova pela forma, são contos de prosa e imagens comprimidas em cerca de duas páginas, no máximo(arte difícil, como seria a exposição de um tema, antes das elaborações a solo de cada um, a seguir). Mas também podemos pensar que não são um tema, único, a viagem pelas palavras soltas dentro, ao modo onírico, livre, mas vários temas, interrompidos a meio e que logo poderão ser retomados.
Ou, como estamos perante a escrita de um compositor, que estes são os solos, derivas sobre algum tema exposto: a leitura, por exemplo, de notícia de jornal, reportagem de televisão, visita a um museu ou uma galeria de arte, experimentação própria, musical, de várias formas e em que o gesto, o som, desencadeiam o discurso de prosa poética, inacabada, ou puramente solta.
Um estilo que de tão aparentemente descritivo, como se o dito fosse de facto vivido, e com datas no fim a assinalar o lugar ( o espaço) e o momento (o tempo), deixaram-me pensativa.
Pelas datas, lugares e tempos, parece que andou pelo mundo inteiro: que idade teria este este músico escritor? O texto mais antigo, datado de 1970...e os outros por aí fora, até à brincadeira de um "romance" em Tóquio, 2039...
Pensei, enquanto ia lendo: se é velho, foi embaixador? Se é jovem, viajou com o pai, ou com alguma ONG?
É claro que procurei informação, no google, a enciclopédia e a polícia do mundo. E ainda fui ver se tinha facebook, que toda a gente tem.
Vi então que nasceu em 1971, um ano mais novo do que o meu filho mais novo, João, que também é músico, de jazz, com formação nos Estados Unidos, e anda, como este Fabio, já pelo mundo inteiro, e há muito tempo. Deixo a indicação, quem sabe se virão a encontrar-se, o João (ver João Moreira, tem página oficial no face) é também ele múltiplo nos interesses e práticas musicais. Hoje está em Paris, com o António Zambujo...
Mas (ao menos por enquanto, não escreve).
Mas voltando aos contos do Fabio: espero que sejam divulgados em Portugal: inovam, pela escrita, e não apenas pela forma tão concisa, de como quem diz, não se cansem, leiam apenas um pouco, de preferência repousem a seguir, pois vem lá mais...viagem, como fiz pelas inscrições de lugares e datas, num tom que parece ser sério e é só de brincadeira.
Pois como posso ter escrito antes de nascer? Há uma lição nesta escrita: a mão de um imaginário livre, é a prosa que se constitui como espaço e tempo, os detalhes, não sendo verdadeiros, quem sabe se poderiam sê-lo, tudo é pura "onda", pura energia em movimento, somos atravessados por ela, e o que nasce da nossa mão ou já foi antes ou virá a ser, negra poeira cósmica.
De algum magma secreto se formará, uma vez e outra, como aqui, neste caso, um outro Verbo.
Escolho uma citação do autor, do conto Hálito, para acabar:
"O homem fala e constitui o mundo, através da fala, literalmente
(...) falar é criar o mundo, fundá-lo, estabelecê-lo, edificá-lo, compô-lo, segundo consta foi a primeira tarefa de Deus: e haja isto e houve, e haja aquilo e mais aquilo e houve também, conforme proferiu o mundo assumiu suas respectivas qualidades e atribuições. Quase tudo: no sexto dia Ele criou o homem, criatura à parte, precisou de algo mais, - precisou soprar algo em suas narinas, a Sua alma, a própria, ou parte dela ao menos, da seguinte forma: um pedaço de maçã mordido na boca de alguém e arrancado do todo é uma parcela que corresponde integralmente àquilo que restou do fruto e que a mão ainda segura. Ou dito outramente: assim como aquilo que constitui a maçã está igualmente dentro e fora da boca, e não há contradição nisso, a alam Dele está dentro de nós e fora também. Exalar nosso ar ao falar, bem do fundo de nós para restituir ao mundo em maravilhosa gratidão o sopro que em nosso início Ele nos concedeu(...) fazer nós também como Ele para constituir nosso pequeno mundo conforme Sua grande vontade, e descansar no sétimo dia" .
(p.69)
Mas este lirismo sublime, que não nos mistifique, pensando que nada haverá de mais interessante: logo no Romance ele desenha a utopia que no Japão de 2039 lhe permitirá dormir com uma boneca de corpo e de pele tão perfeita, que nada lhe faltará, e muito menos uma Eva das de outrora, Evas tão imperfeitas...
Sim é um livro para ler, para pousar e abrir de novo, e viajar pelo sabor de um português tão nosso, mas melhor!
Delicadamente, por e-mail, é a mulher do jovem escritor - digo jovem porque tem a idade do meu filho mais novo - e não é ele mesmo quem me pede para enviar o livro.
Gosto de ler, aceito sempre. Recebi o livro, vindo da Alemanha, onde me foi dito que vivem. Berlin, cidade onde estive tantas vezes, escrevi, fiz seminários, fui à ópera, ao teatro, passeei nas ruas, vi em 61 crescer o muro, as casas, de um dia para o outro e aceleradamente serem isoladas com tijolos, cimento, houve quem se atirasse da janela, para morrer no chão , o mundo ali dividiu-se de ume forma súbita e terrível. Anos depois, em viagem de estudo, visitei a RDA, íamos ver escolas e universidades, e nas livrarias comprávamos livros de arte mais baratos. Ouvir, só os discursos oficiais. Conversa normal não havia, havia medo. Voltei, já depois da queda do muro, e assisti à capacidade maravilhosa de renascer, de que a Alemanha fez prova, recuperando edifícios, criando espaços de Arte para bailarinos, pintores, que ocupavam alguns edifícios vazios e neles exibiam as suas actividades. Num desses conheci Sasha Walz, jovem em início de carreira como coreógrafa, hoje genialmente reconhecida e muito premiada. E vi na Akademie der Kuenste (não tenho umlaut, peço desculpa pela forma antiga de ortografar) Cesc Gelabert, a quem dediquei um poema, num dos meus livros. O brilho, a energia da luz de um corpo a solo, num espaço imprevisível. Enfim. Amo esta cidade onde não voltarei, e quem sabe se foi por saber que Fabio vive lá que me interessei pelo seu livro.
Capa bonita, simples, e que nas badanas não diz nada sobre quem é o autor, cidade onde nasceu, idade, etc.
Diz contudo que é músico, compositor, com formação electroacústica (em Colónia) e doutor em estética, ciências e tecnologias das artes (Paris 8), tendo dado inúmeros concertos no Brasil e na Europa, e recebido vários prémios. Fez ainda videos experimentais, apresentados na Suiça, uma Homenagem a Calder (França) e com este livro que tenho aqui à frente ganhou menção honrosa no Concurso de Literatura Cidade de Belo Horizonte em 2014.
Depreendo, embora ele não o diga, que seja brasileiro.
A sua prosa tem essa marca de originalidade, inova pela forma, são contos de prosa e imagens comprimidas em cerca de duas páginas, no máximo(arte difícil, como seria a exposição de um tema, antes das elaborações a solo de cada um, a seguir). Mas também podemos pensar que não são um tema, único, a viagem pelas palavras soltas dentro, ao modo onírico, livre, mas vários temas, interrompidos a meio e que logo poderão ser retomados.
Ou, como estamos perante a escrita de um compositor, que estes são os solos, derivas sobre algum tema exposto: a leitura, por exemplo, de notícia de jornal, reportagem de televisão, visita a um museu ou uma galeria de arte, experimentação própria, musical, de várias formas e em que o gesto, o som, desencadeiam o discurso de prosa poética, inacabada, ou puramente solta.
Um estilo que de tão aparentemente descritivo, como se o dito fosse de facto vivido, e com datas no fim a assinalar o lugar ( o espaço) e o momento (o tempo), deixaram-me pensativa.
Pelas datas, lugares e tempos, parece que andou pelo mundo inteiro: que idade teria este este músico escritor? O texto mais antigo, datado de 1970...e os outros por aí fora, até à brincadeira de um "romance" em Tóquio, 2039...
Pensei, enquanto ia lendo: se é velho, foi embaixador? Se é jovem, viajou com o pai, ou com alguma ONG?
É claro que procurei informação, no google, a enciclopédia e a polícia do mundo. E ainda fui ver se tinha facebook, que toda a gente tem.
Vi então que nasceu em 1971, um ano mais novo do que o meu filho mais novo, João, que também é músico, de jazz, com formação nos Estados Unidos, e anda, como este Fabio, já pelo mundo inteiro, e há muito tempo. Deixo a indicação, quem sabe se virão a encontrar-se, o João (ver João Moreira, tem página oficial no face) é também ele múltiplo nos interesses e práticas musicais. Hoje está em Paris, com o António Zambujo...
Mas (ao menos por enquanto, não escreve).
Mas voltando aos contos do Fabio: espero que sejam divulgados em Portugal: inovam, pela escrita, e não apenas pela forma tão concisa, de como quem diz, não se cansem, leiam apenas um pouco, de preferência repousem a seguir, pois vem lá mais...viagem, como fiz pelas inscrições de lugares e datas, num tom que parece ser sério e é só de brincadeira.
Pois como posso ter escrito antes de nascer? Há uma lição nesta escrita: a mão de um imaginário livre, é a prosa que se constitui como espaço e tempo, os detalhes, não sendo verdadeiros, quem sabe se poderiam sê-lo, tudo é pura "onda", pura energia em movimento, somos atravessados por ela, e o que nasce da nossa mão ou já foi antes ou virá a ser, negra poeira cósmica.
De algum magma secreto se formará, uma vez e outra, como aqui, neste caso, um outro Verbo.
Escolho uma citação do autor, do conto Hálito, para acabar:
"O homem fala e constitui o mundo, através da fala, literalmente
(...) falar é criar o mundo, fundá-lo, estabelecê-lo, edificá-lo, compô-lo, segundo consta foi a primeira tarefa de Deus: e haja isto e houve, e haja aquilo e mais aquilo e houve também, conforme proferiu o mundo assumiu suas respectivas qualidades e atribuições. Quase tudo: no sexto dia Ele criou o homem, criatura à parte, precisou de algo mais, - precisou soprar algo em suas narinas, a Sua alma, a própria, ou parte dela ao menos, da seguinte forma: um pedaço de maçã mordido na boca de alguém e arrancado do todo é uma parcela que corresponde integralmente àquilo que restou do fruto e que a mão ainda segura. Ou dito outramente: assim como aquilo que constitui a maçã está igualmente dentro e fora da boca, e não há contradição nisso, a alam Dele está dentro de nós e fora também. Exalar nosso ar ao falar, bem do fundo de nós para restituir ao mundo em maravilhosa gratidão o sopro que em nosso início Ele nos concedeu(...) fazer nós também como Ele para constituir nosso pequeno mundo conforme Sua grande vontade, e descansar no sétimo dia" .
(p.69)
Mas este lirismo sublime, que não nos mistifique, pensando que nada haverá de mais interessante: logo no Romance ele desenha a utopia que no Japão de 2039 lhe permitirá dormir com uma boneca de corpo e de pele tão perfeita, que nada lhe faltará, e muito menos uma Eva das de outrora, Evas tão imperfeitas...
Sim é um livro para ler, para pousar e abrir de novo, e viajar pelo sabor de um português tão nosso, mas melhor!
Saturday, August 27, 2016
O Morcego do Vale
Escrevi este conto para ser lido à noite, no escuro do Alentejo, pelas netas...
Aqui fica, um dia será ilustrado....
Aqui fica, um dia será ilustrado....
O MORCEGO DO VALE
Era uma vez um
Príncipe...
Reparem, muitas histórias começam
assim, com Era uma vez, e a seguir um
Rei, ou Rainha, ou Príncipe ou Princesa...
Fazem-nos entrar num mundo de
encantamento, onde tudo pode acontecer, de bom ou de mau.
Mas preferimos que tudo o que
venha a acontecer não seja assim tão mau...
Dizemos que as histórias, se
possível, devem ter um final feliz. Mas claro, há muitos modos de felicidade,
há muitas maneiras de acabar uma história. Por vezes o final da história escapa
ao que tínhamos pensado, e a história, com os seus príncipes e princesas, acaba
como entende e nada podemos fazer contra isso.
Por exemplo, na história da Casinha de Chocolate, os meninos, depois
de matarem a bruxa má, empurrando-a para dentro do fogão carregado de lenha,
voltam para casa. Mas não teriam gostado mais, se calhar, de ficar ali a comer
todo o chocolate que havia por dentro e por fora da casa? Eu ficava ali um
bocadinho a comer chocolate! Mas claro, eu não estava nessa história, não podia fazer nada, as
histórias são assim mesmo, como cada um gosta de as contar.
Voltando ao nosso Príncipe:
Era uma vez um Príncipe que
resolveu sair do seu palácio na cidade, porque a cidade se tinha tornado tão
grande e tão barulhenta que não o deixava ouvir o canto dos seus pássaro
preferidos no jardim.
O jardim era grande, mas a cidade
com o seu barulho de carros, autocarros e
aviões tinha-se tornado ainda maior : ensurdecedora.
Os melros apareciam ao fim da
tarde, mas o Príncipe não dava por eles, e era pena. Dos rouxinóis nem se fala,
andavam muito ofendidos, por já não conseguirem que se ouvisse os maravilhosos
trinados de tenor e mesmo de contratenor, chilreios ainda mais raros.
O Príncipe podia ter pedido ao
Rei que multasse ou mesmo proibisse a entrada de tanto carro e autocarro na
cidade. As pessoas que andassem de metro, um transporte mais limpo, dizia-se, e
mais rápido. E os Reis podiam mandar o que quisessem: eram reis...
Mas não.
Preferiu ir-se embora para
longe. Sendo um Príncipe do ocidente
preferiu procurar o oriente.
Saiu do palácio às escondidas,
numa bela noite de luar, sem dizer nada a ninguém, para que não insistissem com
ele: fica, meu filho, fica, veremos o que se pode fazer, para ouvires melhor os
pássaros do jardim. Repara, eles não se foram embora, ficaram e cantam,
aguardam...
Mas o Príncipe era impaciente,
não queria esperar e foi-se mesmo embora.
O Rei não viveria sozinho. No
palácio havia ainda a Rainha, a pequena Princesa de belas tranças compridas que
ele gostava de puxar, havia ainda o Preceptor, um maçador que lhe dava aulas,
falava, falava, nunca os ouvia a ele e a irmã, nunca os deixava espreitar pela
janela, nunca os deixava perguntar coisa nenhuma, se tinham percebido, se era
preciso explicar um pouco melhor, enfim. O que o Preceptor gostava era de fazer
queixa ao Rei e de os pôr de castigo, proibindo-os de brincar lá fora no
jardim. Ora o jardim era a alegria do Príncipe.
Mas aqui tenho de dar uma opinião:
Os meninos, sejam Príncipes ou
Princesas, devem todos estudar, estudar como deve ser, aprender a ler, a
escrever bem, a contar, sabendo as tabuadas de cor e tudo o mais que fôr
preciso, para não crescerem sem educação, sem inteligência, sem imaginação e
sem competência (o que mais tarde pode criar grandes dificuldades na vida).
A vida não é só feita de rosas,
há muitos espinhos por aí espalhados.
O Preceptor só fazia mal em ser
queixinhas. Esse é um grande defeito que ele podia corrigir. Talvez com tempo.
A noite em que o Príncipe fugiu
era uma noite de luar, o céu parecia de veludo.
Recordando as aulas de astronomia
( afinal nem tudo era mau nas aulas do Preceptor ) procurou orientar-se pelas
estrelas : queria seguir o caminho das montanhas que se encontravam a leste. A
sua busca era do oriente.
Andou e andou, durante dias e
dias, até gastar os sapatos que trouxera calçados do palácio.Tinha dinheiro no
bolso, comprou botas de andarilho. Assim ficava melhor.
Bebeu água das fontes e riachos,
comeu fruta das árvores do caminho, até que chegou, sem saber como, a um vale
enevoado, escondido entre duas montanhas tão altas que não seria fácil que o
procurassem ali.
É aqui mesmo que fico : pensou,
disse, e melhor o fez.
Com os ramos das árvores ergueu
uma casa de troncos de madeira. Fez-lhe um tecto de canas de bambú, que depois
cobriu com folhas grandes de bananeira.
Quando tinha fome ia comendo bananas, um óptimo alimento, que alguns macacos
que por ali andavam também gostavam de comer.
Não sei se já disse, o Príncipe
agora estava no oriente.
Não havendo mais ninguém a viver
à sua volta, o Príncipe não precisava de fazer portas nem janelas.Tudo era, na
casa, um belo espaço aberto, onde se sentiria plenamente livre e realizado. A
temperatura era sempre amena, só acendia lenha para cozinhar alguma erva, algum
legume ou raiz que lhe viesse à mão.
Interrompo oura vez:
Será possível alguém viver só,
para sempre, e julgar-se feliz e
realizado? Não precisaremos dos outros, do seu olhar, da suas reacções, para
percebermos melhor o que somos de verdade, o que fazemos da nossa vida? Não há
histórias felizes sem que possamos somar mais alguém e mais alguma coisa à
nossa vida.
Continuando, com o Príncipe:
De verdade ele sentia-se bem
assim, mergulhado na natureza, naquele vale profundo, de vegetação tropical,
abundante, que o escondia por completo.
Não tinha saudades do palácio e
ainda menos da agitação barulhenta da cidade de que fugira à sucapa.
Ah, mas sentia falta do canto dos
seus pássaros.
Pena que não fossem aves
migratórias, para que o pudessem seguir...mas não. Melro é melro, rouxinol é
rouxinol, não há nada a fazer. Ficaram lá, com os seus outros companheiros. Os
pavões, por exemplo. Mas ele detestava o grito dos pavões.
Teve então uma ideia.
Procurou uma cana com que fez uma
flauta.
Ao nascer e ao pôr-do-sol
sentava-se junto à casa, tocando as melodias de que se lembrava, algumas de
suaves trinados, como os do rouxinol, outras mais complicadas, mas todas do seu
agrado, fazendo recordar o seu jardim de outrora.
Reparou que sempre que se sentava
a tocar havia animais que se aproximavam dele.
Aranhas, lagartos de várias cores
e tamanhos, e um dia até mesmo um morcego gigante que o deixou intrigado. Havia
ali morcegos daquele tamanho? Mas não metia medo. Pareceu-lhe apenas curioso,
atento, simpático, se é que se pode achar logo simpático um morcego tão grande.
Trazia fruta na boca e o Príncipe viu assim que ali naquele vale, para além das
bananas que tinha comido, poderia encontrar outras árvores de fruta e outros
alimentos. Porque aranhas e lagartos não era coisa de que ele fosse gostar e
muito menos comer...
Ah, ficarei aqui para sempre,
suspirou.
A menos...
A menos que este morcego não seja
um mamífero, mas um demónio encantado, um vampiro sugador de sangue, que esteja
a fingir que gosta da minha música mas na verdade deseje apenas morder-me o
pescoço e matar-me, quando eu estiver distraído. Aquela fruta na boca pode ser
um disfarce...
O Príncipe lembrava-se de ter
lido nos livros do palácio, que o Preceptor lhe fazia estudar, que os franceses
chamavam aos morcegos ”ratos carecas“ ! Era injusto, era depreciativo.
O morcego que o visitava parecia
um rato, mas não era careca. Era um rato voador, embrulhava-se nas longas asas
quando queria dormir, sempre de dia, e só à noite a fome e a curiosidade o
levavam a grandes passeios pelo vale. Era assim que ele acabava por ir ter com
o Príncipe.
Foram ficando amigos, pois também
o morcego gostava da casa de madeira com o seu tecto de canas e de folhas e o
Príncipe apreciava cada vez mais aquele convívio com os vários bichos que o iam
rodeando, ora de dia ora de noite.
As aranhas fugiam dele,
escondiam-se nos cantos, aguardando insectos distraídos que pudessem prender
nas suas teias; os lagartos eram mais atrevidos, mas o que preferiam era ficar
ao sol, a aquecer enquanto o sol não se punha. Esticavam-se ao comprido nas
pedras que lhes serviam de cama. Ficavam assim horas, a preguiçar, meio
adormecidos.
O Príncipe, com o passar do
tempo, habituara-se a fazer longas caminhadas pela floresta, pelo vale, pelos
caminhos sinuosos das montanhas que o protegiam do mundo.
Num desses longos passeios
descobriu uma aldeia onde só havia uma casa, parecida com a sua, mas com portas
e janelas fechadas. Era junto de um riacho onde ele estivera a beber.
À roda da casa havia buganvílias
coloridas, muitas, como que a fazer uma coroa de protecção.Lá dentro vivia um
casal de velhos.Pareciam ter mais de cem anos, a côr da pele era da côr da
madeira da casa, mas o seu olhar não assustava, era doce e amigável.
O Príncipe pensou: será que o
morcego, de noite, também os visita, como faz comigo?
Afinal, há só estas duas casas
nesta floresta e neste vale imenso...
Os velhos, ao abrir a porta,
perguntaram, és tu o Príncipe Feliz ? E o Príncipe respondeu: na verdade bem
pode ser esse o meu nome. Feliz é como me sinto, só posso ser eu, então.
E assim foi.
O Príncipe lembrou-se de que
também nos seus livros do palácio se falava dos morcegos do oriente e de que
aí, no oriente, o nome que lhes davam era
FELICIDADE. Um oriental nunca ofenderia um morcego com um nome tão
humilhante como o do francês, que o deixara chocado pela falta de consideração.
Outras culturas, dissera o
Preceptor. Os orientais são muito mais delicados, mais sensíveis.
O Príncipe voltou uma e outra
vez, nos seus passeios, a casa dos velhotes, que o recebiam sempre com boa
disposição, lhe davam de beber água fresca do riacho, boa fruta, boa comida
fresca, preparada de propósito para ele: sopa de legumes, uma ou outra ave
selvagem e até, certa vez, guisado de pernas de rã. Mas o Príncipe pediu: só legumes,
por favor, a carne não me cai bem, tornei-me vegetariano graças ao exemplo do
morcego que me faz companhia.
Conhecem o morcego do vale?
perguntou.
Conhecemos, ele também é nosso
amigo.
Os velhos tinham de facto mais de
cem anos.
Eram velhos e eram sábios, apesar
da sua aparente pobreza e humildade. A sabedoria esconde-se de muitas maneiras
e, como se diz no refrão, nem tudo o que parece é... Eles na realidade eram
pessoas muito especiais, mas não se dava logo por isso, era preciso entrar nos
seus segredos, na sua intimidade.
A sabedoria é uma luz que se
acende no coração, não tem nada a ver com poderes, riquezas, abundância de
luxos exteriores.
É um luxo de dentro, uma espécie
de chama dentro da alma.
O Príncipe Feliz, como os velhos
lhe chamavam, fizera bem em fugir do palácio na cidade barulhenta, onde já
ninguém ouvia ninguém e até o Rei começara a ficar surdo. Por muito que se
gritasse ele não ouvia nada.
O morcego do vale gostava
especialmente das noites de lua nova. Voava durante mais tempo, saía mais cedo
e regressava mais tarde a casa do Príncipe Feliz. Agora era com ele que vivia,
fizera da casa de madeira a sua casa, abandonando de vez a caverna escura onde
outrora se escondia. Perdera o medo que tinha dos humanos.
O Príncipe gostava da sua
companhia, afinal era bom ter companhia, e ele começava a desconfiar que aquele
morcego era mais do que isso, havia ali algum mistério que ele um dia havia de
descobrir.
Tudo a seu tempo.Tirou a flauta
do bolso e começou a tocar e a cantar :
De aranhas não tenho medo
de lagartos muito menos
são discretos
coloridos
comem da minha mão
os insectos preferidos
só o morcego me inquieta
vivendo no meu telhado
quando de noite me espreita
inspirando algum cuidado
com as suas asas negras
de veludo e de mistério
voando pela floresta
até ao romper da aurora:
olha para mim e chora
chora até que adormece!
Não sei que fazer com ele
perguntarei aos meus velhos
o segredo que consola.
Foi então que o morcego, certa
noite, desdobrando as longas asas de veludo negro, revelou ao Príncipe o seu
mistério, a razão das suas lágrimas: não era um morcego, era uma jovem
princesa, metida naquele corpo nocturno que assustava tanta gente.
Era bela, não fazia mal a
ninguém, embora a ela alguém lhe tivesse feito muito mal. Estar presa naquele
corpo era o pior dos castigos.
Foram ambos ter com os velhos, a
pedir ajuda. Eles eram sábios, saberiam o que dizer e o que fazer.
Os velhos contaram então a sua
própria história, que era muito surpreendente:
O velho tinha sido há muitos e muitos
anos um feiticeiro-morcego, vivendo em terras distantes. Apaixonara-se por uma
bela princesa que, por amor, acedera a ser também ela transformada em morcego
para poder voar com ele.
Mas nem o rei dos feiticeiros nem
o rei pai da princesa gostaram daquela união.
Combinaram um castigo que fosse
lento e pesado: não teriam herdeiro (que só podia ser rapaz ) teriam só uma
filha, e também ela morcego, a menos que alguém a visse e amasse tal qual era.
Quanto ao par desobediente, o
feiticeiro e a princesa, só passados cem anos poderiam voltar à forma humana,
como a que tinham agora; e de cem em cem anos voltariam a transformar-se, ora
em morcegos ora em humanos, e assim por diante, para sempre. Seria este o
castigo.
Que estranho, arrepiou-se o
Príncipe. E o seu morcego quem era?
Pois era a filha dos velhos,
cumprindo a pesada pena de aguardar quem a amasse.
Como seria possível ? Poderia ele
transformar-se em morcego, ou a morcego-princesa em Princesa de verdade ? E por
quanto tempo ? Cem anos ?
A ideia de “para sempre” era algo
assustadora.
Mas na verdade, cem anos ou para
sempre...
O Príncipe já começara a
apaixonar-se por aquela jovem infeliz, que tinha escolhido a sua casa do vale
para ter alguma companhia.
Talvez pudessem viver juntos, ser
felizes assim, quem pode saber ao certo o que é ser ou não ser feliz? O nome
não quer dizer nada.
Como fazer do morcego uma mulher
perfeita? perguntou ele aos velhos seus bons amigos. Os velhos prometeram
pensar e ajudar, na medida do possível.
O Príncipe que esperasse pela
próxima lua nova.
Ele assim fez.
Noites a fio entreteve-se a tocar
na flauta as melodias que mais o comoviam. Melodias saudosas, pois a
jovem-morcego entretanto nunca mais o visitara. Teria fugido para sempre ? Se
calhar esperara dele melhores palavras de conforto e de amor, talvez mesmo
abraços de paixão. Mas abraçar um morcego...não era fácil, não lhe podiam levar
a mal.
Aranhas e lagartos tentavam
consolá-lo, enquanto ele tocava.
Mas de pouco servia.
Se o seu nome era Feliz, o dela
seria Felicidade, como se dizia no oriente...
FELICIDADE, era isso, devia ter
adivinhado logo, exclamado logo, quando ela dissera que era uma princesa
aprisionada!
Mas agora repetia vezes sem fim :
Felicidade, Felicidade...e iria libertá-la e seriam ambos felizes para sempre.
De que modo? Pois logo se veria.
Chegou a noite de lua nova.
O Príncipe lá se pôs a caminho,
em passo rápido, sem perder tempo, em busca dos
amigos protectores.
Estes já o aguardavam, à porta de
casa.
E junto deles a jovem
morcego-princesa, ou princesa-morcego, como prefiram dizer.
Felicidade! Felicidade ! exclamou
o Príncipe, correndo para ela. Percebi finalmente o que devia fazer! Lembrei-me
deste nome, que é o teu, viveremos juntos para sempre.
-Faz falta uma derradeira
transformação, Príncipe, disse o velho. Estarás pronto para ela?
-Sim. Sim a tudo o que me fôr
pedido.
-Pois então ouve bem: podemos
fazer com que vivas com a princesa, transformado em morcego, como ela, nos
próximos cem anos. Acontecerá contigo o que aconteceu comnosco, a mim e à minha
mulher. Tudo mudando sempre e para sempre de cem em cem anos, nunca depois,
nunca antes...
-Sim, sim. Não me arrependerei.
Então, quase ao nascer do sol e
antes que Felicidade tivesse de esconder-se de novo, algures na floresta, os
velhos foram com o Príncipe Feliz até uma das nascentes mais próximas e ali o
despiram, o banharam, o cubriram de seguida com um manto de veludo negro, lhe
deram asas e o fizeram voar.
Feliz e Felicidade, assim ficaram
a chamar-se os dois jovens morcegos que iriam habitar por mais de cem anos
naquele vale profundo da floresta longínqua.
Y.K.Centeno
Março 2008
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