Este é um livro que me chega às mãos de modo algo surpreendente, embora já tenha acontecido algo assim, uma vez ou outra.
Delicadamente, por e-mail, é a mulher do jovem escritor - digo jovem porque tem a idade do meu filho mais novo - e não é ele mesmo quem me pede para enviar o livro.
Gosto de ler, aceito sempre. Recebi o livro, vindo da Alemanha, onde me foi dito que vivem. Berlin, cidade onde estive tantas vezes, escrevi, fiz seminários, fui à ópera, ao teatro, passeei nas ruas, vi em 61 crescer o muro, as casas, de um dia para o outro e aceleradamente serem isoladas com tijolos, cimento, houve quem se atirasse da janela, para morrer no chão , o mundo ali dividiu-se de ume forma súbita e terrível. Anos depois, em viagem de estudo, visitei a RDA, íamos ver escolas e universidades, e nas livrarias comprávamos livros de arte mais baratos. Ouvir, só os discursos oficiais. Conversa normal não havia, havia medo. Voltei, já depois da queda do muro, e assisti à capacidade maravilhosa de renascer, de que a Alemanha fez prova, recuperando edifícios, criando espaços de Arte para bailarinos, pintores, que ocupavam alguns edifícios vazios e neles exibiam as suas actividades. Num desses conheci Sasha Walz, jovem em início de carreira como coreógrafa, hoje genialmente reconhecida e muito premiada. E vi na Akademie der Kuenste (não tenho umlaut, peço desculpa pela forma antiga de ortografar) Cesc Gelabert, a quem dediquei um poema, num dos meus livros. O brilho, a energia da luz de um corpo a solo, num espaço imprevisível. Enfim. Amo esta cidade onde não voltarei, e quem sabe se foi por saber que Fabio vive lá que me interessei pelo seu livro.
Capa bonita, simples, e que nas badanas não diz nada sobre quem é o autor, cidade onde nasceu, idade, etc.
Diz contudo que é músico, compositor, com formação electroacústica (em Colónia) e doutor em estética, ciências e tecnologias das artes (Paris 8), tendo dado inúmeros concertos no Brasil e na Europa, e recebido vários prémios. Fez ainda videos experimentais, apresentados na Suiça, uma Homenagem a Calder (França) e com este livro que tenho aqui à frente ganhou menção honrosa no Concurso de Literatura Cidade de Belo Horizonte em 2014.
Depreendo, embora ele não o diga, que seja brasileiro.
A sua prosa tem essa marca de originalidade, inova pela forma, são contos de prosa e imagens comprimidas em cerca de duas páginas, no máximo(arte difícil, como seria a exposição de um tema, antes das elaborações a solo de cada um, a seguir). Mas também podemos pensar que não são um tema, único, a viagem pelas palavras soltas dentro, ao modo onírico, livre, mas vários temas, interrompidos a meio e que logo poderão ser retomados.
Ou, como estamos perante a escrita de um compositor, que estes são os solos, derivas sobre algum tema exposto: a leitura, por exemplo, de notícia de jornal, reportagem de televisão, visita a um museu ou uma galeria de arte, experimentação própria, musical, de várias formas e em que o gesto, o som, desencadeiam o discurso de prosa poética, inacabada, ou puramente solta.
Um estilo que de tão aparentemente descritivo, como se o dito fosse de facto vivido, e com datas no fim a assinalar o lugar ( o espaço) e o momento (o tempo), deixaram-me pensativa.
Pelas datas, lugares e tempos, parece que andou pelo mundo inteiro: que idade teria este este músico escritor? O texto mais antigo, datado de 1970...e os outros por aí fora, até à brincadeira de um "romance" em Tóquio, 2039...
Pensei, enquanto ia lendo: se é velho, foi embaixador? Se é jovem, viajou com o pai, ou com alguma ONG?
É claro que procurei informação, no google, a enciclopédia e a polícia do mundo. E ainda fui ver se tinha facebook, que toda a gente tem.
Vi então que nasceu em 1971, um ano mais novo do que o meu filho mais novo, João, que também é músico, de jazz, com formação nos Estados Unidos, e anda, como este Fabio, já pelo mundo inteiro, e há muito tempo. Deixo a indicação, quem sabe se virão a encontrar-se, o João (ver João Moreira, tem página oficial no face) é também ele múltiplo nos interesses e práticas musicais. Hoje está em Paris, com o António Zambujo...
Mas (ao menos por enquanto, não escreve).
Mas voltando aos contos do Fabio: espero que sejam divulgados em Portugal: inovam, pela escrita, e não apenas pela forma tão concisa, de como quem diz, não se cansem, leiam apenas um pouco, de preferência repousem a seguir, pois vem lá mais...viagem, como fiz pelas inscrições de lugares e datas, num tom que parece ser sério e é só de brincadeira.
Pois como posso ter escrito antes de nascer? Há uma lição nesta escrita: a mão de um imaginário livre, é a prosa que se constitui como espaço e tempo, os detalhes, não sendo verdadeiros, quem sabe se poderiam sê-lo, tudo é pura "onda", pura energia em movimento, somos atravessados por ela, e o que nasce da nossa mão ou já foi antes ou virá a ser, negra poeira cósmica.
De algum magma secreto se formará, uma vez e outra, como aqui, neste caso, um outro Verbo.
Escolho uma citação do autor, do conto Hálito, para acabar:
"O homem fala e constitui o mundo, através da fala, literalmente
(...) falar é criar o mundo, fundá-lo, estabelecê-lo, edificá-lo, compô-lo, segundo consta foi a primeira tarefa de Deus: e haja isto e houve, e haja aquilo e mais aquilo e houve também, conforme proferiu o mundo assumiu suas respectivas qualidades e atribuições. Quase tudo: no sexto dia Ele criou o homem, criatura à parte, precisou de algo mais, - precisou soprar algo em suas narinas, a Sua alma, a própria, ou parte dela ao menos, da seguinte forma: um pedaço de maçã mordido na boca de alguém e arrancado do todo é uma parcela que corresponde integralmente àquilo que restou do fruto e que a mão ainda segura. Ou dito outramente: assim como aquilo que constitui a maçã está igualmente dentro e fora da boca, e não há contradição nisso, a alam Dele está dentro de nós e fora também. Exalar nosso ar ao falar, bem do fundo de nós para restituir ao mundo em maravilhosa gratidão o sopro que em nosso início Ele nos concedeu(...) fazer nós também como Ele para constituir nosso pequeno mundo conforme Sua grande vontade, e descansar no sétimo dia" .
(p.69)
Mas este lirismo sublime, que não nos mistifique, pensando que nada haverá de mais interessante: logo no Romance ele desenha a utopia que no Japão de 2039 lhe permitirá dormir com uma boneca de corpo e de pele tão perfeita, que nada lhe faltará, e muito menos uma Eva das de outrora, Evas tão imperfeitas...
Sim é um livro para ler, para pousar e abrir de novo, e viajar pelo sabor de um português tão nosso, mas melhor!
Sunday, September 04, 2016
Saturday, August 27, 2016
O Morcego do Vale
Escrevi este conto para ser lido à noite, no escuro do Alentejo, pelas netas...
Aqui fica, um dia será ilustrado....
Aqui fica, um dia será ilustrado....
O MORCEGO DO VALE
Era uma vez um
Príncipe...
Reparem, muitas histórias começam
assim, com Era uma vez, e a seguir um
Rei, ou Rainha, ou Príncipe ou Princesa...
Fazem-nos entrar num mundo de
encantamento, onde tudo pode acontecer, de bom ou de mau.
Mas preferimos que tudo o que
venha a acontecer não seja assim tão mau...
Dizemos que as histórias, se
possível, devem ter um final feliz. Mas claro, há muitos modos de felicidade,
há muitas maneiras de acabar uma história. Por vezes o final da história escapa
ao que tínhamos pensado, e a história, com os seus príncipes e princesas, acaba
como entende e nada podemos fazer contra isso.
Por exemplo, na história da Casinha de Chocolate, os meninos, depois
de matarem a bruxa má, empurrando-a para dentro do fogão carregado de lenha,
voltam para casa. Mas não teriam gostado mais, se calhar, de ficar ali a comer
todo o chocolate que havia por dentro e por fora da casa? Eu ficava ali um
bocadinho a comer chocolate! Mas claro, eu não estava nessa história, não podia fazer nada, as
histórias são assim mesmo, como cada um gosta de as contar.
Voltando ao nosso Príncipe:
Era uma vez um Príncipe que
resolveu sair do seu palácio na cidade, porque a cidade se tinha tornado tão
grande e tão barulhenta que não o deixava ouvir o canto dos seus pássaro
preferidos no jardim.
O jardim era grande, mas a cidade
com o seu barulho de carros, autocarros e
aviões tinha-se tornado ainda maior : ensurdecedora.
Os melros apareciam ao fim da
tarde, mas o Príncipe não dava por eles, e era pena. Dos rouxinóis nem se fala,
andavam muito ofendidos, por já não conseguirem que se ouvisse os maravilhosos
trinados de tenor e mesmo de contratenor, chilreios ainda mais raros.
O Príncipe podia ter pedido ao
Rei que multasse ou mesmo proibisse a entrada de tanto carro e autocarro na
cidade. As pessoas que andassem de metro, um transporte mais limpo, dizia-se, e
mais rápido. E os Reis podiam mandar o que quisessem: eram reis...
Mas não.
Preferiu ir-se embora para
longe. Sendo um Príncipe do ocidente
preferiu procurar o oriente.
Saiu do palácio às escondidas,
numa bela noite de luar, sem dizer nada a ninguém, para que não insistissem com
ele: fica, meu filho, fica, veremos o que se pode fazer, para ouvires melhor os
pássaros do jardim. Repara, eles não se foram embora, ficaram e cantam,
aguardam...
Mas o Príncipe era impaciente,
não queria esperar e foi-se mesmo embora.
O Rei não viveria sozinho. No
palácio havia ainda a Rainha, a pequena Princesa de belas tranças compridas que
ele gostava de puxar, havia ainda o Preceptor, um maçador que lhe dava aulas,
falava, falava, nunca os ouvia a ele e a irmã, nunca os deixava espreitar pela
janela, nunca os deixava perguntar coisa nenhuma, se tinham percebido, se era
preciso explicar um pouco melhor, enfim. O que o Preceptor gostava era de fazer
queixa ao Rei e de os pôr de castigo, proibindo-os de brincar lá fora no
jardim. Ora o jardim era a alegria do Príncipe.
Mas aqui tenho de dar uma opinião:
Os meninos, sejam Príncipes ou
Princesas, devem todos estudar, estudar como deve ser, aprender a ler, a
escrever bem, a contar, sabendo as tabuadas de cor e tudo o mais que fôr
preciso, para não crescerem sem educação, sem inteligência, sem imaginação e
sem competência (o que mais tarde pode criar grandes dificuldades na vida).
A vida não é só feita de rosas,
há muitos espinhos por aí espalhados.
O Preceptor só fazia mal em ser
queixinhas. Esse é um grande defeito que ele podia corrigir. Talvez com tempo.
A noite em que o Príncipe fugiu
era uma noite de luar, o céu parecia de veludo.
Recordando as aulas de astronomia
( afinal nem tudo era mau nas aulas do Preceptor ) procurou orientar-se pelas
estrelas : queria seguir o caminho das montanhas que se encontravam a leste. A
sua busca era do oriente.
Andou e andou, durante dias e
dias, até gastar os sapatos que trouxera calçados do palácio.Tinha dinheiro no
bolso, comprou botas de andarilho. Assim ficava melhor.
Bebeu água das fontes e riachos,
comeu fruta das árvores do caminho, até que chegou, sem saber como, a um vale
enevoado, escondido entre duas montanhas tão altas que não seria fácil que o
procurassem ali.
É aqui mesmo que fico : pensou,
disse, e melhor o fez.
Com os ramos das árvores ergueu
uma casa de troncos de madeira. Fez-lhe um tecto de canas de bambú, que depois
cobriu com folhas grandes de bananeira.
Quando tinha fome ia comendo bananas, um óptimo alimento, que alguns macacos
que por ali andavam também gostavam de comer.
Não sei se já disse, o Príncipe
agora estava no oriente.
Não havendo mais ninguém a viver
à sua volta, o Príncipe não precisava de fazer portas nem janelas.Tudo era, na
casa, um belo espaço aberto, onde se sentiria plenamente livre e realizado. A
temperatura era sempre amena, só acendia lenha para cozinhar alguma erva, algum
legume ou raiz que lhe viesse à mão.
Interrompo oura vez:
Será possível alguém viver só,
para sempre, e julgar-se feliz e
realizado? Não precisaremos dos outros, do seu olhar, da suas reacções, para
percebermos melhor o que somos de verdade, o que fazemos da nossa vida? Não há
histórias felizes sem que possamos somar mais alguém e mais alguma coisa à
nossa vida.
Continuando, com o Príncipe:
De verdade ele sentia-se bem
assim, mergulhado na natureza, naquele vale profundo, de vegetação tropical,
abundante, que o escondia por completo.
Não tinha saudades do palácio e
ainda menos da agitação barulhenta da cidade de que fugira à sucapa.
Ah, mas sentia falta do canto dos
seus pássaros.
Pena que não fossem aves
migratórias, para que o pudessem seguir...mas não. Melro é melro, rouxinol é
rouxinol, não há nada a fazer. Ficaram lá, com os seus outros companheiros. Os
pavões, por exemplo. Mas ele detestava o grito dos pavões.
Teve então uma ideia.
Procurou uma cana com que fez uma
flauta.
Ao nascer e ao pôr-do-sol
sentava-se junto à casa, tocando as melodias de que se lembrava, algumas de
suaves trinados, como os do rouxinol, outras mais complicadas, mas todas do seu
agrado, fazendo recordar o seu jardim de outrora.
Reparou que sempre que se sentava
a tocar havia animais que se aproximavam dele.
Aranhas, lagartos de várias cores
e tamanhos, e um dia até mesmo um morcego gigante que o deixou intrigado. Havia
ali morcegos daquele tamanho? Mas não metia medo. Pareceu-lhe apenas curioso,
atento, simpático, se é que se pode achar logo simpático um morcego tão grande.
Trazia fruta na boca e o Príncipe viu assim que ali naquele vale, para além das
bananas que tinha comido, poderia encontrar outras árvores de fruta e outros
alimentos. Porque aranhas e lagartos não era coisa de que ele fosse gostar e
muito menos comer...
Ah, ficarei aqui para sempre,
suspirou.
A menos...
A menos que este morcego não seja
um mamífero, mas um demónio encantado, um vampiro sugador de sangue, que esteja
a fingir que gosta da minha música mas na verdade deseje apenas morder-me o
pescoço e matar-me, quando eu estiver distraído. Aquela fruta na boca pode ser
um disfarce...
O Príncipe lembrava-se de ter
lido nos livros do palácio, que o Preceptor lhe fazia estudar, que os franceses
chamavam aos morcegos ”ratos carecas“ ! Era injusto, era depreciativo.
O morcego que o visitava parecia
um rato, mas não era careca. Era um rato voador, embrulhava-se nas longas asas
quando queria dormir, sempre de dia, e só à noite a fome e a curiosidade o
levavam a grandes passeios pelo vale. Era assim que ele acabava por ir ter com
o Príncipe.
Foram ficando amigos, pois também
o morcego gostava da casa de madeira com o seu tecto de canas e de folhas e o
Príncipe apreciava cada vez mais aquele convívio com os vários bichos que o iam
rodeando, ora de dia ora de noite.
As aranhas fugiam dele,
escondiam-se nos cantos, aguardando insectos distraídos que pudessem prender
nas suas teias; os lagartos eram mais atrevidos, mas o que preferiam era ficar
ao sol, a aquecer enquanto o sol não se punha. Esticavam-se ao comprido nas
pedras que lhes serviam de cama. Ficavam assim horas, a preguiçar, meio
adormecidos.
O Príncipe, com o passar do
tempo, habituara-se a fazer longas caminhadas pela floresta, pelo vale, pelos
caminhos sinuosos das montanhas que o protegiam do mundo.
Num desses longos passeios
descobriu uma aldeia onde só havia uma casa, parecida com a sua, mas com portas
e janelas fechadas. Era junto de um riacho onde ele estivera a beber.
À roda da casa havia buganvílias
coloridas, muitas, como que a fazer uma coroa de protecção.Lá dentro vivia um
casal de velhos.Pareciam ter mais de cem anos, a côr da pele era da côr da
madeira da casa, mas o seu olhar não assustava, era doce e amigável.
O Príncipe pensou: será que o
morcego, de noite, também os visita, como faz comigo?
Afinal, há só estas duas casas
nesta floresta e neste vale imenso...
Os velhos, ao abrir a porta,
perguntaram, és tu o Príncipe Feliz ? E o Príncipe respondeu: na verdade bem
pode ser esse o meu nome. Feliz é como me sinto, só posso ser eu, então.
E assim foi.
O Príncipe lembrou-se de que
também nos seus livros do palácio se falava dos morcegos do oriente e de que
aí, no oriente, o nome que lhes davam era
FELICIDADE. Um oriental nunca ofenderia um morcego com um nome tão
humilhante como o do francês, que o deixara chocado pela falta de consideração.
Outras culturas, dissera o
Preceptor. Os orientais são muito mais delicados, mais sensíveis.
O Príncipe voltou uma e outra
vez, nos seus passeios, a casa dos velhotes, que o recebiam sempre com boa
disposição, lhe davam de beber água fresca do riacho, boa fruta, boa comida
fresca, preparada de propósito para ele: sopa de legumes, uma ou outra ave
selvagem e até, certa vez, guisado de pernas de rã. Mas o Príncipe pediu: só legumes,
por favor, a carne não me cai bem, tornei-me vegetariano graças ao exemplo do
morcego que me faz companhia.
Conhecem o morcego do vale?
perguntou.
Conhecemos, ele também é nosso
amigo.
Os velhos tinham de facto mais de
cem anos.
Eram velhos e eram sábios, apesar
da sua aparente pobreza e humildade. A sabedoria esconde-se de muitas maneiras
e, como se diz no refrão, nem tudo o que parece é... Eles na realidade eram
pessoas muito especiais, mas não se dava logo por isso, era preciso entrar nos
seus segredos, na sua intimidade.
A sabedoria é uma luz que se
acende no coração, não tem nada a ver com poderes, riquezas, abundância de
luxos exteriores.
É um luxo de dentro, uma espécie
de chama dentro da alma.
O Príncipe Feliz, como os velhos
lhe chamavam, fizera bem em fugir do palácio na cidade barulhenta, onde já
ninguém ouvia ninguém e até o Rei começara a ficar surdo. Por muito que se
gritasse ele não ouvia nada.
O morcego do vale gostava
especialmente das noites de lua nova. Voava durante mais tempo, saía mais cedo
e regressava mais tarde a casa do Príncipe Feliz. Agora era com ele que vivia,
fizera da casa de madeira a sua casa, abandonando de vez a caverna escura onde
outrora se escondia. Perdera o medo que tinha dos humanos.
O Príncipe gostava da sua
companhia, afinal era bom ter companhia, e ele começava a desconfiar que aquele
morcego era mais do que isso, havia ali algum mistério que ele um dia havia de
descobrir.
Tudo a seu tempo.Tirou a flauta
do bolso e começou a tocar e a cantar :
De aranhas não tenho medo
de lagartos muito menos
são discretos
coloridos
comem da minha mão
os insectos preferidos
só o morcego me inquieta
vivendo no meu telhado
quando de noite me espreita
inspirando algum cuidado
com as suas asas negras
de veludo e de mistério
voando pela floresta
até ao romper da aurora:
olha para mim e chora
chora até que adormece!
Não sei que fazer com ele
perguntarei aos meus velhos
o segredo que consola.
Foi então que o morcego, certa
noite, desdobrando as longas asas de veludo negro, revelou ao Príncipe o seu
mistério, a razão das suas lágrimas: não era um morcego, era uma jovem
princesa, metida naquele corpo nocturno que assustava tanta gente.
Era bela, não fazia mal a
ninguém, embora a ela alguém lhe tivesse feito muito mal. Estar presa naquele
corpo era o pior dos castigos.
Foram ambos ter com os velhos, a
pedir ajuda. Eles eram sábios, saberiam o que dizer e o que fazer.
Os velhos contaram então a sua
própria história, que era muito surpreendente:
O velho tinha sido há muitos e muitos
anos um feiticeiro-morcego, vivendo em terras distantes. Apaixonara-se por uma
bela princesa que, por amor, acedera a ser também ela transformada em morcego
para poder voar com ele.
Mas nem o rei dos feiticeiros nem
o rei pai da princesa gostaram daquela união.
Combinaram um castigo que fosse
lento e pesado: não teriam herdeiro (que só podia ser rapaz ) teriam só uma
filha, e também ela morcego, a menos que alguém a visse e amasse tal qual era.
Quanto ao par desobediente, o
feiticeiro e a princesa, só passados cem anos poderiam voltar à forma humana,
como a que tinham agora; e de cem em cem anos voltariam a transformar-se, ora
em morcegos ora em humanos, e assim por diante, para sempre. Seria este o
castigo.
Que estranho, arrepiou-se o
Príncipe. E o seu morcego quem era?
Pois era a filha dos velhos,
cumprindo a pesada pena de aguardar quem a amasse.
Como seria possível ? Poderia ele
transformar-se em morcego, ou a morcego-princesa em Princesa de verdade ? E por
quanto tempo ? Cem anos ?
A ideia de “para sempre” era algo
assustadora.
Mas na verdade, cem anos ou para
sempre...
O Príncipe já começara a
apaixonar-se por aquela jovem infeliz, que tinha escolhido a sua casa do vale
para ter alguma companhia.
Talvez pudessem viver juntos, ser
felizes assim, quem pode saber ao certo o que é ser ou não ser feliz? O nome
não quer dizer nada.
Como fazer do morcego uma mulher
perfeita? perguntou ele aos velhos seus bons amigos. Os velhos prometeram
pensar e ajudar, na medida do possível.
O Príncipe que esperasse pela
próxima lua nova.
Ele assim fez.
Noites a fio entreteve-se a tocar
na flauta as melodias que mais o comoviam. Melodias saudosas, pois a
jovem-morcego entretanto nunca mais o visitara. Teria fugido para sempre ? Se
calhar esperara dele melhores palavras de conforto e de amor, talvez mesmo
abraços de paixão. Mas abraçar um morcego...não era fácil, não lhe podiam levar
a mal.
Aranhas e lagartos tentavam
consolá-lo, enquanto ele tocava.
Mas de pouco servia.
Se o seu nome era Feliz, o dela
seria Felicidade, como se dizia no oriente...
FELICIDADE, era isso, devia ter
adivinhado logo, exclamado logo, quando ela dissera que era uma princesa
aprisionada!
Mas agora repetia vezes sem fim :
Felicidade, Felicidade...e iria libertá-la e seriam ambos felizes para sempre.
De que modo? Pois logo se veria.
Chegou a noite de lua nova.
O Príncipe lá se pôs a caminho,
em passo rápido, sem perder tempo, em busca dos
amigos protectores.
Estes já o aguardavam, à porta de
casa.
E junto deles a jovem
morcego-princesa, ou princesa-morcego, como prefiram dizer.
Felicidade! Felicidade ! exclamou
o Príncipe, correndo para ela. Percebi finalmente o que devia fazer! Lembrei-me
deste nome, que é o teu, viveremos juntos para sempre.
-Faz falta uma derradeira
transformação, Príncipe, disse o velho. Estarás pronto para ela?
-Sim. Sim a tudo o que me fôr
pedido.
-Pois então ouve bem: podemos
fazer com que vivas com a princesa, transformado em morcego, como ela, nos
próximos cem anos. Acontecerá contigo o que aconteceu comnosco, a mim e à minha
mulher. Tudo mudando sempre e para sempre de cem em cem anos, nunca depois,
nunca antes...
-Sim, sim. Não me arrependerei.
Então, quase ao nascer do sol e
antes que Felicidade tivesse de esconder-se de novo, algures na floresta, os
velhos foram com o Príncipe Feliz até uma das nascentes mais próximas e ali o
despiram, o banharam, o cubriram de seguida com um manto de veludo negro, lhe
deram asas e o fizeram voar.
Feliz e Felicidade, assim ficaram
a chamar-se os dois jovens morcegos que iriam habitar por mais de cem anos
naquele vale profundo da floresta longínqua.
Y.K.Centeno
Março 2008
Tuesday, August 23, 2016
Herberto Helder, OS POEMAS COMPLETOS
Herberto Helder, A Morte sem Mestre, para Leonardo Chioda
1
Publicado em 2014, um ano
antes da sua morte, com a indicação do editor de que se tratava de um conjunto
de poemas inéditos, a seguir incluídos na nova edição da Obra Completa, penso
que mesmo assim, e porque um poeta escreve ao longo da sua vida sempre o mesmo,
interminável poema...(o próprio Herberto era o que fazia, ao emendar e emendar
poemas acabados de editar, emendas à mão, nos livros enviados a este ou aquele
amigo...) mesmo assim, digo, entendo que para nos ocuparmos destes últimos
poemas vale a pena ler os primeiros, ver o que ficou de uns para outros, ao
longo dos anos que foram passando. Fiz esta experiência com Paul Celan, quando
saiu a edição crítica dos primeiros poemas - e neles encontrei o embrião do que
viriam a ser temas centrais da sua futura escrita poética.
O mesmo fiz com Pessoa, da
poesia juvenil, todo um núcleo de preocupações se mantiveram ao longo da vida,
dispersas pelos heterónimos, e sobretudo por Pessoa ele mesmo.
Um poeta como Herberto
Helder, viajado, lido, a par do que se fazia no seu tempo, leu certamente Paul
Celan e pode estar aqui a chave do título que deu a esta Morte sem Mestre:
Celan falara do negro Mestre da Morte, ainda que em situação bem diferente.
A Morte de que falará Helder
é a sua, a de um poeta que envelheceu, sofre com a perda de um corpo que foi
amado e amante, sofre com o que mais receia, a perda dos seus grandes mitos,
travessias de palavras luminosas, rosas ferindo a carne com os seus temíveis espinhos,
um feminino riso, sangrando e já eterno sobre uma campa vazia. Banalizada,
vandalizada, a palavra, num Verbo, numa voz que definhou: é essa a morte que
espreita, que aguarda, e de Mestre nada tem. Não é preciso Mestre para
morrer...é condenação natural, ainda que a sintamos como violência contra
natura.
Não é Manifestação divina,
ainda que negra, de tão ausente e temida
- como a de Paul Celan.
É um palhaço risível, em que
não se acredita, e se desbunda sobre um corpo já meio decomposto.
Da Colher na Boca , de imagens torrenciais, em que rosas e sangue se
misturam e tudo parece rio, um enorme rio de memórias vividas, até à secura de
um deserto que é sentido na boca, a boca que já quase não se abre, e não dirá
nem mais uma palavra.
Valerá a pena recordar, de
passagem, o percurso de Herberto Helder, pelas letras que amou, com os
surrealistas, a escrita automática, a poesia experimental, o futurismo
combinatório da sua electrónico-lírica:tudo ampliado na química do seu
imaginário.
Em a Electrònicolírica (Guimarães Editores, 1964), conjunto de poemas
dedicados a António Aragão e António Ramos Rosa, seus primeiros leitores, é
ainda a experimentação, o ritmo, o som do que vai correndo pela mão que
escreve, que mais nos surpreende.
E a seguir o exercício combinatório
a que se refere na nota final do livro, em que nos remete para a experiência,
feita em 1961 em Milão, de Nanni Balestrini:
"O autor destes
poemas", diz Herberto, "aproveitou da referida experiência o
princípio combinatório geral nele implícito.
Assim, utilizando um limitado
número de expressões e palavras mestras, promoveu a sua transferência ao longo
de cada poema, sem no entanto se cingir a qualquer regra. Sempre que lhe
apeteceu, recusou os núcleos vocabulares iniciais e introduziu outros novos, que
passavam a combinar-se com os primeiros ou simplesmente entre si.
Devido ao uso de restrito
número de palavras, as composições vinham a assemelhar-se, nesse aspecto, a
certos textos mágicos primitivos, a certa poesia popular, a certo lirismo
medieval. A aplicação obssessiva dos mesmos vocábulos gerava uma linguagem
encantatória, espécie de fórmula ritual mágica, de que o refrão popular é um
vestígio e de que é vestígio também o paralelismo medieval, exemplificável com
as cantigas dos cancioneiros.
O princípio combinatório é,
na verdade, a base linguística da criação poética" (p.49-50).
Para além da cultura literária de que Herberto
Helder faz prova (mas nunca um grande poeta poderia não ser culto...e nos anos
sessenta a cultura que íamos buscar e absorver em todo o lado era também um
gesto de ruptura, uma libertação, o afrontamento à opressão cultural da
Ditadura...) o mais interessante é o seu modo de se apropriar de experiências e
modelos outros, de os assimilar, de os fundir numa linguagem que é a sua, e em
que a manifestação do inconsciente é ela mesma "princípio
combinatório"...
Em O CORPO O LUXO
A OBRA, editado pela e ETC. em 1978, com a indicação de que se trata de
um folheto, para nos surpreender bastaria a contraposição das imagens arrancadas
por vezes brutalmente a uma linguagem que parece que nos surge do Nada, da
Vazio, do Abismo que só Deus poderia conter:
E é cruel
surpreender
a inocência
frenética, a taciturna doçura
com que
devora:
às vezes
a força dos
rostos que tem contra Deus.
Assim:
o nervo que
entrelaça a carne toda,
de estrela a
estrela da obra.
(p. 18-19)
Carne e estrela, matéria e
espírito, no caos que o poeta sabe ordenar em cosmos.
E de novo, na nota final, nos
deixa a indicação de que ali se tratou, nessa sua escrita mágica só
aparentemente casual, de um "ouro natural e vivo", do erguer de uma
árvore cujas raizes estão plantadas no alto, a Árvore da Vida que a todos
alimenta.
Diz ainda: "A
transmutação é o fundamento geral e universal do mundo. Alcança as coisas, os
animais e o homem com o seu corpo e a sua linguagem. Trabalhar na transmutação,
na transformação, na metamorfose, é obra própria nossa" .
Um alquimista não diria
melhor. E Herberto não esconde o seu saber, neste caso bebido na Tábua de Esmeralda de Hermes
Trismegisto.
E acrescenta, já na
elaboração do que entende ser o domínio do simbólico:
" No âmbito das funções
e valores simbólicos, o poema é o corpo da transmutação, a árvore do ouro, vida
transformada: a obra. O poema faz-se com o corpo, no corpo, de baixo até cima,
sagitariamente. Ou num ininterrupto circuito zodiacal".
Nós somos a carne de Deus, o
corpo em que Ele se reconhece, adquire consciência mais clara de Si Mesmo, como
se descobre no Antigo Testamento, nos tormentos de Job. Do mesmo modo é carne
do poeta o seu poema, é o seu corpo transmutado em linguagem, o dizer de um
Verbo que também se deseja re-conhecer, redescoberto ainda que em sofrimento,
em parte da Eternidade.
Em Servidões, agora antecedendo a Morte
sem Mestre na edição dos Poemas Completos, de que me sirvo, já a Morte está
muito presente (para não dizer sempre) e Herberto nos deixa, a seu modo,
subtilmente erudito, um Testamento evocador da Ballade des Pendus, de Villon, que este grande poeta do século XV,
considerado o fundador da moderna poesia francesa, terá escrito quando foi
condenado à morte por enforcamento, em 1463. Amnistiado, não morrerá. Com o
título de l'Épitaphe Villon (na
edição completa da Obra), é a XIV do conjunto das célebres baladas, muitas
vezes chamada de Balada dos Enforcados.
Frères
humains qui après nous vivez,
N'ayez les coeurs contre nous endurcis,
Car, si pitié de nous pauvres avez,
Dieu en aura plus tôt de vous mercis.
....
É dela que Herberto Helder
retoma o lamento, e o apelo que, a seu modo, é agreste e mesmo sem perdão (não
haverá perdão para velhice e morte...):
irmãos humanos que depois de mim vivereis,
eu que fui obrigado a viver dobrados os oitenta,
fazei por acabar mais cedo vossos trabalhos cegos,
porque nestas idades já não nunca,
nem leituras embrumadas,
nem crenças, nem política das formas, nem poemas
nofuturo,
nem
visitas extraterrestres de mulheres,
exorbitantemente
nuas, cruas, sexuais, luminosas,
só v~e-las um pouco, sim, mas vê-las também cansa,
é como trabalhar: stanca,
lavorare stanca,
....
livros, je les ai lus tous, e como de costume a carne
é insondável,
estou mais pobre do que ao começo,
....
irmãos futuros do génio de Villon, e do meu género
baixo,
não peçopiedade, apenas peço:
não me esqueçais só a mim, esquecei a geração inteira,
inclitamente vergonhosa,
que em testamento vos deixou esta montanha de merda:
o mundo como vontade e representação que afinal é como
era,
como há-de ser: alta,
alta montanha de merda,-trepai por ela acima até à
vertigem,
merda eminentíssima:
daqui se vêem os mistérios, os mesteres, os
ministérios,
cada qual obrando a sua própria magia:
merda que melhor há-de medrar na memória do mundo
(p.688-89)
Terminar com mais uma
referência, Schopenhaeur e a sua obra mais marcante, não é acaso, é de novo
amarga desilusão.Não há "milagres da rosa " na velhice, no
desapontamento perante a vida e sua circunstância, e ainda menos no antecipado
já torpor da morte.
Villon ainda tem o remorso, o
perdão que deseja.
Herberto não quer perdão, nem
para si nem para mais ninguém.
O crime é viver demais.
2
TodesFuge /Fuga da Morte
Este é talvez o mais célebre
dos poemas de Paul Celan, publicado em 1948, e carregado ainda de todo o horror
que conheceu nos campos de concentração de que acabou por ser libertado, em
1945, no fim da guerra, mas de cuja memória nunca se libertou. Não é por acaso
que um dos primeiros e mais belos ciclos de poemas se chama precisamente Papoila e Memória.
O vermelho do sangue, a
memória do tempo.
A poesia de Celan ganha em
ser lida, como observa João Barrento no prefácio à nossa tradução de Sete Rosas Mais Tarde, "à luz das
muitas traduções de poetas que fez desde que se instalou em Paris"
(p.XXXIII). Mas sem que isso impeça o confronto com a sua própria prática
poética, o seu trabalhar numa língua que adopta como sua, não o sendo de
verdade, pois é a língua do inimigo. Quem sabe se por isso mesmo lhe ganha uma
proximidade que é ao mesmo tempo distância e sofrimento, interrogação
permanente. Barrento cita outros poetas tradutores, como no caso português
Jorge de Sena ou Herberto Helder (ibid.)
para sublinhar que a poesia de quem traduz poetas adquire uma marca peculiar. O
que o leva a citar a frase de Celan: "Sou tu quando sou eu", ou seja,
quanto mais fiel a si mesmo, na descoberta e tradução do outro, mais perto do
outro estará, na fidelidade desejada. E o inverso também será verdade...
Inserido no meio artístico da
época (casou com Gisèlle l'Estrange, artista plástica) conheceu e conviveu com
poetas como René Char, a quem dedica um poema, Henri Michaux, Cocteau, Picasso,
Valéry, Supervielle, traduziu ainda Pessoa, Shakespeare e Rimbaud, para citar
apenas estes.
Há vestígios, na sua poesia,
de um gosto de escrita livre, de tons surrealistas, mas em que o discurso do
sonho é abafado por negros pesadelos.
Para estabelecer alguma
ligação, ainda que incipiente, à obra de Herberto Helder, A Morte sem Mestre, teríamos que recuperar do seu poema da Fuga da Morte os elementos de
circularidade e repetição alternada que Herberto também escolhe para a sua Electrònicolírica.
A magia, o mistério, resultam
da repetição encantatória do verso que abre com o "leite negro da
madrugada" no seguimento da narrativa que nos descreve um homem que numa
casa brinca com serpentes e escreve ao anoitecer para a Alemanha...
O leite negro é bebido a toda
a hora, numa repetição cadenciada e sem limites, os restantes versos vão sendo
alternados, de forma aleatória (mas só em aparência) transportando o mesmo
funéreo sentido de uma dança da Morte, sendo que a Morte é o Mestre (em alemão
o substantivo é masculino) e ali se comanda um destino a que ninguém pode
fugir.
De cabelos de oiro ou de
cabelos de cinza, ali o rosto feminino de Deus, o da Misericórdia, está
ausente.
Vejamos uma parte do poema,
em que Celan, com negra ironia, toma para si a Arte da Fuga, que Bach elevou
até um inexcedível requinte musical:
Fuga da Morte
Leite negro da madrugada
bebemo-lo ao entardecer
bebemo-lo ao meio-dia e pela
manhã bebemo-lo de noite
bebemos e bebemos
cavamos um túmulo nos ares aí
não ficamos apertados
Na casa vive um homem que
brinca com serpentes escreve
escreve ao anoitecer para a
Alemanha os teus cabelos de oiro Margarete
escreve e põe-se à porta da
casa e as estrelas brilham
assobia e vêm os seus cães
assobia e saem os seus judeus
manda abrir uma vala na terra
ordena-nos agora toquem para
começar a dança
Leite negro da madrugada
bebemos-te de noite
bebemos-te pela manhã e ao
meio-dia bebemos-te ao entardecer
bebemos e bebemos
Na casa vive um homem que
brinca com serpentes escreve
escreve ao anooitecer para a
Alemanha os teus cabelo de oiro Margarete
Os teus cabelos de cinza
Sulamith cavamos um túmulo nos ares
aí não ficamos apertados
Ele grita cavem mais fundo no
reino da terra vocês aí e vocês outros
cantem e toquem....
(p.15-19)
Adiante se descrevem os olhos
azuis do homem, e se repetem em cadência que amplia ainda mais o horror, os
versos do leite negro que se bebe a toda a hora, dos cães que são atiçados para
matar, das balas de chumbo certeiro, das serpentes com que o homem brinca, e
dos cabelos, uns de oiro, outros de cinza, no sonho da morte que é um mestre
que veio da Alemanha...
Adorno, que escrevera que
depois do Holocausto nunca mais se poderia escrever poesia, lendo Celan
percebeu que se podia, e devia: cada verso um dedo apontado, cada verso uma
acusação fatal, um grito que ninguém mais sufocaria.
3
Herberto Helder, da nossa
tradição nacional, conheceu vários Mestres: Cesário Verde, um deles, nas
palavras de Fernando Pessoa ( o olhar coloquial sobre o mundo, sobre o
quotidiano rural ou citadino) e Alberto Caeiro, assim definido como heterónimo
iniciador pelo próprio Pesoa, fosse a sério ou a brincar, ao gosto modernista,
sensacionista.
O Mestre, em Pessoa, é o
resumo de todo um sistema poético e não uma figuração concreta e objectiva de
um tenebroso Mal, no limite do impossível dizer, como em Celan.
Já em Herberto Helder surge um outro discurso, o do
corpo, o da carne (que em Pessoa e Cia. não existe) que, mesmo transfigurada no
dizer dos poemas, não lhe trará afinal nenhuma redenção. E Herberto, com raiva,
queixa-se disso, como se a eternidade sem decadência do corpo a ele lhe fosse
devida...
É triste morrer velho, morrer
de tanta velhice, mal vivida, e com plena consciência da fronteira inevitável
que é forçado a transpôr.
O Homem é o que é: um simples
ser sofrido, carne martirizada, a Morte não é seu Mestre, é o seu ponto final,
nele, que fora exemplo perfeito de Obra Aberta, quando primeiro se rasgou o
clarão de uma escrita poética incontornável e incontida.
Neste último texto, A Morte sem Mestre, escrito com a revolta
da antecipação da efemeridade humana, presente e sua, não dos outros, não
poética (essa ele sabe que será como a de Pessoa bem mais duradoura, um porque
se desdobrou em tanto pensamento e tantas vozes, outro, ele, porque não houve palavra que não tentasse devorar, carnívoro e
violento como se foi tornando, centrípeto em cada verso tomado de assalto, em
cada corpo, juvenil ou maduro, atirado para
o ponto mais excêntrico de si mesmo.
Todo o poeta é egoísta, pois
é em cada momento o centro mais negro de si mesmo, o Abismo de que falaram os
místicos e também para eles foi um Negro abismal, opaco, sem esperança
-enquanto durou.
Mestres de Herberto foram
nesta última fase os anárquicos como o Luiz Pacheco de Comunidade, AntónioAragão, Alberto Pimenta (o do Discurso do Filho da Puta) Silva Tavares
amigo e editor de vários deles.
Mestres da revolta, e do
prazer bebido em excesso (mas pode haver excesso no prazer destes revoltados,
ainda assim poetas? ) escreviam no quotidiano, nos bairros e nas tascas de Lisboa,
ali perto do Chiado.
Encontros à mesa, bebendo e discutindo
projectos literários. Interpelando burgueses, o seu poder bacoco presente na
Política, tanto como em poetas que consideravam de há muito ultrapassados,
românticos, simbolistas, de obra já lida e relida.
Poderíamos acrescentar, quem
sabe, ainda como Mestre um Cesariny, também ele poeta do corpo, que fez da arte
surrealista algo de mais humano, não escondendo o desejo, sua fonte, sua fome.
Mas regressando aos poemas de Herberto: alguma
coisa me faz regressar a Os Passos em
Volta e à Apresentação do Rosto,
seus textos ao mesmo tempo tão antigos e tão
presentes, nesta última evocação (provocação) poética:
"folhas soltas, cadernos, livros, montões
inexplicáveis, e cada vez
que lhes toco fica tudo mais
caótico e não descubro nada,
às vezes procuro apenas uma
palavra que algures na desordem
estava certa,
nos âmagos e umbigos da alma:
brilhava...." (p. 751).
Do quotidiano desarrumado,
como a vida, ao brilho da palavra certa, que adiante é descrita como relâmpago,
que assombra.
E segue-se um contínuo de
"quases....", todos de revelação possível, matéria-prima da
transmutação, para regressar de novo a desordem primeira, o caos de livros,
folhas soltas, cadernos, etc. e a consciência da morte, da sua banalidade, pois
para morrer não é preciso Mestre, morre-se, simplesmente, pensando que está tão
cara a bilha de gás...a ideia do gás da morte puxa, neste último poema, datado
de 2013 (que pena os outros não terem data) a imagem dos campos de concentração
onde o gás abundava, era barato, como a vida de quem iria morrer e pro aqui
tenta ir o poeta, não como o Paul Celan que tinha lido, mas como o português
daqui, já meio enfastiado consigo e com o mundo:
"tão cara, Deus meu, que está a morte,
porque já me não fiam nada
onde comprava tudo,
mesmo coisas rápidas,
se eu fosse judeu e se com um
pouco de jeito isto
por aqui acabasse nazi,
já seria mais fácil,..."
(p.752).
Ironia perdida em exercício
culto, pois em nada se comparam as mortes a que Celan assistiu e a descrição
amarga deste poeta velho, e pior ainda mal envelhecido que não se revê senão
num burro velho:
" a burro velho dê-se-lhe uma pouca de palha velha
e uma pouca de água turva,
e como fica jovem de repente
durante cinco minutos!"
(p.741)
Durante
quase os mesmo minutos, corre a mão em tumulto por leituras e evocações que já
conhecíamos de outros poemas, memórias desordenadas que levam ao verso final:
" estou praticamente morto, mas todo vosso:
nenhures é o meu pouso.
esta é a minha elegia.
A Elegia de um Burro "
(p.744)
Um burro nada inocente, como
não foi inocente a referência, banalizando a morte, a um Celan desaparecido.
Herberto Helder conhece os
seus autores, e reconhece agora o seu
destino, passar, como todos passam...
E o burro, que ali nos versos
se esconde, podia ser o de Apuleio, O
Burro de Ouro, o iniciado que pelos cultos de Isis, suas rosas
( houve tantas e tantas rosas, no corpo dos
poemas de Herberto) atinge uma sublimação que nem sempre se alcança.
Herberto escreve um lamento,
é a sua Elegia, não é um Cântico (como os de Orfeu), ainda que último.
E contudo ele já tinha
adivinhado antes que o importante era
"encerrar-me
todo num poema,
não em língua plana mas em
língua plena"
(p.749)
Y.K.C.
Lisboa, 2016
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