Thursday, March 24, 2016

António Carlos Cortez, Animais Feridos


Animais Feridos

Primeira interrogação: de que nos vai falar este poeta? De um tempo cruel em que nenhum ser vivo está inteiro, completo e feliz no seu corpo e na sua alma?
De que toda a espécie humana se forma e deforma hoje em dia numa ferida rasgada, que ela mesma rasgou e não tem cura?
Falemos de animais, como Lautréamont falava da sua pulsão erótica pelo tubarão fêmea. Mas nessa violência primitiva, selvagem por momentos, o poeta sabia que o desejo o transportaria para um outro nível, o que ele ambicionava, da sua criatividade: a abismal fusão com os elementos fundadores, primordiais, de que Gaston Bachelard nos deu conta em muitos dos seus ensaios.
Estas feridas arquetípicas saram, e salvam, devolvem o ser à sua límpida consciência de existir.
Escrevi noutro post àcerca do mais recente livro de poesia de Gastão Cruz, poeta  que trago aqui por saber que A. Cortez o admira e certamente terá lido Óxido, de que me ocorre agora uma estrofe:
de cada vez se torna mais ardente / até ser casa ou roupa ou outra pele / que fere o corpo e finalmente o veste / do nome que é o dele....
Arrumo sempre mal os meus livros, e acontece que ao lado deste último de Gastão se encontrava um anterior, de 1990, de título já muito sugestivo: As Leis do Caos.
Ao longo de uma vida de permanente entrega à poesia, seus segredos, seus ritmos de bater do coração, descubro de repente (como na obra dos alquimistas) que do Caos se forma a Ordem  como nas Doze Chaves da Filosofia, de Basílio Valentino.
Mas não seria preciso ir tão longe: na epígrafe com que Gastão abre o livro, a citação de Eugene O'Neill, no século XX exprime a mesma ideia:
I see life as a gorgeously-ironical, beautifully- indifferent, splendidly suffering bit of chaos (1923).
O Caos é belo porque da sua indistinção, a seu tempo, a Ordem (poética) surgirá.
Em Noite interpel um poema de Baudelaire, o Mestre de todos nós, ainda hoje: Ah que le monde est grand à la clarté des lampes!
Gastão não quer perder a  lucidez  objectiva ( se tal coisa existe, na Arte) com que se definiram os Poetas da chamada POESIA 61.
Mas de verdade é a luz que torna o mundo grande, é a luz, ainda que apenas das lâmpadas acesas na escuridão do quarto, que amplia até ao estertor do infinito os sentimentos, as emoções, as pulsões mais ocultas do desejo.
Na escuridão, como no caos, a luz, a ordem que permite soltar "os leões do sol".
Há neste poema, Noite, um imaginário animal que não passa desapercebido pela sua dimensão simbólica: os leões do sol (é sabido que são o emblema solar da alquimia, por excelência), e a "grande cobra" que figura o "corpo do mundo" que na verdade só a luz poderá redimir da morte exposta.
Inspirando-se em KEATS, Sobre a Morte, já mesmo a fechar o livro, escreve o poeta:
Como é estranho que o homem, sobre a terra perdido / e levando uma vida de dor, o torvo atalho / não rejeite, nem ouse entender que acordar / é do seu caos futuro o único sentido.
Não insisto, deixo ao futuro leitor o que ele mesmo descubra, neste sentido oculto de um caos revelador.

Mas chegou o momento de voltar às páginas de António Carlos Cortez em Animais Feridos.
Comecemos logo pelo primeiro poema Náufragos, em que já na leitura se descobre um ritmo de soneto (os quatorze versos ao modo shakespeareano), um embalar das águas em que os mortos ainda assim parecem existir. A sua vida é isso: movimento.
A poesia de António, na sua harmonia quase obssessivamente musical, contém e contraria uma dôr (uma ferida) que se anuncia e se expõe como se nunca mais fosse vencida.
 De novo aqui os elementos nos envolvem: as águas em que nada se reflecte já; a pedra do olhar; a luz, ainda que negra, ou negra por maioria de razão; o fogo com que se incendiaram as estradas ( os caminhos possíveis e impossíveis).
Mas quando menos se espera- não estaria tudo dito? O poeta retoma a sua palavra para concluir sobre o que aprendeu, pelo caminho, e através do seu naufrágio previamente anunciado - "a vida é afinal /soma de perdas e o mundo / coração de pedra lançado /ao fogo que se vê de longe".
Na treva que envolve um mundo "só de ferro", mesmo assim se alude num último verso a um "cristal que é chama", não desistindo deste jogo de opostos que serão a substância da escrita que a si mesma se impõe o continuar...
Abre-se ao mundo.
Curiosamente, é neste livro de António Cortez que reencontro em parte a expressa doutrina, nem sempre respeitada, dos poetas do grupo de 61.
O olhar que se quer descritivo, objectivo, desenhando, como num mapa de cuidadosa minúcia, os momentos e os lugares. Não irei desfiar os títulos, já de si indicativos, nem muitos dos versos mais sugestivos deste ponto de vista. O leitor fará isso por mim.
Há uma dimensão abrangente, de cariz social, por vezes talvez mais do que poética: a descrição de um bairro, de um bar, evocação de  um pintor, de cidades que se viveram, de um rio como o nosso, que já deixou de ser o das perplexas interpelações de um Fernando Pessoa, e há também, como já em obras anteriores a explicitação que nada oculta, e mal seria se o fizesse, de um conjunto de leituras que me evocam um T.S.Eliott, o da Waste Land, para mim e para os do meu tempo, poeta tão erudito, tão directo e marcante, não descurando de indicar as leituras que conduzem, tantas vezes, o escondido fio do discurso.
Reconheço em António Cortez, neste como já em obras anteriores, uma cultura estruturada que não é comum nos tempos que correm, uma intensidade e uma voz genuína, na sua força, e uma  originalidade que não desdenha de outras vozes, outros antigos começos e recomeços, como quando escreve, também ele, sobre o caos : "Recomeçar / talvez um outro caos" (p.51).
Esta obra tem um título que remete para memórias antigas, por vezes, ou emoções recentes, mas retidas, por razões que só ao poeta dizem respeito. O que impele a mão do poeta, na sua escrita por vezes inesperadamente veloz, é a necessidade de não se perder nelas (ou delas).
Não deixa de ser interessante, para um estudioso da literatura portuguesa, que autores como Helder Macedo, Manuel Alegre e neste caso também, embora de uma nova geração (de um falar mais directo, mais despido, mas não menos original e sentido) esta necessidade de refazer memórias como quem refaz a vida.
A poesia é isso: escreve-se para viver, mesmo falando de sucessivas mortes!
Um acaso como aqueles de que vivemos, sem dar por isso, e que Jung chamava de sincronicidades, faz com que esteja agora a ler Tolentino de Mendonça, referindo-se no Semanário EXPRESSO a uma nova tradução das Cartas a um Jovem Poeta, de Rilke, da autoria de José Justo.
Não há acasos....eu tenho estado, precisamente, a escrever uma Carta que não enviarei a um Jovem Poeta e que interrompi por enquanto, levada por outras leituras e afazeres.
Vou ler a nova tradução, pois de Rilke leio tudo, também em tradução, e gosto de comparar com o original que Paulo Quintela, há tantos anos me deu a ler, em Coimbra.
O jovem deve sentir que a escrita é para si a vida. Se afinal consegue viver bem, consigo e com o mundo, sem que a busca de uma palavra essencial lhe faça falta, o melhor é poupar os futuros leitores...
Diz Rilke: Es gibt nur ein einziges Mittel. "Há apenas uma única maneira". E continua: "Mergulhe em si. Procure o fundamento do que chama escrever (...) confirme se  morreria se lhe fosse negado poder escrever".
A grande questão que se coloca ao futuro poeta é aparentemente simples: "muss ich schreiben?" Acentuando o verbo ter de, ou dever, num imperativo de vida ou morte, se a resposta fôr ich muss, ou o seu contrário.
Escrever é pois, segundo Rilke, um imperativo, ou não é nada e  nada significa.
Rilke tem o cuidado de avisar de que não é crítico literário, nem dá conselhos sobre o que lhe mostrem, pedindo uma opinião. E está certo, a um poeta não se deve pedir uma opinião, ser-lhe-á um exercício difícil. Mas outra coisa é o aprofundar, em cada um, e esse é o conselho dado, da razão do misterioso impulso da escrita.
Nasce da mais funda raiz do ser? Então a escrita impõe-se, por si mesma, e através dela o poeta, ao longo da vida, deverá dar sinal e testemunho desse impulso.
Ora o que nos deixa este novo livro de António Cortez é que também ele vive intensamente a lição de Rilke, e a pratica, escrevendo.
Que os anos futuros o mantenham assim: escrevendo e vivendo para continuar a escrever...e a viver.
Acabo este post numa Sexta-Feira da Paixão.
Deixo os votos, a todos os meus leitores, de uma Páscoa com leituras felizes.









Sunday, March 06, 2016

ROSAS E MAIS ROSAS

(Herberto Helder)


Li A Colher na Boca, no original que viria a ser publicado pela editora Ática em 1961.
Foi um deslumbramento, para mim que, habituada à literatura francesa, lia Prévert, lia Boris Vian e outros, do movimento OULIPO, não esperava, em Portugal, descobrir nada de tão intenso e tão inovador.
De fiel leitora de Herberto tive o privilégio de passar a amiga. Não direi íntima, as nossas vidas eram muito diferentes, mas sempre presente na leitura, na troca de cartas (raras) e de casuais encontros nos cafés do Saldanha.
Em A COLHER NA BOCA escreve o poeta a inciar o poema:
Falemosde casas, do sagaz exercício de um poder / tão firme e silencioso como só houve / no tempo mais antigo.
Casas, um tempo e um espaço arcaicos, é nessa realidade arquetípica que seguiremos, guiados pela mão do poeta. Será um afundamento, na palavra, no seu duro e impiedoso exercício, minuciosamento estruturado.Por muito que possa parecer escrita de mão livre, entregue aos impulsos da chamada escrita automática dos surrealistas, há um ordenamento estrutural na poesia de Herberto Helder que não é de acaso, mas sempre de cultura fina, de requinte subtil, ainda que por vezes oculto.
O poema segue, e não é logo de rosas que nos falará:
...
Digamos que descobrimos amoras, a corrente oculta / do gosto, o entusiasmo do mundo.
De amoras a amores, dos corpos de gente citados logo a seguir,a dedução seria fácil. Mas não será disso que se trata. Seguem-se elementos primordiais, fontes (água) pedras (ossos que são da terra), alguma coisa celeste (ar), como fogo exemplar (fogo).

Nada mudou, na aparência: estas são sempre as casas.
São centro, e fundamento.
Mas já entretanto vão chegar as rosas...
Referem-se os arquitectos que não viram as torrentes infindáveis / das rosas, ou as águas permanentes / ou um sinal de eternidade espalhado nos corações / rápidos.
Alguma coisa passou ao lado dos virtuais construtores de um universo invisível, montanha e mar fundiram-se entretanto, para que animais e estrelas / homens e mulheres ...ardessem devagar.

Volta-se então de novo, a falar de casas, e do que são: Casas são rosas / para cheirar muito cedo, ou à noite, quando a esperança / nos abandona para sempre.

O poeta convida, no fim, à reflexão sobre a alma e a morte.
As casas, de que desejou falar, abarcam o universo, o pequeno (do homem) e o grande (da matéria divina, toda por conhecer). Enumerados os elementos, que são quatro, na sua tradição, faltaria enumerar os princípios, que seriam três, se fossem convocados.
Não foram.
A rosa permanece fechada, como a de Rilke, na sua rotundidade perfeita, secreta, inominável.
O exercício pedido é o da paciência: como na oração de um alquimista, que tenho citado muito:
ora, lege, lege, lege, relege, labora et invenies (MUTUS LIBER).

Falemos de casas, diz o poeta, como quem fala da sua alma,
 entre um incêndio,
 junto ao modelo das searas,
na aprendizagem da paciência de vê-las erguer
e morrer com um pouco, um pouco
de beleza.

Assim se fecha o ciclo: das casas, centro da vida, às rosas, espelho da alma.
Ocorre-me mais uma citação alquímica, do Rosarium Philosophorum: dat rosa mel apibus, a rosa dá  mel às abelhas...



Monday, February 01, 2016

Mais rosas

Falemos de Le Roman de la Rose, obra bem conhecida, súmula das práticas místicas e simbólicas do amor cortês, na França do século XIII.
Guillaume de Lorris (c.1230) e Jean de Meun (c.1275) são os autores, descrevendo em sucessivas alegorias o percurso aventuroso de um cavaleiro que é conduzido em sonhos a um Jardim paradisíaco e aí se deixa enebriar pelo perfume dos roseirais e de uma rosa em especial. Guillaume começa, escrevendo entre 1225 e 1230, e Jean continua e termina, entre 1269 e 1278. A este último se deve a amplificação do sentido das alegorias a uma reflexão mais profunda sobre a Natureza e a Condição Humana (aperfeiçoamento constante para atingir uma Plenitude de que a Rosa vermelha será o arquétipo central).
Por ela, por não desistir de colher esse precioso botão, será o coração do herói perfurado pelas flechas que Amor, ciumento, lhe crava no coração, até que obtém da sua parte uma jura de fidelidade eterna.
Considerado a par da Divina Comédia de Dante, numa Paris que no século seguinte já é centro de doutrinas e disputas teologoais, filosóficas, científicas e literárias - chama-se a Paris rosa mundi - rosa do mundo, com tudo o que isso implica de beleza, de certeza, de paixão, o Romance da Rosa adquire um estatuto que ainda no século XVII persiste entre os estudiosos, apesar de Boileau e Descartes introduzirem um pensamento novo, no tocante à filosofia e à escrita (ce que l'on conçoit bien s'ennonce clairement, regra que colide frontalmente com o exercício prazenteiro de uma narrativa mítica e simbólica, por vezes obscura, como na meia-luz dos sonhos).
Lorris e Meun antecipam Freud e Jung, ou alguns dos românticos alemães, ao valorizar a mensagem contida nos sonhos, de que dizem que, se não é logo entendida, mais tarde se verifica quão verdadeira se torna.
Muito do simbolismo do Romance pode ser colocado a par dos mistérios antigos, como o do Burro de Ouro, que Marie-Louise von Franz tão bem nos descreveu.
 Nesta obra de Apuleio, do século II da era cristã, acompanhamos as vicissitudes de um herói, Lucius, que uma vez iniciado nos ritos de Isis será redimido da sua forma de Burro ( com que foi castigado por tentar práticas de magia). É num sonho que a rainha dos céus (Isis) lhe aparece e lhe diz que terá de comer uma coroa de rosas que no dia seguinte, num determinado cortejo ritual, lhe será oferecida. Assim acontece, e ei-lo feito sacerdote de Isis e Osiris, para sua redenção.
Temos ainda de nos lembrar que os século XIV e XV são na Europa os expoentes das Novelas de Cavalaria, e que as normas do "Serviço" à Dama são as mesmas, ou quase sempre, as que se foram buscar ao Romance da Rosa e aos seus códigos de virtude e moral.
Temos em Dante o exemplo de Beatriz dizendo ao amado que se afaste, pois não está ainda devidamente "purificado". Só mesmo diante da Rosa Centro do mundo e termo da viagem, poderão unir-se. Não um ao outro, mas ambos a ela, na Rosa que contemplam.

Recordo aqui que já existiam na França do século XII, como até em Portugal, nos cancioneiros primitivos, obras como Le Coeur Mangé, dos séc. XII e XIII, contendo narrativas de tom erótico e cortêz, em que o olhar duro e directo sobre os costumes (bons e maus) da sociedade são apresentados em textos de lendas, fantasias, mistérios e monstruosidades que projectam, como diz Claude Gaignebet no seu prefácio (ver edição em francês moderno por Danielle Régnier-Bohler, Stock+plus,1979), o imaginário sexual e amoroso do tempo.
Mas tal não impediu que outros autores se esmerassem na sublimação dos seus desejos e emoções.
Temos pois a Rosa, temos o Coração, - a Alma, na verdade, termo que ainda não utilizei, a Psique e as suas pulsões mais fundas: o desejo de ser, o desejo de ser-para-o-outro (para poder ser para si mesmo) como justificação plena e matriz da existência.
Quando li pela primeira vez o Romance da Rosa, há muitos anos, achei-o confuso e difícil de chegar ao fim. Nem me lembro se cheguei ou não fim, o que me teria feito perder um dos momentos mais significativos, no tocante ao conhecimento dos processos e dos símbolos alquímicos, pelso quais eu já me interessava.
Na verdade este Romance é uma obra complexa, estruturada em vários níveis e tem de ser lida de um modo que os separe e distinga, para que se entendam em cada momento.
A lógica da narração não é a da coerência, da evidência, nos processos usados. A lógica é a do sonho, que funciona por acumulação inesperada de situações, conforme cada qual vai surgindo.Uma vez aceite este princípio, poderemos, na nossa leitura, entender melhor e desfiar os acontecimentos. Num primeiro nível temos uma espécie de iniciação(daí que o autor se demore na existência e descrição da importância do seu sonho); a revelação que o sonho iniciático permite é da descoberta de um jardim paradisíaco, onde flores, pássaros, animais vários recriam um ambiente de quase lirismo pastoril. A diferença, em relação ao que poderia ser mera descrição, como tantas, é que o autor entretece, pelo meio, um conjunto de alegorias, de vícios e virtudes, com os nomes adequados a cada uma dessas personagens que se tornam intervenientes e construtoras da trama da narrativa. Desse modo define um código de comportamento que é o do cavaleiro cortês.
E segue a aventura, e seguem as peripécias, sem que ele perca de vista o supremo objecto do seu amor e da sua Quête, a rosa perfeita vislumbrada no jardim.
Temos pois, num primeiro nível de leitura, a importância do (desregramento) da lógica do sonho, imperativa a seu modo e profética na sua consequência, imediata ou tardia.
Temos, de seguida, a apresentação, pela via alegórica das normas e procedimentos de códigos de conduta de uma aristocracia cavalheiresca.
E sempre a perseguição dessa rosa imutável e cada vez mais distante.No capítulo XIV, já da autoria de Jean de Meun, fala-se então da alquimia, como arte da transmutação.
Descreve-se a Fénix, a ave que renasce das próprias cinzas, como exemplo da perenidade das espécies, de que a NATUREZA se ocupa, na su forja da Vida; referem-se o enxofre e o mercúrio - para o trabalho dos metais (a sua transmutação); no capítulo XV transita-se para a visão do cosmos, que é, como a de Dante, o cosmos ptolomaico, mas com outra inovação trazida ao pensamento: a do livre-arbítrio, que na astrologia podia ser contrariado, contrariando a doutrina cristã.
A questão ou os vários questionamentos de doutrinas teológicas ou filosóficas abundam, fornecendo mais um último nível de leitura e reflexão.
É sempre, nestes últimos capítulos, a Natureza que expõe o seu pensamento, introduz lendas e mitos, considerações sobre os diferentes estratos sociais e suas obrigações (como no capítulo XVII) -distinguindo nobreza de nascimento e nobreza de coração, ou no cap. XVIII a descrição da Fonte de Vida (sabemos que é, na Arte da alquimia, a fonte do Saber Supremo).
A caminho do sucesso final, Vénus reaparece, o Amor, a chama da Natureza, que a alimenta e perpetua, permitirá que o Amante lutador e fidelíssimo colha então a sua Rosa. Nasce o dia e o narrador desperta do seu sonho.
Veja-se: o Romance começa com a narrativa de um sonho, por Guillaume de Lorris, aos seus vinte anos, e que ele se "obriga" a contar, por imposição do AMOR:
 "c'est Amour qui m'en prie et me l'ordonne. Et si quelqu'un me demande comment je veux que ce récit soit intitulé, je répondrai que c'est le Roman de la Rose qui renferme tout l'Art d'amour". 
E o mesmo Romance termina pela mão de Jean de Meun quando, colhida a rosa da maturidade que se adquiriu (j'eus la rose vermeille) o dia nasce e o herói acorda.
A nós, agora de reler para entender...como nos dita o Liber Mutus:
ora, lege, lege, lege, relege, labora et invenies.








Friday, January 29, 2016

Volto às Rosas de Rilke, regressando a Dante e ao Paraíso...

Falar de rosas...

 Gosto de rosas.
Sonho com tantas coisas, mas que me lembre nunca sonhei com rosas, nem escrevi nada em que alguma rosa entrasse, a não ser nas célebres gravuras alquímicas de que me ocupei outrora.
Mas leio, leio rosas, neste ou naquele autor, geralmente são poetas, como Rilke ou Pessoa, e há sempre na imagem dessas rosas que leio uma essência mais forte, que as sustenta, lhes confere uma parte desafiadora de mistério.
Por um lado tão frágil ( ou será apenas na aparência? ) e por outro tão forte, tão centrada em si mesma.
Rosas de Verão, rosas de Inverno, rosas de todo o tempo. Será a sua forma redonda figuração do Tempo, como insinua Rilke?

Eram brancas, as rosas, antes da morte de Adónis, que as tingiu com o seu sangue.
Daí o vermelho-morte, daí o vermelho-vida...
A rosa sacrificial.
As pétalas que envolvem, os espinhos que ferem e que matam.

Vejo na rua dois velhos, com os seus sacos de compras.
Vão devagar, ela à frente com dois sacos, parecem mais pesados, ele atrás, só com um e arrastando os pés.
Levam o pão que ninguém lhes daria, como ninguém ajuda com os sacos...
Está sol, e o calor é benção para aqueles ossos ressequidos...
Vão de cabeça baixa, olhos fixos no passeio, por causa de algum buraco. Cair seria terrível, não poderiam levantar-se!
Mas falava eu de rosas.
As vermelhas de Rilke, as fechadas em si mesmas, como se fecham as vidas.
Num tratado de alquimia li outrora: a rosa dá o mel às abelhas.
As abelhas seriam, no tratado, os alquimistas afanosos em busca do mel da vida, do ouro que não fenece...
Passa a vida à nossa frente, como os velhos ali, que estou a ver como passam, e sei que não é verdade. Não há ouro disponível.
Em que momento perdemos a razão, somos e seremos condenados?

Fernando Pessoa que, diante do rio, se interrogava sobre quem era e o que era ser-se rio e correr, e estar, como ele ali estava, a ver imóvel essa corrente de consciência e de vida, lera os poemas de Rilke.
E acreditara, se calhar, que a morte daquele poeta se devera à picada de uma rosa, que lentamente o matara.
Na verdade morreu de lenta leucemia, mas lenda é lenda.
É assim que Ricardo Reis, heterónimo de Pessoa, aristocrata no distanciamento de tudo o que fosse sentimento - amor ou vida - retoma o mito de Adónis para evocar o tempo, no poema de Lídia:

As rosas amo dos jardins de Adónis,
Essas volucres amo, Lídia, rosas,
Que em o dia em que nascem,
Em esse dia morrem.
A luz para elas é eterna, porque
Nascem nascido já o sol, e acabam
Antes que Apolo deixe
o seu curso visível.
Assim façamos nossa vida um dia,
Inscientes, Lídia, voluntariamente
Que há noite antes e após
O pouco que duramos

Sabedoria e recusa.
Adiante, noutro poema, dirá, como bom alquimista:
 "A obra cansa, o ouro não é nosso".
Podia ser o Mefisto de Goethe, autor que também leu, (como parece, pela sua biblioteca, ter lido sempre muito, ter lido tudo).
Pessoa sofre do cansaço de um universo que não consegue ou nem mesmo pretende decifrar, enquanto Rilke, em pura contemplação, se funde com o mistério da rosa: eterna redonda, e mesmo quando se abre permanecendo fechada, na sua perfeita circularidade de camadas e camadas de pétalas perfeitas.
Renúncia, é o que vamos lendo na poesia de Pessoa/ Ricardo Reis.
Excesso e abundância, nos poemas de Rilke:
Uma só rosa, é todas
as rosas (6)
Ou ainda:
Tenho uma tal consciência
do teu ser, rosa completa,
que o meu consentimento
te confunde
com o meu coração em festa.
(XI)

Não há festa no coração de Ricardo Reis, há bruma, há nevoeiro, e o apelo a Caronte a quem deseja depressa entregar o custo da passagem: nem se interessa tanto por chegar, apenas por esquecer, e para isso lhe serve o rio da memória, o Lethes...

Que posso ver na rosa que outros não tenham visto?
A beleza já foi por demais cantada.
A Unidade? A Multiplicidade, desdobramento de pétalas e pétalas?
O Efémero que o desfolhar logo prenuncia, como a vida, que passa tão depressa?

No coração da rosa, o olho do furacão.
O ninho em que se formam estrelas.
É de estrelas, não de rosas, que devemos falar...
Do rodopio que ilude, que tudo arrasta consigo, numa torrente de negro, com nome por designar.

Dizer apenas rosa não adianta nada:
a rose is a rose is a rose
is a rose...

Mas penso em Dante, na Divina Comédia; que Rilke e Pessoa leram, e que eu deveria ler (reler) no Canto XXXII, onde no centro está a rosa, que é a Virgem, e se fundem, no brilho, o sol e as outras tantas estrelas, como pétalas, derramando sobre a Amada o seu brilho perpétuo.  

Não duvido que Rilke tenha lido Dante, e através do seu percurso mais íntimo e secreto, caminhado para a doutrina que ali se esconde, entre as referências clássicas e as bíblicas, uma nova doutrina do Amor.
VITA NOVA foi a obra tardiamente descoberta no século XIX, de tal modo grande fora o impacto da Divina Comédia.
Como sublinha o tradutor francês Louis-Paul Guigues (ed. Gallimard, 1974) é com esta obra que a "introspecção surge na poesia": estamos a falar do ano em que Dante a começa, em finais do século XIII, uma época de grande misticismo, na Europa do norte (recordo Hildegarda de Bingen) como do sul, (a mística sufi de Ibn Arabi e outros). Mas é também a época das grandes questões e questionamentos teologais e tentativas de racionalização das respostas a dar. Dante não podia viver à margem de tais questões, e também ele procurou sentir e dizer, viver e explicar.
Vita Nova não pode apenas significar vida nova, sem mais, no sentido de alguma mudança de vida que tenha acontecido ou venha a ser desejada, esperando que aconteça.
Dante não usa o termo vita , mas etate : idade. Como leremos em Joaquim de Flora e seus seguidores, a Idade do Espírito Santo como tempo novo (no Liber Figurarum).
Na Vida Nova de Dante encontramos, no capítulo XXIII, a seguinte referência:
"dama compassiva e de idade nova".
Poderemos ler jovem? jovem de idade?
Beatriz no Canto XXX do Purgatório exclama, referindo--se ao poeta:
"Eis o que ele era na sua juventude".
Como quem já anuncia as grandes mudanças que hão-de vir e só o amor consente.
Primeiro pelo sofrimento, com a morte de Beatriz:
 "uma inteligência nova que o Amor
chorando lhe concede" (soneto XXV)

Percebe-se que, com Beatriz, e seu amor por ela, uma tranformação - uma Vida Nova terá em breve lugar. Beatriz virá do céu à terra revelar o milagre.
Dante escreve os primeiros sonetos cerca de1283, usando os mesmos modelos da poesia cortês da época. Seguindo esses modelos, que não inova, pois já na poesia Provençal a nobreza do amor colocava os amados acima da nobreza de título.
Dante sabe dissertar sobre o amor, como escreve o seu tradutor francês (p.11).
Por volta de 1170, André le Chapelain, autor de DE amore era lido em Florença e apreciado pelo seu "doce estilo". Doce estilo pelo sentimentalismo comovido, abundante em lágrimas e suspiros, que levará o coração do amante a identificar-se plenamente com a amada. É este o estilo que Dante transformará em dolce stil nuovo.
Mas o ambiente em que a sua escrita decorre é o conhecido ambiente "cortês" e "espiritual" da época.

Há um entrecruzar de referências que nos conduzem por  via do amor de Beatriz, aqui e na Divina Comédia, a outro conjunto de interrogações.
Beatriz é descrita com algo de NOVO, um milagre da Santa Trindade, uma revelação.Temos, no capítulo XII, as falas do AMOR:
É um capítulo carregado de solenidade: Beatriz recusou-lhe a salvação e Dante retira-se para um quarto e tem a visão de um jovem, de vestes muito brancas, que olha para ele, o chama e lhe sorri, dizendo: " Meu filho, chegou a hora de abandonar as nossas ficções".
Quem é este jovem?
Dante julga que é o Amor, que muda muitas vezes de aparência. Mas o jovem desata a chorar e declara:
"Eu sou como o centro do círculo a que se dirigem, equidistantes, todos os pontos da circunferência, mas tu não és assim".
Dante, perturbado, quer perceber melhor.
Mas recebe, como resposta: "não peças mais do que te pode ser útil".
Estranha resposta, que deixa a interrogação do que fazer:evitar excessos? respeitar a distância?
Seguir-se -á  uma longa reflexão, sobre o amor e a relação do que ama com o objecto do amor: terreal, celestial? Operando como, nessa viagem mística, guiado por Beatriz, tão enorme mudança?
A ponderação da Geometria, de uma possivel Quadratura do Círculo, não terá deixado o poeta indiferente, pois há uma Geometria da Alma, no espaço cósmico que culminará no Paraíso, em que a doutrina do Centro, as rosas e a Rosa Suprema no coração do centro, adquirem, por muito que não se queira, simbolismo especial.São conjunturas, quem sabe, mas têm algum sentido.
Um ponto que é o centro cuja luz irradia com tanta intensidade, - era revelação suprema. Do Templarismo da época? O símbolo do centro, do coração como era lido enquanto fonte de vida e luz suprema, era um dos símbolos dos Templários.
Nas Ordens iniciáticas, como as do Santo-Graal, fazia-se coincidir o punctum mundi com o coração de Cristo e  daí, como refere Louis-Paul Guigues (p.19) a veneração posterior do Sagrado-Coração de Jesus. Nas palavras de Cristo: "O meu Pai e Eu somos Um".

Voltando à situação de Dante, perante o Jovem de luz: ele diz-lhe que é o ponto centro do mundo, mas Dante ainda não é nada e está longe de se ter unido a ele.

Não falemos mais, a partir daqui, de amor cortês, mas sim e apenas de via mística para uma União com o Divino de que Beatriz será a mediadora.
A dado momento Dante faz a identificação de Beatriz, luz de vida, com Cristo, luz de renovação.
Beatriz já dissera que estava no coração da GRANDE ROSA, quando lhe lembra que ele andava ainda perdido nos assuntos do mundo...
O que aqui se faz é um apelo à vida contemplativa, ao retiro que se abre ao desejo de união mística com um Sobrenatural que os afazeres (ainda que de paixão) na vida normal não permitiriam. Fechando de novo com uma citação de Louis-Paul, Dante ascende à mudança de uma VITA NOVA para Vista nova, no deslumbramento da rosa, do centro, do coração do Paraíso que se lhe abre e pode finalmente contemplar.








 

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Sunday, January 24, 2016

Vergílio Ferreira ( 28 de Janeiro,1916-2016)

V.F. faria no dia 28 deste mês, cem anos, leio no Público.
O seu espólio continua a ser estudado, inicialmente pelo seu antigo aluno, leitor e admirador de sempre, Helder Godinho, que fala dele como seu Mestre. No ano em que Almeida Faria - outro seu aluno- publicou Rumor Branco, pensei: começa agora a nova prosa portuguesa, de quem leu Joyce e tem a sua voracidade da palavra e da escrita.
Era um tempo em que predominava, e muito, o neorealismo, de que eu me sentia afastada: começara em Coimbra, pela mão do meu pai a ler Alves Redol, mas aquele irritante ruralismo (as coxas das moçoilas....) para mim, que em  França já tinha lido Zola, e passado para Prévert, Vian, Aragon, Desnos, a revelação de Sagan e Christiane Rochefort, seu antídoto, e não esqueço Sartre, o fundador do existencialismo - para mim, não esquecendo  e estando ainda em Coimbra, a ler Fernando Pessoa e Sophia de Mello Breyner - só uma nova escrita tinha sentido e me fazia continuar a ler com entusiasmo.
Agustina de Bessa Luís viria um pouco mais tarde.
Mas voltando a Vergílio: ambos éramos muito pontuais, e nos antigos jantares do Pen Club tendo chegado antes dos outros, íamos sentar-nos em frente um do outro, ao fundo da mesa, e aí ficávamos a conversar. Ele era culto, inteligente, e só não digo encantador porque a seguir chegava Sophia, de quem eu já era amiga além de absoluta leitora, que se sentava ao meu lado.Virgílio não a cumprimentava e explicava-me, em voz alta para que se ouvisse: não lhe falo porque ela é demasiado snob e faz sempre esperar os outros. Depois vim a saber que essa zanga datava de uma ida ao Brasil, em que Sophia fazia esperar os outros, no átrio do hotel, para partirem todos juntos para uma das múltiplas iniciativas literárias do tempo. Era um homem de amuos, pelos vistos. Sabia que a mulher dele era polaca, mas nunca lhe disse que a minha mãe era polaca, embora não refugiada, e trabalhara num escritório de apoio aos refugiados aqui em Lisboa, desde 1939 até irmos em 1946 para a Argentina.
Não disse, porque ele nunca trouxe a mulher consigo a estes jantares e eu não queria ser indiscreta.
Fui lendo a sua obra, aqui e ali, mas eu era de facto de outra geração, e o que  mais me agradava nos seus romances era a dimensão filosófica, não tanto a literária.
O último que me chegou às mãos, já depois de ele ter falecido, ESCREVER, foi um dos que dei a ler no meu seminário de Mestrado de Escrita Criativa  ao longo do ano.
Fico hoje a saber que ele, homem da geração do meu pai, teve como uma das leituras primeiras os grandes russos, e de André Malraux La Voie Royale e La Condition Humaine, que o meu  pai tinha na edição francesa e eu li em Coimbra ainda.
Não admira que a sua querela, com os estruturalistas - coisa de moda, em Portugal, coisa mais séria com Roland Barthes....como é costume entre nós...o tivesse levado a aprofundar ainda mais o seu pensamento sobre a dimensão da existência, o que tem de vasto e o que tem de efémero...
De que falaríamos hoje num dos jantares do Pen? De Davos? da quarta revolução industrial, ou ele diria, sorrindo, que há muita gente que lê mais do que entende?