Wednesday, December 10, 2014

O Canto do Cisne Novalis e Schubert



Schwanengesang / O Canto do Cisne

Neste último ciclo dos Lieder é maior a variedade de estilos e de poemas, talvez porque, sendo póstumo, a organização ficou a dever-se aos seu editor, e não ao compositor.
Os poemas de Ludwig Rellstab (1799 – 1860) teriam sido inicialmente dados a Beethoven, que anotou alguns mas não chegou a compôr; são esses anotados que Schubert terá igualmente escolhido. De um lirismo musical, fluído, rimado e cantado, não formam propriamente um ciclo, pois não há um fio condutor que se adivinhe.
O que há, e era ao gosto do tempo, é uma sucessão de motivos, indicados nos títulos de cada canção: Herbst /Outono, n.1, Liebesbotschaft / Mensageiro de Amor, n. 2, em que nos surge o regato, com a sua água que corre, ligeira e cristalina, como menageiro do amor do poeta.
E assim por diante, com Fruehlingssehnsucht /Saudade da Primavera, n4, até ao poema final, intitulado precisamente Abschied / Despedida, n.8. 
Por muito que se estranhem, num compositor devoto de Goethe e de Heine, estas escolhas mais humildes,  os poemas musicados foram também esses e não outros, e a razão pode prender-se com uma simplicidade que permitia, de tão simples, elaborar melodia e harmonia de forma muito mais livre e mais consentânea com a sensibilidade do compositor.  No Canto do Cisne podemos mesmo assim detectar uma evolução no sentido e no gosto das escolhas. Não era o mesmo compôr sobre um poeta menor, ainda que muito lido, ou sobre um poeta como Heinrich Heine (1797 – 1856), figura maior do Romantismo europeu, a par de um Baudelaire, lido por Wagner, para citar apenas alguns dos grandes do século XIX.

Referi na primeira parte o poeta Novalis e retomo agora parte do seu caminhar pela vida para termos a noção de como afinal era relativamente pequeno o círculo dos criadores e filósofos dos séc. XVIII-XIX na Alemanha e na Áustria e como era desenvolvida a sua formação, que passava pelas disciplinas fundadoras do Direito, da Filosofa e Teologia, sem omitir muitas vezes as Ciências propriamente ditas.
A poesia dos grandes, como se vê em Novalis, Goethe, Schiller, outros, assentava em bases culturais fortes e que marcavam a sua criação e os seus interesses em geral. Formavam o pensamento, e o pensamento (não digo a Razão, como diria Descartes, digo Pensamento) incluía de igual modo sentimento e intuição.
  
Novalis Estuda Direito em Iena, Leipzig e Wittenberg (pátria de Lutero), de 1790 a 1794, frequenta os seminários de Schiller, de quem se tornou amigo, conhece Goethe, Herder, Jean Paul (Richter) e ainda Ludwig Tieck, os irmãos Friedrich e August Wilhelm Schlegel, bem como o filósofo Friedrich Wilhelm Joseph Schelling. 
Estes autores são a base da sua formação estética, literária e filosófica: destaque-se o amor da tradição popular, o sentimento de entrega panteísta à natureza como forma de iniciação, e o não menos importante conceito de uma “religião do amor”, que atravessa os escritos sobre a Cristandade ou Europa, defendendo para a Europa um Cristianismo universal e unificador das diferenças.
Encontramos nas sua obra uma utopia idealista a que os seguintes temas dão forma:
o sonho da Flôr Azul ( em Heinrich von Ofterdingen) emblema da perfeição divina.
o culto do amor eterno nos Hinos à Noite, com a sua pulsão da morte, depois de ter perdido a paixão da sua vida, Sophie, que conhecera quando ela tinha 13 anos e morre aos 15 anos, em 1797, antes de terem casado.
o culto do Fragmento, que surge nos primeiros escritos publicados em 1798, Bluethenstaub / Pólen,já com o pseudónimo de Novalis. Os textos foram publicados pelos irmãos Schlegel, mentores do movimento romântico, na revista Atheneum.
Um ano mais tarde, em 1799, conhece Tieck e outros criadores pertencentes ao chamado “Romantismo de Iena”.

Para Novalis Poesia e Filosofia eram inseparáveis.
Mas houve nele outras influências, de carácter hermético, como as obras de Jacob Boehme, a que faz referência.
Boehme (1575 – 1624 ) foi, no século XVII, o maior teósofo alemão, cuja influência perdurou na Europa até muito tarde e a cujos escritos se referem, como fonte de inspiração, Novalis, Goethe e outros dos românticos atraídos pelo seu misticismo de raiz alquímica e Rosa-Cruz.
Em 1800 são publicados os Hinos à Noite/ Hymnen an die Nacht, de novo na revista Atheneum; e ainda as Geistliche Lieder.
Estes textos serão o suporte das Geistliche Lieder de Schubert, que Brigitte Massin não se cansa de elogiar como “músico do inacabado”,  elevando-o à categoria de Mito Estético  (in Enciclopaedia Universalis, Schubert, ed. Albin Michel,  Paris 1998). 
O mesmo se tem afirmado do pensamento e obra de Novalis, e de Friedrich Schlegel, seu Mentor.  Os estudiosos referem, para além da já sabida inspiração mística, do sentimento da noite como princípio e fim da criação (da vida e morte), a leitura de Shakespeare (Romeu e Julieta), e de Jean Paul ( A Loja Invisível / Die Unsichtbare Loge novela inacabada de 1793, muito bem acolhida pelos contemporâneos).
Falta, nesta listagem resumida, outra obra de grande importância, pelo seu misticismo iniciático: Os Noviços de Sais / Die Lehrlinge zu Sais,
publicada postumamente, em fragmento inacabado, como Heinrich von Ofterdingen.
O mundo da flôr azul, a utopia de perfeição que simbolizaria, não foi fácil de levar a bom termo: o mundo era imperfeito, e o fragmento dá conta disso mesmo, da impossibilidade de se negar uma evidência.
Ainda assim, o símbolo permanece como imagem definidora do Romantismo alemão, e o conceito de Fragmento impõe-se a partir destas obras, como género próprio.
Para Novalis o Fragmento era um Todo, como o Aforismo, que permitia à Ideia e ao Pensamento abrirem-se a outras ideias e pensamentos, inclusivé de contradição.
O mesmo se pode dizer de Schubert, na sua relação com Novalis, sabendo que o inspirou: podemos procurar no compositor e no seu culto do Lied a forma por excelência do Fragmento como Todo, da Poesia como expressão da Alma Universal. 
Este fenómeno de paixão –inspiração explica-se pelo seu génio, mas também pela sua cultura literária e pelo convívio com as élites do seu tempo, tanto vienenses como alemãs. Viena, onde Shubert sempre viveu,
era o coração do mundo musical, literário e artístico ( a verdadeira pátria de alma de um Mozart, de um Beethoven, admirados por todo o mundo culto do século). 

Schubert inicia-se no Lied com o poema de Goethe ( do Fausto I ), Gretchen am Spinnrade (Margarida na roca de fiar ): tem apenas 17 anos! Esta canção será a primeira das 600 que se lhe seguirão!
Ao longo de quinze anos de confrontação com este género musical, Schubert trabalhou uma centena de poemas, de variados poetas, entre os quais se destacam em particular o seu amigo Mayrhofer ( 47 canções), Schiller ( 42 canções), Goethe e o seu universalismo redentor ( 70 canções), Wilhelm Mueller, grande amigo, de sensibilidade especialmente melancólica, (45 canções) e por fim Heine, o trágico visionário com o qual Schubert se sentirá especialmente aparentado.
Veja-se que só em 1815 Schubert compos 143 Lieder , como refere Brigitte Massin (  Enciclopaedia Universalis, cit.).

Encontraremos assim nos Lieder todos os pontos que são abordados a propósito do ideário e do imaginário romântico que atravessa os séculosXVIII-XIX.
Recordo:
os temas universais do amor e da morte, 
os temas da separação inelutável,
a viagem, fuga ou procura,
a solidão,
a utopia sonhada de um Paraíso perdido,
a noite como prenúncio da morte,
a morte,

E ainda:
o poema de inspiração popular, lidando com o oculto e o maravilhoso  
e o todo atravessado por uma pulsão mais funda, de identificação com os ritmos (suaves ou cruéis) da natureza, mas sempre inelutáveis.

A estes temas obedeciam os poemas que escolheu para musicar, deles se destacando pela qualidade literária superior, os de Goethe e de Heinrich Heine.
Podemos afirmar, como fazem os seus estudiosos, que para Schubert o chamado acompanhamento musical não existe de per si, mas antes exige “uma fusão íntima e total da voz e do instrumento, para exprimir uma visão poética que se abre sobre um mundo transfigurado” (Brigitte Massin, cit. ).
Na realidade é ao teólogo e filósofo Friedrich Schleiermacher (1768-1834) que se devem as considerações mais interessantes sobre a arte da interpretação, nesta época dos séc-XVII-XIX. Não foram publicadas em vida mas nós podemos agora aceder a uma excelente tradução inglesa: Hermeneutics and Criticism and Other Writings, da autoria de Andrew Bowie, ed. e trad. (Cambridge University Press, 1998, p.228).
São notas e apontamentos datados de 1809-10, de que Schubert não pode ter tido conhecimento, mas que, na opinião dos seus estudiosos, como Lisa Feurzeig, em Musical representation of concepts in Schubert’s settings of the Iena Romantics ( in The Unknown Schubert, ed. Barbara M.Reul,e Lorraine B. Bodley, cap. 3, pp.43-55, ed. Ashgate, 2008), foram amplamente discutidos nos círculos literários e filosóficos que o compositor frequentou. 
Assim, escreve L.Feurzeig, mesmo sem conhecimento directo da teoria, Shubert foi um praticante inspirado da ideia de que “o objectivo supremo da hermenêutica é a compreensão ao mais alto nível…só se pode compreender o que se foi capaz de reconstruir em todo o seu contexto e suas relações.- Também aqui se trata de compreender o escritor melhor do que ele se compreendeu a si próprio” (p. 43).
Continuando com a mesma autora, é deste modo que podemos verificar como cada uma das canções de Schubert “é uma interpretação de um texto…transformado em obra de arte”.
O exemplo escolhido para demonstrar esta ideia, de que interpretar ao mais alto nível é de facto “recriar”, escolhe a autora os poemas de Friedrich Schlegel (1772-1829), figura central do movimento romântico de Iena, e os de Friedrich von Hardenberg (1772-1801), o conhecido Novalis de que já falámos. Novalis, como Schleiermacher, tinham tido formação pietista, e esse especial modo de viver a relação com o divino os terá aproximado, quando da sua reflexão sobre o Cristianismo e a Cristandade.  
Schubert terá começado por lidar com as obras, antes de conhecer os autores e sofrido uma mais directa influência. Pode ter encontrado Schlegel em Viena, em anos mais tardios, mas não pode ter conhecido Novalis, que morreu cedo, quando o compositor ainda era criança.
Para explicar melhor o trabalho de Schubert sobre estas primeiras escolhas poéticas, L.Feurzeig adianta que ao compositor interessou tanto  a linguagem, e a sua estrutura rítmica, como o sentido e a dimensão humana alargada de cada poema, abarcando (como aliás sugeriam as doutrinas de Schleiermacher e Schlegel ) o contexto social, para além do íntimo e pessoal, se tal fosse interessante (p. 46).
Encontra-se em Schubert, para além da sua intuição e sensibilidade artísticas, uma empatia de carácter psicológico (eu diria mesmo simbólico) na interpretação musical que propõe. Como se se pudesse aplicar, diz a autora que nos guia, “ a frase de Schleiermacher de que uma pessoa se transforma na outra” (p.46).
Assim teríamos num acto único de fusão inspirada (os alquimistas falariam de conjunção ) o poema e a sua música elevados ao mais alto grau de criatividade.

Mas nada disto nos deve fazer perder o fio do que é na verdade o trabalho do artista: na poesia, como na composição musical, passada a fase desta intuição ou deste primeiro, profundo, entendimento, segue-se o trabalho, por vezes ou quase sempre, bem árduo, de estruturar, expôr e ampliar de forma elevada e coerente o sentido do que se descobriu.
Na sua composição do poema Die Berge / As Montanhas, de Schlegel  (são onze as do ciclo Abendroete ), sobressai a noção de que é indispensável uma forte estrutura (artística) que dê consistência ao todo do pensamento, tal como a dureza das rochas suporta na realidade a elevação da montanha.
Não falarei, pois está abordada com grande detalhe nesta obra que cito, da estrutura musical que Schubert encontra para estabelecer um paralelo de unidade com a estrutura do poema escolhido (pp. 47-50).
Saliento apenas o cuidado de encontrar, na expressão musical, o sentido que corresponde à expressão poética.

No tocante a Novalis, e seguindo este mesmo curso de pensamento, poderemos verificar que Schubert escolhe dois modos diferentes de exprimir a religiosidade que encontra na obra desse jovem românntico.
Para esta autora, Lisa Feurzeig, que nos dá a conhecer aspectos inéditos da obra do compositor, há nos Hinos de Novalis uma dimensão que ela considera de fusão mística e sexual (p. 50).
Não concordo por completo, embora se saiba que no êxtase místico descrito por alguns santos essa dimensão não pareça estar ausente; mas tem de ser compreendida no contexto da época, da solidão e martírio de um corpo que só a Jesus se pode entregar, e nessa entrega se quase-dissolve, fazendo de Jesus o Amante ideal e dessa entrega algo mais do que um espasmo de histeria.
Penso que é excessivo falar de sexualidade na entrega mística dos Hinos de Novalis, escritos na saudade do seu jovem amor perdido.
Schubert compôs, concebendo-os também como um ciclo ( 1819-1820) seis Hinos, dos quais cinco são das Geistliche Lieder, exprimimdo a devoção à Virgem Maria, Redentora e o último, dos  Hinos à Noite / Hymnen an die Nacht , com a marca amorosa então mais evidente. 

Poder-se ia agora estranhar, chegados ao último dos ciclos, do Canto do Cisne, que a estrutura de organização pareça fluida, ou mesmo ausente, fruto de soma de acaso.
A razão é simples: não foi Schubert, como já tive ocasião de dizer, que organizou o ciclo, e sim o seu editor, Tobias Haslinger, autorizado pelo irmão do compositor, Ferdinand, escolhendo das canções póstumas as que melhor lhe pareceram, por ser possível organizá-las com a aparência de um ciclo de conteúdos afins, pelos seus temas.
Mas claro que um ouvinte ou um estudioso atento há-de reparar que forma um ciclo o conjunto de Ludwig Rellstab (1799-1860), a abrir com a canção n.1, Herbst / Outono e a fechar com a canção n. 8, Abschied / Despedida. Aqui sim há uma estrutura organizada, como nos ciclos da Bela Moleira ou da Viagem de Inverno. Aliás estes poemas tinham sido inicialmente oferecidos a Beethoven pelo autor, mas o músico, tendo anotado alguns, deixou-os depois de parte e foram esses que Schubert optou por musicar.
Seguem-se, em ordem que diremos arbitrária, os seis poemas de Heinrich Heine – conjunto que esse sim forma de novo um ciclo autónomo e finalmente os de Johann Gabriel Seidl (1804-1875), que são sete, formando por sua vez também um ooutro ciclo. 
Só o tom melancólico, as formas estróficas, e os temas comuns de desolação, abandono de amor e apelo da noite e da morte estabelecem um fio condutor.
E só este fio permite que o editor os tenha reunido com um título comum.
Ficará no entanto, e para sempre, a lírica fusão de entendimento do compositor com os seus autores, no respeito, já referido atrás, das novas doutrinas do Romantismo da Escola de Iena.

De  O Canto do Cisne destacarei em especial os poemas de Heine (n.9 a 14), por ter sdio, com Goethe, o poeta mais amado.
 Em Der Atlas / Atlas, ouve-se o lamento do gigante orgulhoso, que ao atrever-se a carregar o sofrimento do mundo, preferindo sofrer a nunca ser feliz, agora é castigado e sofre para sempre.
Em Ihr Bild / O Seu Retrato, chora o poeta o seu amor perdido, com lágrimas que lhe escorrem pela face ao recordar como num sonho a sua bela amada.
O mesmo desgosto de um amor perdido é expresso na canção Die Stadt / A Cidade, em que se descreve a cidade vista ao longe, ao pôr-do-sol, envolta em nevoeiro; no seu barco, embalado pelas ondas, o barqueiro rema tristemente; o sol volta a nascer e o poeta, já perto da cidade, contempla o lugar onde perdeu o seu amor. 
Am Meer / Na Praia, é mais um poema de amor, mais um desgosto, evocado na praia, junto ao mar, na casa de um pescador; estão sentados sozinhos, em silêncio, cai o nevoeiro, a maré sobe e então a amada começa a chorar; o poeta ajoelha a seus pés, recolhe as lágrimas que bebe das suas mãos; e desde então, exclama, tudo lhe dói no corpo, morre-lhe a alma de saudade, a infeliz da mulher envenenou-o com as suas lágrimas! 
E finalmente, Der Doppelgaenger / O Sósia, composto em 1828, ano da morte de Schubert, o mais misterioso dos textos ( o  título foi escolha de Schubert).
Pertence ao Buch der Lieder / Livro das Canções de Heine (1827) onde não tem título, o que torna o final ainda mais misterioso. O Livro de Heine está dividido em cinco secções, e todos os poemas de Schwanengesang pertencem à terceira secção, Heimkehr / Regresso a Casa.

  O Sósia

A noite em silêncio, em sossego as ruas,
nesta casa viveu o meu tesouro.
Há muito que deixou a cidade,
mas a casa aqui está no mesmo sítio.

Também ali está um homem a olhar para o céu,
torcendo as mãos, entregue à sua dôr.
Assusto-me ao descobrir o seu rosto:
a lua deixa ver que sou eu mesmo.

Oh tu, meu duplo! Pálido companheiro!
Por que imitas o meu penar de amor,
a tortura sentida aqui neste lugar
tantas noites seguidas, desde sempre?


Este é um fecho magnífico: da vida ao espectro da morte, o todo atravessado pela experiência única da saudade e do amor.

Bibliografia

Novalis, Werke, Tagebuecher und Briefe, B.1 / 2, Carl Hanser Verlag, Munch, Wien,1978

Novalis, Art et Utopie, Les Derniers Fragments (1799-1800) ed. Olivier Schaeffer, Aesthetica, Paris 2005

Dictionnaire de la Musique, Les Compositeurs, Enciclopaedia Universalis, ed. Albin Michel, Paris, 1998

The Unknown Schubert, edited by Barbara M. Reul and Lorraine Byrne Helder Macedo, Viagem de Inverno, ed. Presença, Lisboa,1994




Sunday, October 19, 2014

The Black Book


ORHAN PAMUK
The Black Book, em nova tradução inglesa, de Maureen Freely.
Não há contraste maior, ler Pamuk a seguir a qualquer outro livro,  produto da nossa cultura europeia, ocidental. O nosso olhar lúcido, rápido, ao mesmo tempo próximo e distante, como acontece agora, no momento em que escrevo e posso seguir na televisão os progressos da guerra nas fronteiras da Turquia, os horrores do Ébola, a adiada condenação de Oskar Pistorius que matou a namorada, que fugia dele e se fechou na casa de banho para desgraça sua ( e dele?)-
Abro o livro de Pamuk e sou desde as primeiras linhas enredada num mundo que é todo seu, vejo pelos olhos dele, sinto e penso pela sua cabeça e coração. O alter-ego que surge na narrativa, debruçando-se sobre o corpo semi-adormecido ainda da mulher que ama já é, ao mesmo tempo, ele e outro. Um outro que será objecto da sua inquirição, com o qual se identifica por vezes plenamente, perdendo-se nele sem saber afinal quem é, se ainda é ele mesmo ou já definitivamente o outro que persegue.
Assim, na sua prosa de filigrana delicada, caminhamos, como caminhávamos com Proust (que ele cita) em direcção a um tempo perdido. 
Mas não totalmente perdido, antes recuperado pela constante intromissão numa narrativa que oscila e envolve, evoca e recorda como se ali mesmo no instante narrado estive diante de nós a acontecer. A tradutora chama a atenção, no posfácio, a uma particularidade da língua turca (que eu desconhecia e explica  muita coisa): não existem nesta língua nem o verbo ser nem o verbo ter. O que naturalmente levanta ao tradutor, e mesmo ao leitor, dificuldades acrescidas de entendimento aprofundado para encontrar o sentido verdadeiro, que pode ficar perdido entre palavras (lost in translation, como no filme..). 
Se na poesia algum mistério até pode ser mais sedutor, na prosa a decisão não é fácil! Mas esta tradução foi feita a duas mãos, por assim dizer e podemos ficar seguros de que é tão fiel quanto o autor desejou e a tradutora conseguiu.
Apesar de uma primeira ironia sobre as epígrafes, não devem usar-se porque estragam o mistério do que se vai seguir (Adli) no capítulo I, Pamuk abre cada capítulo com uma epígrafe, ora de autor antigo ora moderno - cita Proust e percebe-se que Pamuk é um escritor cuja narrativa tem muito de proustiano no envolvimento permanente com o tempo, ora passado, ora presente, ora entre um e outro - e cita também, já no capítulo 19, Lewis Carroll, Alice in Wonderland (obra que eu própria não me canso de ler e reler, revela um pensamento quântico inesgotável...) aquele momento em que Alice se interroga:
"Was I the same when I got up this morning? I almost think I can remember I was feeling a little different. But if I am not the same, the next question is 'Who who in the world am I ?' ".
Ora esta é a interrogação permanente que se traduz nas intermináveis descrições, minuciosas até â exaustão, do nosso narrador, cuja mulher desapareceu, isto é, saiu sem lhe dizer nada e não voltou, e que ele suspeita que possa ter fugido com um colunista que ele lia todos os dias, com admiração e alguma emulação, ao ponto de se confundir com ele, no que escrevia e quem sabe- esse é o ponto central- e no que vivia.
São um e outro ? São ao fim e ao cabo, o mesmo? no decurso da escrita? - Pamuk lembra que não há nada de mais chocante do que a vida (no capítulo II, epígrafe de Ibn Zerhani) a não ser a escrita.
Por uma razão que iremos acompanhando: na escrita tudo é possível, até o impossível que a vida não concede.
A escrita, única consolação com que termina a útlima página do romance.
Mas voltando ao princípio o narrador, o que salienta, após a descrição do olhar de Galip ainda meio adormecido, sobre o corpo da mulher estendida  a seu lado, a mulher que ama e de quem tem ciúmes, é simplesmente que ele se lembrava que aquele jornalista seu preferido,  Ce|âl, escrevera numa crónica que a memória era um jardim: Memory is a garden,(p-1). Logo Galip aproximou essa imagem da mulher, Ruya, e que esses seria os jardins de Ruya...
Pensar nisso era ser atacado de um ciúme que não conseguia evitar. Pensar nisso reenviava a sua imagem para os tempos felizes da infância em que sendo ambos crianças, ele e Ruya, passeavam de barco, com  as pernas fininhas lado a lado, praticamente idênticas como nessas idades são os corpos indistintos das crianças. Tempo feliz.
Desse tempo tão longínquo datava o seu conhecimento, convívio, aproximação, casamento...e agora havia um colunista Celâl, que Galip idolatrava, não prescindindo de o ler todos os dias, sonhando poder um dia vir a escrever como ele. Celâl que era afinal um outro que se intrometia na relação de homem e mulher que ali tinha sido apontada, no início da narrativa.
A narrative corre depois em torno da ida embora de Ruya, deixando apenas uma nota de despedida, quando em páginas anteriores, e sob uma epígrafe de Rilke, se tinha falado de "família". Sel ela não havia mais família, e a dôr dessa perda ocupará muito do deambular do herói, e da obssessiva inquirição do outro, o tal colunista admirado, emulado, Celâl...
Continuando a ler, apercebemo-nos de que gradualmente o Mistério de que o autor nos vai falando, bebido também nos grandes clássicos da cultura árabe, como as Mil e Uma Noites, ou as muitas lendas e pequenos contos moralizantes da herança turca, é um mistério que ultrapassa as memórias de infância, de Galip e de Ruya, e se desenvolve nas páginas de antigos manuscritos que o seu pseudo-rival, Celal, também teria lido.
Nesses folios antigos, roídos pelo tempo, ou nas páginas da transcrição recente , aí, na leitura, no entrelinhado de um alto pensamento, descobre o autor o peso da palavra, escrita, lida, transcrita, relida, viva - a palavra para sempre viva - que fará dele o que ele é : um escritor, com a paixão da escrita.
Um escritor que transpõe no que escreve o que a memória da sua pátria (sim, ele tem uma pátria cultural, ainda que atravessada por dois lados opostos, como relembra numa das lendas que recupera, da divisão eterna entre os lados do oriente e do ocidente) lhe transmite.
Não é apenas a infância feliz, e cheia de interrogações, é um passado que abre, no presente, as mesmas interrogações (voltávamos a Alice) sobre o valor da história e da memória.
Mas para se chegar à solução final desse Mistério absoluto teremos de concluir, com Galip, todo o caminho feito: um caminho por dentro da memória, por dentro da sua antiga herança, e pela meditação do que aceita ou recusa, o poder afirmar quem é e o que é. Ele é um contador de histórias, na melhor tradição turca, ele é um escritor que reinventa a palavra, na melhor tradição do ocidente. Faz a ponte, entre Celal e Galip, num impulso de androginia cultural assumida.
Uma escrita carregada de sonhos (o passado, o corpo de Ruya a dormir ainda, virada de costas) carregada da inquirição do presente:tudo o mais que sucedeu.





Thursday, October 09, 2014

Rita Ferro

A MENINA É FILHA DE QUEM?
Rita Ferro, Prémio Pen Club 2012
Entre Pamuk e Rita Ferro...
É verdade que a leitura de um livro puxa outro...
Aconteceu com Orhan Pamuk, quando li RED, a seguir li SNOW e agora espero pelo BLACK BOOK.
Aconteceu com o Diário 1 de Rita Ferro, VENEZA PODE ESPERAR, que me fez andar para trás e comprar A MENINA É FILHA DE QUEM?, livro anterior e se define como autobiografia.
Rita nasceu em 1955: significa que aos vinte anos é apanhada, como tantos da sua geração na onda que só não chegou antes a Portugal por causa da Ditadura de Salazar e com o PREC rebentou pelas rochas (os mais velhos, empedernidos) e areias e lamas das almas do nosso país, com toda uma revolução de costumes que não se esperaria tão rápida, mas foi o que foi. Já sedentos, desde o Maio de 68 de Paris (apesar de tudo viajava-se....) agora podiam, uns e outros, embebedar-se à vontade. Uns de política, outros de paixão. Rita era a mais nova dos três filhos de António Quadros. E pelo que nos diz, a mais irrequieta, a mais disponível para a travessura, no colégio ou no grupo de amigos.
Não falarei aqui do seu pai, do círculo da amigos - também eu estive em casa da Natália Correia, com o David Mourão-Ferreira, a tentar não sorrir daquela apetência de Além, tão pessoana, ou dos serões no Botequim, onde tudo podia acontecer, do piano, do canto e poesia à Revolução. Com Alberto Pimenta, lia-se o Tarot.
Com Mestre Lima de Freitas buscava-se a nova alma, o novo destino de Portugal. Na Nova Filosofia nunca acreditei muito, e a prova está à vista, não produziu os efeitos esperados. Mas respeito o esforço de repensar o país.
Entretanto, uma jovem menina, depois já mulherzinha, corria em busca do seu caminho: espreitando as amigas mais velhas, ou os amigos  mais velhos já tentando cortejar, ela observa, ela aguça os sentidos, ela diverte-se enquanto a vida e as vidas acontecem.
Numa prosa por vezes rasgada - entenda-se realista para além do que seria preciso, por vezes sugerir é mais interessante do que explicitar ao pormenor, o mundo em que cresceu, feito de boa educação (severa, claro, como se devia, ainda que hipócrita tantas vezes) de livros, boa música, poesia pelo meio, algo enfadonha, mas resiste-se e adquire-se sensibilidade, essse mundo chega até nós de modo irónico e irresistível, quando uma avó, por exemplo lhe diz àcerca de uma amiga:" essa não a traga mais, dá dois beijos e diz mala em vez de carteira!" Tão aguda, tão perfeita observação de um mundo que já tinha acabado, pela mão dos próprios, que ainda não se tinham apercebido. Conheci-o bem, e não resisto a sorrir quando a Rita o evoca, rindo também ela, com ternura.
Mas Rita vira chegar o novo mundo, e decidiu vivê-lo, todo e com sofreguidão. As casas que se perdem, se dividem, os casamentos que se fazem e desfazem, as memórias que nos tomam de assalto e sentimos o dever de recontar.
Pelo meio um país que muda: exigente, mas mesquinho, mas ainda invejoso, - como lamentam os "Pensadores" poucos, que temos, e cujo pensamento não ajudou à mudança (Não, não vou citar! ).
O que faz ela? Mulher que se diz bicho, que se diz fêmea, devoradora, que se interpela enquanto caminha e ora sai ora regressa ao que aspirava a ser, o que faz ela? Toma a vida nas mãos e luta: pelo dia-a dia-, por um trabalho que garanta independência e altiva elegância até poder libertar-se e plenamente ousar dizer o que é. Dizer é pouco? Mostrar!
Afinal a vida ensina que se é muito pouco, mas esse pouco é a nossa vida, só mesmo nossa, merecida, bem sucedida, finalmente ganha contra tudo: o que se foi, o que se é, o que se virá ainda a ser. Como em todas as vidas, houve, na sua, o sofrimento, a perda, e o desgosto.
E haverá quem sabe ainda mais.
Mas a graça com que intercala situações caricatas e divertidas com outras discretas e penosas - aquelas que se calam (Rita tem desde logo a noção de que falar nada adiantaria) - são a chave do ímpeto com que se lê esta biografia, que foi o ponto zero do Diário de Veneza.
Aqui está tudo ainda em embrião, pois a menina - sendo ou não sendo filha de quem era, carregada dos genes de uma família de criadores - podia nunca chegar a ser o que é:jovem irreverente, mulher ávida e ao mesmo tempo mãe de família, que colocou a família no centro enquanto a loucura da escrita a empurra e possui, como possessa que é da necessidade absoluta da Palavra.
Não farei aqui nenhum resumo, seria ofensivo para quem a deseje ler.
Mas leiam, porque se aprende, como ela aprendeu, e nós com ela, também a desaprender!





Tuesday, September 16, 2014

Rita Ferro, Veneza Pode Esperar (ed. LeYa, 2013)
Trata-se de um Diário: Diário I, vem na capa.
Há muito tempo que eu andava à procura de um livro que me absorvesse por completo, que me fizesse ler sem conseguir parar, puro prazer de ler e de seguir em frente. Preciso de distracção, mas distracção com boa escrita é a única que suporto. Não consigo ler má literatura. Ora acontece que o livro que abri não é de distracção, é um livro excelente, tanto do ponto de vista  do que se entenda por diário como de boa literatura (valha o termo o que valer....) ou mesmo de literatura para consumo ligeiro.
Não o li todo num dia,  mas li-o todo em dois dias. E sempre de seguida, sem aborrecimento em momento algum, encontrando, para além da escrita rápida, descomplexada e segura - seguríssima nas escolhas, nas entradas dos dias e das datas ( o que também informa sobre os tempos e ritmos da autora) nos comentários à parte, nas interrupções do quotidiano (um escritor tem um quotidiano...), nos pormenores só aparentemente dispensáveis, (nada ali do que vai escrito é dispensável, a todos nos toca, na nossa humanidade, naquilo que simplesmente somos (ou não) em cada situação, homens e mulheres de qualquer idade todos ali nos revemos ).
Claro, tenho consciência de que para além do espírito (wit sem ofensa para quem não distinga a subtileza do inglês) da autora, seu génio, sua ironia, perversa ou sincera, será mais fácil para alguém da minha idade, 74 anos, que atravessou o salazarismo e conheceu bem os méritos de António Ferro, o SNI e Amália antes de promovida a deusa ímpar, a tentativa de trazer para Portugal os grandes do Pen Internacional (algo que pouco se refere)a poesia e o carácter de Fernanda de Castro, a quem o José Carlos Ary dos Santos chamava a tia Fernanda - enfim esta sociedade a que me refiro e Rita Ferro tão bem descreve, de pena ligeira, ali está toda no seu diário e para quem não tenha hoje idade de saber a memória é útil, além de ter sido boa para quem a viveu: boas famílias, de boas casas ( alguma de aristocracia antiga e firmada, outra mais recente, mas com a aristocracia, que também o era, das fortunas grandes e estáveis).
Segue-se a fase seguinte, a de uma nova estrutura social que chega aos sopetões (gostamos de dizer sem sangue, mas houve grandes sofrimentos) e altera sobretudo comportamentos sociais e religiosos (em grande parte já o eram pouco); Rita conta como casou e descasou três vezes, como as heranças com as mortes na família se foram desfazendo, como viveu à mesma, ora mais feliz ora menos, foi sendo mãe como hoje é avó (aqui entra essa empatia humana que a aproxima de qualquer de nós): contudo não se perde nunca o que ainda hoje é verdade indiscutível, a esfera a que se pertence, de berço nascido, deixa marca indelével, e é bom, diria mesmo que é óptimo, que assim seja. Rita Ferro não renega os seus, não se renega a si mesma, como em alguns diários de grandes autores que não vou citar, vi acontecer. Há diferença entre arte e carácter e confesso que nesta leitura me senti atraída por ambas as qualidades, a da escrita e a do carácter. E como num post a dimensão tem de ser reduzida, abordo então a última  das três fases que nas descrições do diário se descobre: a da actualidade, que no caso da Rita é a dos filhos, e ela tão bem deixa entender quando fala da surpresa da separação do seu filho mais velho.
É que havia 3 sociedades num Portugal que foi evoluindo aos sacões: o do Antigamente (e ali estão os avós) o do célebre PREC do 25 de Abril ( e ali está ela com os seus pais) e o do neo-post-25 de Abril, ou da União Europeia?(e aqui está ela com filhos e já com netos: como qualquer de nós, avós, também se ocupa deles quando os filhos precisam).
Num aparentemente simples diário, Rita, que ironicamente no título adia o passeio a uma Veneza sonhada (mas não sonhámos todos com Veneza, a dada altura? Wagner, Thomas Mann, outros, de Veneza viveram e de Veneza morreram....) - Rita faz-nos atravessar três momentos de um Portugal cujas "esferas" sociais entraram em mudança, para uns melhor, outros pior, -para todos diferente, como a vida.
E agora eu iria, na companhia de Jung, à substância mais oculta de uma vida que se expõe. Na idade em que está a autora, está no que Jung chamou de "meio da vida" - o que acontece por volta dos 50 anos. E é nesse meio da vida, nesse momento especial em que a pessoa, homem ou mulher, deixa de ser uma Alice caindo pelo poço, esse momento tão especial, é aqui vivido com plena interrogação, defrontando um real - mais do que uma realidade (essa é o quotidiano, segue sempre) em que se aguarda uma revelação que seja entendimento, o da plenitude do Ser.
Se ao longo das páginas se ironizou sem lágrimas pífias, sobre o Ter que se perde, eis que alternando com elas se vê ir chegando  o momento de reflectir sobre o Ser que se tem, o ser que se é.
Apercebo-me de que até ler dois terços do livro o que mais me chamava a atenção era o modo como a autora nos trazia as três variedades de um Portugal social em modificação, ora para o melhor ora para o pior, mas também ultrapassado com a força de uma bonomia muito nossa. Chegada ao fim da leitura descubro algo mais e não menos importante: como a autora, na sua qualidade de portuguesa, que não esconde, antes se orgulha dela, nos oferece do mesmo modo, liberto e dadivoso, os três pilares do que foi e é a sua vida, de mulher, de mãe, de avó. Pilares de um edifício tão português, tão nosso, que é o edifício da Família, aqui por ela glorificado, quem sabe sem dar por isso?
 Difícil dizer mais.
Aguardo a continuação, se houver. Mas se não houver, para mim aqui tudo ficou dito, contido como  num ovo. Só Rilke, nos célebres Cadernos de Malte Laurids Brigge me entusiasmou tanto a ler.




Monday, August 25, 2014

DE ALBERTO RIOGRANDE, um livro de contos,
A Mulher Vestida de Sol, 2014

No Prefácio de Rui Machado é feito um apontamento cuidadoso sobre a escolha geral dos temas (personagens) e a sua circunstância, real ou ficcionada.
A estruturação da narrativa, transversal a um tempo ora presente ora passado, recuperado para que o decurso irregular, por vezes feliz a mais das vezes doloroso,  possa avançar é para mim a qualidade maior desta obra.
A estrutura é liberta, e liberta igualmente o leitor, que pode escolher demorar-se a reflectir nesta ou naquela situação oferecida. Estamos perante um conjunto de contos em que se chama a atenção para aspectos diria, sem ofensa, menos modernos, mas muito actuais e fora da onda dos sucessos de vendas que nos consomem, a nós que gostamos de ler com lentidão e sossego.
Há coincidências curiosas, e nesta mesma semana encontrei nas livrarias o livro póstumo de António Tabucchi, dedicado a uma Isabel que o narrador busca de capítulo em capítulo, alguém de um outro seu tempo, e que nos é trazido pela mão da Maria José Lancastre, erudita pessoana, sua companheira de sempre, na obra e nas traduções que em conjunto fizeram.
Ah, que saudade e que prazer, esta minha agora leitura lenta...Também no livro de Tabucchi, em estrutura mandálica, é a estrutura que me atrai e me faz, a momentos, ponderar:
O escritor, da caneta na mão, suspende o gesto, aguarda, até que sinta que pode seguir em frente. Tranquilo, segue. Nuns será círculo a círculo, noutros côr a côr, noutros ainda hexagrama a hexagrama, ou como no jovem que descobri recentemente, Leonardo Chioda, carta de Tarot a carta de Tarot..
Em todos a escrita é iniciação - e se não é, melhor seria não escreverem!
Em Rio Grande, para além de referências culturais próprias da sua formação e que me agradam, mas não reside nisso a qualidade da prosa, encontro o gosto do detalhe, a minúcia do olhar atento ao meio que o rodeia, a situação inicial, a paisagem, os corpos que se encontram, desejam, desencontram ou voltam a encontrar-se, fundindo-se, como diz num desses contos.
Cada vida na via que foi dada.
Por qualquer razão que não vou aprofundar, foi assim , assim direi, recuei a Coimbra, aos meus tempos de jovem estudante, em que lia Fernando Namora, amigo do meu pai, médico e escritor. A sua prosa era feita da vida que se vivia. E a outra obra de prosa igualmente directa, expurgada de inutilidades, a de Miguel Torga, também ele médico e amigo do meu pai.
Eu lia também autores muito diferentes: Jacques Prévert, Sophia de Mello Breyner, Fernando Pessoa (Ricardo Reis).
Habituei-me à variedade.
Hoje em dia a liberdade, na variedade, é total: da maior objectividade ao maior sentimentalismo, tudo é permitido, desde que em prosa escorreita.
Não farei aqui citações, pois o importante é chamar a atenção para a existência (resistência) do livro. Reparo que se em Tabucchi o desejo de contar e encantar é feito de expressa recusa, pois claramente diz, "não direi", em Riogrande a intenção é outra: é dizer, "expressamente dizer" talvez mesmo explicitamente dizer, a razão ou sentimento do que move os seus intervenientes. 
Outros tempos, este nosso em que ser explícito é quase necessidade, como se se tivesse perdido o que só no mistério se intui...e a cada momento o autor tenha de fazer como o velho Proust e procurar algures na sua escrita o seu Tempo Perdido.
Em cada conto de A Mulher Vestida de Sol poderá o leitor encontrar o seu espaço, mais urbano, ou mais poético e romântico, a variedade é aqui uma das qualidades da Obra.
Certamente outras se seguirão...





Saturday, July 26, 2014


Leonardo Chioda
Tempestardes, 2014

Este é um mês de tempestades e de descobertas.
O que me faz dizer que nunca é tarde - como em Tempestardes - para esperar por um bom livro, que nos apeteça e nos desperte uma vez mais e sempre para o enorme gozo da leitura.
O autor, Leonardo Chioda, é jovem e muito conhecedor da literatura portuguesa contemporânea, Herberto Helder destacado de longe, numa aprendizagem do desmanchar e do fundir imagens e palavras que renovam e fazem voar o verso.
Mas há outros poetas da nossa modernidade, passando por aqui, como Jorge de Sena, Sophia de Mello Breyner, Gabriela Llansol, Ana Luísa Amaral, Teresa Horta que abre em epígrafe o início, da "víscera da musa", com o seu belo verso:
Vem tempestade
vem luz
de alumiar o destino
...
Belo começo, que alumia o livro à nossa frente.
Antecedido por um prefácio que elucida o caminho, os estudos, as viagens por paisagens reais e literárias, da autoria de Ana Maria Domingues de Oliveira, Professora da UNESP, onde ensina literatura, vemos mais uma vez como é importante a relação que se pode (deve) estabelecer ente quem ensina, amando o que ensina, e quem aprende, pois aprender é o início de todos os inícios e será o fim de todos os fins que se consigam.
Leonardo Chioda faz parte desta geração a que já aludi, com Andrei Sen-Senkov e Sveta Dorosheva: jovens, viajados, lidos, cultos acima da média, e tendo por isso uma capacidade de criação original, diversa e muito diferente do que se descobre nas estantes das livrarias. O seu Verbo é atrevido, constrói e desconstrói, suga imagens em verdadeiras cartas de destino, ou segue indiferente por trilhos que outros abandonaram: perigosos por vezes, carregados de sombras e de  mitos, sabendo no entanto que os mitos são o que são, projecções que só cada um saberá entender. O poeta é e será sempre, mesmo ao comunicar o seu verso, um Ente solitário.
Andrei, que é médico, exerce a sua profissão numa Rússia problemática, alarga o verso ao espaço da comunidade e às feridas que cose. Encontrei-o no Facebook, que parece, neste mês de Julho, o espaço dos encontros para mim mais felizes.
Foi também por aqui que nos encontrámos, Leonardo e eu,via Facebook,  por muito que não se goste: porque o FB, se proporciona inusitados encontros, também revela frequentemente a vacuidade das horas e do tempo (leia-se das cabeças !).
Mas neste caso o encontro, bafejado pelas estrelas ? Foi o melhor que me podia suceder. Eu ia reler Machado de Assis, Dom Casmurro, essa obra-prima, um clássico dos clássicos, pensando que não teria, nas férias, autores que me agradassem.
E eis que finalmente chega, pelo correio, o volume das Tempestardes...
Amo a poesia e amo todos os poetas que escrevem, como se fosse respiração natural, a sua poesia.
Porque no poema se desvendam almas e destinos - o destino poético é de todos os caminhos o maior...e as almas precisam dele.
Rosne Carneiro, poeta, alumia as palavras iniciais, que deseja iniciáticas. E Ana Maria, que já referi, enquadra o bom caminho.

Entrando pelas palavras dentro, e sabendo-se que Leonardo é tarólogo, fui visitar o seu blog Café -Tarot, e estudou literatura, e entre outros  que cita vemos um G.Bachelard,  a par de uma peça de Versace - e outros exemplos do género, concluímos que o olhar deste poeta é abrangente, que tudo o que rodeia é ou pode ser momento ou fonte de inspiração: Andrei cose feridas, Leonardo entretece destinos, do Verbo ou das mais humildes palavras.
Porque nele veremos que tudo é Um, como se diz na hermética Tábua de Esmeralda que certamente leu, ainda que em partes.
Na mágica fortaleza da Alhambra, a que se refere (p.23) não evoca o último Abencerragem, seu destino, mas segue e aligeira:
(o destino 
é uma menina

ou um monstro
ao dobrar da esquina)

destino caminha feito tigre
... 
Para concluir que o destino é poesia.
O seu vocabulário alimenta-se de todos os vocábulos, das ciências literárias às ciências naturais, à botânica,  ou pura e simplesmente brinca porque o som lhe pede que o faça, alargando o sentido:
vai pelos confins do texto
no sentido litoral da palavra
(p.33)

Somatórios de acaso (mas serão apenas de acaso, ou imagens recuperadas do fixo acordar do sonho, ou da carta tirada?):
contorna o atalho da palavra
de índole harpa
na rota clepsidra
semelhante ao regresso espelho

desvela o símbolo,
...
a anulação dos verbos, dos adjectivos, deixando flutuar a palavra, a harpa, a clepsidra, o espelho - no espaço azul do símbolo - remete para segredos mais íntimos. Terá de ser o leitor a decifrar.
Ou medita, ou repete, ou deixa de parte até novo momento, e aí, como no Éden antigo, descobrirá " os frutos assombrosos".
Podíamos seguir os títulos: Sísifo, por ex.(p.35).
Abre com um "infinito" e segue por um encadeado de rimas internas, todas em i, que apanham o leitor desprevenido, pois de tal alusão ao mito de um Sísifo de cruel castigo se esperaria, quem sabe algum sabor mais trágico...pois não, e habituem-se...o poeta despe os seus mitos, como despe as suas palavras, os seus versos, até ao acaso, ocaso da linguagem!
Estamos perante uma obra em que se
desconfigura
a órbita dos mandalas
a palavra é vertical...
(p.110)
E o verso pode ser ainda mais, ser animal, como quando nos lança em desafio a utilização do verbo "panterar".
Caeiro gostava de pastorear o seu rebanho, o seu rebanho eram as suas ideias; ideia de árvore, mais do que o sentimento do que esta ou aquela árvore despertasse nele. Já Leonardo Chioda anda a "panterar", com os seus versos, todos os seus sentimentos, todas as suas sensações, de cada momento.
Não abstrai, concretiza, funde, devora...é outra modernidade a sua...
Termino, não sem antes sugerir que se leia, já no fim, SOBRE A ESPERA (Llansol revisitada), na página 130.
Não cabe aludir a tudo, num post. Mas cabe uma alusão, que alimentará estas e outras ilusões de que a poesia pode ainda salvar o nosso mundo.







Friday, July 11, 2014




Crianças entre Ruínas

Há um muro 
que as separa.

Com sede
quem lhes levará
a água?

Com fome
quem lhes levará
o pão?

Com sono
quem poderá
num enxergão desfeito
dar o último beijo, 
o último aconchego?

Perguntam
querem saber:

Quem 
lhes devolverá 
a vida
ainda tão pequena
e tão cheia de medo?

(Julho 2014)

Thursday, July 03, 2014

A criança de Gaza





A criança de Gaza

O que faz
a criança de Gaza:

a criança de Gaza
corre na rua
foge de casa
a casa
foi destruída

Onde brinca 
a criança de Gaza

a criança de Gaza
brinca na cave escura
escondida
atrás das pedras

Como vive
a criança de Gaza

a criança 
vive com medo
o medo é 
o seu companheiro

e uma ou outra vez
ajoelha-se 
e reza
a um deus
que já não é
inteiro

(Julho, 2014)


Wednesday, July 02, 2014



Sophia

Ia e vinha
e a cada coisa perguntava
que nome tinha
(Coral)
Foi assim que em Coimbra me encontrei com a sua obra.
Mais tarde, na Praia da Granja,  a praia e o mar bravo das férias, antes da sedução do Algarve, na Praia da Donana pude conhecê-la pela mão de amigos, como Eugénia Aurora e outros.
Depois foi a Revolução, um jantar íntimo em sua casa; estavam o Eduardo Lourenço, recém chegado a Portugal,  Manuel Alegre, o Eng. Cravinho, político em ascensão.
Informal, parte da noite foi de encontro de amigos, mais do que de reflexão política.
Hoje Sophia é levada com honras de Estado para o Panteão.
Não precisa.
O que nos ficaria bem, a todos nós, que a lemos e amámos, é continuar a lê-la: nas escolas, em casa, no mundo, por toda a parte.
Quantas obras suas estarão traduzidas, para que a limpidez do seu verso, da sua prosa, sejam conhecidos?
Noite fabulosa de jazz com Benny Golson, no Hot Club de Portugal.
Entre outras histórias de vida que inspiraram os temas, Benny gostou de falar de Along came Betty, seu primeiro e juvenil amor, para depois não esquecer mais Bobby, a mulher que partilha a sua vida há mais de 50 anos!
Mas vale a pena ver e ouvir tudo : música de rara emoção a par de vidas vividas , a dele e a dos outros grandes com quem dividiu inspiração, carreira, sucessos...

Saturday, June 21, 2014

Escrever para a juventude


Ainda os Contos de Quatro Cantos do Mundo:

Sempre fui de opinião que a boa literatura é para todos, de todas as idades. E que se deve, podendo, ler tudo, desde a banda desenhada de Mandrake o mágico aventuroso, ao Poirot de Agatha Christie, ou, mais científico, um Júlio Verne. Em tempo haverá tempo e oportunidade, se ficou desenvolvido o gosto de ler, para ler James Joyce, Clarice Lispector, Virginia Woolf, ou, escolhendo poesia António Gedeão, Pessoa ou Herberto Helder.
Assim, não acho que seja impositivo,  à partida, que o propósito de um escritor seja, num conto para a infância ou para a juventude, o de simplificar a sua escrita. Pode sem dúvida escrever de modo mais directo e acessível (será útil para todos, pequenos e grandes) mas isso já é definição de boa escrita, e não de escrita "simplificada", no sentido de empobrecida.
No caso destes contos de Cristina Carvalho, o que me interessou  foi ver como, à medida que a narrativa se organizava, ia surgindo de modo adequado uma "lição" do texto: informação e formação.
Assim, na aventura do pólo norte,Vidas brancas, ao mesmo tempo que acompanhamos o dia a dia de uma família de esquimós, na descrição de um avô (que chegou ao termo dos seus dias) de seus filhos e do netinho em quem se concentra mais a história, o pequeno Jal, sentiremos (a par do deslumbramento da paisagem, dos rituais quotidianos ) como é importante o laço que une uma comunidade permitindo que se organize e sobreviva, e, no caso de Jal, no encontro com a foca-bébé e a cria de raposa, como é importante a empatia com aquilo a que chamarei de "vida animal", que devemos amar e preservar. 
Houve neste conto informação genuína e formação de "lição" como já nas tabuínhas antigas da Suméria, na epopeia de Gilgamesh o contador sentia a necessidade de fazer.
Contar é acrescentar ou sublinhar algo que se tornou importante, para nós e para os outros. Um conto, como Marie-Louise von Franz nos ensinou é uma forma de iniciação.
Já na aventura do deserto, A noite é o lugar mais tranquilo do mundo, a descrição da paisagem se torna mais detalhada, mais visionária, o narrador é um "eu" solitário cujo olhar reflecte como num espelho cada pormenor à sua volta - escorpiões e cobras deslizando na areia, oásis que se adivinham verdes e frescos, contrastes de vidas e formas: " assistimos ao morrer da luz do dia num apocalipse de fogos e sentimos o ruído da água, muito perto e muito longe. É que, caminhando no deserto, nunca se sabe se a origem da vida está muito perto ou se está muito longe. Os sons são indistintos. As sombras inexistentes. O vazio, total."
Se no conto anterior a estrutura é, a seu modo, desarticulada, para dar voz ao diálogo de Jal com a raposa amiga (evoquemos um pouco o Petit Prince, de Saint-Exupéry...) aqui são as cartas do deserto que desempenham o mesmo papel. Formas de recuperar a atenção, embalada pela prosa escorreita, de um leitor distraído. Nestas cartas surge o quotidiano, como o narrador nos diz, mas também a recuperação de memórias antigas,  recuando a gerações e gerações de idênticos caminhantes, de nomadismo fundador. Um eu que se funde num todo de evocações que só o silêncio permite. Deste silêncio e de uma noite sem igual se falará na quarta carta, a última, onde o dizer se esgota e a plenitude da comunhão com a música do universo é concedida: "Sim, a noite é o local mais tranquilo do mundo". 
Três crianças dão forma à aventura na floresta amazónica de Casa verde, o terceiro conto. A par da descrição, do detalhe, das rotinas a cargo das mulheres, aos homens incumbem outras, surge a magia secreta que só o feiticeiro guarda, como guardião que é do passado, do presente e do futuro. Descrito o lugar, os lugares, é na mão dele que se guarda o tempo que reina sobre todos os seres.
Viajando sob o azul intenso das águas , é o último conto. 
Se o que anotei aqui para os leitores despertou, como espero, interesse pelo livro, não ficarão desiludidos com a história de um golfinho-roaz avistado ao largo e conduzindo a narração para outros céus - há muitos céus - recorda a narradora/narrador, mas sobretudo para o fundo do mar, onde não se avista o céu mas o abismo, sempre o abismo, em sucessivas camadas sobrepostas, que permitem igualmente sonhar. O sonho é de um encontro, mas fico por aqui, está na hora de acordar...
Boa leitura!


Friday, June 20, 2014

Cristina Carvalho, Quatro Cantos do Mundo
ed. Planeta, 2014

Este recente livro de Cristina Carvalho, pelo título e em especial pelos Viajantes que evoca, em dedicatória, Roald Amundsen, o caminhante dos Pólos, David Livingston, o do deserto do Kalahari (e a célebre frase recuperada em filmes célebres: Dr. Livingstone I suppose? ), David Attenborough que me acompanhou a mim e já também à infância dos meus filhos, e ainda, last but not least, Jacques-Yves Cousteau, da exploração submarina, que o seu filho agora continua - dizia eu que este livro de Cristina, mal o abri, me remeteu para a minha própria infância/adolescência, no Porto, com o meu pai a dar-me a ler os livros de Rómulo de Carvalho, enquanto no colégio líamos Júlio Dinis. Com o meu pai foi sempre de História ( a grande) e a Ciência, e ao mesmo tempo os livros de banda desenhada daquele tempo, que se compravam nos quiosques: o Superhomem, a família Marvel, etc. Leituras de café para me entreter e ele poder falar à vontade com os amigos.
O que quero dizer? Que o ambiente de família, o pai com quem se fala, ou a mãe, mas este pai de Cristina era o Professor- cientista (mais tarde conheci toda a sua poesia, afinal era ainda poeta, com nome de António Gedeão) nesta família o que se viu, o que se leu, rasgou horizontes e paixões que perduram.
Neste caso, a aventura e a escrita. Da viagem da escrita, pelas palavras dentro...
Uma escrita de rigor, sobre a qual se pode fantasiar, criar e recriar mundos, que por serem mágicos mas verosímeis ( no bom sentido da definição de Aristóteles) se transformam em fonte de saber e de prazer.
Leio e cada página me empurra para a outra...São quatro histórias, cada qual no seu espaço/tempo peculiar, que Manuel San-Payo ilustrou.
À medida que leio penso que este seria um livro a incluir nas colecções do Secundário, de leitura obrigatória.
Dou o exemplo e para as minhas 5 netas mais crescidas já comprei para leitura de Verão. (Pôr apenas likes nos FB não ajuda a que se leia o livro, comprar é preciso, divulgar, em casa, à mesa, à noite gozando o ar livre também.
Ocorre-me que a qualidade de um autor, como neste caso de Cristina, se nota no cuidado (que é generoso, pois podia despachar o assunto como tantos outros fazem, sem se preocupar com o rigor da palavra) com que trabalhou em cada momento a fantasia própria do lugar pelo qual faz e dá a fazer a viagem. 
É o toque dos grandes que fundaram o realismo fantástico, como em Cem Anos de Solidão, ou Como Água para Chocolate!
Preenchem-nos a vida, nesse momento único da leitura.
E neste caso ainda, o remeter para Viajantes que a ela a fizeram viajar, como nos conta no Prefácio - sabendo que com o seu livro outra juventude, curiosa, viajará também. 
Eis-me de repente feliz e rejuvenescida, e ainda  não cheguei às profundezas do mar - esse mar de onde proveio a Vida, de que tantas vezes desmerecemos... 
Obrigado Cristina!

Sunday, June 08, 2014

Ana Luísa Amaral
ESCURO
Na poesia não há matérias proibidas, à imaginação do poeta tudo é permitido.
Dizia um antigo alquimista, Dorneus, que teve grande influência entre os seus pares, cito apenas Paracelso, que "a imaginação é a estrela no homem".
Assim era inscrita a criatura humana, o homem, num universo mais vasto, o conhecido e o desconhecido. As epígrafes iniciais (não iniciáticas, mas quase) desta última obra de Ana Luísa Amaral deixam indícios: de um místico poeta e profeta como William Blake, e de um santo, São João da Cruz, que lhe é anterior e cuja noite escura da alma foi longamente glosada ao longo dos séculos: pois toda a alma tem a sua luz e a sua escuridão, e há momentos em que apenas a escuridão, o veludo perverso do seu silêncio se conseguem sentir.
Paul Celan foi, recentemente, o mais exímio poeta da escuridão e do silêncio, face a um Universo que Deus terá criado sem se preocupar com o seu destino...
Este é o efeito de um bom livro: ao ser lido conduz-nos a tantas outras paragens...Para fechar este parêntesis, recordo uma frase transcrita por alguém no Facebook: 
Pergunta um colega a Einstein " o que é mais importante, o conhecimento ou a imaginação?" 
Responde o sábio, "a imaginação; o conhecimento leva-nos de A para B;a imaginação leva-nos de A para todo o lado".
Desta vez a imaginação levou Ana Luísa para uma travessia que a deixa entre Camões e Fernando Pessoa, os Lusíadas relidos, a Mensagem retocada, e no escuro das múltiplas viagens, dos sonhos, das utopias - uma nova proposta que não se abre à luz de nenhum caminho, antes se fecha na contemplação de um mundo, o actual, em que tantos egoísmos nacionalistas, tanto sofrimento e morte prevalecem.
Viveu-se outrora uma utopia? Vive-se hoje o puro desengano.
O fio condutor destes poemas, que os torna talvez menos poéticos do que se esperava e muito mais reflexivos e descritivos, é no fundo uma meditação da História: nossa e dos outros, já que na escuridão ou na luz do Universo tudo é uno.
Ninguém me levará a mal que cite apenas o início, foram esses os versos que me entusiasmaram, pois o início do CLARO-ESCURO nos fala "da mais pura alegria", a da infância ao amanhecer, numa aldeia que seria a de um Alberto Caeiro - mas ele nunca foi criança- amanhecer de luzes, de cheiros, de barulhos, a vida aberta para um mundo de escolhas, a luz no escuro de que se falará depois:

Ontem à noite e antes de dormir,
a mais pura alegria

de um céu

no meio do sono a escorregar, solene
a emoção     e a mais pura alegria
de um dia entre criança e quase grande  

e era na aldeia, acordar às seis e meia da manhã, 
os olhos nas portadas de madeira, o som
que elas faziam ao abrir, as portadas
num quarto que não era o meu, o cheiro
ausente em nome

mas era um cheiro
entre o mais fresco e a luz
a começar     era o calor do verão,
a mais pura alegria

um céu tão côr de sangue
que ainda hoje, ainda ontem antes de dormir,
as lágrimas me chegam como então, e de repente,
o sol como um incêndio largo
e o cheiro     as cores

Mas era estar ali, de pé, e jovem
e a morte era tão longe,
e não havia mortos nem o seu desfile,
só os vivos, os risos, o cheiro
a luz

era a vida, e o poder de escolher, 
ou assim o parecia:

a cama e as cascatas frescas dos lençóis
macios como estrangeiros chegando a país novo,
ouas portadas    abertas de madeira
e o incêndio     do céu

Foi isto ontem à noite,
este esplendôr no escuro e antes de dormir.
....

Fico por aqui, a continuação iria obrigar-me a uma viagem pelos tempos, antigos e presentes, roubados de emoção.

Friday, May 16, 2014


Mais Maios

Que mês é este
em que tantos nascem
tantos morrem
e tantos outros
nem uma coisa nem outra
apenas sofrem?

Wednesday, May 14, 2014


Na Morte de Vasco Graça Moura

Morrer é isso:
saber que também nós
teremos um poente
ao fim do dia
e no fim do poema
um ponto final no verso
da nossa vida

(Maio de 2014)

Sunday, May 11, 2014




Maios

São os Maios difíceis
são os Maios da Treva:
levam embora,
não trazem,
a Primavera

Sunday, May 04, 2014

No post anterior, a propósito da poesia juvenil de Fernando Pessoa, falei de um gosto de época.
A grande marca desse gosto, provém, na pintura, do exercício simbolista de um Alphonse Mucha, que surge em Paris a tempo de brilhar na Exposição Universal de 1900, com as sua figuras femininas embrulhadas em tecidos vistosos, coroadas de flores, inaugurando pelo estilo o que viria a chamar-se de Art Nouveau.
Com ele, igualmente importante, Gustav Klimt, inexcedível no brilho oriental dos seus dourados, o luxo da imagem, e num quadro tão celebrado como O Beijo a figuração do mito do andrógino.
Escrevi sobre Mucha na antiga Revista da ColóquioArtes, e sobre Klimt num dos números da Mealibra.
Tudo isto a propósito de Baudelaire, em cuja poesia encontramos por vezes o preciosismo do sonho e da utopia, da Viagem que transcende a  existência, como a do apelo de Mignon ao seu Mentor, em Wilhelm Meister, de Goethe.
Escolhi um poema talvez menos conhecido, "La Géante", um soneto de Spleen et Idéal, para o contraste com "The Giantess/ A Gigante", de Alexander Search, recuperando de novo a tradução de Luísa Freire.
O poema de Baudelaire evoca o tempo primordial da criação, em que a força ainda algo brutal da Natureza, Terra-Mãe, lhe permitiria a volúpia de viver com uma mulher gigante, cujo corpo florisse, tal como a sua alma, e lhe concedesse um sono preguiçoso, embalado à sombra dos seus enormes seios.
Ritmado e sensual, este é um poema de um panteísmo pagão, em que o Feminino é exaltado pelo poeta através deste seu cântico de uma terra antiga e habitada por populações gigantes, de formas moldadas como montanhas.
Deixo ao leitor o trabalho de procurar o poema, enquanto passo agora ao nosso jovem Pessoa.
Ele traça a figura grotesca de uma gigante que lhe desperta o riso porque tenta comer algo de tão grande e informe que não lhe cabe na boca. É visível aquela avidez que o perturba e, não se contendo,  leva a interpelar grosseiramente a gigante, que lhe responde entre lágrimas:

"Esta comida que, de grande, se esgueira
Sempre à minha boca já dorida
É a Beleza una e toda inteira." 

Nenhuma comparação, a não ser pelo título e pela dimensão da criatura descrita, se pode estabelecer aqui, que valha a pena.
Em Baudelaire a avidez é toda sensualidade, e é ânsia dele, poeta, de se fundir na Mãe-Natureza eterna.
Em Search/Pessoa a avidez é transposta para a Gigante, num desejo  de se apossar de uma Beleza que é do Todo e do Uno impossíveis de alcançar.
Mas lá está, continuando a ler Baudelaire, que poema encontramos antes do belo soneto da Gigante? Precisamente o soneto La Beauté que podemos traduzir por Beleza, e em que nos é dito como são puras miragens as visões dos poetas que a julgam possuir, amando--a eternamente.

Je suis belle, ô mortels! comme un rêve de pierre,
Et mon sein, où chacun s'est meurtri tour à tour,
Est fait pour inspirer au poète un amour
Eternel et muet ainsi que la matière.

Je trône dans l'azur comme un sphinx incompris;
J'unis un coeur de neige à la blancheur des cygnes;
Je hais le mouvement qui déplace les lignes,
Et jamais je ne pleure et jamais je ne ris.

Les poètes, devant mes grandes attitudes,
Que j'ai l'air d'emprunter aux plus fiers monuments,
Consumeront leurs jours en d'austères études;

Car j'ai, pour fasciner ces dociles amants,
De purs miroirs qui font toutes choses plus belles:
Mes yeux, mes larges yeux aux clartés éternelles!

Há na Beleza eterna uma geometria perfeita, irrepetível, que atrai e emudece. Tudo nela é miragem, reflexo, ilusão pura.
É difícil não acreditar que o nosso jovem Search não tenha andado perdido por aqui!
Eu andei e continuo a andar...


Saturday, May 03, 2014

O prometido é devido.
Escrevo na intenção de que um jovem brasileiro (e não só) que se interessou pela obra juvenil de Fernando Pessoa me acompanhe na ideia que defendo, de há muito: há que ler o que o jovem poeta lia, em inglês ou mais tarde, já de regresso a Lisboa, em francês ( pois a literatura francesa era a nossa influência dominante) para entender melhor alguns dos temas, algumas das ideias que dominam a sua produção.
Exemplo: o poema da mão, datado de 1906.
To a Hand / Aquela Mão, na belíssima tradução de Luísa Freire, pede quem sabe, que se leia, de Rilke, Os Cadernos de Malte Laurids Brigge (1910) e as páginas em que ele descreve como se encheu de coragem para falar da mão que na sua infância o aterrorizava a ponto de quase não se atrever a entrar no quarto, a deitar-se na cama, para dormir sossegado. Não se tratava de um sonho, mas de uma visão fantasmagórica, uma alucinação perturbadora.
Não houve, é claro, não podia haver, dada a diferença das datas do poema e dos Cadernos uma influência directa.
Mas o que há, e é isso que torna a literatura comparada tão interesante, é um tom de época, transversal nos temas, nos motivos, nos símbolos como são vividos na escrita de uns e outros.
Neste caso que me ocorreu (tenho estado a reler Rilke) a imagem da mão aterradora, parece-me ser importante o pavor que ela causa, o medo descrito por Pessoa como por Rilke.
O medo era grande, o medo era enorme, e por via da imagem dessa mão era do medo da morte que Rilke nos falava, como Pessoa jovem neste longo poema nos fala do medo de simplesmente existir, ou melhor da consciência do existir. Já se desenha, na sua poesia juvenil, este jogo de opostos entre o ser e o existir, e a consciência dolorosa de um e outro destes estados.
Pois o que faz a mão? Aponta um caminho, aponta um destino, ou toca-nos e o seu toque torna-se fatal, mata, como um punhal brutalmente também nos mataria, apenas porque podemos ver nela o toque de um criador primordial, e através desse toque vir a cair num abismo, a treva de que não mais se sairá.
Pessoa cultiva, como Rilke, e antes deles Baudelaire, uma espécie de simbolismo esotérico, perturbador, que obriga a releituras constantes.
Numa obra  que tive o privilégio de partilhar com Stephen Reckert, Fernando Pessoa. tempo. solidão. hermetismo (1978) pude alertar para a importância do espólio e da sua biblioteca pessoal. Nos ensaios de Reckert já se fazia o estudo de um topos de raiz baudelaireana retomado por Alexander Search o jovem heterónimo inglês agora profusamente conhecido:
"A Passante e o futuro do Passado;
"Alexander Search, entre o Sono e o Sonho".
 Dois estudos que nada perderam da sua actualidade e que urge, quem sabe on-line, caminhando para o futuro que algum editor se disponha a dar a conhecer deste novo modo. Não vou transcrever aqui, por serem longos, mas deixo os títulos dos poemas de que se ocupou Reckert e estão incluídos no apêndice textual : In the Street, e The Maiden. Poderão ser lidos nas traduções de Luísa Freire.
Quanto a mim, nessa obra, optei por sublinhar as marcas do simbolismo alquímico, num caso, e das leituras herméticas e teosóficas na moda, com A.E.Waite e H.P.Blavatsky, ou Annie Besant:
"Fragmentação e Totalidade em Chuva Oblíqua" ;
"Episódios/A Múmia, poema-chave para o estudo do hermetismo em Fernando Pessoa";
"O espólio e a biblioteca de Fernando Pessoa:uma solução para alguns enigmas".
Nos anexos incluí , de A.Search, Nirvâna, e The Circle - que também podem ser lidos hoje em dia nas traduções de L.Freire.
A curiosidade intelectual, o estudo dos grandes temas da religião, da cultura e das civilizações, para além da inquietante busca da verdade do ser e da existência, caracterizam esta produção juvenil, imperfeita na forma, mas já densa na interpelação de uma Verdade Maior, que sempre lhe escapará.
Se tivesse de escolher dois autores que ao longo do tempo, e desde cedo, fossem alimentando o seu mundo imaginal, escolheria Goethe, com o Fausto e Shakespeare sobretudo com The Tempest : não escapou ao nosso poeta a dimensão do conhecimento hermético, mágico e alquímico destes dois grandes génios da cultura universal. Com os fragmentos do seu Fausto, quis Pessoa desafiar, ou mesmo completar, a obra do antecessor. E no poema Canção de Próspero (Song of Prospero no original de Search) incluído na edição de Luísa Freire, temos a prova de que o dramaturgo era lido, e que com ele o jovem Search dialogava treinando a mão e o ritmo de poeta. Encontramos no acto V da peça os versos da inspiração.
Mas deixo aqui para facilitar a vida ao estudioso a tradução de Luísa Freire, do poema de Search:
A Canção de Próspero
Minha vara partida no fundo enterrada
Para sempre vai ficar;
Mais fundo que nunca o prumo soou,
Afundarei meu livro no mar.
O encanto de Próspero desapareceu,
Arte e magia tudo morreu,
Mortos e jazendo no fundo do mar.

Nunca mais ligados a mim
Os alegres espíritos do ar,
O que os chamava vinha daí,
E está afundado no cavo mar.
Embora não veja da luta um renovo,
Desejo contudo esta vida de novo,
Jazendo para sempre no fundo do mar".

Sabendo que traduzir nunca é fácil, e pior ainda quando se procuram ritmo e rima, perdoaremos aqui uma ou outra coisa que talvez tivéssemos, ao traduzir, resolvido de modo diferente. Isso em nada diminui a obra e o mérito desta tradutora, que tanto neste primeiro volume como no segundo cobre os anos até 1910. Foi-lhe muito bem atribuído o Grande Prémio de Tradução da APE e do Pen Club, em 1996.
Na verdade os anos passam, e com eles a memória do que foi feito outrora, sem grandes apoios, mas com grande paixão.







Thursday, May 01, 2014

Maios




1 de Maio

Na Praça da Figueira
a florista trabalha:
o que seria o Maio
sem as suas flores
sem o seu sorriso
sem as suas dores?

Sunday, March 16, 2014

Editado pela Abysmo de João Paulo Cotrim, mais um belo livro de poesia, Ritornelos, de Joana Emídio Marques.
Edição muito cuidada, bom papel, letra bem escolhida pensando em leitores de maior idade, aqueles que como eu já não lêem as letras invisíveis tão na moda.
Texto ilustrado, com desenhos que ora acompanham ora separam os três conjuntos contidos sob um mesmo título, que já de si encerra alguma dimensão simbólica. Não irei a Deleuze, até porque vejo a repetição de outro modo, vejo-a como ampliação, ou como aprofundamento que se vai intensificando à medida que se lê.
E agora não resisto a uma queixa: não tenho Índice que me facilite a vida, tenho de desfolhar para chegar aos outros conjuntos que se seguem aos Ritornelos! São eles Cânticos da Floresta e Litanias.
E aproveito ainda para dizer que tratando-se de uma voz nova e inédita, julgo, e de uma ilustradora igualmente jovem e inédita, julgo (posso estar enganada, já não sigo tudo e todos como antigamente) - então gostaria de poder ler algo mais sobre os seus percursos, ou em discretas badanas ou na contracapa.
É uma grande ajuda a um leitor.
Mas vamos aos poemas, que li de seguida, de um fôlego, por me surgirem tão diferentes do que hoje em dia se produz.
Não são poemas de quotidiano descrito, vivido, mas banal (os quotidianos poéticos são hoje em dia todos tão parecidos...) também não exprimem em confissão por vezes involuntária estados emocionais que Rilke julgaria serem apenas e mal expressão incipiente de algum amor passsageiro e desmerecedor do genuíno esforço poético.
Porque a poesia exige esforço, feito de contenção, e isso falta por vezes na quantidade produzida para o mercado. 
Há toda uma nova geração de escritoras que se têm afirmado, mais talvez na prosa de ficção do que na poesia, e que considero muito inovadoras, pela linguagem, finalmente directa e aberta, nos temas e nas estruturas que os suportam.
Na poesia, deixando de parte a minha geração - anos sessenta - que foi na época muito marcante, original, e procurando os desafios que já vinham dos surrealistas e se misturavam com uma enorme ânsia de libertação (vivia-se em Ditadura, política, religiosa, moral, sexual) foi mais devagar que vi surgirem por aqui as vozes femininas de novas gerações, com Adília Lopes, Ana Luísa Amaral, entre tantas outras.
E eis-me agora com uma novíssima geração e estes Ritornelos.
Leio e reencontro alguma vocabulário, algumas imagens fortes que buscam no suporte dos elementos terra, água, fogo, céu, o ponto de referência para conceitos mais abstractos e mais elaborados. 
Escolhe-se a rocha, como um Guillevic, poeta bretão que poucos terão lido, e da rocha e sua firme dureza, se fazem nascer as flores sonhadas de algum desejo que algum Anjo ainda pode guardar. Transporta-se a emoção da terra para um céu inatingível, pois bem sabemos que essas flores, pelo caminho murcham...O poema 15, de dimensão mítica, evocando as "filhas entardecentes", vozes de um poente, de um ocaso que apaga o dizer das vozes é a expressão dessa impossibilidade adivinhada (p.37).
Compraz-se a autora frequentemente numa desarticulação vocabular que aponta para a desarticulação de um eu a caminho de ser, desejo de ser numa totalidade outra que interpela, que poderia ser divina se Deus alguma vez desse resposta. Uma ou outra referência bíblica (no poema 40, p.87) não resolve o apelo, não aumenta a dimensão, e no espaço vazio nenhuma voz se ouve.
Nos Cânticos da Floresta e nas Litanias o discurso torna-se mais denso, mais elaborado, por vezes com um ou outro preciosismo que me remete para uma poética hermética bem conhecida, a de Paul Celan, cujo imaginário é atravessado por despedidas cruéis, silêncios absolutos, aspirações todas de sofrimento irreprimível, insónias em que vagueiam mortos, os de outrora, os de agora, os de sempre.
Não posso deixar melhor elogio do que este, em que Joana diz mover-se "junto à quietude de uma memória" (p.171) : não importa se de alguém em especial, de um amor que passou, do Sopro de um Deus nunca manifestado, - essa quietude é a que forja o poema, no seu distanciamento.
Paul Celan teria apreciado.